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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A ética de um capitalismo selvagem: a corrupção das Americanas


Leonardo Boff 


                         

O rombo bilionário, acumulado durante anos da gigante varejista das Lojas Americanas de 20 bilhões de reais, acrecido com as dívidas de 43 bilhões de reais tem muitas facetas. A mais explícita e vergonhosa é qualificar a corrupção que se esconde atrás destes números é o eufemismo “inconsistências contábeis”. O mercado sempre sensível a qualquer pequeno movimento que favoreça os desposuídos pelo Estado de viés social, logo reage criticamente. Face a esses bilhões não mostrou nenhum movimento. Claro, trata-se da cumplicidade das mesmas máfias financeiras, especialmente, as especulativas que ganham sem produzir nada.

Os nomes dos principais “sócios referenciais”(os reais donos) são os conhecidos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sucupira que com outros bens que prossuem como Burguer King, Kraft Heins e particularmente o controle do mercado cervejeiro com a InBev alcançam 185 bilhões de reais.

Na nota publicada pelo trio n dia 11 de janeiro de 2023 se eximem de qualquer conhecimento, fazendo dos leitores que conhecem como funciona o capitalismo brasileiro, de otários.

Não me cabe aprofundar esta questão, feita por especialistas. Atenho-me ao que me cabe como professor de ética e teologia por muitos anos.

O que aqui ocorreu confirma o que o saudoso Darcy Ribeiro frequentemente afirmava: o capitalismo brasileiro nunca foi civilizado, é um dos mais selvagens do mundo e profundamente egoista e individualista. Isto nos faz remete ao que o amigo do  Brasil (sua esposa é brasileira),um dos maiores pensadores da atualidade,o filósofo e linguista Noam Chomsky disse com tristeza:”nunca vi em minha vida uma porção da elite brasileira ter tanto desprezo e ódio aos negros e as pobres da periferia”.Isso o confirma em sua vasta obra o sociólogo Jessé Souza, especialmente no clássico A eleite do atraso: esta elite marginalizou vergonhosamente grande parte da população pobre e negra,negou-lhes direitos,desconheceu que são humanos como eles e filhos e filhas de Deus. Quando se levantaram, foram logo reprimidos e até assassinados.

Numa outra passagem enfatiza Noam Chomsky o que nos faz entender nossos corruptos (especialmente o trio, sempre sorridente):” A ideia básica que atravessa a história moderna e o liberalismo moderno é a de que o público dever marginalizado. O público, em geral, é visto como nada além de excluídos ignorantes que interferem como o gado desorientado”. O que interessa ao capitalismo ter consumidores e não cidadãos.Não ama as pessoas apenas sua força de trabalho e a eventual capacidade de consumir.

Já Aristóteles, um dos pais da ética ocidental, dizia que o primeiro sinal da falta de ética é a “falta de vergonha”. Etimologicamente vergonha vem do latim vereor que significa respeito, temor reverencial. Quando falta esse valor de respeito e reverência face ao semelhante, está aberta a porta a qualquer tipo de vergonhice.

Os corruptos dos 20 bilhõe das Americanas não mostram a menor vergonha: mostram-se benfeitores da sociedade, apoiando algumas pessoas (as mais dotadas) para estudarem nas melhores universidades do mundo (ex.Harvard), para serem educados no espírito do capitalismo e levarem avante seus projetos.  Não se trata, com é o caso de muitas universidades norte-americanas que são apoiadas por grandes corporações que favorecem sua manutenção e a pesquisa. Os nosssos opulentos  praticam apenas ajudas pontuais a pessoas distinguidas e não ajudam os grandes projetos educacionais que beneficiam a nação inteira a façam avançar rumo ao conhecimento e à autonomia.

O mais doloroso, no entanto, é a absoluta falta de sensibilidde da elite do atraso (que  no dizer de nosso maior historiador mulato Capistrano de Abreu “capou e recapou,sangrou e ressagrou” a população que saía do regime colonial, mas mantinha a escravidão).

Essa ausência culposa de sensibilidade foi denunciada frequentemente por um dos mais beneméritos brasileiros dos projetos contra a fome, pela vida e pela democracia o sempre recordado Betinho:

”O nosso problema maior não é econômico, não é o político, não é o ideológico nem é o religioso. O nosso problema maior é  falta de sensibilidade pelo nosso semelhante que está ao nosso lado”. Não ouvimos seu grito de dor, não vemos a mão estendida esperando um pouco de comida, sequer vemos seus olhos suplicantes. Passamos ao largo do caído à beira da estrada, como biblicamente fizeram o levita e o sacerdote na parábola do bom samaritano. Foi preciso que um desprezado hereje samaritano interrompesse sua viagem,curasse suas feridas e o tivesse levado ao sanatório, deixando tudo pago e se mais precisasse pagaria na volta. Quem é aqui o próximo, indagava o Mestre: é aquele de quem eu me aproximo,não reparando sua condição moral, sua religião, sua cor. É um irmão ferido que precisa de outro irmão para socorrê-lo.

No Brasil, os cristãos são apenas cristãos culturais que não aprenderam nada do Jesus histórico que estava sempre do lado da vida, do pobre, do cego, do coxo e do desprezado.Por isso há tanta desigualdade social, das maiores do  mundo. Porque falta sensibilidade, solidariedade, sentido humano, o de tratar humanamente outro humano, seu irmão e irmã.

O trio bilionário e os 318 milionários (segundo a revista Forbes) não ouvem o clamor que vem das grandes periferias, dos indígenas sendo dizimados por alguns do agronegócio como em Dourados-MT e aos milhares de yanomami, violentados pelo garimpo ilegal e a quem oficialmente por parte do governo genocida se negou água,vacinas,assistência média e nutrição básica.

 No caso do Brasil, mas vale para grande parte da humanidade, faltou ética e faltou moral. Faltou ética se entendemos por ética a promoção da uma vida boa e decente para todos. Faltou moral se entendermos por moral a observância das normas e leis que a sociedade estabeleceu para si mesma para garantir uma vida boa boa e decente.

Ora faltou ética e moral nos causadores do rombo milionário das Americanas. Não sabiam dos 33 milhões de famintos em nosso pais e dos mais de cem milhões com insuficiência nutricional. Se tivessem um mínimo de sensibilidade ética e moral secundariam com suas fortunas a diminuir esta tragédia humana.E assim continuamos com a selvageria de nossa cultura capitalista que através do mercado tenta controlar a economia do país,especialmente se esta for direcionado para os que mais precisam.

Recordo a clássica frase do filósofo Heráclito (500 aC) que bem disse: “o ethos é o anjo bom do ser humano”. Entre nós o ethos se mostrou demoníaco.

Leonardo Boff, filósofo e  teólogo e escreveu,Etica da vida, Record 2009; Ética e moral: a busca dos fundamentos. Vozes 2003.

 

terça-feira, 1 de março de 2022

A Ética das relações na comunidade do Evangelho

 Marcelo Barros 


 

Neste VIII domingo do tempo comum, (ano C) o texto do evangelho lido nas comunidades conclui as palavras de Jesus no discurso da planície. Esta palavra conclui com uma orientação para as pessoas que têm função de “guias” das comunidades. Esse texto do evangelho é construído sobre sentenças que Jesus teria dito aqui e acolá, certamente, em contextos diferentes e que o evangelho uniu em um só discurso. Juntou uma sentença de Jesus a outra através de “palavras-chaves” como medida (v 38), olho (v 39), árvore (v 43- 44), boca, casa e assim por diante. O importante é a prática. A Ética se verifica em seus frutos (Cf. Tg 3, 12; Lc 13, 6- 9). Esse é um ensinamento judaico, presente nos livros sapienciais, nos quais a pessoa justa é comparada a uma árvore que dá muito fruto e é irrigada pelas águas divinas (Cf. Salmo 1; 92, 13- 14; Ct 2, 1- 3; Ecli 24, 12- 27). 

Talvez, em uma redação primitiva, este texto do evangelho de hoje fazia parte de uma espécie de “diretório” ou de “carta de orientações” que as comunidades cristãs elaboraram para pessoas que vinham de outras religiões e costumes querendo ser da comunidade. São orientações éticas e não doutrinais. Nessas normas de Jesus, a preocupação é a ética da relação entre as pessoas que integram a comunidade, principalmente a Ética de quem tem função de coordenação ou animação do grupo.

Conforme o evangelho de Mateus, Jesus chama de cegos os fariseus e escribas do templo de Jerusalém. Chama-os de “guias cegos”. Lucas aplica essa palavra aos próprios discípulos e principalmente aos ministros das comunidades. Até hoje, corremos o risco de achar que cegos são sempre os outros e não nós mesmos.

Quase todas as tradições espirituais consideram que uma base importante para a espiritualidade é o conhecimento de si mesmo. Segundo o evangelho de Tomé, (texto cristão do século II), Jesus disse: “Quem conhece todas as coisas, mas não conhece a si mesmo, de fato, não conhece nada” (n. 67). Essa é uma afirmação radical e corajosa. Santa Tereza de Ávila afirmava que “um dia de humilde conhecimento de si mesmo é melhor do que mil dias de oração”. Na Idade Média, o Mestre Eckhart declarava: “Não se pode conhecer a Deus se antes não se conhece a si mesmo”[1].

Quem trabalha por justiça social e quem se empenha em transformar o mundo não pode ignorar este aspecto mais pessoal da transformação. O Mahatma Gandhi, em meio a toda a sua luta não violenta contra o colonialismo e pela independência da Índia, afirmava: “Comece por você mesmo/a a transformação que quer para o mundo”.

De outro modo, Jesus diz a mesma coisa: “Primeiramente tire a trave que está no seu olho para poder tirar a palha que está no olho do seu irmão”. É uma questão de honestidade pessoal. Todo mundo tem problemas e limitações. Jesus pede que procuremos ser coerentes e não exijamos dos outros o que nós mesmos não cumprimos. Isso seria hipocrisia, falsidade. Hipócrita é quem pretende ser o que não é.

Nessas palavras do evangelho, Jesus vai direto ao ponto fundamental: todos nós temos alguns pontos cegos. Carregamos intimamente aspectos, sentimentos e tendências que nem sempre conseguimos ver com clareza e, por isso, não somos honestos e lúcidos com relação a aquilo. Exigimos dos outros o que nós mesmos não cumprimos. É importante procurar clarear esses pontos.

Se alguém pensa que tem clareza total sobre si mesmo, é duplamente cego porque é cego até em relação à própria cegueira. É o pior cego: que não vê e pensa que está vendo. No evangelho de João, no episódio do cego de nascença, ao falar dos fariseus, Jesus diz que se eles assumissem sua própria cegueira, não teriam culpa, mas como se vangloriam de ver bem, então sua cegueira se torna culpada (Cf. Jo 9, 39- 41).

Comecemos por nós mesmos, cada um procurando mudar o próprio coração e depois poderemos pedir mudanças aos outros. O modelo é o mestre Jesus: “Por que me chamais “Senhor, Senhor” e não fazeis o que eu digo?”. E aí fica claro que cumprir sua palavra é construir sua casa (tanto a casa interior: o mais profundo da gente mesmo, como social, a comunidade nova) sobre a rocha que é a Palavra de Deus.

 Na maioria das tradições espirituais, a espiritualidade é a busca da veracidade interior e a luta permanente para evoluir a partir da nossa realidade pessoal, seja ela qual for. Atualmente, esse é o desafio da educação, é o desafio na atividade política, é o desafio nas Igrejas e religiões. O evangelho de hoje contém a boa notícia de que é sempre possível retomarmos o caminho da unificação interior e da busca de maior coerência. No mundo inteiro, a Igreja Católica se depara com escândalos nos meios clericais: escândalos morais como a pedofilia praticada por ministros, na maioria das vezes, extremamente arrogantes, homofóbicos e severos com os pecados dos outros. Também com escândalos econômicos que atingem o próprio Vaticano. E se levantássemos o escândalo da desumanidade que ainda vigora em certas formas de tratar os outros nos conventos e nos ambientes do clero? Para Jesus, um dos maiores escândalos era o fato dos seus discípulos competirem entre si por poder e prestígio. Se a boa notícia do evangelho de hoje é que podemos sempre retomar o caminho da conversão evangélica, o chamado é para que aproveitemos a Quaresma e a preparação para a Páscoa que começaremos nesta próxima quarta-feira, como tempo de reeducação de nós mesmos para vivermos o que Jesus nos propõe.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 



[1] - M. ECKHART, Meister Eckhart: Sermons and Treatises, 3 vol. coordenados por MAURICE WALSHE, Element Books, Shaftesbury, 1979,  sermão 46, pp. 20.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

ÉTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA


Por Frei Betto

 

            A pandemia causada pelo coronavírus veio nivelar a humanidade. E suscitar sérias questões éticas. Não faz distinção de classe, como a anemia e o raquitismo, que resultam da fome; ou de gênero, como as doenças da próstata.

            Trata-se, agora, de enfrentar um inimigo invisível que exige urgente mobilização global para deter o seu avanço. E é em momentos de crise como este que as pessoas se revelam.

            A questão ética fundamental que a pandemia levanta é quanto ao valor da vida humana. Para o capitalismo, em si tem valor zero, a menos que revestida de adereços com valor de mercado e robustecida por bens patrimoniais e financeiros. Prova disso é o descaso humano em nossas cidades, cujas calçadas se enchem de pessoas maltrapilhas que sobrevivem da caridade alheia. Não têm valor nenhum e, ao cruzar com elas, muitos evitam se aproximar, receiam o mau cheiro e o assédio. 

            Suponhamos que um deles ganhe uma fortuna na loteria e, pouco depois, apareça a bordo de um reluzente Mercedes Benz. Imediatamente passará a ter valor social e ser reverenciado pelo respeito e pela inveja de quem o observa. Portanto, eis o patamar antiético ao qual o sistema capitalista nos conduz: valemos pelo que portamos e não pelo simples fato de sermos humanos.

            Agora, o espectro da morte nos nivela. A devastação letal provocada ocupa praticamente todo o noticiário. Somos todos obrigados a redimensionar nossos critérios, valores e hábitos. Até as nações mais ricas descobrem que o dinheiro não é suficiente para evitar a pandemia. Só a ciência é capaz de detê-la, mas andava muito ocupada em descobrir, nos laboratórios, como aumentar os lucros das empresas farmacêuticas, enquanto faltavam recursos para combater a fome e o aquecimento global.

            A Itália nos mostrou como a pandemia coloca sérios dilemas éticos. Médicos e enfermeiros tiveram que optar entre um e outro paciente, devido à falta de recursos suficientes. E nossos parentes e amigos infectados devem padecer sozinhos nos hospitais, sem que possamos consolá-los, exceto pelo celular quando ainda não entraram no respiradouro. 

           Os falecidos, não temos direito de pranteá-los no velório e nem mesmo cumprir seus últimos desejos, como ser enterrados ou cremados com tal roupa ou símbolo religioso. Como se fossem anônimos, são descartados tal como ocorria na Idade Média com os infectados pela peste. Estão proibidos de rituais fúnebres. Assim, o Covid-19 rouba-lhes a dignidade. E nos apunhala ao nos obrigar a ficar afastados de quem somos mais próximos. É uma tríplice morte: a individual, do paciente; a familiar, dos ausentes; a social, causada pela interdição de velório, enterro e culto religioso.

            Outra dimensão ética suscitada pela pandemia é o conflito entre solidariedade e competitividade. Todos conhecemos gestos meritórios de solidariedade visando a aplacar o nosso isolamento e favorecer o socorro às vítimas, como o da jovem do apartamento 404 que, todos os dias, prepara a refeição da idosa do 302, obrigada a dispensar a cozinheira; o empresário que distribui quentinhas aos moradores das ruas de sua vizinhança; o universitário que se apresentou como voluntário em um hospital disposto a carregar macas e limpar enfermos. Ou como o do bombeiro carioca Elielson dos Santos que, do topo da escada Magirus, oferece músicas com seu trompete a moradores do Rio. 

            Há que ressaltar também a solidariedade entre países que enviaram recursos a outros povos, especialmente Cuba, que deslocou centenas de médicos para reforçar o socorro na Itália, na Espanha, na França e em muitos outros países.

            No entanto, falou mais alto a competitividade, valor supremo do capitalismo. O chinês Jack Ma, fundador da plataforma de vendas online Alibaba e um dos homens mais ricos do mundo, ofereceu gratuitamente kits de testes para diagnosticar Covid-19 e respiradores a 50 países, inclusive Cuba. Porém, a transportadora aérea era de bandeira usamericana, e a Casa Branca, desprovida do mínimo senso humanitário, valeu-se do genocida bloqueio imposto à ilha do Caribe para impedir que a carga chegasse a seu destino. 

            Em nome de caprichos políticos, sacrifica-se a vida de nações. Algo semelhante ocorreu com o governo da Bahia, que comprou equipamentos da China no valor de R$ 42 milhões. Ao passar de navio pelos EUA, a encomenda foi apropriada pelo governo da nação imperial.

            As implicações éticas suscitadas pela pandemia se assemelham às de situações de guerra. O governo Bolsonaro, monitorado pelo FMI, havia aplicado ao Brasil rigoroso ajuste fiscal coroado pelo teto de gastos e os juros elevados. Desde a posse alegava não ter dinheiro e precisar promover reformas, como a da Previdência, para poupar recursos. 

            Dinheiro nunca falta quando se trata de pagar os juros da dívida pública e saciar o voraz apetite dos bancos. Desde que assumiu o Ministério da Economia, Guedes transferiu para os bancos R$ 433 bilhões, dinheiro do povo sonegado da educação, da saúde, do saneamento etc. O que vale mais, o lucro dos bancos ou a vida de milhões de brasileiros? 

            O combate à pandemia exigiu medidas urgentes e, como por milagre, apareceu R$ 1,3 trilhão! Recursos há, mas não vontade política de quem qualificou a pandemia de “gripezinha” e demonstrou não se importar com a morte em proporções geométricas.

            Deixo à nossa reflexão o poema “Esperanza”, do cubano Alexis Valdés:

 

Cuando la tormenta pase

Y se amansen los caminos

y seamos sobrevivientes

de un naufragio colectivo.

 

Con el corazón lloroso

y el destino bendecido

nos sentiremos dichosos

tan sólo por estar vivos.

 

Y le daremos un abrazo

al primer desconocido

y alabaremos la suerte

de conservar un amigo.

 

Y entonces recordaremos

todo aquello que perdimos

y de una vez aprenderemos

todo lo que no aprendimos.

 

Ya no tendremos envidia

pues todos habrán sufrido.

Ya no tendremos desidia

Seremos más compasivos.

 

Valdrá más lo que es de todos

Que lo jamás conseguido

Seremos más generosos

Y mucho más comprometidos

 

Entenderemos lo frágil

que significa estar vivos

Sudaremos empatía

por quien está y quien se ha ido.

 

Extrañaremos al viejo

que pedía un peso en el mercado,

que no supimos su nombre

y siempre estuvo a tu lado.

 

Y quizás el viejo pobre

era tu Dios disfrazado.

Nunca preguntaste el nombre

porque estabas apurado.

 

Y todo será un milagro

y todo será un legado

y se respetará la vida,

la vida que hemos ganado.

 

Cuando la tormenta pase

te pido Dios, apenado,

que nos devuelvas mejores,

como nos habías soñado.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

ÉTICA E ESPIRITUALIDADE FACE AOS DESASTRES ECOLÓGICOS ATUAIS



por leonardo boff

As grandes chuvas com inundações desastrosas que afetaram muitas cidades do Brasil e paralelamente os incêndios fenomenais na Austrália, seguidos imediatamente de inesperadas inundações, constituem sinais inequívocos da Terra de que nela algumas mudanças importantes estão ocorrendo. É praticamente consenso de que estas mudanças para pior se devem à ação irresponsável dos seres humanos (a era do antropoceno) em sua relação para com a natureza e para com a totalidade do planeta Terra.
Os vários grupos de cientistas que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que sustentam a vida (água, solos, ar puro, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar? O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial. Chegaremos até dezembro? Se teimarmos em manter o consumo atual, temos que aplicar violência contra a Terra forçando-a a dar o que já não tem ou não pode repor. Sua reação a esta violência se expressa pelo aquecimento global, pelas enchentes, pelas grandes nevascas, pela perda da biodiversidade, pela desertificação, pelo aumento do dióxido de carbono e do metano e pelo crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.
Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e para com a natureza ou segundo S. Bauman,“engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.Desta vez não dispomos de uma Arca de Noé salvadora.
Não temos outra alternativa senão mudarmos.Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito mas não tudo: ela detém os ventos, segura as chuvas, limita o aumento dos oceanos? Não basta diminuir a dose e continuar com o mesmo veneno ou apenas limar os dentes do lobo. A mudança demanda atender a alguns dos seguintes marcos fundamentais.
Primeiro: uma visão espiritual do mundo. Isso não tem a ver com a religiosidade, mas com uma nova sensibilidade e um novo espírito de renúncia à uma relação violenta e meramente utilitarista da natureza. Há que se reconhecer que ela tem um valor em si mesmo, somos parte dela e que há de ser cuidada e respeitada como algo sagrado. Nisso consiste a nova sensibilidade e espiritualidade.
Segundo: resgatar o coração, o afeto, a empatia e a compaixão. Esta dimensão foi descurada em nome da objetividade da tecno-ciência. Mas nela se aninha o amor, a sensibilidade para com os outros, a ética dos valores e a dimensão espiritual. Porque não se dá lugar ao afeto e ao coração não há porquê respeitar a natureza e escutar as mensagens que ela nos está enviando com as enchentes e o aquecimento global. A tecno-ciência operou uma espécie de lobotomia nos seres humanos que já não sentem seus clamores. Imaginam ser a Terra um simples baú de recursos infinitos a serviço de um projeto de um enriquecimento infinito. Temos que mudar de paradigma: de uma sociedade industrialista que exaure a natureza para uma sociedade de conservação e cuidado de toda a vida.
Terceiro: tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução. Ou cuidamos do que restou da natureza e regeneramos o que temos devastado,como o MST que se propôs neste ano plantar um milhão de árvores nas áreas depredadas pelo agronegócio, ou então nosso tipo de sociedade terá dias contados. A precaução exige que não se coloquem atos nem se usem elementos cujas consequências não podemos controlar. Ademais, a filosofia antiga e moderna já viu que o cuidado é a pré-condição para que surja qualquer ser. É também o norteador antecipado de toda ação. Se a vida, também a nossa, não for cuidada, adoece e morre. A prevenção e o cuidado são decisivos no campo da nanotecnologia e da inteligência artificial autônoma. Esta, sem sabermos, pode tomar decisões e penetrar em arsenais nucleares e pôr fim à nossa civilização.
Quarto: o respeito a todo ser. Cada ser tem valor intrínseco e tem seu lugar no conjunto dos seres.Mesmo o menor deles revela algo do mistério do mundo e do Criador. O respeito impõe limites à voracidade de nosso sistema depredador e consumista. Quem melhor formulou uma ética do respeito foi o médico e pensador Albert Schweitzer (+1965). Ensinava: ética é a responsabilidade e o respeito ilimitado por tudo o que existe e vive. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância,urgente no mundo e entre nós, sob o governo de extrema-direita que nutre desprezo aos negros, índígenas, quilombolas, LGBT e às mulheres.
Quinto: atitude de solidariedade e de cooperação. Esta é a lei básica do universo e dos processos orgânicos. Todas as energias e todos os seres cooperam uns com os outros para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. O propósito da evolução não é conceder a vitória ao mais adaptável mas permitir que cada ser, mesmo o mais frágil, possa expressar virtualidades que emergem daquela Energia de Fundo que tudo sustenta, da qual tudo saiu e para qual tudo volta. Hoje, devido à degradação geral das relações humanas e naturais devemos, como projeto de vida, ser conscientemente solidários e cooperativos. Caso contrário, não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro promissor para a Humanidade. O sistema econômico e o mercado não se fundam na cooperação mas na competição, a mais desenfreada. Por isso criam tantas desigualdade a ponto de 1% da humanidade possuir o equivalente aos 99% restantes.
Sexto: fundamental é a responsabilidade coletiva. Ser responsável é dar-se conta das consequências de nossos atos. Hoje. construimos o princípio da auto-destruição. O ditame categórico é então: aja de forma tão responsável que as consequências de tua ação não sejam destrutivas para a vida e seu futuro e não ativem a auto-destruição.
Sétimo: colocar todos os esforços na consecução de uma bio-civilização centrada na vida e na Terra. O tempo das nações já passou. Agora é o tempo da construção e da salvaguarda do destino comum Terra e Humanidade. Sua realização não se fará sem pormos em ação os marcos acima elencados.
Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2019.


terça-feira, 7 de maio de 2019

MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM UMA SOCIEDADE ÉTICA




Por Marcelo Barros

Vivemos em uma sociedade de comunicação rápida, na qual o celular, a internet e as redes sociais nos ligam, instantaneamente, ao mundo inteiro. Há pouco mais de 30 anos, em termos de comunicação, a realidade era totalmente diferente. De lá para cá, o mundo viveu uma transformação que, em milênios, não conheceu. Novos meios de comunicação plasmaram uma nova cultura social e deram mais agilidade e eficiência aos meios de comunicação clássicos como a imprensa, o rádio e a televisão. 

Atualmente, os novos meios virtuais formam a opinião pública e, junto com os veículos tradicionais têm poder imenso. Estudos revelam que notícias postas na internet, falsas, ou apenas com algum fundo de verdade,  influem no resultado de eleições e decidem a Política de povos e continentes. Por isso, em todos os países, a função dos meios de comunicação social tem sido tema de reflexão e debates.

A ONU considera o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. É sempre importante se perguntar de qual liberdade falamos e para que. Sem dúvida, a liberdade é fundamental, mas deveria haver liberdade para semear ódio e violência? É justo que os meios de comunicação, nas mãos das pessoas mais ricas do país, tenham liberdade de mentir e propagar notícias falsas desde que favoreçam os interesses da elite que domina o país? Como criar uma reação democrática, popular e que não seja na direção da censura e sim da crítica?

Atualmente, em muitos casos, os proprietários das grandes empresas de comunicação e agências internacionais de notícias são os mesmos acionistas dos conglomerados de petróleo e das indústrias de armamento a serem vendidos nas guerras que a imprensa estimula.

Quem acompanha os noticiários no Brasil sabe como a maioria deles privilegia a violência. Confundem a missão de informar com o trabalho de explorar ao máximo os crimes e doenças que atacam a sociedade. As notícias de um atentado que matou centenas de pessoas se misturam com um jogo de futebol do dia anterior ou o nascimento de um filhote de urso no zoológico.

Ao mesmo tempo, para combater o inimigo que o império quer esmagar, a chamada guerra híbrida usa meios mais baratos e eficientes do que soldados armados. Os meios de comunicação subsidiam uma enxurrada de notícias falsas que criam a opinião pública. Na América Latina, calam sobre o descalabro e o fracasso total do governo argentino, porque esse é de direita, mas, diariamente, divulgam notícias negativas de qualquer governo que pretenda transformar a sociedade. Assim, muita gente passa a acreditar que o governo da Venezuela é ditatorial e a oposição, feita por uma pequena elite violenta, é democrática e justa.

No Brasil, os meios de comunicação fortalecem a campanha de criminalização de movimentos populares. As grandes redes de comunicação e as notícias falsas de internet possibilitaram o golpe que derrubou o governo democrático e honesto da presidenta Dilma, demonizaram o que eles consideraram esquerda e garantiram a vitória da extrema-direita nas eleições de 2018. 

No Brasil, o dia 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que, nessa data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações.

Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Era outra época. Naquele tempo, mesmo se o Brasil era dominado por governos ditatoriais e a sociedade sempre foi violenta, ao menos os governantes não defendiam execuções sumárias e militares não atiravam em cidadãos que passassem de carro pela frente do quartel para irem a uma festa de criança. Provavelmente, o presidente atual e seus ministros nem queiram lembrar a figura de Rondom ou o considerem comunista como Paulo Freire, Dom Helder Camara e outros esquerdistas.

Também as Igrejas e grupos espirituais têm se servido dos meios de comunicação. A fé se torna objeto de espetáculos religiosos televisivos, sejam cultos neopentecostais ou missas-show de padres pop. Estúdios substituem templos. Misturam-se reality-show, ficção e liturgia.. Entretanto, a fé nunca pode ser objeto de publicidade.

Esse panorama está longe do evangelho de Jesus, boa noticia de que o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo. Por isso, muitas vezes, é fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de colaborar com a fraternidade humana em comunhão com o universo.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br