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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

ÉTICA E ESPIRITUALIDADE FACE AOS DESASTRES ECOLÓGICOS ATUAIS



por leonardo boff

As grandes chuvas com inundações desastrosas que afetaram muitas cidades do Brasil e paralelamente os incêndios fenomenais na Austrália, seguidos imediatamente de inesperadas inundações, constituem sinais inequívocos da Terra de que nela algumas mudanças importantes estão ocorrendo. É praticamente consenso de que estas mudanças para pior se devem à ação irresponsável dos seres humanos (a era do antropoceno) em sua relação para com a natureza e para com a totalidade do planeta Terra.
Os vários grupos de cientistas que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que sustentam a vida (água, solos, ar puro, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar? O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial. Chegaremos até dezembro? Se teimarmos em manter o consumo atual, temos que aplicar violência contra a Terra forçando-a a dar o que já não tem ou não pode repor. Sua reação a esta violência se expressa pelo aquecimento global, pelas enchentes, pelas grandes nevascas, pela perda da biodiversidade, pela desertificação, pelo aumento do dióxido de carbono e do metano e pelo crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.
Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e para com a natureza ou segundo S. Bauman,“engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.Desta vez não dispomos de uma Arca de Noé salvadora.
Não temos outra alternativa senão mudarmos.Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito mas não tudo: ela detém os ventos, segura as chuvas, limita o aumento dos oceanos? Não basta diminuir a dose e continuar com o mesmo veneno ou apenas limar os dentes do lobo. A mudança demanda atender a alguns dos seguintes marcos fundamentais.
Primeiro: uma visão espiritual do mundo. Isso não tem a ver com a religiosidade, mas com uma nova sensibilidade e um novo espírito de renúncia à uma relação violenta e meramente utilitarista da natureza. Há que se reconhecer que ela tem um valor em si mesmo, somos parte dela e que há de ser cuidada e respeitada como algo sagrado. Nisso consiste a nova sensibilidade e espiritualidade.
Segundo: resgatar o coração, o afeto, a empatia e a compaixão. Esta dimensão foi descurada em nome da objetividade da tecno-ciência. Mas nela se aninha o amor, a sensibilidade para com os outros, a ética dos valores e a dimensão espiritual. Porque não se dá lugar ao afeto e ao coração não há porquê respeitar a natureza e escutar as mensagens que ela nos está enviando com as enchentes e o aquecimento global. A tecno-ciência operou uma espécie de lobotomia nos seres humanos que já não sentem seus clamores. Imaginam ser a Terra um simples baú de recursos infinitos a serviço de um projeto de um enriquecimento infinito. Temos que mudar de paradigma: de uma sociedade industrialista que exaure a natureza para uma sociedade de conservação e cuidado de toda a vida.
Terceiro: tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução. Ou cuidamos do que restou da natureza e regeneramos o que temos devastado,como o MST que se propôs neste ano plantar um milhão de árvores nas áreas depredadas pelo agronegócio, ou então nosso tipo de sociedade terá dias contados. A precaução exige que não se coloquem atos nem se usem elementos cujas consequências não podemos controlar. Ademais, a filosofia antiga e moderna já viu que o cuidado é a pré-condição para que surja qualquer ser. É também o norteador antecipado de toda ação. Se a vida, também a nossa, não for cuidada, adoece e morre. A prevenção e o cuidado são decisivos no campo da nanotecnologia e da inteligência artificial autônoma. Esta, sem sabermos, pode tomar decisões e penetrar em arsenais nucleares e pôr fim à nossa civilização.
Quarto: o respeito a todo ser. Cada ser tem valor intrínseco e tem seu lugar no conjunto dos seres.Mesmo o menor deles revela algo do mistério do mundo e do Criador. O respeito impõe limites à voracidade de nosso sistema depredador e consumista. Quem melhor formulou uma ética do respeito foi o médico e pensador Albert Schweitzer (+1965). Ensinava: ética é a responsabilidade e o respeito ilimitado por tudo o que existe e vive. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância,urgente no mundo e entre nós, sob o governo de extrema-direita que nutre desprezo aos negros, índígenas, quilombolas, LGBT e às mulheres.
Quinto: atitude de solidariedade e de cooperação. Esta é a lei básica do universo e dos processos orgânicos. Todas as energias e todos os seres cooperam uns com os outros para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. O propósito da evolução não é conceder a vitória ao mais adaptável mas permitir que cada ser, mesmo o mais frágil, possa expressar virtualidades que emergem daquela Energia de Fundo que tudo sustenta, da qual tudo saiu e para qual tudo volta. Hoje, devido à degradação geral das relações humanas e naturais devemos, como projeto de vida, ser conscientemente solidários e cooperativos. Caso contrário, não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro promissor para a Humanidade. O sistema econômico e o mercado não se fundam na cooperação mas na competição, a mais desenfreada. Por isso criam tantas desigualdade a ponto de 1% da humanidade possuir o equivalente aos 99% restantes.
Sexto: fundamental é a responsabilidade coletiva. Ser responsável é dar-se conta das consequências de nossos atos. Hoje. construimos o princípio da auto-destruição. O ditame categórico é então: aja de forma tão responsável que as consequências de tua ação não sejam destrutivas para a vida e seu futuro e não ativem a auto-destruição.
Sétimo: colocar todos os esforços na consecução de uma bio-civilização centrada na vida e na Terra. O tempo das nações já passou. Agora é o tempo da construção e da salvaguarda do destino comum Terra e Humanidade. Sua realização não se fará sem pormos em ação os marcos acima elencados.
Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2019.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

FORMAS ATUAIS DE ESCRAVIDÃO


Por Marcelo Barros

Não deixa de ser irônico que, a cada ano, a ONU consagre o 23 de agosto como "dia internacional da lembrança do tráfico de escravos e de sua abolição". A ONU fala de "lembrança do tráfico e de sua abolição", como se atualmente a chaga da escravidão não mais ocorresse no mundo. No entanto, organismos internacionais da mesma ONU publicam relatórios que, atualmente, se calculam em 2 milhões e 16 mil pessoas que vivem como escravos/as em diversos países do mundo. Até 2016, o governo brasileiro calculava em 30 mil as pessoas que trabalham em nosso país como escravas, sendo a maioria delas no campo. Os fiscais do Ministério do Trabalho conseguiram fazer a lista suja das empresas que utilizam trabalho escravo, 70% delas no estado do Pará.

Com a mudança do governo, os que estão no poder ou são, eles mesmos, assumidamente escravocratas ou estão muito ligados a amigos com esse DNA. Por isso, a tal lista das empresas que praticam a escravidão nunca foi publicada. Atualmente não consta que o Ministério do Trabalho continue a luta contra o trabalho escravo, como fazia antes. A ONU denuncia que o Brasil tem também muitos homens, mulheres e crianças que trabalham em regime equivalente à escravidão, em indústrias de tecido em São Paulo, em carvoarias no leste e sul e no turismo sexual, em praias do Nordeste e Norte do Brasil.

Nesses dias, no Brasil, a regressão social e política que vivemos possibilitou que congressistas tenham votado contra diversas conquistas jurídicas dos trabalhadores, incluídas na Constituição Federal. Há até quem, despudoramente, dê declarações de cunho racista e escravocrata. Infelizmente, essa onda desumanizadora e cruel se espalha pelo mundo todo. Na África e sudeste da Ásia, meninas são forçadas a se casar com quem paga a seus pais um preço estipulado. Outras que não cedem a esse destino são obrigadas a se prostituírem para sobreviver em cidades para onde fogem.

O escândalo maior é que, muitas vezes, na história, as religiões e Igrejas cristãs foram coniventes e cúmplices com a escravidão. Apesar da atitude profética de alguns que denunciavam a escravidão e contra ela lutavam, a maioria dos membros das Igrejas caiu nesse crime. Na América Latina, em nome da Igreja, o papa João Paulo II pediu perdão às comunidades indígenas e negras pela omissão e participação de eclesiásticos nesse escândalo.

Infelizmente, ainda há sinais e notícias de grupos que se dizem religiosos ou cristãos e mantêm fazendas com trabalhadores superexplorados no Mato Grosso do Sul. Há poucas semanas, uma reportagem da Associated Press, publicada no site da UOL no dia 24 de julho de 2017 afirmava: "Brasileiros são levados como escravos por Igreja nos Estados Unidos, denunciam ex-membros". Quando tinha 18 anos, André Oliveira, mineiro de São Joaquim de Bicas, foi levado por uma Igreja (World of Faith Fellowshipp) aos Estados Unidos. Atualmente, conseguiu fugir e fez a denúncia à justiça norte-americana que até aqui não reagiu. A justiça brasileira está estudando o caso. Ele denuncia que os trabalhadores que se negam aos trabalhos forçados recebem socos e agressões "para se purificarem dos seus pecados".


É urgente que todas as pessoas de bem, ligadas a qualquer tradição espiritual, ou sem nenhuma pertença religiosa, se unam na defesa da dignidade de todo ser humano e do direito à vida, ao trabalho remunerado e à justiça social. Parafraseando Santo Irineu de Lyon, um pastor da Igreja do século III, o santo bispo mártir Oscar Romero afirmou: "A glória de Deus é a vida e a libertação do povo oprimido". 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países