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terça-feira, 13 de setembro de 2022

Eleições e espiritualidade

 Marcelo Barros


Há menos de um mês das eleições para presidente da República, governadores dos Estados, senadores e deputados, um fator que todos sabem que terá grande peso será a questão religiosa. Infelizmente, a fé e a espiritualidade estão sendo usadas de forma desonesta e não para tornar o mundo melhor e mais justo e amoroso. Conforme o evangelho, Jesus denunciou como errados os fariseus e doutores da lei que se achavam de Deus e desprezavam os outros. Grupos religiosos tradicionalistas, padres católicos e pastores evangélicos ou pentecostais que apregoam notícias falsas, provocam medo nas pessoas e inventam perigos que não existem não têm nada a ver com Jesus e o seu evangelho. Há  ministros desonestos que afirmam publicamente que se Lula ganhar, vai fechar Igrejas. Ao lado disso, a atual mulher do presidente da República convoca evangélicos para um jejum para pedir a Deus a vitória contra o inimigo como se a campanha eleitoral fosse um combate entre crentes e ateus.

Ao contrário desse procedimento desonesto, nestes dias, uma carta aberta ao povo brasileiro, assinada por centenas de padres de todo o país pede que não permitamos que o nome de Deus seja usado para interesses partidários e eleitorais. É preciso sempre lembrar que Jesus afirmou: “Não são as pessoas que ficam gritando Senhor, Senhor que entram no reino dos céus e sim as pessoas que fazem a vontade do Pai que está nos céus” (Mt 7, 21).

De fato, a  Política não deve depender de padres e pastores. A espiritualidade deve influir na Política de modo positivo: ao valorizar o compromisso político com o bem comum e a proteção da vida na natureza e da justiça para todas as pessoas, principalmente as mais vulneráveis. Ama a Deus quem testemunha que Deus é Amor e inclusão. O deus que favorece amigos e abandona a outros não é o Deus de Jesus. É um ídolo.

Na primeira metade do século XX, Simone Weil, espiritual francesa afirmava: “Eu reconheço quem é de Deus não por falar de Deus e sim pelo seu modo de viver e de se relacionar com as outras pessoas”. 

 Quem é de Deus deve colaborar para construir uma sociedade mais justa e não favorecer quem prega ódio e intolerância. Quem favorece armas e violência não tem nada a ver com Deus. O evangelho diz que devemos julgar as pessoas e partidos conforme a prática e pelos seus resultados. “Pelos frutos bons, vocês podem discernir que a árvore é boa, assim como pelos maus frutos, verão que uma árvore é má. Pelos frutos, vocês podem discernir se a árvore é boa ou má” (Mt 7, 18). 

 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

SEM ESPIRITUALIDADE NÃO SALVAREMOS A VIDA NA TERRA

                                     Leonardo Boff


 

Em momentos de grandes crises, de desastres naturais e agora com a epidemia do Coronavírus, os seres humanos deixam vir à tona aquilo que está na sua essência como humanos: a solidariedade, a cooperação, o cuidado de uns para com os outros e para o seu entorno e a espiritualidade.

Ouvimos da boca de Michail Gorbachev no encontros para a elaboração da Carta da Terra,exatamente dele considerado ateu por ser comunista e chefe de Estado: ou vamos desenvolver uma espiritualidade com novos valores,centrados na vida e na cooperação ou não haverá solução para a vida na Terra.

Esta pandemia significa uma conclamação para esta espiritualidade salvadora.Como diz a Carta da Terra:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo…Isso requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentindo de interdependência global e de responsabilidade universal…só assim se chega a um modo sustentável de vida”(Conclusão)

         Vivemos uma emergência ecológica planetária. Acertadamente nos alertou a Laudato Sì do Papa Francisco:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. O ritmo do consumo, desperdício e alteração do ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo insustentável de vida atual só pode desembocar em catástrofes”(n.161).

         Esta advertências reforçam a urgência de uma espiritualidade da Terra. Ela demanda um novo paradigma, apresentado pelo Papa Francisco em sua última encíclica Fratelli tutti (2020): devemos deixar de nos imaginar os donos (dominus) da natureza para sermos de fato irmãos e irmãs (frater, soror). Se não fizermos essa travessia vale esta advertência:”Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n. 32).

Em função dessa missão comum se estabeleceu uma colaboração e uma articulação entre duas famílias religiosas com suas  tradições espirituais, amigáveis para com a criação, à vida, aos mais destituídos: os franciscanos com o Serviço Inter-franciscano de Justiça, Paz e Ecologia da Conferência da Família Franciscana do Brasil  e os jesuítas com o Observatório Luciano Mendes de Almeida, a Rede de Justiça socio-ambiental dos Jesuítas e o Movimento Católico Global pelo Clima, somando-se ainda como parceiros a MAGIS, A FAJE.

As espiritualidades e os valores de cada uma destas duas tradições  nos poderão inspirar novas formas de cuidar da herança sagrada que a evolução e Deus nos entregaram, a Terra, a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos modernos.

Em sua encíclica de ecologia integral Laudato Si o Papa Francisco apresenta São Francisco “como o exemplo por execelência pelo cuidado pelo que é frágil, vivido com alegria e autenticidade. É o padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos”(n.10). Diz mais ainda:”Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe…até das ervas silvestres que deviam ter o seu lugar no horto” de cada convento dos frades(n.11.12).

Para Santo Inácio de Loyola, grande devoto de São Francisco, e para este ser pobre significava mais que um exercício  acético, mas um despojamento de tudo para estar mais próximo dos outros e construir com eles fraternidade. Ser pobre para ser mais irmão e irmã.

Para os primeiros companheiros de Santo Inácio a vida em pobreza, individual e comunitária, sempre acompanhou o cuidado com os pobres, parte essencial do carisma jesuítico. E São Francisco vivia estas três paixões: ao Cristo crucificado, aos pobres mais pobres e à natureza. Chamava a todas as criaturas, até ao feroz lobo de Gubbio com o doce nome de irmãos e de irmãs.

Ambos vislumbravam Deus em todas as coisas. Como o expressou belamente Santo Inácio:“Encontrar Deus em todas as coisas e ver que todas as coisas vem do alto”. E dizia mais, bem na linha do espírito de São Francisco:” Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Só pode saborear internamente todas as coisas se as ama verdadeiramente e e sente unido a elas. Em São Francisco abundam afirmações semelhantes.

Tais modos de vida e de relacionamento são fundamentais se quisermos reinventar uma forma amigável, reverente e cuidadosa para com a Terra e a natureza. Dai nascerá uma civilização biocentrada. Como afirma a Fratelli tutti, fundada numa “política da ternura e da gentileza”, “no amor universal e na fraternidade sem fronteiras”, na interdependência entre todos, na solidariedade, na cooperação e no cuidado para com tudo o que existe e vive, especialmente com os mais desprotegidos.

O Covid-19 é um sinal que a Mãe Terra nos envia para assumirmos nossa missão que o Criador e o universo nos confiaram: de “proteger e cuidar do Jardim do Éden”, isto é, da Mãe Terra (Gn 2,15). Se juntos, estas duas Ordens, dos franciscanos e dos jesuítas, associados a  outros, se propuserem realizar este sagrado propósito, darão um sinal de que nem tudo do Paraíso terrenal se perdeu. Ele começa a crescer dentro de nós e se expande para fora de nós, fazendo, de verdade, da Mãe Terra, a verdadeira e única Casa Comum na qual podemos viver juntos na fraternidade, na amorosidade, na  justiça, na paz e na alegre celebração da vida. São sonhos? Sim, são os Grandes Sonhos, necessários, que antecipam a realidade futura.

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Leonardo Boff, ecoteólogo, da parte da família franciscana.

 

terça-feira, 12 de maio de 2020

COVID 19 -VIGÉSIMA SÉTIMA REFLEXÃO - ESPIRITUALIDADE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

por Frei Aloísio Fragoso

     Passados dois meses de quarentena compulsória, no Convento de São Francisco, em Olinda, sinto-me mais enclausurado do que um monge da Idade Média. Para aqueles monges a clausura era uma opção de vida; para mim, nestas circunstâncias, é um aprisionamento. Eles procuravam um caminho de fazer transcender a sua existência terrena, eu procuro um esconderijo para escapar de um inimigo tenebroso e invisível, chamado Coronavírus. Ora, um inimigo invisível é capaz de penetrar pelas brechas de qualquer esconderijo. Logo, continuo suscetível e frágil. E daí? Daí só me resta aproveitar esta clausura e reaprender lições de sabedoria, talvez esquecidas, talvez nunca bem assimiladas. A primeira lição foi ficando clara com o passar dos dias: é muito fácil ser "santo" quando se está protegido das seduções mundanas pelas paredes de um grande Convento. A gente experimenta sentimentos de ser bom por não praticar maldades, de ser fiel por não quebrar o regulamento interno, de ser piedoso por não faltar  às orações, de viver em paz interior por não ter de que se estressar, enfim, "santo". Este sentimento, no entanto, se conflita com algumas interpelações: como autenticar uma santidade  que não enfrenta tentações, seduções, resistências? Como viver algo assim grandioso, de maneira tão fácil e aprazível? É verdade que nos ligamos ao mundo pastoralmente, quando atendemos aos pedidos de orações, bençãos, confissões, celebrações, os quais, no entanto, não custam sacrifício e não nos privam deste "dolce far niente".

     Não se conclua daí que conventos e mosteiros são lugares de fuga e ociosidade. Absolutamente. Eles possuem uma História milenar como centros de espiritualidade, onde se tenta vivenciar a procura do Absoluto, a sede de Deus. Mas, como acontece em toda parte em que seres humanos se reúnem, uns vivem de  verdades e outros de aparências, uns se tornam santos, outros permanecem farsantes. Então, que os santos sejam o critério de avaliar sua autenticidade, e os farsantes, critério para evitar mistificação. Sem mistificação,  podemos chegar a uma conclusão simples e justa: todas essas estruturas protetoras são apenas um espaço, entre muitos outros possíveis (a família, de modo particular) que se oferecem a quem busca aperfeiçoamento e santificação.

     Ampliemos nosso entendimento para aplicar estas idéias ao COVID  - 19.

     Conforme o pensamento dos grandes místicos, ainda que nosso corpo permaneça onde está, podemos conduzir nossas almas para todos os lugares, podemos projetar mundo afora pensamentos, sentimentos, desejos, emoções. Por isso nossos pensamentos afetam outras pessoas, assim como somos afetados pelo que elas pensam. Imaginemos bilhões de mentes humanas convergindo, na mesma hora,  para um mesmo e único e intensíssimo desejo: a cura do coronavírus. Um fenômeno como este possui um inaudito poder de superação.

     É assim que as almas se interpretaram. Um espaço físico cheio de gente está também cheio da extensão de suas mentes e de suas almas. Quando um ora, toda a humanidade está em oração. Quando um eleva os braços para Deus, milhões de braços estão elevando-se. Na Epístola aos Coríntios, S. Paulo compara a Igreja a um corpo humano e escreve "se um membro sofre, todo o corpo sofre; se um membro se alegra, o corpo inteiro se anima" 1Cor.12,26.

     A tragédia do Coronavírus nos traz a oportunidade de viver esta mística de modo real e convincente. Sob a pressão de uma necessidade comum, vencemos nossas repulsas naturais, quebramos o gelo que nos isola e alcançamos razões de sobra para acreditar no incomensurável poder da oração, irradiando-se no planeta, como uma luz difusa, como uma energia contagiante, para além de fronteiras e diferenças.

     Deixemos de incomodar nossos olhos com a visão de tantas futilidades e passemos a olhar o mundo  com os olhos de Deus, pois, a exemplo Dele, se quisermos transformá-lo, temos primeiramente de amá-lo: "Deus amou o mundo de tal maneira que lhe deu seu Filho Único, mas Este não veio julgar e condenar e sim salvar o mundo" Jo. 3,16ss.

 Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quinta-feira, 12 de março de 2020

ESPIRITUALIDADE NO MUNDO DESIGUAL




Frei Betto

         Ao tratar de espiritualidade, convém percorrer a via que vai do mais íntimo ao mais genérico – como a sociedade se organiza para assegurar vida à população. Tanto a subjetividade quanto a política são dois polos desta mesma equação chamada vida. Esta brota na sexualidade e se viabiliza, como possibilidade, nas estruturas sociais, produtivas, comerciais, ou seja, nos atos políticos.
         Certa tradição atrelou a espiritualidade à moralidade e, assim, confundiu e dificultou as coisas. Por exemplo, a ideia de que um Deus distante, que habita o cume da montanha. Devemos escalá-la, levando às costas as pedras das virtudes morais. No meio da subida, pecamos, a pedra rola, e nos obriga ao eterno recomeço, como no mito de Sísifo.
         Deus não está “lá em cima”. O príncipe de Florença perguntou a Galileu se ele havia visto Deus através de seu telescópio. Diante da resposta negativa, retrucou: “Como devo acreditar em seu invento se não vê Aquele que habita os céus?” Galileu respondeu: “Se Deus não se encontra em cada um de nós, ele não se encontra em lugar nenhum”.
         Na espiritualidade evangélica não há montanhas a escalar, nem atestado de boa moral para se aproximar de Deus. Há Deus, que é Pai/Mãe amoroso, e nos ama incondicionalmente, não importa o que façamos, desde que abramos o coração a seu amor, como comprova a parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32) e o encontro de Jesus com a samaritana (João 4, 1-42).
         Há lei para tudo, menos para o amor, li na traseira de um caminhão na Via Dutra. O árabe que obriga a filha a casar com o vizinho é capaz de impor a sua vontade, mas não que ela ame o marido. A liberdade é a condição do amor. Em nossa liberdade podemos acolher ou não o amor de Deus. Ele, porém, sempre nos ama, pois amar é da essência mesma de seu ser.
         Na parábola do filho pródigo, o moço comportado, que ficou em casa trabalhando com o pai, não teve festa. O outro, que saiu de casa e dilapidou a herança com farras, foi recebido com festa sem ter que se desculpar. Bastou o pai vê-lo retornar para preparar a festa de acolhida. “Deus amou primeiro”, diz João (1 João 4, 10). A iniciativa do amor é de Deus.
         O eixo da espiritualidade de Jesus era a experiência do amor de Deus e o compromisso com os oprimidos. Em um mundo como o nosso, regido pela globocolonização ou, como prefere o professor Milton Santos, globototalitarismo neoliberal, que promove o desemprego e a exclusão social de bilhões de pessoas, a espiritualidade cristã deve manter-se atenta ao episódio do encontro de Jesus com o homem rico (Marcos 10, 17-22). Este indaga o que fazer para ganhar a vida eterna. Jesus responde: “Você conhece os mandamentos” e recita-os. Curioso que Jesus só cita os mandamentos que dizem respeito ao próximo, e nenhum que diz respeito a Deus. O homem confirma que, desde pequeno, cumpre todos.
         Marcos então sublinha que “Jesus o amou” para, em seguida, recomendar ao homem: “Vai, vende os teus bens, distribui aos pobres e, depois, vem e me segue”. Diz o Evangelho que “o homem foi embora triste e aborrecido porque era muito rico”.
         O curioso é que, tendo-o amado, Jesus foi exigente com ele. Eis o conceito de amor de Jesus: quem ama é verdadeiro com o outro, ainda que a verdade doa. Quem não é verdadeiro consigo mesmo e com o outro, não ama. Amar é fazer bem ao outro, ainda que ele receba isso como um mal, como o opressor indignado por lhe privarem dos meios de oprimir. Jesus, ao amar, levava as pessoas a encontrarem a verdade, mesmo que isso criasse nelas antipatia por ele, como foi o caso dos fariseus.
         Ao homem rico, Jesus demonstrou que não se pode acercar-se de Deus sem assumir a luta por justiça. A exigência, que tanto frustrou a expectativa do abastado, era simples: dê o seu bem maior, a vida, à causa de libertação dos pobres. De fato, em uma sociedade desigual como a nossa, tudo que fazemos favorece um dos polos, o da opressão ou o dos oprimidos. Nossa balança pende para o lado escolhido por Jesus?

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus – fé e espiritualidade no mundo atual” (Companhia das Letras), entre outros livros.


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quarta-feira, 11 de março de 2020

POR UMA ESPIRITUALIDADE DA SEDE



por Kinno Cerqueira [1]


Da boca do salmista, ouvimos esta solene declaração: “A minha alma tem sede de Deus...” (Sl 42,1). Sem dúvida, são palavras de quem fez um longo caminho espiritual durante o qual não apenas se apercebeu sedento, como também descobriu que sua sede era de Deus. O salmista ajuda-nos a perceber que a nossa sede pode ser o ponto de partida para uma espiritualidade profunda, uma “espiritualidade da sede”, que instaure uma relação mística entre nós e Deus.

Uma espiritualidade da sede nos põe em constante movimento, abre-nos caminho para o novo, desincrusta nossas juntas adoecidas pela mesmice, solicita que abandonemos as gaiolas nas quais aceitamos viver e nos convida a que nos deixemos ser guiados pela sede que nos habita. Trata-se de um caminho espiritual que só pode ser trilhado se estivermos dispostos a desamarrar nossos barcos do cais das certezas e a atirarmo-nos mar adentro, velejando ao sopro do Espírito nas oceânicas e escuras águas do Mistério de Deus.

Parecem, pois, calhar aqui as últimas linhas de uma oração escrita por Thomas Merton (1915-1968):

Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo
nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.
Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.



[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

ÉTICA E ESPIRITUALIDADE FACE AOS DESASTRES ECOLÓGICOS ATUAIS



por leonardo boff

As grandes chuvas com inundações desastrosas que afetaram muitas cidades do Brasil e paralelamente os incêndios fenomenais na Austrália, seguidos imediatamente de inesperadas inundações, constituem sinais inequívocos da Terra de que nela algumas mudanças importantes estão ocorrendo. É praticamente consenso de que estas mudanças para pior se devem à ação irresponsável dos seres humanos (a era do antropoceno) em sua relação para com a natureza e para com a totalidade do planeta Terra.
Os vários grupos de cientistas que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que sustentam a vida (água, solos, ar puro, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar? O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial. Chegaremos até dezembro? Se teimarmos em manter o consumo atual, temos que aplicar violência contra a Terra forçando-a a dar o que já não tem ou não pode repor. Sua reação a esta violência se expressa pelo aquecimento global, pelas enchentes, pelas grandes nevascas, pela perda da biodiversidade, pela desertificação, pelo aumento do dióxido de carbono e do metano e pelo crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.
Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e para com a natureza ou segundo S. Bauman,“engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.Desta vez não dispomos de uma Arca de Noé salvadora.
Não temos outra alternativa senão mudarmos.Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito mas não tudo: ela detém os ventos, segura as chuvas, limita o aumento dos oceanos? Não basta diminuir a dose e continuar com o mesmo veneno ou apenas limar os dentes do lobo. A mudança demanda atender a alguns dos seguintes marcos fundamentais.
Primeiro: uma visão espiritual do mundo. Isso não tem a ver com a religiosidade, mas com uma nova sensibilidade e um novo espírito de renúncia à uma relação violenta e meramente utilitarista da natureza. Há que se reconhecer que ela tem um valor em si mesmo, somos parte dela e que há de ser cuidada e respeitada como algo sagrado. Nisso consiste a nova sensibilidade e espiritualidade.
Segundo: resgatar o coração, o afeto, a empatia e a compaixão. Esta dimensão foi descurada em nome da objetividade da tecno-ciência. Mas nela se aninha o amor, a sensibilidade para com os outros, a ética dos valores e a dimensão espiritual. Porque não se dá lugar ao afeto e ao coração não há porquê respeitar a natureza e escutar as mensagens que ela nos está enviando com as enchentes e o aquecimento global. A tecno-ciência operou uma espécie de lobotomia nos seres humanos que já não sentem seus clamores. Imaginam ser a Terra um simples baú de recursos infinitos a serviço de um projeto de um enriquecimento infinito. Temos que mudar de paradigma: de uma sociedade industrialista que exaure a natureza para uma sociedade de conservação e cuidado de toda a vida.
Terceiro: tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução. Ou cuidamos do que restou da natureza e regeneramos o que temos devastado,como o MST que se propôs neste ano plantar um milhão de árvores nas áreas depredadas pelo agronegócio, ou então nosso tipo de sociedade terá dias contados. A precaução exige que não se coloquem atos nem se usem elementos cujas consequências não podemos controlar. Ademais, a filosofia antiga e moderna já viu que o cuidado é a pré-condição para que surja qualquer ser. É também o norteador antecipado de toda ação. Se a vida, também a nossa, não for cuidada, adoece e morre. A prevenção e o cuidado são decisivos no campo da nanotecnologia e da inteligência artificial autônoma. Esta, sem sabermos, pode tomar decisões e penetrar em arsenais nucleares e pôr fim à nossa civilização.
Quarto: o respeito a todo ser. Cada ser tem valor intrínseco e tem seu lugar no conjunto dos seres.Mesmo o menor deles revela algo do mistério do mundo e do Criador. O respeito impõe limites à voracidade de nosso sistema depredador e consumista. Quem melhor formulou uma ética do respeito foi o médico e pensador Albert Schweitzer (+1965). Ensinava: ética é a responsabilidade e o respeito ilimitado por tudo o que existe e vive. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância,urgente no mundo e entre nós, sob o governo de extrema-direita que nutre desprezo aos negros, índígenas, quilombolas, LGBT e às mulheres.
Quinto: atitude de solidariedade e de cooperação. Esta é a lei básica do universo e dos processos orgânicos. Todas as energias e todos os seres cooperam uns com os outros para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. O propósito da evolução não é conceder a vitória ao mais adaptável mas permitir que cada ser, mesmo o mais frágil, possa expressar virtualidades que emergem daquela Energia de Fundo que tudo sustenta, da qual tudo saiu e para qual tudo volta. Hoje, devido à degradação geral das relações humanas e naturais devemos, como projeto de vida, ser conscientemente solidários e cooperativos. Caso contrário, não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro promissor para a Humanidade. O sistema econômico e o mercado não se fundam na cooperação mas na competição, a mais desenfreada. Por isso criam tantas desigualdade a ponto de 1% da humanidade possuir o equivalente aos 99% restantes.
Sexto: fundamental é a responsabilidade coletiva. Ser responsável é dar-se conta das consequências de nossos atos. Hoje. construimos o princípio da auto-destruição. O ditame categórico é então: aja de forma tão responsável que as consequências de tua ação não sejam destrutivas para a vida e seu futuro e não ativem a auto-destruição.
Sétimo: colocar todos os esforços na consecução de uma bio-civilização centrada na vida e na Terra. O tempo das nações já passou. Agora é o tempo da construção e da salvaguarda do destino comum Terra e Humanidade. Sua realização não se fará sem pormos em ação os marcos acima elencados.
Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2019.


terça-feira, 16 de julho de 2019

O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA E A ESPIRITUALIDADE LASCASIANA



Por Marcelo Barros

Nos ambientes católicos, um dos assuntos que mais têm suscitado discussões é o próximo Sínodo dos Bispos que o papa Francisco convocou sobre a Amazônia. Ele se reunirá em Roma, no próximo outubro. De fato, há dois anos, desde que o papa anunciou esse sínodo, criou-se a  Rede Eclesial Panamazônica (REPAM) que reúne missionários e missionárias dos nove países que compreendem a região amazônica. Uma novidade é que o documento de trabalho, proposto para o Sínodo, resultado da consulta e do diálogo com comunidades e grupos eclesiais de toda a região, propõe que missionários e agentes de pastoral se coloquem em permanente escuta e atitude de acolhida amorosa das tradições culturais e espirituais dos povos amazônicos. 

Muitas vezes, desde os tempos da colonização, a Igreja Católica confundiu missão com conquista e no lugar de testemunhar o evangelho de Jesus, serviu aos interesses dos impérios do mundo. As principais vítimas desse sistema foram os povos originários que há milênios vivem nesse continente. Agora, o papa Francisco e boa parte da Igreja, reunida nesse sínodo propõem uma evangelização baseada no diálogo respeitoso e no reconhecimento da presença divina em todas as religiões e culturas. De fato, essa postura é nova como posição de um papa e de parte dos pastores, missionários e missionárias que atuam na região. No entanto, desde os primeiros tempos da colônia, sempre houve cristãos e pastores que, mesmo marginalizados pela cúpula eclesiástica e perseguidos pelo Império, insistiram: a missão não pode estar ligada à colonização. Só é missão de acordo com Jesus se partir do cuidado amoroso com as comunidades indígenas. Em toda a América Latina, 17 de julho lembra o falecimento da figura mais conhecida que defendeu essas posições. Foi Bartolomeu de las Casas, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Era um frade dominicano que veio da Espanha para a América no começo da colonização para ser senhor e feitor, mas, ao ver o sofrimento dos índios, se converteu e se tornou missionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidade dos índios junto ao rei da Espanha e escreveu o primeiro tratado de teologia e espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado pelos que se dizem cristãos. Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar que ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. E há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. De fato, ao morrer em 1566, Las Casas não chegou a antever esse problema. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu em época posterior, a partir das últimas décadas do século XVI. Seja como for e mesmo com algumas contradições inerentes à época, em nossos dias, os escritos desse grande missionário são referência para uma nova concepção intercultural de missão e de leitura da história a partir das vítimas e não dos vencedores.  
No decorrer da história da Igreja, esse modelo de missão se tornou conhecido como “lascasiana”. Hoje, uma espiritualidade lascasiana rejeita uma missão cristã que tenha como objetivo conquistar adeptos para a fé e a assume como diálogo que valoriza a presença divina em toda realidade humana e respeita a diversidade das culturas.

Ainda em nossos dias, aqui no Brasil, povos indígenas continuam massacrados, vítimas de um modelo de progresso que olha os índios como estorvo para a concentração de terras, o agro-negócio e os lucros das grandes empresas. No Mato Grosso do Sul os Guarani Kaiowá são perseguidos. Nos últimos anos, várias lideranças foram assassinadas e continua sendo frequente, nas aldeias, um suicídio de jovens que não aceitam ser escravos nas fazendas de soja da região, envenenados pelos agrotóxicos que são obrigados a manipular. 

A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais, mas também por uma exigência espiritual da fé. Não podemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos povos que sempre foram vítimas da história e suas culturas religiosas.

Até hoje, nos projetos missionários das Igrejas, continua existindo sempre o risco de certo neocolonialismo cultural. Ainda aparece forte a centralização administrativa e uma visão unilateral do pensamento humano. Esses perigos afetam a sociedade dominante, mas também a atuação da própria Igreja. Em um diálogo com os índios, na cidade de Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, em janeiro de 2018, o papa Francisco pediu aos líderes indígenas que ajudassem a Igreja a superar esses perigos e a formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena. Esperamos que o Sínodo para a Amazônia siga esse caminho.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


quarta-feira, 19 de junho de 2019

ESPIRITUALIDADE EM NOSSOS TEMPOS




Pedro A. Ribeiro de Oliveira

             “Espiritualidade é a força interior, cultivada na oração ou na meditação, que nos mantém vivos”, diz Frei Betto em seu livro Fé e afeto (Vozes, 2019). Nesses tempos em que a força sufocante do capitalismo ameaça transferir nossa vida pessoal para o mundo virtual, precisamos respirar novos ares e oxigenar aquela força interior que nos liga à Divindade Amorosa, a seus filhos e filhas e à comunidade de vida da Terra.

             Novos ares para a espiritualidade é o que nos oferece Frei Betto em textos que brotaram de sua vivência e foram lapidados com esmero. Comento aqui alguns desses textos (pp. 96-125) para estimular quem me lê a buscar nessa mesma fonte o alimento para sua vida interior e para a práxis político-libertadora. Eles tratam principalmente a espiritualidade cristã, ou seja, a espiritualidade que animou a vida de Jesus de Nazaré e tem inspirado seus seguidores e seguidoras ao longo da história. Frei Betto segue o método dos primeiros teólogos do cristianismo, que fundamentavam sua teologia na “sistematização de uma experiência à luz da Palavra. Baseada na meditação sobre a Bíblia. É sabedoria antes de aparecer como saber racional. Não se ensinava nas escolas, mas pela vida, pelo testemunho cristão.” Sem desconhecer nem menosprezar outras linhas de vida espiritual, temos aí proveitosas reflexões teológicas para os tempos de hoje.

             O ponto de partida é assumir a espiritualidade como “o eixo que perpassa a totalidade de nossa existência e no qual se estabelece a síntese de nossas relações com o mundo, as pessoas, a natureza e com Deus”. A dificuldade, minha e de muita gente, é que as antigas receitas para alimentar esse eixo de vida – retiros, mortificações, orações recitativas e tantas outras formas rituais – separam o seguimento de Jesus da participação nas lutas por Justiça, Paz e Cuidado com a Terra. Sabemos que a espiritualidade é alimentada pela oração, mas como se pode manter a vida de oração no meio das turbulências da vida e das lutas sócio-políticas? Diante dessa dificuldade, Frei Betto apresenta diferentes formas de oração e transmite sua experiência nas 
práticas meditativacomunitária e contemplativa. Apresento aqui minha reflexão sobre cada uma delas com o propósito de ajudar mais gente que quer viver a espiritualidade político-libertadora, mas tem dificuldades para orar.
             Ao escrever sobre a meditação, ensinando maneiras de evitar a dispersão do espírito e entrar em comunhão com o Mistério, Betto aponta um caminho fascinante para esse encontro direto e pessoal com Deus no mais profundo de si mesmo, de maneira que esse encontro tenha consequências reais para a vida prática. Ele deixa claro que a experiência mística não só não afasta, mas confirma quem está nas lutas que Jesus assumiria no mundo de hoje. Devo, porém, confessar que não consigo embarcar nesse caminho espiritual. Já tentei praticar a meditação, mas minha concentração dura pouco: não consigo impedir que a atenção se volte para a realidade externa e isso causa um sentimento de frustração. Não é este meu caminho de vida espiritual... Mas ainda bem que existem outros caminhos!

       Outro caminho, muito importante, é a oração comunitária, excelente oportunidade de encontro com Cristo, que prometeu estar onde dois ou mais estivessem reunidos em Seu nome. Nessa forma de oração eu embarco sem dificuldade e com todo gosto. O problema é que com muita frequência a liturgia em vigor tende a ritualizar de tal modo a ação do Espírito, que acaba por encapsulá-lo. A missa dominical, momento privilegiado de congregar a comunidade cristã, pode perder sua força espiritual quando celebrada por padres que não favorecem a participação da comunidade. Relegada à condição de assistente, ela se limita a cantar e acompanhar a movimentação do celebrante e seus acólitos junto ao altar, enquanto aguarda o esperado momento da comunhão. Embora eu procure me deixar levar pelo entusiasmo da comunidade, que parece sair renovada após cada celebração, devo dizer que ao terminar certas missas me vem o sentimento de frustração. Se fosse esse tipo de missa dominical o principal alimento para minha vida espiritual, certamente ela já teria definhado...

  Felizmente, existe mais um caminho, que é a oração contemplativa. Vida contemplativa não é algo de uma “elite espiritual”, separada da massa dos fiéis que deveriam se contentar com a oração recitativa e suas fórmulas estabelecidas, ensina Frei Betto, que conclui dizendo que “a contemplação está ao alcance de toda pessoa de fé”. Abandonada a ideia de que a contemplação exige um espaço de reclusão, como conventos e mosteiros, ela pode ser feita em qualquer tempo e lugar onde esteja sendo posto em prática o Evangelho. Por ser esta minha forma preferida para alimentar a espiritualidade político-libertadora, a leitura veio confirmar essa caminhada explicando que seu segredo está no modo de fazer a oração contemplativa.

             A contemplação consiste em perceber nos acontecimentos do nosso tempo a presença real de Jesus ressuscitado atuando junto de nós. Isso supõe dois momentos distintos e complementares. O primeiro é a contemplação propriamente dita: o dom de perceber a presença de Jesus como alguém que está no meio de nós. Porque esse momento corre sempre o risco de subjetivismo – cada pessoa vendo Jesus à sua própria imagem e semelhança – ele precisa ser contrabalançado pelo segundo momento: de interpelação pela Palavra de Deus. Esse Jesus que está no meio de nós não é somente uma presença amiga e consoladora: ele traz uma mensagem que nos interpela e uma missão que nos convoca, e a Bíblia é a fonte onde a encontramos. Os textos da liturgia diária – acessíveis até por internet – que são lidos pela manhã devem retornar ao longo do dia como interpelação à realidade que está sendo vivida. Isso faz encontrar Jesus – e, por meio dele, o Pai-Mãe e o Espírito Santo – em qualquer ocasião em que o Evangelho é colocado em prática. É um encontro prazeroso, mas ao mesmo tempo interpelador: qual é minha missão nesta situação? Ao perceber a missão e minha pequenez diante dela, sou levado a outra forma de oração: pedir a Deus que envie seu Espírito para me conduzir na missão. Nem sempre me deixo conduzir por ele, mas quando deixo que Ele atue em mim, consigo realizar coisas que pareciam ser além da minha capacidade. Acredito ser este um fruto maduro da oração contemplativa. Só posso agradecer ao Betto por me/nos ajudar a avançar na espiritualidade político-libertadora.

             Ao escrever, me dei conta de que há 60 anos conheci o Betto num encontro da JEC – Juventude Estudantil Católica – e que aí nasceu nossa amizade. Bendita amizade!

Juiz de Fora, Pentecostes, 2019


terça-feira, 2 de outubro de 2018

ESSAS ELEIÇÕES E A ESPIRITUALIDADE



Por Marcelo Barros

Estamos na semana de eleições presidenciais, eleições para o Congresso e também para o governo dos Estados e assembleias estaduais. Não são poucos os candidatos que recorrem a Igrejas para se elegerem e há grupos que pensam que cristão deve votar em cristão. Conforme o evangelho e a ética da fé, não deve ser esse o pensamento. Como diz Jesus no evangelho: “Não é quem diz Senhor, Senhor, que entra no reino dos céus, mas quem faz a vontade do Pai” (Mt 7, 21).

O critério para eleger alguém não pode ser se a pessoa é de tal Igreja ou religião e sim se, de fato, se propõe a servir às boas causas de todo o povo. Como vivemos em um país desigual e dividido, é importante que escolhamos pessoas que ajudem a tornar o Brasil mais justo, menos desigual e as classes empobrecidas possam ter sua cidadania reconhecida.

As eleições nada têm a ver com Igrejas, mas têm sim a ver com Espiritualidade. Não se pode dividir a vida em material e espiritual, nem reduzir a fé a algo íntimo e apenas religioso.  Se a Política e a Espiritualidade não se encontrarem, a Política vira politicagem e a espiritualidade se torna somente devoção privada e intimista. Temos de redescobrir e valorizar a dimensão política da espiritualidade, assim como redescobrir a base espiritual da Política. A nossa busca espiritual do Amor Divino tem de se manifestar no modo como exercemos nosso compromisso de cidadãos e cidadãs de uma pátria e de uma cidade.

Não é verdade que a Política é assunto que não se discute. Menos ainda é justo afirmar que nenhum político presta. É ingenuidade dizer: “Não gosto de Política”. Todos nós fazemos política quando convivemos em sociedade e exercemos alguma função social. De fato, muitos entram na Política profissional para se beneficiarem individualmente. Esses servem a interesses seus ou do grupo que os pagam e não às causas do povo. No entanto, existe, sim, uma minoria que pede os nossos votos para representar o povo e garantir o direito de todos.

No próximo dia 14, o papa Francisco vai canonizar Monsenhor Oscar Romero, arcebispo de El Salvador. Assim, o papa reconhece publicamente que Romero deu a vida para defender os pobres e lutou até o fim pelo que ele chamava de “dignidade da Política”, como serviço ao bem comum.

No Brasil, essas eleições estão muito polarizadas. Para votar com coerência espiritual, é preciso ser dócil ao Espírito de Deus em nós e não seguir critérios de interesse pessoal, de família ou votar apenas por relação de amizade. O nosso voto pode ajudar a construir uma sociedade mais justa. No entanto, ao contrário, pode também perpetuar os velhos vícios do sistema vigente. Não estamos em uma sociedade ideal e todos os partidos têm falhas. No entanto, é importante discernir entre as diversas escolhas possíveis, a escolha que nos parece ser a mais justa e adequada para o bem comum e as causas dos mais pobres. Quem tem fé em Deus ou simplesmente na Vida não deveria dar o seu voto a quem prega discriminações sociais, faz diferenças de direitos entre homens e mulheres e revela claramente intolerância contra minorias sexuais.

  Os Evangelhos contam que, ao entrar em Jerusalém, Jesus foi ao templo e ali, com um chicote em punho, expulsou os cambistas e vendedores de animais para os sacrifícios. Esse gesto anunciava que, a partir de Jesus, a nossa relação com Deus não precisa de templos nem de sacrifícios. No entanto, essa cena de Jesus expulsando do templo os comerciantes pode também servir como símbolo para a Política. A atividade política deve ser vista como novo templo divino, como espaço formador da dignidade coletiva de um povo. Por isso, é preciso sempre de novo expulsar dela os vendedores que a diminuem e a envergonham. Hoje, o chicote com o qual podem ser expulsos da política os que a reduzem a um negócio de interesse e mercado só pode ser o voto consciente e ético de cada cidadão/ã.  O evangelho diz que devemos julgar as pessoas e partidos conforme a prática e pelos seus resultados. “Pelos frutos bons, vocês podem discernir que a árvore é boa, assim como pelos maus frutos, verão que uma árvore é má. Pelos frutos, vocês podem discernir se a árvore é boa ou má” (Mt 7, 18). 

  MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 23 de julho de 2018

A CAVERNA, O MONGE E A ESPIRITUALIDADE






                             Maria Clara Bingemer 


            Para quem anda descrente da humanidade, o recente episódio do resgate de doze adolescentes tailandeses de uma caverna inundada foi uma bela surpresa.  Uma onda de solidariedade se fez presente de um ponto a outro do planeta.  

Uma corrente de desejos e sentimentos positivos apontava de todas as partes na direção da caverna onde os meninos e seu treinador estavam confinados. O heroísmo de tantos, que vieram de outros países para ajudar no salvamento, foi admirável. Em época tão conturbada como a que vivemos, trata-se de um autêntico reencontro da humanidade consigo mesma, como disse a acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira em recente artigo. 

Os doze meninos e seu treinador permaneceram na caverna onde as fortes inundações os surpreenderam isolados por longos dias com comida escassa e em condições muito precárias. Quando foram encontrados, o mundo inteiro ficou impressionado por estarem em boas condições físicas naquela situação limite que viviam.  Mas, para além disso, chamaram mais ainda a atenção de todos pela calma e equilíbrio que demonstraram durante todo o processo de encontro, resgate e salvamento.

De um grupo de adolescentes que formavam um time de futebol seria normal esperar medo, pânico e agitação ao se perceberem confinados em uma caverna escura por vários dias, sem saber como fazer para sair dali e salvar-se.  A insegurança, aliada àescassez de recursos alimentícios e àexiguidade do espaço seco em meio àcaverna alagada, tudo contribuía para que os meninos estivessem abalados e vulneráveis.

No entanto, o que se viu foi um grupo de crianças calmas, vivendo a dificuldade pela qual passavam com um sorriso nos lábios e muita serenidade. Nenhum chorava ou tinha qualquer reação de angústia e aflição. E assim permaneceram ao longo de toda a operação de resgate com muita expectativas e adiamentos sem fim. 

Qual o segredo dessa paz, desse equilíbrio?  Que espírito adejava por aquela caverna a ponto de conseguir tranquilizar desta maneira doze crianças em perigo? Cremos que a resposta se encontra em algo que acompanha o ser humano desde suas origens e que ao longo da história tomou formas e configurações diversas e fascinantes: a espiritualidade.  Ou seja, a capacidade do ser humano de elevar-se além do sensorial e do racional, e experimentar a transcendência. 

No caso do time dos “Javalis Selvagens” que comoveu o mundo, parece que a fonte imediata daquele enfrentamento admirável de uma situação tão adversa encontra sua raiz na pessoa do treinador Ekapol Chanthawong. Foi ele quem os levouà excursão que acabaria isolando-os dentro da caverna.  Mas foi igualmente ele que os liderou no processo de resistência que lhes permitiu conservar a vida e as energias, de modo que pudessem ser salvos e reconduzidos a suas famílias. 

O treinador, antes de ocupar-se de times de futebol, foi monge budista e viveu desde os doze anos em um mosteiro.  Dali saiu para cuidar de sua avódoente. Ali também aprendeu as técnicas e o método da meditação budista durante uma década.  E quando saiu, levou consigo a espiritualidade que havia vivido no mosteiro. O mosteiro ficou gravado em seu interior  e o faz atéhoje manter contato com a comunidade que ali reside. Segundo o abade do mosteiro, Chanthawong continua meditando regularmente. 

Parece que, ao constatar a situação de isolamento em que se encontrava junto com os meninos, passou a ensinar-lhes a meditar.  O objetivo era mantê-los calmos e preservar suas energias enquanto ali estivessem.  Assim se passaram duas semanas. Cada um fazia uma hora de meditação ao dia, e isso os ajudou a resistir durante todo o tempo em que estiveram na caverna até serem encontrados e resgatados. 

Além de ajudar os meninos dando-lhes o que tem de melhor – sua espiritualidade – o treinador deu-lhes vida concreta retirada de sua própria vida. Jejuou e não se alimentou durante os dias de reclusão, a fim de que sobrasse mais dos poucos alimentos de que dispunha o grupo para os meninos.  E foi oúltimo a ser libertado e ver novamente a luz do sol. Certamente seus longos anos de ascese no mosteiro foram fundamentais nessa atitude e nessa prática. 

Neste momento, quando ainda vivemos, juntamente com a euforia da Copa do Mundo, o alívio e a alegria de ver a todos os personagens da caverna finalmente sãos e salvos, somos levados a refletir sobre a importância da espiritualidade para nossas vidas. 

A rica, admirável e milenar tradição budista pretende conduzir as pessoas em direção à iluminação e à paz de espírito. Poderia ter sido outra tradição.  O importante neste caso é perceber a grandeza de nossa condição humana.  Tão precária e frágil a ponto de contar com forças limitadas para sobreviver em situações difíceis.  Mas tão incrivelmente bela e elevada de forma a enfrentar grandes dificuldades graças ao espírito que anima uma corporeidade finita e mortal. 

O time dos Javalis Selvagens e seu treinador nos sinalizam algo da maior importância.  É preciso cultivar o espírito, investir na vida espiritual, seja em que tradição religiosa for, ou mesmo fora de qualquer uma.  Certamente faz a vida mais digna desse nome.  E pode ajudar-nos muito quando nos virmos isolados em alguma caverna escura e inundada sem vislumbrar saídas evidentes. 


Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

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