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quarta-feira, 19 de junho de 2019

ESPIRITUALIDADE EM NOSSOS TEMPOS




Pedro A. Ribeiro de Oliveira

             “Espiritualidade é a força interior, cultivada na oração ou na meditação, que nos mantém vivos”, diz Frei Betto em seu livro Fé e afeto (Vozes, 2019). Nesses tempos em que a força sufocante do capitalismo ameaça transferir nossa vida pessoal para o mundo virtual, precisamos respirar novos ares e oxigenar aquela força interior que nos liga à Divindade Amorosa, a seus filhos e filhas e à comunidade de vida da Terra.

             Novos ares para a espiritualidade é o que nos oferece Frei Betto em textos que brotaram de sua vivência e foram lapidados com esmero. Comento aqui alguns desses textos (pp. 96-125) para estimular quem me lê a buscar nessa mesma fonte o alimento para sua vida interior e para a práxis político-libertadora. Eles tratam principalmente a espiritualidade cristã, ou seja, a espiritualidade que animou a vida de Jesus de Nazaré e tem inspirado seus seguidores e seguidoras ao longo da história. Frei Betto segue o método dos primeiros teólogos do cristianismo, que fundamentavam sua teologia na “sistematização de uma experiência à luz da Palavra. Baseada na meditação sobre a Bíblia. É sabedoria antes de aparecer como saber racional. Não se ensinava nas escolas, mas pela vida, pelo testemunho cristão.” Sem desconhecer nem menosprezar outras linhas de vida espiritual, temos aí proveitosas reflexões teológicas para os tempos de hoje.

             O ponto de partida é assumir a espiritualidade como “o eixo que perpassa a totalidade de nossa existência e no qual se estabelece a síntese de nossas relações com o mundo, as pessoas, a natureza e com Deus”. A dificuldade, minha e de muita gente, é que as antigas receitas para alimentar esse eixo de vida – retiros, mortificações, orações recitativas e tantas outras formas rituais – separam o seguimento de Jesus da participação nas lutas por Justiça, Paz e Cuidado com a Terra. Sabemos que a espiritualidade é alimentada pela oração, mas como se pode manter a vida de oração no meio das turbulências da vida e das lutas sócio-políticas? Diante dessa dificuldade, Frei Betto apresenta diferentes formas de oração e transmite sua experiência nas 
práticas meditativacomunitária e contemplativa. Apresento aqui minha reflexão sobre cada uma delas com o propósito de ajudar mais gente que quer viver a espiritualidade político-libertadora, mas tem dificuldades para orar.
             Ao escrever sobre a meditação, ensinando maneiras de evitar a dispersão do espírito e entrar em comunhão com o Mistério, Betto aponta um caminho fascinante para esse encontro direto e pessoal com Deus no mais profundo de si mesmo, de maneira que esse encontro tenha consequências reais para a vida prática. Ele deixa claro que a experiência mística não só não afasta, mas confirma quem está nas lutas que Jesus assumiria no mundo de hoje. Devo, porém, confessar que não consigo embarcar nesse caminho espiritual. Já tentei praticar a meditação, mas minha concentração dura pouco: não consigo impedir que a atenção se volte para a realidade externa e isso causa um sentimento de frustração. Não é este meu caminho de vida espiritual... Mas ainda bem que existem outros caminhos!

       Outro caminho, muito importante, é a oração comunitária, excelente oportunidade de encontro com Cristo, que prometeu estar onde dois ou mais estivessem reunidos em Seu nome. Nessa forma de oração eu embarco sem dificuldade e com todo gosto. O problema é que com muita frequência a liturgia em vigor tende a ritualizar de tal modo a ação do Espírito, que acaba por encapsulá-lo. A missa dominical, momento privilegiado de congregar a comunidade cristã, pode perder sua força espiritual quando celebrada por padres que não favorecem a participação da comunidade. Relegada à condição de assistente, ela se limita a cantar e acompanhar a movimentação do celebrante e seus acólitos junto ao altar, enquanto aguarda o esperado momento da comunhão. Embora eu procure me deixar levar pelo entusiasmo da comunidade, que parece sair renovada após cada celebração, devo dizer que ao terminar certas missas me vem o sentimento de frustração. Se fosse esse tipo de missa dominical o principal alimento para minha vida espiritual, certamente ela já teria definhado...

  Felizmente, existe mais um caminho, que é a oração contemplativa. Vida contemplativa não é algo de uma “elite espiritual”, separada da massa dos fiéis que deveriam se contentar com a oração recitativa e suas fórmulas estabelecidas, ensina Frei Betto, que conclui dizendo que “a contemplação está ao alcance de toda pessoa de fé”. Abandonada a ideia de que a contemplação exige um espaço de reclusão, como conventos e mosteiros, ela pode ser feita em qualquer tempo e lugar onde esteja sendo posto em prática o Evangelho. Por ser esta minha forma preferida para alimentar a espiritualidade político-libertadora, a leitura veio confirmar essa caminhada explicando que seu segredo está no modo de fazer a oração contemplativa.

             A contemplação consiste em perceber nos acontecimentos do nosso tempo a presença real de Jesus ressuscitado atuando junto de nós. Isso supõe dois momentos distintos e complementares. O primeiro é a contemplação propriamente dita: o dom de perceber a presença de Jesus como alguém que está no meio de nós. Porque esse momento corre sempre o risco de subjetivismo – cada pessoa vendo Jesus à sua própria imagem e semelhança – ele precisa ser contrabalançado pelo segundo momento: de interpelação pela Palavra de Deus. Esse Jesus que está no meio de nós não é somente uma presença amiga e consoladora: ele traz uma mensagem que nos interpela e uma missão que nos convoca, e a Bíblia é a fonte onde a encontramos. Os textos da liturgia diária – acessíveis até por internet – que são lidos pela manhã devem retornar ao longo do dia como interpelação à realidade que está sendo vivida. Isso faz encontrar Jesus – e, por meio dele, o Pai-Mãe e o Espírito Santo – em qualquer ocasião em que o Evangelho é colocado em prática. É um encontro prazeroso, mas ao mesmo tempo interpelador: qual é minha missão nesta situação? Ao perceber a missão e minha pequenez diante dela, sou levado a outra forma de oração: pedir a Deus que envie seu Espírito para me conduzir na missão. Nem sempre me deixo conduzir por ele, mas quando deixo que Ele atue em mim, consigo realizar coisas que pareciam ser além da minha capacidade. Acredito ser este um fruto maduro da oração contemplativa. Só posso agradecer ao Betto por me/nos ajudar a avançar na espiritualidade político-libertadora.

             Ao escrever, me dei conta de que há 60 anos conheci o Betto num encontro da JEC – Juventude Estudantil Católica – e que aí nasceu nossa amizade. Bendita amizade!

Juiz de Fora, Pentecostes, 2019


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A CNBB RECOLHIDA EM JEJUM E ORAÇÃO


Por Pedro A. Riberio de Oliveira

"Nada haveria de estranho no pedido de oração pelo Brasil, se ele fosse acompanhado de algum estímulo à participação na principal manifestação pública de protesto social: o Grito dos Excluídos", afirma Pedro A. Ribeiro de Oliveira, doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas.

Eis o artigo.


Quem acompanha atentamente a conjuntura eclesiástica percebe a polarização do episcopado brasileiro entre aqueles que assumem as lutas dos Movimentos Sociais por Terra, Teto e Trabalho, e os que defendem a ordem estabelecida hoje representada pelo governo federal. Entre esses dois polos encontra-se a maioria dos bispos e sua expressão oficial – a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.
CNBB conquistou prestígio na sociedade quando se colocou como “voz de quem não tem voz” durante a ditadura de 1964-84. A autoridade moral então adquirida contribuiu decisivamente para o êxito de movimentos da sociedade civil como a inscrição dos Direitos de Cidadania na Constituição de 1988, o combate à Fome e à Miséria, e a Ética na Política. Gradualmente, porém, ela foi-se retirando das mobilizações sociais e prestando-lhes um apoio pouco mais do que formal. No dia 10 de agosto, ao concluir a reunião do Conselho Permanente – instância que responde pelo conjunto do episcopado brasileiro entre as Assembleias Gerais – veio o sinal de que essa retirada atingiu novo patamar.

A Presidência da CNBB lançou uma nota acompanhada de uma carta aos bispos, onde diz: “Vivemos um momento difícil e de apreensão no Brasil. A realidade econômica, política, ética vem acompanhada de violência e desesperança. O Conselho Permanente, ao refletir o momento vivido, pediu que a Presidência enviasse carta ao irmão, sugerindo um Dia de jejum e oração pelo Brasil. Pediu igualmente que fosse enviada uma oração que pudesse ser rezada nas comunidades e famílias. O dia de oração e jejum sugerido é o dia 7 de setembro próximo.”
Nada haveria de estranho no pedido de oração pelo Brasil, se ele fosse acompanhado de algum estímulo à participação na principal manifestação pública de protesto social: o Grito dos Excluídos. Criado pela própria Igreja Católica como contraponto ao ufanismo que acompanha a parada militar e civil do Dia da Pátria, ele já está em sua 23ª edição. Sem violência, com criatividade, humor e senso crítico, ele acontece logo após o encerramento das comemorações oficiais mostrando o avesso da realidade brasileira. Vários grupos de cristãos participam desse ato, marcando sua presença entre os excluídos e excluídas do banquete do mercado.
Desconheço o processo que levou a CNBB a pedir oração e jejum mas não apoiar o ato público que acontecerá nas ruas de muitas cidades brasileiras, porque esse silêncio desclassifica o Grito dos Excluídos como legítima manifestação de protesto contra o “momento triste, marcado por injustiças e violência” a que se refere a mesma carta aos bispos. Desconfio, porém, que esse silêncio obsequioso sinaliza o recolhimento da Igreja Católica para dentro de si mesma – no aconchego dos templos e dos lares – na direção inversa da que pede Francisco: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. (A Alegria do Evangelho, 49).
Se essa hipótese é verdadeira, torna-se preocupante o atual momento eclesiástico porque sinaliza divergência entre a orientação pastoral dada pelo Papa e uma das principais Conferências Episcopais do mundo. Espero, portanto, estar enganado nesta análise da CNBB. Os fatos vindouros darão a resposta.

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.