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sexta-feira, 11 de março de 2022

Atualização do que significa o jejum para hoje

 Leonardo boff


 

        O Papa Franciscoo entende o cristianismo não como um fóssil do passado, mas como um organismo vivo que se relaciona sempre com o tempo presente e se renova. É então que ele mostra sua permanente atualidade e enriquece o sentido de nossa vida.

Assim fez com o jejum que os católicos costumam fazer na quarta-feira de cinzas, após o carnaval e no começo da quaresma (os 40 dias que antecedem à páscoa) e na sexta-feira santa na qual se recorda a morte de Jesus na cruz.

O jejum é uma constante em todas as tradições religiosas. Seu significado transcende o não tomar alimentos e não beber água. Renuncia-se a eles, fundamentais para a vida, para repensar o sentido da vida e se perguntar pelo lugar que Deus ocupa em sua vida. Os grandes nomes da nossa tradição judaico-cristã jejuaram. Assim Moisés, João Batista, São Paulo, Jesus e Francisco de Assis entre tantos outros.

Chuang-Tzu fala do jejum do coração que é a origem da unidade interior e da liberdade do espírito. É fazer-se, por um momento, uma janela que é uma parte vazia da parede mas que, por causa dela, toda a sala se enche de luz (Thomas Merton, A Via de Chuang-Tzu, Vozes,1993,71-72).

Vejamos a inteligente atualização do jejum pelo Papa Francisco.

1- *Cumprimente* sempre e em todo lugar.

 2- *Dar graças*  (mesmo que não “devas” ou deseje fazê-lo).

 3- Lembre às pessoas o quanto você os *ama*.

 4- *Cumprimentar com alegria* às pessoas que você vê todos os dias.

5- *Ouvir* o que o outro tem a dizer, sem pré julgamentos, *com amor*.

 6- Parar para *ajudar*. Estar *atento a quem precisa* de você.

 7- *Animar* a alguém

 8- *Comemorar as qualidades e os êxitos* do outro.

 9- *Separar* o que não usa e *doar* a quem necessita.

 10- *Ajudar quando necessário* para que o outro descanse.

 11- *Corrigir com amor*, não calar por medo.

12- *Ter boas relações* com os que estão *perto de você*.

13 – *Limpar o que usar em casa*. 

14- *Ajudar os outros a superar obstáculos*.

 15- *Telefonar* para seus pais, se tiver a felicidade de tê-los.

Em seguida, confere um conteúdo concreto ao jejum.

• *Jejue de palavras ofensivas* e transmita palavras gentis.

• *Jejue de descontentamentos* e  se encha de gratidão.

• *Jejue da raiva* e encha-se de mansidão e paciência.

• *Jejue de pessimismo* e se encha de esperança e otimismo.

• *Jejue de preocupações* e encha-se de confiança em Deus.

• *Jejue de queixas* e se encha das coisas simples da vida

• *Jejue das pressões* e se encha de oração

• *Jejue das tristezas e amarguras* e encha de alegria o coração.

• *Jejue de egoísmo* e encha-se compaixão e pelos demais.

• *Jejue da falta de perdão* e encha-se de atitudes de reconciliação.

• *Jejue das palavras* e se encha de silêncio e de escuta aos outros.

Se todos nós tentarmos este jejum, o cotidiano se encherá de: 

Paz, de Confiança, de Alegria e deVida.

Não há o que comentar esses ousados preceitos, apenas tentar vivê-los com perseverança.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu com frei Betto Mística e espiritualidade, Vozes  2010.

 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A CNBB RECOLHIDA EM JEJUM E ORAÇÃO


Por Pedro A. Riberio de Oliveira

"Nada haveria de estranho no pedido de oração pelo Brasil, se ele fosse acompanhado de algum estímulo à participação na principal manifestação pública de protesto social: o Grito dos Excluídos", afirma Pedro A. Ribeiro de Oliveira, doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas.

Eis o artigo.


Quem acompanha atentamente a conjuntura eclesiástica percebe a polarização do episcopado brasileiro entre aqueles que assumem as lutas dos Movimentos Sociais por Terra, Teto e Trabalho, e os que defendem a ordem estabelecida hoje representada pelo governo federal. Entre esses dois polos encontra-se a maioria dos bispos e sua expressão oficial – a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.
CNBB conquistou prestígio na sociedade quando se colocou como “voz de quem não tem voz” durante a ditadura de 1964-84. A autoridade moral então adquirida contribuiu decisivamente para o êxito de movimentos da sociedade civil como a inscrição dos Direitos de Cidadania na Constituição de 1988, o combate à Fome e à Miséria, e a Ética na Política. Gradualmente, porém, ela foi-se retirando das mobilizações sociais e prestando-lhes um apoio pouco mais do que formal. No dia 10 de agosto, ao concluir a reunião do Conselho Permanente – instância que responde pelo conjunto do episcopado brasileiro entre as Assembleias Gerais – veio o sinal de que essa retirada atingiu novo patamar.

A Presidência da CNBB lançou uma nota acompanhada de uma carta aos bispos, onde diz: “Vivemos um momento difícil e de apreensão no Brasil. A realidade econômica, política, ética vem acompanhada de violência e desesperança. O Conselho Permanente, ao refletir o momento vivido, pediu que a Presidência enviasse carta ao irmão, sugerindo um Dia de jejum e oração pelo Brasil. Pediu igualmente que fosse enviada uma oração que pudesse ser rezada nas comunidades e famílias. O dia de oração e jejum sugerido é o dia 7 de setembro próximo.”
Nada haveria de estranho no pedido de oração pelo Brasil, se ele fosse acompanhado de algum estímulo à participação na principal manifestação pública de protesto social: o Grito dos Excluídos. Criado pela própria Igreja Católica como contraponto ao ufanismo que acompanha a parada militar e civil do Dia da Pátria, ele já está em sua 23ª edição. Sem violência, com criatividade, humor e senso crítico, ele acontece logo após o encerramento das comemorações oficiais mostrando o avesso da realidade brasileira. Vários grupos de cristãos participam desse ato, marcando sua presença entre os excluídos e excluídas do banquete do mercado.
Desconheço o processo que levou a CNBB a pedir oração e jejum mas não apoiar o ato público que acontecerá nas ruas de muitas cidades brasileiras, porque esse silêncio desclassifica o Grito dos Excluídos como legítima manifestação de protesto contra o “momento triste, marcado por injustiças e violência” a que se refere a mesma carta aos bispos. Desconfio, porém, que esse silêncio obsequioso sinaliza o recolhimento da Igreja Católica para dentro de si mesma – no aconchego dos templos e dos lares – na direção inversa da que pede Francisco: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. (A Alegria do Evangelho, 49).
Se essa hipótese é verdadeira, torna-se preocupante o atual momento eclesiástico porque sinaliza divergência entre a orientação pastoral dada pelo Papa e uma das principais Conferências Episcopais do mundo. Espero, portanto, estar enganado nesta análise da CNBB. Os fatos vindouros darão a resposta.

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.

sábado, 28 de março de 2015

JEJUM: UMA PRÁTICA EM DESUSO?

por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

                   
             
      Dizem que, enquanto um terço da humanidade passa fome, há pelo menos outro terço que come mais do que o necessário e sofre de obesidade.  E há outra expressiva quantidade de pessoas que vivem de dieta, fazendo regime para emagrecer, correndo atrás da última novidade para adquirir o corpinho das modelos que vê na televisão.  Sem falar no outro grupo de pessoas que adoece e morre de anorexia. Por outro lado, há o jejum, praticado por motivos religiosos, sobretudo, mas também éticos e políticos.
      Qual o sentido de jejum?  O dicionário nos ajuda com algumas definições: abstinência ou abstenção total ou parcial de alimentação em determinados dias, por penitência ou prescrição religiosa ou médica; privação ou abstenção de alguma coisa.
      Dentro de certas escolas filosóficas greco-romanas e fraternidades religiosas jejuar, como um aspecto de ascese, foi aproximado à convicção de que a humanidade tinha experimentado um estado primordial de perfeição que foi perdida por uma transgressão original. Por várias práticas ascéticas como jejuar, praticar a pobreza voluntária e a penitência, o indivíduo poderia restabelecer um estado onde a comunicação e a união com o divino foram tornadas possíveis novamente.
       Consequentemente, em várias tradições religiosas, um retorno a um estado primordial de inocência ou felicidade ativou várias práticas de ascese julgadas necessárias ou vantajosas, provocando tal retorno. Para tal se agrupa a suposição subjacente básica de que aquele jejum era de algum modo propício para iniciar ou manter contato com Deus. Em alguns grupos religiosos (por exemplo, Judaísmo, Cristianismo e Islã) jejuar gradualmente se tornou um modo de expressar devoção e adoração a um ser divino específico.
     Além da suposição subjacente básica de que jejuar é uma preparação essencial para revelação divina ou para algum tipo de comunhão com o transcendente ou o sobrenatural, muitas culturas acreditam que o jejum é um prelúdio em tempos importantes na vida de uma pessoa. Purifica ou prepara a pessoa (ou grupo) para maior receptividade em comunhão com o espiritual.
      Dentro da tradição judaica um só dia de jejum foi imposto pela lei de Moisés, o Yom Kippur, o Dia do Perdão (Lv. 16:29-34), mas foram acrescentados quatro dias adicionais depois do exílio babilônico (Zac. 8:19), a fim de fazer memória de desastres que tinham acontecido. As escrituras judaicas fixaram o jejum dentro do contexto da vigilância no serviço de Yahveh (por exemplo, Lv. 16:29ff.; Jz. 20:26), e foi considerado elemento importante como preliminar para profecia (por exemplo, Moisés jejuou quarenta dias no Sinai; Elias jejuou quarenta dias quando foi ao Horeb). 
    No entanto, a Bíblia também entende o jejum em outra chave de leitura: a prática da justiça e a solidariedade com os oprimidos.  O profeta Isaías, em seu capítulo 58, 3-10 diz:

    De que nos serve jejuar, se tu não vês,
  humilhar-nos, se não ficas sabendo?
  Ora, no dia do vosso jejum, sabeis fazer bom negócio
  e brutalizais todos os que por vós labutam.
  Jejuais, mas procurando contenda e disputa
  e golpeando maldosamente com o punho!
  Não jejuais como convém num dia
  em que quereis fazer ouvir no alto a vossa voz.
  Deve ser assim, o jejum que eu prefiro,
  o dia em que o homem se humilha?
  Trata-se por acaso de curvar a cabeça como um junco,
  de exibir na liteira saco e cinza?
  É para isto que tu proclamas um jejum,
  um dia favorável junto ao Senhor?
 O jejum que eu prefiro, acaso não é este:
  desatar os laços provenientes da maldade,
  desamarrar as correias do jugo,
  dar liberdade aos que estavam curvados,
  em suma, que despedaceis todos os jugos?
   Não é partilhar o teu pão com o faminto?
  E ainda: os pobres sem abrigo, tu os albergarás;
  se vires alguém nu, cobri-lo-ás:
  diante daquele que é a tua própria carne, não te recusarás.
 Então a tua luz despontará como a aurora,
  e o teu restabelecimento se realizará o bem depressa.
  Tua justiça caminhará diante de ti
  e a glória do Senhor será a tua retaguarda.
  Então tu clamarás e o Senhor responderá,
  tu chamarás e ele dirá: Aqui estou!
  Se eliminares de tua casa o jugo,
  o dedo acusador o , a palavra maléfica,
   se cederes ao faminto o teu próprio bocado,
  e se aliviares a garganta do humilhado,
  tua luz se levantará nas trevas,
  tua escuridão será como o meio-dia.

      Assim como o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, Jesus de Nazaré também relativiza o jejum formal (Mt. 6:16-6:18).  E justamente porque o primordial é a prática da caridade. Vários textos neo-testamentários o demonstram (cf. Mt 6, 16-18), ao mesmo tempo em que afirmam que o dar de comer a quem tem fome não somente é o centro da mensagem evangélica, mas é critério fundamental para a salvação (cf. Mt 25, 36 ss).
      Esta síntese cristã da prática ascética do jejum não desapareceu da espiritualidade cristã.  Pelo contrário; tornou-se a prática ascética favorita dos monges do deserto. Homens e mulheres viram isto como uma medida necessária para livrar a alma dos apegos mundanos. A própria tradição cristã fixou e desenvolveu gradualmente jejuns sazonais, ou seja, próprios a uma determinada época do ano litúrgico.
      Nos tempos que correm, onde o consumo é estimulado até o paroxismo, onde as ânsias viscerais e os frenesis possuidores se multiplicam, há vários jejuns que, se praticados, nos farão imenso bem.  E refiro-me aqui não somente ao jejum alimentar.  Mas ao jejum dos vícios, legais ou ilegais, quais sejam: o álcool, o fumo, a internet em quantidade desordenada e excessiva, o jogo, o consumo desenfreado.  E tantos, tantos outros.  Neste movimento de despojamento que o jejum dos impulsos vários que nossa ânsia consumista inventa e estimula, estaremos mais livres para receber e perceber as graças que Deus nos dá e as necessidades e dores que o irmão sofre.
      Que um jejum sensato e criativo não seja uma prática em desuso para nós.  Eis um saudável testemunho a dar neste início de milênio.

A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 
   
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