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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO: CANÇÃO DA FOICE E O FEIXE - Pedro Casaldáliga por si mesmo



Memória dos 95 anos de nascimento do nosso querido Pedro Casaldáliga.

Dom Pedro Casaldáliga

 

– Colhendo o arroz dos posseiros de Santa Terezinha, perseguidos pelo Governo e pelo Latifúndio.

 

Com um calo por anel,

monsenhor cortava arroz.

Monsenhor “martelo

e foice”?

 

Me chamarão subversivo.

E lhes direi: eu o sou.

Por meu Povo em luta, vivo.

Com meu Povo em marcha, vou.

 

Tenho fé de guerrilheiro

e amor de revolução.

E entre Evangelho e canção

sofro e digo o que quero.

Se escandalizo, primeiro

queimei o próprio coração

ao fogo desta Paixão

cruz de Seu mesmo Madeiro.

 

Incito à subversão

contra o Poder e o Dinheiro.

Quero subverter a Lei

que pertence ao Povo em grei

e ao Governo em carniceiro.

(Meu Pastor se faz Cordeiro

Servidor se fez meu Rei.)

 

Creio na Internacional

das frontes alevantadas,

da voz de igual a igual

e das mãos enlaçadas...

E chamo a Ordem de mal

e ao Progresso de mentira.

Tenho menos paz que ira.

Tenho mais amor que paz.

 

... Creio na foice e no feixe

destas espigas caídas:

uma Morte e tantas vidas!

Creio nesta foice que avança

– sob este sol sem disfarce

e na comum Esperança –

tão encurvada e tenaz!

 

Pedro Casaldáliga, Creio na Justiça e na Esperança

Arte: Amadeo Valldepérez Coll

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Uma democracia que forçosamente está por vir

 Leonardo Boff


 

Estamos todos empenhados em salvaguardar uma democracia mínima diante de um presidente desvairado que continuamente a ameaça. Como vivemos uma crise geral, paradigmática e irremissível, convém já agora sonhar com outro tipo de democracia.

Parto de um pressuposto,segundo dados de cientistas sérios,de que enfrentaremos dentro de poucos anos, devido ao acelerado e irrefreável aquecimento climático, grave risco de sobrevivência da espécie humana. A Terra será outra. Se quisermos continuar sobre este planeta temos que, por primeiro, minorar os efeitos danosos, com ciência e técnica e por fim, elaborarmos um outro paradigma civilzatório, amigável à vida e sentidono-nos irmãos e irmãs de  todos os demais seres vivos. Pois possuimos com eles o mesmo código  genético de base. Dizem-me:”você é pessimista”! Respondo com Saramago:”não sou pessimista; a realidade é que é pésssima” Já em 1962 a bióloga estadunidense Rachel Carson em seu famoso “A primavera silenciosa“(Silent Spring) advertia sobre a crise ecológica e concluía:”A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida sem destruir a si mesma e em perder o direito de ser chamada de civilização“. Por isso a urgência de mudarmos de paradigma e de modelo de democracia.

Dentro deste contexto realista proponho a urgência  de um outro tipo de democracia: a sócio-ecológica. Ela representaria a culminância do ideal democrático.

Subjacente a ela vigora também ideia originária de toda a  democracia:tudo o que interessa a todos e a todas deve ser pensado e decidido por todos e por todas.

Há uma democracia direta em pequenas comunidades. Quando são maiores, projetou-se a democracia representativa. Como, geralmente, os poderosos a controlam, propôs-se uma democracia participativa e popular  na qual os do andar de baixo podem participar na formulação e acompanhamento das políticas sociais. Avançou-se mais e descobrimos a democracia comunitária, vivida pelos povos andinos, na qual todos participam de tudo dentro de uma grande harmonia ser humano-natureza. Viu-se que a democracia é um valor universal (N.Bobbio) a ser vivida cotidianamente, uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos). Face ao risco da eclipse da espécie humana, todos para se salvar se  uniriam ao redor da superdemocracia planetária (J.Attali).

Mais ou menos nesta linha, penso numa democracia sócio-ecolôgica.Os sobreviventes das mutações da Terra, estabilizando seu clima médio por volta de 40 ou mais graus Celsius, como forma de sobrevivência, forçosamente, terão que  a se relacionar em harmonia com a natureza e com a Mãe Terra. Dai se propõem a constuir uma democracia sócio-ecológica. È social por envolver a toda a sociedade. É ecológica porque o ecológico será o eixo estruturador de tudo.Não como uma técnica para garantir a sustentabilidade do modo de vida humana e natural mas como uma arte, um novo modo de convivência terna e fraterna com a natureza. Não obrigarão mais a natureza a adaptar-se aos propósitos humanos. Estes se adequarão aos ritmos da natureza, cuidando dela, dando-lhe repouso para se regenerar. Sentir-se-ão não apenas parte da natureza mas a própria natureza, de sorte que cuidando dela, estão cuidando de si mesmos, coisa que os indígenas já sabiam.

Esse tipo de democracia sócio-ecológica possui um base cosmológica. Sabemos pela nova cosmogênese, pelas ciências do universo,da Terra e da vida que todos os seres são interdependentes. Tudo no universo é relação e nada existe fora da relação A constante básica que sustenta e mantém o universo ainda em expansão  é constituída pela sinergia,pela simbiose e pela inter-retro-relacionalidade de todos com todos. Mesmo a compreensão de Darwin da sobrevivência dos mais adaptado se inscreve dentro desta constante universal. Por isso cada ser possui o seu lugar dentro do Todo. Até o mais débil pelo jogo das interrelações tem sua chance de sobreviver.

A singularidade do ser humano e isso foi comprovado pelos neurólogos, geneticistas, bioantropólogos e cosmólogos, é comparecer como um ser-nó-de-relações, de amorosidade, de cooperação, de solidariedade e de compaixão.Tal singularidade aparece melhor quando a comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas com 1,6% de carga genética. Eles possuem também uma vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e hierarquização. Mas nós nos diferenciamos deles pelo surgimento da cooperação. Concretamente, quando nossos ancestrais humanóides saiam para buscar seus alimentos, não os comiam individualmennte. Traziam-nos para o grupo e viviam a comensalidade solidária. Esta os fez humanos, seres de amor de cuidadeo e cooperação.

A ONU admitiu que tanto a natureza quanto a Terra são sujeitos de direitos.São os novos cidadãos com quais devemos conviver amigavelmente. A Terra é uma entidade biogeofísica, Gaia, que articula todos os elementos para continuar viva e produzir todo tipo de vida. Num momento avançado de sua evolução e complexidade, ela começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Surgiu,então, o ser humano, homem e mulher que são a Terra pensante e amante.

Ela se organizou em sociedades, também democráticas, das mais diferentes formas.Mas hoje porque soou o alarme ecológico planetário devemos, com sabedoria,  forjar uma democracia diferente, a  sócio-ecológica.

Se quiermos sobreviver juntos, esta democracia se caracterizará por ser uma biocracia, uma geocracia, uma sociocracia, uma cosmocracia, em fim, uma democracia  ecológico-social ou sócio-ecoógica. O tempo urge. Devemos gerar uma nova consciência e nos preparamos para as mudanças e adaptação que não tardarão em chegar.

Leonardo Boff escreveu com Jürgen Moltmann “Há esperança para a criação ameaçada? Vozes 2014.

 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Por trás dos nossos desejos de feliz ano novo

 


 


Marcelo Barros

 

Nestes dias, costumamos compartilhar entre nós os melhores votos para este ano que vai começar. No entanto, não basta formular desejos de feliz ano novo para que, magicamente, o tempo traga alegria e vida mais feliz. De fato, como falar em paz e justiça, como tornar verdadeiros os votos de feliz ano novo em um mundo no qual, apenas duas mil pessoas superprivilegiadas possuem o mesmo que quatro bilhões e setecentos milhões de seres humanos?

 Pelos atuais cálculos da FAO, organização da ONU contra a fome, a cada minuto, ao menos onze pessoas no mundo podem morrer de fome. Mesmo nos Estados Unidos, em meio à ilha de riqueza, prosperidade e ostentação, se calculam que, neste momento, 50 milhões de pessoas vivem em condições de grande pobreza. Ao mesmo tempo, o mundo afunda em uma crise ambiental cada vez mais profunda e não parece libertar-se agora da pandemia. Isso sem falar na tragédia das migrações.

Em meio a essa realidade, na última década, é inexplicável que, em todos os continentes, os governos tenham duplicado suas despesas militares. Para 2022, o orçamento a ser gasto com armamentos chega a dois trilhões de dólares. As grandes potências projetam armas com raios invisíveis que influenciam diretamente a mente das pessoas e constroem robôs inteligentes, capazes de decidir o momento de atacar e têm autonomia para matar seres humanos.

No Brasil, a imprensa noticia que um coletivo de empresários continua apoiando o atual governo. A elite financeira colabora ativamente para que o Brasil e o continente latino-americano se mantenham com governos de extrema-direita que cultuam Hitler, Mussolini e ditaduras militares. Ao mesmo tempo, em todas as Igrejas, crescem setores e movimentos religiosos que cultuam Deus como se fosse símbolo do poder ditatorial e dos privilégios de classe, raça e sexo.

De fato, há quem se pergunte se o Brasil tem saída e se o mundo atual ainda tem salvação. Nossa esperança não vem de uma análise da realidade, pois esta, para ser verdadeira, só pode ser muito pessimista. Nossa esperança vem da nossa fé na vida, no ser humano e no Amor Divino que fecunda o universo e está adormecido no coração das pessoas. Assim como a saúde da árvore está principalmente nas raízes, as opções fundamentais da sociedade são alicerçadas na cultura. O Capitalismo, antes de ser um sistema econômico no qual tudo, até as pessoas têm preço, é uma cultura, um modo de olhar a vida. Se trabalhamos para transformar essa cultura, podemos confiar na possibilidade de transformar o mundo. No ano passado, em sua mensagem, o papa tinha proposto a "cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer". Neste ano, em sua mensagem para o dia 1º de janeiro, Dia Mundial da Paz, o papa propõe: "Educação, trabalho, diálogo entre as gerações: instrumentos para a construção de uma paz duradoura".

Os movimentos populares sabem que essa transformação provocada pela educação, pelo diálogo entre as gerações e pela valorização do trabalho não ocorrerá de cima para baixo. Não será feito por programas governamentais e sim a partir das bases da sociedade.

Nestes dias, o Cristianismo celebra a memória do nascimento de Jesus. É um modo de proclamar que a salvação da humanidade vem das periferias do mundo e da pequenez de um presépio. É preciso que cada um/cada uma de nós redescubra no mais fundo do seu ser o presépio de palhas que, mesmo pobre, acalenta o ser humano novo que nasce em nós e para um novo mundo possível. Como dizia na Índia, o Mahatma Gandhi: Comece por você a mudança que deseja para o mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

 

 

 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Por uma Economia a serviço da Vida

   Por Francisco de Aquino Júnior 


 

Celebramos no dia 14 de novembro o Dia Mundial dos Pobres. Esse dia foi instituído pelo Papa Francisco em 2016 para recordar à Igreja a “predileção de Jesus pelos pobres” e para que “as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e mais carentes”.

Esse apelo evangélico de Francisco ecoa com muita força no atual contexto de crescimento da pobreza e da miséria em nosso país. Se a desigualdade social sempre foi a característica mais determinante de nossa sociedade, ela se tornou ainda mais dramática e escandalosa nos últimos tempos com a redução/destruição das políticas sociais nos governos Temer-Bolsonaro e com a pandemia da Covid 19. Estudo realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional revela que mais de 50% da população brasileira vive em situação de insegurança alimentar. Dados do Ministério da Cidadania (junho de 2021) indicam que 23% da população brasileira vive em situação de pobreza ou miséria. No Nordeste esse índice chega a 40%.

O mais grave e escandaloso é que isso se dá num contexto de recordes de safra do agronegócio e de lucro dos grandes bancos. Enquanto o Brasil volta ao mapa da fome, o agronegócio e os bancos se enriquecem cada vez mais. O município de Limoeiro do Norte – CE, por exemplo, com o segundo maior PIB agropecuário do Estado, tem 35% de sua população vivendo em situação de pobreza ou extrema pobreza. Mais de 50% do orçamento federal esse ano já foi gasto com juros e amortizações da dívida “pública”. Isso mostra que crescimento econômico não significa melhoria de vida da população e que a política econômica do país está voltada para os interesses dos grandes grupos econômicos. E exige empenho de todos na luta por uma política econômica que esteja a serviço das necessidades da população.

É muito importante o esforço e a criatividade de cada pessoa/família para garantir o seu sustento: produção, comércio, serviços, arte, bicos etc. É muito importante a solidariedade de nossas comunidades, de outras igrejas e religiões e de outros grupos da sociedade com essas pessoas/famílias em situação de pobreza ou miséria: alimentos, medicamentos, necessidades emergenciais etc. E são muito importantes as experiências e articulações de economia popular solidária no campo e na cidade: tecnologias sociais, agroecologia, feiras populares, cooperativas etc.

Mas nada disso substitui a necessidade e o dever do Estado de elaborar e garantir uma política econômica voltada para a satisfação das necessidades da população. Uma política econômica que articule ações emergenciais (Bolsa Família, Bolsa Catador, equipamentos sociais para população de rua etc.) e ações mais estruturais (reforma agrária e urbana, reforma tributária, proteção ambiental, direitos trabalhistas, geração de emprego, moradia, saúde, cotas para negros etc.) com a macropolítica econômica do país (voltada para as necessidades do povo e não para os grandes grupos econômicos) e o empenho por uma nova ordem econômica mundial (taxação do mercado financeiro, justiça ambiental, organismos políticos de controle da economia etc.). Cada uma dessas medidas tem a sua importância. Basta pensar no impacto que um programa como o Bolsa Família tem na vida das famílias beneficiárias e na economia local. No Vale do Jaguaribe – CE, por exemplo, ele atinge cerca de 38% da população. Mas ele precisa estar articulado com outras ações mais estruturais e com a macropolítica do Estado.

Todos sabemos que isso não é fácil nem se dá de uma hora para outra. É preciso muito empenho e organização dos setores populares e articulação com outras forças da sociedade. Não podemos nos iludir, esperando que essa mudança venha das classes dominantes e das forças políticas que representam seus interesses. Ela vem de baixo, da resistência e das lutas cotidianas do povo. Ganha força na medida em que vai gerando e fortalecendo articulação dos setores populares, sensibilizando outros setores da sociedade, interferindo nos rumos da política nacional e fortalecendo a solidariedade internacional. Está em jogo uma forma de entender (mentalidade) e de organizar (política) a economia que esteja a serviço da satisfação das necessidades do povo e não dos interesses dos grandes grupos econômicos: Uma economia a serviço da vida!

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Uma espantosa revelação, vivida por poucos e recusada por muitos (II)

 

Leonardo Boff 


A primeira palavra de Jesus quando apareceu publicamente foi: “O Reino tão ansiado foi aproximado e mudem de mente e de coração” (Cf.Mc 1,14). Reino, contrariamente à expectativa dos judeus, não era o restabelecimento da antiga ordem, a libertação política contra a dominação romana que tanto os envergonhava. Reino de Deus, para Jesus, é outra coisa: consiste numa nova relação de amorosidade  entre as pessoas, incluindo a todos, até os ingratos e maus (Lc 6,35). O que prevalece agora é essa proximidade de Deus (ele se fez o mais próximo dos próximos) feita de amor e de  misericórdia ilimitada.

Nâo há uma condenação eterna, só temporal.

A condenação é invenção das sociedades. Deus não conhece uma condenação eterna, pois sua misericórdia é sem limites.Se houvesse uma condenação eterna, Deus teria perdido. Ele não pode perder nunca nada “daquilo que ele criou com amor, pois, não odeia nenhum ser  que pôs na existência senão não o  teria criado, porque é o apaixonado amante da vida” (cf. Sab 11,24-26). Deixa as 99 ovelhas resguardadas e vai  em busca da tresmalhada até encontrá-la.

Atesta-o o salmo 103, dos mais esperadores textos bíblicos:”Deus não está sempre acusando.Como um pai sente compaixão pelos filhos, assim ele se compadece…porque conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó; sua misericórdia é de sempre para sempre”(Sl 103- 6-17).

Esta mensagem inovadora de Jesus – a proximidade incondicional e a misericórdia ilimitada do Deus-Abba  –  foi e é tão inovadora que foi e é vivida por poucos  e é rejeitada pela grande maioria, como ocorreu no  tempo em que ele perambulava pelas pedregosas estradas da Palestina.Não se deve esquecer que  foram os políticos mas principalmente os  religiosos que condenaram e levaram à cruz. Nas palavras do Pe.Júlio Lancellotti  somos desafiados a viver  o “amor à maneira de Deus”(título de seu livro, Planeta, 2021) começando pela população de rua, pelos discriminados por causa da cor de sua pele ou de sua origem os quilombolas, as mulheres lésbicas, os homoafetivos e os LGBTI, os pobres covardemente odiados pela “elite do atraso”,(a maioria apenas culturalmente cristã mas a séculos luz da Tradição de Jesus),ignorantes da amorosidade e da proximidade  do Deus-Abba  para com eles também.

A grande tragédia vivida por Jesus foi o fato de  que essa proximidade de Deus amoroso, não foi acolhida:“veio para o que era seu, e os seus não receberam”(Jo 1,11). Por isso o crucificaram, porque não houve correspondência. Essa recusa se prolonga pelos séculos até aos dias de hoje, talvez com mais ferocidade ainda, pois o ódio e a discriminação campeiam pelo vasto  mundo.

Não importa. Embora se sentisse Filho do Deus-Abba identidcando-se com Ele “não fez caso dessa situação de Filho bem amado; por solidariedade apresentou-se como simples homem na condição de servo, aceitando o mais vergonhoso castigo,  morrer na cruz que significava morrer na maldição divina (cf. Flp 2,6-8).

A grande recusa da proximidade de Deus

Por causa do amor que lhe ardia dentro, Jesus assumiu sobre si, solidariamente, esse tipo de morte amaldiçoada e todas as  dores do mundo; todo tipo de maledicência contra ele, suportou  a traição dos  apóstolos, Judas e Pedro, a sorte  daqueles que já não creem ou se sentem abandonados por Deus e até recebeu séria ameaça de morte que depois se efetivou. Como tantos no mundo, ele também foi tomado de angústia e de pavor, a ponto de “o suor tornou-se grossas gotas de sangue”(Lc 22,41) como no Jardim do Getsêmani. Na cruz quase no limite do desespero do qual muitos são também tomados e ele o quis em comunhão com todos eles, sentir também, gritou:”Meu Deus, por que me abandonaste”(Mc 15,34)? A proximidade de Deus estava  em  Jesus mas recolhida, para que ele pudesse participar do inferno humano da morte de Deus, sofrida por não poucas pessoas. Todos estes, não estarão jamais sozinhos. O credo cristão reza que “ele desceu aos infernos”, significa: sentiu estar absolutamente só, sem que ninguém o pudesse acompanhar. Mas o Deus-Abba estava também lá como ausente. Desde este momento ninguém estará sozinho no inferno da absoluta solidão humana.Jesus esteve e estará com todos eles.

A ressurreição de Jesus que representa uma verdadeira insurreição contra a religião da Lei e a justiça do tempo, comparece como um clarão  que vai mostrar, em total plenitude, esta proximidade de Deus que nunca se ausentou. Ela estava totalmente lá, sofrendo com os que sofrem. Os negadores e os  ateus tem a liberdade de serem o que são, de não acolherem ou sequer saberem desta proximidade de Deus, mas isso não muda nada para  Deus-Abba  que nunca os abandona porque não deixam de serem  seus filhos e filhas, sobre os quais repete:”Vocês são meus filhos e filhas bem amados com vocês me regozijo”.

Mas cabe ponderar: se não puderem enxergar uma estrela no céu límpido, a culpa não é da estrela, mas de seus olhos. Pelo fato do  amor ilimitado e da misericórdia sem fronteiras são também eles abraçados por Deus-Abba embora se neguem de abraçá-lo. Mesmo não vista, a estrela estará brilhando.

O verdadeiro e real cristianismo é viver esta Tradição de Jesus. A maioria das igrejas cristãs, não excluída a romano-católica, se organizam redor do poder sagrado que cria desigualdades, firmada sobre um grosso livro doutrinário chamado de Catecismo,  vinculadas a certa ordem moral, à uma vida piedosa, à recepção dos sacramentos, à   participação nas festas litúrgicas.Tudo isso não é sem importância. Mas difícil e raramente se propõem a viver o amor incondicional e ensaiar amar à moda de Deus e à moda de Jesus, privilegiando aqueles que ele privilegiou, os últimos, os que não são, nem contam. Onde impera o poder, não viceja o amor nem floresce a ternura e a proximidade do Deus-Abba e de sua misericórdia, sempre  presentes.

Não há como negar que, historicamente, grande parte da Igreja romano-católica estava mais perto dos palácios do que da gruta de Belém, mais considerando o madeiro da cruz do que aquele que lá está crucificado por solidariedade com todos, com os perdidos e caídos nas estradas.

A grande inversão: a conversão do pai e não do filho pródigo

Como tudo seria diferente neste mundo se esta inaudita revolução tivesse prosperado em nosso mundo. Não haveria o que estamos assistindo em nosso país e, em geral, em tantas partes, a prevalência do ódio, da discriminação, da violência contra os que não podem se defender e especialmente hoje contra a natureza que nos garante as bases que sustentam a vida e a Mãe Terra.

Por esta razão, Jesus, mesmo ressuscitado, continua se deixando crucificar com todos os crucificados da história sob as mais diversas modalidades.

A parábola do filho pródigo revela como é a Tradição de Jesus. O fato novo e surpreendente não é a conversão do filho que volta arrependido para a casa do pai.  Mas a conversão do pai que,cheio de misericórdia e amor, abraça, beija e organiza uma festa para  filho, esbanjador da herança. O único criticado é o filho bom, seguidor da Lei. Tudo nele era perfeito, Para Jesus, não bastava, porém, ser bom. Faltava-lhe o principal: a misericórdia e o sentimento da proximidade do Deus-Abba até em seu irmão perdido pelo mundo.

O futuro da revolução espantosa de Jesus

Experimentamos tudo na já longa história humana, mas ainda não experimentamos coletivamente amar à moda de Jesus e do Deus-Abba. No entanto, muitos homens e mulheres o entenderam e viveram: estes são os verdadeiros portadores do legado de Jesus, os testemunhos da proximidade de Deus, especialmente àqueles referidos pelo evangelho de São Mateus: ”eu era forasteiro e me hospedaste, estava nu e me vestiste,  estava com fome e me destes  que comer, esta na cadeia e me visitaste”(Mt 25,34-30). Nisso  se revela a Tradição de Jesus que se sentia tão unido ao Deus-Abba a ponto de dizer: “Quem me viu, viu o Pai”(Jo 14,9). E diz a todos estes: ”Todas as vezes que  fizestes a  um destes meus irmãozinhos e irmãzinhas menores, foi a mim que o fizestes (Mt 23,40).

Chegaremos um dia ver acolhida a proximidade de Deus, indistintamente da situação moral, política e ideológica das pessoas (pensemos nos torturadores das ditaduras militares) mesmo que o recusem explicitamente e abusam de  seu nome (como o  nosso chefe de Estado, inimigo da vida)? Ganhará centralidade  esta verdadeira revolução transformadora do mundo?

Francisco de Assis e Francisco de Roma, junto com um exército de pessoas, muitas delas anônimas, ousaram esta aventura, acreditaram e acreditam que por aí passa a libertação dos seres humanos e a salvaguarda da vida e da Mãe Terra  ameaçadas. A gravidade da situação atual nos coloca esta disjuntiva: ”ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” como o Papa Francisco  o diz enfaticamente na Fratelli tutti (n.32). A Mãe Terra se encontra em permanente dores de parto até que nasça, naquele dia que só Deus sabe quando, o ser novo, homem e mulher, juntos com a natureza, habitarão  a única Casa Comum. Então como profetizou um filósofo alemão do princípio esperança, que “o verdadeiro Gênesis não se encontra no começo mas no fim”. Só então “Deus viu tudo quanto havia feito e achou que estava muito bom”(Gen 1,31).

Ou faremos esta conversão ao sonho do Nazareno que nos trouxe a novidade da proximidade de Deus(o mais próximo dos próximos) que sempre está em nossa busca, mesmo nas sombras do vale da morte, ou então devemos temer por nosso futuro. Ao invés de sermos os cuidadores do ser, fizemo-nos sua ameaça mortal. Mas aquele que está no meio de nós e jamais retira sua proximidade,  tem o poder de, das ruínas, forjar um novo céu e  uma nova Terra. Então tudo isso terá passado. As lágrimas serão enxugadas e todos serão consolados por Deus-Abba. Começará a verdadeira história de Deus-Abba com seus filhos e filhas bem  amados pela eternidade afora.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Jesus Cristo Libertador (Vozes,1972/2012); Paixão de Cristo-paixão do mundo (Vozes(2012): A nossa ressurreição na morte(Vozes 2010).

 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Uma espantosa revelação, vivida por poucos e recusada por muitos (I)

                                             Leonardo Boff


Nas religiões, os seres humanos buscam a Deus.Na Tradição de Jesus é Deus que busca os seres humanos. Na primeira, o fazem pela oração oral, pela meditação silenciosa, pela observância dos preceitos religiosos e éticos, pela participação das festas e dos ritos e pela memória das tradições. Quanto mais reta e fiel for a pessoa, mais meritoriamente chega a Deus.

Na Tradição de Jesus ocorre o contrário: É Deus que busca o ser humano, especialmente aquele que se sente perdido, que não leva uma vida   virtuosa e que julga ter sido abandonado por Deus. Logicamente, nesta Tradição também se reza e se conservam as tradições religiosas, se vive eticamente e se frequentam os cultos e as festas. Englobando tudo: observa-se a Lei. Mas não é aqui que reside a novidade.E não é por esses meios que acolhemos a singularidade trazida por Jesus.

A  experiência originária de Jesus: a proximidade de Deus

 

Num obscuro vilarejo,Nazaré, tão insignificante que nunca ocorre nas Escrituras do Antigo  Testamento, vive um homem desconhecido cujo nome nunca constou na crônica profana da época, seja de Jerusalém, seja de Roma. Ele pertence ao grupo dos chamados “os pobres de Javè” que são os humildes e invisíveis mas cuja característica consiste em viver uma profunda fé no Deus dos pais, Abraão,Isaac e Jacó  e uma inabalável confiança em Deus de que vai realizar o que os profetas anunciaram:a justiça para os pobres, a proteção das viúvas e a elevação dos humilhados e ofendidos. Esse homm é Jesus de Nazaré.

De profissão é um artesão-carpinteiro como seu pai José. Até a idade adulta viveu na família a espiritualidade dos pobres de Javé.Era conhecido no vilarejo como “o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe”(Jo 6,42) ou simplesmente “o carpinteiro, filho de Maria” (Mt 5,3) ou “o filho de José”(Lc 4,22).

Mas ele mostrava uma singularidade que deixou perplexos os pais.Não chamava a Deus como se costumava, mas de uma forma bem própria: de Abba o diminutivo infantil de “meu querido paizinho”. Isso ficou claro quando aos 12 anos participou, com os  pais, da romaria anual a Jerusalém e por lá ficou perdido. Encontrado, sob a angústia dos pais,diz:”Não sabíeis que eu devia ficar no casa do meu Pai (Lc 2,50)? Perplexos, seus pais não entenderam esta linguagem inaudita (Lc 2,5). Maria, no entanto, guardava-o em seu coração (Lc 2,51). E tudo morreu ai. Não se sabe nada de sua vida oculta,  profissional e familiar. Apenas o evangelista Lucas observa tardiamente pelos anos 80 dC:”Jesus progredia em idade, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”(Lc 2,52).

Abstraindo os evangelhos da infância de Mateus e de Lucas, carregados de significação teológica posterior, todos os evangelistas começam suas narrativas pelo batismo de Jesus por João Batista. Foi então, testemunham os relatos, que ocorreu uma  grande transformação na vida do ignoto Nazareno. Quando ele ouviu a fama de João Batista, vindo do deserto, que batizava junto ao rio Jordão, não por curiosidade mas por seu espírito profundamente piedoso, se uniu à multidão e foi também ver João e o que estava acontecendo por lá. Multidões acorriam de toda a Palestina, pois o Batista pregava a iminente vinda do Reino (a nova ordem querida por Deus) e cobrava do  povo penitências em vista desta irrupção. Provavelmente Jesus tenha conversado com ele e com  seus discípulos. 

Mas chegou o momento em que junto com a multidão e não sozinho como mostram as gravuras, Jesus entrou na água. A um sinal do Batista, ele mergulhou na água e assim se deixou batizar, como faziam todos.Mas eis que ocorreu nele algo especialíssimo. Depois de batizado, enquanto rezava, diz o texto de Lucas (3,21), sentiu um tremendo frêmito interior. Foi invadido por uma onda de ternura tão avassaladora que comoveu todo seu interior:”Tu es meu filho amado, em ti pus meu agrado”(Mc 1,10-11). Lucas é mais explícito e diz o que Jesus ouviu:“Tu és meu Filho amado, eu hoje te gerei”(Lc 3,21-22).

A linguagem bíblica expressa a experiência interior usando expressões pictóricas e simbólicas: o céu se abriu e se viu o Espírito descer sobre ele em forma corpórea de pomba.

Trata-se de uma encenação plástica  para expressar uma radical e originalíssima experiência espiritual, vivida por Jesus, impossível de ser expressa por palavras. A partir daí ocorreu uma verdadeira revolução em sua vida: sente-se filho amado pelo Deus-Paizinho querido. É invadido por uma paixão de amor divino que transtornou sua vida. Experimentou uma absoluta e direta proximidade de Deus. Não é mais ele que busca Deus. É Deus que o buscou e o assumiu como seu filho querido.

 

A espantosa revolução: a proximidade amorosa do Deus-Abba

 

Como em todas as coisas tudo conhece um processo. Com Jesus não foi diferente.Foi lentamente se dando conta da proximidade de Deus, consoante a idade, até irromper em plena consciência ao se batizar no rio Jordão na idade de 30 anos. Uma coisa é ser objetivamente o Filho bem amado de Deus e outro é subjetivamente dar-se conta desse fato. No batismo no rio Jordão, ocorreu esse salto da consciência por ocasião dessa visitação concretíssima do Deus-Abba.

 

Aqui se encontra a grande singularidade relatada pelos evangelistas: testemunhar a proximidade de Deus, do Deus que busca intimidade com o ser humano, com  Jesus de Nazaré. Essa proximidade é com todos os seres humanos, independentemente de sua condição moral e situação de vida. Trata-se do transbordamento gratuito do amor de Deus para com todos os seus filhos e filhas.

Com isso se inaugura um novo caminho, diverso daquele da observância da Lei e das distinçõe que se fazem entre bons e maus, justos e injustos. Estas coisas têm lá sua razão de ser na convivência humana. Mas não é por ai que Deus vê e julga os seres humanos. Seu olhar e sua lógica é totalmente outra como se revelou em  Jesus,membro grupo dos pobres de Javé.Nele irrompe um amor  divino ilimitado a começar por  aquele que nunca falam,que não frequentaram algum escola de  teologia, no máximo, a escolinha bíblica junto à sinagoga. O Nazareno veio deste meio. Não pertence ao mundo dos letrados, dos juristas, da casta sacerdotal e de algum status social. É um anônimo,mais afeito ao trabalho das mãos do que ao uso da paalavra.

De repente tudo mundou: inundado pela proximidade amorosa de Deus põe-se a pregar com tal entusiasmo e sabedoria a ponto de os ouvintes comentarem: “Donde lhe vem tal sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro (Mc 6,23,Mt 13, 54-55)? Seus privilegiados são os pobres, sempre covardemente desprezados, come com os pecadores, aproxima-se dos cobradores de impostos,odiados pelo povo pois são aliados das forças de ocupação romana(Mc 2,216). Chamam-no até de comilão e beberão porque aceita o convite de comer na casa de pecadores (Mt 11,19). Rompe os tabus religiosos da época ao conversar com um mulher samaritana, ao defender outra mulher pega em adultério e deixar que seus pés sejam ungidos com raro perfume, beijados e com os cabelos  enxugando as lágrimas de Maria Madalena,tida de má fama.

Frequentando gente de má fama Jesus lhes mostra a proximidade de Deus

 

Por que faz isso? Porque quer levar a todos, especialmente a estes socialmente desqualificados, os hanseniano, os paralíticos, os cegos mas também  os pecadores públicos, os desesperados, a novidade de que Deus se aproximou de todos eles. Jesus, transbordando de amor do Deus-Abba vai a seus irmãos e irmãs e lhes anuncia essa novidade da proximidade incondicional de Deus que se fez para todos o “paizinho amoroso”. O decisivo não é a Lei e as tradições cuidadosamente observadas mas aceitar aquilo que Deus-Abba  disse a Jesus e que agora o repete para eles, pouco importa o que fazem na vida, como é sua condição religiosa e moral. Apenas lhes diz: “vós sois meus filhos e filhas amados em vós encontro meu regozijo”. Isso soa primeiramente como um espanto e depois como uma inaudita alegria e libertação. Dizem: eis a boa nova,eis o evangelho. Esta surpreendente pro-posta precisava e precisa de uma res-posta.Exige mudar a mente e o coração. E o foi? Eis a questão (segue).

 

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Jesus Cristo Libertador, Vozes,(1972/2012); Paixão de Cristo-paixão do mundo ,Vozses (2012): A nossa ressurreição na morte, Vozes (2010).

 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O PIOR ESTÁ AINDA POR CHEGAR

Leonardo Boff


As grandes enchentes ocorridas na Alemanha e na Bélgica em julho. mês do verão europeu, causando centenas de vítimas, associadas a um aquecimento abrupto que chegou em alguns lugares a mais de 50 graus, nos obriga a pensar e a tomar decisões em vista do equilíbrio da Terra. Alguns analistas chegaram a dizer: a Terra não se aqueceu; ela se tornou, em alguns lugares, uma fornalha.

Isso significa que dezenas de organismos vivos não conseguem se adaptar e acabam morrendo. Atualmente com o atual aquecimento que no último século cresceu em mais de um grau Celsius, e se chegar, como previsto, a dois graus cerca de um milhão de espécies vivas estarão à borda de seu desaparecimento depois de milhões de anos vivendo neste planeta.

Entendemos a resignação e o ceticismo de muitos meteórologos e cosmólogos que afirmam termos chegado tarde demais no combate ao aquecimento global. Não estamos indo ao encontro dele. Estamos gravemente dentro dele. Argumentam, desolados, temos pouco que fazer, pois o dióxido de carbono já está excessivamente acumulado, pois, permanece na atmosfera entre 100 a 120 anos, agravado pelo metano,20 vezes mais tóxico, embora fique por pouco tempo no ar. Por surpresa geral, ele irrompeu, devido  ao degelo das calotas polares e do parmafrost que vai do Canadá e atravessa toda a Sibéria.E fez crescer o aquecimento global.

A intrusão do Covid-19, por ser planetário. nos obriga a pensar e a agir de modo diferente. É notório que a pandemia é consequência do antropoceno, quer dizer, do excessivo avanço agressivo do sistema imperante, baseado no lucro ilimitado. Ele ultrapassou os limites suportáveis pela Terra. Pelo desmatamento à la Ricardo Salles/Bolsonaro, pelo cultivo de monoculturas e pela  geral poluição do meio ambiente, chegou-se a destruir o habitat dos vírus. Sem saber para onde ir, saltaram para outros animais, imunes dos vírus e deles passaram a nós que não possuímos esta imunidade.

Vale pensar o que significa o fato de que o inteiro planeta foi afetado, por um lado igualando a todos, e por outro aumentando as desigualdades porque a grande maioria não consegue viver o isolamento social, evitar as conglomerações, especialmente, no transporte coletivo e nas lojas. Não afetou os demais seres vivos, nossos animais domésticos.

Devemos reconhecer: os visados fomos nós humanos. A Mãe Terra,desde os anos 70 do século passado,. reconhecida como um organismo vivo, Gaia, e pela ONU (no dia 22 de abril de 2009) aprovada verdadeiramente como Mãe-Terra, nos enviou um sinal e uma advertência: “parem de agredir todos os ecossistemas que me compõem; já não me concedem o tempo suficiente para repor o que me tiram durante um ano e de me regenerar”.

Como o paradigma vigente considera a Terra ainda como um mero meio de produção, num sentido utilitarista, não estão prestando atenção a suas advertências. Ela, como super-orgnismo vivo, nos dá sinais inequívocos, como agora,, com as grandes enchentes na Europa, o excessivo frio no hemisfério sul e a gama de vírus já enviados (zica, ebola, chikungunya e outros).

Como somos cabeças duras e vige uma clamorosa ausência de consciência ecológica, podemos ir ao encontro de um caminho sem retorno.

Curiosamente, como já foi comentado por outros, “os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social  porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais”. O pior que nos poderia acontecer é voltar ao antes, cheio de contradições perversas, inimigo da vida da natureza e indiferente ao destino das grandes maioria pobres e se armando até os dentes com armas de destruição em massa, absolutamente inúteis face aos vírus.

Temos que forçosamente mudar, superar os velhos soberanismos que tornava os outros países  até hostis ou submetidos à feroz competição. O vírus mostrou que não contam para nada os limites das nações. O que, realmente, conta é a solidariedade entre todos e o cuidado de uns com os outros e para com a natureza, para que, preservada, não nos envie vírus ainda piores. Agora é da nova era da Casa Comum dentro da qual estão as nações.

David Quamen, o grande especialista em vírus, deixou esta advertência: ou mudamos nossa relação para com a natureza sendo respeitosos, sinergéticos e cuidadosos, caso contrário ela nos enviará outros vírus, quem sabe um tão letal que nossas vacinas não poderão ataca-los e levarão grande parte da humanidade.

Ao não determos o aquecimento global e ao não mudarmos de paradigma para com a natureza, conheceremos dias piores. Se não podemos mais deter o aumento do aquecimento global, com a ciência e a técnica que possuímos, podemos pelo menos mitigar seus efeitos deletérios e salvar o máximo da imensa biodiversidade do planeta.

Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos: devemos escolher entre seguir a mesma rota que nos leva a um abismo ou mudar forçosamente e garantir um futuro para todos, mais frugal, mais solidário e mais cuidadoso para com a natureza e a Casa Comum.

Já há 30 anos repito esta lição e sinto-me um profeta no deserto. Mas cumpro o meu dever que é de todos os que despertaram um dia.Devemos  falar e agora já gritar.

Leonardo Boff ecofilósofo e escreveu Habitar a Terra: a via para a fraternidade universal a sair pela Vozes dentro de pouco; Covid-19, a Mãe Terra contra-ataque a Humanidade, Vozes 2020.

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

POR JUSTA REFORMA TRIBUTÁRIA

 

Frei Betto


        Se a sociedade não se mobilizar, a reforma tributária proposta por Bolsonaro-Guedes promete tirar, a cada ano, R$ 32 bilhões dos trabalhadores com carteira assinada ao diminuir, de 8% para 6%, a contribuição patronal para o FGTS. (…)   É hora de o Brasil reagir. Deixar a banda ou a boiada passar é enfiar o pescoço (e o bolso) na guilhotina.

 

       A pandemia não apenas provocou crise sanitária no Brasil, mas aprofundou também a social. A pobreza aumenta. Dados divulgados pelo IBGE em 12/11 revelam que, em 2019, 51,7 milhões de brasileiros viviam na pobreza. Na extrema pobreza se encontravam 13,6 milhões de pessoas, com renda per capita inferior a R$ 151 mensais. Somos o nono país mais desigual do mundo.

       O governo não tem política econômica, a inflação está de volta, a precarização do trabalho e a perda de empregos causam redução de renda e ampliam a miséria. Nem são precisos dados do IBGE. Basta circular pelas cidades e se deparar com o crescente número de pessoas desamparadas.

       Hoje, em nosso país, 45,3 milhões de pessoas vivem em domicílios sem banheiro; 11 milhões dormem  com mais de três pessoas no mesmo quarto; 53 milhões não dispõem de saneamento básico; e 76 milhões ganham, no máximo, R$ 534 por mês. Dados dos indicadores sociais do IBGE/2019. 

       Honra e mérito a Eduardo Suplicy em sua luta incansável, há décadas, em prol da renda básica da cidadania, viável até mesmo como medida global. Se dividirmos o PIB Mundial (calculado em cerca de US$ 84 trilhões) pelos 7,2 bilhões de habitantes do planeta, chegaremos ao valor per capita de US$ 11.667,00. 

       É possível assegurar a cada brasileiro uma renda básica mensal? Sim, solução existe; não há é vontade política de implementá-la: tributar grandes fortunas, altos rendimentos, e grandes propriedades urbanas e rurais.

       Segundo Maria Regina Paiva Duarte, diretora do Instituto Justiça Fiscal, uma reforma tributária solidária, que taxe grandes fortunas e acabe com a desoneração a megaempresas, geraria justiça fiscal e receita anual de R$ 270 bilhões ao país, quantia que poderia ser revertida para a renda básica.

       De acordo com a revista Forbes, em 2012 o Brasil tinha 74 bilionários com patrimônio declarado de R$ 346 bilhões; em 2019, eram 206 com mais de R$ 1,2 trilhão. Os 10% mais ricos da população concentram em mãos 43% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais pobres apenas 1%. Se esses bilionários forem tributados conforme sua capacidade de contribuir, esses recursos poderiam ser deslocados para políticas públicas de redução de desigualdade.

       Dados publicados pela Receita Federal, referentes às declarações do Imposto de Renda das Pessoas Físicas de 2018, mostram que somente 0,2% dos contribuintes (60 mil pessoas) declarou bens acima de R$ 10 milhões. Estimativa conservadora indica que, aplicado o imposto apenas sobre a riqueza que ultrapassar esse limite, seria possível arrecadar aproximadamente R$ 40 bilhões ao ano.

       Outra medida que pode gerar recursos e contribuir para reduzir a injustiça tributária é modificar as faixas de alíquotas da tabela do Imposto de Renda das Pessoas Físicas, introduzindo alíquotas de 35%, 40% e 45% para rendas superiores a 40, 80 e 100 salários mínimos mensais, e aumentar o limite inferior de isenção de 2 para 3 salários mínimos mensais, desonerando mais de 10 milhões de contribuintes.

       A injustiça tributária no Brasil precisa ser corrigida, o que poderia ser feito com a isenção de impostos sobre lucros e dividendos distribuídos pelas empresas a seus sócios, que vigora desde 1995. Para se ter uma ideia do que esta prática resulta, quem ganha mais de R$ 300 mil por mês tem 70% de sua renda livre de impostos. E a maior parte das rendas muito altas decorre de lucros e dividendos distribuídos. É preciso acabar com essa desoneração, que só existe no Brasil e na Estônia. Esses rendimentos precisam ser submetidos à tabela do imposto de renda de pessoas físicas por isonomia de tratamento com rendimentos assalariados. É uma óbvia questão de justiça.

       Duas outras medidas seriam a criação de uma contribuição social sobre rendas altas, de 10%, com incidência imediata sobre os rendimentos das pessoas físicas que ultrapassarem R$ 600 mil mensais, e o aumento da alíquota máxima do imposto sobre heranças e doações para 30%.

       Os valores estimados de arrecadação com a adoção de todas essas medidas somariam R$ 270 bilhões. Uma tributação progressiva e, portanto, mais justa. Focar a diminuição da desigualdade apenas nos gastos com os mais pobres, como o Bolsa Família e o auxílio emergencial, revelou-se insuficiente nos últimos anos, além de não enfrentar a escandalosa concentração de renda e riqueza em nosso país.

       Se a sociedade não se mobilizar, a reforma tributária proposta por Bolsonaro-Guedes promete tirar, a cada ano, R$ 32 bilhões dos trabalhadores com carteira assinada ao diminuir, de 8% para 6%, a contribuição patronal para o FGTS. 

       Propõe ainda acabar com as deduções no imposto de renda com despesas médicas e de educação, para o governo abocanhar, por ano, mais R$ 20 bilhões. 

       O governo pretende também substituir o PIS/Cofins pelo CBS (Contribuições sobre Operações com Bens e Serviços), o que aumentará a carga tributária da classe média, pois irá onerar sobretudo quem paga escolas e cursos, e profissionais liberais em geral, como terapeutas, advogados, arquitetos, e os que trabalham na área da saúde. 

       E uma nova CPMF haverá de reduzir o poder de compra do brasileiro e o rendimento das aplicações financeiras. Em 2019, a Receita Federal estimou que os 12,9 milhões de declarantes do imposto de renda deixaram de pagar R$ 4,6 bilhões devido à dedução com instrução, e outros R$ 15,5 bilhões com a dedução de despesas de saúde. 

       É hora de o Brasil reagir. Deixar a banda ou a boiada passar é enfiar o pescoço (e o bolso) na guilhotina.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco), entre outros livros.

 Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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