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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Dez anos de Francisco: Feliz Aniversário

 

    Maria Clara Bingemer


 

Há dez anos o  Cardeal Jorge Mario  Bergoglio foi eleito Papa e escolheu para si o nome de Francisco.  Desde então, tem mostrado ao mundo, entre muitas coisas, a importância primordial do encontro com o outro.   Diz e repete que encontramos pessoas "não apenas vendo, mas olhando, não apenas ouvindo, não apenas cruzando caminhos com as pessoas, mas ficando com elas, não apenas dizendo "Que pena! Pobres pessoas", mas deixando-nos comover pela compaixão.  E isso implica aproximar-se, tocar e dizer  "não chores, e dar pelo menos uma gota de vida".  Este é, segundo Francisco, o caminho para criar uma “cultura do encontro”. 

A intenção básica da proposta desta cultura é combater a indiferença que prevalece em nossa sociedade de descarte, de velocidade, de superficialidade para chegar a um encontro verdadeiro e profundo com os outros. Mas para consegui-lo, devem ser estabelecidas certas condições. E é o próprio Papa quem as aponta: "Temos que ser pacientes se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: as pessoas não se expressam plenamente quando são simplesmente toleradas, mas quando percebem que são verdadeiramente bem-vindas. Se tivermos um desejo genuíno de ouvir os outros, aprenderemos a olhar para o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como ela se manifesta em diferentes culturas e tradições”

As ruas do mundo são o lugar desta cultura de encontro, o "locus" onde as pessoas vivem, onde elas são efetiva e afetivamente acessíveis. O testemunho cristão, portanto, não é oferecido através de um  bombardeio de pessoas com mensagens religiosas, mas por uma vontade de se entregar aos outros através de um desejo de responder paciente e respeitosamente às suas perguntas e dúvidas sobre o caminho da busca da verdade e do significado da existência humana.

De Bergoglio a Francisco encontramos o ponto central de uma mudança no próprio estilo de ser Papa. O mesmo Bergoglio que no documento de Aparecida influiu para que se valorizasse o encontro interpessoal com Deus e com o outro, revela-se na pessoa e na linguagem de Francisco como uma proposta audaciosa e avançada de criar uma "cultura do encontro". O Papa sabe que não basta converter alguns indivíduos isolados para que haja uma real transformação na sociedade e na Igreja.  Importa, sim, criar uma cultura, que significa tocar e converter atitudes, valores, costumes, tradições.

No balcão em frente às multidões à espera do anúncio do novo Papa, em 13 de Março de 2013, o Papa Francisco mostrou a sua disponibilidade para viver esse encontro,  com palavras e gestos. Apresentou-se a si próprio como bispo de Roma, enraizado no fim do mundo, onde repousam suas origens.  Pediu também a bênção do povo  antes de abençoá-lo, invertendo a ordem do costume e da tradição. 

Desde então, os dez anos do seu pontificado têm sido cheios de surpresas e novidades.  Trata-se de algo que tem agradado a muitos e desagradado talvez a muitos mais.  Francisco é, sem dúvida, um Papa diferente.  E o seu estilo de ser, comover-se, falar e agir surge certamente como uma surpresa para muitos. Mas encanta e conquista a outros. E isso talvez o faça mais amado fora da Igreja do que dentro dela. 

A mim – católica e teóloga – é como uma lufada de ar fresco numa Igreja que parecia deixar para trás a primavera do Concílio.  De repente, nas palavras do Papa, encontrei novamente a linguagem conciliar, ancorada na antropologia e na história.  A linguagem de uma Igreja que queria ser perita em humanidade, como diz a Constituição Pastoral  Gaudium et Spes. 

Ao longo desses 10 anos pude também redescobrir nos discursos pontifícios muito do que a Igreja latino-americana havia tentado construir no período pós-conciliar e que parecia haver estado tristemente sob suspeita em determinado momento: a prioridade dos pobres; a atenção à cultura popular e a valorização das suas festas, histórias e criações; a crítica não só aos indivíduos mas também aos sistemas que são injustos e oprimem pessoas e comunidades inteiras. 

A encíclica Laudato Si, de 2015, inaugura um novo capítulo na história da doutrina social da Igreja.  A transparência do texto, o discurso que tão harmoniosamente combina teologia com ciência e com poesia e mística, capta a preocupação do momento presente e das novas gerações por um planeta sob constante ameaça e sob ataque diário. Igualmente ensina que somos seres criados em meio a uma comunidade de outros seres vivos, não apenas humanos.  Toda vida merece respeito, reverência e cuidado.  O Papa Francisco, em nível pastoral, convocou a uma mudança de paradigma em toda a Igreja e a sociedade, onde o cuidado deve ser o centro e o norte da vida.  Os seres humanos são chamados a abandonar sua postura arrogante e predatória e a integrar-se na comunidade de todos os seres vivos, a fim de a protegerem, uma vez que as primeiras vítimas da desordem ambiental em que vivemos são os pobres.  A ecologia e a justiça andam, portanto, juntas. 

Em 2020 veio à luz outra encíclica, sintonizada com a Laudato Si. O título fala por si só:  Fratelli Tutti. Reflete sobre a amizade social, refletindo em torno da parábola do Bom Samaritano, situada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas. O texto pontifício mostra que se a humanidade progrediu na construção da liberdade e da igualdade, o mesmo não aconteceu em relação à fraternidade.  Passar da lógica do sócio para a do irmão/irmã é o convite que ressoa neste documento, que reflete muito da experiência e do trabalho deste argentino, acostumado à companhia dos mais pobres e entusiasta dos movimentos populares. 

Finalmente, como teóloga, acredito que o Papa abriu novos e esperançosos caminhos para aqueles de nós que trabalham com a inteligência da fé. E por isso sinto-me muito em sintonia com a concepção de teologia que ele mostra ser a sua própria.  Em carta ao cardeal Poli, arcebispo de Buenos Aires, por ocasião da celebração do bicentenário da faculdade de teologia da Universidad Católica Argentina (UCA), escreve  com clareza que "o teólogo deve ser uma pessoa capaz de construir a humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã divina numa dimensão verdadeiramente humana, e não um intelectual sem talento, um moralista sem bondade ou um burocrata do sagrado". 

Mais recentemente, em  sua mensagem à Pontifícia Comissão Teológica Internacional, além de destacar os dois pilares da teologia - vida espiritual e eclesialidade - afirma que "o teólogo deve ir à frente, deve estudar o que vai além; deve também confrontar coisas que não são claras e assumir riscos na discussão". Acrescenta ainda que não se deve trazer questões controversas para o povo, mas sim uma doutrina sólida. O papel do catequista, portanto, não seria o mesmo do teólogo. Francisco entende a vocação da teologia  ancorada na fé, tendo uma identidade intelectual, sem medo de fronteiras e da pesquisa sobre os desafios do mundo e da sociedade. 

Ao comemorar esses 10 anos, olho com gratidão para o pontificado de Francisco.  Ao longo do mesmo, pode-se sentir o esforço incessante de promover este encontro entre as pessoas, que não deve ser algo episódico, mas uma verdadeira cultura.  Ele vê e comunica esta proposta com uma base firme em uma antropologia que concebe o ser humano feito para a alteridade e a diferença, e capaz de construir a comunhão. O encontro só pode ter lugar, como ele próprio sublinha, de baixo para cima, para que ninguém fique de fora desta comunhão difícil de construir, mas tão bela em termos de ideal e de objetivo.

Feliz aniversário, Santidade! Que venham  outros aniversários e celebrações!

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras. 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

FELIZ ANO NOVO


 Frei Betto


 

       Feliz Ano Novo aos que se acobertam sob o telhado de vidro do ano velho e recolhem pedras em suas aljavas. Aos colecionadores de afetos que jamais permitem que suas lagartas se transmutem em borboletas.

       Feliz Ano Novo às bordadeiras de emoções que passam a vida desfiando intrigas e agulhando a boa fama alheia. Aos céticos desprovidos de horizontes e aos que debruçam sobre a própria solidão para contemplar abismos. 

       Feliz Ano Novo aos sonegadores de esperanças e aos que creem apenas nos valores da Bolsa. Aos mancos de bondade, cegos de utopias, ébrios de ambições e medrosos perante a ousadia de viver. Aos que têm asas e não sabem voar, são águias e ciscam como galinhas, guardam em si um tigre e miam como gatos.

       Feliz Ano Novo aos que exibem no pedestal de sua mente o próprio corpo, jejuam por razões estéticas e mendigam aos olhos alheios a moeda falsa da admiração convencional. Aos que ficam inebriados diante da paisagem televisiva e nunca contemplam a silenciosa orgia dos galhos retorcidos na copa de uma árvore. Aos que proferem palavras furtivas, segredam mentiras, sonham com elefantes de papel e tentam fugir da própria sombra.

       Feliz Ano Novo aos voluntários da servidão, aos que amam amar desamores alheios e nunca experimentam uma paixão inefável. Aos crentes desprovidos de fé, aos que fazem de seus dias tijolos de catedrais opacas e naufragam em pingo d'água. Aos que cimentam árvores, fazem pontaria em orquídeas e pintam o verde de marrom. Aos que jamais escutam o silêncio e vociferam palavras sem nexo.

       Feliz Ano Novo aos que traçam labirintos em seus mapas imaginários, enfeitam a vida com buquês de impropérios e rasgam o ventre da água com os seixos adormecidos no leito de seus pesadelos. Aos que escondem montanhas debaixo da cama, congelam estrelas no bolso e torcem o arco-íris até sangrar.

       Feliz Ano Novo aos que cavalgam em hipocampos grávidos de dinamites, multiplicam teorias para subtrair a prática e escondem a alegria no fundo da gaveta.

       Feliz Ano Novo a todos os infelizes que fazem de suas vidas luas minguantes e se vestem com o escafandro de seus temores, afogados no sal de um oceano ressecado. Novos lhes sejam o ano, o governo Lula, a vida no espírito, revertidos e revestidos de ensolaradas esperanças. 

 

Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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sábado, 1 de janeiro de 2022

Sem medo de ser feliz de novo

 Prof. Martinho Condini 



Neste ano de 2022 teremos a mais importante eleição da história da nossa república, mas acredito que nem todos concordem com essa minha afirmação.

  Alguns vão dizer que a eleição de Getúlio Vargas em 1950 ou a de JK em 1955 foram as mais importantes, devido aos contornos que esses governos tiveram em relação ao desenvolvimento industrial no país.

 Outros irão dizer que a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 foi a mais importante porque deu início ao processo de redemocratização no Brasil, após 21 anos de ditadura militar.

 Outros dirão que foi a eleição de Fernando Henrique Cardoso em 1994, quando foi criado o plano real que trouxe estabilidade econômica e o fim da inflação que afligia a sociedade brasileira há décadas.

Outros afirmarão que a eleição mais importante foi a de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, por ser o primeiro operário a chegar à presidência da república. E por ter realizado um governo com políticas públicas que deram ao Brasil índices de desenvolvimento humano nunca atingidos em nossa história, principalmente para as camadas mais carentes da nossa sociedade. E o Brasil em seu governo chegou a ser a sexta economia do mundo.

 E a eleição de Dilma Roussef em 2010 pode ser considerada por alguns a eleição mais importante, pelo fato de ter sido a primeira mulher presidente da nossa república, e por ter dado continuidade às políticas públicas do seu antecessor. Mas ela sofreu um golpe liderado pela elite econômica do país e congressistas do centro-direita e direita que tinham a maioria no congresso nacional, que a retiraram e foi retirada do poder em 2016, em seu segundo mandato.

Enfim, as opiniões sobre a mais importante eleição da nossa república podem ser divergentes, mas como afirmei no início, será a mais importante eleição da nossa república, sim.

A justificativa para essa afirmação é muito simples. Nós estamos diante do pior governo que a nossa república já teve. E olha que se nós olharmos para trás, já tivemos cada coisa, mas esse é insuperável e imbatível, em todos os sentidos. Mas a cereja do bolo fecal, é claro, é o capetão cloroquina e a corja que o acompanha.

 Depois de tudo o que esse desgoverno fez em plena pandemia e continua fazendo em relação à saúde, economia, educação, ciência e meio ambiente, o nosso dever cívico e ético é impedir que o  capetão cloroquiana se reeleja. Sua reeleição seria o caos.

  Sabemos que 15% a 20% de acéfalos chamado de gado estarão com o capetão cloroquina até o final. Mas os outros 75% ou 80% da população tem a oportunidade de tirá-lo do lugar que ele nunca deveria ter chegado. Não só o capetão cloroquina, mas todo um projeto reacionário, fascista, racista e neoliberal que nos acompanha ao longo da história e que foi retomado com ênfase a partir do golpe de 2016 e a eleição do ignóbil presidente.  

 E não será na companhia de “Alencares”, “Temers”, “Alckmins” ou qualquer outro representante da direita, que por ventura a turma da Av. Faria Lima queira nos enfiar goela abaixo que iremos restabelecer a democracia em nosso país e a consolidação de um governo progressista e socialista como sempre sonhamos e nunca tivemos.

 Durante toda a nossa história tivemos a elite política conservadora de direita atrelada ao poder, para manterem os seus privilégios e continuarem de certa maneira dando as cartas. Nós já sabemos o que significa a esquerda e a centro-esquerda governar acompanhado da direita e centro-direita. Isto é, estabelecer uma agenda em que as camadas populares recebem migalhas (que para quem não tem nada é muito) e as classes privilegiadas continuarem obtendo os seus lucros exorbitantes e explorando de maneira avassaladora a classe trabalhadora desse país.   

 Por isso, é chegada a hora, companheiras e companheiros, sem medo de ser feliz, de começarmos a nossa caminhada para sermos feliz de novo, de verdade.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

FELIZ ANO NOVO


 

Frei Betto      


 

 

        Quero um Ano Novo onde, se Deus quiser,  todas as crianças, ao ligarem seus apetrechos eletrônicos, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre  impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações. 

        Quero um Ano Novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces, e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual reluz o fogão de panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto colorida do casal exposta em moldura oval sobre o sofá. 

     Espero um Ano Novo em que as igrejas abram  portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra.  

    Um Ano Novo Feliz com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que a TV e os celulares são aparelhos mudos e cegos num canto da sala.

      Desejo um Ano Novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem se expressem em dialetos ininteligíveis. E que compareçam às urnas em outubro para resgatar as políticas públicas de proteção social, a redução da desigualdade social, a autoestima do povo brasileiro e a soberania nacional.

      Espero um Ano Novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade do tempo pelos batimentos cardíacos. 

      Um Ano Novo para saborear a brevidade da vida como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos.

      Quero um Ano Novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. 

      Rogo por um Ano Novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção. 

       Um Ano Novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos. 

      Espero um Ano Novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida - um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de anedotas. 

       Desejo um Ano Novo em que o homem jamais humilhe a mulher; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado  seja espelhada pela transparência. 

        Quero um Ano Novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile ao som dos mistérios mais profundos. 

        Espero um Ano Novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz, saúde, educação, cultura e prazer. 

      Um Ano Novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria ao dinheiro ao espírito das Bem-Aventuranças. 

       Aspiro a um Ano Novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos. 

      Um Ano Novo que seja o último da Era da Fome.

      Desejo um Feliz Ano Novo de muita saúde e paz aos meus pacientes leitores - os que concordam e também os que discordam. 

        Rogo por um Ano Novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do Sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a literatura de Machado e Rosa. 

      Desejo um Ano Novo tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e a nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos, generosos e solidários.

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Frei Betto, escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

     Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

®Copyright 2021 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Por trás dos nossos desejos de feliz ano novo

 


 


Marcelo Barros

 

Nestes dias, costumamos compartilhar entre nós os melhores votos para este ano que vai começar. No entanto, não basta formular desejos de feliz ano novo para que, magicamente, o tempo traga alegria e vida mais feliz. De fato, como falar em paz e justiça, como tornar verdadeiros os votos de feliz ano novo em um mundo no qual, apenas duas mil pessoas superprivilegiadas possuem o mesmo que quatro bilhões e setecentos milhões de seres humanos?

 Pelos atuais cálculos da FAO, organização da ONU contra a fome, a cada minuto, ao menos onze pessoas no mundo podem morrer de fome. Mesmo nos Estados Unidos, em meio à ilha de riqueza, prosperidade e ostentação, se calculam que, neste momento, 50 milhões de pessoas vivem em condições de grande pobreza. Ao mesmo tempo, o mundo afunda em uma crise ambiental cada vez mais profunda e não parece libertar-se agora da pandemia. Isso sem falar na tragédia das migrações.

Em meio a essa realidade, na última década, é inexplicável que, em todos os continentes, os governos tenham duplicado suas despesas militares. Para 2022, o orçamento a ser gasto com armamentos chega a dois trilhões de dólares. As grandes potências projetam armas com raios invisíveis que influenciam diretamente a mente das pessoas e constroem robôs inteligentes, capazes de decidir o momento de atacar e têm autonomia para matar seres humanos.

No Brasil, a imprensa noticia que um coletivo de empresários continua apoiando o atual governo. A elite financeira colabora ativamente para que o Brasil e o continente latino-americano se mantenham com governos de extrema-direita que cultuam Hitler, Mussolini e ditaduras militares. Ao mesmo tempo, em todas as Igrejas, crescem setores e movimentos religiosos que cultuam Deus como se fosse símbolo do poder ditatorial e dos privilégios de classe, raça e sexo.

De fato, há quem se pergunte se o Brasil tem saída e se o mundo atual ainda tem salvação. Nossa esperança não vem de uma análise da realidade, pois esta, para ser verdadeira, só pode ser muito pessimista. Nossa esperança vem da nossa fé na vida, no ser humano e no Amor Divino que fecunda o universo e está adormecido no coração das pessoas. Assim como a saúde da árvore está principalmente nas raízes, as opções fundamentais da sociedade são alicerçadas na cultura. O Capitalismo, antes de ser um sistema econômico no qual tudo, até as pessoas têm preço, é uma cultura, um modo de olhar a vida. Se trabalhamos para transformar essa cultura, podemos confiar na possibilidade de transformar o mundo. No ano passado, em sua mensagem, o papa tinha proposto a "cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer". Neste ano, em sua mensagem para o dia 1º de janeiro, Dia Mundial da Paz, o papa propõe: "Educação, trabalho, diálogo entre as gerações: instrumentos para a construção de uma paz duradoura".

Os movimentos populares sabem que essa transformação provocada pela educação, pelo diálogo entre as gerações e pela valorização do trabalho não ocorrerá de cima para baixo. Não será feito por programas governamentais e sim a partir das bases da sociedade.

Nestes dias, o Cristianismo celebra a memória do nascimento de Jesus. É um modo de proclamar que a salvação da humanidade vem das periferias do mundo e da pequenez de um presépio. É preciso que cada um/cada uma de nós redescubra no mais fundo do seu ser o presépio de palhas que, mesmo pobre, acalenta o ser humano novo que nasce em nós e para um novo mundo possível. Como dizia na Índia, o Mahatma Gandhi: Comece por você a mudança que deseja para o mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

 

 

 

sábado, 10 de julho de 2021

FELIZ DE NOVO!


Prof. Martinho Condini


 

“Imitemos um pouco a sabedoria de nossos adversários. Vejam, todos os governos tem na boca a palavra liberdade, enquanto seus atos são reacionários. Que as autoridades revolucionárias não façam mais frases, mas, usando uma linguagem mais moderada, a mais pacífica possível, façam a revolução” (Mikhail Bakunin).

Há quinze meses para as eleições presidenciais e diante de um quadro tão caótico é chegado o momento das forças de esquerda e centro esquerda deste país começar a alinhavar uma composição que faça frente a esse governo de extrema direita, populista, negacionista e genocida.

O golpe de 2016 possibilitou que chegássemos em 2021 simplesmente a deriva em plena pandemia com mais de quinhentos mil mortos, e com um comando do país acéfalo e descompromissado em relação ao seu povo e a soberania nacional.

Sabemos o quanto foi dificultoso restabelecer a democracia neste país, que tem um histórico republicano marcado por golpes. Por isso, devemos ficar atentos as movimentos desse governo, porque por mais boçal que seja não sabemos do que o seu “gado” e apoiadores são capazes de fazer.  Como exemplo temos o negacionismo da pandemia e da vacina e a volta do voto impresso na próxima eleição, tudo isso seria cômico se no fosse trágico.

Por tudo isso, acredito que é chegada a hora de unir as forças progressistas para que consigamos retomar e reiniciar a “revolução social” que estava em curso. Precisamos de uma liderança que verdadeiramente conheça o Brasil e seus problemas e que governará para todos.

A nossa democracia política de certa maneira está consolidada, com a existência de instituições sólidas, mas a nossa democracia social ainda deixa muito a desejar, pois ainda não alcançamos patamares satisfatórios em relação ao IDH. Na primeira década deste século aproximadamente quarenta milhões de pessoas saíram da condição de miseráveis, milhares de jovens ingressaram no ensino superior, muitos deles como o primeiro membro da família a cursar o ensino superior.

O momento é de unir forças, deixar as diferenças de lado, aparar possíveis arestas, respirar fundo, arregaçar as mangas para derrotar o mal maior, esse  excremento de governo. De nada adiantará as forças progressistas de esquerda olhar para os seus interesses e não olhar para o povo brasileiro e os interesses nacionais.

É chegada a hora de começarmos a lutar, cada um a sua maneira para que se restabeleça a esperança no semblante do povo brasileiro e a confiança num governo que retome as políticas públicas de interesse das camadas populares da sociedade. Uma agenda de interesse do país seja construída para que o nosso Brasil reconquiste sua soberania e respeito perante o mundo. Temos o direito de sermos feliz de novo.     

 

 *  O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com       

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

FELIZ ANO NOVO


Frei Betto

Feliz Ano Novo aos que acordam em 2021 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

Feliz ano a quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes aqueles que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e ousam a humildade.

Ano Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio; a vida é dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

Novo seja o ano àqueles que nunca maldizem, poupam palavras e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos.

Seja também feliz o ano de quem se guarda no olhar e, se tropeça, não cai no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, carro e amor; viver é graça a quem acaricia suas rugas e trata seus limites como cerca florida de choupana montanhês.

Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, carentes de afago mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.

Feliz Ano Novo aos órfãos de Deus e de esperanças, aos cavaleiros da noite e às damas que jamais provaram do leite que carregam em seus seios.

Felizes sejam, neste novo ano, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vantagens; aqueles que nada temem, exceto o olhar súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que não lhes querem.

Felizes sejam também as mulheres que se matam de amor e dor por quem não merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências e para quem não conspira contra a vida alheia e respeita os protocolos sanitários.

Feliz Ano Novo para quem coleciona utopias, faz de suas mãos arado e, com o próprio sangue, rega as sementes que cultiva.
            Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a idade alvíssara de emoções férteis.

Muitas felicidades aos que trazem em si a concha do silêncio e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.

Um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a morte sem estranheza e brincam com a criança que os habita.

Um Ano Novo muito feliz a todos nós que juramos sequestrar os vícios que carregamos e não pagar o resgate da dependência; o futuro nos fará magros por comer menos; saudáveis, por tragar oxigênio; solidários, por partilhar dons e bens.

Feliz 2021 ao Brasil que circunscreve a geografia do paraíso terrestre, sem terremotos, tufões, furacões, maremotos, desertos, vulcões, geleiras, tornados e montanhas inabitáveis. Conceda-nos Deus a bênção de tantos dons e nos livre de governos necrófilos.


Frei Betto é escritor, autor de O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org