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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Por trás dos nossos desejos de feliz ano novo

 


 


Marcelo Barros

 

Nestes dias, costumamos compartilhar entre nós os melhores votos para este ano que vai começar. No entanto, não basta formular desejos de feliz ano novo para que, magicamente, o tempo traga alegria e vida mais feliz. De fato, como falar em paz e justiça, como tornar verdadeiros os votos de feliz ano novo em um mundo no qual, apenas duas mil pessoas superprivilegiadas possuem o mesmo que quatro bilhões e setecentos milhões de seres humanos?

 Pelos atuais cálculos da FAO, organização da ONU contra a fome, a cada minuto, ao menos onze pessoas no mundo podem morrer de fome. Mesmo nos Estados Unidos, em meio à ilha de riqueza, prosperidade e ostentação, se calculam que, neste momento, 50 milhões de pessoas vivem em condições de grande pobreza. Ao mesmo tempo, o mundo afunda em uma crise ambiental cada vez mais profunda e não parece libertar-se agora da pandemia. Isso sem falar na tragédia das migrações.

Em meio a essa realidade, na última década, é inexplicável que, em todos os continentes, os governos tenham duplicado suas despesas militares. Para 2022, o orçamento a ser gasto com armamentos chega a dois trilhões de dólares. As grandes potências projetam armas com raios invisíveis que influenciam diretamente a mente das pessoas e constroem robôs inteligentes, capazes de decidir o momento de atacar e têm autonomia para matar seres humanos.

No Brasil, a imprensa noticia que um coletivo de empresários continua apoiando o atual governo. A elite financeira colabora ativamente para que o Brasil e o continente latino-americano se mantenham com governos de extrema-direita que cultuam Hitler, Mussolini e ditaduras militares. Ao mesmo tempo, em todas as Igrejas, crescem setores e movimentos religiosos que cultuam Deus como se fosse símbolo do poder ditatorial e dos privilégios de classe, raça e sexo.

De fato, há quem se pergunte se o Brasil tem saída e se o mundo atual ainda tem salvação. Nossa esperança não vem de uma análise da realidade, pois esta, para ser verdadeira, só pode ser muito pessimista. Nossa esperança vem da nossa fé na vida, no ser humano e no Amor Divino que fecunda o universo e está adormecido no coração das pessoas. Assim como a saúde da árvore está principalmente nas raízes, as opções fundamentais da sociedade são alicerçadas na cultura. O Capitalismo, antes de ser um sistema econômico no qual tudo, até as pessoas têm preço, é uma cultura, um modo de olhar a vida. Se trabalhamos para transformar essa cultura, podemos confiar na possibilidade de transformar o mundo. No ano passado, em sua mensagem, o papa tinha proposto a "cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer". Neste ano, em sua mensagem para o dia 1º de janeiro, Dia Mundial da Paz, o papa propõe: "Educação, trabalho, diálogo entre as gerações: instrumentos para a construção de uma paz duradoura".

Os movimentos populares sabem que essa transformação provocada pela educação, pelo diálogo entre as gerações e pela valorização do trabalho não ocorrerá de cima para baixo. Não será feito por programas governamentais e sim a partir das bases da sociedade.

Nestes dias, o Cristianismo celebra a memória do nascimento de Jesus. É um modo de proclamar que a salvação da humanidade vem das periferias do mundo e da pequenez de um presépio. É preciso que cada um/cada uma de nós redescubra no mais fundo do seu ser o presépio de palhas que, mesmo pobre, acalenta o ser humano novo que nasce em nós e para um novo mundo possível. Como dizia na Índia, o Mahatma Gandhi: Comece por você a mudança que deseja para o mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

 

 

 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

DESEJO MIMÉTICO: A ESPIRAL QUE NÃO TEM FIM


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 


             Mimetizar é sinônimo de imitar.  Assim, aquele que vê no outro um comportamento que lhe agrada, procura imitá-lo para ser como o outro.  Porém não é tão simples assim a mimetização ou imitação.  Mimetiza-se pelo desejo de ser como o outro que se admira.  Mas igualmente para adquirir o que o outro possui: beleza, poder, inteligência.  Ou até para anular o outro, absorvendo-o na espiral da violência à qual a mimetização desenfreada conduz.

            O mimetismo traz consigo a rivalidade e a competição. Os seres humanos imitam uns aos outros em tudo, inclusive no desejo. O resultado é que escolhem os mesmos objetos e competem por eles. Paradoxalmente, portanto, a mesma força imitativa que une as pessoas também as afasta. A teoria mimética afirma que esse fenômeno mal compreendido é a mais importante causa da violência humana, e que a vingança é a forma mais importante assumida por ele. 
            Assim como a imitação de um herói ou um santo é um dinamismo positivo, que libera as melhores energias que cada um ou cada uma tem dentro de si, assim também o mimetismo reprodutor de violência e opressor da alteridade pode conduzir a uma espiral de rivalidade violenta e vingativa, que é extremamente nociva e desencadeia mecanismos de opressão e morte.

            A vingança ilimitada e contínua pode chegar a destruir a espécie se não for detida a espiral por ela desencadeada. A menos que algum antídoto apareça. Paradoxalmente, o antídoto se origina nos mesmos impulsos miméticos que causam o problema. Tal como as enfermidades infecciosas ou endêmicas se curam inoculando no organismo enfermo o mesmo vírus ou bactéria que provocou a infecção ou a epidemia, assim também o antídoto contra a violência mimética deve ser buscado nas origens da mesma.

            Somente a vítima da violência mimética pode deter sua espiral.  E detê-la como?  Pelo perdão, pelo não ressentimento, pela não reprodução ad infinitum da violência.  Assim, somente será possível resgatar a partir dos escombros ocasionados pela violência mimética um horizonte de esperança e de paz para todos, inclusive para aqueles que descarregam sobre a vítima sua violência represada em desejos miméticos inalcançáveis.

            Em um momento cultural e civilizatório no qual temos a impressão de caminhar sobre escombros, com tudo o que constituía nossa segurança jazendo em pedaços atirados ao chão, é salutar relembrar essa teoria mimética da qual o antropólogo francês René Girard foi o grande elaborador.

            E o que nos é recordado a partir dessa teoria é que toda salvação, toda esperança, toda chance de reconstruir um novo mundo possível vem não dos poderosos, dos líderes, dos grandes e dos fortes.  Mas dos pequenos, dos vulneráveis, daqueles que sofrem as consequências dos desmandos da crise civilizatória e, apesar disso, ainda têm capacidade de acolhida e perdão.

            Quem serão esses?  Certamente os pobres, que em sua luta inglória de cada dia ainda encontram ânimo para dançar, cantar, fazer festa e regozijar-se.  Aqueles que, diante da morte do outro, assumem sua família, agregando mais bocas às que devem ser alimentadas por seus magros proventos.

            Também as crianças, que não pediram para nascer e de repente se veem no epicentro da loucura em que se transformaram certos países do planeta. São essas vítimas inocentes da insensata violência que grassa por todos os lados.  Quem não se recorda do menino Aylan, que jazia como se dormisse, mas estando em verdade morto nas areias da Turquia?  Ou da menina com os braços levantados diante da câmera do fotógrafo crendo ser esta uma arma de fogo?  Ou do menino que perdeu o irmão na guerra e, coberto de pó, olhava atônito para o infinito quando nada fazia sentido em sua cabeça? Ou dos dois bebês mortos no colo do pai pelas armas químicas?  Desde sua inocência mortalmente atingida, essas crianças são incapazes de ressentimento ou vingança e interrompem a espiral da violência enlouquecida que os atinge e os mata. 

            Dos rostos das vítimas não ressentidas sobe o único sinal de vida sobre a qual a morte não tem poder.  E entre essas vítimas destaca-se o rosto do Mediador por excelência, a Testemunha fiel que transformou em amor todo o ódio que se descarregou sobre sua pessoa.  O Crucificado já. Ressuscitado lembra a todas as vítimas ainda crucificadas que o mimetismo só leva à morte e o perdão é a única via para que a vida retome seu curso e a alteridade possa triunfar, refulgindo no rosto do Outro. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer
  é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.
A    teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


domingo, 6 de outubro de 2013

Desejo: privilégio humano





por Maria Clara Lucchetti Bingemer   

                                            
           O desejo é uma tensão em direção a um fim considerado fonte de satisfação.  Trata-se, portanto, de uma aspiração, de uma inclinação em direção àquilo que não se possui.  É uma inclinação algumas vezes consciente, outras inconsciente. 

      O desejo se distingue da necessidade fisiológica ou psicológica que o acompanha por estar plantado no centro da afetividade humana. Ele nos diz que somos incompletos, carentes, limitados e finitos.  Um ser que de nada carecesse não desejaria nada.  Seria um ser perfeito, um deus.  Por isso a filosofia grega antiga tomava o desejo como característica de seres finitos e imperfeitos, que não são o Bem, mas podem desejá-lo; que não possuem a Beleza, mas podem desejá-la e procurá-la.  Como diz Santo Agostinho:  “O que é o desejo, senão o apetite de possuir o que ainda falta?“ 

     Mas não se trata de possuir coisas, e sim de deixar-se atingir e convocar pela interpelação do outro.  Esse apelo fora dos padrões da normalidade medíocre chega ao fundo do ego fechado em sua autocomplacência e abre-o ao reconhecimento da diferença.

Segundo o filósofo judeu Emmanuel Levinas, o desejo fere e fragmenta a interioridade humana, descobrindo-lhe o vazio de sua suficiência.  E dali jorra no Eu uma fome que nada poderá satisfazer e nutrir, uma fome insaciável.  Isso é o “desejo”.

          É algo que transcende a satisfação e a insatisfação.  Significa uma distância maior, uma não posse mais precisa que a posse, uma fome que se nutre não de pão, mas sim da fome mesma. Como diz Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo.  Quero a fome”.

         O desejo metafísico, que vai além da physis (ou seja, do nível sensorial, puramente natural), situa-se nas antípodas da posse e da satisfação total.  Ao invés, está sempre conectado à decepção da satisfação ou ainda à exasperação da não satisfação. É um desejo que quanto mais deseja, mais vê crescer em si sua capacidade de desejar. Seu dinamismo fundamental não é a necessidade que deve ser satisfeita, mas a abertura ao outro. Sob a força desse desejo, o eu contém então mais do que poderia normalmente conter, rompe o cárcere de sua subjetividade ego centrada e da palidez de uma identidade voltada para a repetição infindável e monótona do já conhecido.

         O desejo que impulsiona para o outro não encontra sua fonte em necessidades insatisfeitas que o mesmo sujeito se encontra ávido por preencher, mas em um “mais”, em um “excesso” que só a infinitude pode atender.  Anterior a todo conhecimento e a toda questão, o desejo é cavado no mais profundo do ser humano pela alteridade do outro humano e do totalmente Outro misterioso, que nós chamamos Deus.  Porque somente o desejo, com sua sede nunca saciada, está apto a abrir-se ao Infinito que nada pode conter.

         O desejo sussurra ao ouvido da pessoa humana, incessantemente, qual é sua condição: ser criado, humano, finito e limitado.  Mas capaz de desejar o Ilimitado, o Infinito. O espaço aberto na subjetividade humana pelo desejo da transcendência e a abertura para a interioridade, para o Mistério, pode ser a força capaz de romper a materialidade do consumismo, a alienação que se nega a ver os conflitos que dividem o tecido social. Neste sentido, o desejo é condição de possibilidade para uma atitude crítica diante da  sociedade de consumo e da exterioridade de sensações. 

      O consentimento ao desejo contradiz a lógica do mercado, altera as relações mercantilistas do consumo e permite sonhar em construir outro tipo de sociedade e cultura. A restauração da capacidade desejante do indivíduo e da sociedade vai na direção contrária à corrente da excitação constante das sensações; contra o predomínio de uma emocionalidade “líquida”, sem discernimento; contra a redução da pessoa humana a um mero consumidor passivo de produtos que lhe são impostos por tal tipo de sociedade. 

         Desejar é tomar posse dos próprios sentidos para aquilo que realmente foram feitos: ver, escutar, sentir, saborear, tocar. Escutar a beleza da música composta sob inspiração do artista.  Mas também escutar os clamores que brotam da própria interioridade, assim como os clamores do próximo por justiça e equidade.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e  autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre  ética,   mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.


Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


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