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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Dez anos de Francisco: Feliz Aniversário

 

    Maria Clara Bingemer


 

Há dez anos o  Cardeal Jorge Mario  Bergoglio foi eleito Papa e escolheu para si o nome de Francisco.  Desde então, tem mostrado ao mundo, entre muitas coisas, a importância primordial do encontro com o outro.   Diz e repete que encontramos pessoas "não apenas vendo, mas olhando, não apenas ouvindo, não apenas cruzando caminhos com as pessoas, mas ficando com elas, não apenas dizendo "Que pena! Pobres pessoas", mas deixando-nos comover pela compaixão.  E isso implica aproximar-se, tocar e dizer  "não chores, e dar pelo menos uma gota de vida".  Este é, segundo Francisco, o caminho para criar uma “cultura do encontro”. 

A intenção básica da proposta desta cultura é combater a indiferença que prevalece em nossa sociedade de descarte, de velocidade, de superficialidade para chegar a um encontro verdadeiro e profundo com os outros. Mas para consegui-lo, devem ser estabelecidas certas condições. E é o próprio Papa quem as aponta: "Temos que ser pacientes se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: as pessoas não se expressam plenamente quando são simplesmente toleradas, mas quando percebem que são verdadeiramente bem-vindas. Se tivermos um desejo genuíno de ouvir os outros, aprenderemos a olhar para o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como ela se manifesta em diferentes culturas e tradições”

As ruas do mundo são o lugar desta cultura de encontro, o "locus" onde as pessoas vivem, onde elas são efetiva e afetivamente acessíveis. O testemunho cristão, portanto, não é oferecido através de um  bombardeio de pessoas com mensagens religiosas, mas por uma vontade de se entregar aos outros através de um desejo de responder paciente e respeitosamente às suas perguntas e dúvidas sobre o caminho da busca da verdade e do significado da existência humana.

De Bergoglio a Francisco encontramos o ponto central de uma mudança no próprio estilo de ser Papa. O mesmo Bergoglio que no documento de Aparecida influiu para que se valorizasse o encontro interpessoal com Deus e com o outro, revela-se na pessoa e na linguagem de Francisco como uma proposta audaciosa e avançada de criar uma "cultura do encontro". O Papa sabe que não basta converter alguns indivíduos isolados para que haja uma real transformação na sociedade e na Igreja.  Importa, sim, criar uma cultura, que significa tocar e converter atitudes, valores, costumes, tradições.

No balcão em frente às multidões à espera do anúncio do novo Papa, em 13 de Março de 2013, o Papa Francisco mostrou a sua disponibilidade para viver esse encontro,  com palavras e gestos. Apresentou-se a si próprio como bispo de Roma, enraizado no fim do mundo, onde repousam suas origens.  Pediu também a bênção do povo  antes de abençoá-lo, invertendo a ordem do costume e da tradição. 

Desde então, os dez anos do seu pontificado têm sido cheios de surpresas e novidades.  Trata-se de algo que tem agradado a muitos e desagradado talvez a muitos mais.  Francisco é, sem dúvida, um Papa diferente.  E o seu estilo de ser, comover-se, falar e agir surge certamente como uma surpresa para muitos. Mas encanta e conquista a outros. E isso talvez o faça mais amado fora da Igreja do que dentro dela. 

A mim – católica e teóloga – é como uma lufada de ar fresco numa Igreja que parecia deixar para trás a primavera do Concílio.  De repente, nas palavras do Papa, encontrei novamente a linguagem conciliar, ancorada na antropologia e na história.  A linguagem de uma Igreja que queria ser perita em humanidade, como diz a Constituição Pastoral  Gaudium et Spes. 

Ao longo desses 10 anos pude também redescobrir nos discursos pontifícios muito do que a Igreja latino-americana havia tentado construir no período pós-conciliar e que parecia haver estado tristemente sob suspeita em determinado momento: a prioridade dos pobres; a atenção à cultura popular e a valorização das suas festas, histórias e criações; a crítica não só aos indivíduos mas também aos sistemas que são injustos e oprimem pessoas e comunidades inteiras. 

A encíclica Laudato Si, de 2015, inaugura um novo capítulo na história da doutrina social da Igreja.  A transparência do texto, o discurso que tão harmoniosamente combina teologia com ciência e com poesia e mística, capta a preocupação do momento presente e das novas gerações por um planeta sob constante ameaça e sob ataque diário. Igualmente ensina que somos seres criados em meio a uma comunidade de outros seres vivos, não apenas humanos.  Toda vida merece respeito, reverência e cuidado.  O Papa Francisco, em nível pastoral, convocou a uma mudança de paradigma em toda a Igreja e a sociedade, onde o cuidado deve ser o centro e o norte da vida.  Os seres humanos são chamados a abandonar sua postura arrogante e predatória e a integrar-se na comunidade de todos os seres vivos, a fim de a protegerem, uma vez que as primeiras vítimas da desordem ambiental em que vivemos são os pobres.  A ecologia e a justiça andam, portanto, juntas. 

Em 2020 veio à luz outra encíclica, sintonizada com a Laudato Si. O título fala por si só:  Fratelli Tutti. Reflete sobre a amizade social, refletindo em torno da parábola do Bom Samaritano, situada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas. O texto pontifício mostra que se a humanidade progrediu na construção da liberdade e da igualdade, o mesmo não aconteceu em relação à fraternidade.  Passar da lógica do sócio para a do irmão/irmã é o convite que ressoa neste documento, que reflete muito da experiência e do trabalho deste argentino, acostumado à companhia dos mais pobres e entusiasta dos movimentos populares. 

Finalmente, como teóloga, acredito que o Papa abriu novos e esperançosos caminhos para aqueles de nós que trabalham com a inteligência da fé. E por isso sinto-me muito em sintonia com a concepção de teologia que ele mostra ser a sua própria.  Em carta ao cardeal Poli, arcebispo de Buenos Aires, por ocasião da celebração do bicentenário da faculdade de teologia da Universidad Católica Argentina (UCA), escreve  com clareza que "o teólogo deve ser uma pessoa capaz de construir a humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã divina numa dimensão verdadeiramente humana, e não um intelectual sem talento, um moralista sem bondade ou um burocrata do sagrado". 

Mais recentemente, em  sua mensagem à Pontifícia Comissão Teológica Internacional, além de destacar os dois pilares da teologia - vida espiritual e eclesialidade - afirma que "o teólogo deve ir à frente, deve estudar o que vai além; deve também confrontar coisas que não são claras e assumir riscos na discussão". Acrescenta ainda que não se deve trazer questões controversas para o povo, mas sim uma doutrina sólida. O papel do catequista, portanto, não seria o mesmo do teólogo. Francisco entende a vocação da teologia  ancorada na fé, tendo uma identidade intelectual, sem medo de fronteiras e da pesquisa sobre os desafios do mundo e da sociedade. 

Ao comemorar esses 10 anos, olho com gratidão para o pontificado de Francisco.  Ao longo do mesmo, pode-se sentir o esforço incessante de promover este encontro entre as pessoas, que não deve ser algo episódico, mas uma verdadeira cultura.  Ele vê e comunica esta proposta com uma base firme em uma antropologia que concebe o ser humano feito para a alteridade e a diferença, e capaz de construir a comunhão. O encontro só pode ter lugar, como ele próprio sublinha, de baixo para cima, para que ninguém fique de fora desta comunhão difícil de construir, mas tão bela em termos de ideal e de objetivo.

Feliz aniversário, Santidade! Que venham  outros aniversários e celebrações!

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras. 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

segunda-feira, 21 de março de 2022

HOJE, ANIVERSÁRIO DELA - INSURREIÇÃO DE ELLIS

 Marcelo Mário de Melo

 


Tu-arte és maior que Ellis-CPF-Regina.

Marulham em ti os vôos e abismos

que assomam nos lampejos do gênio

o vagido das vacas parindo

os urros dos garrotes castrados

o galope dos garanhões

tomando as éguas de assalto

o choque dos meteoritos

as chamas das estrelas cadentes

os mendigos ouvindo os sinos de Natal

o corpo despencando do andaime

o cão ante o cadáver do dono

o preso na câmara de gás

a criança morrendo no ventre

o rato roendo as entranhas

o encanto da chuva com sol

a agudeza dos estilhaços de vidro

o corte fundo de navalha

a luz do brilhante

o som do cristal

o balé da caixinha de música

A corrida na roda gigante.

as imagens na Casa dos Espelhos

a moça nua no rio

o esplendor da campina florida

o corpo quente do amante

o apito do trem no meio do sonho

o eclipse

a girândola

a uva na boca

o ácido nos olhos

o carinho e a fúria

o avião e o submarino

o cemitério e o circo

 

Diante de Tuarte

os fortins racionalistas se esboroam

o corte no dedo o coração as pestanas

latejam nas tuas diástoles

que marejam lágrimas

deixando-nos despidos

simplesmente humanos.

 

(Penitenciária Professor Barreto Campelo, janeiro de 1978, Itamaracá-PE, depois de ver na TV Ellis cantar O Bêbado e o Equilibrista)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

FELIZ ANIVERSÁRIO!


  Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.
                       



Não se trata aqui do meu aniversário, acontecido há poucos dias.  Mas de outro muito mais importante.  Quem faz um jovem aniversário de 50 anos é a revista Concilium.

O Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 e encerrado em 1965, representou um marco não apenas para a Teologia, mas para toda a vida da Igreja.  Desde o discurso inaugural do Papa João XXIII, na abertura do evento, ficou claro para a sociedade como um todo e para a Igreja em particular que aquele era um concílio diferente dos outros tantos já acontecidos na história.  Pois não se preocupava tanto a Igreja em julgar o passado, mas, sim, em abrir o future, a fim de que o diálogo entre Igreja e mundo moderno e secularizado pudesse, finalmente, acontecer.

Reformas importantes foram levadas a cabo na liturgia, no modelo de compreensão do que seja a Igreja, na forma de entender e realizar a pastoral, no relacionamento com outras igrejas e religiões.  Na Teologia, o eixo central e ponto de partida passou a ser antropocêntrico, e não mais teocêntrico como antes sucedia.  A Igreja Católica desejava olhar para o ser humano, suas angústias e dificuldades, mas também suas alegrias e esperanças, para elaborar seu discurso de inteligência da fé.

A revista Concilium, fundada no mesmo ano em que terminou o Vaticano II (1965), pretendeu desde o seu lançamento oferecer ao povo de Deus uma reflexão teológica em profunda e fina sintonia com as propostas conciliares, a fim de formar e motivar as novas gerações a se voltarem para a sociedade e a história, e a partir daí viverem sua fé e agirem em coerência com a mesma.
Publicada há 50 anos, cinco vezes ao ano, Concilium é uma revista de teologia que deseja atingir o mundo inteiro.  Seus editores e participantes constituem uma equipe de alto nível em termos do mundo acadêmico. E não se compõe este comitê editorial apenas de nomes já consagrados na teologia católica, mas igualmente de novas vozes vindas de várias partes do mundo e que, com sua nova visão, enriquecem a revista.

O objetivo da Concilium é, pois, promover debate e discussão teológica no espírito do Vaticano II, a partir do qual nasceu e se consolidou. Trata-se de uma revista católica no sentido mais amplo do termo: enraizada firmemente na herança católica, aberta a outras tradições cristãs e a outras tradições religiosas existentes no mundo.  Cada número de Concilium é centrado em um tema de crucial importância e abrangente alcance para o nosso tempo.
As contribuições dos artigos e ensaios da revista vêm da Ásia, África, América do Sul e do Norte e da Europa. Publicada em seis idiomas - inglês, alemão, italiano, português, espanhol e croata -, a revista reflete verdadeiramente as múltiplas facetas de nossa sociedade plural e de uma Igreja desejosa de dialogar com esta pluralidade.

É no sentido de celebrar este jubileu tão importante – 50 anos de existência de uma teologia em sintonia com os tempos e as culturas de hoje – que a PUC-Rio, através de seu Departamento de Teologia e da Cátedra Carlo Maria Martini, do Centro de Teologia e Ciências Humanas, organiza a partir do próximo dia 26 de maio o V Simpósio de Teologia com o tema Caminhos de Libertação: Alegrias e Esperanças para o Futuro.
Este Simpósio dá continuidade à já tradicional iniciativa do Departamento de Teologia da PUC-Rio de realizar periodicamente encontros internacionais para promoção do saber teológico e de sua relação com outras áreas do conhecimento.
       Assim, o Simpósio soma-se às comemorações que ocorrerão em várias partes do mundo pelo 50º aniversário da revista Concilium, concomitante com o 50º aniversário do Concílio Vaticano II.  O Conselho Editorial da revista fará sua reunião anual após o Simpósio e o público brasileiro poderá ouvir, dialogar e conviver com teólogos de tão variadas procedências e de reconhecida competência em suas áreas de reflexão.

A finalidade principal deste Simpósio é aprofundar a teologia conciliar, mas não apenas olhando para o passado – pujante e glorioso – dos pais fundadores da revista, como Rahner, Metz, Schillebeckx, Congar, Kung e outros.  Deseja-se, antes, olhar para o futuro a partir do presente, no qual o povo cristão partilha As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem(Gaudium et Spes 1).
Assim como o Concílio e a Revista, que quis e quer encarnar seu espírito, o Simpósio pretende celebrar e seguir hoje as pegadas daqueles e daquelas que configuraram essa visão de mundo, de humanidade e de Deus.  É uma rara oportunidade ouvir diferentes vozes, de diversas latitudes e refletir sobre os grandes desafios que hoje se apresentam à fé e à teologia.  Por isso, cada conferencista, cada painelista, cada debatedor apresentará, a partir da sua disciplina, suas esperanças para o futuro da teologia em um mundo tão diverso e cambiante.

     Esperamos que seja uma bela celebração!  Feliz Aniversário, Concilium!  E continue corajosamente mostrando ao mundo o que o Cristianismo tem a contribuir para os grandes problemas e inquietações da humanidade!

A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 21 de outubro de 2014

ONU: ANIVERSÁRIOS E DESAFIOS




por Marcelo Barros

O 24 de outubro de cada ano, aniversário da fundação da ONU, é estabelecido como o “dia internacional de informação sobre o desenvolvimento”. Também nesse dia, começa a Semana mundial para o Desarmamento que vai até o dia 30. Nesse ano, iniciamos as comemorações para a celebração dos 70 anos da assinatura da “Carta da ONU”, assinada no 24 de outubro de 1945. Tantos anos depois, grande parte da humanidade reconhece a grande contribuição da ONU para o diálogo entre os povos e o estabelecimento de uma ordem internacional que ajude a paz e a justiça. Ao mesmo tempo, percebe as limitações de uma organização internacional, até hoje controlada pelas grandes potências mundiais. O Conselho de Segurança tem postos fixos para os países ricos do mundo, enquanto os outros ficam a depender de suas decisões. 

Há um mês, a presidente Dilma falou na assembleia geral da ONU. Em seu discurso, se pronunciou contra a política militarista e os ataques dos Estados Unidos e seus parceiros à Síria e ao chamado Estado Islâmico. Suas palavras foram violentamente criticadas pelas agencias de notícias e por formadores de opinião. Segundo essas pessoas, com terroristas não se dialoga. 

A única linguagem que eles conhecem é a guerra. Por isso, é preciso eliminá-los. A presidente do Brasil tentou argumentar que a humanidade precisa entrar em outro paradigma e buscar o convencimento e a paz através de uma linguagem que não seja apenas a das armas. Ninguém defende insurgentes islâmicos fundamentalistas que assassinam civis e fazem terrorismo. No entanto, os Estados que os atacam invadem outros países, matam civis e inclusive crianças  e ninguém os chama de terroristas. Conforme a Organização Internacional Opinion Resarch Business,  o governo dos Estados Unidos foi responsável pela morte de um milhão e duzentos mil iraquianos. Mais de um milhão de mortos. Isso para depois, o governo Bush reconhecer que mentira deslavadamente ao afirmar que o Iraque tinha armas de destruição de massa. Ele confessou a mentira que provocou esse genocídio e nada ocorreu com ele. 

Atualmente, conforme investigação conduzida pelos jornalistas Gleen Greenwald e Murtaza Hussain, o tal Estado Islâmico é uma farsa criada para servir aos propósitos do governo dos EUA que desejava ter uma justificativa para iniciar os bombardeios na Síria. Essa reportagem foi censurada e retirada de todos os meios de comunicação norte-americanos. (Cf. artigo de Reginaldo Nasser em www.cartamaior.com.br). 

Em um mundo de alianças continentais como a União Europeia (UE), a União dos Estados Africanos (UEA), a Confederação dos Estados Latino-americanos e do Caribe (CELAC) e outras, a ONU também precisa ser mais descentralizada. Em um mundo que continua dominado por novas formas de colonialismo, a ONU só poderá cumprir sua missão se se organizar a partir dos povos da periferia do mundo. Se não conseguir mudar de lado, continuará a ser apenas o braço legitimador dos cruéis impérios do século XXI. Desde sua publicação, a Carta da ONU foi complementada por muitos documentos. Já temos cartas e acordos sobre direitos humanos, direitos do trabalho, das crianças, dos povos indígenas, dos migrantes e de outras categorias que ainda precisam ver reconhecidos seus direitos e a sua dignidade humana. Embora esses documentos sejam fundamentais e necessários, atualmente, é importante a ONU ir além dos seus textos e dar um testemunho de serviço à paz e à justiça a partir dos pequenos do mundo.

Há décadas na Europa, alguns grupos da sociedade civil tentaram criar uma “ONU dos povos”, não para substituir a dos chefes de Estados, mas para se colocar juntos no trabalho pela justiça e pela paz. Desde o início do século XXI, o Fórum Social Mundial realiza um processo de encontros e diálogos entre cidadãos/ãs do mundo inteiro para  a construção de um “novo mundo possível”. 

Também as religiões e tradições espirituais têm se unido em um “Parlamento das Religiões pela Paz”  e em outros organismos semelhantes para dar sua contribuição cultural e positiva à humanidade. Quase todos os caminhos espirituais mostram que, para além de todas as fronteiras e limites, toda a humanidade tem a vocação de se constituir como uma só família humana na qual todos/as são irmãos/ãs. 

Conforme um conto judaico, um rabino reuniu a comunidade e deu a notícia de que, finalmente, o Messias, o enviado de Deus, iria chegar ao mundo e ele chegaria naquela cidade no momento exato em que as trevas da noite dessem lugar ao dia. Um fiel perguntou como conheceria esse momento exato no qual a escuridão da noite dá lugar ao dia. O rabino respondeu: “Quando formos capazes de reconhecer no vulto de qualquer desconhecido o rosto de um irmão, a escuridão dará lugar à luz de um novo dia e o Messias estará chegando”.

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

VARGAS MORREU LÁ EM CASA



Por Frei Betto  


      Hoje faz 60 anos que Getúlio Vargas morreu em Belo Horizonte, na minha casa, na esquina das ruas Major Lopes e Padre Odorico. Antes que me julguem louco, explico.

      Meu, pai, Antônio Carlos Vieira Christo, assinara o Manifesto dos Mineiros, que apressou o fim da ditadura Vargas, em 1945. Ligado a UDN, papai dizia horrores de Getúlio.

      As empregadas de casa gostavam dele e todos os anos, a 21 de abril, eu, criança, me misturava à multidão na BR-03 (hoje, BR-040), em frente à igreja do Carmo, para ver o ditador passar a poucos metros de nossa casa, a caminho de Ouro Preto, a fim de prestar sua paradoxal homenagem a Tiradentes.

      Eu me postava à beira da estrada com o coração batendo como o de um escravo que desafiasse olhar nos olhos de seu senhor. Aquele era um momento de indizível solenidade. Precedido pelos batedores em suas possantes motocicletas de sirenes abertas, o carro do ditador vinha de capota arriada, cercado por seus famigerados capangas, que me pareciam os únicos personagens reais das histórias em quadrinhos que entretinham a minha infância.

      Em agosto de 1954, a conjuntura política ferveu no Brasil. A Aeronáutica estava prestes a invadir o Palácio do Catete e destituir o presidente constitucionalmente eleito, respaldada pelos discursos inflamados de seu principal opositor, Carlos Lacerda.

      Meu pai acompanhava tudo pelo rádio, com os ouvidos pregados nas fanfarras do Repórter Esso e, no fim da tarde, devorava com os olhos a Tribuna da Imprensa e O Globo, jornais de oposição que só chegavam a Belo Horizonte, vindos do Rio, na boca da noite.

      Na noite de 23 de agosto de 1954, o rádio Philco de nossa casa esquentou. Era iminente a queda de Vargas. Meu pai, eufórico, grudou-se ao telefone e convocou parentes e amigos para transformar a festa de meu 10º aniversário, dois dias depois, em comemoração pelo fim político daquele que o levara à prisão no Estado Novo e o obrigara a regressar do Rio para Minas, ceifando sua promissora carreira de advogado em terras fluminenses.

      Fiquei feliz. Eu não teria um simples aniversário. Teria uma festa de proporções nacionais...

      Eis que na manhã de 24 de agosto estoura a notícia de que Vargas, ao alvorecer, dera um tiro no coração, preferindo “sair da vida para entrar na história”, como escreveu em sua carta de despedida.

      Minha sensação foi de que o cadáver de Getúlio caíra na sala de minha casa. Meu pai, estupefato, ficou mudo, como se tivesse ajudado a puxar o gatilho. E cancelou a festa.

      Foi, então, que presenciei algo que só mais tarde haveria de entender. Vargas conseguira tornar sua figura respeitada e amada pelo povo. Nos olhos lacrimejantes das empregadas domésticas e dos operários, vi espelhada a imagem da habilidade política daquele homem pequeno na estatura, mas grande na ambição. O poder era, para ele, não tanto um meio de impor sua vontade, mas o altar onde se sentia venerado pelo povo.

      Contudo, nem Getúlio foi fiel ao povo, nem o povo foi fiel a Getúlio. O sentimento de amante traído o levou ao suicídio.

      Foi meu mais triste aniversário. Não consegui remover Vargas da sala lá de casa.

Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.





 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

SETENTA ANOS DE MUITA LUTA



Há setenta anos, em 25 de agosto, nascia mais um mineiro, em uma família unida, alegre e cheia de amor. Entretanto, aquele menininho, ao crescer, não seria apenas mais um mineiro e sim, um cidadão, na totalidade do significado desta palavra, consciente de seus deveres, mas também de seus direitos. Seus e do povo brasileiro. Direitos pelos quais vem lutado desde que mal saiu da adolescência, pelos quais foi preso pela ditadura militar durante quatro anos e, pelos quais, tem, a cada dia, a certeza de que nada foi em vão.


Chega ao setenta anos preservando a juventude dentro de si, se renovando sempre, reinventando a vida, levando esperança por esse mundão afora.

Depois de estudar jornalismo, antropologia, filosofia e teologia e ser frade dominicano, encontrou na mistura das letras e palavras, um grande dom e um grande prazer.  São quase tantos livros escritos, quando a sua nova idade: 60, com 58 já publicados e dois no prelo, saindo até o final do ano. Tem livros traduzidos em 24 idiomas e 35 países. Sem contar com a imensidão de artigos publicados, inclusive neste blog. Artigos, muitos deles, verdadeiras poesias, disfarçadas de crônicas ou simples textos.

Os gêneros que escreve? São muitos: memórias, como Batismo de sangue e Diário de Fernando que virou filme sob a direção de Helvécio Ratton; meia dúzia de infantis; biografias, como Um homem chamado Jesus pastoral, como Fome de Deus livros em coautoria, como Conversa sobre a fé e a ciência em parceria com o físico Marcelo Gleiser; e romances, como o policial Hotel Brasil, Minas do ouro e Aldeia do silêncio. Seu livro FIDEL E A RELIGIÃO virou Best-seller no exterior.

Ganhou em 1982 o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro de memórias Batismo de Sangue. Em 1986, foi eleito Intelectual do Ano pelos escritores filiados à União Brasileira de Escritores, que lhe deram o prêmio Juca Pato por sua obra “Fidel e a religião”. Seu livro A noite em que Jesus nasceu ganhou o prêmio de "Melhor Obra Infanto-Juvenil" de 1998, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2005, o júri da Câmara Brasileira do Livro premiou-o mais uma vez com o Jabuti, agora na categoria Crônicas e Contos, pela obra “Típicos Tipos – perfis literários”.

Mas, apesar de tantos livros publicados, ainda não consegue viver de direitos autorais. Infelizmente, ainda se lê pouco no Brasil.
“Nem me sustento com “o maná que cai do Céu”, ou seja, da Igreja. Como o apóstolo Paulo, faço questão de viver do trabalho “de minhas mãos”. E acrescento: da minha mente. Meu ganha-pão são as palestras, aqui e lá fora”, diz Frei Betto.

Em sua luta por um mundo socialmente justo já exerceu diversas atividades. Foi coordenador da ANAMPOS (Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais), participou da fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e da CMP (Central de Movimentos Populares). Prestou assessoria à Pastoral Operária do ABC (São Paulo), ao Instituto Cidadania (São Paulo) e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Foi também consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em 2003 e 2004 atuou como Assessor Especial do Presidente da República e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero. Desde 2007 é membro do Conselho Consultivo da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. É sócio fundador do Programa Todos pela Educação.

E, além de todo esse talento, é um amigo na máxima expressão da palavra. Precisa dizer mais alguma coisa?
 
Como podemos ver, são sete décadas de muita luta, muita dedicação à causa que abraça e à promoção da vida. A Frei Betto a nossa homenagem e o nosso carinho.

FELIZ IDADE