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sexta-feira, 22 de maio de 2015

FELIZ ANIVERSÁRIO!


  Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.
                       



Não se trata aqui do meu aniversário, acontecido há poucos dias.  Mas de outro muito mais importante.  Quem faz um jovem aniversário de 50 anos é a revista Concilium.

O Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 e encerrado em 1965, representou um marco não apenas para a Teologia, mas para toda a vida da Igreja.  Desde o discurso inaugural do Papa João XXIII, na abertura do evento, ficou claro para a sociedade como um todo e para a Igreja em particular que aquele era um concílio diferente dos outros tantos já acontecidos na história.  Pois não se preocupava tanto a Igreja em julgar o passado, mas, sim, em abrir o future, a fim de que o diálogo entre Igreja e mundo moderno e secularizado pudesse, finalmente, acontecer.

Reformas importantes foram levadas a cabo na liturgia, no modelo de compreensão do que seja a Igreja, na forma de entender e realizar a pastoral, no relacionamento com outras igrejas e religiões.  Na Teologia, o eixo central e ponto de partida passou a ser antropocêntrico, e não mais teocêntrico como antes sucedia.  A Igreja Católica desejava olhar para o ser humano, suas angústias e dificuldades, mas também suas alegrias e esperanças, para elaborar seu discurso de inteligência da fé.

A revista Concilium, fundada no mesmo ano em que terminou o Vaticano II (1965), pretendeu desde o seu lançamento oferecer ao povo de Deus uma reflexão teológica em profunda e fina sintonia com as propostas conciliares, a fim de formar e motivar as novas gerações a se voltarem para a sociedade e a história, e a partir daí viverem sua fé e agirem em coerência com a mesma.
Publicada há 50 anos, cinco vezes ao ano, Concilium é uma revista de teologia que deseja atingir o mundo inteiro.  Seus editores e participantes constituem uma equipe de alto nível em termos do mundo acadêmico. E não se compõe este comitê editorial apenas de nomes já consagrados na teologia católica, mas igualmente de novas vozes vindas de várias partes do mundo e que, com sua nova visão, enriquecem a revista.

O objetivo da Concilium é, pois, promover debate e discussão teológica no espírito do Vaticano II, a partir do qual nasceu e se consolidou. Trata-se de uma revista católica no sentido mais amplo do termo: enraizada firmemente na herança católica, aberta a outras tradições cristãs e a outras tradições religiosas existentes no mundo.  Cada número de Concilium é centrado em um tema de crucial importância e abrangente alcance para o nosso tempo.
As contribuições dos artigos e ensaios da revista vêm da Ásia, África, América do Sul e do Norte e da Europa. Publicada em seis idiomas - inglês, alemão, italiano, português, espanhol e croata -, a revista reflete verdadeiramente as múltiplas facetas de nossa sociedade plural e de uma Igreja desejosa de dialogar com esta pluralidade.

É no sentido de celebrar este jubileu tão importante – 50 anos de existência de uma teologia em sintonia com os tempos e as culturas de hoje – que a PUC-Rio, através de seu Departamento de Teologia e da Cátedra Carlo Maria Martini, do Centro de Teologia e Ciências Humanas, organiza a partir do próximo dia 26 de maio o V Simpósio de Teologia com o tema Caminhos de Libertação: Alegrias e Esperanças para o Futuro.
Este Simpósio dá continuidade à já tradicional iniciativa do Departamento de Teologia da PUC-Rio de realizar periodicamente encontros internacionais para promoção do saber teológico e de sua relação com outras áreas do conhecimento.
       Assim, o Simpósio soma-se às comemorações que ocorrerão em várias partes do mundo pelo 50º aniversário da revista Concilium, concomitante com o 50º aniversário do Concílio Vaticano II.  O Conselho Editorial da revista fará sua reunião anual após o Simpósio e o público brasileiro poderá ouvir, dialogar e conviver com teólogos de tão variadas procedências e de reconhecida competência em suas áreas de reflexão.

A finalidade principal deste Simpósio é aprofundar a teologia conciliar, mas não apenas olhando para o passado – pujante e glorioso – dos pais fundadores da revista, como Rahner, Metz, Schillebeckx, Congar, Kung e outros.  Deseja-se, antes, olhar para o futuro a partir do presente, no qual o povo cristão partilha As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem(Gaudium et Spes 1).
Assim como o Concílio e a Revista, que quis e quer encarnar seu espírito, o Simpósio pretende celebrar e seguir hoje as pegadas daqueles e daquelas que configuraram essa visão de mundo, de humanidade e de Deus.  É uma rara oportunidade ouvir diferentes vozes, de diversas latitudes e refletir sobre os grandes desafios que hoje se apresentam à fé e à teologia.  Por isso, cada conferencista, cada painelista, cada debatedor apresentará, a partir da sua disciplina, suas esperanças para o futuro da teologia em um mundo tão diverso e cambiante.

     Esperamos que seja uma bela celebração!  Feliz Aniversário, Concilium!  E continue corajosamente mostrando ao mundo o que o Cristianismo tem a contribuir para os grandes problemas e inquietações da humanidade!

A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

50 ANOS DE UM PACTO




por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio



Faz 50 anos que, com o Concilio Vaticano II chegando já ao seu fim, 40 bispos latino-americanos, na sua maioria, se reuniram na catacumba de Santa Domitila, em Roma, para fazer um pacto.  Tratava-se de um compromisso de vida de todos eles – chamado O Pacto das Catacumbas – e marcou o início de uma nova espiritualidade entendida como um novo modo de ser Igreja e viver o Evangelho em meio aos pobres.

No texto assinado pelos bispos existem vários elementos que dizem respeito à conversão pessoal para uma mudança nos aspectos pessoais da vida de cada um. O que representou esta conversão?

Primeiro, um "ser como o povo". Em outras palavras, ser tão humano quanto possível, semelhante e próximo de todos os irmãos e irmãs na humanidade, de uma forma estreita e fraterna. Assim, de acordo com os signatários do pacto, por exemplo, o episcopado deve deixar de ser uma dignidade que afasta e exige elementos de conforto e luxo,  para ter a vida simples e humilde de um servo dos outros.

É isso o que é claramente indicado logo no começo do texto, quando diz que seus signatários irão se esforçar para viver de acordo com o modo ordinário da nossa população   a respeito de moradia, alimentação, meios de transporte, e, portanto, tudo que daí deriva. Trata-se de uma decisão de mudança radical de estilo de vida.  Há que sair dos palácios episcopais e ir viver em uma casa simples, como a maioria das pessoas; deixar para trás as refeições finas e elegantes, para alimenta-se como a grande maioria das pessoas; utilizar o transporte público em vez de carros particulares.

Cada parágrafo implica uma decisão forte e profunda que realmente leva a vida em outra direção.  E há muitos outros detalhes em outros pontos do pacto destinados a que a conversão radical e a experiência nas profundezas de cada um dos signatários conduzam a uma espiritualidade evangélica de estar perto e viver como os pobres.

Por exemplo, a renúncia não vem apenas com relação à posse de propriedade, mas até mesmo com respeito à aparência de riqueza no vestir, nos símbolos utilizados (como cruz peitoral, báculo, mitra). Isso significa que o bispo não deverá ser uma figura que impõe por sua aparência, mas que se confunde com as pessoas comuns. Nesse sentido, os bispos se sentem chamados a ser como os primeiros apóstolos, de quem são sucessores, e não têm "nem ouro nem prata", mas apenas a Jesus de Nazaré como prêmio e ornamento.

Com relação à posse de bens, o pacto estabelece expressamente que os seus signatários não herdarão propriedades "móveis ou imóveis" e não deverão possuir nada, como os pobres de seu povo, que não têm onde reclinar a cabeça e são forçados, às vezes, a erguer casas pobres com suas próprias mãos, para depois vê-las serem destruídas por chuvas torrenciais, inundações, incêndios, tempestades ou outros desastres.

O pacto coloca os bispos também longe do sistema financeiro capitalista, já que declaram querer abrir mão das próprias contas bancárias e tudo o que daí deriva: crédito, dinheiro fácil, cartão de crédito etc. Em suma, tudo o que dá segurança em um sistema que valoriza o dinheiro acima de todas as coisas e os pobres jamais podem alcançar. No entanto, realisticamente entendem que às vezes deverão lidar com a posse de algum bem. Mas nada é em nome próprio; ao contrário, tudo em nome da diocese ou obras sociais ou de caridade.

Em apoio a esta decisão de viver na contramão do mundo e do sistema em que estão inseridos, citam os textos bíblicos de Mt 6, 19 e Lucas 12, 33s que não recomendam ajuntar tesouros aqui na terra, pois se estará exposto à ação predatória do tempo e ladrões. É melhor vender o que se tem e dar em esmolas. O tesouro de um discípulo e apóstolo de Jesus Cristo deve estar no céu, no Reino do Pai. Só então não vai ser corroído ou destruído. Ou tem que ser dado, doado para quem precisa, e assim estar no lugar onde Deus quer. Onde está o tesouro, lá também estará o coração, e o coração de um pastor tem que estar com suas ovelhas, sensível às suas necessidades e pedidos para encontrá-los e satisfazê-los.

Em seguida, vem tudo o que diz respeito ao prestígio e honras que um bispo é quase sempre obrigado a receber.  Entre os quais os títulos que a Igreja naqueles 20 séculos se acostumou a dar àqueles que têm alguma função eclesiástica. Vale a pena ler por extenso as inspiradoras palavras que os bispos usam para essas resoluções:

5. Rejeitamos que verbalmente ou por escrito nos chamem por nomes e títulos que expressam grandeza e poder (Eminência, Excelência, Monsenhor ...). Nós preferimos ser chamados com o nome evangélico de “padre” (pai).

6. Em nosso comportamento e relações sociais, evitar qualquer coisa que possa parecer concessão de privilégios, precedência ou preferência para os ricos e poderosos (por exemplo, banquetes oferecidos ou aceitos nos serviços religiosos).

Sementes plantadas dão novos frutos, novos fertilizantes. A orientação do Papa Francisco, neste primeiro ano como sucessor de Pedro, certamente sinaliza uma grande alegria no prosseguimento dos sonhos de Dom Helder e dos outros signatários do Papa antes do Concílio Vaticano II.  Tudo isso encontramos comprovado em sua exortação “A alegria do Evangelho”. Mas também em seus gestos procurando a cicatrização de feridas e em seus trabalhos resgatando aspectos fundamentais esquecidos do Vaticano II.  Tudo isso permite esperar que se vá gestando uma igreja servidora do mundo, com um vínculo indissolúvel com os pobres, e um convite constante a viver a pobreza evangélica.

A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 


Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Onde estávamos há 50 anos




 Por Maria Clara Bingemer


     Ao longo de toda uma vida, alguns dias – não muitos - nos deixaram marcas: lembramos onde estávamos, o que fazíamos, que roupa vestíamos, em que circunstância determinado fato ocorreu.  Devido à sua importância, a memória jamais descartou aquele dia ou deixou-o guardado no arquivo morto.  Ele permanece vivo e frequentemente faz com que o recordemos, revisitando assim nossa experiência naquela ocasião.

             Assim foi para mim o dia 22 de novembro de 1963.  Estava em casa, estudando.  Tinha 14 anos e cursava o colegial.  De repente, ouvi um grito.  Era minha avó ao telefone.  O grito dela foi secundado pelo de minha mãe.  Exclamavam, nitidamente impressionadas: “O Kennedy? Mas como? Um tiro?” Acabavam de matar John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos, em Dallas, Texas.
            Dali para frente foi uma sucessão de leituras de jornais, imagens na televisão, noticiários nas rádios. Kennedy, a personificação do sonho americano, estava morto.  O homem louro e belo, casado com a mulher mais elegante do planeta, pai das crianças mais lindas do mundo, tivera o cérebro explodido por uma bala e jazia morto.  O homem mais poderoso do mundo era agora um cadáver impotente.  O católico John F. Kennedy fora assassinado e as imagens que  então víamos eram de Jacqueline, sua esposa, com o elegante vestido rosa manchado de sangue, ao lado do vice-presidente Lyndon Johnson, que fazia seu juramento à Constituição para substituir JFK na Casa Branca.
            Em nossa casa havia uma hierarquia de celebridades e heróis venerados pelos membros adultos da família.  E, depois do Sagrado Coração de Jesus, que presidia a vida de todos nós; do Papa, que enviara uma bênção especial a minha avó e cuja foto brilhava, devidamente emoldurada enfeitando a parede, John Kennedy era uma das principais figuras dessa galeria.
            Lembro-me de uma fotografia do presidente em uma revista internacional, ajoelhado, de mãos postas, rezando com os olhos fixos no Sacrário.  Todos estremeciam de emoção ao vê-la.  Recordo-me igualmente de seu discurso sobre a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba.  A operação foi um retumbante fracasso de Kennedy contra a diminuta Ilha de Fidel Castro.  Mas a mídia levava todos a crer que havia sido um sucesso.
            Quando cresci e fui adquirindo mais discernimento para avaliar as coisas com um pouco de senso crítico, a figura admirada e quase idolatrada de JFK começou a mostrar suas ambiguidades, próprias de todo ser humano.  No entanto, para a figura do estadista que ele fora, essas ambiguidades apareciam magnificadas.  Sua vida de infidelidades a Jackie, os inúmeros casos de mulheres introduzidas na Casa Branca para namorar o president, contradiziam sua imagem de irrepreensível chefe de família católico fabricada pela mídia.  É parte constitutiva de sua biografia a figura de Marilyn Monroe cantando parabéns em seu aniversário.  A morte trágica da linda loura, cobiçada por tantos, em 1962, foi depois explorada pelos biógrafos.  E a ligação amorosa com JFK apareceu como um dos elementos que contribuíram para seu declínio e seu triste fim.
            Mais tarde, os numerosos filmes sobre a Guerra do Vietnã traziam novamente a figura de JFK à baila com uma tinta mais negativa ainda.  Kennedy deu continuidade ao que Eisenhower havia começado.  Entre outras coisas, concordou em usar “zonas livres para disparar” napalm e agente laranja pelos aviões americanos, deixando um rastro de morte e horror entre civis inocentes, entre os quais muitas crianças vietnamitas. A certa altura, Kennedy teria planejado retirar as tropas do país asiático até 1965, mas morreu antes. Lyndon Johnson manteve os militares no Vietnã e intensificou o conflito.
            Ao mesmo tempo, o presidente Kennedy teve momentos importantes. Talvez um dos mais intensos de todos, já perto de sua morte, em junho de 1963, ocorreu em Berlim quando, diante de um mar de gente, proclamou diante da cidade dividida pela cortina de ferro: “Há dois mil anos não havia frase que se dissesse com mais orgulho do que “civis Romanus sum” (eu sou um cidadão romano).  Hoje, no mundo da liberdade, não há frase que se diga com mais orgulho que “Ich bin ein Berliner”. Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim e, portanto, como um homem livre, eu me orgulho das palavras ”Ich bin ein Berliner”!
            Hoje, 50 anos depois, JFK ainda aparece como um ícone na história do Ocidente em termos de liberdade e democracia.  Mas, com a justiça feita pelo tempo e pela história, aparece não como um santo ou uma estátua de moralidade.  Mas como um homem brilhante, que nem sempre esteve à altura do cargo que ocupou e que carregava em sua pessoa uma razoável dose de ambiguidade.  Sua vida e sua morte ensinam que nem tudo que reluz é ouro e que é preciso buscar a verdade por trás das aparências que insistem em distorcê-la para mais ou para menos.

  Maria Clara Bingemer é Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “Ser cristão hoje" (Editora Ave Maria).   http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br/
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