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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O elefante na sala

Eduardo Hoornaert


 

Certa vez, ao discutir questões filosóficas com um colega num gabinete da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, nos anos 1940, Ludwig Wittgenstein, com sua conhecida impetuosidade, gritou: Há um elefante na sala. Com isso, ele quis indicar que seu interlocutor, ao que lhe parecia, não enxergava o óbvio.

 

A imagem desse elefante me parece apropriada para passar um olhar crítico pelos vastos campos da atual cognição na civilização ocidental. Desde os primeiros esboços na Mesopotâmia, a impressão que se tem é que o próprio processo civilizador impede de enxergar ‘elefantes’, principalmente o elefante da escravidão. Na Grécia clássica, que nos lega a filosofia, a escravidão é onipresente, mas invisível. Dizem os historiadores que, na cidade de Atenas em tempo de Péricles (séc. V aC), cinco mil cidadãos vivem sustentados por cem mil escravos, um número aproximativo, pois acerca de escravos não existe registro escrito. No Liceu de Atenas (fundado por Aristóteles no século IV aC) não é difícil se imaginar um vai-e-vem incessante de ‘pedagogos’, escravos que trazem e levam crianças e jovens de famílias boas para participar de exercícios educativos. Pelo pátio do referido Liceu, homens e mulheres se cruzam, a preparar as mesas, servir comidas e bebidas, limpar o chão e as latrinas. Os estudantes não lhes dão atenção. Nem o próprio Mestre Aristóteles, que lhes dedica apenas umas linhas de sua ‘Política’ (não cito textualmente): esses nossos servidores fazem o que lhes compete fazer para o bom andamento do Liceu e isso lhes dá satisfação. A natureza cria uns para mandar e outros para obedecer. Os ‘servi ex natura’ (servos por natureza) nos são úteis, e mais não digo, já que temos que nos conformar com as leis da natureza, que dispensam reflexões filosóficas. Em outras palavras: Aristóteles deixa o elefante perambular tranquilamente por seu território.

Séculos depois, o teólogo cristão Agostinho (séc. V dC) não pensa diferente. Ele se mostra triste com os destinos da humanidade pecadora, essa ‘massa damnada’ herdeira do ‘pecado original’ de Adão e Eva. Mas não parece afetado pelo fato que, na guarnição militar costeira romana, sediada em Hipona, onde ele é bispo, se despacham rotineiramente grupos de africanos algemados, com destino aos mercados de escravos existentes na Itália. O teólogo lamenta o ‘inferno’ dos pecadores, mas não parece ouvir os lamentos e sussurros de africanos escravizados.

 

Desde a era da modernidade, sucessivos ‘elefantes’ entram na sala da cognição ocidental. Spinoza, Galileu, Kant, Hegel, Darwin, Freud, Marx, cada um num determinado setor, apontam evidências não reconhecidas ou mesmo abertamente negadas pela oficialidade. Eles formam o topo de um ‘iceberg’, pois o povo, tradicionalmente silencioso, mostra simpatia por seus posicionamentos. Parece que percebe o andar do elefante, mais que a elite. As mulheres, de seu lado, não deixam de apontar, por vezes de modo aberto e ativo, outras vezes silenciosamente, o sistema largamente heterônomo em que são obrigadas a passar a vida.

 

A cultura dominante, desde os tempos da modernidade até hoje, tapa os ouvidos e fecha os olhos, para não ver o elefante passar. A igreja dominante, por exemplo, desde os séculos XVII, só abre a boca para condenar, perseguir e mesmo levar à morte: inquisição [inúmeras mortes], fogueira [entre 40 e 50.000 ‘bruxas’ queimadas], Syllabus, índice livros proibidos, condenação, silenciamento, censura por todo canto. Ela passa a enxergar heresia em todo canto. Assim chega ao absurdo de condenar Santa Joana d’Arc à fogueira por se vestir de homem! A inquisição é um inferno: todos têm medo de todos, pois todos podem acusar o outro de ‘heresia’. Uma exasperação ‘a longo prazo’, repercussão impressionante da política de fechar os olhos e tapar os ouvidos. Para não ver o elefante passar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

VARGAS MORREU LÁ EM CASA



Por Frei Betto  


      Hoje faz 60 anos que Getúlio Vargas morreu em Belo Horizonte, na minha casa, na esquina das ruas Major Lopes e Padre Odorico. Antes que me julguem louco, explico.

      Meu, pai, Antônio Carlos Vieira Christo, assinara o Manifesto dos Mineiros, que apressou o fim da ditadura Vargas, em 1945. Ligado a UDN, papai dizia horrores de Getúlio.

      As empregadas de casa gostavam dele e todos os anos, a 21 de abril, eu, criança, me misturava à multidão na BR-03 (hoje, BR-040), em frente à igreja do Carmo, para ver o ditador passar a poucos metros de nossa casa, a caminho de Ouro Preto, a fim de prestar sua paradoxal homenagem a Tiradentes.

      Eu me postava à beira da estrada com o coração batendo como o de um escravo que desafiasse olhar nos olhos de seu senhor. Aquele era um momento de indizível solenidade. Precedido pelos batedores em suas possantes motocicletas de sirenes abertas, o carro do ditador vinha de capota arriada, cercado por seus famigerados capangas, que me pareciam os únicos personagens reais das histórias em quadrinhos que entretinham a minha infância.

      Em agosto de 1954, a conjuntura política ferveu no Brasil. A Aeronáutica estava prestes a invadir o Palácio do Catete e destituir o presidente constitucionalmente eleito, respaldada pelos discursos inflamados de seu principal opositor, Carlos Lacerda.

      Meu pai acompanhava tudo pelo rádio, com os ouvidos pregados nas fanfarras do Repórter Esso e, no fim da tarde, devorava com os olhos a Tribuna da Imprensa e O Globo, jornais de oposição que só chegavam a Belo Horizonte, vindos do Rio, na boca da noite.

      Na noite de 23 de agosto de 1954, o rádio Philco de nossa casa esquentou. Era iminente a queda de Vargas. Meu pai, eufórico, grudou-se ao telefone e convocou parentes e amigos para transformar a festa de meu 10º aniversário, dois dias depois, em comemoração pelo fim político daquele que o levara à prisão no Estado Novo e o obrigara a regressar do Rio para Minas, ceifando sua promissora carreira de advogado em terras fluminenses.

      Fiquei feliz. Eu não teria um simples aniversário. Teria uma festa de proporções nacionais...

      Eis que na manhã de 24 de agosto estoura a notícia de que Vargas, ao alvorecer, dera um tiro no coração, preferindo “sair da vida para entrar na história”, como escreveu em sua carta de despedida.

      Minha sensação foi de que o cadáver de Getúlio caíra na sala de minha casa. Meu pai, estupefato, ficou mudo, como se tivesse ajudado a puxar o gatilho. E cancelou a festa.

      Foi, então, que presenciei algo que só mais tarde haveria de entender. Vargas conseguira tornar sua figura respeitada e amada pelo povo. Nos olhos lacrimejantes das empregadas domésticas e dos operários, vi espelhada a imagem da habilidade política daquele homem pequeno na estatura, mas grande na ambição. O poder era, para ele, não tanto um meio de impor sua vontade, mas o altar onde se sentia venerado pelo povo.

      Contudo, nem Getúlio foi fiel ao povo, nem o povo foi fiel a Getúlio. O sentimento de amante traído o levou ao suicídio.

      Foi meu mais triste aniversário. Não consegui remover Vargas da sala lá de casa.

Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.





 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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