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segunda-feira, 1 de maio de 2023

O trabalho é nosso


Luiz Carlos Bezerra  




 

O trabalho dignifica a pessoa

Ele é produção  que nos afeiçoa

Sua força e seu poder nos fazem bem.

Deus nos faz  um ser de grande potência

Ninguém possui a mesma equivalência

De dar  inteligência a ninguém

 

Se nossa produção é dom Deus

Se é obra criadora do divino

Devem os trabalhadores de Zeus

Verem que o trabalho traça o destino

 

Quando um trabalhador fica sozinho

Seu clamor por justiça vem do ninho,

Se transforma em cadeia pessoal,

Suspende nossa cadeia vital,

E nos torna um produtor marginal,

Pobre em relação interpessoal

 

O poder do dono do capital,

Um egotista e explorador-brutal

Do valor do trabalho se apodera

Empobrece a classe trabalhadora

Mas não  tira nossa ação produtora

Nem a nossa luta libertadora

 

Recife, 01 de maio de 2023.


 

Dia de luta e resistência da classe trabalhadores . Celebremos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO: CANÇÃO DA FOICE E O FEIXE - Pedro Casaldáliga por si mesmo



Memória dos 95 anos de nascimento do nosso querido Pedro Casaldáliga.

Dom Pedro Casaldáliga

 

– Colhendo o arroz dos posseiros de Santa Terezinha, perseguidos pelo Governo e pelo Latifúndio.

 

Com um calo por anel,

monsenhor cortava arroz.

Monsenhor “martelo

e foice”?

 

Me chamarão subversivo.

E lhes direi: eu o sou.

Por meu Povo em luta, vivo.

Com meu Povo em marcha, vou.

 

Tenho fé de guerrilheiro

e amor de revolução.

E entre Evangelho e canção

sofro e digo o que quero.

Se escandalizo, primeiro

queimei o próprio coração

ao fogo desta Paixão

cruz de Seu mesmo Madeiro.

 

Incito à subversão

contra o Poder e o Dinheiro.

Quero subverter a Lei

que pertence ao Povo em grei

e ao Governo em carniceiro.

(Meu Pastor se faz Cordeiro

Servidor se fez meu Rei.)

 

Creio na Internacional

das frontes alevantadas,

da voz de igual a igual

e das mãos enlaçadas...

E chamo a Ordem de mal

e ao Progresso de mentira.

Tenho menos paz que ira.

Tenho mais amor que paz.

 

... Creio na foice e no feixe

destas espigas caídas:

uma Morte e tantas vidas!

Creio nesta foice que avança

– sob este sol sem disfarce

e na comum Esperança –

tão encurvada e tenaz!

 

Pedro Casaldáliga, Creio na Justiça e na Esperança

Arte: Amadeo Valldepérez Coll

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

sexta-feira, 8 de abril de 2022

O risco da destruição de nosso futuro

Leonardo Boff


 

Em julho de 2021 o grande pensador da complexidade Edgard Morin completou 100 anos . Observador atento ao curso do mundo,entregou-nos um livro-Réveillons-nous! – Despertai! cheio de sábias e severas advertências. Resumiu seu pensamento numa entrevista à Jules de Kiss, publicada em 26 de março de 2022 na Franceinfo e reproduzida em  português pelo IHU de 4/4/22. Leitor assíduo de seus escritos, esta entrevista inspirou o presente artigo.

Morin adverte aquilo que venho há muito tempo repetindo: devemos estar atentos, tentar ver e entender o que está ocorrendo. A grande maioria, inclusive chefes de estado, são inconscientes das graves ameaças que pesam sobre o planeta Terra, sobre a vida e o nosso futuro. Parecem sonâmbulos ou zumbis, obcecados pela ideia do crescimento econômico sempre crescente e também de segurança e de mais  construção de armas de destruição em massa.

Vivemos sob várias crises, todas elas graves: a mais imediata é a pandemia que afetou todo o planeta cujo sentido último ainda não foi identificado. Para mim, é um sinal de que a Terra viva enviou aos seus filhos e filhas: “não podem continuar com a pilhagem sistemática da comunidade de vida na qual se encontram os habitats dos vários vírus que nos últimos anos assolaram regiões do planeta”. Com o Covid-19 foi todo o planeta atingido, não outros seres vivos e domésticos. É um sinal de que não está sendo lido pela maioria da humanidade, nem pelos analistas, centrados nas vacinas e nos cuidados necessários. Quem se pergunta pelo contexto em que apareceu o vírus? Ele é consequência do assalto dos seres humanos sobre a natureza especialmente com o desmatamento de vastas regiões, destruindo a casinha onde habitam os vírus que passaram a outros animais e deles a nós.

Grave é a crise climática pois se não cuidarmos até o ano 2030 o aquecimento pode chegar a 1,5 graus Celsius ou mais, comprometendo a maioria dos organismos vivos e grande parte da humanidade. Junto a isso vem a Sobrecarga da Terra (Earth Oveshoot) que foi constatada no dia 29 de julho de 2021: o bens e serviços importantes para a vida estão se esgotando. Já agora precisamos de 1,7 Terra para atender ao tipo de consumo principalmente das classes opulentas. Arranca-se da Terra aquilo que ela já não pode mais dar. Ela reage aumentando o aquecimento, os eventos extremos, a erosão da biodiversidade e mais conflitos sociais.

O que funciona como uma espada de Dámocles é a possibilidade de uma guerra nuclear que pode destruir toda a vida e grande parte da humanidade. Morin escreve: “Penso que entramos em um novo período. Pela primeira vez na história, a humanidade corre o risco de aniquilação, talvez não total – haverá alguns sobreviventes, como em Mad Max –, mas uma espécie de “reinício” do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis”. A guerra na Ucrânia suscitou este fantasma, pois a Rússia como já dizia Gorbachev pode destruir toda a vida com apenas a metade de suas ogivas nucleares. Mas cheio de confiança de que a história anda não foi fechada, Morin afirma esperançoso:” Precisamos esperar o inesperado para saber como navegar na incerteza”

É de todos conhecida a erosão das ideias democráticas no mundo inteiro. Está se impondo, em muitos países, como no Brasil, um espírito autoritário e fascistoide que faz da violência física e simbólica e da mentira direta, uma forma de governar. A democracia deixou de ser um valor universal e uma forma de viver civilizadamente em comunidade. Este espírito pode provocar um tsunami de guerras regionais de grande de destruição.

Não esqueçamos a advertência do Papa Francisco na Fratelli tutti  (2020): “estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Somos responsáveis pelo nosso futuro e pela vida no planeta

Temos a confiança de Morin de que, como a história tem mostrado, o inesperado e o improvável podem acontecer. Já um pré-socrático nos ensinava: “se não esperarmos pelo inesperado, quando ele vier, não o perceberemos”. E assim o perderemos.

Essa é a nossa confiança e esperança: estamos no meio de crises que não precisam terminar em tragédias fatais. Mas podem ser o despertar de uma nova consciência e então, a ocasião para um salto de qualidade rumo a um tipo de convivência pacífica dentro da única Casa Comum. Esse seria o próximo passo para a humanidade? Bem haja!

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu:Como cuidar da Casa Comum,Vozes 2017.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A criação ao nosso cuidado

Marcelo Barros


 

Nesta segunda-feira, 04 de outubro, se encerra o “tempo da criação”. Desde 2015, o papa Francisco, o patriarca ortodoxo Bartolomeu I e várias Igrejas cristãs propõem que, a cada ano, consagremos este tempo de 01 de setembro a 04 de outubro, para intensificar a oração e o cuidado com a mãe Terra, a natureza. Antes, quando falávamos em criação, parecíamos estar nos referindo apenas à doutrina segundo a qual, no princípio da história, Deus criou o universo. Muitos povos e culturas guardam belas tradições poéticas e mitos significativos sobre a origem do mundo e da humanidade. No entanto, atualmente, quando nos referimos à criação, estamos afirmando que todo ser vivo e tudo o que existe tem um sentido em si mesmo e é expressão do amor divino. Precisa ser respeitado e merece cuidado.

Na encíclica sobre o cuidado com a Terra, nossa casa comum, o papa Francisco afirma: “Na tradição judaico-cristã, dizer criação é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com o projeto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. A natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos e todas, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (Laudato si, n. 76). 

Nunca foi tão atual reafirmar isso nesse momento do mundo no qual a própria ONU tem publicado informes que revelam mudanças climáticas produzidas pela ação destruidora da sociedade. Conforme a ONU,  a cada ano, sete milhões de pessoas morrem devido a doenças provocadas pela poluição do ar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que 80% da população da Terra está exposta ao menos a um poluente grave. 1/3 da população do planeta não tem acesso à água potável de qualidade e metade da população não conta com saneamento básico. No Brasil, encerramos este tempo da Criação com notícias trágicas sobre um número recorde de queimadas em todos os biomas brasileiros e o anúncio de uma carência de água que já afeta todas as regiões do país.

 Neste mês de outubro e em novembro, a ONU realizará duas conferências mundiais sobre mudanças climáticas e cuidado com a ecologia. No entanto, de antemão, já sabemos que as mudanças profundas que seriam necessárias para curar o planeta Terra não poderão vir de governos que atuam como simples gerentes das empresas multinacionais e de seus interesses. Para termos qualquer vitória sobre esses desafios tão urgentes, precisamos com urgência mudar o sistema econômico dominante e instituir processos democráticos que representem realmente a maioria das pessoas e comunidades que habitam a Terra.

Mudanças tão profundas nunca ocorrerão sem uma transformação da cultura, através de uma mais profunda educação ecológica e de uma espiritualidade de amor e cuidado com  a Mãe Terra e todos os seres vivos. Infelizmente, nas Igrejas cristãs, esse tema da Ecologia é acolhido como bom e útil, mas como se fosse algo para além da fé. Só haverá mudança profunda se a Ecologia Integral for considerada como elemento central e essencial da própria fé.

A celebração deste tempo da criação de 2021 se encerrou nesta segunda-feira, 04 de outubro, não apenas para voltar daqui a um ano e sim para que este encargo nos seja entregue como missão. Que façamos de todos os meses e dias do ano um tempo permanente de cuidado amoroso com a Criação.   

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

domingo, 18 de julho de 2021

OITO EM CADA DEZ PESSOAS QUE SE CURAM DA COVID-19 TÊM SEQUELAS. NOSSO DESAFIO: TRATAR

 

Drª Margareth Dalcomo


Fonte: O Globo/Blog A hora da Ciência

Semana prolífica de dados e efemérides, lembrados nos mais diversos ambientes e meios de comunicação.

Passamos, por exemplo, os 500 dias do primeiro caso diagnosticado da Covid-19 no Brasil, que aqui chegou sem dar trégua para perplexidades. A curva de aprendizado por ela gerada, para que a entendêssemos como uma doença sistêmica, trombogênica, capaz de comprometer a microcirculação em todos os órgãos, foi e é ainda permanente. Hoje, nosso maior desafio é lidar com as sequelas da chamada “Covid longa”, presente em cerca de 80% dos que se curam, e comprometendo diferentes sistemas do corpo, com diversos graus de gravidade. A reabilitação pós-Covid-19 exige serviços multidisciplinares, a serem implementados na estrutura do SUS.

Sem razão para celebrar a redução de mortes porquanto mantemos mais de mil óbitos diários no país e contamos esse luto imenso de quase 550 mil brasileiros levados pela pandemia, assistimos a uma cobertura vacinal de 15%. Ainda longe do desejável, já resulta em impacto importante nas hospitalizações.

Em 10 de julho comemoraram-se 150 anos do nascimento do francês Marcel Proust (1871-1922), certamente um dos autores mais influentes do século XX, com a monumental obra “Em busca do tempo perdido”. Não apenas pelo tempo que levou para ser escrito, em seus sete volumes, mas pela densidade da narrativa exasperante de um cotidiano sacralizado, torna-se atemporal e desafiador até os nossos dias. Curioso que, neste tempo pandêmico, de dias de rotinas novas, vários grupos se dedicaram a essa bela e esmagadora aventura de busca da memória proustiana.

Impressionante a muitos — e para mim, emocionante, pela amizade que nos une — assistir de longe o centenário de Edgar Morin, o grande humanista francês. Criador do pensamento complexo e dos sete saberes na educação, lúcido, pensa e intervém com argúcia sobre o impacto da pandemia em nossas vidas, à luz de tantos inesperados pelos quais passou em sua longa vida. Olha com perspectiva e esperança o futuro.

Sua prodigiosa memória se revela uma vez mais em “Lições de um século de vida”. Recém-lançado na França, o livro traduz o melhor do humanismo do nosso tempo, ao narrar sua trajetória, sua identidade e seu múltiplo. A obra apresenta o inesperado de tantas vivências com a preocupação de nada ensinar, mas “contar lições de uma experiência secular e de um século de vida, para serem úteis a alguém, não apenas para se interrogar sobre sua própria vida, mas também para encontrar seu próprio caminho”.

Esse é o Edgar, que aos 98 anos recebemos em memorável sessão do grupo Humanidades da Saúde no Rio de Janeiro, nos falando sobre ciência e humanismo, e que em reunião social nos surpreendeu e encantou ao declamar “Le lac” (“O lago”), do poeta Alphonse de Lamartine (1790-1869). No melhor romantismo fala o tempo: “Nem ainda guardaremos suas pegadas?/ Para onde vão as delícias que devoras, / Que fazeis Eternidade, sombras abismadas, / das deglutidas horas?”. 

 

* Pneumologista, professora e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz <margarethdalcolmo@gmail.com> (Fiocruz)

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

NOSSO MUNDO CORRE RISCO DE EXPLOSÃO E DE IMPLOSÃO


Leonardo Boff


 

O sonho do Papa Francisco formulado na Fratelli tutti de uma fraternidade sem fronteiras e de uma amizade social (n.6), fundamentos para uma nova ordem mundial, se funda na consciência de que estamos numa emergência planetária. As ameaças à vida e a  insustentabilidade da Terra levaram-no a dizer: ”estamos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.32).

Para isso devemos forçosamente mudar: fazer a transição de paradigmas, quer dizer, passar do paradigma dominante que criou a modernidade, do ser humano senhor e dono (dominus) da natureza não se entendendo parte dela e por isso podendo explorá-la como bem entender  para  o paradigma do irmão e da irmã (frater) pelo qual o ser humano se sente parte da natureza, irmão de todos os seres e com a missão de guardar e cuidar dela.

Em razão disso propõe como base de sustentação de sua proposta as virtudes ausentes ou vividas apenas subjetivamente no paradigma do “senhor e dono”: o amor universal, a amizade social, o cuidado para com tudo o que existe e vive, a solidariedade sem fronteiras, a ternura e gentileza em todas as relações entre os humanos e com a natureza. Ela universaliza tais virtudes que antes eram privatizadas. Portanto, sua alternativa se alimenta daquilo que é essencial e do melhor no ser humano, aquilo que de fato nos faz humanos.

O Papa se dá conta do inusitado da proposta, reconhecendo: “parece uma utopia ingênua, mas não podemos renunciar a este sublime objetivo” (n.190). Realmente há vozes de cientistas e sábios que nos advertem dos riscos que corremos. Elenco alguns para dar concreção e caráter de urgência  à proposta do Papa, quase no limite do desespero, não obstante a sua fé inabalável e sua enraizada esperança no “Deus, apaixonado amante da vida”(Sab 11,26; Laudato Sí n.77 e 89)

Em razão do arrojado de sua proposta recorre também àquilo sem o qual a vida não teria futuro: a virtude e o princípio esperança. “Precisamos alimentar a esperança que nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive”(n.55).

 A esperança possui uma base objetiva: o caráter virtual da realidade. O dado objetivo não é todo o real. Pertence também ao real, o potencial e o utópico, aquilo que ainda não é mas pode ser. O dado atual nos diz que estamos nos comportando como o Satã da Terra,como  lobos uns para com os outros, reféns da cultura do capital, da competição ilimitada e do consumismo desenfreado.

Mas esse dado não é tudo, nem somos condenados a perpetuá-lo. Dentro de nós há também o potencial e  o utópico viável, o de sermos os cuidadores da vida, irmãos e irmãs uns dos outros e com todos os demais seres da natureza. Tal proposta vem enfaticamente pregada pela Fratelli tutti.

Esse potencial  pertence à nossa realidade. E se está potencialmente lá, pode ser ativado, pode ser feito projeto pessoal e político e pode inspirar práticas que darão um sentido salvador  à história. A esperança nos salvará do desespero e da destruição. Vale sempre esperar contra toda a esperança.

Entretanto, conscientizamo-nos dos graves riscos que pesam sobre nosso destino, como nos assinalem os melhores nomes das várias ciências da vida e da Terra. Demos apenas alguns exemplos:

O geneticista francês Albert Jacquard nos diz “que estamos fabricando uma Terra na qual ninguém de nós gostaria de viver. Devemos nos apressar porque a contagem regressiva já começou”(Le compte à rebous a-t-il commencée?(2009)

 Norberto Bobbio, notável jurista e filósofo, embora melancólico por temperamento, acreditava nas virtualidades de duas grandes revoluções do Ocidente: a dos direitos humanos e a da democracia. Ambas serviriam de base para a sua proposta por um pacifismo jurídico e político, capaz de equacionar o problema da violência como lógica do antagonismo entre os Estados. Mas os eventos do terrorismo globalizado, abalaram as convicções do velho e respeitado mestre. Numa de suas últimas entrevistas declarou:

”Não saberia dizer como será o Terceiro Milênio. Minhas certezas caem e somente um enorme ponto de interrogação agita a minha cabeça: será o milênio da guerra de extermínio ou o da concórdia entre os seres humanos? Não tenho condições de responder a esta indagação”.

No final de sua vida, o grande historiador Arnold Toynbee (+1975), depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas, deixou consignada esta opinião sombria em seu ensaio autobiográfico Experiências de 1969:

“Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do homem”.

Severas são as advertências de Martin Rees, astrônomo real do Reino Unido. À base de muitos conhecimentos a que tem acesso afirma em seu livro “A Hora Final:alerta de um cientista”(2005):”A humanidade está em maior perigo do que já esteve em qualquer outra época de sua história…a nossa chance de sobreviver até o fim deste século não passa de 50%”(203.205)

Cabe  citar  ainda, por sua grande autoridade, a advertência de um dos maiores historiadores do século XX Eric Hobsbawn em se conhecido livro-síntese “Era dos Extremos”(1994). Concluindo suas reflexões pondera:

“O futuro não pode ser a continuação do passado…Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão…Não sabemos para onde estamos indo. Contudo uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futro que vale a pena, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio sobre esta base, vamos fracassar. E  preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

A pandemia do Covid-19 nos deixa uma grave advertência: se continuarmos agredindo a natureza e a Terra algo ainda  pior nos poderá  acontecer: outros vírus mais letais que o Covid-19 poderão nos assaltar.

Esta situação suscita uma indagação humanística e filosófica: dá para se ter esperança ainda no ser humano no sentido de ver e sentir o outro como irmão e irmã?  Pode ele melhorar sob o ponto de vista das relações sociais, da moralidade e da humanidade?  Ou somos condenados a viver a nossa tragédia histórica até o fim, até a nossa autodestruição? O Papa Francisco em suas encíclicas ecológicas não exclui semelhante tragédia (Cf.Laudato Si n.161).

Seguramente não há nenhuma resposta cabal para interrogações desta radicalidade. Mas se no pós-pandemia não iniciarmos transformação substanciais na forma de produzir,distribuir,consumir e e nos relacionar com a natureza então sim podemos ser surpreendidos com a destruição de grande parte da humanidade, senão de toda ela. A Mãe Terra, entre dores por perder filhos e filhas queridos mas rebeldes, continuará sua trajetória ao redor do Sol, mas sem nós.

Leonardo Boff, ecoteólogo,filósofo escreveu O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amor e amizade social a sair em breve pela Vozes.

  

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O NATAL DE JESUS E O NOSSO NATAL SOB O COVID-19

 Leonardo Boff


O Natal do ano 2020 seja talvez o mais próximo do verdadeiro Natal de Jesus sob o imperador romano César Augusto.

Este imperador ordenara um recenseamento de todo o império. A intenção não era apenas como entre nós, de levantar quantos habitantes havia. Era isso, mas o propósito era cobrar de cada habitante um imposto, cuja soma com aquele de todas as províncias se destinava a manter a pira de fogo permanentemente acesa e sustentar os sacrifícios de animais ao imperador que se apresentava e assim era venerado como deus.Tal imposição a todos do Império provocou revoltas entre os judeus.

Esse fato, mais tarde, foi usado  pelos fariseus como uma armadilha a Jesus: devia pagar ou não o imposto a César? Não se tratava do imposto comum, mas aquele que cada pessoa do império devia pagar para alimentar os sacrifícios ao imperador-deus.

Para os judeus significava um escândalo pois adoravam um único Deus, Javé, como poderiam pagar um imposto para venerar um falso deus,o imperador de Roma? Jesus logo entendeu a cilada. Se aceitasse pagar o imposto seria cúmplice da adoração a um deus humano e falso, o imperador. Se o negasse se indisporia com as autoridades imperiais negando-se a pagar o tributo em homenagem ao imperador-deus.

Jesus deu uma resposta sábia: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E outras palavras, dai a César, um homem mortal e falso deus o que é de César: o imposto para os sacrifícios e a Deus, o único verdadeiro, o que é de Deus: a adoração.Não se trata da separação entre a Igreja e  o Estado como comumente se interpreta. A questão é outra: qual é o verdadeiro Deus, aquele falso de Roma ou aquele verdadeiro de Jerusalém? Jesus, no fundo, responde: só há um Deus verdadeiro e dêem a ele o que lhe cabe, a adoração.  Dai a Cesar,o falso deus, o que é de César: a moeda do imposto. Não misturem deus com Deus.

Mas votemos ao tema: o Natal de 2020, como nunca na história, se assemelha  ao Natal de Jesus. A família de José e de Maria grávida são filhos  da pobreza como a maioria de nosso povo. As hospedarias estavam cheias, como aqui os hospitais estão cheios de contaminados pelo vírus. Como pobres, Jesus e Maria, talvez nem pudessem pagar as despesas como, entre nós, quem não é atendido pelo SUS não tem como bancar os custos de um hospital particular. Maria estava na iminência de dar à luz.  Sobrou ao casal, refugiar-se numa estrebaria de animais. Semelhantemente como fazem tantos pobres que não têm onde dormir e o fazem sob as marquises ou, num canto qualquer da cidade. Jesus nasceu fora da comunidade humana, entre animais, como tantos de nossos irmãos e irmãs menores nascem nas periferias das cidades, fora dos hospitais e em suas pobres casas.

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Logo depois de seu nascimento, o Menino já foi ameaçado de morte. Um genocida, o rei Herodes, mandou matar a todos os meninos abaixo de dois anos.Quantas  crianças, no nosso contexto, são mortas pelos novos Herodes vestidos de policiais que matam crianças sentadas na porta da casa? O choro das mãe são eco do choro de Raquel, num dos textos mais comovedores de todas as Escrituras:”Na Baixada (em Ramá) se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre (cf.Mt 2,18).

De temor de ser descoberto e morto, José tomou Maria e o menino Jesus atravessam o deserto e se refugiram no Egito. Quantos hoje sob ameaça de morte pelas guerras e pela fome, tentam entrar na Europa e nos USA. Muitos morrem afogados, a maioria é rejeitada, como na catolicíssima Polônia e vem discriminda; até crianças são arrancadas dos pais e engaioladas como pequenos animais. Quem lhes enxugará as lágrimas? Quem lhes mata a saudade dos pais queridos? Nossa cultura se mostra cruel contra os inocente e contra os imigrantes forçados.

Depois que morreu o genocida Herodes, José tomou Maria e o Menino e foram esconder-se num lugarejo tão insignificante, Nazaré, que sequer consta na Bíblia. Lá o Menino “crescia e se fortalecia cheio de sabedoria“(Lc 2,40). Aprendeu a profissão do pai José, um fac-totum, construtor de telhados e coisas da casa, um carpinteiro. Era também um camponês que trabalhava o campo e aprendia a observar a natureza. Ficou lá escondido até completar 30 anos, foi quando sentiu o impulso de sair de casa e começar a pregação de uma revolução absoluta:”O tempo da espera expirou. A grande reviravolta está chegando (Reino). Mudem de vida e acreditem nessa boa notícia”(cf.Mc 1,14): uma transformação total de todas as relações entre os humanos e na própria natureza.

Conhecemos seu fim trágico. Passou pelo mundo fazendo o bem (Mc 7,37;Atos 10,39), curando uns, devolvendo os olhos a cegos, matando a fome de multidões e sempre se compadecendo do povo pobre e sem rumo na vida. Os religisos articulados com os políticos o prenderam, torturaram e o assassinaram pela crucificação.

Saiamos destas “sombras densas” como diz o Papa Fraancisco na Fratelli tutti. Voltemos o olhar desanuviado para o Natal de Jesus. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: anônimo e escondido. A presença de Jesus não apareceu na crônica nem de Jerusalém e muito menos de Roma. Devemos aceitar esta forma escolhida por Deus.  Realizou-se a lógica inversa da nossa: “toda criança quer ser homem; todo homem quer ser grande; todo grande quer ser rei. Só Deu quis ser criança”. E assim aconteceu.

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Aqui ecoam os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

         “Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

         Ele é o humano que é natural,    

         Ele é o divino que sorri e que brinca.

É a criança tão humana que é divina”.

Tais pensamentos me trazem à memória uma pessoa de excepcional qualidade espiritual. Foi ateu,marxista, da Legião Estrangeira. De repente sentiu uma comoção profunda e se converteu.Escolheu o caminho de Jesus, no meio dos pobres. Fez-se Irmãozinho de Jesus. Chegou a uma profunda intimidade com Deus, chamando-o sempre de “o Amigo”. Vivia a fé no código da encarnação e dizia: “Se Deus se fez gente em Jesus, gente como nós, então fazia xixi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho por causa da fralda molhada”. No começo teria gostado mais de Maria e mais grandinho mais de José, coisa que os psicólogos explicam no processo da realização humana.

Foi crescendo como nossas crianças, observava as formingas, jogava pedras nos burros e,maroto, levantava o vestidinho das meninas para vê-las furiosas, como imaginou irreverentemene Fernando Pessoa em seu belo poema sobre o Jesus menino.

Esse homem, amigo do Amigo, “imaginava Maria ninando Jesus, fazê-lo dormir porque de tanto brincar lá fora, ficava muito excitado e lhe custava fechar os olhos; lavava no tanque as fraldinhas; cozinhava o mingau para o Menino e comidas mais fortes  para o trabalhador o bom José”.

Esse homem espiritual italiano que viveu, muitas vezes ameaçado de morte, em tantos países da América Latina e vários no Brasil, Arturo Paoli, se  alegrava interiormente com tais matutações, porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração, de pura espiritualidade. E chorava com frequência de alegria interior. Era amigo do Papa que o mandou buscar de carro na cidadezinha uns 70 km de Roma para passarem toda um tarde e falarem da libertação dos pobres e da misericórdia divina. Morreu com 103 anos como um sábio e santo.

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Não esqueçamos a mensagem maior do Natal: Deus está entre nós, assumindo a nossa condition humaine,alegre e triste. É uma criança que nos vai julgar e não um juiz severo. E esta criança só quer brincar conosco e nunca nos rejeitar. Finalmente, o sentido mais profundo do Natal é esse: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus. E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita. Ele nunca pode perder, nem deixará que um filho seu ou filha sua se perderão. Assim, apesar do Covid-19 podemos viver uma discreta alegria na celebração familiar. Que o Natal nos dê um pouco de felicidade e nos mantenha na esperança do triundo da vida sobre o Covid-19.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu: Natal: a jovialidade e a  humanidade de nosso Deus,  Vozes 2005.

 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O NATAL DE JESUS E O NOSSO NATAL SOB O COVID-19

 

Leonardo Boff


O Natal do ano 2020 seja talvez o mais próximo do verdadeiro Natal de Jesus sob o imperador romano César Augusto.

Este imperador ordenara um recenseamento de todo o império. A intenção não era apenas como entre nós, de levantar quantos habitantes havia. Era isso, mas o propósito era cobrar de cada habitante um imposto, cuja soma com aquele de todas as províncias se destinava a manter a pira de fogo permanentemente acesa e sustentar os sacrifícios de animais ao imperador que se apresentava e assim era venerado como deus. Tal imposição a todos do Império provocou revoltas entre os judeus.

Esse fato, mais tarde, foi usado pelos fariseus como uma armadilha a Jesus: devia pagar ou não o imposto a César? Não se tratava do imposto comum, mas aquele que cada pessoa do império devia pagar para alimentar os sacrifícios ao imperador-deus.

Para os judeus significava um escândalo pois adoravam um único Deus, Javé, como poderiam pagar um imposto para venerar um falso deus, o imperador de Roma? Jesus logo entendeu a cilada. Se aceitasse pagar o imposto seria cúmplice da adoração a um deus humano e falso, o imperador. Se o negasse se indisporia com as autoridades imperiais negando-se a pagar o tributo em homenagem ao imperador-deus.

Jesus deu uma resposta sábia: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E outras palavras, dai a César, um homem mortal e falso deus o que é de César: o imposto para os sacrifícios e a Deus, o único verdadeiro, o que é de Deus: a adoração. Não se trata da separação entre a Igreja e  o Estado como comumente se interpreta. A questão é outra: qual é o verdadeiro Deus, aquele falso de Roma ou aquele verdadeiro de Jerusalém? Jesus, no fundo, responde: só há um Deus verdadeiro e deem a ele o que lhe cabe, a adoração.  Dai a Cesar, o falso deus, o que é de César: a moeda do imposto. Não misturem deus com Deus.

Mas votemos ao tema: o Natal de 2020, como nunca na história, se assemelha ao Natal de Jesus. A família de José e de Maria grávida são filhos da pobreza como a maioria de nosso povo. As hospedarias estavam cheias, como aqui os hospitais estão cheios de contaminados pelo vírus. Como pobres, Jesus e Maria, talvez nem pudessem pagar as despesas como, entre nós, quem não é atendido pelo SUS não tem como bancar os custos de um hospital particular. Maria estava na iminência de dar à luz.  Sobrou ao casal, refugiar-se numa estrebaria de animais. Semelhantemente como fazem tantos pobres que não têm onde dormir e o fazem sob as marquises ou, num canto qualquer da cidade. Jesus nasceu fora da comunidade humana, entre animais, como tantos de nossos irmãos e irmãs menores nascem nas periferias das cidades, fora dos hospitais e em suas pobres casas.

Logo depois de seu nascimento, o Menino já foi ameaçado de morte. Um genocida, o rei Herodes, mandou matar a todos os meninos abaixo de dois anos. Quantas  crianças, no nosso contexto, são mortas pelos novos Herodes vestidos de policiais que matam crianças sentadas na porta da casa? O choro das mãe são eco do choro de Raquel, num dos textos mais comovedores de todas as Escrituras: “Na Baixada (em Ramá) se ouviu uma voz, muito choro e gemido: a mãe chora os filhos mortos e não quer ser consolada porque ela os perdeu para sempre (cf.Mt 2,18).

De temor de ser descoberto e morto, José tomou Maria e o menino Jesus atravessam o deserto e se refugiram no Egito. Quantos hoje sob ameaça de morte pelas guerras e pela fome, tentam entrar na Europa e nos USA. Muitos morrem afogados, a maioria é rejeitada, como na catolicíssima Polônia e vem discriminda; até crianças são arrancadas dos pais e engaioladas como pequenos animais. Quem lhes enxugará as lágrimas? Quem lhes mata a saudade dos pais queridos? Nossa cultura se mostra cruel contra os inocente e contra os imigrantes forçados.

Depois que morreu o genocida Herodes, José tomou Maria e o Menino e foram esconder-se num lugarejo tão insignificante, Nazaré, que sequer consta na Bíblia. Lá o Menino “crescia e se fortalecia cheio de sabedoria “(Lc 2,40). Aprendeu a profissão do pai José, um fac-totum, construtor de telhados e coisas da casa, um carpinteiro. Era também um camponês que trabalhava o campo e aprendia a observar a natureza. Ficou lá escondido até completar 30 anos, foi quando sentiu o impulso de sair de casa e começar a pregação de uma revolução absoluta: “O tempo da espera expirou. A grande reviravolta está chegando (Reino). Mudem de vida e acreditem nessa boa notícia” (cf.Mc 1,14): uma transformação total de todas as relações entre os humanos e na própria natureza.

Conhecemos seu fim trágico. Passou pelo mundo fazendo o bem (Mc 7,37; Atos 10,39), curando uns, devolvendo os olhos a cegos, matando a fome de multidões e sempre se compadecendo do povo pobre e sem rumo na vida. Os religiosos articulados com os políticos o prenderam, torturaram e o assassinaram pela crucificação.

Saiamos destas “sombras densas” como diz o Papa Francisco na Fratelli tutti. Voltemos o olhar desanuviado para o Natal de Jesus. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: anônimo e escondido. A presença de Jesus não apareceu na crônica nem de Jerusalém e muito menos de Roma. Devemos aceitar esta forma escolhida por Deus.  Realizou-se a lógica inversa da nossa: “toda criança quer ser homem; todo homem quer ser grande; todo grande quer ser rei. Só Deu quis ser criança”. E assim aconteceu.

Aqui ecoam os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

         “Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

         Ele é o humano que é natural,    

         Ele é o divino que sorri e que brinca.

É a criança tão humana que é divina”.

Tais pensamentos me trazem à memória uma pessoa de excepcional qualidade espiritual. Foi ateu, marxista, da Legião Estrangeira. De repente sentiu uma comoção profunda e se converteu. Escolheu o caminho de Jesus, no meio dos pobres. Fez-se Irmãozinho de Jesus. Chegou a uma profunda intimidade com Deus, chamando-o sempre de “o Amigo”. Vivia a fé no código da encarnação e dizia: “Se Deus se fez gente em Jesus, gente como nós, então fazia xixi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho por causa da fralda molhada”. No começo teria gostado mais de Maria e mais grandinho mais de José, coisa que os psicólogos explicam no processo da realização humana.

Foi crescendo como nossas crianças, observava as formigas, jogava pedras nos burros e, maroto, levantava o vestidinho das meninas para vê-las furiosas, como imaginou irreverentemente Fernando Pessoa em seu belo poema sobre o Jesus menino.

Esse homem, amigo do Amigo, “imaginava Maria ninando Jesus, fazê-lo dormir porque de tanto brincar lá fora, ficava muito excitado e lhe custava fechar os olhos; lavava no tanque as fraldinhas; cozinhava o mingau para o Menino e comidas mais fortes  para o trabalhador o bom José”.

Esse homem espiritual italiano que viveu, muitas vezes ameaçado de morte, em tantos países da América Latina e vários no Brasil, Arturo Paoli, se  alegrava interiormente com tais matutações, porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração, de pura espiritualidade. E chorava com frequência de alegria interior. Era amigo do Papa que o mandou buscar de carro na cidadezinha uns 70 km de Roma para passarem toda um tarde e falarem da libertação dos pobres e da misericórdia divina. Morreu com 103 anos como um sábio e santo.

Não esqueçamos a mensagem maior do Natal: Deus está entre nós, assumindo a nossa condition humaine,alegre e triste. É uma criança que nos vai julgar e não um juiz severo. E esta criança só quer brincar conosco e nunca nos rejeitar. Finalmente, o sentido mais profundo do Natal é esse: a nossa humanidade, um dia assumida pelo Verbo da vida, pertence a Deus. E Deus, por piores que sejamos, sabe que viemos do pó e nos tem uma misericórdia infinita. Ele nunca pode perder, nem deixará que um filho seu ou filha sua se perderão. Assim, apesar do Covid-19 podemos viver uma discreta alegria na celebração familiar. Que o Natal nos dê um pouco de felicidade e nos mantenha na esperança do triundo da vida sobre o Covid-19.

 

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor e escreveu: Natal: a jovialidade e a  humanidade de nosso Deus,  Vozes 2005.

 

domingo, 25 de outubro de 2020

PAULO FREIRE À FRENTE DO SEU E DO NOSSO TEMPO

 



Prof. Martinho Condini

 

“A pedagogia que me toca é a pedagogia que escuta, provoca e vive a difícil experiência da liberdade, reconhecendo que há uma distorção, o autoritarismo. Minha opção é por uma pedagogia livre para a liberdade, brigando contra a concepção autoritária de Estado, de sociedade.”

 (Paulo Freire in Conversação Libertária com Paulo Freire, Edson Passetti, 1998.)

 

        Paulo Freire nos mostrou a importância da liberdade, da educação libertadora, da postura libertária, da utopia, da conscientização e do diálogo na formação dos sujeitos que fazem a história.         Nada é mais anarquista, na melhor concepção da palavra do que a práxis freireana. Ser um defensor da liberdade não significa apoiar a libertinagem ou a não organização, como alguns opositores há Freire costumam se expressar em livros ou nas redes sociais, tão em moda atualmente. Na verdade eles não entenderam uma só linha dos escritos do educador e pensador pernambucano, se é que as leram.

        Quando Freire fala em liberdade, está se referindo a solidariedade libertária ao companheirismo coletivo, há busca de um processo de aprendizagem onde os sujeitos se libertem da tirania do Estado e do capitalismo ou da amarras impostas pelos valores e controles das classes dominantes sejam no meio rural ou urbano, nas indústrias, nas fazendas, nas instituições religiosas ou educacionais e nos partidos políticos.

        Quanta dificuldade e resistência ainda há em relação a se compreender a teoria e a prática freireana, até mesmo no meio educacional.

        Ouso afirmar que a práxis freireana transcendeu as carteiras escolares, os muros das instituições de ensino, as ideologias partidárias, os anais acadêmicos e as fronteiras geográficas.

        Na práxis freireana encontramos a essência do seu propósito com a educação: “ensinar aprendendo e aprendendo ensinando”. Nesse processo é possibilitado ao sujeito exercer o que temos de mais precioso na vida, a liberdade. Liberdade para pensar, falar, ouvir, perguntar, agir e construir um conhecimento sentido, vivido, experimentado, na troca com o outro, no compartilhamento, na cooperação, na divergência e no diálogo.

        Em uma de suas obras Freire se preocupou com a reflexão dos educadores sobre o que o  “ensinar” exige do educador, porque, o importante é o ensinar e não o seu resultado. O resultado é conseqüência de uma somatória de fatores político, econômico, social, emocional que o explicará.

        Infelizmente em uma boa parte dos espaços de ensino, em todos os níveis, esse processo freireano não acontece na intensidade que deveria. Enquanto a prepotência dos valores neoliberais capitalistas, da doutrinação das escolas religiosas e dos interesses de poder do Estado imperarem na sociedade, será difícil o espaço escolar ser um espaço libertador com o intuito de ensinar e formar seres humanos, humanos de verdade, como acreditava Freire. As ilhas de excelência freireana que não estão nessa enorme bolha, são insignificantes diante do gigantismo dessa engrenagem retrograda, reacionária e controladora que vigoram na educação bancária do Estado burguês.

        Quando nos aprofundamos nos escritos de Freire, percebemos o quanto sua práxis foi genuinamente um processo significativo de formação humanista e libertária, apesar dele não ter sido um anarquista.   

        Obrigado mestre Paulo Freire, pela magna aula que você ministrou a todas e a todos que acreditam na liberdade como condição sine qua non para a existência de uma sociedade sem patrões, sem escravos, sem exploradores, sem explorados; sem opressores e sem oprimidos.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com