O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Momento de promessas, tempo de compromisso

 






Marcelo Barros

 

Daqui a poucos dias, o Brasil vai viver o segundo turno das eleições presidenciais e de vários governantes estaduais.  Principalmente, na opção por Lula ou pelo atual presidente, o que está em jogo são duas propostas ou projetos de país. Enquanto a extrema-direita ainda assusta as pessoas com o fantasma do Comunismo e provoca o medo de crentes com boatos de que, se eleito, Lula fecharia Igrejas, o projeto do seu candidato está ligado aos interesses de empresas mineradoras, de madeireiras, do latifúndio e do capital internacional. Retomam acusações sobre a corrupção do PT, mesmo se a corrupção na Petrobrás explodiu com os chamados “anões do orçamento”,  em 1993,  dez anos antes de Lula assumir o governo. Sabe que, nos governos do PT, a polícia federal teve como nunca liberdade para agir e os processos de corrupção, antes engavetados, vieram à tona. 

Atualmente, comparado com o que foi o chamado mensalão ou outros esquemas de corrupção ocorrido durante governos do PT, o “orçamento secreto” do atual presidente rouba do país uma soma equivalente a muitos mensalões. É claro que nenhum erro justifica outro. No entanto, na história do Brasil, quase sempre, acusações de corrupção servem de pretexto para que a direita desacredite a democracia e cometa crimes ainda piores.

A coligação de partidos que propõe Lula como presidente tem como base retomar um projeto de país para todos os brasileiros e brasileiras. A prioridade é garantir o direito universal à alimentação, à moradia e a condições de vida digna para mais de 33 milhões de brasileiros/as, nestes anos recentes, reduzidos à fome e à extrema pobreza. É urgente salvar o que ainda é possível da Amazônia e da sustentabilidade dos biomas brasileiros.

Trata-se de eleger alguém que, ao contrário do atual presidente, seja capaz de dialogar positivamente e de forma inteligente com o poder legislativo e com o judiciário, assim como com todos os segmentos da sociedade para construirmos novamente um país inclusivo para todos/as. Lula já demonstrou ser a pessoa mais competente para fazer isso.

É preciso ter clareza: quando o Evangelho diz que o Verbo, a Palavra de Deus, se fez carne, afirma que o amor divino assume a realidade do mundo como ela é. Encarna-se, isso é, se insere na caminhada da humanidade, sem transformá-la em Cristandade, evangélica ou católica. O projeto de país deve ser laico e pluralista, aberto a todos os cidadãos e cidadãs, a serviço da Paz, Justiça e Cuidado com a Terra e a natureza.

Quem é discípulo ou discípula de Jesus deve dar testemunho de que é capaz de conviver como irmão/ã com toda e qualquer pessoa humana, seja de que religião for, ou sem nenhuma tradição específica. Jesus não veio ao mundo para organizar religião. Afirmou: “Eu vim para que todos/as tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

Na sexta-feira, 7 de outubro, líderes religiosos/as de diversas tradições publicaram uma “Carta aberta às mulheres e homens de fé do Brasil”. Nesta carta, afirmam: “Nós, líderes religiosos e de diferentes credos e tradições, direcionamos nossa voz ao povo brasileiro. Nesse momento político conturbado, violento e disputado pelas redes sociais, convidamos todas as pessoas a assumirem sua cidadania, escolhendo cuidadosamente seu candidato e verificando seu alinhamento com os valores comuns às mais diversas tradições de fé que permeiam o coração do nosso povo...” (...).                   No final, concluem: “Não silenciemos! Escolhamos o Presidente do Brasil impulsionados pela FÉ e pelo compromisso com uma vida digna e justa para todas e todos. Nesse sentido, declaramos nosso voto e apoio ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, por entendermos que é nossa única opção para reconstruir o Brasil comprometida com a DEMOCRACIA, PLURALIDADE e JUSTIÇA SOCIAL”. Na íntegra, a carta pode ser lida no site do MST:

https://mst.org.br/2022/10/08/carta-aberta-as-mulheres-e-homens-de-fe-do-brasil/

Que a palavra profética destes irmãos e irmãs possa ressoar para todas as pessoas e comunidades de fé.


sexta-feira, 29 de abril de 2022

Pensar o impensável? a vida e o tempo

 


                                    Leonardo Boff


Foi-me solicitado escrever alguns pensamentos sobre a vida e o tempo, destinados aos jovens de hoje.Eis o que escrevi:

“Meus caros jovens,

Considerem a vida, o valor supremo, acima do qual só há o Gerador de toda vida,aquele Ser que faz ser todos os seres.Os cientistas,especialmente o maior deles que se ocupou do tema da vida, o russo-belga I.Prigogine afirmou: podemos conhecer as condições físico-químico-geológicas que permitiram o irromper a vida há 3,8 bilhões de anos. O que ela seja, no entanto, permance um mistério.

Mas podemos seguramente dizer que o sentido da vida é viver, simplesmente viver, mesmo na mais humílima condição. Viver é  realizar, a cada momento, a celebração desse evento misterioso do universo que pulsa em nós e quiçá em muitas olutras partes do universo.

A vida é sempre uma vida com e uma vida para. Vida com outras vidas, com vidas humanas, com vidas da natureza e com vidas que por acaso existirem no universo e que um dia puderem se comunicar conosco. E vida para dar-se e unir-se a outras vidas para que a vida continue vida e sempre se perpetue.

Mas a vida é tomada por uma pulsão interior que não pode ser freada. A vida quer irradiar, se expandir e se encontrar com outras vidas. A vida é só vida quando é vida com e vida para.

Sem o com e sem o para a vida não existiria como vida assim como a conhecemos, envolta em redes de relações includentes e  para todos os lados.

A pulsão irrefreável da vida faz com que ela não queira só isso e aquilo. Quer tudo. Quer até a Totalidade, quer o Infinito. No fundo, a vida quer ser eterna.

Ela carrega dentro de si um projeto infinito. Este projeto infinito a torna feliz e infeliz. Feliz porque encontra, ama e celebra outras vidas e tudo o que está ao seu redor, mas é infeliz porque tudo o que encontra, ama e celebra é finito, lentamente se desgasta, cai sob o poder da entropia e acaba desaparecendo. Apesar dessa finitude em nada enfraquece a pulsão pelo Infinito e pelo Eterno.

Ao encontrar esse Infinito repousa, experimenta uma plenitude que ninguém lhe pode dar, mas que só ela pode  desfrutar e celebrar. O infinito em nós é o eco de um Infinito maior que sempre nos chama e nos convoca.

A vida é inteira, mas incompleta. É inteira porque dentro dela está tudo: o real e o potencial. Mas é incompleta porque o potencial ainda não se fez real. E como o potencial é ilimitado, o nosso tipo limitado de vida  não comporta o ilimitado. Por isso nunca se faz completa para sempre. Permanece como abertura e espera para uma completude que quer e deve, um dia, acontecer.É um vazio que reclama ser plenificado. Caso contrário a vida não teria sentido.Como disse alguém:”a vida é oceânica demais para caber num doutrina petrificada no tempo”. Não seria a morte o momento de encontro do finito com o Infinito?

Eis que com a vida,  surge o tempo. Que é o tempo? O tempo é a espera daquilo que pode vir a acontecerEssa espera é a nossa abertura, capaz de acolher o que pode vir, fazer-nos mais inteiros e menos incompletos.

Viva intensamente cada momento do tempo! O passado já não existe porque passou, o futuro não existe porque ainda não veio. Só existe o presente. Viva-o com absoluta intensidade, valorize cada momento, ele traz o futuro para o presente e enriquece o passado.

Cada momento é a irrupção do eterno. Só pode ser vivido. Não pode ser apreendido, aprisionado e apropriado. Só ele é. Um dia foi (o passado) e um dia será (o futuro). Do tempo nós  só conhecemos o passado. O futuro nos é inacessível porque ainda não é. Nós, no entanto, vivemos o “é” do presente que nunca nos é concedido prendê-lo.Ele simplesmente passa por nós e se vai. Ele possui a natureza da eternidade que é um permanente “´é” O tempo assim significa a presença fugaz da eternidade. Nós estamos imersos na eternidade.

Viva esse “é” como se fosse o primeiro e o último. Assim você mesmo se eterniza. E eternizando-se participa Daquele que sempre é sem passado nem futuro. Um é eterno.

Podemos falar do tempo, mas ele é impensável. Esse é  eterno está vinculado ao que as tradições espirituais e religiosas da humanidade designaram como Mistério, Tao, Shiva, Alá, Olorum, Javé, Deus, nomes que não cabem em nenhum dicionário e estão para além de nosso entendimento. Diante dele afogam-se as palavras. Só o nobre silêncio é digno.

Mesmo assim cada um deve dar-lhe o nome que é o nome de sua participação nEle e de sua total abertura a  Ele. Esse nome fica inscrito em todo o seu ser temporal, mas principalmente pulsa em seu coração. Então o seu coração e o coração dAquele que eternamente é, formam um só e imenso coração”.

Dedico este texto ao prof.Wilian Martinhão que organizou um livro “O tempo, o que é? Uma história dos tempos” para o qual eu fiz  a Apresentação que me permito publicá-la antes de a  obra vir à lume.

Leonardo Boff,teólogo,filósofo e escritor

 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

TEMOS TEMPO E SABEDORIA SUFICIENTE PARA EVITAR A CATÁSTROFE?

 Leonardo Boff


No dia 8 de agosto de 2021 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)  publicou  o relatório, feito a cada dois anos, sobre a situação climática da Terra, fruto da pesquisa de mais de cem peritos de 52 países. Nunca o documento usou de tanta clareza, como agora, diferentemente dos relatórios anteriores. Antes se afirmava que havia 95% de certeza que o aquecimento global era antropogênico,vale dizer, de origem humana. Agora se sustenta sem restrições que ele é consequência dos seres humanos e de sua forma de habitar a Terra, especialmente, por causa do uso de energia fóssil (petróleo, carvão e gás) e de outros fatores negativos.

O cenário apresenta-se dramático.O  Acordo de Paris especifica que os países devem “limitar o aquecimento a bem abaixo de 2˚C, e perseguir esforços para limitar a 1,5˚C”. O relatório atual insinua que será difícil mas que   temos conhecimento científico, capacidade tecnológica e financeira para enfrentar as mudanças climáticas, desde que todo mundo, países, cidades, empresas e indivíduos, já agora se empenhem seriamente.

A situação atual é preocupante.Em 2016 as emissões globais de gases de efeito estufa somavam anualmente cerca de 52 gigatoneladas de CO2. Se não mudarmos de curso atual chegaremos em 2030 entre 52 a 58 gigatoneladas. Nesse nível haveria uma dizimação fantástica da biodiversidade e uma proliferação de bactérias e vírus como jamais havidos antes.

Para estabilizar o clima a 1,5 graus Celsius, afirmam os cientistas, as emissões precisariam cair pela metade (25-30 gigatoneladas). Caso contrário,com a Terra em chamas, conheceríamos eventos extremos aterradores.

Sou da opinião de que não bastam apenas  ciência e tecnologia para a diminuição dos gases de efeito estufa. É demasiada crença na onipotência da ciência que até hoje não sabe enfrentar totalmente o Covid-19. Faz-se urgente outro paradigma de relação para com a natureza e com a Terra, que não seja destrutivo mas amigável e em sutil sinergia com ritmos da natureza. Isso obrigaria uma transformação radical no modo de produção atual, capitalista, que ainda se move, em grande parte, na ilusão de que os recursos da Terra são ilimitados e que permitem,por isso,um projeto de crescimento/desenvolvimento também ilimitado. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì:sobre o cuidado da Casa Comum (2020)denuncia esta premissa como “mentira”(n.106):um planeta limitado,em grau avançado de degração e superpovoado não tolera um projeto ilimitado. O Covid-19 em seu significado mais profundo nos exige, pôr em ação,uma conversão paradigmática.

Na encíclica Fratelli tutti(2021) o Papa Francisco apreendeu este aviso do vírus. Contrapõe dois projetos: o vigente, da modernidade, cujo paradigma consiste em fazer o ser humano  dominus (senhor e dono) da natureza e o novo proposto por ele, o de frater (irmão e irmã), incluindo a todos, os humanos e os demais seres da natureza. Este novo paradigma do frater planetário fundaria uma fraternidade sem fronteiras e um amor social. Se não fizermos esta travessia,”todos se salvam o ninguém se salva”(n.32).

Eis a grande questão: o modo de produção capitalista mundializado mostra vontade política, tem a capacidade e a razoabilidade suficientes para se permitir esta mudança radical? Ele se fez o dominus (maître et possesseur de Descartes) da Terra e sobre  todos os seus recursos.Seu mantras são: o maior lucro possível,conseguido por uma concorrência feroz, acumulado individual ou corporarivamente, através de um exploração devastadora dos bens e serviços naturais. Desse modo de produção se originaram o descontrole climático e, o que é pior, uma cultura do capital, da qual, de alguma forma, todos somos reféns. Como para nos salvar de ambas?

Temos que mudar, senão, segundo  Sygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.

Logicamente,esta urgente conversão de paradigma,demanda tempo e implica um processo de transformação, pois todo o sistema está azeitado para produzir e consumir mais. Mas o tempo da mudança está  expirando. Daí o sentimento do mundo de grandes nomes,cuja credibilidade inquestionável não é de simples pessimismo,mas de um realismo bem fundado.Cito alguns deles:

O primeiro é o Papa Francisco de alertou na Fratelli tutti:”estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).

O segundo, o formulador da teoria da Terra como  super-organismo vivo, Gaia, James Lovelock, cujo último título diz tudo:”Gaia:alerta final”(Intrínseca, Rio 2010).

O terceiro é Martin Rees, Astrônomo Real do Reino Unido: Hora final:o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade (Companhia das Letras, SP 2005); dispensa comentário.

O quarto é Eric Hobsbawm, um mais renomados historiadores do século XX diz no final de seu A era dos extremos (Companhia das Letras, SP 1995):”Não sabemos para onde estamos indo.Contudo, uma coisa é clara:se a humanidade quer ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente.Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar.E o preço do fracasso, ou seja, a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562). Esta advertência vale para todos aqueles que pensam a pós-pandemia como uma volta à antiga e perversa   normalidade.

O quinto é o conhecido geneticista francês Albert Jacquard com o seu “A contagem regressiva já começou? (Le compte à retours a-t-il commence?  Stock, Paris 2009).Sustenta:”temos um tempo contado e à força de termos trabalhado contra nós mesmos, arriscamos de forjar uma Terra na qual ninguém de nós gostaria de morar. O pior não é certo, mas temos que nos apressar”(quarta capa).

Por fim, um dos últimos grandes naturalistas, Théodore Monod com o livro E se a aventura humana  vier a fracassar (Et si l’aventure humaine devait échouer,Grasset,Paris 2003) assevera: “O ser humano é perfeitamente capaz de uma conduta insensata e demencial; a partir de agora podemos temer tudo, tudo mesmo, até a aniquilação da espécie humana”(p.246).

O processo da cosmogênese e da antropogênse propiciaram também a emergência da fé e da esperança. Elas são parte da realidade total. Não invalidam as advertências citadas.Mas abrem outra janela que nos assegura que “o Criador criou tudo por amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Essa fé e esperança permitem ao Papa Francisco falar “para além do Sol” com estas palavras:”Caminhemos cantando,que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(Laudato Sì n.244).O princípio esperança supera todos os limites e mantém sempre aberto o futuro. Se não podemos evitar o descontrole climático, podemos nos precaver e minorar seus efeitos mais  danosos.É o que cremos e esperamos.

Leonardo Boff é filósofo e ecoteólogo e escreveu O doloroso parto da Mãe Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,Vozes 2020.

 

terça-feira, 22 de junho de 2021

TEMPO NOVO PARA OS POVOS ORIGINÁRIOS

 

Marcelo Barros


 

Nesta semana, a partir de 21 de junho, dia do solstício do inverno no hemisfério sul, vários povos originários celebram festas que correspondem ao que tradicionalmente, no hemisfério norte, se costumou denominar o ano novo. Em muitos recantos da cordilheira, povos andinos celebram o Inti- Raimi, festa do renascimento do Sol, rei da vida. Esses festejos nos recordam a antiga festa romana de 25 de dezembro que deu origem à atual celebração cristã do Natal.

No sul do Brasil, os Guarani Mbyá denominam essa época de junho como Ara Pyaú (Tempo Novo). Os fortes ventos (yvytu) anunciam o tempo novo, marcado pela cerimônia da erva-mate, o ka’a nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano-novo são interpretadas pelo pajé. Em outras regiões do Brasil, é a festa do milho. 

Essas celebrações indígenas, seja nos Andes, seja no Brasil, tiveram de se vestir de festas cristãs em honra de São João para serem aceitas. Desde as últimas décadas, a sociedade dominante investe nessas festas populares para explorar o turismo. Seja como for, os povos originários sempre têm sabido usar sua capacidade de organização para, nas brincadeiras e festas juninas, ensaiar novo estilo  de sociedade.  

Nestes dias, os mesmos quétchuas que desfilam de roupas longas e coloridas na Plaza Mayor de Cuzco  acabam de eleger Pedro Castillo, simples professor da roça, como presidente da República do Peru. Apesar da pandemia, em um imenso cortejo formado por pessoas de diversas etnias, os índios  descem as montanhas e vão a pé até Lima para manifestar aos peruanos da cidade grande que eles também são cidadãos. Representam a parte maior do país e querem ver respeitado o seu voto.

Na Colômbia e no Chile, comunidades tradicionais se manifestam exigindo mudanças e pedindo justiça. No Brasil, há poucos dias, associações indígenas criaram o Parlaíndio, um Parlamento dos Povos Indígenas. Esse organismo representará as vozes e interesses de quase um milhão de pessoas no Brasil. São povos que resistem e precisam de ver reconhecidos seus direitos coletivos. Querem viver suas culturas originárias, em seus territórios sagrados e junto com os Espíritos e Encantados, cuidar da natureza.

É urgente essa mobilização dos povos originários e a ela devemos nos juntar, todas as pessoas que amam a justiça e a paz. Como já há três anos, em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, afirmou o papa Francisco: “Os povos originários nunca foram tão ameaçados como estão sendo agora, em sua existência física e em suas culturas”.

As notícias revelam que na Amazônia e no Pantanal do Mato Grosso do Sul, a destruição da natureza tem se dado de modo gigantesco. Em todo o Brasil, companhias mineradoras como a Vale têm assassinado a vida de rios inteiros, transformados em leitos de contaminação e morte. As primeiras vítimas desse ecocídio são os povos originários.

De maio a junho somente no Oeste do Paraná, ocorreram quatro suicídios de adolescentes e jovens Avá Guarani, todos menores de  23 anos e todos ligados a falta de perspectivas de vida em sua cultura.

Neste ano, a pandemia ainda não permitirá que no Brasil e nos Andes as festas de um novo tempo possam ser vividas do modo como desejaríamos. No entanto, elas podem ser ensaiadas na educação da juventude e na prioridade que devemos dar a superar a propaganda anti-ética dos dominadores. É preciso que as manifestações populares ganhem sempre mais força nova. 

Assim, mesmo no cuidado sanitário do distanciamento físico e do uso de máscaras, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, traduzem para toda a humanidade uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).


  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

domingo, 23 de maio de 2021

LIÇÕES DO TEMPO PASCAL, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(21/05/2021)

 

     Este ano, mais uma vez, celebramos a Festa da Páscoa com nossas igrejas quase vazias. Uma tristeza, sem dúvida, para quem se nutre da Fé e, a cada ano, reacende sua chama no Círio Pascal.

 

     No entanto, há boas lições a aprender neste esvaziamento imposto pelo coronavírus. Recordemos o grande medo dos apóstolos, vendo esvaziarem-se suas esperanças com a morte do Mestre querido. Recordemos a dor de Maria Madalena e de outras mulheres ao visitar a sepultura do Senhor e encontrar o túmulo vazio. Mas foquemos nossa atenção em um ponto especial, nas palavras do anjo mensageiro: "por que vocês procuram entre os mortos Aquele que está vivo?" Lc.24,5.

 

       Poderemos ver aí uma fonte inspiradora para outro tipo de entendimento. Às vezes uma realidade tal gera seus contrapontos e estes acabam ajudando a comprendê-la com nais lucidez (o veneno da cobra é mortífero, porém com ele se fabrica um antídoto para curar a mordida da cobra.)

 

     Vou invocar novamente um dos nossos "terríveis adversários", o filósofo Nietzsche. Em um de seus textos ele fala de um "homem tolo", uma espécie de palhaço (palhaço é um personagem que pode dizer a verdade em meio a risos). Ele entra na igreja e convida o povo a entoar o "requiem aeternum" pela morte de Deus, dizendo: "o que ainda são estas igrejas senão túmulos e lápides de Deus"?

 

     Sinceramente confesso que a blasfêmia do "homem tolo" não fere minha fé, mas fere a minha consciência. Será que não há certas formas de Igreja que se tornaram jazigos frios de um "deus morto?". Lembro, a propósito, uma alusão do Papa Francisco, quando ainda cardeal, a uma passagem do livro do Apocalipse. O Senhor esta diante da porta e bate, querendo entrar. Só que agora Ele bate por dentro, querendo sair. Talvez tenhamos aprisionado Jesus em nossas pretensas seguranças.

 

     Recentes estudos sociológicos constataram uma notável diminuição do número de pessoas que se sentem em casa, no mundo (há uma doença chamada "mal do mundo", um tédio de estar aqui). Por outro lado, cresce também a quantidade de pessoas que estão à procura. Entre estas últimas devemos situar a nossa Fé. Uma fé estagnada, que não está mais à procura, é uma fé de UTI. A diferença é que, em vez de procurarmos a partir de um ponto zero, nós nos deixamos conduzir por uma Luz Superior: "Eu sou a Luz do mundo" Jo.8, 12.

 

     Imaginemos muitos desses caminhantes das sombras entrando em nossas igrejas, ansiosos por ouvir algo que toque suas feridas e aponte meios de cura! O que ouvem? O que sentem? Como saem dali?

 

     Vale buscar inspiração em uma outra passagem bíblica que se destaca na liturgia do tempo pascal.  Aquela do apóstolo Tomé. Após descrer do testemunho dos companheiros, Ele se confronta com o Senhor, face a face. - "Vem cá, Tomé, olha para mim, vê minhas mãos, toca nas marcas das chagas. Sou eu. Por que duvidas?" Cf.Jo, 20, 27-29. Neste momento o incrédulo Tomé transforma-se no Tomé crente e comovido: "Meu Senhor e meu Deus!". Qual foi a porta da conversão? Foi o "toque nas marcas das minhas chagas".

 

     Aí se encontra a lição permanente do tempo pascal: é preciso crer na eficácia do amor solidário, a despeito da visão adversa dos fatos reais. S. Paulo chama o acontecimento do Calvário de "loucura da cruz", e a põe em confronto com a pretensa sabedoria do mundo. "Aquilo que o mundo reputa como loucura e fraqueza Deus converte em saber e poder, a fim de confundir os que se passam por sábios e poderosos" 1Cor.1,18ss.

 

     Narra uma antiga tradição que, um belo dia, o diabo apareceu a São Martinho, disfarçado de Jesus Cristo. O santo viu, não se impressionou e perguntou: "onde estão as feridas"?  Moral da estória: não há outro caminho para ver Jesus revivendo e operando ressurreições, hoje em dia, que não seja tocando nas feridas do mundo.

     É para nos guiar por este caminho que invocaremos o Espírito Santo no próximo domingo: "Senhor e Criador que és nosso Deus, vem inspirar estes filhos teus, e em nossos corações derrama a tua luz, e um povo renovado ao mundo mostrarás". Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

PAULO FREIRE À FRENTE DO SEU E DO NOSSO TEMPO

 



Prof. Martinho Condini

 

“A pedagogia que me toca é a pedagogia que escuta, provoca e vive a difícil experiência da liberdade, reconhecendo que há uma distorção, o autoritarismo. Minha opção é por uma pedagogia livre para a liberdade, brigando contra a concepção autoritária de Estado, de sociedade.”

 (Paulo Freire in Conversação Libertária com Paulo Freire, Edson Passetti, 1998.)

 

        Paulo Freire nos mostrou a importância da liberdade, da educação libertadora, da postura libertária, da utopia, da conscientização e do diálogo na formação dos sujeitos que fazem a história.         Nada é mais anarquista, na melhor concepção da palavra do que a práxis freireana. Ser um defensor da liberdade não significa apoiar a libertinagem ou a não organização, como alguns opositores há Freire costumam se expressar em livros ou nas redes sociais, tão em moda atualmente. Na verdade eles não entenderam uma só linha dos escritos do educador e pensador pernambucano, se é que as leram.

        Quando Freire fala em liberdade, está se referindo a solidariedade libertária ao companheirismo coletivo, há busca de um processo de aprendizagem onde os sujeitos se libertem da tirania do Estado e do capitalismo ou da amarras impostas pelos valores e controles das classes dominantes sejam no meio rural ou urbano, nas indústrias, nas fazendas, nas instituições religiosas ou educacionais e nos partidos políticos.

        Quanta dificuldade e resistência ainda há em relação a se compreender a teoria e a prática freireana, até mesmo no meio educacional.

        Ouso afirmar que a práxis freireana transcendeu as carteiras escolares, os muros das instituições de ensino, as ideologias partidárias, os anais acadêmicos e as fronteiras geográficas.

        Na práxis freireana encontramos a essência do seu propósito com a educação: “ensinar aprendendo e aprendendo ensinando”. Nesse processo é possibilitado ao sujeito exercer o que temos de mais precioso na vida, a liberdade. Liberdade para pensar, falar, ouvir, perguntar, agir e construir um conhecimento sentido, vivido, experimentado, na troca com o outro, no compartilhamento, na cooperação, na divergência e no diálogo.

        Em uma de suas obras Freire se preocupou com a reflexão dos educadores sobre o que o  “ensinar” exige do educador, porque, o importante é o ensinar e não o seu resultado. O resultado é conseqüência de uma somatória de fatores político, econômico, social, emocional que o explicará.

        Infelizmente em uma boa parte dos espaços de ensino, em todos os níveis, esse processo freireano não acontece na intensidade que deveria. Enquanto a prepotência dos valores neoliberais capitalistas, da doutrinação das escolas religiosas e dos interesses de poder do Estado imperarem na sociedade, será difícil o espaço escolar ser um espaço libertador com o intuito de ensinar e formar seres humanos, humanos de verdade, como acreditava Freire. As ilhas de excelência freireana que não estão nessa enorme bolha, são insignificantes diante do gigantismo dessa engrenagem retrograda, reacionária e controladora que vigoram na educação bancária do Estado burguês.

        Quando nos aprofundamos nos escritos de Freire, percebemos o quanto sua práxis foi genuinamente um processo significativo de formação humanista e libertária, apesar dele não ter sido um anarquista.   

        Obrigado mestre Paulo Freire, pela magna aula que você ministrou a todas e a todos que acreditam na liberdade como condição sine qua non para a existência de uma sociedade sem patrões, sem escravos, sem exploradores, sem explorados; sem opressores e sem oprimidos.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

terça-feira, 28 de julho de 2020

COVID 19 - QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA REFLEXÃO - LUTAS E CONQUISTAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


por FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Esta madrugada tive um sonho que me pareceu obra de ficção baseada em fatos reais.  Sonhei que uma rainha de nome Pandemia Covídia II mandava um exército de pigmeus atacar todos os recantos do planeta terra, onde habitassem humanas criaturas. Foi uma enorme devastação.
     Após precisamente um ano de ocupação, os que chegaram sem nada explicar, retiraram-se sem  fazer comemorações, deixando  2 milhões de vítimas fatais.
      Durante suas investidas num país chamado Brasil, aconteceu de tudo; além de sinceras lágrimas de dor, houve protestos ("fora!"), palavras de ordem ("o Brasil não pode parar!"), gestos de bravura ("e daí?"), rasgos de heroísmo ("acabou, porra!") e intermináveis discussões das altas cúpulas do poder, dividido em dois grupos (os "cloroquinas" e os "tubainas").
     Em meio às vítimas, no bolso de um sábio de fama mundial, foi encontrado um documento assinado com as letras J. S.  Reputo suas idéias como de interesse geral, por isso divulgo-as em um breve resumo:
     Viver em harmonia é o direito primordial de todo ser humano. Outorgado gratuitamente pelo Criador, não demorou muito tempo para tornar-se uma conquista resultante de lutas, sacrifícios e martírios.
     Nos primórdios havia um lugar chamado Paraíso, onde habitavam os primeiros espécimes do "homo sapiens". Aconteceu, um belo dia, uma serpente venenosa aproximou-se de um de seus habitantes e perguntou-lhe: "boa tarde, Eva, como vão as coisas por aqui?" - "Vão ótimas, graças a Javé, estamos muito felizes". - "Então por que Javé proibiu vocês de comer o fruto daquela árvore, no centro do Paraíso?" - "Não sei, Ele é soberano, sabe o que faz". - "Pois eu sei, Eva, vou dizer-lhe e quero que você passe este recado para seu marido Adão. Javé  age assim porque sabe, se comerem o fruto proibido, vocês serão iguais a Ele".
     Foi o que bastou. Adão e Eva quiseram possuir mais do que possuíam, ser mais do que eram. Comeram do fruto proibido, para tornarem-se iguais a Deus: o único capaz de lidar com poderes ilimitados.
     Daí teve início a sequela de todos os males no planeta terra. (Foi pretexto para um sábio filósofo, Jacques Rousseau (1712-1778) escrever: "O primeiro homem que cercou um terreno e atreveu-se a dizer "isto me pertence só a mim" foi o verdadeiro fundador da sociedade. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantos horrores e misérias não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e entulhando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: não dêem atenção a este impostor. Vocês estarão perdidos se esquecerem que os frutos pertencem a todos e que a terra não é de ninguém" ("Discurso Sobre a Origem da Desigualdade").
     Séculos depois daquele diálogo fatal, surgiu um grande líder político na terra dos faraós, chamado Moisés. Para ser fiel ao sangue que lhe corria nas veias, fugiu do palácio, onde fora educado regiamente, e foi misturar-se aos seus conterrâneos, só voltando ao palácio para reivindicar a libertação do seu povo. Ao longo da caminhada pelo deserto, na direção da Terra Prometida, compreendeu que era preciso elaborar um código de leis, em vista da segurança da multidão em movimento. A legislação mosaica foi uma das primeiras da História. Outras foram descobertas: "O Código de Amurabi" na Babilônia(1750 A.C.). "O Código de Manu" (1500 A.C.) na Índia. "A Lei das 12 Tábuas"  em Roma (450 A.C.). "A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" na Revolução Francesa (1789). "A Declaração Universal dos Direitos Humanos" (1948), elaborada pela ONU.
     Nenhuma destas legislações nasceu de uma concessão dos deuses, do favor de algum rei, da mente de algum filósofo, ou da decisão de alguma Assembleia Política. Todas resultaram de uma necessidade coletiva, em um contexto de lutas reivindicatórias contra a tirania, e só tiveram êxito graças à intervenção e participação das massas populares. 
     As duas últimas e mais famosas converteram suas legendas em uma tela palpitante de todos os pensamentos jurídicos em favor da melhoria política, moral, cultural, religiosa e material da comunidade humana.
     Comparemos alguns de seus artigos ("TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI", "TODOS NASCEM IGUAIS E LIVRES EM DIGNIDADE E DIREITOS") com a realidade em vigor, e perguntemos:  qual deve ser a nossa atitude? Podemos rir, aplaudir, chorar, no entanto, se encostarmos o ouvido no peito de uma pessoa de bom senso, ouviremos a única resposta racional: LUTAR!
     Neste ponto, volto ao sonho inicial. A rainha Pandemia Covídia II sussurrou-me gravemente: "diga ao seu povo que o tamanho do meu poder é proporcional   ao vazio da ignorância que conduziu ao comando supremo da nação uma pandemia muito mais mortífera do que o coronavirus. Diga-lhe ainda que estejam atentos à próxima oportunidade de corrigir o seu erro, do contrário, meu exército de pigmeus voltará a atacar, em formas de fome, desemprego, violência....De repente acordei assustado. Achei oportuno abrir ao acaso a minha Bíblia e me deparei com a seguinte passagem: "aparecerão sinais pavorosos no céu e na terra, as forças do mundo serão abaladas (....) Quando estas coisas começarem a acontecer, não tenham medo, levantem sua cabeça, é a  sua libertação que se aproxima" Cf. Lc. 21, 5-37.   Amém.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

SOBRE O TEMPO

REFLEXÕES



Por Kinno Cerqueira [1]

A nossa época testemunha o franco recuo do espaço privado. A linha que divide o espaço público do espaço privado tornou-se milimetricamente estreita, quase invisível, facilmente transponível. Nossos espaços de natureza privada passaram por reconfigurações que os tornaram facilmente permeáveis.  
Os labores do dia, antes intermitentes, assumiram a forma de um rigoroso continuum. Criamos um jeito de viver que desconhece intervalos. Estranhamente, temos tempo para tudo e não temos tempo para nada. Nunca chegamos, nem partimos, pois já ansiamos partir antes mesmo de chegar. Tornamo-nos absurdamente frenéticos!
A tecnologia, sobretudo a internet, sorrateiramente dominou-nos. Qual de nós consegue conversar longamente com alguém sem que, a cada cinco minutos, precise pedir licença para ler as mensagens que vão chegando ao celular? Raramente conseguimos estar verdadeiramente em um único lugar, razão por que nossas experiências costumam ser rasas e infrutíferas.
Parece-me, assim, de toda pertinência esta pergunta feita por Jesus: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (Mc 8,36). Não raras vezes tenho a impressão de que, a despeito de nossas conquistas, estamos perdendo a vida. Recuso-me a acreditar que a vida pode ser vida sem que pratiquemos “a arte da lentidão” (expressão cunhada por José Tolentino Mendonça).
A nossa vida carece de uma serenidade que nos habite e na qual possamos habitar. Urgimos por momentos de silêncio e quietude que criem o caminho por meio do qual adentremos ao mais íntimo do nosso interior e, chegando lá, fechemos a porta a fim de que experimentemos aquele refrigério que só podemos saborear no secreto de nós mesmos.
Nunca antes estivemos tão necessitados de desenvolver uma arte do silêncio. Como escreve Clarice Lispector: “Calar-se é nascer de novo/A verdade é sempre um contato interior e inexplicável”. O silêncio, muito mais que as palavras, aproxima-nos da verdade acerca de nós mesmos, fomenta a possibilidade de aprofundar e reelaborar nossas experiências cotidianas, de parirmos a nós próprios, de renascermos...
“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”, escreveu Mário Quintana. Sim, a vida é a nossa maior obra. E fazer a vida requer um abrandamento interior por meio do qual consigamos ser libertos dos automatismos do nosso tempo. Façamos as pazes com o tempo. Devemos resgatar o hábito de caminhar devagar, de modo que a pressa de chegar não nos impeça de fruir a beleza do caminho. A vida se faz devagar.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.



terça-feira, 6 de novembro de 2018

OSCAR ROMERO: UM SANTO PARA NOSSOS TEMPOS



                      Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

A santidade pode acontecer sem direta e necessária conexão com a moralidade, em especial dentro dos parâmetros casuísticos como tem sido concebida. Juntamente com esta afirmação está a convicção de que a santidade não ocorre necessariamente dentro dos cânones habituais de uma instituição religiosa. Trata-se de uma transformação completa da pessoa, a qual pode dar-se em diferentes circunstâncias.

  Santo é alguém que tem o gênio de contemplar com atenção criativa a realidade e o mundo, e encontrar em sua experiência de Deus uma resposta original às demandas e interpelações que seu momento histórico e social levanta.  A santidade é, pois, um processo vital, que inclui não apenas uma experiência religiosa, mas a conecta com a ética e a práxis.

Há poucos dias o mundo recebeu com júbilo a notícia de que o Papa Francisco canonizara – ou seja, proclamara santo da Igreja Católica – o arcebispo de San Salvador, Oscar Arnulfo Romero. Pessoa discreta e moderada, recebera o episcopado na expectativa de que se desempenharia dele da habitual forma discreta e modesta que o caracterizava. E assim provavelmente seria a história de seu percurso eclesiástico se não fosse alguém aberto ao Espírito que o animava.  Quando viu com seus olhos as mortes que ceifavam a vida de seu clero e seu povo, percebeu que não podia apenas cumprir sua rotina de arcebispo.  Tinha que falar. 

E assim o tímido arcebispo denunciou as barbaridades que a violência fazia em seu país, declarando-as contra a justiça, a paz e, sobretudo, contra o Evangelho de Jesus. Suas homilias eram transmitidas por rádio e tonitruavam pelos quatro cantos de seu país e para além dele.  Os olhos do mundo voltaram-se para o pequeno país oprimido que, graças à coragem profética do arcebispo, se fazia visível por toda parte. 

As forças da violência e do mal que governavam o país não viram com bons olhos a atuação de monsenhor Romero.  Protestaram em El Salvador, em Roma e onde mais puderam.  Incomodava muito aquele arcebispo que teimava em não se recolher à sacristia e insistia em ocupar o espaço público fazendo denúncias e censurando os procedimentos da lei e da ordem. 

Finalmente, Romero foi morto.  Atravessou-lhe o coração uma bala disparada por um atirador de elite.  Estava no meio da celebração da missa e acabava de consagrar o pão e o vinho que, transubstanciados no corpo e sangue de Jesus Cristo, ressignificaram sua morte.  Era um mártir, ou seja, uma testemunha que foi até o fim na confissão de fé do Reino anunciado por Jesus. 

Na Igreja Antiga seria aclamado santo no minuto seguinte.  O martírio era um sinal mais do que claro para declarar alguém plenamente unido a Deus e fiel a seu amor incondicional.  Alguém que dá a vida pelos outros devido à fé que lhe anima a vida é certamente santo tal como o entende a Igreja Católica. 

No entanto, Romero foi assassinado em 1980 e apenas agora, em 2018 aconteceu sua canonização.  Por que uma espera tão longa diante de uma santidade tão evidente?  Qual a razão da demora?   Que dúvida poderia pairar sobre a vida daquele homem que o povo salvadorenho, assim como todos os latino-americanos, já cultuavam como santo e cuja vida inspirava outras vidas para além das fronteiras do continente?

Pareceria que Romero não teria sido assassinado por ódio à fé.  A razão de sua morte não foi a defesa de uma formulação dogmática, ou de uma norma moral.  Foi, sim, a comunhão apaixonada com a dor dos outros, no caso de seu povo que sofria perseguição e violência. Felizmente, o Papa Francisco entendeu que se Romero não fora morto por ódio à fé, certamente o fora por seu exemplo heroico de caridade.  E no último dia 14 de outubro canonizou-o, declarando-o santo e mártir da Igreja Católica. 

Os santos têm em comum a experiência de que todas as graças e conhecimentos a eles dados por Deus os direcionam misericordiosamente para o sofrimento humano.  Cada santo ou santa não quer estar separado das dores e sofrimentos de seus contemporâneos, mas entrar em profunda solidariedade e comunhão com eles. Sua sintonia com Deus os leva não a ensimesmar-se em seu interior, mas a abrir olhos e ouvidos aos clamores da realidade, aos sofrimentos do próximo, à realidade dolorosa do mundo. E é aí que a mística se encontra com a prática da caridade e tem como fruto a santidade.

sim que Oscar Romero disse a Deus teve início ali onde várias vezes a teodiceia encontrou uma aporia e homens grandes e brilhantes como Albert Camus não encontraram resposta a não ser a indignação e o antiteísmo: no sofrimento do outro, sofrimento inocente e injusto que abraçou com paixão e compaixão. 

Canonizando santos, a Igreja quer dar testemunho ao mundo de que aqueles seus filhos viveram plenamente o ethos do amor e da intimidade com Deus e o serviço dos outros. Assim aconteceu com Oscar Romero, que hoje pode ser invocado como santo e cuja vida tornou o mundo mais humano e mais de acordo ao sonho do Criador. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livro