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terça-feira, 28 de julho de 2020

COVID 19 - QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA REFLEXÃO - LUTAS E CONQUISTAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


por FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Esta madrugada tive um sonho que me pareceu obra de ficção baseada em fatos reais.  Sonhei que uma rainha de nome Pandemia Covídia II mandava um exército de pigmeus atacar todos os recantos do planeta terra, onde habitassem humanas criaturas. Foi uma enorme devastação.
     Após precisamente um ano de ocupação, os que chegaram sem nada explicar, retiraram-se sem  fazer comemorações, deixando  2 milhões de vítimas fatais.
      Durante suas investidas num país chamado Brasil, aconteceu de tudo; além de sinceras lágrimas de dor, houve protestos ("fora!"), palavras de ordem ("o Brasil não pode parar!"), gestos de bravura ("e daí?"), rasgos de heroísmo ("acabou, porra!") e intermináveis discussões das altas cúpulas do poder, dividido em dois grupos (os "cloroquinas" e os "tubainas").
     Em meio às vítimas, no bolso de um sábio de fama mundial, foi encontrado um documento assinado com as letras J. S.  Reputo suas idéias como de interesse geral, por isso divulgo-as em um breve resumo:
     Viver em harmonia é o direito primordial de todo ser humano. Outorgado gratuitamente pelo Criador, não demorou muito tempo para tornar-se uma conquista resultante de lutas, sacrifícios e martírios.
     Nos primórdios havia um lugar chamado Paraíso, onde habitavam os primeiros espécimes do "homo sapiens". Aconteceu, um belo dia, uma serpente venenosa aproximou-se de um de seus habitantes e perguntou-lhe: "boa tarde, Eva, como vão as coisas por aqui?" - "Vão ótimas, graças a Javé, estamos muito felizes". - "Então por que Javé proibiu vocês de comer o fruto daquela árvore, no centro do Paraíso?" - "Não sei, Ele é soberano, sabe o que faz". - "Pois eu sei, Eva, vou dizer-lhe e quero que você passe este recado para seu marido Adão. Javé  age assim porque sabe, se comerem o fruto proibido, vocês serão iguais a Ele".
     Foi o que bastou. Adão e Eva quiseram possuir mais do que possuíam, ser mais do que eram. Comeram do fruto proibido, para tornarem-se iguais a Deus: o único capaz de lidar com poderes ilimitados.
     Daí teve início a sequela de todos os males no planeta terra. (Foi pretexto para um sábio filósofo, Jacques Rousseau (1712-1778) escrever: "O primeiro homem que cercou um terreno e atreveu-se a dizer "isto me pertence só a mim" foi o verdadeiro fundador da sociedade. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantos horrores e misérias não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e entulhando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: não dêem atenção a este impostor. Vocês estarão perdidos se esquecerem que os frutos pertencem a todos e que a terra não é de ninguém" ("Discurso Sobre a Origem da Desigualdade").
     Séculos depois daquele diálogo fatal, surgiu um grande líder político na terra dos faraós, chamado Moisés. Para ser fiel ao sangue que lhe corria nas veias, fugiu do palácio, onde fora educado regiamente, e foi misturar-se aos seus conterrâneos, só voltando ao palácio para reivindicar a libertação do seu povo. Ao longo da caminhada pelo deserto, na direção da Terra Prometida, compreendeu que era preciso elaborar um código de leis, em vista da segurança da multidão em movimento. A legislação mosaica foi uma das primeiras da História. Outras foram descobertas: "O Código de Amurabi" na Babilônia(1750 A.C.). "O Código de Manu" (1500 A.C.) na Índia. "A Lei das 12 Tábuas"  em Roma (450 A.C.). "A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" na Revolução Francesa (1789). "A Declaração Universal dos Direitos Humanos" (1948), elaborada pela ONU.
     Nenhuma destas legislações nasceu de uma concessão dos deuses, do favor de algum rei, da mente de algum filósofo, ou da decisão de alguma Assembleia Política. Todas resultaram de uma necessidade coletiva, em um contexto de lutas reivindicatórias contra a tirania, e só tiveram êxito graças à intervenção e participação das massas populares. 
     As duas últimas e mais famosas converteram suas legendas em uma tela palpitante de todos os pensamentos jurídicos em favor da melhoria política, moral, cultural, religiosa e material da comunidade humana.
     Comparemos alguns de seus artigos ("TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI", "TODOS NASCEM IGUAIS E LIVRES EM DIGNIDADE E DIREITOS") com a realidade em vigor, e perguntemos:  qual deve ser a nossa atitude? Podemos rir, aplaudir, chorar, no entanto, se encostarmos o ouvido no peito de uma pessoa de bom senso, ouviremos a única resposta racional: LUTAR!
     Neste ponto, volto ao sonho inicial. A rainha Pandemia Covídia II sussurrou-me gravemente: "diga ao seu povo que o tamanho do meu poder é proporcional   ao vazio da ignorância que conduziu ao comando supremo da nação uma pandemia muito mais mortífera do que o coronavirus. Diga-lhe ainda que estejam atentos à próxima oportunidade de corrigir o seu erro, do contrário, meu exército de pigmeus voltará a atacar, em formas de fome, desemprego, violência....De repente acordei assustado. Achei oportuno abrir ao acaso a minha Bíblia e me deparei com a seguinte passagem: "aparecerão sinais pavorosos no céu e na terra, as forças do mundo serão abaladas (....) Quando estas coisas começarem a acontecer, não tenham medo, levantem sua cabeça, é a  sua libertação que se aproxima" Cf. Lc. 21, 5-37.   Amém.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CAROS AMIGOS




Por Jussara Rocha Kouryh

  

     Permitam o meu livre pensar, sem querer, em nenhum momento, criar qualquer tipo de discussão, desavença ou coisa parecida. 


     Quem me conhece sabe que não sou cientista política nem filiada a nenhum partido. Sou apenas uma inquieta cidadã em busca do bem coletivo.


     Quem me conhece sabe, também, de meu compromisso pessoal com as causas sociais. Esse compromisso está explícito em tudo o que faço, nas minhas escolhas profissionais, nas minhas produções literárias e musicais, nas conversas entre amigos, e assim por diante. Esse compromisso não inclui (nunca incluiu) benesses pessoais. Esse compromisso também perpassa pelo respeito a todos e a todas, com suas posições políticas convergentes ou divergentes, com suas escolhas singulares em todos os níveis... É em nome desses compromisso e respeito que estou escrevendo esse texto.


     Por décadas sonhei um Norte e Nordeste inseridos verdadeiramente no mapa do Brasil. Somente a partir do ano 2002, com a virada do século e do milênio, esse sonho começou a se tornar realidade. É um recorte histórico que não posso negar, independente de tendências. Foi a partir de Lula que o Governo Federal passou a nos tratar como brasileiros efetivamente, com os mesmos direitos que as outras regiões do país sempre tiveram. E quando o então governador Eduardo Campos rompeu com esse mesmo Governo Federal, já sob a responsabilidade da presidenta Dilma Rousseff, o nosso estado pernambucano não sofreu retaliações. Continuou a ser parte deste imenso Brasil. O que não aconteceu em outros tempos, por exemplo, quando do último mandato de Miguel Arraes.


     Também era sonho meu, aluna que fui da rede pública de ensino, ver os meus pares com direito à academia, com a possibilidade de frequentarem as universidades e se prepararem para escrever uma outra história, aquela história de inclusão social começada pelo Quilombo dos Palmares, ainda no século XVII. E vi o ENEM, com todos os ajustes que precisa ter, abrir as portas do conhecimento para todos, sobretudo para os menos privilegiados economicamente. E vi o PROUNI abrindo bolsas integrais ou parciais (50%) em instituições privadas de ensino superior para formação específica a estudantes brasileiros que, entre outras coisas, tenham cursado o ensino médio na escola pública, além da inclusão daqueles que possuem necessidades especiais. E vi a interiorização das universidades federais (18 foram construídas) e as 370 escolas técnicas também construídas, como primeiro passo para a formação de mão-de-obra especializada. 


     Quantas vezes me rebelei contra a indústria da seca e participei de lutas para se escrever outra história também ali! E vejo, andando por nossos sertões, a proliferação de cisternas. Quem não é do Nordeste jamais compreenderá sua dimensão libertária. Sim, porque essas inúmeras cisternas construídas representam, entre outras coisas, um primeiro grande passo para o fim do voto do carro-pipa.


     E a agricultura familiar?! Quem nasceu e viveu em terras mergulhadas na monocultura e no latifúndio, sabe o valor que tem um pedaço de chão diversificando a produção, e uma produção qualitativa: sem agrotóxicos, sem queimadas.


     E a casa própria?! O Programa Minha Casa, Minha Vida contempla aquele percentual da nossa população (famílias com uma renda de até três salários mínimos) que, sem um programa federal dessa ordem, jamais teria acesso a uma moradia própria.


     Falam-me mal do Bolsa Família. Dizem que é um programa para alimentar a preguiça do brasileiro. 


     O Programa que foi criado para as famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza, aponta para uma primeira e efetiva experiência de distribuição de renda. Sua execução é de responsabilidade das prefeituras. Portanto, se existem desvios, distorções, precisamos exigir de nossos gestores municipais que o Programa cumpra seu papel social. O fato inconteste é que esse Programa tirou da miséria absoluta mais de 30 milhões de irmãos meus.

E por falar no Bolsa Família, como todos os outros programas sociais do Governo Federal, são condicionantes, ou seja, existem critérios bem definidos e contrapartidas delineadas.


     E não terminaria mais de elencar as nossas conquistas sociais desses últimos 12 anos: o Programa Mais Médico, que oferece profissionais da área da saúde para os longínquos rincões onde ninguém queria ir para não abrir mão das comodidades e rendimentos complementares que as cidades grandes oferecem, e que já atendeu cerca de 50 milhões de brasileiros, reduzindo em 20% o número de internações hospitalares; o Luz Para Todos; Água Para Todos; Ciências Sem Fronteiras; o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, que melhorou o IDEB em muitas cidades; a inclusão do estudo da história de África e de nossos indígenas no currículo escolar, dignificando nossas raízes e enriquecendo nossa brasilidade; o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais e sua implementação nos cursos de Licenciatura, permitindo que muitos surdos se tornassem professores de Universidades públicas, essa dentre tantas outras políticas de inclusão social...


     São ganhos efetivos e reais que não posso negar. Sempre quis todos eles e mais, muito mais para meu povo.


    Quando do mensalão, escrevi à época:“Lamento profundamente por aqueles que não se mantiveram coerentes com as próprias palavras, que promoveram uma dicotomia entre o discurso e a ação, que usaram os mesmos maléficos expedientes tão duramente condenados. Vocês não me traíram. Vocês se traíram. 


     Vocês não anularam as minhas esperanças. Vocês deixaram de participar delas. Vocês não destruíram minha fé e minha crença nas pessoas. Vocês deixaram de se comportar como gente. Vocês perderam o rumo da história. Mas ela, a minha história e a história de meu povo, continuará em direção a um novo tempo”.


      Nunca, na história do país, havia lido ou visto o Supremo Tribunal julgar e condenar políticos do primeiro escalão e empresários ricos. Pensei que seria da mesma forma, que tudo iria para debaixo do tapete. Não foi o que aconteceu. Foram julgados e condenados. Eis mais uma conquista. Se a pena foi branda em relação ao meu anseio e ao anseio popular, constato que ela seguiu o que determina a legislação brasileira. E aqui fico me perguntando: quais os meus critérios para eleger nossos legisladores? 


     Não quero abrir mão dessas conquistas. Quero que sejam consolidadas, alargadas...


 Não quero contribuir para que o fundamentalismo se estabeleça no meu país.

Por amor a meu povo, por amor a meu Brasil,


07 de setembro de 2014 


                                          Jussara Rocha Kouryh
Jornalista e escritora, autora da coleção "Conceitos sem Preconceitos", estará lançando um novo livro: "ACÁCIAS"