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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O ENIGMA CANUDOS



Por Eduardo Hoornaert


“A Revista Caros Amigos publicou recentemente o primeiro fascículo de uma coleção intitulada ‘Revoltas Populares no Brasil’. O primeiro número dessa coleção deve estar nas bancas. Trata de Canudos, sendo que a Coleção inteira, que deve sair aos poucos, vai abranger 12 temas. Diante da importância dessa iniciativa e especialmente desse número, com o qual colaborei, publiquei no meu blog (www.eduardohoornaert.blogspot.com) um texto intitulado ‘O enigma Canudos’, pois a questão de Canudos até hoje não está sendo colocada como deve, principalmente por causa da interferência do livro ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha, que continua servindo como a principal referência. Eis o que me levou a redigir o texto que ora publico em meu blog.”

1. Cheguei a me interessar pelo tema Canudos por ocasião de diversos simpósios organizados no Brasil e no exterior (na Colônia, Alemanha, por exemplo) em 1997, por ocasião do centenário de Canudos. Foi aí que percebi o quase consenso em torno da interpretação de Canudos apresentada por Euclides da Cunha.
Naquelas comemorações, o autor dos ‘Sertões’ era considerado por muitos uma autoridade ‘inconteste’ e isso me estimulou a estudar o assunto. Hoje estou convencido de que o celebrado autor continua colocando um biombo entre nós e Canudos. Em nenhum momento, ele considera Antônio Conselheiro uma pessoa normal. Não poupa qualificativos para desprestigiá-lo: o Conselheiro é um ‘heresiarca’, ‘desequilibrado mental’, ‘terribilíssimo antagonista’, estranho anacoreta de olhar sombrio, fulgurante e monstruoso, um montanista (do século II) perdido em nosso mundo moderno, um extravagante.
Estranhei o consenso em torno desse autor: Maria Isaura de Queiroz chama o Conselheiro de ‘messias’ e nisso é seguido pelo autor americano Ralph Della Cava. O mesmo acontece com o romancista peruano Mário Vargas Losa (‘A guerra no fim do mundo’) e o historiador americano Robert Levine (‘O sertão prometido’). Ambos seguem Euclides da Cunha e Maria Isaura de Queiroz. Todos esses escritores parecem esquecer que, na época em que se preparavam freneticamente as expedições contra Canudos na cidade de Rio de Janeiro, soou uma importante voz destoante, a do escritor Machado de Assis. Cansado de ouvir vitupérios contra Antônio Conselheiro, ele escreveu no Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, as seguintes palavras: ‘Conselheiro, que Conselheiro? Não me ponham nome algum. Um que desafia a ordem e a lei e só com uma palavra de fé congrega três mil pessoas é alguém’. Para Machado, o Conselheiro é ‘alguém’, uma pessoa humana com quem se deve antes de tudo dialogar, que merece ser conhecido pelo que realmente é. O famoso escritor carioca aconselha então que se forme uma comissão para ir falar com o Conselheiro em Canudos. Machado de Assis vai ao âmago da questão, mas ninguém quer saber de sua proposta. Os ânimos estão muito excitados e sua recomendação cai no vazio. Não combina com o postulado fundamental da guerra de Canudos: o Conselheiro é um desequilibrado perigoso seguido por fanáticos ignorantes. Sem esse pressuposto, não há como fazer guerra. Decepcionado, Machado de Assis deixa de tocar no assunto em suas crônicas. Nesse episódio aparece uma síndrome que acompanha a história humana desde suas origens e que René Girard chama de ‘síndrome do bode expiatório’. O Conselheiro tem de ser sacrificado no altar da ordem e do progresso, senão a república tem de mostrar sua verdadeira face que é a de um golpe militar. Trata-se de destruir Canudos em nome da república, ou seja da ‘ordem’ e do ‘progresso’, a ordem burguesa e o progresso dos negócios. Em nome dessa ideia, é permitido pisar em cima das vítimas de Canudos. Para os militares que executam a vergonhosa e covarde campanha de Canudos e principalmente para os políticos do Rio de Janeiro, o repórter-escritor Euclides da Cunha cai do céu, pois ele consegue construir uma epopeia em cima dos fatos. O reino de Euclides já dura mais de cem anos e nada prediz que esteja chegando ao fim. Eis o que me levou a me interessar pela história de Canudos.

 2. Uma coisa me parece clara: se Antônio Conselheiro chegou a agrupar tanta gente, é que seu modo de pensar e se comportar correspondia à cosmovisão do povo sertanejo. As pessoas reconhecem no Conselheiro uma figura ancestral, cuja imagem passa de geração em geração, basicamente fora do universo das letras, e remonta até os tempos bíblicos, atravessando a Modernidade, a Idade Média e os séculos da igreja grega (bizantina). Isso quer dizer que perdura no povo sertanejo um cristianismo relativamente imune à helenização que atingiu de cheio as classes cristãs letradas desde o século III (os autores alexandrinos) e que até hoje marca nossa maneira de entender o evangelho, pelo menos entre pessoas letradas. A chamada ‘religiosidade popular’, vivida predominantemente por iletrados, está mais perto da cosmovisão bíblica, que a religião praticada por pessoas escolarizadas. Essa religiosidade foca diretamente a contradição entre Deus e Satanás. 

Eis uma maneira de entender a vida e o mundo que hoje nos parece estranha e uma explicação. Um véu de incompreensão nos impede entender corretamente palavras como ‘apocalíptica’, ‘messianismo’, Satanás, anjo, demônio, céu, inferno, condenação, salvação. O livro ‘O messianismo no Brasil e no mundo’, da autoria de Maria Isaura de Queiroz, teve um grande sucesso, mas é baseado numa visão do messianismo que não corresponde ao que os autores bíblicos pretenderam dizer. Conto um episódio pessoal a esse respeito. Quando resolvi dar ao meu ensaio o título ‘Os Anjos de Canudos’ (editora Vozes, 1997) e sugerir aos editores uma capa em que eram representados dois anjinhos, alguns de meus leitores pensavam logo nos anjinhos pintados nas igrejas. Não perceberam que, no desenho da capa de meu livro, os anjinhos só eram aparentemente inocentes, pois estavam sentadas em cima do enorme cano do famoso canhão da quarta expedição contra Canudos e estavam colocando uma flor na boca do cano. Eram, na realidade, os anjos guerreiros de Deus contra Satanás da literatura apocalíptica, os príncipes angélicos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael, combatentes contra os demônios que governam a terra, disfarçados em anjinhos de aparência inocente. 

Pois por trás das imagens apocalípticas, que nos causam estranheza, existe uma análise consistente da sociedade.  A linguagem bíblica de teor apocalíptico interpreta a sociedade de forma lúcida. Pensando bem, será que o mundo não é dominado por Satanás? Será que Deus não toma partido pelas vítimas de sistemas injustos? Será que os ‘anjos’ não lutam a favor dos desvalidos?

Os sermões do Conselheiro estão recheados de imagens bíblicas. Eles precisam ser lidos de forma contextualizada, pois o linguajar do beato é uma sedimentação literária de acontecimentos desde muito varridos pelos ventos da história. Os canudenses entendem o que o beato prega, eles interpretam sua guerra como uma guerra de Deus contra Satanás. As tropas que enfrentam são ‘do diabo’. As poucas palavras que o cineasta Antônio Olavo ainda conseguiu resgatar, nos anos 1990, da boca de parentes e conhecidos de sobreviventes, em seu filme documentário sobre Canudos (baseado em 3 anos de pesquisa, viagens por 7 mil quilômetros e visitas a 180 cidades do Nordeste), são de caráter bíblico: besta fera, anticristo, lei do cão, Deus, Satanás, anjos, demônios, céu, inferno, condenação, salvação, blasfêmia etc. Penso que é nesse sentido que, em sua pergunta, você fala em ‘ponto de vista teológico’. Realmente, tem muito a ver. Mas eu prefiro falar em ‘linguagem’, modo de se expressar. O que aconteceu (e continua acontecendo) é que as classes letradas do Brasil não entendem a linguagem dos sertanejos iletrados e acabam pensando que eles não pensam adequadamente. Alguns exageram e dizem que os sertanejos não pensam de forma nenhuma, são simplesmente fanáticos e ignorantes que pertencem ao passado, intelectualmente inferiores. Nesse rol de qualificativos entram termos como ‘messiânico’, ‘apocalíptico’ etc., sem a devida averiguação literária. Imbuídas de ideologias modernas de ‘ordem e progresso’, ‘desenvolvimento’, ‘crescimento’ e ‘avanço’, as classes letradas não deixam espaço para vastos setores deste país que não são tão ‘progressistas’ assim. Elas pensam que suas categorias são universais e qualificam de ‘religiosidade popular’ qualquer outra maneira de pensar. O tema é vastíssimo e aqui não é o caso de aprofundá-lo. Na mesma linha, Antônio Conselheiro permanece enigmático, como mostra a sua iconografia, mesmo aquela que pretende apresentá-lo de forma positiva. Ele nos vem apresentado como uma pessoa que vive fora da realidade e com quem não se pode conversar. Não aparece como uma pessoa normal.

 3. Como escrevi acima, o tema do messianismo tem sido aplicado pela maioria dos autores aos movimentos oriundos no universo rural do Brasil. Em seu celebrado livro ‘O Messianismo no Brasil e no Mundo’, Maria Isaura de Queiroz acentua a ‘irregularidade’ e ‘atemporalidade’ desses movimentos. Em que tipo de pesquisa a autora baseia essas afirmações? A mesma pergunta pode ser feita a autores que procuram entender Canudos por meio de categorias marxistas e descrevem essa cidade como sendo uma sociedade sem classes, sem patrões nem empregados, onde se pratica o uso coletivo das terras. Na realidade, Canudos era um conglomerado humano normal, igual a qualquer cidade do interior do Nordeste: uma espinha dorsal formada pela rua principal com casas de alvenaria, habitada por comerciantes prósperos, que até faziam comércio (de couros) com o exterior, uma igreja exorbitante em suas dimensões grandiosas (há muitos casos no interior do Nordeste) e em torno os casebres dos pobres, de palma e adobe. Pobres e ricos, como em todos os lugares. Mas é verdade que ali a fome não existia, e isso explica o forte poder de atração exercido por Canudos. Os pobres vieram de todo canto habitar ali e fizeram de Canudos, em poucos anos (entre 1889 e 1897), a segunda cidade da Bahia, com aproximadamente 25 mil habitantes. Então Canudos tem nada de messiânico, mas é um lugar onde as pessoas não passam fome.

4. É preconceituoso pensar que Canudos incomodou as elites locais (os fazendeiros), pois é sabido que Canudos organizava de vez em quando ‘mutirões itinerantes’. Um grupo de pessoas ia a uma determinada fazenda da região para executar trabalhos de grande porte, que exigiam muita mão se obra, como construir uma barragem, cavar um canal ou um açude. Esses grupos ficavam por vezes longos meses nas ditas fazendas, comendo a boa carne e tomando leite à vontade. O clima não era de tensão, mas de colaboração. No início, a igreja tampouco se incomodou com Canudos. Inclusive, os vigários do interior costumavam convidar Antônio Conselheiro para pregar nas novenas do(a) padroeiro(a), o que rendia um bom dinheiro para as paróquias, pois o povo corria de longe para ouvir o beato. O arcebispo da Bahia começou a se incomodar quando um padre influente lhe disse que o Conselheiro era um ‘herege’. Ele mandou a Canudos dois frades italianos, novatos no Brasil, que não entendiam nada do país e se comportaram de forma arrogante, desafiavam e humilhavam os canudenses. De volta a Salvador, eles entregaram ao arcebispo um relatório péssimo da viagem. Um detalhe vergonhoso: o arcebispo mandou um recado ao ministro do interior, solicitando uma vaga num hospício de alienados para o Conselheiro. Sabemos como era a vida (ou melhor: a morte) nos hospícios desse tipo, no final do século XIX.

Quem se incomodou de verdade com Canudos foram as lideranças militares do Rio de Janeiro, as forças organizadoras da recém-criada república brasileira. No famoso sermão do Conselheiro contra a república, ele disse que a república não vinha de Deus, mas do demônio. Eis o que incomodou de verdade.  Nos gabinetes do Rio de Janeiro, essa maneira de falar só podia ser expressão de uma mente louca, perigosa e enganadora.

5. Na década de 1990 aparecem diversas tentativas no sentido de elucidar o enigma Canudos. Só comento aqui brevemente o livro do historiador Marcos Antônio Villa, intitulado ‘Canudos, o povo da terra’ (Ática, 1995) e o comparo com o filme documentário de Antônio Olavo, já citado acima. Villa abandona logo a tentativa de se trabalhar com fontes orais e alega que, após 1950, não há mais como encontrar pessoas que vivenciaram os acontecimentos. Ele então descarta a ‘história oral’ e se dedica exclusivamente à análise de documentos escritos, com competência. Mas, nos mesmos anos 1990, o cineasta Antônio Olavo viaja longamente pelo sertão para resgatar palavras diretas da boca de pessoas que têm alguma lembrança da guerra, falam o linguajar do sertão e usam categorias linguísticas próprias do povo sertanejo. Eis onde reside a diferença. 

Enquanto o historiador Villa não enxerga nenhuma possibilidade de trabalhar em cima de um material oral, o cineasta Olavo consegue nos apresentar uma imagem de Canudos baseada no contato direto com a realidade sertaneja. Temos razões para desconfiar, num conflito como esse, das fontes escritas. Até que ponto essas fontes representam o modo de pensar dos canudenses? Ou não o representam de forma nenhuma? Não repetem sempre o mesmo ponto de vista?  O resultado dessa indefinição metodológica é que, mesmo após os esforços dos anos 1990, o enigma Canudos persiste, o que não deixa de ser assustador, pois de um dia para outro pode eclodir um episódio parecido, que provavelmente teria o mesmo desfecho, caso a nação brasileira não consiga decifrar esse enigma.

6. Canudos está sendo apresentado como uma epopeia, e isso também dificulta sua compreensão. A epopeia produz um prazer estético, é capaz de atrair, apaixonar e emocionar, mas não é um gênero literário apto a provocar um diálogo entre escritor e leitor, ao contrário do romance e da novela, por exemplo. Paulo Freire acentua o valor pedagógico de textos dialogais, textos que provocam as pessoas a pensar e assumir algum tipo de compromisso em relação à tragédia relatada no texto. Ora, Euclides da Cunha é um autor épico, ele conta uma grande história mas não questiona o leitor. É nesse sentido que sou grato ao professor José Calasans, na época professor da Universidade Federal da Bahia, pelo fato de me ter apontado o livro de Manuel Benício, intitulado ‘O rei dos jagunços’, editado em 1899 pela Tipografia do Jornal do Commércio no Rio de Janeiro. Eis um texto que desafia e mexe com a gente, exatamente por ser escrito por alguém que teve de abandonar o campo de batalha em Canudos por escrever textos que incomodaram os militares. Como Euclides, Benício foi repórter no cenário da guerra, desta vez a serviço do ‘Jornal do Commércio’ (do Rio de Janeiro), mas suas reportagens não agradaram ao Clube Militar do Rio de Janeiro e no dia 29 de julho de 1897, elas de repente desapareceram das colunas do jornal. Os militares as achavam ‘inconvenientes’. No momento em que se abre espaço para discussão, a voz autoritária intervém e suspende o diálogo por considerá-lo inconveniente. Benício ficou decepcionado e amigos lhe aconselharam escrever um livro sobre sua experiência. As informações históricas contidas em meu ensaio ‘Os Anjos de Canudos’ provêm em parte do quarto capítulo do livro de Benício, uma espécie de romance com base documental. Ali ele escreve como as famílias sertanejas fecharam as casas quando viram o exército se aproximar. Eram tropas estrangeiras a invadir seu mundo. Não são unicamente os canudenses que sentiam as expedições militares como invasões violentas em seu mundo, mas os sertanejos em geral. Ao revelar casos como esse, Benício desnuda as mentiras divulgadas pela imprensa da época e desmascara a tese da ‘anormalidade sertaneja’. As reações dos habitantes diante das tropas eram perfeitamente normais. Enfim, o texto de Benício me parece apropriado para abrir espaço a uma discussão em profundidade sobre Canudos e foi por isso que nele me aprofundei para escrever meu ensaio ‘Os anjos de Canudos’ (Vozes, 1997).


Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CAROS AMIGOS




Por Jussara Rocha Kouryh

  

     Permitam o meu livre pensar, sem querer, em nenhum momento, criar qualquer tipo de discussão, desavença ou coisa parecida. 


     Quem me conhece sabe que não sou cientista política nem filiada a nenhum partido. Sou apenas uma inquieta cidadã em busca do bem coletivo.


     Quem me conhece sabe, também, de meu compromisso pessoal com as causas sociais. Esse compromisso está explícito em tudo o que faço, nas minhas escolhas profissionais, nas minhas produções literárias e musicais, nas conversas entre amigos, e assim por diante. Esse compromisso não inclui (nunca incluiu) benesses pessoais. Esse compromisso também perpassa pelo respeito a todos e a todas, com suas posições políticas convergentes ou divergentes, com suas escolhas singulares em todos os níveis... É em nome desses compromisso e respeito que estou escrevendo esse texto.


     Por décadas sonhei um Norte e Nordeste inseridos verdadeiramente no mapa do Brasil. Somente a partir do ano 2002, com a virada do século e do milênio, esse sonho começou a se tornar realidade. É um recorte histórico que não posso negar, independente de tendências. Foi a partir de Lula que o Governo Federal passou a nos tratar como brasileiros efetivamente, com os mesmos direitos que as outras regiões do país sempre tiveram. E quando o então governador Eduardo Campos rompeu com esse mesmo Governo Federal, já sob a responsabilidade da presidenta Dilma Rousseff, o nosso estado pernambucano não sofreu retaliações. Continuou a ser parte deste imenso Brasil. O que não aconteceu em outros tempos, por exemplo, quando do último mandato de Miguel Arraes.


     Também era sonho meu, aluna que fui da rede pública de ensino, ver os meus pares com direito à academia, com a possibilidade de frequentarem as universidades e se prepararem para escrever uma outra história, aquela história de inclusão social começada pelo Quilombo dos Palmares, ainda no século XVII. E vi o ENEM, com todos os ajustes que precisa ter, abrir as portas do conhecimento para todos, sobretudo para os menos privilegiados economicamente. E vi o PROUNI abrindo bolsas integrais ou parciais (50%) em instituições privadas de ensino superior para formação específica a estudantes brasileiros que, entre outras coisas, tenham cursado o ensino médio na escola pública, além da inclusão daqueles que possuem necessidades especiais. E vi a interiorização das universidades federais (18 foram construídas) e as 370 escolas técnicas também construídas, como primeiro passo para a formação de mão-de-obra especializada. 


     Quantas vezes me rebelei contra a indústria da seca e participei de lutas para se escrever outra história também ali! E vejo, andando por nossos sertões, a proliferação de cisternas. Quem não é do Nordeste jamais compreenderá sua dimensão libertária. Sim, porque essas inúmeras cisternas construídas representam, entre outras coisas, um primeiro grande passo para o fim do voto do carro-pipa.


     E a agricultura familiar?! Quem nasceu e viveu em terras mergulhadas na monocultura e no latifúndio, sabe o valor que tem um pedaço de chão diversificando a produção, e uma produção qualitativa: sem agrotóxicos, sem queimadas.


     E a casa própria?! O Programa Minha Casa, Minha Vida contempla aquele percentual da nossa população (famílias com uma renda de até três salários mínimos) que, sem um programa federal dessa ordem, jamais teria acesso a uma moradia própria.


     Falam-me mal do Bolsa Família. Dizem que é um programa para alimentar a preguiça do brasileiro. 


     O Programa que foi criado para as famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza, aponta para uma primeira e efetiva experiência de distribuição de renda. Sua execução é de responsabilidade das prefeituras. Portanto, se existem desvios, distorções, precisamos exigir de nossos gestores municipais que o Programa cumpra seu papel social. O fato inconteste é que esse Programa tirou da miséria absoluta mais de 30 milhões de irmãos meus.

E por falar no Bolsa Família, como todos os outros programas sociais do Governo Federal, são condicionantes, ou seja, existem critérios bem definidos e contrapartidas delineadas.


     E não terminaria mais de elencar as nossas conquistas sociais desses últimos 12 anos: o Programa Mais Médico, que oferece profissionais da área da saúde para os longínquos rincões onde ninguém queria ir para não abrir mão das comodidades e rendimentos complementares que as cidades grandes oferecem, e que já atendeu cerca de 50 milhões de brasileiros, reduzindo em 20% o número de internações hospitalares; o Luz Para Todos; Água Para Todos; Ciências Sem Fronteiras; o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, que melhorou o IDEB em muitas cidades; a inclusão do estudo da história de África e de nossos indígenas no currículo escolar, dignificando nossas raízes e enriquecendo nossa brasilidade; o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais e sua implementação nos cursos de Licenciatura, permitindo que muitos surdos se tornassem professores de Universidades públicas, essa dentre tantas outras políticas de inclusão social...


     São ganhos efetivos e reais que não posso negar. Sempre quis todos eles e mais, muito mais para meu povo.


    Quando do mensalão, escrevi à época:“Lamento profundamente por aqueles que não se mantiveram coerentes com as próprias palavras, que promoveram uma dicotomia entre o discurso e a ação, que usaram os mesmos maléficos expedientes tão duramente condenados. Vocês não me traíram. Vocês se traíram. 


     Vocês não anularam as minhas esperanças. Vocês deixaram de participar delas. Vocês não destruíram minha fé e minha crença nas pessoas. Vocês deixaram de se comportar como gente. Vocês perderam o rumo da história. Mas ela, a minha história e a história de meu povo, continuará em direção a um novo tempo”.


      Nunca, na história do país, havia lido ou visto o Supremo Tribunal julgar e condenar políticos do primeiro escalão e empresários ricos. Pensei que seria da mesma forma, que tudo iria para debaixo do tapete. Não foi o que aconteceu. Foram julgados e condenados. Eis mais uma conquista. Se a pena foi branda em relação ao meu anseio e ao anseio popular, constato que ela seguiu o que determina a legislação brasileira. E aqui fico me perguntando: quais os meus critérios para eleger nossos legisladores? 


     Não quero abrir mão dessas conquistas. Quero que sejam consolidadas, alargadas...


 Não quero contribuir para que o fundamentalismo se estabeleça no meu país.

Por amor a meu povo, por amor a meu Brasil,


07 de setembro de 2014 


                                          Jussara Rocha Kouryh
Jornalista e escritora, autora da coleção "Conceitos sem Preconceitos", estará lançando um novo livro: "ACÁCIAS"