O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador santo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador santo. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de outubro de 2022

A Mulher Guerreira, o Santo Rebelde, o Educador dos Oprimidos e o Operário Presidente

 Prof. Martinho Condini  


 

Em 1934, 1909, 1921 e 1945, nos estados da Paraíba, Ceará e Pernambuco nasceram quatro crianças em famílias humildes, e enfrentaram os problemas típicos das famílias brasileiras: esforço para a sobrevivência e o sustento da família, criação e formação escolar dos filhos.

A jovem e os três rapazes seguiram seus caminhos a partir de suas realidades sociais, histórias de vida e lugares de fala.

A história da Mulher Guerreira, do Santo Rebelde, do Educador dos Oprimidos e do Operário Presidente nos serve de exemplo, primeiro pela dificuldade de serem compreendidos pela sociedade brasileira, principalmente a elite. Segundo pela perseguição que enfrentaram dos seus opositores, no campo social, religioso, educacional, sindical e político. E terceiro pelo legado que nos deixaram a partir de seus feitos em benefício do povo brasileiro.

O mais incrível é que as pessoas que discordam das ideias e práticas de um dos quatro,   consequentemente não aceitam também as dos outros três. E as pessoas que admiram um deles, isso se repete com os outros três, isso reforça a similaridade que existe entre esses quatro personagens e protagonistas da história brasileira e mundial no século XX e XXI, principalmente em se tratando da história da sociedade brasileira. 

 

A Mulher Guerreira

Essa Mulher Guerreira representa a força e coragem das mulheres brancas, afrodescendentes, quilombolas, indígenas, oprimidas e excluídas da nossa sociedade.

Quando criança trabalhava vendendo os deliciosos bolos feitos por sua mãe, em sua cidade natal Uiraúna, na Paraíba. Em sua cidade na década de 1940 não havia 6ª série na escola, então ela foi obrigada a fazer a 5ª série duas vezes porque não queria parar de estudar. 

Por meio da sua militância na igreja católica progressista na década de 1950, ainda jovem, tornou-se diretora de Educação e Cultura da prefeitura de Campina Grande, na Paraíba. E em 1964 (ano do golpe militar) foi nomeada Secretária da Educação da mesma cidade.

Ela se formou em Serviço Social na UFPB em 1967 e na década de 1970 foi uma das principais colaboradoras na fundação da Faculdade de Serviço Social em Campina Grande.  

Na década de 1970, teve uma atuante militância na Pastoral da Terra, sendo uma ferrenha opositora da ditadura militar nos “Anos de Chumbo”. Naquela época a participação da mulher na política era muito pequena, mas ela estava lá, destemida, enfrentando os militares, o fim das torturas, da censura e pela retomada da democracia e comprimento dos direitos humanos em nosso país.

Mudou-se em 1971 para a cidade de São Paulo, onde iniciou uma carreira como assistente social e uma incansável luta ao lado dos movimentos populares periféricos da metrópole paulistana por melhores condições de saúde, moradia e educação.

A sua garra, caráter, força e sensibilidade feminina a transformaram numa liderança política; uma voz das periferias por justiça social e condições dignas para todas e todos os cidadãos e cidadãs da paulicéia desvairada.

A sua atuação incisiva nas políticas públicas em prol das populações mais carentes levou-a a vereança na década de 1980 e posteriormente à assembleia legislativa.

Mas foi em 1988 que brilhantemente ela surpreendeu a elite conservadora paulistana, numa virada histórica, derrotando o principal líder e representante político da direita em São Paulo na época, nas eleições municipais, tornando-se a primeira mulher prefeita da maior cidade da Latina América.

 A participação popular por meio dos conselhos municipais foi a marca do seu governo. Durante todo o seu mandato sofreu uma forte oposição, mas sempre firme e segura em suas decisões, deixou legados incontestes, principalmente na assistência social, na saúde, na moradia, na educação e no transporte público da cidade de São Paulo.

Com brilho no olhar azul, carisma, sinceridade, vivacidade, brio e decência, essa arretada e arrochada nordestina realizou a mais democrática e competente administração da cidade de São Paulo.

Após o mandato de prefeita, ela foi ministra de Estado e parlamentar federal com mandatos consecutivos. Atualmente tê-la no congresso nacional é a garantia que os pequeninos, oprimidos e excluídos do nosso Brasil jamais serão esquecidos, abandonados e desassistidos.

Mulher Guerreira, nordestina e socialista! Uma estrela imprescindível na constelação da nação brasileira!

 

O Santo Rebelde

O Santo Rebelde, miúdo de gestos largos e fala forte e incisiva, fez da sua vida uma luta em favor dos pequeninos, como gostava de chamar os excluídos e oprimidos da nossa sociedade.

 Na década de 1920, na cidade de Fortaleza criou o primeiro sindicato de trabalhadoras mulheres (empregadas domésticas) do Brasil.

Na cidade do Rio de Janeiro, entre às décadas de 1940 e 1950, idealizou e fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e também teve participação direta na criação da Conferência Episcopal Latino Americana (CELAM). Foi a principal voz latino americana e brasileira no Concílio Vaticano II (1962-1965), uma das principais vozes na Conferência Episcopal Latino Americana de Medellín (1968), um dos precursores da criação da “Igreja do Pobres”, das “Comunidades Eclesiais de Base” (CEBs), da corrente teológica “Teologia da Libertação”. Criou a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional com 10 prédios, que na época abrigou os moradores da favela Praia do Pinto e Morro Azul, no bairro do Leblon. Fundou a Cáritas brasileira, criou o Banco e a Feira da Providência, a Comunidade de Emaús e participou da organização do Movimento de Educação de Base (MEB).

Em 1964, enquanto ocorria o golpe militar, o Santo Rebelde foi transferido para Pernambuco, como arcebispo de Olinda e Recife, onde permaneceu até o seu falecimento em 1999.   

Em Recife, foi o idealizador e fundador do “Movimento Esperança”, uma ação orquestrada por ele para ajudar as pessoas mais necessitadas e excluídas de Recife, grande Recife e posteriormente expandiu-se para outras regiões do estado de Pernambuco.  

O Santo Rebelde se tornou a mais importante voz contra o regime ditatorial no Brasil. Foi o primeiro brasileiro a falar no exterior que no Brasil havia censura, tortura e morte. Foi calado por quase dez anos; os militares impediram que os órgãos de imprensa o entrevistassem ou mencionassem o seu nome. Sua voz foi calada no Brasil, mas ecoou mundo a fora, tornando-se “a voz de quem não tem voz”. A igreja onde morava foi metralhada por várias vezes. E ele não foi assassinado pela ditadura porque era uma liderança conhecida nacional e mundialmente pela sua incansável luta por justiça social e pelos direitos humanos. Por quatro vezes seguidas, por intervenção do Itamarati, não recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”.   

O Santo Rebelde foi a principal liderança da igreja católica progressista no Brasil e na América Latina na segunda metade do século XX.

O Educador dos Oprimidos

O Educador dos Oprimidos, sensível às causas sociais, principalmente no que se refere à educação e alfabetização de jovens e adultos; no final da década de 1950, por meio de sua  práxis pedagógica realizou com outros educadores um processo de alfabetização de adultos na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte. Esse processo criado e coordenado pelo Educador dos Oprimidos foi revolucionário, sendo até hoje pesquisado e praticado por muitas educadoras e  educadores no Brasil e outros países.   

         O processo de alfabetização criado pelo Educador dos Oprimidos tem como base uma educação libertadora, onde a leitura de mundo das crianças, jovens e adultos os levam a compreensão de sua realidade e a partir daí eles podem modificá-las e sair da condição de oprimidos e excluídos da sociedade, assumindo seus papéis de agentes da  história.

         Por isso, o governo brasileiro, entre os anos de 1963 e 1964, convidou o Educador a coordenar e implantar o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), com o intuito de alfabetizar milhões de brasileiros.

         Mas, assim que ocorreu o golpe militar em 1964, e instaurada a ditadura, o programa de alfabetização foi abortado e o Educador dos Oprimidos foi exilado do Brasil, retornando apenas em 1980. Neste período de dezesseis anos trabalhou no Chile, Estados Unidos, Suíça e vários países da África, aplicando a sua práxis alfabetizadora.

         Neste período escreveu vários livros. Um deles se tornou o esteio de sua filosofia e prática educacional, Pedagogia do Oprimido,  sendo o terceiro livro mais lido no mundo na área das ciências humanas.

         Após o seu retorno ao Brasil, construiu um legado a partir da sua prática como educador, professor universitário, pensador da educação e escritor. A sua maneira sempre muito amorosa, sincera e cativante de lidar com as pessoas foi algo peculiar.

         Hoje, o Educador dos Oprimidos é reconhecido mundialmente. Vários países adotam suas práticas educacionais para formar as suas crianças, jovens e adultos. Mesmo após o seu falecimento em 1997, ele inspira milhares de educadoras e educadores do Brasil e do mundo. Atualmente é o patrono da educação brasileira e indiscutivelmente foi o mais importante educador da história do Brasil e um dos mais importantes do mundo.  

 

O Operário Presidente

O Operário Presidente teve a mesma história de milhões de nordestinos. Ainda criança vem com sua mãe e irmãos, de pau de arara, para São Paulo. Na infância pobre, ajudou no sustento da família, trabalhou como vendedor de amendoim, laranja, auxiliar de tinturaria, telefonista e bicos como engraxate. Adolescente, faz um curso de torneiro mecânico e torna-se operário da indústria na grande São Paulo.  E assim foi seguindo a sua vida, constituindo família, criando filhos e sempre na luta pela sobrevivência.

Ao final da década de 1960, despolitizado, ingressou na diretoria do sindicato da sua categoria profissional.  Mas no decorrer dos anos foi compreendendo a relação de exploração entre o capital e o trabalho. 

Em 1975, em plena ditadura militar se torna presidente do sindicato e junto com outros companheiros constrói um “novo sindicalismo”. Um sindicalismo de luta em defesa da classe trabalhadora.

Ao final da década de 1970 e começo da década de 1980, o Operário Presidente lidera as maiores greves de trabalhadores da história do Brasil na região do ABC na grande São Paulo, assembléias com mais de 150 mil trabalhadores, em um período em que greves de trabalhadores eram proibidas pela ditadura militar.

A truculência do governo militar lhe custou várias prisões, mas isso não o fez esmorecer, e a sua luta pela melhoria das condições de trabalho refletiu em outras categorias profissionais. O Operário Presidente tornou-se uma liderança nacional para as trabalhadoras e trabalhadores deste país. 

No início da década de 1980, o Operário Presidente percebe que a sua luta não era mais apenas ao lado da sua categoria profissional, mas uma luta a favor dos oprimidos e excluídos da sociedade brasileira. Então funda um partido político, o Partido dos Trabalhadores (hoje o maior partido progressista de esquerda do mundo), com o apoio de operários, camponeses, sindicalistas, intelectuais, representantes da igreja progressista, militantes de esquerda e de movimentos populares.

O Operário Presidente se tornou a principal liderança política do Brasil dos últimos 40 anos em nosso país. Após quatro eleições presidenciais, tornou-se presidente da república por dois mandatos seguidos; em 2002 eleito com mais de 52 milhões de votos e em 2006 com mais de 58 milhões votos. Em seu governo, o Brasil, que era a 13ª potência econômica do mundo, tornou-se a 6ª, segundo o banco mundial. Também, em seu governo foi instituída a maior política de inclusão social da história desse país, possibilitando a milhões de pessoas ter um emprego, tomar café da manhã, almoçar e jantar com suas famílias. Além disso, fez com que mais de 36 milhões de pessoas saíssem da condição de miseráveis e milhares de jovens ingressassem no ensino superior e conquistassem melhores empregos e condições de vida.

O Operário Presidente com seu carisma, sua sensibilidade e inteligência, tornou-se o mais popular e melhor presidente da história da nossa república.

Em 2018, o Operário Presidente foi injustamente preso pela Operação Lava Jato, assim foi impedido de disputar as eleições. Após 580 dias na prisão, foi solto e seus processos foram anulados pelo STF, que alegou abuso de poder da Operação Lava Jato.

E hoje o Operário Presidente está liderando as pesquisas eleitorais e quem sabe tornar-se  pela terceira vez presidente do Brasil. 

 

Quatro por quatro

Estou convencido que este quarteto dignifica a história do nosso país: a Mulher Guerreira, Luiza Erundina; o Santo Rebelde, Dom Helder Camara; o Educador dos Oprimidos, Paulo Freire e o Operário Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, oriundos de uma mesma raiz, irmanados pela mesma nordestinidade caracterizam-se pela coragem, valentia, caráter e perseverança.

A busca de cada um, ao seu modo pela justiça social, pelos direitos humanos, pelo respeito ao outro e pela dignidade para todos os pequeninos, oprimidos e excluídos, brasileiros e latino americanos, sintetiza o primor desses quatro arrochados e arretados personagens da nossa história.

Enfim, Luiza, Helder, Paulo e Lula carregam consigo a verdadeira brasilidade e o esperançar na construção de um Brasil genuinamente brasileiro. Protagonistas na história da igreja, da educação, do sindicalismo e da política brasileira, eles merecem todo o nosso respeito. Viva a liberdade, a democracia e as brasileiras e brasileiros comprometidos com o nosso povo!

        

           

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

CLARICE LISPECTOR E O MISTÉRIO SANTO

 


 

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


Clarice Lispector, essa misteriosa e incomparável escritora que hoje é lida e estudada no mundo inteiro, teria comemorado ontem, 10 de dezembro, cem anos.  Ucraniana e judia, aportou no nordeste do Brasil e aqui ficou.  Graças a Deus e felizes de nós que hoje contamos com sua obra como uma das maiores riquezas nacionais. Mulher bela e refinada, Clarice começou a escrever por pura inspiração, sem querer nem planejar, e hoje é referência para toda e qualquer escrita que se queira humana. 

Muito foi escrito sobre essa grande escritora e artista da palavra.  A linguística e a literatura a estudaram em todas as línguas e todos os ângulos.  A filosofia debruçou-se sobre sua obra.  Ultimamente a teologia também tem se ocupado da obra de Clarice.  Por quê?  Porque Clarice é apaixonada pelo mistério de Deus.  E porque revela em suas obras uma intimidade com esse Mistério Santo, que deixa perplexos o teólogo e o crente, que por sua mão são levados a caminhos ainda não trilhados. 

Como disseram recentemente suas amigas mais íntimas em declarações e entrevistas a propósito de seu centenário, Clarice é uma mística.  Talvez ela mesma não aceitasse ou concordasse com essa qualificação.  Porém é inevitável fazê-la ao ler sua escrita e constatar que ela é, sim, alguém que conhece a Deus por experiência.  “Cognitio Dei experimentalis” (conhecimento de Deus por experiência) é a definição que dá sobre a mística Tomás de Aquino.  Secundado por seu discípulo Jacques Maritain, que define a mística como “experiência fruitiva do Absoluto”. 

É impossível escrever o que Clarice escreveu sem “saber”, em uma sublime “docta ignorantia”, até onde a levaria esse Mistério sem fundo, no qual se lançava com suas palavras em uma atitude vertiginosa que provoca vertigem em todo aquele que a lê. Não seria possível ler a Paixão segundo G. H. sem ali ver o itinerário de despojamento que desemboca na comunhão, digno de uma Teresa de Ávila e um João da Cruz. 

O itinerário da personagem GH é místico, porque mística é a autora que a cria, essa mulher burguesa e alienada, que começa um processo de descida ao quarto da empregada, onde na verdade encontra um minarete que a leva a olhar para o infinito. Ali se inicia um processo ascético e purificador, que prepara o alargamento do eu que se segue à morte do mesmo eu pelo mergulho na alteridade da matéria, do mundo, do outro.  A personagem de Clarice toca os extremos da condição humana, ou seja, a vida e a morte. 

Nesse processo que se assemelha a um parto, onde a mulher é literalmente expelida do seu pequeno e reduzido mundo para o mundo tal como ele é, existe permanentemente a “mão que me sustenta”. Ali GH, aliás Clarice, não depende mais de si mesma, mas de outro, daquela mão que a sustenta e toca a sua, daquela mão na qual confia e com a qual dialoga e à qual suplica:  “Ah, não retires de mim a tua mão”. No entanto, a um certo ponto, a mulher larga a mão que a sustenta para continuar sozinha o percurso em direção ao Deus que a chama e que dela deseja algo que ela sente não poder dar. 

Assim diz a personagem: “Eu estava em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta...De um Deus que, se eu amava, não compreendia o que Ele queria de mim.”  Mas no meio da provação, da busca e do pranto, sente que Deus vem a ela. “E no soluço veio a mim o Deus que me ocupava toda agora.” Nesta descida purificadora, nesta entrada no coração do nada, a personagem não estava diante do demônio, mas de Deus. 

O diálogo entre Deus e aquela que o busca, aquela que é iniciada em seu conhecimento é feito de perguntas sobre o Ser: “O que És?”  E a resposta é: És. O que existes? E a resposta é: “o que existes.”

No olhar da teóloga que sou é impossível não ver aí a judeidade de Clarice emergindo com força, é inimaginável não sentir uma proximidade perigosa e estonteante entre o que diz a personagem e o diálogo primordial de Moisés diante da sarça ardente, no capítulo 3 do livro do Êxodo. 

Com os avanços da exegese, as traduções e interpretações dessa afirmação d´Aquele que falava de dentro da sarça e que se identificara como o “Deus de teus pais, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó” variam. “Eu sou aquele que sou”; “Eu sou aquele que serei” etc. 

Clarice encontrou, através da palavra escrita, o rosto desse Totalmente Outro que buscou ao longo da vida. E que a ela se revelou em seu mistério jamais totalmente desvelado. Com Clarice Lispector em seu centenário somos convidados a aprender a fugir de qualquer tentação banalizante do divino e a inclinar-nos respeitosa e silenciosamente diante de seu Mistério Santo. 

-- 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Santidade: chamado à humanidade (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2020

SÃO JOSÉ, SANTO DO POVO, DOS ANÔNIMOS, DOS OPERÁRIOS




leonardo boff

Hoje, dia 19 de março é o dia de São José, o santo tão venerado pelos nordestinos e por tantos outros cristãos. Se não chover até o dia de São José, a seca virá. Por isso ele é venerado com grande expectativa e unção especialmente pelos camponeses.

Escrevi um livro sobre São José, produto de 20 anos de pesquisa (São José a personificação do Pai, Verus 2005 e Vozes 2012). Não se pode pensar concretamente no mistério da encarnação do Filho Jesus sem a presença de José. Foi ele quem acolheu Maria grávida e criou as condições reais para uma vida de família.
Mas na tradição nunca se deu muita importância a ele. Só se pensa em sua missão e, uma vez cumprida, ele pode desaparecer e ser esquecido. Na verdade, Maria, sem José, não teria condições de cuidar da vida do menino Jesus, especialmente ameaçado de ser morto pelo terrível Herodes. Os primeiros sermões sobre São José só começaram a ser feitos a partir dos anos 800. Por aí se percebe a pouca importância que lhe era atribuída, explico no livro.
A razão é que vivemos num tipo de Igreja na qual o que conta é quem detém a palavra e poder de decisão, que são os bispos e os padres,numa palavra, a Hierarquia. De São José não temos nenhuma palavra. Ele apenas teve sonhos. Nem sabemos sua origem e quem foram seus pais. A Igreja não sabia o que fazer com São José. Só em 1870, foi proclamado patrono da Igreja. Mas, na verdade, ele é patrono da Igreja dos invisíveis e anônimos, dos milhões e milhões de cristãos que vivem no seu dia a dia os valores do evangelho da solidariedade, do respeito e do amor desinteressado. Vejo em São José a representação de milhões de cristãos que nunca aparecem nem podem falar e decidir sobre suas vidas e os rumos da sociedade em que vivem.
Dei em 2013 a Walter Sebastião a seguinte entrevista que transcrevo.
Qual o sentimento do senhor diante da cena do nascimento de Jesus?
Precisamos resgatar a inteligência emocional e cordial que vai além da razão intelectual. Quando nasce uma criança, nos enchemos de admiração e dizemos: sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita na humanidade. Assim devemos entender os relatos bíblicos sobre o nascimento de Jesus. A comunidade cristã, quando escreveu os evangelhos, cerca de 40-50 anos depois da crucificação de Jesus e de sua ressurreição, já havia entendido que atrás daquela criança se escondia o próprio filho de Deus. Por isso cercam a cena do Natal de significados celestiais, como anjos que cantam, a estrela no céu, os sábios (magos) que vêm de longe.
Como tudo historicamente aconteceu não o sabemos pela razão intelectual, mas pela inteligência emocional e cordial intuímos que aí há um mistério ao qual nos acercamos com reverência e respeito. E criamos símbolos adequados que conferem relevância a esse fato, que, em si, pareceria banal.
Que tipo de paternidade São José enseja ou inspira?
A teologia cristã diz que ele exerceu todas as funções de pai, que foi a de cuidar de Maria em sua gravidez e de proteger Jesus e sua mãe, Maria, quando tiveram que fugir para o exílio no Egito. Viveu como esposo e iniciou o filho nas tradições religiosas do povo e na profissão de carpinteiro que era uma espécie de fac-totum (telhados, mesas, janelas etc).
Dogmaticamente, nada impede que ele tivesse sido pai biológico de Jesus. Os evangelhos falam que “Jesus é filho de José”, ou “o filho do carpinteiro”. Mas não é isso que testemunha toda a tradição cristã.
A gravidez de Maria se deve à ação do Espírito Santo que foi a primeira Pessoa divina a vir a esse mundo. Veio morar nela, quer dizer, a elevou à altura divina para gerar um Filho que também fosse divino como observa São Lucas no seu evangelho. Desta forma, com Jesus deu origem a uma nova humanidade, totalmente purificada do peso da história, marcada pela dimensão do negativo, da ruptura com a criação, com os outros e especialmente com Deus. Ele foi pai adotivo e legal no sentido semita, aquele que dá o nome à criança, como refere o evangelho de São Mateus. Assim se torna o pai social. De toda forma, Maria e Jesus formam a família de José.
Como a dimensão do masculino se afirma a partir de São José?
José mostra o lado melhor da paternidade, que é o de ser o cuidador, o educador e provedor,aquele que está sempre ao lado da esposa e do filho. A Bíblia fala que era um “homem justo”. Na linguagem da época significava que socialmente assumia uma liderança e era considerado um ponto de referência para todos.
Hoje, sofremos com o eclipse da figura do pai. Isso produz sentimento de insegurança nos filhos e filhas e sua falta de limites. José foi um educador. Se Jesus mais tarde vai chamar Deus de “paizinho querido”(Abba) isso significa que ele teve uma experiência de grande intimidade com o pai José. Freud mostrou que a base para uma imagem boa de Deus provém de uma relação boa com o próprio pai.
Os tempos de José e os nossos são diferentes. Mas a missão é a mesma: ser aquela figura que cuida, que provê tudo o que a família precisa, que inicia nos valores éticos e espirituais da sociedade e que aceita correr riscos em defesa da família, como quando teve que enfrentar o deserto a caminho do Egito.
Aí aparece a dimensão do masculino ( do “animus”, a coragem, a direção e a determinação), que junto com o feminino (a “anima”, o afeto, o cuidado e o amor) ajudam a constituir uma personalidade integrada e feliz, pois cada pessoa carrega seu lado feminino e masculino.
Qual a importância teológica de São José?
Tenho defendido a tese, até hoje nunca ajuizada pelas autoridades doutrinárias da Igreja, de que São José é a personificação do Pai celeste. Deve haver um equilíbrio no mistério de Deus que se auto-entregou e se revelou à humanidade. O Espírito Santo, segundo Lucas, veio sobre Maria e fez morada nela, quer dizer, ficou permanentemente nela. Em seu seio, por causa da presença do Espírito Santo, começou a se formar a santa humanidade do Filho do Pai.
O Filho se encarnou em Jesus, nascido de Maria. E o Pai não ficou de fora desse processo. Ele é bem representado pela figura de José, porque o Pai é o mistério absoluto representado pelo silêncio (não fala, quem fala é o Filho), é o criador de todas as coisas. O grande psicanalista C.G. Jung mostrou que o sonho representa o Profundo, o lado de Mistério do ser humano. São José só teve sonhos, nele o Profundo se manifestou.
Ele também é o homem do silêncio e o trabalhador. Este, o trabalhador, não fala com a boca, mas pelas mãos que constroem a casa, os bancos, as janelas e os telhados. O Pai celestial é o que cuida de todo o universo e de cada um de nós, à semelhança de São José, que cuidou da família em tudo o que fosse necessário.
São José comparece como a figura mais adequada para receber em sua vida a vinda do Pai que também veio morar conosco. Se o sonho é expressão do mistério no ser humano, o Pai é o Mistério absoluto. Portanto, há uma adequação entre São José e o Pai celeste.
Identifiquei na Igreja de São Francisco Xavier, na pequena vila de Saint François du Lac, em Quebec, no Canadá, um quadro de 1742 que representa são José com o mesmo rosto do Pai celeste que aparece no alto. Daí me veio a ideia de que São José é a personificação do Pai celeste. Assim temos a família divina encarnada na família humana.
A totalidade do mistério da Santíssima Trindade entrou em nossa história e a santificou. São José é parte desta entrega total do Deus-família à família humana. Os cristãos deveriam refletir mais sobre essa conexão para se sentir mais envolvidos pela presença divina e ficar sabendo que o nosso Deus é um Deus próximo e que se revelou assim como é, como Pai (em José) como Filho (em Jesus) e como Espírito Santo (em Maria).
Leonardo Boff é teólogo e escreveu São José: a personificação do Pai, Vozes, Petrópolis 2012


sexta-feira, 26 de abril de 2019

SÃO JORGE: OS POBRES MATAM TODO SANTO DIA UM DRAGÃO





por leonardo boff

Tempos atrás escrevi dois estudos sobre São Jorge, um histórico e outro interpretativo. A situação atual da maioria do povo empobrecido e humilhado tem que matar um dragão cada dia para poder sobreviver. Vale invocar a força e a coragem de São Jorge.Por isso atualizo o escrito anteriormente publicado e válido especialmente para o atual momento.
A história de São Jorge e o combate feroz com o dragão são dados de grande significação. Vamos tentar interpretar sua figura, o dragão e a sua luta.Veremos que tem a ver com a existência de cada ser humano, especialmente dos que precisam lutar muito para viver. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.
No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de  sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência”.
Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.
Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia.
O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente ao consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e se impor na vida.
Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano, de cada um de nós.  O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes o dragão aparece envolvendo o corpo do Santo, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade entre o ser humano e São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão.
A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego,da consciência, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.
Diz o psicanalista Neumann:”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantem domesticado e integrado como seu lado de sombra.
Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar, deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.
A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi, em Luther King e no Papa Francisco.
Os cariocas tem grande veneração por São Jorge tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”.Por isso há um movimento para faze-lo o segundo patrono do Rio de Janeiro.
O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso “vencedor” das adversidades. Ai São Jorge representa o santo ideal. Numa famosa  novela “Salve Jorge”ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.
Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele  ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.
Leonardo Boff coordenou a publicação da obra completa de C. G. Jung junto à Editora Vozes.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

OSCAR ROMERO: UM SANTO PARA NOSSOS TEMPOS



                      Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

A santidade pode acontecer sem direta e necessária conexão com a moralidade, em especial dentro dos parâmetros casuísticos como tem sido concebida. Juntamente com esta afirmação está a convicção de que a santidade não ocorre necessariamente dentro dos cânones habituais de uma instituição religiosa. Trata-se de uma transformação completa da pessoa, a qual pode dar-se em diferentes circunstâncias.

  Santo é alguém que tem o gênio de contemplar com atenção criativa a realidade e o mundo, e encontrar em sua experiência de Deus uma resposta original às demandas e interpelações que seu momento histórico e social levanta.  A santidade é, pois, um processo vital, que inclui não apenas uma experiência religiosa, mas a conecta com a ética e a práxis.

Há poucos dias o mundo recebeu com júbilo a notícia de que o Papa Francisco canonizara – ou seja, proclamara santo da Igreja Católica – o arcebispo de San Salvador, Oscar Arnulfo Romero. Pessoa discreta e moderada, recebera o episcopado na expectativa de que se desempenharia dele da habitual forma discreta e modesta que o caracterizava. E assim provavelmente seria a história de seu percurso eclesiástico se não fosse alguém aberto ao Espírito que o animava.  Quando viu com seus olhos as mortes que ceifavam a vida de seu clero e seu povo, percebeu que não podia apenas cumprir sua rotina de arcebispo.  Tinha que falar. 

E assim o tímido arcebispo denunciou as barbaridades que a violência fazia em seu país, declarando-as contra a justiça, a paz e, sobretudo, contra o Evangelho de Jesus. Suas homilias eram transmitidas por rádio e tonitruavam pelos quatro cantos de seu país e para além dele.  Os olhos do mundo voltaram-se para o pequeno país oprimido que, graças à coragem profética do arcebispo, se fazia visível por toda parte. 

As forças da violência e do mal que governavam o país não viram com bons olhos a atuação de monsenhor Romero.  Protestaram em El Salvador, em Roma e onde mais puderam.  Incomodava muito aquele arcebispo que teimava em não se recolher à sacristia e insistia em ocupar o espaço público fazendo denúncias e censurando os procedimentos da lei e da ordem. 

Finalmente, Romero foi morto.  Atravessou-lhe o coração uma bala disparada por um atirador de elite.  Estava no meio da celebração da missa e acabava de consagrar o pão e o vinho que, transubstanciados no corpo e sangue de Jesus Cristo, ressignificaram sua morte.  Era um mártir, ou seja, uma testemunha que foi até o fim na confissão de fé do Reino anunciado por Jesus. 

Na Igreja Antiga seria aclamado santo no minuto seguinte.  O martírio era um sinal mais do que claro para declarar alguém plenamente unido a Deus e fiel a seu amor incondicional.  Alguém que dá a vida pelos outros devido à fé que lhe anima a vida é certamente santo tal como o entende a Igreja Católica. 

No entanto, Romero foi assassinado em 1980 e apenas agora, em 2018 aconteceu sua canonização.  Por que uma espera tão longa diante de uma santidade tão evidente?  Qual a razão da demora?   Que dúvida poderia pairar sobre a vida daquele homem que o povo salvadorenho, assim como todos os latino-americanos, já cultuavam como santo e cuja vida inspirava outras vidas para além das fronteiras do continente?

Pareceria que Romero não teria sido assassinado por ódio à fé.  A razão de sua morte não foi a defesa de uma formulação dogmática, ou de uma norma moral.  Foi, sim, a comunhão apaixonada com a dor dos outros, no caso de seu povo que sofria perseguição e violência. Felizmente, o Papa Francisco entendeu que se Romero não fora morto por ódio à fé, certamente o fora por seu exemplo heroico de caridade.  E no último dia 14 de outubro canonizou-o, declarando-o santo e mártir da Igreja Católica. 

Os santos têm em comum a experiência de que todas as graças e conhecimentos a eles dados por Deus os direcionam misericordiosamente para o sofrimento humano.  Cada santo ou santa não quer estar separado das dores e sofrimentos de seus contemporâneos, mas entrar em profunda solidariedade e comunhão com eles. Sua sintonia com Deus os leva não a ensimesmar-se em seu interior, mas a abrir olhos e ouvidos aos clamores da realidade, aos sofrimentos do próximo, à realidade dolorosa do mundo. E é aí que a mística se encontra com a prática da caridade e tem como fruto a santidade.

sim que Oscar Romero disse a Deus teve início ali onde várias vezes a teodiceia encontrou uma aporia e homens grandes e brilhantes como Albert Camus não encontraram resposta a não ser a indignação e o antiteísmo: no sofrimento do outro, sofrimento inocente e injusto que abraçou com paixão e compaixão. 

Canonizando santos, a Igreja quer dar testemunho ao mundo de que aqueles seus filhos viveram plenamente o ethos do amor e da intimidade com Deus e o serviço dos outros. Assim aconteceu com Oscar Romero, que hoje pode ser invocado como santo e cuja vida tornou o mundo mais humano e mais de acordo ao sonho do Criador. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livro


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

UM VERDADEIRO SANTO PRECISA SER OFICIALIZADO COM A CANONIZAÇÃO?



por  Juracy Andrade


Desde o dia 16 está no ar o Blog do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC) que pode ser acessado via www.institutodomhelder.blogspot.com.br, criado e tocado pela editora deste O Porta-Voz, a jornalista Rejane Menezes.

No último número que recebi do Jornal Igreja Nova, é levantada uma questão bem pertinente sobre beatificação, canonização. Diz-se ali que bispos, teólogos, leigos afirmam que dom Helder não gostaria dessa iniciativa de fazê-lo oficialmente santo canonizando-o.

Também acho que essa oficialização não faz sentido, pois santo é santo e pronto, aquele cristão que seguiu fielmente o Evangelho, testemunhando a fé em Jesus Cristo e sua pregação, amando o próximo e vivendo a esperança da ressurreição. A canonização nasceu na Idade Média. Os grandes santos mais antigos, como os Patres Ecclesiae (Padres da Igreja), gregos e latinos, não precisaram da oficialização de sua condição de santos. À medida, porém, que a Igreja Católica Romana e o papado foram acrescentando e enrijecendo seus preceitos e privilégios, esnobando solenemente as demais igrejas fundadas pelos apóstolos e seus sucessores, a, digamos, oficialização da condição de santo também foi sendo assumida e centralizada pelos papas, através da canonização. Igrejas ortodoxas orientais também usam a canonização.

Pode-se imaginar que os papas e os cardeais que os cercam passaram a utilizar essa abusiva oficialização para ignorar os que não lhes agradavam e favorecer seus preferidos. Lembro que, pouco após a 2ª Guerra Mundial, Pio 12 canonizou às pressas uma garota, Maria Goretti, que tinha sido morta ao resistir a um estupro, algo infelizmente muito comum. Na briga pessoal do papa Pacelli contra o comunismo (a Itália tinha um Partido Comunista forte e aguerrido), que o levou a proteger nazistas e fascistas (um mal menor, para ele) livrando-os de julgamentos e dando-lhes passaportes para a América do Sul, ele precisava mostrar ao mundo que uma menina católica, não comunista, sabia resistir heroicamente a abusos sexuais.

Mas isso não é nada em comparação às canonizações do papa polonês, João Paulo 2º, que incluem um pedófilo mexicano e o fundador do Opus Dei, uma organização secreta pseudorreligiosa, entre outras escolhas duvidosas.

Na mesma edição a que me refiro do Jornal Igreja Nova, tem um artigo do monge Marcelo Barros onde ele lembra que Padre José Comblin observava que os processos de canonização foram se tornando, muitas vezes, instrumentos de manifestação do poder eclesiástico. Tanto que, na lista dos santos oficializados, temos os que pregaram as famigeradas Cruzadas, ensaio geral do colonialismo, papas que guerrearam por seu poder político, reis e rainhas que fizeram guerras, cardeais que presidiram a Inquisição e condenaram ao suplício da fogueira irmãos que eles enxergavam como hereges etc., etc.


Concluindo. Em 1971, em plena ditadura, com o golpe dentro do golpe do AI-5, dom Pedro Casaldaliga escreveu a carta pastoral “Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” e, em 1975, promoveu um encontro de bispos em Goiânia, quando foi criada a Comissão Pastoral da Terra, que vem fazendo um magnífico trabalho. Mesmo com uma CNBB manietada por um pontificado reacionário como o do papa Wojtyla, a comissão prosseguiu sua obra em prol dos sem terra, dos marginalizados e hoje tem as bênçãos de Francisco de Roma, uma papa que veio do fim do mundo (como ele mesmo diz) para, como Francisco de Assis, consertar a Igreja.

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 5 de maio de 2015

UM SANTO HUMANO DEMAIS


Marcelo Barros


Nesse momento, sob a inspiração do papa Francisco, o Vaticano aceitou abrir os processos de canonização para reconhecer como exemplos de santidade figuras como Dom Oscar Romero, Dom Helder Camara e Dom Luciano Mendes de Almeida. Em um encontro de teólogos, alguém comentava que valeria a pena abrir também esse processo em relação a Dom Tomás Balduíno, cujo primeiro aniversário de falecimento comemoramos agora no dia 02  de maio.

De fato, qualquer pessoa que, como eu, conheceu esses personagens aqui citados, pode testemunhar que todos eles foram, ao longo de suas vidas, tanto em suas ações, como nas palavras, exemplos de santidade, justamente por terem realizado de modo exemplar sua vocação humana. Tanto Dom Romero, como Dom Helder, Dom Luciano e Dom Tomás foram antes de tudo pessoas de profunda humanidade. Tiveram todos como critério de vida ser humanos como o seu mestre,  o profeta Jesus de Nazaré. Souberam ligar fé e vida, missão evangelizadora e dedicação às mais nobres causas do povo empobrecido na caminhada da libertação. Dom Oscar Romero recebeu a graça do martírio e deu a vida pelo evangelho vivido na defesa dos mais pobres de El Salvador. Os outros três viveram o martírio, não tanto pelo modo como morreram, mais pela sua forma de viver o testemunho do projeto divino no mundo.

Dom Tomás viveu isso como frade dominicano,  missionário no sul do Pará e depois como um bispo que orientou não somente a diocese de Goiás, mas a Igreja Católica de todo o mundo a se consagrar inteiramente ao serviço da libertação e promoção humana dos povos indígenas,  dos lavradores e de todos os oprimidos do campo e da cidade. E fazia isso com tal entusiasmo e convicção que só podiam vir de uma profunda adesão interior ao Evangelho de Jesus.

Tornou-se bispo em 1967, logo depois do Concílio Vaticano II e em plena preparação para a 2a Conferência do episcopado latino-americano em Medellín (1968). Ali, os bispos latino-americanos e caribenhos traduziram o projeto de renovação de toda a Igreja, proposto pelo Concílio Vaticano II, para a América Latina. Ali, decidiram avançar mais para fazer da Igreja um serviço à causa dos mais empobrecidos. Dom Tomás tornou essa proposta a motivação fundamental de todo o seu ministério. Lutou por isso, desde que era prelado em Conceição do Araguaia até o seu último suspiro, no ano passado, em Goiânia.

Com essa energia, junto com Dom Pedro Casaldáliga, em 1973, em plena ditadura militar, Dom Tomás liderou os bispos do Centro-oeste para redigirem e assinarem o documento profético: “Marginalização, grito de um povo”. Na mesma época, foi um dos fundadores e pioneiros do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e poucos anos depois da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Sempre apoiou o Centro de Estudos Bíblico (CEBI) que tem um excelente trabalho no Estado de Goiás.

Era o bispo brasileiro de referência para o movimento Fé e Política, do qual nunca perdia nenhuma assembleia. Também se entusiasmava pelas reuniões anuais que um grupo informal de bispos, coordenados pelo CESEP (Centro de Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Pastoral), realiza uma vez por ano para estudar e aprofundar uma linha de ação comum a várias Igrejas.

Já idoso e com saúde abalada, esteve duas vezes comigo na Venezuela para apoiar o processo bolivariano. Ele queria dar testemunho de que a fé cristã nos leva a apoiar todo percurso que favorece a justiça e promove os mais pobres. Era a continuidade de um caminho que, em 2007, o fez participar da peregrinação que nos levou a Valle Grande e ao coração da Bolívia, onde havia 40 anos, o comandante Che Guevara havia dado a sua vida para transformar o mundo. 

Quem conheceu mais profundamente Tomás sabe que toda essa incansável dedicação às causas sociais e políticas era alicerçada em uma espiritualidade alimentada pela oração e pelo gosto dos salmos. Já nos anos de juventude, ele adaptou alguns cânticos bíblicos como o Cântico das Criaturas para serem cantados em uma velha melodia das santas missões populares. E já no leito de morte, prefaciou com amor um livrinho sobre 50 salmos traduzidos de forma a serem saboreados melhor pela juventude de hoje.

De acordo com o modelo de Igreja definido pelo Concílio Vaticano II e por Medellín, a santidade é vocação de todo o povo cristão e esse sempre sabe, independentemente de processos canônicos, discernir os santos e santas que lhe servem como exemplo. Nesse domingo passado, na Catedral de Santana, na Cidade de Goiás, a eucaristia que uniu a memória de Dom Tomás à Páscoa de Jesus reuniu o povo ao qual ele servia, os pequenos agricultores com suas produções e os índios que, em seu velório, dançaram em volta do seu corpo e o coroaram com o cocar de penas. Um ano depois da sua páscoa, sentimos a presença de Dom Tomás entre nós, como um santo do povo, doutor da Igreja, movido pelo amor solidário e que, com a força de sua profecia a serviço da vida dos mais empobrecidos, nos arrebata consigo para os caminhos do Espírito.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países