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terça-feira, 28 de maio de 2019

MARTÍRIO DE TODO UM POVO




Por Marcelo Barros

Há poucos dias, na 4ª feira, 15 de maio, o Brasil foi sacudido por uma das maiores manifestações públicas dos anos mais recentes. Em mais de 240 cidades brasileiras, estudantes, professores, funcionários públicos e a população, em geral, foram às ruas e praças para manifestar o seu desagrado pelas medidas propostas pelo atual governo contra a educação e no desrespeito à autonomia das Universidades públicas.
No início de maio, os bispos brasileiros, reunidos em Aparecida, em sua “mensagem ao povo brasileiro” denunciaram “a opção por um liberalismo exacerbado e perverso que vai contra as políticas sociais e favorece mais ainda as desigualdades”. Denunciaram que as reformas propostas pelo governo e já em andamento, como a trabalhista e a da previdência, têm aumentado o desemprego, (13 milhões de desempregados e 29 em trabalhos precários). Denunciaram as ameaças que pesam sobre os povos indígenas e o agravamento da crise ética, política e econômica. Claro que pensaram também na grave crise ecológica e na realidade da Amazônia. Diante dessa situação, é incrível constatar como os pobres resistem e teimam em lutar pela vida. As organizações sociais, apesar de perseguidas, se fortalecem e se unem na luta.
Desde algumas décadas, a caminhada da libertação tem se fortalecido com o testemunho de irmãos e irmãs que deram a vida nessa luta. Muitos desses/as mártires eram cristãos/ãs e morreram pela sua consagração à missão no meio dos mais pobres e à fidelidade ao evangelho, vivida em situação de conflito. Deram a sua vida pelos irmãos sofredores. Outros desses homens e mulheres, assassinados na luta pela justiça, embora não estivessem ligados a nenhuma Igreja ou religião são mártires, ou seja, testemunhas do projeto divino da justiça e da libertação. Como afirmou Jesus no evangelho: são bem-aventurados/as porque foram perseguidos/as por causa da justiça (Mt 5, 1- 12).
Nesse mês de maio, celebramos a memória de vários irmãos e irmãs que deram a vida na causa da justiça. Entre outros/as que deram a vida pela causa da justiça, as comunidades cristãs recordam dois, cuja memória é muito cara a todos nós. No dia 10 de maio de 1986, em Imperatriz (MA), era assassinado o padre Josimo Tavares, comprometido com a luta dos lavradores. Nesse domingo, 26, completaram-se 50 anos do martírio do padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador de jovens da arquidiocese de Olinda e Recife. Aos 28 anos, foi barbaramente assassinado por paramilitares que, ao matá-lo,  queriam atingir o arcebispo Dom Helder Camara. Quem, como eu, teve o privilégio de conviver com esses dois irmãos sabe que ambos eram movidos pelo Evangelho e se sacrificaram para ser fieis à missão que Deus lhes deu.
No Brasil e em vários países do continente, além dos/das mártires da luta pela terra, da luta dos índios pela sua libertação, da defesa da natureza e direitos humanos, as comunidades têm convivido diariamente com assassinatos de jovens nas periferias, com a droga e o tráfico que traz tantos sofrimentos, riscos, violências... Cada vez mais, os mártires não são mais apenas essa ou aquela pessoa e sim povos inteiros crucificados.
De acordo com a fé cristã, Jesus morreu na cruz para que ninguém mais seja crucificado. Quem crê em Jesus deve se comprometer em fazer tudo para baixar da cruz os povos crucificados. Isso significa concretamente apoiar projetos políticos comprometidos com o povo mais pobre e mais críticos com relação ao Capitalismo dominante que, como diz o papa Francisco, “esse sistema mata”.
Nos anos 80, no Chile, Ronaldo Muñoz escrevia: “Toda injustiça e opressão violenta ocorrem porque Deus não pode evitar. (...) Assumindo ele mesmo, por amor, o mal e a injustiça ali onde mais doem, o Deus que se deixa crucificar com o Crucificado e os crucificados de hoje, é ele que nos interpela se estamos fazendo o máximo e o possível para transformar essa realidade. (...) Crer juntos com os sofredores e oprimidos no Deus de Jesus Cristo dá sentido e força para juntos viver e lutar”.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

ECOLOGIA EM FRAGMENTOS: AS PARTES NO TODO



por Leonardo Boff

O discurso ecológico procura ver o Todo nas partes e as partes no Todo numa rede de conexões que liga e re-liga todos os seres. Aqui apresento uns fragmentos do discurso ecológico em tópicos que nos tocam  diretamente.

1.A irracionalidade de nosso estilo de viver

O modelo de sociedade e o sentido de vida que os seres humanos projetaram para si, pelo menos nos últimos 400 anos, estão em crise.

Este modelo nos fazia acreditar que o importante é acumular grande número de meios de vida, de riqueza material, de bens e serviços a fim de poder desfrutar a curta passagem por este planeta.

Para realizar este propósito nos ajudam a ciência que conhece os mecanismos da natureza e a técnica que faz intervenções nela para benefício humano. E procurou-se fazer isso com a máxima velocidade possível.

Portanto, busca-se o máximo de benefício com o mínimo de investimento e no tempo mais breve possível.

O ser humano, nesta prática cultural, se entende como um ser sobre as coisas, dispondo delas a seu bel prazer, jamais como alguém que está junto com as coisas, convivendo com elas como membro de uma comunidade maior, planetária e cósmica.

O efeito final e triste, somente agora visível de forma inegável é este, expresso na frase atribuída a Gandhi: “a Terra é suficiente para todos, mas não para os consumistas”.

Nosso modelo civilizatório é tão absurdo que se os benefícios acumulados pelos países ricos fossem generalizados aos demais paises, precisaríamos outras quatro Terras iguais a essa que temos.
O que mostra a irracionalidade que este modo de viver implica. Por isso pede o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: uma radical conversão ecológica e um consumo sóbrio e solidário.

2. A natureza é mestra

Em momentos de crise civilizacional, como a nossa, é imperioso consultar a fonte originária de tudo: a natureza, a grande mestra. Que ela nos ensina?

Ela nos ensina que a lei básica da natureza, do universo e da vida não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui.

Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e os virus até os seres mais complexos, somos todos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Um coopera com o outro para viver.

Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, essa é a lei da natureza e do universo. Por causa desta teia de interdependências chegamos até aqui.

É essa soma de energias e de conexões que nos ajuda a sair das crises e a fundar novo ensaio civilizatório. Mas nos perguntamos: somos suficientemente sábios para enfrentar situações críticas e responder aos novos desafios?

3. Tudo está relacionado com tudo

A realidade que nos cerca e da qual somos parte, não deve ser pensada como uma máquina mas como um organismo vivo, não como constituída de partes estanques, mas como sistemas abertos, formando redes de relações.

Vigoram duas tendências básicas em cada ser e no inteiro universo: uma a de se auto-afirmar individualmente e outra a de se integrar num todo maior. Se não se auto-afirma corre o risco de desaparecer. Se não se integra num todo maior, corta a fonte de energia, se enfraquece e pode também desaparecer. Importa equilibrar estas duas tendências. Caso contrário caimos no individualismo mais feroz – a auto-afirmação – ou no coletivismo mais homogeneizador – a integração no todo.
Por isso temos sempre de ir e vir das partes para o todo, dos objetos para as redes, das estruturas para os processos, das posições para as relações.
A natureza é, pois, sempre co-criativa, co-participativa, ligada e re-ligada a tudo e a todos e principalmente à Fonte Originária de onde se originam todos os seres.

4.Desde o começo está presente o fim

O fim já está presente no começo. Quando os primeiros elementos materiais depois do big bang começaram a se constituir e a vibrar juntos aí já se anunciava um fim: o surgimento do universo uno e diverso, ordenado e caótico, o aparecimento da vida e o irromper da consciência.
Tudo se moveu e se interconectou para dar início à gestação de um céu futuro que começou já aqui em baixo, como uma sementinha, foi crescendo, crescendo até acabar de nascer na consumação dos tempos. Esse céu, desde o começo, é o próprio universo e a humanidade chegados à sua plenitude e consumação.

Não há céu sem Terra, nem Terra sem céu.
Se assim é, então, ao invés de falarmos em fim do mundo, deveríamos falar em um futuro do mundo, da Terra e da Humanidade que então serão o céu de todos e de tudo.

Leonardo Boff é ecoteólogo e filsósofo e escreveu: De onde vem ? Mar de Ideias, Rio 2017.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

SÃO JORGE: OS POBRES MATAM TODO SANTO DIA UM DRAGÃO





por leonardo boff

Tempos atrás escrevi dois estudos sobre São Jorge, um histórico e outro interpretativo. A situação atual da maioria do povo empobrecido e humilhado tem que matar um dragão cada dia para poder sobreviver. Vale invocar a força e a coragem de São Jorge.Por isso atualizo o escrito anteriormente publicado e válido especialmente para o atual momento.
A história de São Jorge e o combate feroz com o dragão são dados de grande significação. Vamos tentar interpretar sua figura, o dragão e a sua luta.Veremos que tem a ver com a existência de cada ser humano, especialmente dos que precisam lutar muito para viver. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.
No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de  sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência”.
Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.
Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia.
O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente ao consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e se impor na vida.
Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano, de cada um de nós.  O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes o dragão aparece envolvendo o corpo do Santo, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade entre o ser humano e São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão.
A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego,da consciência, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.
Diz o psicanalista Neumann:”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantem domesticado e integrado como seu lado de sombra.
Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar, deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.
A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi, em Luther King e no Papa Francisco.
Os cariocas tem grande veneração por São Jorge tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”.Por isso há um movimento para faze-lo o segundo patrono do Rio de Janeiro.
O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso “vencedor” das adversidades. Ai São Jorge representa o santo ideal. Numa famosa  novela “Salve Jorge”ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.
Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele  ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.
Leonardo Boff coordenou a publicação da obra completa de C. G. Jung junto à Editora Vozes.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

TODO SER HUMANO É UM REI MAGO

Por Marcelo Barros



Nesse começo do ano, em todo o Brasil, principalmente nos ambientes rurais e do interior, as comunidades mais pobres vibram com danças populares que unem a fé e a cultura popular. Essa sabedoria nos ensina que Deus gosta de brincadeira e se manifesta no jeito do povo simples cantar suas rezas, dançar e brincar nas folias de Reis, assim como, no Nordeste, as crianças ensaiam e dançam o pastoril e o reizado. Inspiradas, sem dúvida em dramatizações religiosas, comuns na Idade Média, em um contexto no qual a Liturgia era em latim e restrita ao clero e religiosos/as, as folias de reis encenam a peregrinação que, conforme o evangelho, magos, ou seja feiticeiros e sacerdotes de religiões pagãs, fizeram do Oriente até Belém para adorar a Jesus. Pelo interior de Goiás, Minas Gerais e outras regiões do Brasil tradicional, do Natal até 06 de janeiro, os foliões levam a bandeira do Menino de casa em casa e invocam a benção divina para as famílias.

É importante não julgar essas tradições como meros resquícios de um tempo passado e de culturas rurais inadequadas no contexto urbano. Ao contrário, o sentido mais profundo dessa piedade popular se mantém vivo e atual. De fato, para as comunidades cristãs que seguem essas tradições pouco importa se a página do evangelho que conta a visita dos sábios do Oriente ao menino de Belém é de tipo simbólico. Os próprios magos não são figuras históricas, mas a tradição os tornou reis magos e fez da viagem deles, conduzidos por uma estrela, do Oriente até Belém o protótipo de toda a busca interior e profunda que as pessoas vivem.

Mesmo em um mundo sem sonhos e que se especializa em matar as utopias mais profundas da humanidade, pessoas pertencentes a todas as tradições espirituais, como também intelectuais de todas as culturas, mesmo se não pertencem a nenhuma religião específica vivem uma verdadeira peregrinação interior na busca de apreender e viver o mistério mais profundo da vida. A luta cotidiana pela existência e a agitação da sociedade atual tenta as pessoas a esquecer ou mitigar essa busca. O sentido mais profundo das celebrações populares do Natal e Reis Magos é revigorar essa procura no mais profundo de cada crente.

As devoções populares natalinas nos fazem reviver a busca que os evangelhos simbolizam ao contar a visita daqueles astrólogos do Oriente a Jesus. Hoje, os reis magos somos nós e todas as pessoas que não desistem da busca interior e se dispõem a aprofundar o  diálogo na escuta e no aprendizado uns com os outros.

Nos nossos dias, o papa Francisco tem insistido em que a fé cristã se vive na inserção no mundo atual, na solidariedade a todos os grandes problemas da humanidade. A missão de quem é de Deus é fazer como Jesus: criar pontes e não muros. Nós fazemos isso quando aceitamos nos despojar de nossa autossuficiência e nos inserir na comunidade humana e na comunhão de todos os seres vivos. Para retomarmos essa busca interior e nos abrir ao diálogo com todos os irmãos e irmãs que se colocam conosco nessa estrada, o Natal nos convida a começar de novo e aceitar ser como crianças abertas ao amanhã. Adélia Prado, nossa grande poetisa, tem um poema-oração que diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos. Meu Deus, me dá a mão e me cura de ser grande". 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.