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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - Memória dos 18 anos do Martírio da Ir. Dorothy Stang

 Dom Pedro Casaldáliga



Dorothy conseguiu ensamblar contrastes com sua vida de religiosa integral. Mística e profeta, firme e tenra, estadunidense sem complexos e inculturada sem fronteiras. Toda ela era evangelho em missão, com aquele sorriso transbordante da luminosidade do Reino no meio da luta, além de toda incompreensão e de todo desanimo. Mártir das causas verdadeiramente do povo, no lugar certo e na hora certa.

Assumamos a herança de nossa santa Dorothy, na caminhada do dia a dia, com realismo militante e com a esperança pascal.

 

Pedro Casaldáliga, 2013

Arte: @CarlosLatuff

Pedro Casaldáliga,

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

Comitê Dorothy

terça-feira, 28 de maio de 2019

MARTÍRIO DE TODO UM POVO




Por Marcelo Barros

Há poucos dias, na 4ª feira, 15 de maio, o Brasil foi sacudido por uma das maiores manifestações públicas dos anos mais recentes. Em mais de 240 cidades brasileiras, estudantes, professores, funcionários públicos e a população, em geral, foram às ruas e praças para manifestar o seu desagrado pelas medidas propostas pelo atual governo contra a educação e no desrespeito à autonomia das Universidades públicas.
No início de maio, os bispos brasileiros, reunidos em Aparecida, em sua “mensagem ao povo brasileiro” denunciaram “a opção por um liberalismo exacerbado e perverso que vai contra as políticas sociais e favorece mais ainda as desigualdades”. Denunciaram que as reformas propostas pelo governo e já em andamento, como a trabalhista e a da previdência, têm aumentado o desemprego, (13 milhões de desempregados e 29 em trabalhos precários). Denunciaram as ameaças que pesam sobre os povos indígenas e o agravamento da crise ética, política e econômica. Claro que pensaram também na grave crise ecológica e na realidade da Amazônia. Diante dessa situação, é incrível constatar como os pobres resistem e teimam em lutar pela vida. As organizações sociais, apesar de perseguidas, se fortalecem e se unem na luta.
Desde algumas décadas, a caminhada da libertação tem se fortalecido com o testemunho de irmãos e irmãs que deram a vida nessa luta. Muitos desses/as mártires eram cristãos/ãs e morreram pela sua consagração à missão no meio dos mais pobres e à fidelidade ao evangelho, vivida em situação de conflito. Deram a sua vida pelos irmãos sofredores. Outros desses homens e mulheres, assassinados na luta pela justiça, embora não estivessem ligados a nenhuma Igreja ou religião são mártires, ou seja, testemunhas do projeto divino da justiça e da libertação. Como afirmou Jesus no evangelho: são bem-aventurados/as porque foram perseguidos/as por causa da justiça (Mt 5, 1- 12).
Nesse mês de maio, celebramos a memória de vários irmãos e irmãs que deram a vida na causa da justiça. Entre outros/as que deram a vida pela causa da justiça, as comunidades cristãs recordam dois, cuja memória é muito cara a todos nós. No dia 10 de maio de 1986, em Imperatriz (MA), era assassinado o padre Josimo Tavares, comprometido com a luta dos lavradores. Nesse domingo, 26, completaram-se 50 anos do martírio do padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador de jovens da arquidiocese de Olinda e Recife. Aos 28 anos, foi barbaramente assassinado por paramilitares que, ao matá-lo,  queriam atingir o arcebispo Dom Helder Camara. Quem, como eu, teve o privilégio de conviver com esses dois irmãos sabe que ambos eram movidos pelo Evangelho e se sacrificaram para ser fieis à missão que Deus lhes deu.
No Brasil e em vários países do continente, além dos/das mártires da luta pela terra, da luta dos índios pela sua libertação, da defesa da natureza e direitos humanos, as comunidades têm convivido diariamente com assassinatos de jovens nas periferias, com a droga e o tráfico que traz tantos sofrimentos, riscos, violências... Cada vez mais, os mártires não são mais apenas essa ou aquela pessoa e sim povos inteiros crucificados.
De acordo com a fé cristã, Jesus morreu na cruz para que ninguém mais seja crucificado. Quem crê em Jesus deve se comprometer em fazer tudo para baixar da cruz os povos crucificados. Isso significa concretamente apoiar projetos políticos comprometidos com o povo mais pobre e mais críticos com relação ao Capitalismo dominante que, como diz o papa Francisco, “esse sistema mata”.
Nos anos 80, no Chile, Ronaldo Muñoz escrevia: “Toda injustiça e opressão violenta ocorrem porque Deus não pode evitar. (...) Assumindo ele mesmo, por amor, o mal e a injustiça ali onde mais doem, o Deus que se deixa crucificar com o Crucificado e os crucificados de hoje, é ele que nos interpela se estamos fazendo o máximo e o possível para transformar essa realidade. (...) Crer juntos com os sofredores e oprimidos no Deus de Jesus Cristo dá sentido e força para juntos viver e lutar”.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

UM MARTÍRIO POLÍTICO E O MOMENTO BRASILEIRO




por Por Marcelo Barros

No próximo domingo, 14 de outubro, em Roma, em uma mesma cerimônia, o papa Francisco vai proclamar como santos o papa Paulo VI e Dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980, quando celebrava a eucaristia em uma capela de hospital. Sobre o processo de canonização e o seu estilo, podemos ter críticas e desejar uma renovação mais de acordo com o evangelho. Antes de tudo, devemos lembrar que São Paulo chama todos os batizados de santos, santificados pela graça. Por isso, é bom sempre repetir: o papa não torna ninguém santo. Apenas, proclama que tal pessoa (que já está no céu pela graça divina) tem seu nome na lista (no canon) dos santos,  por ser reconhecido/a como exemplo de santidade para o povo de Deus. Hoje, qualquer pessoa mais crítica contesta os critérios usados durante o processo e espera que o método se torne menos monárquico e, economicamente, mais acessível ao mundo dos pobres.Assim mesmo, para o mundo inteiro, as canonizações desse domingo são muito significativas.

Paulo VI foi o papa que continuou o Concílio Vaticano II e se tornou responsável pela renovação da Igreja que o Concílio propôs. Canonizá-lo é um modo claro de valorizar o esforço de renovação e retomá-lo nos ambientes eclesiais nos quais o antigo regime ainda domina. Proclamar Paulo VI como santo é deixar claro que quem opta por uma Igreja não renovada é alguém que se fecha à graça da santidade.

Quanto à canonização de Oscar Romero, o mundo inteiro sabe que alguns bispos de El Salvador e grupos dentro do Vaticano fizeram de tudo para evitar a canonização. Não vale a pena repetir as intrigas e maledicências inventadas para destruir a honra de Romero. No tempo da beaficação, o papa Francisco chegou a afirmar que ele foi mártir duas vezes: no dia em que perdeu a vida por seu amor aos pobres e depois quando, já morto, foi vítima de calúnias para manchar sua imagem e destruir sua profecia.Agora, ao colocar o nome de Romero na lista dos santos, o papa simplesmente reconhece o fato de que, desde 1980, os pobresda América Latina já chamam Romero de “São Romero de las Américas”.

Essa canonização, além de ter esse significado profundo para a América Latina, é o reconhecimento de um martírio de conteúdo profundamente social e político. O papa e todas as pessoas que conhecem a história sabem que Monsenhor Romero não foi um santo da caridade, no estilo de Madre Teresa de Calcutá, de Charles de Foulcaud ou de Santa Terezinha do Menino Jesus, figuras maravilhosas da Igreja. Romero testemunhou o reino de Deus e deu sua vida, ao tomar partido na luta de libertação do povo de El Salvador e ao enfrentar uma ditadura com a qual os outros bispos, em sua maioria,  eram condescendentes. Embora desarmado e sem nenhum vínculo direto com a guerrilha, foi profeta da justiça e do direito do povo e de sua libertação. Romero foi e é um mártir político.

A expressão não é minha. Um dos maiores teólogos cristãos da atualidade, Jungmann Moltmann, pastor evangélico alemão afirmou: “No antigo império romano, os mártiresque se negavam a prestar culto ao imperador, contribuíram a propagar a liberdade. (cometeram um ato de subversão política). Assim também em nossos tempos, as Igrejas que esquecem a seus mártires políticos estão em perigo de acomodar-se à religião política da sociedade em que vivem” (do livro La Iglesia, fuerzadelEspíritu, Salamanca, 1978, p. 118).

Atualmente, muitos cristãos se perguntam como foi possível que, apesar de uma minoria profética que denunciou isso, a maioria do clero e dos fieis católicos e evangélicos foram coniventes e até colaboradores com a escravidão dos índios e negros. Do mesmo modo, pode ser que, em um futuro próximo, cristãos se perguntem: Como se tornou possível que, no começo do século XXI, no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países, pastores e fieis, católicos e evangélicos, tenham escolhido votar na extrema direita?

Todos sabem que esses seus candidatos conservadores farão tudo para manter as desigualdades sociais. Sempre ficam do lado da elite rica contra os empobrecidos. São adeptos de guerras e violências. No entanto, bispos, pastores, padres e fieis, votam neles. Será porque, no terreno da moral sexual, esses fascistas, embora não vivam, defendem a moral tradicional? Certamente, além desses cristãos fundamentalistas, preocupados obsessivamente com os temas da moral sexual, muitos outros têm no seu DNA uma tendência de apoiar pessoas autoritárias e com tendência totalitária. Por que? As Igrejas assistem a essa tragédia e não se perguntam em que erraram na formação de seus ministros e fieis. E o mundo teria o direito de se perguntar o que, hoje, Jesus diria desse Cristianismo de direita.

Certamente, essa ala tradicional da Igreja, pouco ligará para a canonização de Oscar Romero. Na cerimônia de sua beatificação, um cardeal chegou a pregar que Monsenhor Romero é santo porque tinha uma profunda devoção a Virgem Maria, ao papa e ao Santíssimo Sacramento (nessa ordem). O mundo inteiro sabe que, nesse domingo, em Roma, ao canonizar Romero, não será essa a pregação do papa Francisco. Para usar um termo de Santo Inácio de Antioquia, no começo do Cristianismo, “a luta social e política de Monsenhor Romero junto a seu povo e o seu testemunho de amor aos pobres o torna para nós Palavra viva de Deus”. Santo Oscar Romero, rogai a Deus por nós e ajudai-nos no caminho da conversão nossa e de nossas Igrejas”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br



terça-feira, 20 de março de 2018

A CRUZ DE JESUS E OS RISCOS DO MARTÍRIO

Por Marcelo Barros

No Brasil, em uma semana, tivemos o martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite da 4a feira, 14, no centro do Rio de Janeiro, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, mataram o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará. 

Vivemos em tempos de martírio. As pessoas que defendem o projeto da Justiça e da Vida para todos correm riscos e podem ser mortas. Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas ao martírio de Jesus que, nesses dias, nas suas liturgias, as Igrejas revivem. 

Não deixa de ser estranho: as Igrejas celebram o memorial da paixão de Jesus. No entanto, quem parece estar realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, ao menos atualmente, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Na América Latina, dos anos 60 até os anos 90, milhares de pessoas deram a vida por causa da justiça, em meio às lutas sociais. Dessas, muitas se proclamavam cristãs. No dia 24 de março, celebramos a memória do martírio do bispo Oscar Romero, assassinado em El Salvador, no momento em que celebrava a ceia de Jesus. Nos anos mais recentes, esse tipo de martírio continuou ocorrendo e acontece até hoje. Diariamente, há pessoas que morrem como vítimas da injustiças estruturais que dominam o mundo e esse continente. São mártires. No entanto, parece que, atualmente, o martírio está acontecendo mais fora dos ambientes eclesiais. Isso não diminui em nada o mérito e a santidade desses irmãos e irmãs que, mesmo sem terem vinculação com a fé religiosa, dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Conforme o evangelho, Jesus afirmava que pertence a Deus não quem confessa o seu nome e sim quem realiza a sua vontade que é de justiça e vida para todos.

Lamentável é que as Igrejas celebram e pregam a doação da vida, mas parecem ainda distantes dessa consagração que tantas pessoas sem falar em Deus, vivem no dia a dia da vida, nas periferias urbanas, na luta das mulheres negras, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas e dos rios.  Do mesmo modo, é estranho que os irmãos e irmãs que, por causa de sua fé, nas últimas décadas, deram a vida pelo povo e pela justiça, muitas vezes, não contaram com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja. Mesmo Dom Oscar Romero não era bem compreendido por outros bispos e pelo Vaticano. Isso nos faz perguntar por que a Igreja que celebra a paixão de Jesus tem tanta dificuldade em reconhecer e mais ainda em viver o martírio real que o povo sofre a cada dia, martírio que, na época de Jesus, se concretizou na cruz na qual o nosso mestre e Senhor deu a sua vida. Será que esse distanciamento da vida real das lutas do povo por parte de muitos eclesiásticos se dá porque continuam compreendendo a cruz e a morte de Jesus como um sacrifício religioso oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados? Geralmente, todos aceitam que a Páscoa do primeiro testamento foi de conteúdo claramente social e político (a libertação dos hebreus do Egito). No entanto, interpretam a Páscoa de Jesus no plano meramente espiritualista. Cristo é visto como o servo sofredor de Deus que, como dizia o profeta Isaías, tomou sobre si as nossas faltas e morreu por nossos pecados. É o Cordeiro de Deus, cordeiro da nova Páscoa que, por sua morte, nos liberta espiritualmente.

Até hoje, na maioria das Igrejas, padres e pastores ligam o motor automático e, a cada ano, repetem o mesmo discurso. No entanto, atualmente, essa forma de interpretar a fé corre o risco de apresentar Deus como uma divindade cruel que, para se reconciliar com o mundo, precisa da morte do seu próprio Filho. Além disso, essa teologia separa a morte de Jesus das outras mortes violentas, ocorridas pela justiça e pela libertação. Se a morte de Jesus foi o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade de seus pecados nada tem a ver com as cruzes nossas de cada dia. Atualmente, é preciso superar esse modo de compreender a fé e a Páscoa. Apesar dos evangelhos lhe emprestarem palavras que podem ser compreendidas no sentido sacrificial, parece que nem o próprio Jesus, inserido na cultura e religião hebraicas, podia pensar assim.  A cruz era o suplício que os romanos reservavam para os escravos rebeldes e prisioneiros políticos que lutavam contra a ordem do Império. Com essa acusação, referendada pelas autoridades religiosas, ligadas ao poder político que dominava aquela região, Jesus foi condenado a morrer na cruz. 

A morte de Marielle, Anderson  e Pedro, assim como a de Oscar Romero e de tantos outros/as nos desafiam a compreender e celebrar a memória da morte de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada. No 6º Encontro Intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Cremos na ressurreição. Por isso, através da continuidade da luta, podemos, hoje,  dizer: Viva Marielle, Anderson, Pedro e todas as testemunhas do mesmo projeto pascal de Jesus. 


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.