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terça-feira, 10 de novembro de 2020

ANDAR DE MÃOS DADAS COM OS POBRES DO MUNDO

 

Marcelo Barros

Conforme proposta do papa Francisco, neste próximo domingo, 15 de novembro, a Igreja Católica celebrará o 4º Dia Mundial do Pobre. Para este ano, o papa propõe como tema: «Estende a tua mão ao pobre». É uma palavra tirada de um dos últimos livros do primeiro testamento. O Eclesiástico foi escrito em grego e por isso nem consta na versão das Bíblias usadas por algumas Igrejas evangélicas. Hoje, este conselho do livro sagrado (Sir 7, 32) nos orienta a como agir de modo que possamos superar as barreiras da indiferença social e construir uma sociedade fundamentada na irmandade de todos e todas. Como, neste momento, os movimentos sociais têm repetido: “ninguém largue a mão de ninguém”.

Neste tempo de pandemia, um dos cuidados necessários é evitar os contatos pessoais, principalmente com as mãos. A imunização manda lavar constantemente as mãos e sempre que seja necessário, com álcool. No entanto, a proposta do papa Francisco ao retomar este preceito do livro da Sabedoria é mais do que toque corporal. Pede que nos coloquemos firmemente do lado dos pobres na hora de votar no próximo domingo para representantes do poder municipal e no modo de enfrentar este difícil tempo em que vivemos.

Ao propor este domingo como Dia Mundial dos Pobres, o papa chamou a atenção para que não seja um dia de estudo sobre a pobreza, nem apenas a denúncia de que, no mundo atual, as desigualdades sociais aumentam e a vida dos pobres se torna a cada dia mais precária. Ele nos pede que seja um dia de humanização do nosso convívio. Seja um dia de maior comunhão com as pessoas mais pobres que passam ou vivem ao nosso redor.

Nestes três anos anteriores, ele mesmo tem dado o exemplo e todos os anos tem feito um almoço e encontrado formas de conviver e se colocar ao lado de pessoas que muitas vezes na sociedade são invisíveis.

Além disso, o papa tem procurado sempre dialogar com os movimentos sociais que organizam os pobres na sua caminhada de libertação. Mesmo nestes tempos de isolamento forçado, provocado pela pandemia, o papa nos dá o exemplo. No sábado, 24 de outubro, através do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, reuniu no Vaticano representantes de movimentos sociais de todo o mundo.

Esta iniciativa do papa de  encontrar com representantes dos movimentos sociais começou em 2014 no Vaticano. Houve um segundo encontro dos movimentos sociais com o papa na Bolívia em 2015 e depois novamente no Vaticano em 2016. Desta vez, o encontro se realizou através de videoconferência. Estiveram presentes cerca de 150 representantes de movimentos sociais que responderam neste encontro à carta que o papa lhes dirigiu por ocasião da Páscoa.  Ali estava a Via Campesina que reúne mais de cem milhões de lavradores no mundo. A  Slum Dwellers da Índia representava os pobres da cidade. As comunidades afro indígenas da Bolívia, os movimentos de meninos de rua da Guatemala, o Movimento Africano de Crianças e de jovens que trabalham na Costa do Marfim, as Brigadas de Paz do México e várias outras estavam presentes.

Os três objetivos do encontro foram:

1º - aprofundar a reflexão sobre os chamados três T: terra, teto e trabalho, direitos sagrados sobre os quais o papa e os movimentos sociais têm insistido.

2º - partilhar as reflexões sobre a última encíclica do papa “Somos todos irmãos e irmãs”.

3º - discutir as perspectivas e as propostas do que se está chamando a “Economia de Francisco e Clara”, tema do encontro que, ainda neste mês, mesmo que seja virtualmente, o papa terá virtualmente com economistas jovens do mundo inteiro.  

Desde o seu primeiro encontro com os movimentos sociais, o papa tem deixado claro que ele convoca estes encontros não para que os participantes ouçam o que o papa tem a lhes dizer e sim para que o papa os escute e eles saibam que o papa está do lado deles na luta profética por um mundo novo possível. Esta é a interpelação que a proposta do Dia Mundial dos Pobres nos traz: colocar-nos junto deles na caminhada da Vida. Como sempre nos ensinou a teologia da libertação: junto com os pobres, contra a pobreza injusta.

Como escreve o papa Francisco, na mensagem que mandou para nós a respeito da celebração deste dia: “O objetivo de cada ação nossa só pode ser o amor. Este é o objetivo para onde caminhamos, e nada deve nos distrair dele. Este amor é partilha, dedicação e serviço, mas começa pela descoberta de que primeiramente fomos nós amados e despertados para o amor. Esta finalidade aparece no momento em que a criança se cruza com o sorriso da mãe, sentindo-se amada pelo próprio fato de existir. De igual modo um sorriso que partilhamos com o pobre é fonte de amor e permite viver na alegria. Possa então a mão estendida enriquecer-se sempre com o sorriso de quem não faz pesar a sua presença nem a ajuda que presta, mas alegra-se apenas em viver o estilo dos discípulos de Cristo”.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

CASA DE DEUS: LUGAR DE COMUNHÃO, ABRIGO DOS POBRES




por Kinno Cerqueira [1]


Cerca de 600 anos antes de Cristo, o Reino da Babilônia invadiu Jerusalém, levou quase todos os seus moradores como escravos e destruiu o Templo que havia sido construído durante o reinado de Salomão. Setenta anos depois, a Pérsia derrotou a Babilônia e liberou os judeus para voltar à sua pátria e reconstruir Jerusalém e o Templo. A princípio, o povo estava animado, mas não durou muito e o ânimo do povo foi por água abaixo. Como havia muito que reconstruir na cidade e nas roças, o povo se viu cansado e preferiu priorizar a reconstrução de suas próprias casas e roças, enquanto a reconstrução do Templo ia ficando para depois.

Foi neste contexto que Ageu profetizou. Em linhas gerais, a Palavra de Deus proferida por Ageu consiste basicamente em denúncia, constatação, chamamento e promessa. Denúncia: o povo está preso no egoísmo e no interesse próprio, preocupando-se tão somente com a reconstrução de suas propriedades privadas (1,2-4). Constatação: a roça do povo não vai bem e a razão para tal é a desunião provocada pelo egoísmo (1,5-7.9-11). Chamamento: o povo é convocado a superar o egoísmo e unir-se em vista de um projeto comum, isto é, a reconstrução do Templo, lugar de vivência comunitária da fé (1,8; 2,4.8). Promessa: se o povo decidir viver a comunhão verdadeira, a roça irá bem e o povo terá paz (2,15-19).

Não se pense, porém, que a reconstrução do Templo era importante em si mesma. A grande questão que está por trás da profecia de Ageu é o refazimento da comunhão do povo e o cuidado para com os pobres. Longe do Templo, o povo facilmente se esqueceria da exigência fundamental de Deus: a prática da justiça que, na Bíblia, significa assegurar a dignidade e o direito dos pobres (Am 5,21-24; Is 1,15-17; 10,1-2; Jr 22,3). Reconstruir o Templo é refazer a vida longe do egoísmo que atrofia os relacionamentos e adoece a sociedade.

Reconstruir o Templo é reatar a comunhão com a vida e com o Deus da vida, com vistas a encontrar força e inspiração para lutar pela justiça para todos, mas especialmente e sobretudo para os empobrecidos, aqueles que Jesus chama de “meus irmãos mais pequeninos” (Mt 25,40).


[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

MAIS DOS RICOS, MENOS DOS POBRES




Frei Betto

         O Planalto anuncia a reforma tributária. No Brasil, entre várias distorções, destaca-se o fato de o governo tributar pesadamente o consumo e a produção, quando deveria arrecadar mais da renda. Vigora hoje o imposto regressivo - quem é mais pobre e ganha menos paga, proporcionalmente, mais impostos que os mais ricos.
         A tributação deveria ser progressiva – cobrar mais impostos sobre renda e patrimônio, e isentar quem ganha até R$ 4 mil. Assim, os 206 bilionários brasileiros contribuiriam mais para financiar os serviços públicos. Na tributação regressiva recolhem-se mais recursos nos impostos sobre consumo de bens (sabão, arroz, liquidificador etc.) e serviços (luz, água, lanchonete etc.). Os impostos embutidos em bens e serviços são pagos por toda a população, sem distinção de poder aquisitivo.  A faxineira e o banqueiro pagam o mesmo por um quilo de batatas. Ocorre que o imposto embutido no preço da batata é proporcionalmente maior em relação à renda do pobre. Ora, como os mais pobres consomem parcela maior de sua renda, assim acabam contribuindo relativamente mais para saciar a voracidade do Leão.
         Por que o Brasil, ao contrário de países desenvolvidos, adota o imposto regressivo? Além de o governo estar sob o poder dos ricos, a tributação sobre produtos e serviços é mais fácil de ser arrecadada. Se houvesse imposto progressivo, isto é, tributação sobre a renda de pessoas físicas, a arrecadação seria bem maior. E a redução dos impostos sobre bens e serviços viria barateá-los e aquecer o mercado, inclusive aumentar a geração de empregos. Essa tributação indireta, via produtos e serviços, favorece as desonerações fiscais, que sempre beneficiam os mais ricos, como a indústria automobilística.
         Como sugere o economista Rodrigo de Losso, é preciso corrigir a base de cálculo sobre a qual se aplicam a alíquotas do imposto de renda. Como os salários são corrigidos anualmente, tendo em conta a inflação do ano anterior, a atual correção pela inflação faz com que pessoas que estavam isentas passem a pagar imposto, o que aumenta a arrecadação, pois quando os salários são corrigidos isso não significa que os trabalhadores passaram a ganhar mais em termos reais. 
          Também os dividendos (a parte do lucro da empresa repartida entre os acionistas) recebidos por pessoas físicas deveriam ser tributados, o que poderia aumentar a arrecadação em até R$ 60 bilhões. Apenas dois países não cobram este tributo: Brasil e Estônia. Hoje, as isenções de dividendos beneficiam 2,1 milhões de pessoas, dentre elas as 20,9 mil mais ricas do Brasil (0,01% da população), que pagam de imposto 1,56% de sua renda total, uma vez que boa parcela dessa renda vem de dividendos e é isenta de imposto.
Ao tributar dividendos, as empresas seriam estimuladas a reparti-los menos com seus acionistas, e a fazer mais investimentos e gerar mais empregos. Em suma, a reforma tributária precisa reduzir os impostos indiretos e aumentar o imposto de renda de pessoas jurídicas. 
         Segundo o economista Róber Iturriet Avila, o Brasil já teve uma tributação mais progressiva. Porém, desde a ditadura as alíquotas máximas de imposto de renda, que no passado chegaram a 65%, foram reduzidas até o patamar atual de 27,5%. Na Alemanha a alíquota chega a 45%; e na Suécia, 56,7%.
         Atualmente, 51,3% dos impostos recolhidos nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) têm origem no consumo de bens e serviços; 25% na folha de salário; 18,1% na renda; 3,9% na propriedade; e 1,7% em demais impostos. Na Dinamarca e nos EUA, por exemplo, metade da arrecadação vem de impostos sobre a renda e lucros. No Peru, Chile e Colômbia tais tributos representam, respectivamente, 39,9%, 35,8% e 33,5% da arrecadação.
         No Brasil, os impostos sobre patrimônio compõem apenas 3,9% da carga tributária. No Reino Unido, 12,3%; na Colômbia, 10,6%; e na Argentina, 9,2%. Os tributos que nosso país, quinto maior do mundo em extensão, recolhe sobre áreas rurais representam apenas 0,06% da arrecadação. Nos EUA e Canadá, 5%; no Chile, 4,5%; no Uruguai, 6%.
         A tributação sobre heranças é também muito baixa no Brasil. Representa apenas 0,2% da arrecadação, e a alíquota varia por estado, mas a média é de 4%. No Reino Unido é de 40%; nos EUA, 29%; no Chile, 13%.
         Até 2030 estima-se que a população brasileira será 10% maior que hoje. Como os gastos públicos estarão congelados e tendem a aumentar os gastos previdenciários, devido o envelhecimento da população, os demais serviços públicos, como saúde e educação, terão que ser reduzidos necessariamente.
         O Brasil está entre os países com maiores desigualdades do mundo, por tributar proporcionalmente mais os pobres e menos os ricos. Como os dados comprovam que a elite brasileira paga menos impostos que a classe média e a população de baixa renda, é preciso que haja muita pressão para que ocorram mudanças em nosso sistema tributário e ele se torne progressivo.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.
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terça-feira, 12 de novembro de 2019

“A IGREJA E OS POBRES”





por Marcelo Barros

Neste domingo, 17 de novembro, a Igreja Católica celebrará pela 3ª vez o Dia Mundial dos Pobres, proposta do papa Francisco para tornar os pobres mais visíveis e criar um ambiente no qual eles sejam vistos como pessoas e mais ainda como irmãos e companheiros na luta pela Vida. Para o papa, não se trata apenas de um “dia de combate à pobreza”. Isso a ONU já tem e devemos colaborar com essa luta. Na sociedade, é essencial  uma ação estrutural contra as raízes da pobreza. No entanto, faz parte da fé cristã valorizar os/as pobres como pessoas e revelar a presença divina nelas. A Igreja deve se revelar próxima e solidária a todas as vítimas da pobreza injusta. Trata-se de uma presença que favoreça e apoie o protagonismo das comunidades e organizações nas quais os pobres lutam por seus direitos e pelo reconhecimento de sua dignidade humana.

Para esse ano, o papa Francisco escolheu como tema a palavra do salmo 10 (9): “A esperança do pobre jamais será frustrada”. O papa situa o texto na história. Mostra que aquela descrição feita no tempo antigo sobre a realidade do pobre continua em parte atual. Atualmente, quanto mais a sociedade vive em crise social e econômica, mais os ricos aumentam os seus lucros. Geram-se novas escravidões, como a situação trágica dos migrantes clandestinos e refugiados em diversos países do mundo. Cada vez mais, aumenta o número de pessoas que sobrevivem nos lixões da sociedade. Por todo o mundo se multiplicam  as vítimas do tráfico e das drogas.

Essa realidade catastrófica pede mudanças estruturais, mas essas só ocorrerão a partir do protagonismo dos empobrecidos e excluídos da sociedade. Em sua mensagem, o papa recorda o que já havia escrito na exortação apostólica “A alegria do Evangelho” (Evangelii Gaudium): “o cuidado e a solidariedade da Igreja com os/as pobres não é um compromisso externo ou consequência posterior ao anúncio do evangelho, mas, ao contrário é o coração da fé cristã e revela o realismo do projeto divino para o mundo” (EG 183).

Nesses dias, os jornais brasileiros revelaram que, em nossos dias, a desigualdade social no Brasil aumentou como nunca antes. Para quem passa pelas ruas de nossas cidades, nem precisa de pesquisa para constatar a tragédia da realidade social brasileira. A FAO atesta: “Os últimos dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e para a Agricultura (FAO) confirmam: no mundo, cerca de 820 milhões de pessoas passam fome. A tragédia da fome está aumentando em todas as regiões da África (a subalimentação chega a 20%). Também cresce na América Latina e Caribe, que entre 2001 a 2010 tinha conseguido diminuir muito. Na Ásia, mais de 12% da população se encontra subalimentada” (Le Monde Diplomatique Brasil, outubro 2019, p. 17).  

O mais trágico dessa realidade é que a fome não se dá porque falta comida ou por algum acontecimento natural. É consequência do modo como o mundo se organiza. Há poucos dias, no Chile, uma multidão de milhões de pessoas ocupou as ruas e praças das cidades em protesto contra uma política econômica que os escraviza e os maltrata. “Um áudio vazado da primeira- dama do Chile, Cecília Morel  mostra o mundo no qual vivemos, no qual 1% mais rico se mantém protegido do restante do planeta. Embora os manifestantes que vão às ruas protestar sejam seus compatriotas (o povo que votou no seu marido para presidente), na mensagem a uma amiga, Cecília Morel os chama de alienígenas, classifica os protestos de invasão estrangeira e, a contragosto, admite a nova realidade: ‘Vamos ter de diminuir o nosso privilégio e compartilhar mais’ (Carta Capital, 30/10/ 2019, p.14).

Essa expressão da primeira-dama do Chile revela claramente como pensam e se sentem muitos dos senhores do mundo, como Trump, Macri, Bolsonaro e tantos outros. Eles constituem o governo de malfeitores, psicopatas e oportunistas que invadiu nossos países. São eles que se comportam como inimigos da humanidade. Organizam o mundo de forma tão excludente que mais de um bilhão de pessoas sobra. Essa multidão de excluídos são tratados como invasores estranhos no planeta do luxo. É preciso que todas as religiões e tradições espirituais testemunhem que todo ser humano é nosso irmão e que os mais pobres são os preferidos do Amor Divino porque, através deles, Deus revela ao mundo o seu projeto de justiça e amor que transforma o universo. No evangelho, Jesus orou: “Eu te agradeço, Pai, porque escondeste os teus segredos aos sábios e grandes do mundo e os revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25 ss).
 



MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

  


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

BAHIA ACOLHE A SANTA DOS POBRES





Por Frei Betto 

A Bahia, e todo o Brasil, recepcionam a primeira santa genuinamente brasileira, Santa Dulce dos Pobres, como a qualificou o papa Francisco. 

Elevar aos altares uma mulher que dedicou a sua vida aos excluídos é ligar o alarme à consciência de uma sociedade acomodada que, infelizmente, aprendeu a viver com a desigualdade social como se fosse natural. Herança de 350 anos de escravatura, a mais longa das três Américas.

Em 2018, o rendimento da fatia mais rica da população subiu 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Brasileiros que estão no 1% mais rico ganharam 33,8 vezes mais que o total dos 50% mais pobres, segundo dados divulgados pelo IBGE na última quarta-feira (16/10).

Ora, ninguém escolhe ser pobre. Todo pobre foi levado, involuntariamente, à privação de acesso à vida digna. E este direito é central na mensagem de Jesus, que afirmou “vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10,10).

Por isso, ele curou doentes, repartiu pães e peixes, denunciou opressores (Mateus 23) e adotou como símbolo de sua missão o mais elementar e universal alimento humano: o pão, a ponto de proclamar “eu sou o pão da vida”. Ou seja, aquele que veio quebrar as barreiras que instalam a desigualdade e promovem a exclusão.

Irmã Dulce é a santa de todos, porém realçada como aquela que merece veneração e devoção universal por dedicar a sua vida para que outros tivessem vida. 

Ela é exemplo de como devemos imprimir às nossas existências um sentido solidário. E, sobretudo, atacar as causas da pobreza.

Em futuro próximo, se Deus quiser, teremos outro santo nordestino, Dom Helder Camara, que a ditadura militar chamava de “bispo vermelho “. Quando perguntado, em suas viagens ao exterior, o motivo de tal epíteto, ele respondia: “Quando falo dos pobres, todos me chamam de cristão. Quando denuncio as causas da pobreza, me chamam de comunista”.

Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros.


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quinta-feira, 18 de julho de 2019

COMO OS POBRES SUSTENTAM OS RICOS



por Frei Betto

          Em menos de 24 horas a França arrecadou 2 bilhões de euros para reconstrução da Catedral de Notre Dame, na qual fiéis, sacerdotes, bispos e cardeais manifestam a fé de que todos os seres humanos são filhos de Deus e merecem viver com dignidade.  A mesma França que desde 1957, ou seja, após 62 anos de independência de suas colônias na África, cobra delas 85% de suas reservas nacionais.
          São 15 países que pagam um salvo-conduto à França todo ano. Alguns são marcados por destruição, guerras e fome, como Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro Africana, Chade, Congo, República da Guiné e Gabão. Destes, seis figuram entre os mais miseráveis do mundo. 
          Seus governos são obrigados a colocar 60% das suas reservas no Banco da França, e só podem usar 15% ao ano. Caso retirem mais do que isso, devem pagar um ágio de 65% do valor. Ou seja, são penalizados por utilizarem o próprio dinheiro.
          Nas ex-colônias africanas, toda descoberta mineral pertence à França. Todo equipamento e treinamento militares têm de ser franceses, o que mostra quem lucra com as guerras locais. Já morreram mais de 350 milhões de inocentes por causas de guerras causadas pela pobreza naqueles países. 
          Até 2004, o Haiti também tinha de pagar essa mesma taxa  à França. Em 1825, quando a independência do Haiti foi reconhecida, o então presidente haitiano, Jean-Pierre Boyer, assinou um acordo com o rei francês Carlos X, pelo qual a importação de produtos da nação caribenha teriam redução de 50% nas tarifas alfandegárias, e o Haiti pagaria à França, em cinco parcelas, uma indenização no valor de 150 milhões de francos, equivalentes hoje a US$ 21 milhões. 
          Essa quantia seria para compensar os franceses por haverem perdido imóveis, terras e escravos. Caso o governo haitiano não assinasse o tratado, o país continuaria isolado diplomaticamente e ficaria cercado por uma frota de navios de guerra.
          Aquele valor equivalia às receitas anuais do governo haitiano multiplicadas por dez. Portanto, o Haiti teve que recorrer a um empréstimo para pagar a primeira parcela. Tomado de um banco francês... Assim começou formalmente o que se conhece como a “dívida da independência”. O banco francês emprestou 30 milhões de francos, valor da primeira parcela, da qual deduziu 6 milhões de francos em comissões bancárias.
          Com o restante 24 milhões de francos, o Haiti começou a pagar as indenizações. Ou seja, o dinheiro passou direto dos cofres de um banco francês para os cofres do governo francês. E o Haiti ficou devendo 30 milhões de francos ao banco francês, e mais 6 milhões de francos ao governo da França referentes ao valor que faltou da primeira parcela.
          Estabeleceu-se uma espiral absurda de dívidas para pagar uma indenização que continuou alta demais para os cofres do país caribenho, mesmo quando foi reduzida à metade, em 1830. Mais tarde, em 1844, o lado leste da ilha se declararia definitivamente independente do oeste, formando a República Dominicana.
          Desde então, o Haiti teve que pedir grandes empréstimos a bancos americanos, franceses e alemães, com taxas de juros exorbitantes que comprometiam a maior parte das receitas nacionais.
          Finalmente, em 1947, o Haiti terminou de compensar os franceses. Foram 122 anos pagando dívidas desde a independência. E restou ao país a triste realidade de também figurar entre os 20 países mais miseráveis do mundo.
          Notre Dame será reerguida, sem dúvida. E ali a glória de Deus será exaltada. Mas, e aqueles que foram criados à Sua imagem e semelhança, a população das ex-colônias? 
 Frei Betto é escritor, autor do romance histórico “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.
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Artigo originalmente publicado no jornal O Globo.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

ATO FALHO OU DESPREZO PELOS POBRES?




Por Frei Betto

       Ainda é tempo de recordar que, ao discursar no Palácio do Planalto, no dia da posse, Bolsonaro leu o discurso, não falou de improviso. O texto original, distribuído previamente pelo novo governo, continha a afirmação de que investimentos em educação poderiam atenuar as diferenças entre ricos e pobres no Brasil.

       Nosso país é o 9º mais desigual do mundo e o 1º na América Latina neste mesmo ranking. Ano passado, segundo a Oxfam, a parcela de 1% mais rica da população se apropriava de mais de 25% da renda nacional. E a soma da riqueza dos 5% mais ricos era igual à soma da riqueza dos demais 95% da população.

       Entre a população, 80% (ou 165 milhões de pessoas) sobreviviam com uma renda inferior a dois salários mínimos por mês (R$ 1.996). E 0,1% da parcela mais rica concentrava em mãos 48% de toda a riqueza nacional. Além disso, o Brasil é o país mais violento do mundo. Em 2017, foram registrados 63.880 mil assassinatos. A principal causa da violência foi a desigualdade social.

       Eis a versão do texto lido por Bolsonaro: “Pela primeira vez, o Brasil irá priorizar a educação básica, que é a que realmente transforma o presente e o futuro de nossos filhos e netos, diminuindo a desigualdade social”.

       Do alto do parlatório, na Praça dos Três Poderes, ele encerrou seu discurso em “’filhos”. Omitiu a referência à redução da desigualdade social.

       Assessores do presidente, questionados pela mídia, disseram ter sido um lapso. “Ele deve ter pulado, até porque seria bom fazer referência à desigualdade”, tentou explicar o general Heleno. “Não é fácil ler discurso assim. De repente, as letras começam a embaralhar...”, concluiu o militar.

       Ora, Bolsonaro não trai o seu viés ideológico. Sabe ser real a desigualdade social, mas considera concessão ao “marxismo cultural” referir-se a esta realidade. Porque, segundo a lógica dessa ideologia, falar da desigualdade implica querer combatê-la. E para isso é preciso buscar as suas causas. E elas são óbvias: o sistema predatório que torna os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

       Na abertura de Davos, neste ano, a Oxfam noticiou que, em 2018, os mais ricos do mundo tiveram aumento de 12% em suas fortunas, enquanto os mais pobres uma diminuição de 11% em suas rendas.

       Já que não se pretende reduzir a desigualdade social, nem mesmo pela melhoria da educação ou aumento da oferta de emprego (tema também omitido pelo presidente), há que tentar dissimulá-la. Para tanto há vários recursos ideológicos, já que não há milagre que faça desaparecer favelas, pedintes, moradores de rua, corpos caídos nas calçadas, enfim, os 165 milhões de brasileiros que sobrevivem com menos de dois salários mínimos mensais.

       O recurso mais utilizado para naturalizar a pobreza é o religioso: “As coisas são assim porque Deus quer.” Porém, quem vive conforme os preceitos da fé alcança a prosperidade. Basta trabalhar arduamente, deixar de fumar e beber, limitar o número de filhos (de preferência, o homem fazer vasectomia) e, se necessário, praticar o aborto induzido, conforme defende Edir Macedo, cuja Igreja é a favor de sua descriminalização.

       O importante nesse viés ideológico é aceitar que a riqueza é uma bênção divina e não se deve pretender reduzi-la através de políticas que propiciem distribuição de renda. E a pobreza é sinal de maldição...

       O único grande problema é que não se conhece povo que tenha suportado a desigualdade por longo tempo. Há um momento em que a ostentação dos ricos é recebida como ofensa pelos pobres. Então estes descobrem que são maioria, e têm em mãos um poder que, até hoje, nenhuma força bélica foi capaz de superar.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros. 
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sexta-feira, 26 de abril de 2019

SÃO JORGE: OS POBRES MATAM TODO SANTO DIA UM DRAGÃO





por leonardo boff

Tempos atrás escrevi dois estudos sobre São Jorge, um histórico e outro interpretativo. A situação atual da maioria do povo empobrecido e humilhado tem que matar um dragão cada dia para poder sobreviver. Vale invocar a força e a coragem de São Jorge.Por isso atualizo o escrito anteriormente publicado e válido especialmente para o atual momento.
A história de São Jorge e o combate feroz com o dragão são dados de grande significação. Vamos tentar interpretar sua figura, o dragão e a sua luta.Veremos que tem a ver com a existência de cada ser humano, especialmente dos que precisam lutar muito para viver. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.
No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de  sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência”.
Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.
Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia.
O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente ao consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e se impor na vida.
Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano, de cada um de nós.  O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes o dragão aparece envolvendo o corpo do Santo, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade entre o ser humano e São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão.
A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego,da consciência, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.
Diz o psicanalista Neumann:”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantem domesticado e integrado como seu lado de sombra.
Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar, deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.
A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi, em Luther King e no Papa Francisco.
Os cariocas tem grande veneração por São Jorge tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”.Por isso há um movimento para faze-lo o segundo patrono do Rio de Janeiro.
O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso “vencedor” das adversidades. Ai São Jorge representa o santo ideal. Numa famosa  novela “Salve Jorge”ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.
Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele  ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.
Leonardo Boff coordenou a publicação da obra completa de C. G. Jung junto à Editora Vozes.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A PARTIR DOS POBRES, IGREJA PARA TODOS



Por Marcelo Barros

Em diversos países da América Latina, o governo imperial dos Estados Unidos continua a financiar os golpes nossos de cada dia. O Comitê de Direitos Humanos da ONU acaba de reconhecer Lula como prisioneiro político e exige que a justiça brasileira respeite seus direitos sociais e políticos. No Brasil, uma campanha eleitoral confusa e pouco representativa do que o povo deseja tenta mascarar a realidade.
Tudo isso nos faz lembrar que, há 50 anos, o Brasil e vários países do continente sofriam ditaduras militares. Como ainda hoje, a maioria dos governantes, ao invés de regular as relações dos diversos grupos sociais, tinha como tarefa controlar os pobres e garantir a manutenção da escandalosa desigualdade social.
A novidade foi que naquele 68, em vários lugares do mundo,  explodiam revoltas e movimentos de jovens. Na América Latina, os bispos católicos do continente se reuniram na cidade de Medelllín (Colômbia) para a sua segunda conferência geral.  A conferência de Medellín aconteceu há exatamente 50 anos, de 24 de agosto a 06 de setembro de 1968. Teve como tema “A missão da Igreja no processo de transformação social e política da América Latina”. Pela primeira vez, um papa atravessou o Atlântico e Paulo VI abriu a conferência de Medellín. Na época, Dom Helder Camara e depois Dom Pedro Casaldáliga afirmaram: “Para a América Latina, Medellín foi um verdadeiro Pentecostes”. Significou o nascimento de uma Igreja Católica com cara latino-americana. O próprio tema deixava claro que a missão da Igreja não é apenas religiosa, nem principalmente cultual. Em Medellín, os bispos nos ensinaram que a missão da Igreja é testemunhar e ensaiar no mundo o reino de Deus, isso é, o projeto divino de justiça e de paz. Entre muitas afirmações e propostas importantes, em Medellín, os bispos concluíram que a Igreja deve ser pobre, missionária e pascal, ou seja, como diz o papa Francisco “em saída”. Sua missão é servir como libertadora “de toda a humanidade e de cada ser humano por inteiro” (Cf. Conclusões de Medellin, 5, 15).
A partir de Medellín, surgiu no continente um novo modo de ser Igreja que se expressou nas comunidades eclesiais de base, nos grupos bíblicos, nas pastorais sociais e na inserção de uma parte das Igrejas na caminhada da libertação. De 1968 para cá, o mundo mudou muito. O Império norte-americano conseguiu invadir vários países. Ele provocou várias guerras, vendeu e usou suas armas. Matou uma boa quantidade de pobres, africanos, asiáticos e latino-americanos, considerados descartáveis.
Quanto à Igreja Católica, ela sobrevive a várias crises e escândalos de diversos tipos. No entanto, a traição mais séria dos eclesiásticos mais tradicionais não é em matéria de moral sexual. É questão de humanidade. O que está vindo à tona como omissão, ou conivência culpável de autoridades religiosas atesta uma insensibilidade em relação a vítimas inocentes. No entanto, revela um desvio mais profundo e radical: o afastamento do caminho do evangelho de Jesus. Esse não se interessou em fazer uma religião ou em deixar no mundo uma estrutura de poder que se auto-protegeria. Conforme o evangelho de Lucas, seu projeto, proclamado, em seu primeiro discurso público foi: “O sopro (Espírito) de Deus veio sobre mim e me enviou para trazer a libertação dos oprimidos, curar os doentes e  proclamar um ano de graça (jubileu) de libertação para todos” (Lc 4, 16- 21).
No decorrer da história, os eclesiásticos reinterpretaram esse texto em um sentido espiritualizador. A cura se refere aos problemas interiores e a libertação é a salvação da alma. Aqui, o mundo pode continuar dominado pelos senhores do dinheiro e do poder. Infelizmente, ainda há eclesiásticos que, enquanto podem, lhes são muito próximos. Em séculos passados, muitos bispos e padres davam assistência espiritual aos senhores de escravos e, de vez em quando, eles mesmos recebiam alguns escravos como presentes. Essa forma de interpretar a fé e a espiritualidade se mantém muito forte seja no Congresso Nacional, onde está bem representada pela chamada “bancada evangélica”, como pelo comércio religioso, que cada dia é mais lucrativo. Agora, através dos 50 anos da conferência de Medellín e das crises pelas quais passa a Igreja, os cristãos e cristãs são chamadas a “ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas” e “voltar ao seu primeiro amor” (Ap 2, 5- 7). Na Bíblia, o primeiro amor do povo foi o Êxodo, onde conheceu intimamente a Deus, em meio à caminhada da libertação. É preciso voltar a essa mística da caminhada libertadora. 
Quando a Igreja passa a olhar apenas para si mesma e se preocupa apenas com suas atividades internas, se torna idólatra. Deixa de ser sinal de Jesus Cristo e apresenta uma imagem mesquinha e indigna de Deus. Ainda bem que, nas periferias, com ou sem apoio oficial, as comunidades e pastorais proféticas continuam obedecendo a voz do Espírito que sopra onde quer. Como disse Paulo, “onde houver espírito de liberdade, aí está o Espírito de Deus” (2 Cor 3, 17).
 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.