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sábado, 3 de abril de 2021

FOME E SEMANA SANTA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(02/04/2021)

 

     Para desconcerto geral, há um virus pior do que o COVID, infectando o corpo e a alma desta nossa "pátria amada Brasil". Suas causas são bem conhecidas, seus efeitos, bem visíveis para quem tem olhos pra ver e mente pra pensar. A fome.

     Nestes dias, nós cristãos estamos revivendo a Semana Santa. Somos convidados a contemplar a Cruz do Calvário. Considerando que "completo em minha carne o que faltou à sua Paixão" cf. Col. 1,24 ss, acrescentaremos às 7 Palavras de Jesus na Cruz, mais uma: "tenho fome". Sim. A fome Dele hoje está na fome de todos os famintos, desamparados e humilhados.

     Reflitamos a partir de um fato real. Há poucos dias, recebi um s.o.s. de moradores de Bola na Rede:"padre, arranje umas cestas básicas, pois já começamos a vender os objetos da nossa casa, para comprar comida". No primeiro momento, uma pessoa amiga e sensível fez doação de grande quantidade de um alimento saudável e nutritivo: macaxeira. No dia seguinte, a coordenadora da distribuição, irmã de Fé e Luta, me mandou uma mensagem, via wapp: "frei, nunca vi o povo tão feliz por causa de macaxeira". Confesso que senti uma alegria triste. Alegria, por razões óbvias, tristeza, por razões subjacentes.

     Quando um povo vive tamanha felicidade por 3 kg. de macaxeira (o que coube a cada família) é sintoma de que alguma coisa vai mal. Me senti desafiado a decifrar enigmas: o que é a fome? A que leva a dor da fome?

    Lembrei um pensamento do poeta latino Virgílio, aprendido no Seminário: "malesuada fames", a fome é má conselheira. Não! Ela é péssima conselheira. E eu que pensava diferente, curvo-me a esta verdade: ela, a fome não produz sentimento de justa revolta, gerador

 de mudanças sociais, ao contrário, produz passividade e subserviência. Se hoje alguns gritam de felicidade por conta de 3 kg. de macaxeira, amanhã, por motivos semelhantes, farão fila pra beijar a mão do opressor. Não tenho mais dúvida, a fome é arma do diabo. E como o diabo não precisa andar armado, ele a entrega aos opressores deste mundo. O Sistema Econômico Neoliberal  a utiliza com o fim de submeter os pobres ao mais vil e absoluto controle: o que obriga a escolher entre viver ou morrer.

      Daí me irmanei com outros personagens históricos de outros tempos e lugares deste mundo desigual. Mahatma Gandhy, um dos homens mais santos que este mundo já conheceu, profundamente religioso. Um dia ele foi interpelado por Rabindranath Tagore, maior poeta da Índia, prêmio Nobel de literatura. Este questionou sua pregação obsessiva e monocórdia contra a fome de seus compatriotas. Convidou-o a olhar também para o pássaro que canta, ao romper da aurora, sem perguntar por alimento. Gandhy respondeu, admitindo, democraticamente, que outros se ocupassem em cuidar de pássaros debilitados, ou de cantar a poesia da vida, mas "não se pode esperar que a salvação de um povo venha da arte, quando milhões estão a precisar  apenas de uma coisa: comida. Se, em minha volta o povo definha de fome, só me é permitida uma ocupação: alimentá-los". E acrescentou um dado da sua fé: "a um povo que sofre de fome e desemprego, Deus só pode aparecer de uma forma: como trabalho e garantia de comida".

      Não sendo cristão, Gandhy nos chama atenção para um Deus ecumênico. Ainda que sejam diversos os caminhos da Fé, para todos vale o mesmo princípio: "se alguém disser que ama a Deus, a quem não vê e não ama o irmão, a quem vê, é mentiroso" Cf.1 Jo.4, 20-21.

    Nestes dias da Semana Santa, ao acompanhar os passos da Via Sacra, não choremos por Ele ("não chorem por mim, mas por vocês e seus filhos" Jo. 28,48.) Ele está na glória do Pai. Celebremos sua Paixão e Ressurreição e, logo a seguir, voltemos para os caminhos onde Ele se encontra desfigurado em qualquer pessoa torturada pela maldita fome. Jesus não disse "teu irmão teve fome...." mas sim "eu tive fome e me deste de comer" Mt.25,35. Amém.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

quarta-feira, 31 de março de 2021

SEMANA SANTA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(30/03/2021)

 

     Nossa última Reflexão provocou algumas fortes reações de leitores e leitoras, algo como "doeu na consciência", reações que, por sua vez, sugerem um feed-back. Eis algumas: "Seu artigo me tocou. Sempre fui contra a neutralidade.  Lavar as mãos é a pior alternativa" - "Desculpe-me a expressão, mas foi um soco no estômago de muitos que ficam encima do muro". - "Que palavras duras! Espero que cutuquem a minha consciência, despertando culpa, mas também compaixão com minhas limitações. Carrego a culpa do mundo nas costas, e sinto que isso às vezes me paralisa."

 

     O autor confessa que é o primeiro a entrar na fila dos penitentes: "mea culpa, mea culpa." Não foi seu intento fazer sermão de justo a pecadores, foi, antes, alertar as consciências, a começar pela que Deus lhe deu.

 

     Quem é que, algum dia, já não "lavou as mãos na bacia de Pilatos, expulsando a voz da consciência, encenando o velho ritual de desculpas eloquentes: "sou inocente do sangue deste justo"! Mt.27,24.

 

     Dito isto, iniciemos nosso ato penitencial. Tomemos assento na Última Ceia de Jesus com os apóstolos. Se quisermos imaginar o cenário original, contemplemos a pintura de Leonardo da Vinci. Ele retrata a reação dos apóstolos no exato momento em que Jesus anuncia "um de vocês vai me trair".

 

     Que tipo de gente se encontra ali diante do Mestre? - Um grupo de homens medrosos e covardes. Jesus não lhes poupa advertência: "na hora mais difícil, vocês todos vão me abandonar".

 

     No entanto, são eles que estão ali, convidados a repartir o pão da Páscoa. Há só um que não pode ficar. É aquele que se esconde na neutralidade, entre o Cenáculo e o Sinédrio, entre o beijo disfarçado da noite anterior e o não querer faltar a esta Ceia Pascal. Jesus lhe sussurra: "o que tens a fazer, faze-o agora", uma maneira menos dura de dizer: "retira-te"! Judas sai. Os demais se refazem. Tem início a Ceia.

 

     É com este material humano que o Filho de Deus conta. Ele não se fez acompanhar por uma legião de anjos ou por uma milícia de super-homens.  Mas escolheu os que encontrou pelo caminho, de coração aberto, pés livres, mãos desatadas, intenção pura e coração de pobre. Com estes usará de infinita paciência, até convertê-los em novos homens, de pescadores de peixes em  pescadores de almas, de amedrontados em  apaixonados. Numa luta entre forças desiguais, só se pode confiar em combatentes tomados de paixão.

 

     Deprimidos pela crucifixão do seu Mestre, os apóstolos desertaram. E não sairiam de sua letargia, se não fossem sacudidos por uma Força Superior. Esta irrompeu sobre eles em forma de fogo ardente, manifestação do Espírito de Deus. Estas duas chamas acesas, a da paixão e do Espírito os conduzirão até o fim,  até as últimas consequências. O legado do Mestre é uma Semente a que chamam Boa Notícia, e que traz no seu interior uma promessa: "tornar-se-á uma árvore frondosa onde os pássaros virão fazer seus ninhos" Mt.13,32.

 

     A paixão é comum a todos eles, o que não significa que as forças são niveladas. Paulo se mostra extremamente destemido. Pedro fraqueja algumas vezes. Tiago se antecipa aos demais no martírio. André,  Filipe e os outros se espalham no anonimato. Cada qual com seu carisma e talento. Ao final, nenhum recuou diante do martírio.

 

     Esta é a Semente que chegou às nossas mãos. Ela se nutre da Graça e cresce pelos nossos cuidados. Seus frutos, seus êxitos não necessitam de celebrações triunfalistas, mas sim de  reencontros na Ceia Pascal. Aí reviveremos a memória do Senhor Ressuscitado, e nos revestiremos com a armadura  da Paixão e da Fé.

 

     "O Senhor me disse: basta-te a minha graça, pois é na tua fraqueza que meu poder se manifesta totalmente. É por isso que me animo nas tribulações, nas adversidades, nas perseguições pela Causa do Cristo, pois quando pareço fraco, aí é que sou forte" Cf.2Cor.9-19.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEXTA-FEIRA SANTA: JESUS CONTINUA CRUCIFICADO NOS SOFREDORES E SOFREDORAS DE HOJE




Por Leonardo Boff


Neste tempo de coronavírus que está produzindo medo e trazendo a morte a muita gente no mundo inteiro, a celebração da Sexta-feira Santa ganha um significado especial. Há Alguém que também sofreu e, em meio a dores terríveis, foi crucificado, Jesus de Nazaré. Sabemos que entre todos os sofredores se estabelece um misterioso laço de solidariedade. O Crucificado, embora pela ressurreição tenha sido feito o homem novo e o Cristo cósmico, continua, por isso mesmo, padecendo e sendo crucificado em solidariedade com todos os crucificados da história. E assim será hoje até o final dos tempos.
Jesus não morreu porque todos morrem. Ele foi assassinado em consequência de um duplo processo judicial, um pela autoridade política romana e outro pela autoridade religiosa judaica. Seu assassinato judicial se deveu à sua mensagem do Reino de Deus que implicava uma revolução absoluta de todas as relações, à imagem nova de Deus como “Paizinho”(Abba) cheio de misericórdia, à liberdade que pregou e viveu face às doutrinas e tradições que pesavam sobre as costas do povo, ao seu amor incondicional, especialmente aos pobres e doentes aos quais se compadecia e sanava e, finalmente, por se apresentar como o Filho de Deus. Essas atitudes rompiam com o status quo político-religioso da época. Decidiram eliminá-lo.
Ele morreu não simplesmente porque Deus assim quis, o que seria contraditório à sua imagem amorosa que anunciou. O que Deus quis, isto sim, foi sua fidelidade à mensagem do Reino e a Ele, mesmo que implicasse a morte. A morte resultou desta fidelidade de Jesus diante de seu Pai e de sua causa, o Reino, fidelidade que é um dos maiores valores de uma pessoa.
Aqueles que o crucificaram não podiam definir o sentido desta condenação. O Crucificado mesmo definiu o seu sentido: uma expressão de extremo amor e de entrega sem resto para alcançar a reconciliação e o perdão de  todos aqueles que o crucificaram e como solidariedade para com todos os crucificados da história, em especial pelos que são inocentemente crucificados. É o caminho da libertação e da salvação humana e divina.
Para que essa morte fosse realmente morte, como última solidão humana, ele passou pela tentação mais terrível que alguém pode passar: a tentação do desespero. Isso se deriva de seu grito na cruz. O embate agora não é com as autoridades que o condenaram. É com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado como misericordioso e cheio da bondade de uma Mãe, o Pai, cujo projeto, o Reino, que ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora, no momento supremo da cruz, parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
É por volta das três horas da tarde, momentos antes do desenlace final. Jesus grita com voz forte: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações assustadoras que configuram a mais terrível tentação, pior do que aquelas três feitas por Satanás no deserto.
Foi absurda a minha fidelidade ao Pai? Sem sentido a luta sustentada pelo Reino, a grande causa de Deus? Foram vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo capital que sofri e a crucificação que estou padecendo?
Jesus encontra-se nu, impotente, totalmente vazio diante do Pai que se cala. Esse silêncio revela todo o seu Mistério. Jesus não tem nada a que se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvaiu. Apesar de o chão desaparecer debaixo de seus pés, ele continua a confiar no Pai. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!” No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança e segurança. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de sua absoluta desesperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta terrível tentação. Mas esta tentação lhe propiciou um despojamento total de si mesmo, um estar nu e um absoluto vazio. Só assim a morte é real completa, no dizer do Credo um “descer aos infernos” da existência, sem que ninguém que possa acompanhar. A partir de agora ninguém mais estará só na morte. Ele estará conosco porque  experimentou a  solidão deste “inferno” do Credo.
As últimas palavras de Jesus mostram a sua entrega, não resignada mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)! “E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,37).
Este total vazio é pré-condição para uma total plenitude. Ela veio por sua ressurreição. Esta não é a reanimação de um cadáver,como a de Lázaro, mas a irrupção do homem novo (novissimus Adam:2Cor 15,45), cujas virtualidades latentes implodiram e explodiram em plena realização e floração.
Agora o Crucificado é o Ressuscitado, presente em todas as coisas, o Cristo cósmico das epístolas de São Paulo e de Teilhard de Chardin. Mas sua ressurreição ainda não se completou. Enquanto seus irmãos e irmãs continuam crucificados, a plenitude da ressurreição está em processo e ainda tem futuro. Como ensina São Paulo, “ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs” (Rm 8,29; 2Cor15,20).Por isso mesmo, com sua presença de Ressuscitado, ele acompanha a via-sacra de dores de seus irmãos e irmãos, humilhados e ofendidos.
Ele está sendo crucificado nos milhões que passam fome a cada dia nas favelas, naqueles submetidos a condições inumanas de vida e de trabalho. Crucificado naqueles que nas UTIs estão lutando, sem ar, contra o coronavírus. Crucificado nos marginalizados dos campos e das cidades, nos discriminados por serem negros, indígenas, qulombolas, pobres e por serem de outra opção sexual.
Continua crucificado nos perseguidos por causa da sede de justiça nos fundos de nosso país, nos que jogam suas vidas na defesa da dignidade humana, especialmente dos feitos invisíveis. Crucificado em todos os que lutam, sem sucesso imediato, contra sistemas que arrancam o sangue dos trabalhadores, delapidam a natureza e produzem profundas chagas no corpo da Mãe Terra. Não há estações suficientes nesta via dolorosa que possam retratar todas as formas pelas quais o Crucificado/Ressuscitado continua sendo perseguido, aprisionado, torturado e condenado.
Mas nenhum destes está só. Ele caminha, sofre e ressuscita em todos estes seus companheiros de tribulação e de esperança. Cada vitória da justiça, da solidariedade e do amor são bens do Reino que já está  se realizando na história, Reino, do qual eles serão os primeiros herdeiros.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu: Paixão de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2007.


SEXTA-FEIRA SANTA: UMA REFLEXÃO




por Kinno Cerqueira [1]

Hoje é Sexta-feira Santa, dia em que as igrejas fazem memória da Paixão de Jesus, quer dizer, de seu “sofrimento” cujo ponto alto é a crucifixão. Num dia como hoje, ganham relevo dois gestos religiosos: gratidão a Deus por Jesus haver morrido em nosso lugar e petição pelo perdão de nossos pecados. A meu ver, tais gestos revelam uma imagem/concepção de Deus que habita a mentalidade cristã.

O primeiro gesto é alimentado por uma liturgia na qual quase tudo gira em torno do assassinato de Jesus, comumente explicado como sendo o resultado de Deus haver enviado seu filho Jesus Cristo para morrer em nosso lugar, levando sobre si o martírio que se abateria sobre nós em virtude dos nossos pecados. O segundo gesto, intimamente vinculado ao primeiro, deita suas raízes na compreensão de que o assassinato de Jesus lhe outorgou o status de aliviador de consciências e garantidor de vida eterna para quem nele deposita a sua fé.

Ambos os gestos, porém, encaminham-nos para uma questão mais profunda, que é aquela que nos interroga pela imagem de Deus que subjaz a tudo isso. Em linhas gerais, podemos ver aí a imagem de um Deus sádico e perverso, cujos caprichos chegam ao ponto de exigir um assassinato bárbaro como condição para refazer as pazes com a humanidade. Tal imagem de Deus não poderia gerar outro cristianismo que não fosse o do tipo sacrificial, sádico e perverso, cujos reflexos lesam e alienam todas as dimensões da vida humana.

A vida de Jesus, quando lida atentamente, revela-nos uma perspectiva diametralmente oposta à assinalada acima. Jesus, no mundo, assumiu a missão de ensinar-nos a viver. Com suas opções de vida e suas palavras, anunciou não um outro mundo, mas um mundo outro, quer dizer, fez de sua vida um testemunho incontestável de que é possível vivermos irmanados num projeto de “amor cósmico” que ele chamou de Reino de Deus.

Como o projeto de Jesus traria como consequência a dissolução de todos os poderes opressores, quer religiosos quer políticos, chefes da religião de seu país uniram-se ao império para pôr um fim à sua vida. Jesus sabia que sua maneira de viver determinaria seu modo de morrer. A cruz era o destino comum de sonhadores! Sua morte não se explica a partir de Deus, mas a partir de sua opção pessoal de assumir o amor como princípio vida até as últimas consequências.

A vida de Jesus revela uma genuína imagem de Deus: o Deus crucificado com os crucificados, indignado com as injustiças e partidário inarredável do amor. Esse Deus não está nos altares, mas nos corpos abandonados e hostilizados, nas vozes fracas e cansadas de tanto sofrer, como também nos corações de todas as pessoas que, assim como Jesus, fazem de suas vidas testemunho do amor que abraça o cosmos. O Deus revelado na vida de Jesus pede de nós somente um sacrifício: fazer morrer o egoísmo para que o amor nasça como uma flor em tempo primaveril.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

COVID 19 - SEXTA-FEIRA SANTA - DÉCIMA SEGUNDA REFLEXÃO QUARESMAL




Por  FREI ALOÍSIO FRAGOSO

    Nossa reflexão hoje coincide com a décima segunda estação da Via Sacra: "JESUS MORRE NA CRUZ".

    Faz algum tempo, tive oportunidade de conhecer uma Via-Sacra de grande beleza artística e admirável originalidade. Cada uma de suas 15 estações me impressionou e me convidou a ficar ali, contemplando uma por uma, horas seguidas. No entanto, uma delas me chamou a atenção especialmente; foi a décima segunda. Nela o braço levantado e o rosto sereno do Cristo Crucificado irradiavam dor e paz, sofrimento e ternura. Jesus sorria na direção de uma criancinha, recém nascida, assentada em um dos braços da Cruz e chorando desconsoladamente. Era uma cena carregada de contradição: quem morre está sorrindo, quem nasce está chorando.Na verdade, ali estava bem representado o grande Mistério da Redenção. Na morte de Jesus já está contida a ressurreição (e Ele sorri), enquanto a vida nova da criancinha já está dando o primeiro passo na direção da morte (e ela chora). E ali, na Cruz, os dois mistérios se encontram e se unificam em um só: o AMOR. Deste amor brota a Vida, seja do útero da mãe, seja do túmulo sepulcral.

    Este Mistério também nos faz compreender uma das verdades fundamentais da nossa Fé. Somos pecadores, sim, mas pecadores agraciados, redimidos, amados. "Cristo se manifestou uma vez por todas, abolindo o pecado pelo sacrifício de si mesmo" Heb. 9, 26. Isso não quer dizer que foi necessário o sangue de Jesus para que o Pai nos perdoasse, como se houvesse uma troca de sangue por perdão, perdão por sangue. Se assim fosse, seríamos pecadores neuróticos, deprimidos, "matamos um Deus".

    O que aconteceu foi uma prova suprema de fidelidade. Jesus foi fiel à  sua missão, à vontade do Pai,  até às últimas consequências, e isso provocou a sua morte, pois aos olhos dos seus adversários, ou morria Ele ou perecia a  nação inteira ("é preciso que Ele morra para que não pereça toda a nação" Jo.11, 50.

    Portanto, os sofrimentos de Jesus devem ser entendidos com a prova máxima do Amor.

    Como não ver estes antigos acontecimentos reproduzidos nos dias de hoje! Como não enxergar a figura dos antigos doutores da lei, com o seu argumento de que "um só tem que ser sacrificado..."  perpetuando-se em certos grupos das elites sociais, que foram às ruas, em seus veículos blindados e carregando símbolos patrióticos! Eles fizeram um strip-tease ideológico. O Capitalismo ficou nu e mostrou suas ocultas intenções: exigir dos governos o direito de continuar explorando a massa dos trabalhadores. Milhões morrerão? Tudo bem, isso está previsto dentro das regras do jogo capitalista. Há um exército de outros esperando na fila para substituí-los. Não é o Brasil que não pode parar, mas sim esta máquina de moer gente, chamada Capitalismo, onde são produzidos os excedentes para engordar os depósitos bancários dos patrões na Suíça ou seja onde for.

    No entanto, hoje é Sexta-Feira Santa, dia da Cruz e do Crucificado. Não vale para todos a súplica de Jesus: "Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem"? Certamente. Ninguém deve ser excluído do perdão. Mas há uma diferença entre perdoar e desculpar. Jesus nunca retirou a culpa do pecador, nem deixou de condicionar o perdão à penitência ("Não tornes a pecar"). Estes grupos mencionados sabem bem o que estão fazendo  e porque estão fazendo. O perdão será inútil se não gerar neles o arrependimento e a conversão. Com certeza esta mudança estrutural faz parte do sonho dos que dizem: "o mundo nunca mais será o mesmo".

    Que o sangue de Jesus, jorrando com o sangue de todos os mártires da Justiça e do Amor e o sangue das vítimas do coronavirus, chegue a Deus, com a nossa dolorosa súplica: "Ó Pai do Céu, vinde em nosso socorro!". Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

BAHIA ACOLHE A SANTA DOS POBRES





Por Frei Betto 

A Bahia, e todo o Brasil, recepcionam a primeira santa genuinamente brasileira, Santa Dulce dos Pobres, como a qualificou o papa Francisco. 

Elevar aos altares uma mulher que dedicou a sua vida aos excluídos é ligar o alarme à consciência de uma sociedade acomodada que, infelizmente, aprendeu a viver com a desigualdade social como se fosse natural. Herança de 350 anos de escravatura, a mais longa das três Américas.

Em 2018, o rendimento da fatia mais rica da população subiu 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Brasileiros que estão no 1% mais rico ganharam 33,8 vezes mais que o total dos 50% mais pobres, segundo dados divulgados pelo IBGE na última quarta-feira (16/10).

Ora, ninguém escolhe ser pobre. Todo pobre foi levado, involuntariamente, à privação de acesso à vida digna. E este direito é central na mensagem de Jesus, que afirmou “vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10,10).

Por isso, ele curou doentes, repartiu pães e peixes, denunciou opressores (Mateus 23) e adotou como símbolo de sua missão o mais elementar e universal alimento humano: o pão, a ponto de proclamar “eu sou o pão da vida”. Ou seja, aquele que veio quebrar as barreiras que instalam a desigualdade e promovem a exclusão.

Irmã Dulce é a santa de todos, porém realçada como aquela que merece veneração e devoção universal por dedicar a sua vida para que outros tivessem vida. 

Ela é exemplo de como devemos imprimir às nossas existências um sentido solidário. E, sobretudo, atacar as causas da pobreza.

Em futuro próximo, se Deus quiser, teremos outro santo nordestino, Dom Helder Camara, que a ditadura militar chamava de “bispo vermelho “. Quando perguntado, em suas viagens ao exterior, o motivo de tal epíteto, ele respondia: “Quando falo dos pobres, todos me chamam de cristão. Quando denuncio as causas da pobreza, me chamam de comunista”.

Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros.


Copyright 2019 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
  
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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

IRMÃ DULCE, A SANTA BAIANA



 por  Maria Clara Lucchetti Bingemer


O Brasil recebeu da Igreja liderada pelo Papa Francisco um presente notável. Foi canonizada a primeira santa brasileira, Irmã Dulce, o anjo bom da Bahia.

Maria Rita Lopes Pontes – que após entrar na vida religiosa, passou a se chamar Irmã Dulce – é uma baiana que se distinguiu pelo amor caritativo e gratuito pelos pobres e desvalidos de todo tipo.  Essa paixão pelos menores e necessitados data da sua juventude e se encontra na raiz de sua consagração religiosa. Desde os treze anos de idade, depois de visitar áreas carentes, acompanhada por uma tia, ela começou a manifestar o desejo de se dedicar à vida religiosa. Começou a ajudar mendigos, enfermos e desvalidos.

            Com o consentimento da família e o apoio de sua irmã, Dulcinha, a menina foi transformando a casa da família, na rua da Independência, 61, bairro de Nazaré, num centro de atendimento a pessoas necessitadas. A casa ficou conhecida como "a portaria de São Francisco", tal o número de carentes que se aglomeravam à sua porta.

            Assim prosseguiu a jovem Dulce após sua entrada no convento.  Fundou diversas obras de caridade dedicadas à assistência aos mais pobres: escolas, hospitais, albergues.  Em situações onde não encontrava lugar para abrigar seus assistidos, chegou a invadir casas para protegê-los e dar-lhes o atendimento necessário. Construiu e manteve uma das mais respeitadas instituições filantrópicas do país:  as Obras Sociais Irmã Dulce. 

A proclamação oficial da santidade desta baiana é forte e simbólica em muitos aspectos.

Em primeiro lugar, Irmã Dulce é a encarnação de tudo que a Igreja da América Latina vem vivendo e propondo há mais de 50 anos. Em 1968, os bispos reunidos em Medellín voltaram o olhar da comunidade eclesial preferencialmente para os pobres e oprimidos, propondo então o que se chamou opção preferencial pelos pobres.  Tratava-se de uma virada radical, que levava a Igreja para as margens da sociedade e privilegiava o trabalho evangélico unido indissoluvelmente à transformação social.  Fé e justiça passaram a ser um binômio inseparável, como o foram desde sempre na tradição bíblica judaico-cristã. 

Irmã Dulce dedicou sua vida aos pobres.  Voltou toda a sua vocação e vida religiosa para aqueles que não tinham direitos, que eram fracos e vulneráveis.  A tal ponto que ficou conhecida como o anjo dos pobres. Ainda antes que a Conferência de Medellín acontecesse, viveu essa opção preferencial pelos pequenos da sociedade, fazendo deles o centro de sua vida e de seu trabalho, a eles dedicando o melhor de suas energias. 

Além disso, Irmã Dulce é uma mulher.  A Igreja tem canonizado muitas mulheres.  Mas chama a atenção que juntamente com ela o Papa Francisco tenha canonizado várias outras.  Aumenta o número de mulheres reconhecidas oficialmente pela Igreja católica como santas.

Isso se encontra em perfeita sintonia com as posições que o Papa Francisco tem tomado ultimamente, de palavra e de obra.  Sem cessar, ele tem sublinhado a importância da mulher para a vida da Igreja.  Valoriza as posições e as atitudes das mulheres, figuras fundamentais para que a Igreja cumpra sua missão, tem igualmente valorizado a competência delas, nomeando várias para cargos importantes no Vaticano. Entre elas, a brasileira Cristiane Murray, nomeada vice-diretora da Sala de Imprensa do Vaticano. 

Com a Irmã Dulce, a Igreja do Brasil ganha sua primeira santa canonizada, a América Latina vê reconhecida uma testemunha privilegiada da opção continental pelos pobres, a santidade de uma mulher reconhecida e proclamada oficialmente pelo Sumo Pontífice. Trata-se de um grande presente para o Brasil, onde a mulher ainda é tão pouco valorizada em tantas esferas da vida, sendo inclusive vítima das mais diversas violências.  O fato de que a primeira santa brasileira seja uma mulher é um sinal poderoso da importância de tratar com carinho as filhas de Eva, demonstrando que são mais que nada e antes de tudo filhas de Deus. 

Parabéns, Bahia!  Parabéns Brasil!  Santa Dulce interceda pelo seu povo.  Ajude-o a viver sempre mais a opção pelos pobres que você encarnou com tanta radicalidade.

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

terça-feira, 16 de abril de 2019

SEMANA SANTA E POLÍTICAS PÚBLICAS



 Por Marcelo Barros

Em todo o Brasil, nesse final de semana, aeroportos e rodoviárias se enchem de gente. Muitas pessoas aproveitam o feriado para passear, visitar parentes ou simplesmente para descansar. Em alguns lugares, grupos encenam a paixão de Jesus.  Em muitas Igrejas, as comunidades celebram o fato mais importante da fé: a festa da Páscoa, memória da paixão e morte de Jesus, celebradas como vitória e vida nova que o Pai lhe deu.
A Páscoa é uma festa judaica que os cristãos assumiram. Até hoje, nas sinagogas de todo o mundo, cada ano, as comunidades judaicas comemoram a Páscoa para recordar a libertação do Êxodo. Os símbolos da festa expressam: toda pessoa humana tem a vocação da liberdade. Precisa caminhar para um mundo novo e mais feliz. Para os/as cristãos/ãs, durante uma Páscoa, em Jerusalém, Jesus foi morto e Deus lhe deu uma vida nova. Essa vida nova, ele reparte com todas as pessoas que aceitem segui-lo, na missão de testemunhar ao mundo o projeto divino de paz e justiça.
Em alguns lugares da América Latina, na sexta-feira santa, as procissões do Senhor morto reúnem multidões.  Mesmo pessoas que, comumente, não frequentam Igreja, acorrem à adoração do Senhor morto. Talvez porque, mesmo inconscientemente, se sintam representadas na imagem do Crucificado.
No mundo antigo, a crucifixão era o castigo imposto a escravos rebeldes e a pessoas que se levantavam contra a dominação do império. Jesus foi acusado de percorrer a Galileia levantando o povo contra o domínio de César (Cf. Lucas 23, 1). Por isso, foi condenado à morte na cruz pelo governador romano Pôncio Pilatos,
Atualmente, a cruz continua existindo. No tempo da ditadura militar brasileira, tornou-se famosa como instrumento de tortura de presos políticos. Até hoje, o “pau de arara” resiste em não poucas delegacias que atendem pobres. No entanto, mais do que uma madeira na qual os indefesos são pendurados, a cruz se tornou realidade de imensa maioria da humanidade, roubada dos seus direitos de viver dignamente. No mundo atual, mais de um bilhão de pessoas não tem segurança alimentar. Milhões não têm acesso à agua potável e passam fome. Multidões são obrigados a deixar sua terra para não morrer em meio à fome, à guerra, enquanto os que ficam sobrevivem em condições de uma pobreza injusta, apenas para garantir o lucro e o conforto de uma minoria ínfima de privilegiados. Em todos os continentes, as Igrejas celebram a paixão de Jesus, mas são os empobrecidos, povos inteiros, crucificados pelo deus dinheiro, que vivem na carne e prolongam, dia após dia, a paixão de Cristo.
Esse fato é uma contradição com o que a Igreja sempre ensinou: Jesus morreu na cruz para que ninguém mais precise morrer assim. Por isso, celebrar a paixão de Jesus e proclamar que o Pai lhe deu uma vida nova devem renovar a nossa força de resistir ao mal e aos sofrimentos. Na Campanha da Fraternidade desse ano, a CNBB nos ensina que celebrar a Páscoa de Jesus deve se expressar na luta comunitária e constante por Políticas Públicas que sirvam a todos.
Atualmente, no plano cultural e religioso, o mundo é diversificado e pluralista. Uma cultura não deve se impor sobre outra. Menos ainda tem sentido uma religião civil, como se fosse a ideologia religiosa da sociedade dominante.  Alguns países da Europa, sob pretexto de laicidade do Estado, ocultam forte racismo contra os muçulmanos e proíbem as mulheres de usar véu. No Brasil, sob o falso pretexto de defesa dos animais, existem projetos para proibir as religiões afrodescendentes de fazer seus sacrifícios. E quando não conseguem mais mascarar a perseguição, tentam até vetar o uso de tambores em terreiros afro. Nesses casos, os grupos visados pela lei são sempre os mais pobres e minoritários. Uma política pública inspirada na Páscoa trata de dar a todos os segmentos a mesma liberdade e de ajudar cada grupo a se abrir aos outros.
Para que a Páscoa tenha um sentido para toda a sociedade, é importante que, sem perder o sentido próprio que ela tem para as Igrejas, juntos com toda a humanidade, os cristãos possam recuperar a sua dimensão ecológica e transformadora da sociedade Assim, juntos poderemos festejar um novo cuidado com  a Vida e uma forma mais amorosa de organizar a sociedade como sinal do amor divino.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 


quarta-feira, 9 de março de 2016

CREIO EM UM SÓ DEUS [...] E EM UMA IGREJA UNA, SANTA, UNIVERSAL E APOSTÓLICA (Símbolo de Niceia)

Por Juracy Andrade



Tenho me referido algumas vezes aqui ao postulado da unidade cristã, pedida ardentemente por Jesus na chamada oração sacerdotal, na véspera de sua morte na cruz. Não há nenhum motivo teológico, por exemplo, para o grande cisma que separou as duas igrejas de Roma e Constantinopla (hoje Istambul), nem para as separações que se lhe seguiram. Inclusive para a desunião provocada pela Reforma protestante, separação não desejada por Martinho Lutero, mas ocorrida em boa parte pela intransigência do papa e de sua corte. Lembremos que recentemente Francisco de Roma se encontrou, em Havana, com o patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, derivada da constatinopolitana e hoje muito mais numerosa pois abrange fiéis da Rússia, boa parte da Ucrânia, Sérvia e outros países eslavos. Há um motivo histórico para a separação entre Roma e Constantinopla: como o poder político se unira umbilicalmente à Igreja, após séculos de cruenta perseguição, a divisão do Império praticamente exigia a divisão da Igreja.

As confissões protestantes nascidas mais recentemente se afastaram muito dos princípios luteranos e hoje nem sequer gostam de ser chamadas de protestantes, designação carregada de história e sentido: protesto contra a prepotência do papado, o desprezo pela Alemanha e outros países, a venda de indulgências. E ainda tem aquelas que se dizem neopentecostais, responsáveis pelo que muitos protestantes chamam criticamente de “teologia da prosperidade” (volta à venda da salvação e à simonia, tão criticadas pelo ex-monge agostiniano) em franca oposição à “teologia da libertação”, nascida entre católicos de nuestra Latinoamerica.

Há uns dois anos (janeiro de 1914), o pastor presbiteriano Elben Lenz César, que edita a excelente revista protestante Ultimato, escreveu um artigo intitulado “O relacionamento informal da Ultimato com a Igreja Católica”. A publicação é destinada à evangelização, mas não é denominacional, não estando a serviço de nenhuma das denominações protestantes, embora sua equipe pertença à Igreja Presbiteriana. Como escreve Elben César, esse relacionamento informal começou porque a revista, inicialmente muito pequena, era enviada como cortesia a inúmeros bispos e padres católicos. Após recebê-la durante oito anos, um desses bispos, dom Vicente Scherer, de Porto Alegre (RS), enviou ao editor um cartão com a seguinte mensagem manuscrita: “À redação da Ultimato agradeço a gentileza da remessa regular, por cortesia, de publicação que vejo com interesse pela franqueza de importantes colocações” (09.08.1976).


Diz ainda o pastor que essa abertura cristocêntrica contribuiu muito para abrandar o antiprotestantismo do lado católico e o anticatolicismo do lado protestante. Embora a posição da sua publicação venha provocando protestos, críticas e cancelamentos de assinaturas por parte de protestantes e católicos. Eu acredito que atitudes como esta muito vêm contribuindo para a criação de um clima mais cristocêntrico e menos polêmico entre cristãos de diversas confissões protestantes ou ligados a Roma. E a milagrosa escolha do papa Francisco para bispo de Roma (que é como ele se apresentou em sua primeira aparição pública na Praça de São Pedro) significa um passo gigantesco na direção daquela unidade suplicada por Jesus, nosso Mestre comum. Se não liquidarem o papa ou um sucessor que aja como ele, o que será liquidada é a Cúria Romana, responsável multissecular por descalabros monumentais na Igreja de Cristo. Não haverá mais cardeais-príncipes e os sucessores dos apóstolos, representados pelo Sínodo dos Bispos, poderão pastorear a Igreja. E, consequentemente, desaparecerão do vocabulário pós-Constantino expressões como trono de Pedro, anel do pescador, sua santidade, sua eminência e quejandos. Amém! Aleluia!


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia