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sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEXTA-FEIRA SANTA: JESUS CONTINUA CRUCIFICADO NOS SOFREDORES E SOFREDORAS DE HOJE




Por Leonardo Boff


Neste tempo de coronavírus que está produzindo medo e trazendo a morte a muita gente no mundo inteiro, a celebração da Sexta-feira Santa ganha um significado especial. Há Alguém que também sofreu e, em meio a dores terríveis, foi crucificado, Jesus de Nazaré. Sabemos que entre todos os sofredores se estabelece um misterioso laço de solidariedade. O Crucificado, embora pela ressurreição tenha sido feito o homem novo e o Cristo cósmico, continua, por isso mesmo, padecendo e sendo crucificado em solidariedade com todos os crucificados da história. E assim será hoje até o final dos tempos.
Jesus não morreu porque todos morrem. Ele foi assassinado em consequência de um duplo processo judicial, um pela autoridade política romana e outro pela autoridade religiosa judaica. Seu assassinato judicial se deveu à sua mensagem do Reino de Deus que implicava uma revolução absoluta de todas as relações, à imagem nova de Deus como “Paizinho”(Abba) cheio de misericórdia, à liberdade que pregou e viveu face às doutrinas e tradições que pesavam sobre as costas do povo, ao seu amor incondicional, especialmente aos pobres e doentes aos quais se compadecia e sanava e, finalmente, por se apresentar como o Filho de Deus. Essas atitudes rompiam com o status quo político-religioso da época. Decidiram eliminá-lo.
Ele morreu não simplesmente porque Deus assim quis, o que seria contraditório à sua imagem amorosa que anunciou. O que Deus quis, isto sim, foi sua fidelidade à mensagem do Reino e a Ele, mesmo que implicasse a morte. A morte resultou desta fidelidade de Jesus diante de seu Pai e de sua causa, o Reino, fidelidade que é um dos maiores valores de uma pessoa.
Aqueles que o crucificaram não podiam definir o sentido desta condenação. O Crucificado mesmo definiu o seu sentido: uma expressão de extremo amor e de entrega sem resto para alcançar a reconciliação e o perdão de  todos aqueles que o crucificaram e como solidariedade para com todos os crucificados da história, em especial pelos que são inocentemente crucificados. É o caminho da libertação e da salvação humana e divina.
Para que essa morte fosse realmente morte, como última solidão humana, ele passou pela tentação mais terrível que alguém pode passar: a tentação do desespero. Isso se deriva de seu grito na cruz. O embate agora não é com as autoridades que o condenaram. É com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado como misericordioso e cheio da bondade de uma Mãe, o Pai, cujo projeto, o Reino, que ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora, no momento supremo da cruz, parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
É por volta das três horas da tarde, momentos antes do desenlace final. Jesus grita com voz forte: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações assustadoras que configuram a mais terrível tentação, pior do que aquelas três feitas por Satanás no deserto.
Foi absurda a minha fidelidade ao Pai? Sem sentido a luta sustentada pelo Reino, a grande causa de Deus? Foram vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo capital que sofri e a crucificação que estou padecendo?
Jesus encontra-se nu, impotente, totalmente vazio diante do Pai que se cala. Esse silêncio revela todo o seu Mistério. Jesus não tem nada a que se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvaiu. Apesar de o chão desaparecer debaixo de seus pés, ele continua a confiar no Pai. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!” No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança e segurança. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de sua absoluta desesperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta terrível tentação. Mas esta tentação lhe propiciou um despojamento total de si mesmo, um estar nu e um absoluto vazio. Só assim a morte é real completa, no dizer do Credo um “descer aos infernos” da existência, sem que ninguém que possa acompanhar. A partir de agora ninguém mais estará só na morte. Ele estará conosco porque  experimentou a  solidão deste “inferno” do Credo.
As últimas palavras de Jesus mostram a sua entrega, não resignada mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)! “E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,37).
Este total vazio é pré-condição para uma total plenitude. Ela veio por sua ressurreição. Esta não é a reanimação de um cadáver,como a de Lázaro, mas a irrupção do homem novo (novissimus Adam:2Cor 15,45), cujas virtualidades latentes implodiram e explodiram em plena realização e floração.
Agora o Crucificado é o Ressuscitado, presente em todas as coisas, o Cristo cósmico das epístolas de São Paulo e de Teilhard de Chardin. Mas sua ressurreição ainda não se completou. Enquanto seus irmãos e irmãs continuam crucificados, a plenitude da ressurreição está em processo e ainda tem futuro. Como ensina São Paulo, “ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs” (Rm 8,29; 2Cor15,20).Por isso mesmo, com sua presença de Ressuscitado, ele acompanha a via-sacra de dores de seus irmãos e irmãos, humilhados e ofendidos.
Ele está sendo crucificado nos milhões que passam fome a cada dia nas favelas, naqueles submetidos a condições inumanas de vida e de trabalho. Crucificado naqueles que nas UTIs estão lutando, sem ar, contra o coronavírus. Crucificado nos marginalizados dos campos e das cidades, nos discriminados por serem negros, indígenas, qulombolas, pobres e por serem de outra opção sexual.
Continua crucificado nos perseguidos por causa da sede de justiça nos fundos de nosso país, nos que jogam suas vidas na defesa da dignidade humana, especialmente dos feitos invisíveis. Crucificado em todos os que lutam, sem sucesso imediato, contra sistemas que arrancam o sangue dos trabalhadores, delapidam a natureza e produzem profundas chagas no corpo da Mãe Terra. Não há estações suficientes nesta via dolorosa que possam retratar todas as formas pelas quais o Crucificado/Ressuscitado continua sendo perseguido, aprisionado, torturado e condenado.
Mas nenhum destes está só. Ele caminha, sofre e ressuscita em todos estes seus companheiros de tribulação e de esperança. Cada vitória da justiça, da solidariedade e do amor são bens do Reino que já está  se realizando na história, Reino, do qual eles serão os primeiros herdeiros.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu: Paixão de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2007.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

A RESSURREIÇÃO DE UM TORTURADO E CRUCIFICADO: JESUS DE NAZARÉ




por leonardo boff

A páscoa da ressurreição deste ano se celebra no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo fato de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.
Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e faze-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).
Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.
Vale enfatizar o fato de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilmanto com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.
Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.
Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.
A Pásscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, fato inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.
A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialides presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogênese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messis ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre mutos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.
Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.
Leonardo Boff, téologo e filósofo, escreveu Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2005.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

OS CRUCIFICADOS DE HOJE E O CRUCIFICADO DE ONTEM


por Leonardo Boff



 Hoje  a maioria da humanidade vive crucificada pela miséria, pela fome, pela escassez de água potável e pelo desemprego. Crucificada está também a natureza devastada pela cobiça industrialista que se recusa a  aceitar limites. Crucificada está a Mãe Terra, exaurida a ponto de ter perdido seu equilíbrio interno que se mostra pelo aquecimento global.
Um olhar religioso e cristão vê o próprio Cristo presente em todos estes crucificados. Pelo fato de ter assumido totalmente nossa realidade humana e cósmica, ele sofre com todos os sofredores. A floresta que é derrubada pela motosserra significa golpes em seu corpo. Nos ecossistemas dizimados e pelas águas poluídas, ele continua sangrando. A encarnação do Filho de Deus estabeleceu uma misteriosa solidariedade de vida e de destino com tudo o que ele assumiu, nossa inteira humanidade, a natureza e tudo o que ela pressupõe em sua base físico-química e ecológica.
O evangelho mais antigo, o de São Marcos, narra com palavras terríveis a morte de Jesus. Abandonado por todos, no alto da cruz, se sente também abandonado pelo Pai de bondade e de misericórdia. Jesus grita:
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?  E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,34.37).
Jesus morreu não porque todos nós morremos. Ele morreu assassinado sob a forma mais humilhante da época: a pregação na cruz. Pendendo entre o céu e a terra, durante três horas agonizou na cruz.
A recusa humana pode decretar a crucificação de Jesus; mas ela não pode definir o sentido que ele  conferiu à crucificação imposta. O crucificado definiu o sentido de sua crucificação como solidariedade para com todos os crucificados da história que, como ele, foram e serão vítimas da violência, das relações sociais injustas, do ódio, da humilhação dos pequenos e do rechaço à proposta de um Reino de justiça, de irmandade, de compaixão e de amor incondicional.
Apesar de sua entrega solidária aos  aos outros e a seu Pai, uma terrível e última tentação invadiu seu espírito. O grande embate de Jesus agora que agoniza é com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado, como “Paizinho”(Abba), misericordioso e cheio de bondade, Pai com traços de de mãe carinhosa, o Pai cujo Reino ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
Por volta das três horas da tarde, minutos antes do desenlace final, Jesus gritou com voz forte: “Elói, Elói, lamá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações aterradoras que configuram a mais apavorante tentação sofrida pelos seres humanos e agora por Jesus, a tentação do desespero. Ele se interroga:
“Será que não foi absurda a minha fidelidade? Sem sentido a luta sustentada por causa dos oprimidos e por  Deus? Não teriam sido vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo jurídico-religioso a que fui submetido com a sentença capital: a crucificação que estou sofrendo?”
Jesus encontrou-se nu, impotente, totalmente vazio diante de Deus- Pai que se cala e com isso revela  todo o seu Mistério. Jesus não tem mais ninguém a quem se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvai. Apesar de o sol ter tramontado de seu horizonte, Jesus continua a confiar em Deus. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!”. No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança para além de qualquer desesperança humana. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus que se escondeu. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de seu absoluto desespero. Mas onde abundou a desesperança, superabundou a esperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta assustadora tentação. Esta tentação lhe propiciou uma entrega total a Deus, uma solidariedade irrestrita a seus irmãos e irmãs também desesperados e crucificados ao largo da história, um total desnudamento de si mesmo, uma absoluta descentração de si em função dos outros. Só assim a morte é verdadeiramente real e  completa: a entrega sem resto a Deus e aos seus filhos e filhas sofredores, seus irmãos e irmãs menores.
As últimas palavras de Jesus mostram esta sua entrega, não resignada e fatal, mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)!
A sexta-feira santa continua, mas não é o ultimo capítiulo da história. A ressurreição, como irrupção do ser novo é a grande resposta do Pai e a promessa para  nós. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs que somos todos nós.
 Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:”A vida sacra para quem quer viver,, Vozes 2012.