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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

BANIDO O TORTURADOR, INCLUÍDO O TORTURADO

 Frei Betto


 

       O nome do mais notório torturador civil da ditadura militar, Sérgio Paranhos Fleury, que faz par, na história das atrocidades brasileiras, com o carrasco, coronel Brilhante Ustra, tão exaltado por Bolsonaro, foi banido de uma rua da capital paulista neste mês de setembro de 2021. 

       Agora, a rua na Vila Leopoldina se chama Frei Tito de Alencar Lima, meu confrade na Ordem Dominicana, um dos presos políticos mais torturados sob a regime militar, em novembro de 1969, no DEOPS de São Paulo, por ordem de Fleury e, em fevereiro de 1970, na OBAN (DOI-CODI), comandada por Ustra.

       O decreto, assinado pelo prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes, resultou de proposta, na Câmara         Municipal, dos vereadores do PT Antonio Donato, Antônio Doria, Arselino Tatto, Juliana Cardoso e Paulo Reis; do PSOL, Toninho Vespoli; e do PCdoB, Jamil Murad.

      Na justificativa, os vereadores frisam que “vivemos tempos difíceis e sombrios, há um movimento de negação da existência da ditadura militar em nosso país, e Frei Tito é prova de que o regime ditatorial não só existiu como a tortura cometida naquele período o levou ao suicídio”. 

      Em meu livro “Batismo de sangue” (Rocco), levado às telas de cinema pelo diretor Helvécio Ratton, incluo a descrição, feita pelo próprio Tito, das torturas sofridas e de sua heroica resistência, que resultou no desequilíbrio psíquico que, aos 28 anos, o induziu a suprimir a própria vida em agosto de 1974. Ele vivia na França, banido do Brasil.

      Em São Bernardo do Campo, o nome de Tito é homenageado em rua e praça. Também há rua com o nome dele no Recife e uma avenida em Ribeirão Preto (SP).

      Conceder nomes de criminosos e assassinos a logradouros públicos é um acinte à dignidade e à memória nacionais. Em 2016, o Elevado Costa Silva, mais conhecido como Minhocão, no centro da capital paulista, passou a se chamar Elevado Presidente João Goulart. Infelizmente outros logradouros, Brasil afora, ainda conservam nomes abomináveis, como a ponte Rio-Niterói, batizada de Ponte Presidente Costa e Silva, o marechal-ditador que decretou o AI-5. 

      É preciso, agora, que os vereadores de São Paulo anulem o nome do marechal-ditador Castelo Branco, concedido a um trecho do complexo viário da Marginal Tietê e, paradoxalmente, localizado próximo à rua Vladimir Herzog, que homenageia o jornalista “suicidado” no DOI-CODI paulista pelos militares comandados por Ustra. 

      Frei Tito, eu e outros frades dominicanos atuamos na resistência ao regime militar sob a liderança de Carlos Marighella. Considerado pela ditadura “Inimigo público n°.1”, felizmente hoje é nome de ruas na capital paulista; em São Bernardo do Campo (SP); no bairro carioca de Santa Cruz; em Salvador (BA); em Vitória da Conquista (BA); e de avenida em Maricá (RJ).

      Resgatar a memória e o exemplo dos que lutaram contra a ditadura é imperativo moral, em especial nesses tempos sombrios em que o Brasil é governado por um ex-militar neofascista, amigo de milicianos,  defensor público da tortura e de torturadores, e que ambiciona se perpetuar no poder.  

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros, disponíveis na livraria virtual: freibetto.org 

     

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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sexta-feira, 19 de abril de 2019

A RESSURREIÇÃO DE UM TORTURADO E CRUCIFICADO: JESUS DE NAZARÉ




por leonardo boff

A páscoa da ressurreição deste ano se celebra no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo fato de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.
Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e faze-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).
Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.
Vale enfatizar o fato de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilmanto com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.
Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.
Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.
A Pásscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, fato inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.
A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialides presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogênese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messis ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre mutos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.
Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.
Leonardo Boff, téologo e filósofo, escreveu Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2005.