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sábado, 18 de dezembro de 2021

“Quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”1

                                                                                                                             Prof. Martinho Condini


 

Em meados da primeira década do século XX, fomos surpreendidos com o escândalo do mensalão onde vários partidos políticos estiveram envolvidos, mas o que mais chamou a atenção da imprensa e da sociedade civil foi o Partido dos Trabalhadores. Isso porque a imagem de seus parlamentares em sua grande maioria, por décadas foi sempre de uma trajetória ilibada.

Após o escândalo do mensalão, petistas raízes, abandonaram o Partido e foram alçar vôos em outros ou criar novos.

Essa postura me incomoda muito, mas é claro que todos nós somos livres para fazermos nossas escolhas, mas tem algumas coisas que você se afina de tal maneira que a sua relação com ela se torna algo muito intenso, por exemplo: um time de futebol ou um partido político, que ultrapassa o gostar. A não ser que por de traz da paixão e da afinidade ideológica há outros interesses. Essa paixão ou afinidade ideológica que faz com que as pessoas permaneçam ao lado do seu clube ou do partido político de sua preferência e identidade.

Imagina se torcedores de um time de futebol o abandonasse porque ele perdeu um título, ou foi rebaixado ou ficasse décadas sem ganhar um título? Ou até abandoná-lo porque ele nunca ganhou um título em toda a sua história. Isso só demonstra que esses torcedores não são torcedores de verdade, porque se o fossem ficaria ao lado do clube ajudando-o de alguma maneira a sair do atoleiro em que se encontra.

A mesma coisa em relação ao partido político, a cada denúncia que um partido político recebe, ainda nas investigações, alguns de seus membros o abandonam com a justificativa de que ele não tem a pecha desses que estão sendo acusados.  E pelo fato de serem honestos e éticos, , saem do partido que não só ajudaram a construir, mas tem com ele uma enorme identidade ideológica. Ou  pelo menos parecia que havia.

São nessas atitudes de abandono do partido político que eu quero chegar.

Fico muito ressabiado com essas atitudes num partido como o Partido dos Trabalhadores (em outros partidos para mim, esse abandono é natural), pela sua história, que foi marcada pelas lutas, resistências, utopias e esperanças, além das realizações ao chegar ao poder. 

De repente na primeira invertida de grandes proporções, os mais honestos, dão linha (como se diz na gíria dos que empinam Pipa, Papagaio, Maranhão, etc.), vão embora para muito longe.          

Como eu já disse lá no início, todos nós temos a liberdade de escolha, mas essas atitudes são para mim no mínimo estranhas e que demonstram uma fragilidade daqueles que o abandonam. E sempre ficará aquela desconfiança, o que é isso companheiro? Será que posso  contar com você?

Acredito que esses que tomaram outros rumos, se realmente reconheciam no Partido dos Trabalhadores um instrumento de luta e transformação, deveriam ter permanecido e contribuir com suas ideias e opiniões e mostrar que a entidade partidária é mais importante que os seus mandatos, não ao contrário.

Enfim, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Camara1 dizia: “quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEXTA-FEIRA SANTA: JESUS CONTINUA CRUCIFICADO NOS SOFREDORES E SOFREDORAS DE HOJE




Por Leonardo Boff


Neste tempo de coronavírus que está produzindo medo e trazendo a morte a muita gente no mundo inteiro, a celebração da Sexta-feira Santa ganha um significado especial. Há Alguém que também sofreu e, em meio a dores terríveis, foi crucificado, Jesus de Nazaré. Sabemos que entre todos os sofredores se estabelece um misterioso laço de solidariedade. O Crucificado, embora pela ressurreição tenha sido feito o homem novo e o Cristo cósmico, continua, por isso mesmo, padecendo e sendo crucificado em solidariedade com todos os crucificados da história. E assim será hoje até o final dos tempos.
Jesus não morreu porque todos morrem. Ele foi assassinado em consequência de um duplo processo judicial, um pela autoridade política romana e outro pela autoridade religiosa judaica. Seu assassinato judicial se deveu à sua mensagem do Reino de Deus que implicava uma revolução absoluta de todas as relações, à imagem nova de Deus como “Paizinho”(Abba) cheio de misericórdia, à liberdade que pregou e viveu face às doutrinas e tradições que pesavam sobre as costas do povo, ao seu amor incondicional, especialmente aos pobres e doentes aos quais se compadecia e sanava e, finalmente, por se apresentar como o Filho de Deus. Essas atitudes rompiam com o status quo político-religioso da época. Decidiram eliminá-lo.
Ele morreu não simplesmente porque Deus assim quis, o que seria contraditório à sua imagem amorosa que anunciou. O que Deus quis, isto sim, foi sua fidelidade à mensagem do Reino e a Ele, mesmo que implicasse a morte. A morte resultou desta fidelidade de Jesus diante de seu Pai e de sua causa, o Reino, fidelidade que é um dos maiores valores de uma pessoa.
Aqueles que o crucificaram não podiam definir o sentido desta condenação. O Crucificado mesmo definiu o seu sentido: uma expressão de extremo amor e de entrega sem resto para alcançar a reconciliação e o perdão de  todos aqueles que o crucificaram e como solidariedade para com todos os crucificados da história, em especial pelos que são inocentemente crucificados. É o caminho da libertação e da salvação humana e divina.
Para que essa morte fosse realmente morte, como última solidão humana, ele passou pela tentação mais terrível que alguém pode passar: a tentação do desespero. Isso se deriva de seu grito na cruz. O embate agora não é com as autoridades que o condenaram. É com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado como misericordioso e cheio da bondade de uma Mãe, o Pai, cujo projeto, o Reino, que ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora, no momento supremo da cruz, parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
É por volta das três horas da tarde, momentos antes do desenlace final. Jesus grita com voz forte: “Eloí, Eloí, lemá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações assustadoras que configuram a mais terrível tentação, pior do que aquelas três feitas por Satanás no deserto.
Foi absurda a minha fidelidade ao Pai? Sem sentido a luta sustentada pelo Reino, a grande causa de Deus? Foram vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo capital que sofri e a crucificação que estou padecendo?
Jesus encontra-se nu, impotente, totalmente vazio diante do Pai que se cala. Esse silêncio revela todo o seu Mistério. Jesus não tem nada a que se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvaiu. Apesar de o chão desaparecer debaixo de seus pés, ele continua a confiar no Pai. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!” No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança e segurança. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de sua absoluta desesperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta terrível tentação. Mas esta tentação lhe propiciou um despojamento total de si mesmo, um estar nu e um absoluto vazio. Só assim a morte é real completa, no dizer do Credo um “descer aos infernos” da existência, sem que ninguém que possa acompanhar. A partir de agora ninguém mais estará só na morte. Ele estará conosco porque  experimentou a  solidão deste “inferno” do Credo.
As últimas palavras de Jesus mostram a sua entrega, não resignada mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)! “E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,37).
Este total vazio é pré-condição para uma total plenitude. Ela veio por sua ressurreição. Esta não é a reanimação de um cadáver,como a de Lázaro, mas a irrupção do homem novo (novissimus Adam:2Cor 15,45), cujas virtualidades latentes implodiram e explodiram em plena realização e floração.
Agora o Crucificado é o Ressuscitado, presente em todas as coisas, o Cristo cósmico das epístolas de São Paulo e de Teilhard de Chardin. Mas sua ressurreição ainda não se completou. Enquanto seus irmãos e irmãs continuam crucificados, a plenitude da ressurreição está em processo e ainda tem futuro. Como ensina São Paulo, “ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs” (Rm 8,29; 2Cor15,20).Por isso mesmo, com sua presença de Ressuscitado, ele acompanha a via-sacra de dores de seus irmãos e irmãos, humilhados e ofendidos.
Ele está sendo crucificado nos milhões que passam fome a cada dia nas favelas, naqueles submetidos a condições inumanas de vida e de trabalho. Crucificado naqueles que nas UTIs estão lutando, sem ar, contra o coronavírus. Crucificado nos marginalizados dos campos e das cidades, nos discriminados por serem negros, indígenas, qulombolas, pobres e por serem de outra opção sexual.
Continua crucificado nos perseguidos por causa da sede de justiça nos fundos de nosso país, nos que jogam suas vidas na defesa da dignidade humana, especialmente dos feitos invisíveis. Crucificado em todos os que lutam, sem sucesso imediato, contra sistemas que arrancam o sangue dos trabalhadores, delapidam a natureza e produzem profundas chagas no corpo da Mãe Terra. Não há estações suficientes nesta via dolorosa que possam retratar todas as formas pelas quais o Crucificado/Ressuscitado continua sendo perseguido, aprisionado, torturado e condenado.
Mas nenhum destes está só. Ele caminha, sofre e ressuscita em todos estes seus companheiros de tribulação e de esperança. Cada vitória da justiça, da solidariedade e do amor são bens do Reino que já está  se realizando na história, Reino, do qual eles serão os primeiros herdeiros.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu: Paixão de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2007.


terça-feira, 29 de outubro de 2019

ACABOU O SÍNODO, CONTINUA O PROCESSO SINODAL




por Marcelo Barros

Nesse domingo, 27, se encerrou no Vaticano a assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. Durante três semanas quase 200 bispos católicos do mundo todo, dos quais mais de cem  vindos da região amazônica, escutaram representantes de povos indígenas e dialogaram com missionários e missionárias que vivem na região. Ouviram peritos/as e conversaram sobre os grandes desafios que a terra e os povos da Amazônia enfrentam. A região pan-amazônica, com seus oito milhões de quilômetros quadrados, situados em nove países da América do Sul, foi o assunto principal em Roma e em toda a Igreja Católica no mundo. A partir disso, o Sínodo teve como tema: A Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral.

Foi a primeira vez em que, oficialmente, a Igreja Católica assumiu como missão a tarefa de escutar e principalmente ouvir positivamente e valorizar a realidade e as culturas ancestrais dos povos indígenas, principalmente sua sabedoria religiosa. Até agora, alguns setores católicos veem as tradições religiosas indígenas e afrodescendentes como idolátricas e nocivas. Desde que, há dois anos, esse sínodo começou a ser preparado, os bispos e missionários/as que conduziram a consulta prévia às comunidades descobriram e afirmaram que as culturas indígenas representam uma expressão da relação harmoniosa entre o Deus criador, os seres humanos e a natureza. Descobriram também que o Capitalismo e o tipo de desenvolvimento que as empresas e governos trouxeram à região tem rompido com esse equilíbrio religioso e ecológico. Principalmente, o extrativismo praticado pelas grandes multinacionais mineradoras e a pressão dos grandes interesses econômicos com madeireiras e o latifúndio destroem a floresta, poluem os rios e ameaçam o futuro da vida no planeta Terra. Põem também em risco a vida e a segurança de milhões de pessoas humanas. 

Durante séculos, de forma consciente ou ingênua, a Igreja Católica e outras Igrejas colaboraram com as diversas formas de colonialismo. Por isso, o Cristianismo têm uma dívida histórica e moral com os povos indígenas e as comunidades afrodescendentes. Desde a segunda metade do século XX, tanto a Igreja Católica, como as Igrejas evangélicas, ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, têm procurado defender os direitos dos povos originários e concebem a missão cristã como diálogo e respeito às culturas diferentes e não como conquista e imposição de crenças. Agora, esse Sínodo veio completar esse caminho e tirar as consequências dessa postura de parceria e comunhão com os povos originários e com a mãe Terra.

No domingo, 20 de outubro, muitos bispos da Amazônia celebraram juntos e assinaram um novo Pacto das Catacumbas, documento no qual se comprometeram em se inserir como irmãos na caminhada dos povos amazonenses e na defesa da Amazônia e da Terra, nossa casa comum.

Assim as Igrejas continuam a missão de Jesus. Ele, enviado do Pai ao mundo, se fez carne, isso é, assumiu a realidade humana em tudo, menos no pecado, isso é, no que é opressão humana e desamor. Não pregou sobre si mesmo e sim sobre o projeto divino no mundo. Ensinou aos discípulos o respeito ao diferente e o diálogo. Como têm afirmado nossos bispos: a fé se propaga por atração, ou seja, por sua força de encantar e não por qualquer imposição ou propaganda.   

Nesses dias, as conclusões do Sínodo e as propostas dos bispos reunidos em Roma foram entregues ao papa. Também passaram às mãos do papa Francisco, as milhares de respostas dadas pelas comunidades amazonenses consultadas sobre os desafios da vida na Amazônia e a missão da Igreja. Com esse material, depois de orar, oportunamente, o papa Francisco vai dirigir ao mundo uma exortação pós-sinodal sobre o cuidado com a Amazônia e a missão da Igreja com relação à Ecologia Integral.

Enquanto isso, na região amazônica e em toda a América Latina, esse Sínodo vai continuar através de um processo de diálogo e de construção juntos de uma missão profética que consiste em escutar o diferente, acolher as diversas tradições das comunidades e junto com elas irmos construindo o projeto divino da justiça e da paz no mundo. Como afirmava o papa Francisco, sínodo significa “caminhar juntos”. Em todas as dioceses e paróquias, temos de viver um processo sinodal permanente. Esse deve ser o jeito normal da Igreja ser e cumprir sua missão.
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br