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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

OS SINAIS DE QUEM VEM



       
Maria Clara Bingemer

 

            Que ano duro e difícil para o povo brasileiro, esse 2022 que se aproxima do fim.  Quanta angústia, quanta dor, quanto medo vivido, quanta ansiedade reprimida. Após dois anos de uma pandemia que a todos confinou e tantas perdas dolorosas gerou, parecia que no início do ano anunciava-se uma trégua.  As vacinas existiam e estavam disponíveis, muitos as tomamos, sentíamo-nos protegidos. 

            Porém nesse momento a “outra” pandemia – ou seria a mais real de todas, a única que realmente existiu? – mostrou seu rosto sombrio.  E a política polarizada e enraivecida dividiu o país e o povo, rompendo relações e instaurando um clima ameaçador no cotidiano dos brasileiros.  A inflação, a subida dos preços, as dificuldades muitas de cada dia pareciam pequenas, menores, diante da terrível perspectiva de que poderíamos ser obrigados a viver mais alguns anos de opressão, impiedade e violência.  E talvez, com mais tempo pela frente, essa desolação maior se instalasse e permanecesse roubando-nos para sempre a alegria.  

            A eleição aconteceu e parecia que a vitória acontecida exorcizava os fantasmas.  No entanto, o que se vive agora, neste tempo posterior às urnas, continua a ser obscurecido e ameaçado por manifestações que bloqueiam estradas, impedem o direito de ir e vir, decretam que filhas não podem dar o último abraço à mãe que está morrendo em hospital distante; bloqueiam a ida de um jovem à rodoviária para tomar o ônibus que o levaria à cirurgia que lhe devolveria a visão.

            Grupos revestidos com a bandeira brasileira se aglomeram diante de quartéis ou em plena rua, pedindo a intervenção militar em nome da democracia.  O nome de Deus é invocado a cada momento, seja ao lado de outras palavras de ordem como pátria e família, seja simbolizado em celulares postos no alto de cabeças na absurda intenção de comunicar-se com seres extraterrestres para que concedam a graça do estado de exceção em nome da liberdade. 

            Tudo isso leva a desejar mais ardentemente que venha o que se espera: a paz, a vida em abundância, a alegria.  E a buscar ansiosamente sinais desse estado de coisas, por mínimos que sejam. Porém, em meio a essa sagrada busca notícias de partidas abruptas de seres admirados e amados por todos, que ajudaram a dar ao Brasil sua identidade, trazem outra vez a dor:  Gal Costa, a baiana linda de cabelos negros e cacheados, boca vermelha e voz afinada cai fulminada por um infarto em sua casa.  Erasmo Carlos, o gigante gentil, o tremendão amado que embalou juventudes e brasileiros de todas as idades, é derrubado por uma doença já instalada em seu corpo e diz adeus. 

            Como  viver o Advento nesse clima em que parece que nada vem e tudo se vai.  Vai-se o bem-estar, o sentir-se livre, as referências afetivas.  E o vazio parece instalar-se com ares sombrios de quem veio para ficar.  E, no entanto, uma vez mais, somos chamados a voltar-nos para a espera de quem vem.  De quem disse que vinha e fielmente vem a cada ano, porque na verdade já veio na história humana há mais de dois mil anos.  E vem a cada dia para todo homem e mulher que seja capaz de abertura ao mistério e esteja em busca do sentido maior da vida. 

            A poesia de mais um artista que graças a Deus se encontra vivo entre nós – Alceu Valença – nomeia a expectativa que insiste em habitar-nos, apesar de todos os percalços, as trevas e o medo. 

Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais

            Como podemos crer nisso?  Como, se tudo ao nosso redor parece desmentir a existência desses sinais e dessa vinda. Como se não enxergamos sinal algum?  E, no entanto, a voz do anjo sussurrou a uma jovem que ela seria mãe do Salvador.

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais

Na casa de uma jovem moça em Nazaré da Galileia, o mensageiro de Deus chegou dizendo notícias de começos e boas novas.  A voz do anjo sussurrou ao ouvido de Maria, noiva de José o carpinteiro.  E ela, embora perplexa, acreditou e se dispôs a ser a serva do Senhor e a tornar-se morada de Sua Palavra. Escutando os sinais que o anjo trouxe, seu corpo engravidou do mistério que anuncia que Deus não se esqueceu da humanidade e uma vez mais foi fiel a seu povo.  

Por isso, hoje nosso povo está convidado a escutar esses sinais prenhes de esperança.  O anjo sussurra e convoca a estar atentos aos sinais da chegada de quem traz uma vez mais a todos o amor, a união e a paz. Escutar esses sinais é acreditar. 

Que tu virias numa manhã de domingo. 

             Os sinais trazidos pelo mensageiro da alegria e pelo ventre grávido da jovem mãe nos convidam com firmeza e delicadeza a crer, acolher e anunciar sua vinda por cima dos telhados, no fundo dos poços, nos grotões da miséria, no aconchego das casas e nos sinos das catedrais. 


          Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Crônicas de cá e de lá ( Editora Subiaco), entre outros livros.

 

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sábado, 18 de dezembro de 2021

“Quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”1

                                                                                                                             Prof. Martinho Condini


 

Em meados da primeira década do século XX, fomos surpreendidos com o escândalo do mensalão onde vários partidos políticos estiveram envolvidos, mas o que mais chamou a atenção da imprensa e da sociedade civil foi o Partido dos Trabalhadores. Isso porque a imagem de seus parlamentares em sua grande maioria, por décadas foi sempre de uma trajetória ilibada.

Após o escândalo do mensalão, petistas raízes, abandonaram o Partido e foram alçar vôos em outros ou criar novos.

Essa postura me incomoda muito, mas é claro que todos nós somos livres para fazermos nossas escolhas, mas tem algumas coisas que você se afina de tal maneira que a sua relação com ela se torna algo muito intenso, por exemplo: um time de futebol ou um partido político, que ultrapassa o gostar. A não ser que por de traz da paixão e da afinidade ideológica há outros interesses. Essa paixão ou afinidade ideológica que faz com que as pessoas permaneçam ao lado do seu clube ou do partido político de sua preferência e identidade.

Imagina se torcedores de um time de futebol o abandonasse porque ele perdeu um título, ou foi rebaixado ou ficasse décadas sem ganhar um título? Ou até abandoná-lo porque ele nunca ganhou um título em toda a sua história. Isso só demonstra que esses torcedores não são torcedores de verdade, porque se o fossem ficaria ao lado do clube ajudando-o de alguma maneira a sair do atoleiro em que se encontra.

A mesma coisa em relação ao partido político, a cada denúncia que um partido político recebe, ainda nas investigações, alguns de seus membros o abandonam com a justificativa de que ele não tem a pecha desses que estão sendo acusados.  E pelo fato de serem honestos e éticos, , saem do partido que não só ajudaram a construir, mas tem com ele uma enorme identidade ideológica. Ou  pelo menos parecia que havia.

São nessas atitudes de abandono do partido político que eu quero chegar.

Fico muito ressabiado com essas atitudes num partido como o Partido dos Trabalhadores (em outros partidos para mim, esse abandono é natural), pela sua história, que foi marcada pelas lutas, resistências, utopias e esperanças, além das realizações ao chegar ao poder. 

De repente na primeira invertida de grandes proporções, os mais honestos, dão linha (como se diz na gíria dos que empinam Pipa, Papagaio, Maranhão, etc.), vão embora para muito longe.          

Como eu já disse lá no início, todos nós temos a liberdade de escolha, mas essas atitudes são para mim no mínimo estranhas e que demonstram uma fragilidade daqueles que o abandonam. E sempre ficará aquela desconfiança, o que é isso companheiro? Será que posso  contar com você?

Acredito que esses que tomaram outros rumos, se realmente reconheciam no Partido dos Trabalhadores um instrumento de luta e transformação, deveriam ter permanecido e contribuir com suas ideias e opiniões e mostrar que a entidade partidária é mais importante que os seus mandatos, não ao contrário.

Enfim, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Camara1 dizia: “quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA

 

                                                                       Maria Clara Bingemer


 

            Assim diz a belíssima canção de Gilberto Gil: Louvação.  Ali o compositor e recente imortal da Academia Brasileira de Letras, depois de louvar várias situações vitais, louva “a esperança da gente na vida pra ser melhor”. E segue: “Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança”. 

            Louvemos, pois, a esperança neste início do tempo propício quando o ventre grávido da moça de Nazaré, após o anúncio do Anjo, lateja e pulsa da vida verdadeira feita carne.  Louvemos a esperança na vida para ser melhor. Tem que ser melhor por causa da criança que habita o seio da Virgem.  Tem que ser melhor por causa do sofrimento do povo, que anseia e clama por dias melhores. Tem que ser melhor por causa da terra, que geme e sofre como em dores de parto vendo seu ventre profanado pelo garimpo e as motosserras.  

            Começamos o tempo do Advento. Esperamos o que advém, o que se anuncia, o que chega. Depois de todo um ano driblando a doença e a morte, agora esperamos a vida que se faz esperar na alegria, na vigilância e na purificação.  Mais do que nunca é preciso esperar. Esperar com paz e com desejo.  Esperar com abertura e solicitude.  Esperar crendo que, apesar de todas as aparências em contrário, vai acontecer a chegada. 

            Quem espera vislumbra uma chegada, um acontecimento. Sente o desejo de algo novo que se pressente e que é gestado na falta e na ausência dos mais legítimos direitos e das mais caras expectativas que a imaginação humana acarinha e cultiva.  Assim era no tempo em que Maria ficou grávida e acreditou no anúncio do Anjo.  O Messias, tão esperado pelo povo, crescia e pulsava em seu jovem ventre. 

            O povo de Israel esperava o Messias como aquele que inauguraria um novo tempo, onde reinariam a justiça e o direito.  Era a espera de um futuro radicalmente distinto do passado. E a negação de uma história cíclica condenada a um eterno retorno, à repetição infindável de suas grandezas e misérias.   

           Nunca mais o mundo foi o mesmo depois que surgiu a fé no Messias no seio do Israel fiel. A vida passou a ser uma existência atravessada permanentemente pela espera daquele que vai chegar e que a tudo renovará.  Como dizia um sábio judeu: “Cada segundo é uma porta estreita por onde o Messias pode entrar”. Desta maneira, a esperança adquire o seu mais vigoroso fundamento. 

           E quem dessa esperança vive, quem com essa esperança espera, sempre alcança.  Porque o bem, o belo e o verdadeiro habitam desde sempre as entranhas humanas mais profundas.  Porque o que o ser humano deseja movido pela inspiração do Deus da vida só pode resultar em mais vida, vida em abundância, vida para todos.  

           Estamos sedentos de um acontecimento que nos confirme nessa espera, nessa esperança.  Mas antes de ver a expectativa respondida e culminada, é preciso esperar.  Gratuitamente.  Humildemente.  Pobremente.  Crer no mistério e esperar que desvende seu lado oculto. Tocar a revelação e não ousar levantar o véu, que será oportunamente afastado mostrando o rosto que se deseja, “os olhos desejados que tenho em minhas entranhas desenhados”, como dizia o místico carmelita e poeta João da Cruz. 

           Nada melhor do que olhar para a mulher e seu corpo grávido.  Ela espera.  Assim como todas as suas irmãs pelos tempos afora.  Esperam que venha a termo o que carregam em seu ventre.  Esperam numa presença que se faz sentir mais e mais à medida que os meses avançam.  Esperam ainda na ausência que crê às vezes mais do que vê, desejando ardentemente a presença que inundará de alegria sua vida e a de todo um povo. 

           Esperar é preciso.  Quem espera sempre alcança.  A semente dará seu fruto.  Enquanto isso, espera-se o futuro que vive no ventre da mulher.  Espera-se um futuro novo, diferente do passado.  Ele está chegando e a qualquer momento pode entrar por qualquer fresta de qualquer porta.  Três vezes salve a esperança, pois quem espera sempre alcança. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Vozes), entre outros livros

 

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

SOFRER COM QUEM SOFRE: A ATUALIDADE DA COMPAIXÃO

Leonardo Boff


Um manto de sofrimento e de dor cobre toda a humanidade, ameaçada pelo Covid-19. A cultura do capital, dentro da qual vivemos, se caracteriza pelo individualismo e por uma clamorosa falta de cooperação.O Papa na ilha italiana de Lampeduza, vendo centenas de africanos chegando de barco da África e sendo mal acolhidos pela população local,disse quase entre lágrimas: “Nossa cultura moderna nos tirou a compaixão pelos nossos semelhantes; nós nos tornamos incapazes de chorar”.

Parece que a inflação de racionalidade instrumental e analítica nos causou uma espécie de lobotomia: fizemo-nos insensíveis ao sofrimento do outro. O atual presidente é a mais trágica comprovação desta indiferença. Jamais visitou um hospital superlotado de contaminados pelo Covid-19, muitos morrendo sufocados.Sem qualquer sentimento leu num discurso público uma frase fria que lhe preparam mas que se sentia não vir de um coração sensibilizado pelas quase 600 mil vidas ceifadas por sua política necrófila.

A pandemia nos fez descobrir  a nossa profunda humanidade: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade e o cuidado necessário. Fez-nos mais sensíveis. Trouxe de volta a compaixão.

Ter compaixão não é ter pena dos outros, olhando-os de cima para baixo.Compaixão é a capacidade de sentir e compartilhar a paixão do outro, dizer-lhe o ouvido palavras de esperança, oferecer-lhe um ombro e dizer que está ai junto para o que der e vier, é ser capaz de chorar juntos mas também de mutuamente animar-se.

A compaixão é um sentimento humano transcultural. Encontra-se em todas as culturas: todos se vergam sobre o caído e se inclinam diante da dignidade do sofrimento do outro.

Tempos atrás descobriu-se um ancestral túmulo egípcio com esta inscrição, cheia de compaixão:”eu fui alguém que escutou a queixa da viúva; fui alguém que chorou por uma desgraça e consolei o abatido; fui alguém que ouviu o soluço da menina órfã e enxuguei-lhe as lágrimas; fui alguém que teve compaixão de uma mulher desesperada”.

Hoje os familiares dos mortos e afetados pelo Covid-19 que deixou nos curados sequelas graves nos conclamam a viver este lado melhor de nossa humanidade: a compaixão. Santo Tomás de Aquino escreveu na sua Suma Teológica que a compaixão é mais excelente que o amor ao próximo; este se dirige ao outro; a compaixão se dirige ao outro que sofre.

Da física quântica, da cosmologia contemporânea e da bioantropologia aprendemos que a lei fundamental de todas as coisas e do inteiro universo não é a competição e o triunfo do mais capaz de adaptação, mas é a cooperação e a sinergia de todos com todos. Até com o menor e mais fraco tem que de viver pois possui o seu lugar no conjunto dos seres e carrega em si uma mensagem a ser ouvida por todos. Neste campo também vale a compaixão entre todos os seres para além  dos humanos.

De São Francisco que se compadecia especialmente dos hansenianos (leprosos), da minhoca que não conseguia fazer um buraco no solo duro do caminho e a tirava, compassivo, e a levava à terra úmida ou do galhinho quebrado, se conta a seguinte legenda:

Encontrou um menino que levava numa gaiola pombinhas para serem vendidas no mercado. Suplicou-lhe: “bom menino, dê-me estas pombinhas tão humildes e inocentes para que não sejam mortas e comidas pelos homens”. O menino, tocado pelo amor inocente de São Francisco deu-lhe a gaiola com as pombinhas. Sussurando, disse-lhes São Francisco: “minhas queridas irmãzinhas, tolas e simples, por que vos deixastes apanhar? Eis que vou libertar-vos”. Abriu a gaiola. Ao invés de saírem voando, elas foram se alinhar  em seu peito e em seu capuz e não queriam sair. São Francisco levou-as para a ermida e lhes disse: “multiplicai-vos como vosso Criador o quer”. Tiveram muitos filhotes. Não saiam da companhia de São Francisco e dos frades, como se fossem domésticos. Só levantaram voo e sairam pelos ares quando São Francisco as abençoou e as deixou ir embora.

Como se depreende, a compaixão, bem na linha do budismo e do “Fundamento da moral”(1840) de Arthur Schopenhauer, toda fundada da ilimitada compaixão para com todos os seres, não é importantíssima só para quem está sofrendo atualmente, mas para toda a criação.

Concluamos com as palavras inspiradoras de Dalai Lama:”Quer você creia em Deus, quer não creia, quer creia em Buda ou não …Temos que participar dos sofrimentos das outras pessoas. Mesmo que você não possa ajudá-las com dinheiro, mesmo assim sempre é válido expressar apoio moral e empatia. Esta deve ser a base de nosso agir. Se chamamos isto de religião ou não, é o que menos importa”(Lógica do amor, 1998).O que importa é a compaixão.

Leonardo Boff escreveu Princípio de Compaixão e de Cuidado😮 encontro entre Oriente e Ocidente, Vozes 2009

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

A DESCRENÇA DE QUEM CRÊ E A FÉ DE QUEM NÃO CRÊ

 

Marcelo Barros

Quem crê em qualquer coisa ou não sabe exatamente em que crer, ou não crê em nada de forma profunda”, ensinava um professor de Bíblia. Assim, ele comentava a conclusão da 1ª carta atribuída ao apóstolo João: “Filhinhos/as, cuidado com os ídolos” (1 Jo 5, 21). De fato, no século XVI, em Genebra, o reformador João Calvino repetia sempre: “O ser humano é uma permanente fábrica de ídolos”.

O termo ídolo vem do grego e significa imagem falsa, que não corresponde ao original. Nestes tempos de publicidade, pessoas famosas pagam agências e profissionais para cuidar de sua imagem. Quem retoca a aparência física e faz cirurgia plástica para mudar algum defeito no rosto não deixa de ser ele ou ela mesma. No entanto, quem se apresenta de modo falso ou diz de si mesmo competências e capacidades que não possui comete o que a lei chama “falsidade ideológica”.

Nas religiões, o termo ídolo designa imagens não adequadas de Deus. Faz parte da cultura humana fazer imagens físicas ou mentais de tudo aquilo com o qual as pessoas se relacionam. Desde tempos muito antigos, os povos adoravam ao mistério divino nos astros. Outros adoravam animais como o crocodilho do rio Nilo, a serpente na Babilônia, a águia em Roma. Muitas culturas veem Deus nos antepassados. A Bíblia rejeita o bezerro de ouro dos hebreus, mas aceita a serpente de bronze. Esta era uma imagem de Deus que servia para curar as pessoas. A outra as afastava do caminho da unidade e da libertação. Cinco séculos antes de Jesus, na Índia, Buda advertia: “Não confunda a lua com o dedo que aponta a lua”.

Em todas as épocas, o nome de Deus foi tema de conflito. Até hoje, sempre que podem, impérios usam o nome de Deus para se legitimar. Na Alemanha dos anos 30, Adolf Hitler começou o Nazismo afirmando: “Deus acima de todos”. Muitos grupos e Igrejas cristãs ficaram contentes por ter, finalmente, um presidente que falava em nome de Deus. Ao contrário, pastores como Dietrich Bonhoeffer e outros denunciaram isso. Foram presos e condenados à morte como ateus. Hoje, eles têm seus nomes no livro dos/das mártires da Igreja, porque deram as suas vidas para que o opressor não instrumentalizasse o nome de Deus a seu proveito.

Hoje, o nome de Deus está nas cédulas de dólar, nas paredes de bancos, nas fachadas de casas de negócio e até em casas de assassinos que, mentindo e servindo aos piores interesses da elite, se apoderam do poder. A eles é preciso dizer Não! E em nome de Deus denunciar a desonestidade de quem usa o nome de Deus para o mal.

No século VI, Gregório, o bispo de Roma, ensinava: “Existem dois tipos de idolatria: o primeiro é adorar deuses falsos e o outro é pior e mais perigoso: adorar o Deus verdadeiro de maneira falsa”. Isso acontece quando se propaga um deus cruel, insensível ao sofrimento dos pobres e com obsessão em problemas sexuais, como se o corpo e o prazer não tivessem sido criados por Ele.  

 Há quem use o nome de Deus para consolar uma mãe que chora a perda de um filho ou filha, arrancada da vida em plena infância ou juventude. As pessoas costumam dizer: “Deus quis assim”, ou “foi a vontade de Deus”. A mãe poderia perguntar: Que Deus é esse que quer a morte de crianças inocentes?

Alguém compra um carro novo e coloca no vidro um adesivo: “Este carro foi Jesus quem me deu”. Faz isso imaginando estar sendo grato a Jesus. Será? “Que Deus é este que a um de seus filhos dá um presente de consumo capitalista e à maioria das pessoas não dá nem o que comer?”.

Depois de um grave acidente aéreo, um passageiro que chegou atrasado e não embarcou no tal voo da morte, afirmou: “Deus me salvou!”. Salvou a ele e deixou morrer mais de cem pessoas...  

A Bíblia é muito sábia ao insistir no mandamento que a tradição cristã traduziu como: “Não pronuncie o nome de Deus”. Em cada celebração pascal, na renovação do batismo, a comunidade cristã é convidada a dizer em que Deus crê. Entretanto, para isso, deve antes deixar claro em qual Deus não crê. É isso que significa atualmente o que, em outros tempos, se denominava renunciar ao demônio e a suas obras.

Devemos rejeitar as falsas imagens de um Deus que serve para enriquecer Igrejas. Se Deus é Amor e Pai de todos não pode gostar de pastores que, em plena pandemia, querem Igrejas abertas para arrecadar o dízimo dos pobres. Deus não pode servir para  disfarçar a maldade de governantes que destilam ao mundo o seu ódio à humanidade, enquanto gritam: “Deus acima de todos”. 

Em 1943, de uma prisão nazista, em uma carta ao cunhado, enquanto esperava ser executado, o mártir Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo luterano e grande opositor do Nazismo,  escreveu:

Deus nos faz viver neste mundo, sem nos servirmos de sua presença. Durante todo o tempo, vivemos diante de Deus e com Deus, mas como se Deus não existisse. Não devemos nos utilizar dele como uma hipótese de trabalho. Desde que criou o mundo, ele deu a suas criaturas e ao ser humano a autonomia de existir. Aceitou se retirar e fica feliz quando nos vê como seres que podem viver e prosseguir por conta própria sem, para tudo, se esconder em seu manto”.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

domingo, 9 de maio de 2021

"QUEM FAZ A HISTÓRIA (2), EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(08/05/2021)

 

     A despeito das tentativas  de marginalizar a papel do povo, como ator da História, ele se impõe por si mesmo. Não seria mera fantasia afirmar que, se algum dia, alguém reescrevesse a História Universal, a partir desta narrativa do cotidiano popular, da sua filosofia de vida,  criatividade,  resistência, esta seria decerto a verdadeira História da Humanidade. Acontece, porém, que a realidade é um jogo de contradições.

 

     Medos e paradoxos se misturam nas atitudes que podemos chamar de demofobia (medo do povo). Por um lado, se exalta a supremacia do povo como sujeito soberano e legítimo da política democrática. A Constituição Brasileira proclama, em seu primeiro artigo: "Todo poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido". "Do povo, pelo povo e para o povo" tornou-se uma espécie de legenda de todas as democracias vigentes.

 

      Por outra parte, as elites sociais não conseguem camuflar sua aversão e seu menosprezo pelas classes populares. Como se evidenciou em declarações recentes do Ministro da Economia ("o Fies bancou Universidade até para filho de porteiro". "Empregada doméstica estava indo para a Disney, uma festa danada"). Baixou sobre o Ministro o espírito de Nicolau Maquiavel, que escreveu, no século XVI: "o vulgo se deixa impressionar pelas aparências e pelos efeitos, mas é o vulgo que faz o mundo".

 

     Daí procede o boicote de acesso aos meios que consolidam o poder. Num mundo em que o conhecimento tornou-se uma das suas armas mais eficazes, fecham-se as portas das Universidades para os pobres.

 

     Quando o Sr. Ministro expele os seus impropérios, ele se faz porta-voz dos parceiros de classe e fortuna ("jamais vou admitir que a minha filha seja colega de classe, na Universidade, da filha da minha empregada", declara uma enfatuada madame.)

 

     De tudo isso resulta que o povo, oficialmente reconhecido como protagonista, só participa dos eventos  importantes da História como ator subordinado, vale dizer, como não-ator, mero assistente.

 

      Na medida em que lhe é usurpado esse direito de competir com iguais recursos,  estimulam-se os mitos alienantes, quase sempre de natureza religiosa. Repete-se a História.  Há milênios, na sábia e evoluída Grécia, o sábio Anaxágoras foi acusado de heresia por descrever  o sol como uma massa de pedra incandescente.  Para o dirigente de Atenas, Péricles (490 A.C.), era mais útil que o povo continuasse adorando o Sol como um deus e recorrendo a ele em suas necessidades. Assim também, convém ao modelo neo-liberal o slogan "Deus acima de tudo". Ele  impede a população de ver que Deus está no meio dela, atento aos filhos mais desvalidos e com um chicote na mão para expulsar os vendilhões do templo.

 

     As classes dominantes chegam ao climax da sua demofobia quando, em algum momento, acontece um novo ensaio histórico de ascensão revolucionária das massas, uma conversão de povo governado para povo governante. Aí a demofobia vira pânico e qualquer ditadura é preferível a esta detestável democracia.

 

     Por conseguinte, de nada adianta reafirmar a relevância do poder popular, se não forem  aperfeiçoadas  as formas de representatividade. Quantos dos chamados "representantes do povo", no atual Congresso Nacional, tem alguma coisa a ver com o proletariado, o campesinato, o operariado, os artesãos, os descamisados, as "camadas baixas" da população?

 

     Urge, pois, entender que a política partidária não é a única instância de participação na vida política, determinante das transformações sociais. Da formação e organização das bases populares pode emergir uma nova força capaz de influir eficazmente nos acontecimentos e reavivar a chama de esperança que começa a arder, ultimamente, no cenário nacional.

 

     E Deus em tudo isso? Respondo com uma passagem do evangelista Mateus:"Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se porque estavam exaustas e abatidas como ovelhas sem pastor" Mt.9,36.

     Procuram-se sábios "pastores" para estar junto ao povo abatido e exausto, como ovelhas sem pastor.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

domingo, 2 de maio de 2021

*QUEM FAZ A HISTÓRIA? EM TEMPOS DE CORONAVIRUS*


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(02/05/2021)

 

     Penso que já cansei meus ouvintes, de tantas vezes repetir uma das minhas enraizadas convicções: a maior riqueza de cada pessoa é a sua própria história. Sua biografia, tesouro inesgotável, será o seu mais rico legado. Ninguém conhece ninguém ouvindo-o expor idéias e convicções. Mas quando alguém historia seu passado, simplesmente, cristalinamente, sinceramente, nós o  conhecemos por inteiro, corpo e alma, realidade e mistério, sonho e feijão.

 

     Um exemplo clássico  disso: um dos mais consagrados pensadores dos tempos modernos é o filósofo alemão  Nietzsche. Embora discordando da sua visão do mundo e da vida, me deleito saboreando sua capacidade de destrinchar as mais profundas verdades  fossilizadas e escancarar as grandes hipocrisias camufladas. No entanto, este gênio não conseguiu encontrar seu equlíbrio existencial e acabou recorrendo ao suicídio. Quem lê suas idéias sem conhecer sua biografia, na verdade não o conhece e, não o conhecendo, como confiar em suas idéias?

 

     Pulando do micro para o macro, do indivíduo para a coletividade, fico a imaginar daqui a 100 anos. Quem serão os protagonistas deste momento histórico que estamos atravessando, na visão dos futuros historiadores? Tem sido de praxe que historiadores, (a exceção dos gênios), porta-vozes das classes dominantes,   relatam os acontecimentos do ponto de vista dos opressores. Selecionam  os pioneiros do progresso e os heróis da pátria entre os que se acham entronizados na cúpula do poder político, do poder militar e do poder econômico. Sobram alguns lugares para figuras relevantes da ciéncia, da literatura e das artes.

 

     E o povo, o povo no sentido mais popular da palavra? Se não lhe cabe nenhum papel de protagonista, como definir seus componentes?   Massa sobrante? Refugos do Mercado? Párias da sociedade?  Úteis enquanto meros serviçais e peso morto no sistema produtivo? Condenados ao anonimato e destinados apenas a sobreviver?

 

     Vê só uma coisa! Milhares de operários foram necessários para construir Brasília, capital do país. Sem eles Brasília simplesmente não existiria. Contudo, quem a visita é convidado a conhecer um imponente museu dedicado a Juscelino Kubischek, seu idealizador. E não vai encontrar nenhum registro dos numerosos Zé da Silva e Maria da Conceição, que jazem nos alicerces da grande cidade.

 

     Neste ponto bato palmas para a mídia alternativa, particularmente das redes sociais. Tivemos oportunidade de  escutar, faz alguns dias, dois moradores de rua de S.Paulo. Anônimos, mal-amanhados, excluídos. Discorriam filosoficamente sobre a relação entre pandemia, política e sociedade. Confesso que não foi menor minha admiração, meu prazer, meu aprendizado, do que se estivesse escutando Jessé de Souza ou Noam Chomsky.

 

     Chamemos de drama a pandemia do coronavirus. Em torno deste drama movem-se os mais diversos atores, com papéis diferenciados. Quem são os que povoam diariamente as páginas da grande mídia? Sem dúvida, são os que ocupam as assembléias políticas, com seus discursos, intrigas e resoluções. Quem são os que trabalham nos bastidores, garantindo a segurança e o êxito final desse drama?  Decerto são os que se recolhem em seus laboratórios de pesquisa e os que se estafam nos espaços dos hospitais, das UTIs (cientistas e profissionais de saúde.)  E onde se encontra o povo? - Na platéia. E quais os comentários da  midia sobre eles? - Que estão ou não se aglomerando, que estão ou não usando máscara, que estão ou não frequentando as praias.

 

      No entretanto, constituimos uma humanidade. Como poderemos entender a totalidade se descartarmos o papel da maioria? E como podemos nos redimir, se negamos ao povo o sacratíssimo direito de sonhar?

 

     A despeito de todos estes questionamentos, gostaríamos de introduzir nossa próxima reflexão com este pensamento de João Guimarães Rosa: "poder nenhum há que se aguente quando o povo se arrepia, sacudindo o lombo".

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

  

terça-feira, 25 de junho de 2019

A QUEM PERTENCEM OS BENS COMUNS




Por Marcelo Barros

 Nas últimas décadas, em todo o mundo, grupos ecológicos e movimentos sociais insistem na defesa do que chamam de Bens comuns.

Muitas vezes, os bens comuns são chamados de “recursos”, como água é vista como “recursos hídricos”. Governos falam de “reservas ecológicas”. Bens comuns seriam “propriedades comuns”. Nessa perspectiva, o tema dos bens comuns se torna questão de propriedade.

 Essa é uma visão utilitária dos bens comuns.  É como se eles existissem em função do uso que deles, nós, seres humanos fazemos. De fato, no mundo inteiro, através da comercialização da Terra, da Água e de toda a natureza, se provoca forte e acelerada destruição dos ecossistemas. Além disso, se marginalizam as comunidades originárias e culturas comunitárias.

Cientistas da ONU e organismos internacionais chamam a atenção para a ameaça de extinção que pesa sobre as calotas polares que cada vez mais diminuem de extensão e profundidade. Oceanos e mares se encontram contaminados por resíduos de petróleo. Rios e lençóis freáticos de águas subterrâneas estão ameaçados. Assim podemos continuar falando do ar que respiramos e do conhecimento produzido pela humanidade. Até as areias das praias estão desaparecendo.

Podemos resumir: o planeta Terra pode ser a casa comum de mais de 7 bilhões de pessoas humanas. Pode acolher 80 milhões de pessoas a mais a cada ano, mas não resistirá à ganância das empresas mineradoras que destroem regiões inteiras de florestas, rios e montanhas em busca de minérios. Não suportará a destruição da Amazônia em benefício do agronegócio. Não sobreviverá a um sistema econômico que concentra riquezas nas mãos de 5% de uma elite predadora que possui o equivalente à metade de toda a humanidade e quer sempre mais.

No hemisfério norte, a defesa dos bens comuns insiste mais na proteção das águas e do ar, além de elementos que devem ser do uso comum que a própria Vida indica (conhecimento, direito à saúde, etc), mesmo se todos compreendem que isso faz parte de uma nova economia política. Já em 2009, a Academia Sueca deu o prêmio Nobel de economia a Elinor Ostrom que escreveu um livro sobre a economia política dos bens comuns, ou seja, o problema da sua governabilidade comum.

Na América Latina e no Brasil, a perspectiva contém o cuidado ecológico em relação à natureza, mas a preocupação é mais social. No Fórum Social de Belém, (2009), em um debate sobre esse assunto, Alan Lipietz declarou: “Bens comuns não são coisas. São relações sociais” (citado por Jean-Pierre Leroy, Mercado ou Bens Comuns, FASE, 2015).

O Brasil tem uma longa tradição de uso comum da terra e dos recursos naturais que vem dos povos indígenas, das comunidades afrodescendentes e mesmo de migrantes europeus que vieram para cá, no século XIX, como colônias. Para essas comunidades, a Terra deve ser vista como território, ou seja espaço vital e lugar de vida comum. Mais do que propriedade. Por isso, a luta pelos bens públicos comuns tem de assumir a defesa das comunidades originárias e suas culturas.   

Na luta pelos bens comuns, é bom nos lembrarmos da famosa e sempre citada carta que, em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce). O cacique respondia à proposta do governo de comprar o território ocupado pelos índios. E a carta afirmava: “Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? ... Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo”.

Ao reler essa carta, nos damos conta de que defender os bens comuns (terra, água, ar, florestas, etc) significa politicamente defender as comunidades que vivem em comunhão com os bens comuns, tendo-os em comum e não como propriedade ou mercadoria a ser comercializada e sim como dons divinos, como a carta do cacique Seattle revela.

É necessário incorporar uma visão cultural – poderíamos chamá-la espiritual que responde diferentemente à pergunta que está por trás da luta pelos bens comuns. A quem pertencem os bens comuns? Na lógica capitalista se responderá: a quem os comprar. Na lógica ecológica moderna se pensa: À humanidade ou à coletividade que deles cuida e os administra.

As tradições espirituais dos povos originários respondem: não pertencem a ninguém, porque não são da ordem das coisas que possam pertencer. São as comunidades originárias que pertencem à mãe Terra, à mãe Água, ao avô Sol, ao ar e a toda a natureza que nos cerca. Os bens comuns são bens da natureza. São bens não no sentido de posse, mas de dádiva. São presentes. Não podem ser mercadoria. A espiritualidade bíblica dirá: São dons de Deus que, por ele nos ter dado, nem de Deus são mais. O salmo canta: “Os céus são de Deus, mas a terra ele a entregou aos seres humanos” (Sl 115, 16). É nossa responsabilidade defendê-los, sempre sabendo que de todos os bens públicos comuns, o mais ameaçado e frágil são as comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, etc) e sem elas será impossível preservar e cuidar dos bens (dons) gratuitos da natureza.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

QUEM TEM MEDO DO PENSAMENTO?


Por  Maria Clara Bingemer 

Atribui-se a Melanie Klein, psicanalista austríaca conhecida como pós-freudiana, a afirmação de que quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso. Para a pioneira e criadora da psicanálise em crianças, o pensamento é algo tão fundamental para o ser humano e tão complexo que não é tão somente uma atividade intelectual, mas totalizante e vital. 

Por isso mesmo, pensar é uma atividade perigosa e arriscada.  Mobiliza não apenas a mente e o raciocínio, mas os afetos, as emoções, deixando emergir novas sínteses elaboradas a partir da reflexão sobre experiências vividas na crueza do encontro com a própria humanidade e a diferença do outro. 

Simone Weil, filósofa e mística francesa, em sua experiência de trabalho na fábrica como condição prévia para pensar as condições do trabalho moderno, deu-se conta de que ao longo da semana e do duro trabalho nos fornos da indústria metalúrgica francesa, sua capacidade de pensar se atrofiava.  Durante o fim de semana, os pensamentos voltavam dispersos para na segunda feira sofrerem novo golpe e enfraquecerem-se mais.  Concluiu, então, que toda pessoa submetida àquele ritmo sem uma interrupção que lhe permitisse restaurar-se acabaria despojada de sua humanidade e transformada em uma besta de carga. 

Weil percebeu que o acesso ao conhecimento impediria que os operários fossem expulsos da vida digna que um trabalho não escravo poderia proporcionar-lhes, dando-lhes direitos e condições decentes de existência.  Por isso, era preciso impossibilitar-lhes o conhecimento ou reduzi-lo ao mínimo, a fim de que as portas da vida em plenitude não lhes fossem abertas.  Se começassem a pensar, chegariam à conclusão de que as fábricas modernas os transformavam em coisas e se rebelariam sobre suas condições de vida.

Todas essas reflexões me ocorrem a propósito da celeuma que se levantou por ocasião da visita da filósofa estadunidense Judith Butler ao Brasil.  Foram feitos abaixo-assinados contra sua vinda, protestos, rituais semelhantes a verdadeiros autos da fé medievais, com direito a fogueira e gritos contra aquela que seria a bruxa, a feiticeira que viria derrubar os valores de um povo cheio de moral e zeloso pelos bons costumes. 

O conhecimento que a Professora Butler veio trazer provoca medo e insegurança.  Por quê?  Porque abre as mentes para novas possibilidades e aciona o pensamento para que inicie a jornada em direção ao conhecimento libertador.  Mas seus detratores são tão obtusos e violentos que sequer se informam corretamente sobre os fatos que criticam e contra os quais protestam.

É fato que Judith Butler é uma das maiores, senão a maior autoridade sobre teoria de gênero no mundo.  Mas a conferência que vem dar no Brasil não é sobre gênero e sim sobre sionismo e o conflito entre Israel e Palestina.  O livro que lança pela Editora Boitempo: Caminhos Divergentes. Judaicidade e Crítica do Sionismo trata justamente disto e não da teoria queer, da qual é grande especialista.  

O efeito da chuva de protestos contra ela e seu pensamento não se fizeram esperar.  Sua conferência teve lotação esgotada e a fila de pessoas querendo assistir sem poder entrar era enorme. Talvez tivesse passado mais despercebida, atraindo apenas audiências acadêmicas e especializadas, não fosse a grita monumental que a precedeu e a pôs em relevo em todas as mídias e redes sociais. 

Não creio que seja obrigatório concordar com Judith Butler e sintonizar com seu pensamento quanto à forma e conteúdo.  Tampouco é mandatório achar fascinantes suas posições e comungar plenamente com elas.  No entanto, o conhecimento por ela produzido deseja comunicar-se e tem direito de encontrar espaço para sê-lo.  Impedir isso de acontecer é, por um lado, desrespeitar a pensadora e, por outro, tratar seus ouvintes e receptores como idiotas incapazes de discernir e pensar com a própria cabeça.  

Parece incrível que isso aconteça ainda no século XXI, quando já vai ficando distante no tempo a pretensão de Immanuel Kant de despertar a humanidade do sono dogmático em que se encontrava mergulhada. O tempo passou, a modernidade chegou, entrou em crise, já nadamos em águas pós-modernas, mas o obscurantismo parece que teima em retornar.  

Não será levantando barreiras de acesso ao pensamento que se construirá uma humanidade melhor. Pelo contrário, o paraíso artificial onde a mesma estará confinada sem o acesso livre ao conhecimento é muito mais semelhante à letargia do sono dogmático denunciado por Kant e outros filósofos.  Deste paraíso é digno e justo ser expulso.  Pois do outro lado estará não o pecado que mata, mas a verdade que liberta, oferecendo-se como fruto saboroso e maduro à “mastigação” do conhecimento que fará a humanidade caminhar e evoluir.   

Deixemos Judith Butler falar.  Abramos as portas aos pensadores vários que desejam comunicar o fruto de suas reflexões.  Não somos obrigados a concordar com eles ou com elas.  Mas sim convidados a não permanecer na paradisíaca zona de conforto da ignorância e adentrarmos o caminho duro, mas belo da aventura do conhecimento, guiados por essas mãos ou por outras. 

Por  Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga acaba de lançar sua nova obra, Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.

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