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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

REPENSANDO A COMPAIXÃO

   Maria Clara Lucchetti Bingemer 


         

          A palavra compaixão  talvez seja uma das menos entendidas de todas as línguas.  Normalmente é associada à pena, piedade, comiseração.  Ora, não há nada mais alheio ao sentido visceral dessa palavra forte e ardente – compaixão – do que essas edulcoradas e humilhantes definições.

          Compaixão é sofrer com, padecer solidariamente e em comunhão.  Tem a ver com justiça e restaurar dignidades atingidas e cruelmente vulneradas. Compaixão é o sentimento que caracteriza o ser humano diante de seus irmãos em humanidade que se encontram desumanizados pela pobreza, a violência e a opressão.  É o que move o coração dos justos diante da iniquidade e do sofrimento do outro.  É o que enche de desejo de comungar com a dor do outro e fazê-la sua.

Perante as vítimas inocentes da  injustiça, dentro de um ambiente de globalização e pluralismo como é o nosso hoje, existirá   um critério de entendimento e convivência irrevogavelmente reconhecido e vinculante para todos e, neste sentido, capaz de ser reconhecido como verdadeiro? Parece-me ser compaixão a palavra-chave para encontrar a resposta. Pois ela é capaz de suscitar a memória subversiva das vítimas para fazê-las de novo ativas na história.

          É  este conceito-atitude que procura exprimir a necessidade de o cristianismo abandonar a sua ameaçadora autoprivatização acomodada.  Compassio não é um sentimento a partir de cima ou de fora, mas a percepção do sofrimento alheio, no qual se toma parte e que eticamente obriga. Para esta compaixão, vale o imperativo categórico: “para, escuta e olha”.

          A compaixão é a capacidade de partilhar o sofrimento do outro. Com efeito, o mais terrível do sofrimento não é tanto ele em si, mas a solidão que nele se experimenta. Por isso alguns teólogos contemporâneos tratam de elaborar uma memoria passionis (memória da paixão)  como categoria de base de uma teologia em espaço público. Trata-se de recordar – lembrar com o coração - os sofrimentos dos outros; fazer  um rememorar público do sofrimento alheio, incorporado de tal maneira ao uso público da razão que a esta imprima um selo.

A compaixão parte, portando, da universalidade da experiência do sofrimento. A partir daí entende a teologia contemporânea a necessidade de uma nova teologia política que contribua vigorosamente para uma Igreja compassiva, funcionando a “memoria passionis” como recordação provocadora que fundamenta uma nova ética.

          Os que sofrem, as vítimas de todo tipo, teriam então uma autoridade. E esta autoridade seria a autoridade interior de um ethos global, de uma moral mundial, que obrigaria todos os homens anteriormente a qualquer ideologia, a qualquer entendimento. Uma moral que,  por conseguinte,  não pode ser posta de lado ou relativizada por nenhuma cultura e por nenhuma religião, ou igreja. Toda verdadeira mística, hoje, sobretudo após Auschwitz, não pode não ser inspirada por esse ethos.  E uma política inspirada por este ethos seria mais e diferente de uma pura executora das orientações do mercado, da técnica e de suas opressões objetivas em nossos tempos de globalização.  Seria, portanto, mais humanizante e libertadora.

            Aquilo que a  teologia política explicitou na Europa do pós-guerra, que a teologia da libertação tematizou na América  Latina a partir dos anos 1970,  muitos já o viviam e o vivem em suas vidas e experiências espirituais, explicitando-o em sua práxis. Referimo-nos aqui a fenômenos como o dos padres operários, na Europa dos anos 1950; a pessoas como Madeleine Delbrel, apóstola das ruas de Paris; a Simone Weil, filósofa agnóstica que a partir da dureza do trabalho da fábrica vivido em seu corpo encontra a Deus e a Jesus Cristo, já nos anos 1930, antes mesmo dos horrores da guerra. E a tantos outros e outras que já viviam e narravam o que a teologia posteriormente elaborou em estilo articulado e rigoroso. 

          É  possível, portanto, afirmar que o critério universal da condição humana se encontra na interpelação feita pela pobreza e a dor do outro e pela compaixão que ela origina.  Todo este movimento não é apenas ético, mas também místico - ou melhor, é místico porque ético e vice-versa -  uma vez que na Revelação bíblica e no Cristianismo ambas as coisas não se dissociam. Só encontrando aí sua fonte de inspiração primeira e iniludível pode a Teologia não ser infiel à sua identidade e à sua missão.

 

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Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco), entre outros livros.

 

 

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

SOFRER COM QUEM SOFRE: A ATUALIDADE DA COMPAIXÃO

Leonardo Boff


Um manto de sofrimento e de dor cobre toda a humanidade, ameaçada pelo Covid-19. A cultura do capital, dentro da qual vivemos, se caracteriza pelo individualismo e por uma clamorosa falta de cooperação.O Papa na ilha italiana de Lampeduza, vendo centenas de africanos chegando de barco da África e sendo mal acolhidos pela população local,disse quase entre lágrimas: “Nossa cultura moderna nos tirou a compaixão pelos nossos semelhantes; nós nos tornamos incapazes de chorar”.

Parece que a inflação de racionalidade instrumental e analítica nos causou uma espécie de lobotomia: fizemo-nos insensíveis ao sofrimento do outro. O atual presidente é a mais trágica comprovação desta indiferença. Jamais visitou um hospital superlotado de contaminados pelo Covid-19, muitos morrendo sufocados.Sem qualquer sentimento leu num discurso público uma frase fria que lhe preparam mas que se sentia não vir de um coração sensibilizado pelas quase 600 mil vidas ceifadas por sua política necrófila.

A pandemia nos fez descobrir  a nossa profunda humanidade: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade e o cuidado necessário. Fez-nos mais sensíveis. Trouxe de volta a compaixão.

Ter compaixão não é ter pena dos outros, olhando-os de cima para baixo.Compaixão é a capacidade de sentir e compartilhar a paixão do outro, dizer-lhe o ouvido palavras de esperança, oferecer-lhe um ombro e dizer que está ai junto para o que der e vier, é ser capaz de chorar juntos mas também de mutuamente animar-se.

A compaixão é um sentimento humano transcultural. Encontra-se em todas as culturas: todos se vergam sobre o caído e se inclinam diante da dignidade do sofrimento do outro.

Tempos atrás descobriu-se um ancestral túmulo egípcio com esta inscrição, cheia de compaixão:”eu fui alguém que escutou a queixa da viúva; fui alguém que chorou por uma desgraça e consolei o abatido; fui alguém que ouviu o soluço da menina órfã e enxuguei-lhe as lágrimas; fui alguém que teve compaixão de uma mulher desesperada”.

Hoje os familiares dos mortos e afetados pelo Covid-19 que deixou nos curados sequelas graves nos conclamam a viver este lado melhor de nossa humanidade: a compaixão. Santo Tomás de Aquino escreveu na sua Suma Teológica que a compaixão é mais excelente que o amor ao próximo; este se dirige ao outro; a compaixão se dirige ao outro que sofre.

Da física quântica, da cosmologia contemporânea e da bioantropologia aprendemos que a lei fundamental de todas as coisas e do inteiro universo não é a competição e o triunfo do mais capaz de adaptação, mas é a cooperação e a sinergia de todos com todos. Até com o menor e mais fraco tem que de viver pois possui o seu lugar no conjunto dos seres e carrega em si uma mensagem a ser ouvida por todos. Neste campo também vale a compaixão entre todos os seres para além  dos humanos.

De São Francisco que se compadecia especialmente dos hansenianos (leprosos), da minhoca que não conseguia fazer um buraco no solo duro do caminho e a tirava, compassivo, e a levava à terra úmida ou do galhinho quebrado, se conta a seguinte legenda:

Encontrou um menino que levava numa gaiola pombinhas para serem vendidas no mercado. Suplicou-lhe: “bom menino, dê-me estas pombinhas tão humildes e inocentes para que não sejam mortas e comidas pelos homens”. O menino, tocado pelo amor inocente de São Francisco deu-lhe a gaiola com as pombinhas. Sussurando, disse-lhes São Francisco: “minhas queridas irmãzinhas, tolas e simples, por que vos deixastes apanhar? Eis que vou libertar-vos”. Abriu a gaiola. Ao invés de saírem voando, elas foram se alinhar  em seu peito e em seu capuz e não queriam sair. São Francisco levou-as para a ermida e lhes disse: “multiplicai-vos como vosso Criador o quer”. Tiveram muitos filhotes. Não saiam da companhia de São Francisco e dos frades, como se fossem domésticos. Só levantaram voo e sairam pelos ares quando São Francisco as abençoou e as deixou ir embora.

Como se depreende, a compaixão, bem na linha do budismo e do “Fundamento da moral”(1840) de Arthur Schopenhauer, toda fundada da ilimitada compaixão para com todos os seres, não é importantíssima só para quem está sofrendo atualmente, mas para toda a criação.

Concluamos com as palavras inspiradoras de Dalai Lama:”Quer você creia em Deus, quer não creia, quer creia em Buda ou não …Temos que participar dos sofrimentos das outras pessoas. Mesmo que você não possa ajudá-las com dinheiro, mesmo assim sempre é válido expressar apoio moral e empatia. Esta deve ser a base de nosso agir. Se chamamos isto de religião ou não, é o que menos importa”(Lógica do amor, 1998).O que importa é a compaixão.

Leonardo Boff escreveu Princípio de Compaixão e de Cuidado😮 encontro entre Oriente e Ocidente, Vozes 2009

 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O PRINCÍPIO COMPAIXÃO E O COVID-19

 Leonardo Boff


 

Através do Covdi-19 a Mãe Terra está movendo um contra-ataque à humanidade como reação ao avassalador ataque que vem sofrendo já há séculos.Ele simplesmente está se defendendo. O Covif-19  é igualmente um sinal e uma advertência que nos envia: não podemos fazer-lhe uma guerra como temos feito até agora, pois está destruindo as bases biológicas que a sustenta e sustenta também todas as demais formas de vida, especialmente, a humana. Temos que mudar, caso contrário nos poderá enviar vírus ainda mais letais, quem sabe, até um indefensável contra o qual nada poderíamos. Então estaríamos como espécie seriamente ameaçados. Não é sem razão que o Covid-19 atingiu apenas os seres humanos, como aviso e lição. Já  levou  milhões à morte, deixando uma via-sacra de sofrimentos a outros milhões e uma ameaça letal que pode atingir a todos os demais.

Os números frios escondem um mar de padecimentos por vidas perdidas, por amores destroçados e por projetos destruídos. Não há lenços suficientes para enxugar as lágrimas dos familiares queridos ou dos amigos mortos, dos quais não puderam dizer um último adeus,nem sequer celebrar-lhes o luto e acompanhá-los à sepultura.

Como se não bastasse o sofrimento produzido para grande parte da humanidade pelo sistema capitalista e neoliberal imperante, ferozmente competitivo e nada cooperativo. Ele permiitu que 1%  dos mais ricos possuísse pessoalmente 45% de toda a riqueza global enquanto os 50% mais pobres ficasse com menos de 1%, segundo relatório recente do Crédit Suisse. Ouçamos aquele que mais entende de capitalismo no século XXI, o francês Thomas Piketty referindo-se ao caso brasileiro. Aqui, afirma, verifica-se a maior concentração de renda do mundo; os milionários brasileiros, entre o 1% dos mais ricos, ficam à frente do milionários do petróleo do Oriente Médio. Não admira os milhões de marginalizados e excluídos que esta nefasta desigualdade produz.

Novamente os números frios não podem esconder a fome, a miséria, a alta mortandade de crianças e devastação da natureza, especialmente na Amazônia e em outros biomas, implicada nesse processo de pilhagem de riquezas naturais.

Mas nesse momento, pela intrusão do coronavírus, a humanidade está crucificada e mal sabemos como baixá-la da cruz. É então que devemos ativar em todos nós uma das mais sagradas virtudes do ser humano: a compaixão. Ela é atestada em todos  os povos e culturas: a capacidade de colocar-se no lugar do outro, compartilhar de sua dor e assim aliviá-la. 

O maior teólogo cristão, Tomás de Aquino, assinala na sua Suma Teológica que a compaixão é a mais elevada  de todas as virtudes, pois não somente abre a pessoa para a outra pessoa senão que a abre para a mais fraca e necessitada de ajuda. Neste sentido, concluía, é uma característica essencial de Deus.

bReferimo-nos ao princípio compaixão e não simplesmente à compaixão. O princípio, em sentido mais profundo (filosófico) significa uma disposição originária e essencial, geradora de uma atitude permanente que se traduz em atos mas nunca se esgota neles.Sempre está aberta a novos atos. Em outras palavras, o princípio tem a ver com algo pertencente à natureza humana. Porque é assim podia dizer o economista e filósofo inglês Adam Smith (1723-1790) em seu livro sobre a Teoria dos Sentimentos Éticos: até a pessoa mais brutal e anticomunitária não está imune à força da compaixão.

A reflexão moderna nos ajudou a resgatar o princípio compaixão. Foi ficando cada vez mais claro para o pensamento crítico que o ser humano não se estrutura somente sobre a razão intelectual-analítica, necessária para darmos conta da complexidade de nosso mundo. Vigora em nós, algo mais profundo e ancestral, surgido há mais de 200 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos: a razão sensível e cordial.Ela significa  a capacidade de sentir, de afetar e ser afetado, de ter empatia, sensibilidade  e amor.

Somos seres racionais mas essencialmente sensíveis. Na verdade, construimos o mundo a partir de laços afetivos.Tais laços  fazem com que as pessoas e as situações sejam preciosas e portadoras de valor. Não apenas habitamos o mundo pelo trabalho senão pela empatia, o cuidado e a amorosidade. Este é o lugar da compaixão.

Quem trabalhou melhor que nós ocidentais foi o budismo. A compaixão (Karuná) se articula em dois movimentos distintos e complementares: o desapego total e o cuidado essencia. Desapego significa deixar o outro ser, não enquadrá-lo, respeitar sua vida e destino. Cuidado por ele, implica nunca deixá-lo só em seu sofrimento, envolver-se afetivamente com ele para que possa viver melhor carregando mais levemente sua dor.

O terrível do sofrimento não é tanto o sofrimento em si, mas a solidão no sofrimento. A compaixão consiste em não deixar o outro só. É estar junto com ele, sentir seus padecimentos e angústias, dizer-lhe palavras de consolo e dar-lhe um abraço carregdo de afeto.

Hoje os que sofrem, choram e se desalentam com o destino trágico da vida, precisam desta compaixão e desta profunda sensibilidade humanitária que nasce da razão sensível e cordial. As palavras ditas que parecem corriqueiras ganham outro sonido, reboam dentro do coração e trazem serenidade e suscitam um pequeno raio de esperança de que tudo vai passar. A partida foi trágica mas a chega em Deus é bem-aventurada.

A tradição judaico-cristã testemunha a grandeza da compaixão. Em hebraico é “rahamim” que significa “ter entranhas”, sentir o outro com profundo sentimento.Mais que sentir é identificar-se com o outro.O Deus de Jesus e Jesus mesmo mostram-se especialmente misericoridios como se revela nas parábolas do bom samaritano (Lc 10,30-37) e do filho pródigo(Lc 15,11-32).Curiosamente, neste parábola, a virada se dá não no filho pródigo que volta mas no pai que se volta para o filho pródigo.

Mais no que nunca antes, face a devastação feita pelo Covid-19 em toda a população,sem exceção, faz-se urgente viver a compaixão com os sofredores como o nosso lado mais humano, sensível e solidário.

 Leonardo Boff escreveu com Werner Müller o livro Princípio compaixão&cuidado, Vozes 2009; Covid-19 A Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A URGÊNCIA DA COMPAIXÃO E DO CUIDADO





Por Marcelo Barros

Nesta 4ª feira, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade 2020, com o tema Fraternidade e Vida: dom e compromisso. Ela se dirige a todas as pessoas de boa vontade e que se colocam a favor da paz e da fraternidade humana.

Em um Brasil cada vez mais marcado pela divisão e pela intolerância, a Igreja Católica, no Brasil, liga a celebração pascal à solidariedade fraterna. Há mais de 50 anos, sempre na 4ª feira de cinzas, se abre a Campanha da Fraternidade. Neste ano, a Campanha da Fraternidade não insiste em um problema social determinado. Não se centra em um determinado desafio social, como tem ocorrido em outros anos. Desta vez, o tema é assunto central da fé e da convivência social: Fraternidade e Vida: dom e compromisso. A irmandade que Jesus veio criar em nós e entre nós é para defender a vida como dom divino e compromisso de amor e solidariedade em relação a todos os irmãos e irmãs. O evangelho e a Campanha da Fraternidade 2020 nos chama a aprofundarmos o significado mais profundo da vida e a encontrarmos caminhos para que a vida seja valorizada e defendida.  O lema desta CF 2020 é a palavra de Jesus sobre o samaritano: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33- 34).
Precisamos ligar a fé em Deus e a espiritualidade à urgência do cuidado social com as pessoas marginalizadas. Cada dia mais, cresce em nossas cidades a população de rua. Milhares de pessoas jogadas nas calçadas e embaixo de viadutos como se fossem lixos. Uma multidão de pessoas que vivem como se fossem descartáveis. O papa Francisco tem chamado atenção para isso. Ele denuncia o que tem chamado de “globalização da indiferença”. Para superar essa situação, temos de fazer o que Jesus diz ao professor da Bíblia. Depois que lhe conta a história do samaritano que cuidou do homem ferido à margem da estrada,  Jesus disse: Vai e faze o mesmo.
Essa é a proposta da Campanha da Fraternidade deste ano:  
1-    o olhar sobre a realidade do mundo e especialmente do Brasil.
2 - o discernir o que Deus nos diz sobre isso que vemos e finalmente
3 - o que Ele nos pede como resposta ao desafio apresentado.
O Texto-base da CF 2020, em sua primeira parte, mostra que a realidade atual é consequência de um modo de olhar que descuida da vida das pessoas e da natureza. O texto-base lembra a precarização da saúde e da educação no Brasil. Todos sabemos que o fator que gera tantas injustiças é o aumento descomunal da desigualdade social.
Além da violência que assola as relações humanas, diariamente, nas periferias das cidades, mesmo do interior, somos confrontados com  o assassinato brutal de jovens, em sua imensa maioria pobres e negros. Chegam a ser 63 assassinatos de jovens por dia. Um a cada 23 minutos. Um verdadeiro genocídio.
Além disso, a ONU e os organismos internacionais têm denunciado que, no Brasil, os povos indígenas nunca tiveram a sua sobrevivência tão ameaçada quanto agora. E essa mesma ameaça pesa sobre a natureza e os bens da terra.
Na segunda parte, a partir da revelação bíblica, o texto-base aprofunda uma palavra de fé que nos ajuda a unir a espiritualidade pascal à urgência de transformar essa realidade. O apelo é que todas as comunidades e organismos de Igrejas possam ser escolas de solidariedade entre seus membros, com as pessoas mais carentes e em comunhão com a natureza.
Em sua terceira parte, o texto-base propõe iniciativas comunitárias para gerar experiências de solidariedade e inclusão. Tomando como exemplo a irmã Dulce, hoje chamada pela Igreja de Santa Dulce dos Pobres, a Campanha da Fraternidade nos confirma: só somos verdadeiramente humanos/as quando somos pessoas de solidariedade e compaixão.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

MISERICÓRDIA E COMPAIXÂO ESTÃO DE VOLTA



Por J u r a c y   A n d r a d e



     Os cristãos dos tempos mais atuais, sobretudo aqueles filiados à Igreja de Roma, têm uma boa vantagem sobre seus irmãos dos tempos em que a Santa Inquisição trocava os eflúvios da graça, do carisma da fé por brutais expedientes de tortura, desmantelamento físico e psicológico, morte. Mesmo antes da instituição formal de um tribunal tão longe do Evangelho e da fraternidade que Jesus Cristo pregou a seus discípulos, a partir do atrelamento da Igreja de Roma ao Império Romano qualquer um que ousasse defender um ponto de vista teológico contrário aos interesses imperiais, que eram os mesmos do papa (um alto funcionário do Império), era logo acusado de herege, ímpio e reduzido à expressão mais simples, trucidado e, se tivesse sorte, exilado e proscrito. Não creio que nenhum deles pretendesse criar uma Igreja separada. Como, mais tarde, Lutero também não pretendeu. Queriam apenas liberdade para debater. Um complicador dos problemas criados é que o pensamento cristão se desgarrara da simplicidade e singeleza da religião judaica e passara a se vestir exoticamente de conceitos e definições da filosofia grega.

      Nós hoje podemos opinar sobre questões teológicas sem medo de sermos recolhidos às masmorras de Torquemada e cremados em praça pública num auto de fé. Do qual escapou aquela garota que havia comido um noviço, em O nome da rosa (de Umberto Eco), presa como bruxa (quem desencaminha um noviço só pode ser bruxa ...). Isto é, ela escapa no filme que fizeram depois. No livro de Eco, ela vai ao crematório.

     Com o Renascimento, o iluminismo, com a Revolução Francesa, que restaurou a separação entre Igreja e Estado, entre as religiões e a res publica, as coisas começaram a melhorar para quem preza a liberdade de pensar, falar, escrever. Viciada com seu poder imperial reforçado com a derrocada do Império Romano, a Igreja de Roma, aprisionada pelas garras papais, tem demorado demais em aceitar a nova realidade. Apesar de esta ser tão boa para a fé e a vivência do cristianismo, desde que eventuais governantes não tenham pretensões ditatoriais e até de liderança religiosa. Só muito recentemente, após o Concílio Vaticano 2º (o Vaticano 1º, ainda no século 19, foi convocado somente para proclamar como artigo de fé, dogma, a infalibilidade do papa), alguns papas começaram a tolerar um pouco a democracia, se desculpar publicamente pelas seculares sacanagens contra hereges, judeus, indígenas.

      Como estamos, os católicos, acostumados com a centralização da Igreja em torno do papa e sua corte de cardeais, tinha de ser um papa a tentar atualizar o pensamento de uma Igreja que ainda vive, em grande parte, na Idade Média. O papa Francisco dá continuidade, com uma ênfase inusitada, a reformadores como João 23, que convocou o Vaticano 2º, um cara tão simples e alegre que era capaz de bater continência para um oficial com quem servira na 1ª Guerra Mundial e apresentar-se como “capo Roncalli, ai suoi ordini!”; e como João Paulo 1º, que só pastoreou (ele não falava em pontificado, um termo pagão) a Igreja durante um breve mês, e morreu misteriosamente enquanto, dizem, lia um relatório sobre as estripulias do bispo Marcinkus à frente do IOR (Banco do Vaticano). Não houve autópsia. Sabiamente, Francisco não quer nem saber de ficar morando isolado no assim dito Palácio Apostólico (os apóstolos moravam em palácios?), à mercê de venenosas poções medievais ou coisas piores. Prefere um apartamento modesto na Casa de Santa Marta, mais arejada e onde ele pode se cercar de gente de sua confiança. Graças a Deus, está vivo até agora e escapou até dos engarrafamentos do Rio de Janeiro e das arruaças dos black blocks (nada contra legítimas manifestações: para o papa, o jovem tem de protestar contra o que está errado).

     Francisco surpreende a cada entrevista que concede e com suas ações de abertura e abordagens compassivas. Como quando diz que os protagonistas da Igreja são os fiéis e não a hierarquia; quando fala da Igreja como um “lar para todos, não uma pequena capela capaz de abrigar apenas um grupo seleto de pessoas”; “um hospital de campanha” que tem de saber acolher a todos em sua “UTI espiritual”. O papa mostra desejar acabar com a retórica de confronto e isolamento adotada por grande parte da hierarquia católica nas últimas décadas. Em casos, por exemplo, como casamento homossexual, aborto. Não que ele tenha liberado geral, mas acha obsessiva a abordagem comum da hierarquia quanto a temas assim, enquanto se deixa de lado a mensagem central do Evangelho, de amor, misericórdia, esperança, fé.

     Vale a pena referir também respostas de Francisco ao jornalista italiano Eugenio Scalfari, um intelectual de refinada cultura, que lhe fez algumas perguntas através do jornal La Repubblica. Ele é ateu mas se confessa “fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré”. Duas perguntas básicas: “Se uma pessoa não tem fé nem a procura, será perdoada pelo Deus cristão?”; “A Igreja, que acredita na verdade revelada, considera erro ou pecado o fato de alguém não crer em nenhuma verdade absoluta, mas só em verdades relativas e subjetivas?”. Demonstrando na prática que não só prega o diálogo com outras religiões e não crentes, mas o pratica, eis o que Francisco respondeu: “Feita a premissa de que a misericórdia de Deus não tem limites, e é o mais importante se nos dirigimos a ele com o coração contrito, a questão para quem não crê em Deus está em obedecer à própria consciência. O pecado, também para quem não tem fé, existe quando agimos contra a consciência”. Eis uma ampla e inédita abertura em direção á cultura moderna. A salvação não seria prerrogativa dos crentes. A resposta à questão da verdade, muito resumida, pois estou consumindo mais do que o espaço habitual, é :” ... eu não falaria, nem mesmo para aqueles que acreditam, de verdade ‘absoluta’ (...) Para a fé cristã, verdade é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto a verdade é uma relação!”.

     E não esqueçamos que o papa recebeu cordialmente o padre peruano Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação e que, um pouco antes, tivera um artigo seu publicado no Osservatore Romano, jornal da Santa Sé. Note-se que o papa argentino já se pronunciou, no passado, contra essa corrente teológica. Ele não tem medo nem vergonha de rever posições. Que Deus lhe dê longa vida e o livre da sina de João Paulo 1º.

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia
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domingo, 13 de maio de 2012

REPENSANDO A COMPAIXÃO





por Maria Clara Lucchetti Bingerman



  

          A palavra compaixão talvez seja uma das menos entendidas de todas as línguas.  Normalmente é associada à pena, piedade, comiseração.  Ora, não há nada mais alheio ao sentido visceral dessa palavra forte e ardente – compaixão – do que essas edulcoradas e humilhantes definições.

          Compaixão é sofrer com, padecer solidariamente e em comunhão.  Tem a ver com justiça e restaurar dignidades atingidas e cruelmente vulneradas. Compaixão é o sentimento que caracteriza o ser humano diante de seus irmãos em humanidade que se encontram desumanizados pela pobreza, a violência e a opressão.  É o que move o coração dos justos diante da iniquidade e do sofrimento do outro.  É o que enche de desejo de comungar com a dor do outro e fazê-la sua.

Perante as vítimas inocentes da  injustiça, dentro de um ambiente de globalização e pluralismo como é o nosso hoje, existirá   um critério de entendimento e convivência irrevogavelmente reconhecido e vinculante para todos e, neste sentido, capaz de ser reconhecido como verdadeiro? Parece-me ser compaixão a palavra-chave para encontrar a resposta. Pois ela é capaz de suscitar a memória subversiva das vítimas para fazê-las de novo ativas na história.

          É  este conceito-atitude que procura exprimir a necessidade de o cristianismo abandonar a sua ameaçadora autoprivatização acomodada.  Compassio não é um sentimento a partir de cima ou de fora, mas a percepção do sofrimento alheio, no qual se toma parte e que eticamente obriga. Para esta compaixão, vale o imperativo categórico: “para, escuta e olha”.

          A compaixão é a capacidade de partilhar o sofrimento do outro. Com efeito, o mais terrível do sofrimento não é tanto ele em si, mas a solidão que nele se experimenta. Por isso alguns teólogos contemporâneos tratam de elaborar uma memoria passionis (memória da paixão)  como categoria de base de uma teologia em espaço público. Trata-se de recordar – lembrar com o coração - os sofrimentos dos outros; fazer  um rememorar público do sofrimento alheio, incorporado de tal maneira ao uso público da razão que a esta imprima um selo.

A compaixão parte, portando, da universalidade da experiência do sofrimento. A partir daí entende a teologia contemporânea a necessidade de uma nova teologia política que contribua vigorosamente para uma Igreja compassiva, funcionando a “memoria passionis” como recordação provocadora que fundamenta uma nova ética.

          Os que sofrem, as vítimas de todo tipo, teriam então uma autoridade. E esta autoridade seria a autoridade interior de um ethos global, de uma moral mundial, que obrigaria todos os homens anteriormente a qualquer ideologia, a qualquer entendimento. Uma moral que,  por conseguinte,  não pode ser posta de lado ou relativizada por nenhuma cultura e por nenhuma religião, ou igreja. Toda verdadeira mística, hoje, sobretudo após Auschwitz, não pode não ser inspirada por esse ethos.  E uma política inspirada por este ethos seria mais e diferente de uma pura executora das orientações do mercado, da técnica e de suas opressões objetivas em nossos tempos de globalização.  Seria, portanto, mais humanizante e libertadora.      

          Aquilo que a teologia política explicitará na Europa do pós-guerra, que a teologia da libertação tematizará na América  Latina a partir dos anos 1970, muitos já o viviam e o vivem em suas vidas e experiências espirituais, explicitando-o em sua práxis. Referimo-nos aqui a fenômenos como o dos padres operários, na Europa dos anos 1950; a pessoas como Madeleine Delbrel, apóstola das ruas de Paris; a Simone Weil, filósofa agnóstica que a partir da dureza do trabalho da fábrica vivido em seu corpo encontra a Deus e a Jesus Cristo, já nos anos 1930, antes mesmo dos horrores da guerra. E a tantos outros e outras que já viviam e narravam o que a teologia posteriormente elaborou em estilo articulado e rigoroso.

          É  possível, portanto, afirmar que o critério universal da condição humana se encontra na interpelação feita pela pobreza e a dor do outro e pela compaixão que ela origina.  Todo este movimento não é apenas ético, mas também místico - ou melhor, é místico porque ético e vice-versa -  uma vez que na Revelação bíblica e no Cristianismo ambas as coisas não se dissociam. Só encontrando aí sua fonte de inspiração primeira e iniludível pode a Teologia não ser infiel à sua identidade e à sua missão.

     Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).