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segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Semelhança com Jesus* Morto

 Luiz Carlos Bezerra


 

 

Não é apenas uma semelhança

Entre o corpo de Cristo abandonado

E o povo yanomami sacrificado

Que estão nus da humanidade e da crença

 

A dor do abandono se estende a ambos

Eles  estão cadavéricos - rígidos

Trazem o semblante da dor sofridos

Pois estão putrefatos e  insepultos

 

Quedo-me parado sem natureza

De olhar a foto sem sentir tristeza

Ante a imagem do yanomami morto

 

Se alguém for indiferente aos abusos

E não vir no yanomami, Jesus

Não vera Cristo em nenhum sujeito

 

Rodiadouro - Bonito - PE, 22 de janeiro de 2023.

 

 

* Pensando com o profeta:

 

Isaías 53, 2-3

 

2 Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos.

3 Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.

 

 

#Ajudayanomami

#Foragolpistas

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

RECONSTRUÇÃO SE FAZ COM MOBILIZAÇÃO

Frei Betto


 

       A vitória eleitoral de Lula sinaliza a derrota das forças destrutivas que se apoderaram da administração federal nos últimos quatro anos. Não sei se o lema do novo governo – “União e Reconstrução” – se transformará em fato. União nacional não é tarefa fácil. 

       A cultura bolsonarista, impregnada de ódio, contaminou inúmeras pessoas que se somaram aos 58 milhões de votos recebidos por Bolsonaro no segundo turno. E não há possibilidade de união nacional nessa sociedade injustamente marcada por gritante desigualdade social. 

       Contudo, reconstrução é viável. Lula tem plena consciência do que precisa ser feito. Seus discursos de posse expressam o caráter deste terceiro mandato, onde se destacam três prioridades: combater a fome e a insegurança alimentar; reduzir a desigualdade social; proteger nossos biomas e fortalecer as políticas socioambientais.

       Lula está atento ao que deveria ter sido feito em seus primeiros mandatos e, por força da conjuntura, não aconteceu. Sabe que, agora, é talvez sua última oportunidade de governar o Brasil. Na conversa privada que tivemos no Itamaraty, na noite de 1º de janeiro, eu disse a ele que este é o início de seu penúltimo mandato. Ele sorriu. Estou convencido de que será candidato à reeleição em 2026, aos 81 anos. A quem alega a idade avançada, lembro do cardeal Roncalli, eleito papa João XXIII com 77 anos, em 1958, e com 80 promoveu uma revolução na Igreja Católica ao convocar o Concílio Vaticano II.

       Nos mandatos anteriores, Lula assegurou sua governabilidade pelo modelo “saci-pererê”, apoiada em uma só perna: o Congresso Nacional. Agora sabe que a perna mais importante é a da mobilização popular. Espero que ministros e ministras se deem conta de que apoio popular não se confunde com os 60 milhões de votos recebidos por Lula. Depende de intenso trabalho pedagógico. Não brota do espontaneísmo nem resulta automaticamente das políticas de inclusão social. Feijão não muda automaticamente a razão. 

       Participação cidadã advém de consciência crítica, organização e mobilização. E o governo federal dispõe de amplos recursos para promovê-las, desde poderoso sistema de comunicação à seleção de livros didáticos. Sobretudo valorizar a capacitação política de seus representantes em contato direto com a população, como os 400 mil agentes comunitários de saúde.

       Sem povão não há solução!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

VOTANDO COM SENTIDO

Maria Clara Bingemer


 

            Acordei na segunda feira, 31 de outubro de 2022, com  a sensação de espanto e a surpresa dos sobreviventes. As eleições haviam acontecido e o Brasil tinha novo Presidente.  O ar parecia mais puro e era possível respirar.  O medo se fazia longínquo e a vida retomava seu curso.  Lula era o presidente. 

            O tempo que precedeu esta segunda-feira foi de muita dor. O estresse era geral e agudo.  As pessoas viviam tensas  e  amedrontadas.  E de que tinham medo?  Que o pesadelo que já durava quatro anos continuasse.  E seguisse.  E se perpetuasse.  

            As mensagens de ódio e violência se sucediam na internet, amigos rompiam relações, familiares se afastavam.  A divisão – sinal claro e inequívoco segundo a Bíblia cristã do sufocamento do Espírito da paz, da alegria e do amor – reinava impune, separando, fragmentando e destruindo. 

            Na véspera do pleito, o fôlego e o alento eram artigos raros, luxo para poucos.  A ansiedade fazia o ar espesso e irrespirável.  Nada parecia fazer sentido na angústia de não dar certo o imenso esforço de tantos para superar o momento vivido que se arrastava. O horizonte em vez de aproximar-se, fazia-se mais distante e fugidio. O desânimo se agigantava e crescia a letargia que não permitia esboçar sequer um gesto, um suspiro, pronunciar uma palavra. 

À noite, decidida a tentar dormir, fui olhar pela última vez o computador. Ali tudo mudou.  Li as palavras: “Honre os mortos com seu voto”.  “Vote por eles e por elas”.  “680 mil pessoas não são um número.” E tudo começou a fazer sentido. Não, não era possível que tudo aquilo tivesse sido em vão.  Não era possível que o desprezo  e o pouco caso que foi cuspido em cima da dor de mães, de filhos e filhas, de irmãos e irmãs, pudessem vencer.  Não era possível que os mortos que não puderam ser chorados e homenageados permanecessem insepultos e que sua memória fosse uma e outra vez pisoteada e escarnecida pela insensibilidade cruel que tomou conta do país durante e após a pandemia, ceifando, além de vidas, a dignidade e a honradez dos sobreviventes. 

O que foi dito ao profeta Ezequiel diante dos ossos ressequidos em que se tinha transformado a casa de Israel enquanto atravessava o exílio foi repetido a meus ouvidos: “Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?”  Sentia-me tão desprovida de fé quanto o profeta, mas a pergunta era insistente. E o coração escutava mais que os ouvidos. 

Foi então que aconteceu uma profunda comunhão.  Eu não estava mais sozinha, debatendo-me com um voto em cuja eficácia não acreditava.  Comigo estavam eles e elas.  O padre jovem e dedicado, colega de docência, que morreu logo no começo da pandemia porque não abriu mão de distribuir alimento para os pobres de sua paróquia.  A mãe da amiga que disse à filha na porta do hospital “Fala para seu pai não se preocupar não.  Já já volto para casa”.  E nunca mais foi vista nem ouvida pelo esposo desolado e pela filha em prantos.  A menina de 15 anos que a televisão mostrou em foto, ao mesmo tempo em que revelava o desespero dos pais ao saber que não havia resistido ao vírus. 

Estavam igualmente os médicos cuja face já fazia uma unidade indissolúvel com a máscara cirúrgica e que, às vezes,  não suportavam e choravam.  Ou caíam doentes eles também. E eram levados junto a seus pacientes para o misterioso país das lágrimas, deixando atrás o grito de dor e o desespero impotente dos seres queridos. Estavam todos, uns e outros, eles e elas.

E os que queriam abrir os caixões, os que se debruçavam sobre eles, fechados sobre os rostos amados.  E os que sufocavam em Manaus enquanto o oxigênio não chegava.  E os que se deitavam no chão das enfermarias porque leitos não mais havia.

E a enfermeira Mônica, que qual nova Eva, deu à luz a esperança, filha menor do Bom Deus ao receber em seu braço a primeira picada salvadora da vacina graças à teimosia de um governador que enfrentou as forças do mal.  

Votar por eles e por elas.  Com eles e com elas.  Isso tinha sentido, fazia todo sentido. Realizar o gesto de pressionar a tecla que se uniria a tantas outras e que significaria o fim da barbárie e a nova estação da liberdade e do cuidado com a vida. Os mortos não eram destinados à cova escura  como pretendia o discurso abominável de quem os tratou com desdém e frieza.  Estavam vivos e eram multidão.  Eles ganharam essa eleição.  O Brasil nunca poderá pagar a dívida que com eles contraiu. 

O Deus da vida que permitiu aos ossos dos israelitas exilados readquirir força e vigor fez ouvir sua voz e sentir a força de seu braço no Brasil.  “ Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos;...Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles, quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida...”

Com todos esses filhos do povo brasileiro, votamos com sentido.  Que o Senhor da vida nos permita, a partir de agora, viver com sentido, experimentando em nossa boca o agridoce sabor da liberdade e reconstruir a memória e a alma desta combalida nação. 

 

                                                           

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora

de O protagonismo dos leigos na evangelização atual (Ed. Paulinas), entre outros livros.


Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 



Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

ENCONTROS COM GORBACHEV

Frei Betto


 

      Em março de 1985, Mikhail Gorbachev assumiu a direção da União Soviética e introduziu reformas que a levariam a se desintegrar, abandonar o socialismo e      ingressar na órbita do capitalismo.

      Em maio de 1986 visitei o Kremlin, mas não estive com o líder soviético. Só fui encontrá-lo no ano seguinte, quando participei, em Moscou, do Fórum por um Mundo sem Armas Nucleares e pela Sobrevivência da Humanidade.  

      Em torno de Gorbachev já não havia o mesmo consenso do ano anterior. Muitos o aplaudiam por erradicar a gerontocracia e levar aos cárceres, como corruptos, autoridades durante décadas tidas como intocáveis. Outros, contudo, o criticavam por permitir que dissidentes de ontem caminhassem, hoje, livremente pelas ruas de Moscou. 

      O Fórum reuniu cerca de mil participantes, oriundos de 80 países. Gente das mais diferentes tendências políticas e atividades profissionais, de banqueiros a generais, de escritores a religiosos, de cientistas a artistas de cinema. Óbvio que a atenção da mídia e do público se centrava em figuras como Yoko Ono, Gregory Peck, Michel Legrand, Paul Newman e Shirley MacLaine. Do Brasil, participaram também o maestro Cláudio Santoro, o compositor Marlos Nobre e o professor Cândido Mendes.

      Ao chegar ao Kremlin para o encerramento do Fórum, entramos pela porta da antiga biblioteca de Lenin e ingressamos no Palácio dos Congressos. Gorbachev tomou assento sob a grande estátua de Lenin.

      Mereceu mais aplausos do que o anfitrião o escritor inglês Graham Greene que, com bom humor, falou de improviso em nome de homens e mulheres da cultura:      

      — Marx previra um mundo melhor, quando já não tivessem igrejas e mosteiros. Mas vivi anos na América Latina e posso assegurar que ali há cooperação entre católicos e comunistas. Juntos, lutam contra os esquadrões da morte Portanto, antes de morrer espero ver um embaixador da União Soviética no Vaticano.

      Gorbachev riu e aplaudiu, talvez sem dar importância à premonição que ele próprio haveria de cumprir, pois em janeiro de 1989 a URSS e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas. 

      Em seu discurso de uma hora e três minutos, o autor da perestroika recordou Hiroshima e Nagasaki para advertir:

      — Agora, um único submarino estratégico contém mais poder de destruição que todas as armas da Segunda Guerra Mundial. Do dilúvio nuclear não poderá se salvar uma nova Arca de Noé.

         Em seguida, ridicularizou o presidente Reagan por ter lhe proposto, num encontro, uma ação conjunta URSS-EUA, caso o nosso planeta fosse atacado por seres extraterrestres! Caímos na risada. Gorbachev defendeu a destruição imediata de todas as armas capazes de provocar genocídio; a inspeção das bases usamericanas no exterior; e o retorno de suas tropas aos EUA. Assegurou que a União Soviética estava retirando seus soldados da Mongólia e do Afeganistão, e concluiu:

      — É preciso salvar na Terra o dom sagrado da vida, possivelmente único no Universo. Para isso, é preciso acabar de vez com as armas nucleares, esse ídolo que exige sempre novos sacrifícios. Nem a União Soviética nem os Estados Unidos tem o direito de decretar pena de morte à humanidade. É preciso pôr um fim à separação entre política e moral. Queremos traduzir nossa filosofia moral na linguagem da práxis política.

      Não se ateve apenas às questões de política externa; abordou também a perestroika:

      — Vocês chegaram aqui quando realizamos reformas revolucionárias. Só compreendendo a essência delas é possível entender nossa política interna. É ela que determina nossa política externa. E o seu objetivo é o pleno e livre funcionamento de todas as formas de organização da sociedade. Queremos democratizar toda a vida social. Almejamos mais socialismo e, portanto, mais democracia.

      Encerrou sem citar nenhum clássico do marxismo. Findo os discursos, passamos todos ao salão de recepção, dividido em diversos patamares. Logo, os alto-falantes anunciaram que, dentro em pouco, "o presidente Mikhail Serguêievitch Gorbachev ingressará no salão e todos devem permanecer em suas mesas, pois ele passará cumprimentando um por um", advertiu o locutor.

      Comentei com Emílio Monte, pastor evangélico argentino sentado ao meu lado, que aquilo não daria certo. Bem fazia Fidel ao postar-se à entrada do salão, estender a mão a cada convidado e, em seguida, desaparecer.

      — Quando Gorbachev aparecer ali embaixo, ninguém segura essa boiada - adverti ao pastor. — Se quisermos cumprimentá-lo, teremos de descer.

      — Descer como? Os seguranças não nos deixarão passar.

      — Vamos descer - insisti. — Duvido que nos barrem. Devem pensar que todos aqui são muito importantes.

      Puxado por mim, o pastor se animou. Passamos pelos seguranças sem ser molestados. Logo, instalou-se um forte movimento centrífugo abaixo. Gorbachev havia entrado e, conforme eu previra, as personalidades vips súbito trocaram a etiqueta pela tietagem. 

      — Avistei ali Marcello Mastroianni - comentei com o pastor.

      — Onde? Onde? 

      O homem perdeu a compostura. Não queria mais nada com Gorbachev. Suplicou para ajudá-lo a descobrir o ator italiano. Entramos num impasse: eu queria ir na direção de Gorbachev e, ele, na de Mastroianni. Os alto-falantes rogavam, em vão, que as pessoas retornassem às mesas. Previ que Gorbachev não daria mais nenhum passo para dentro do salão e, o quanto antes, trataria de fugir daquela turba. Minha intuição sugeriu que ele faria uma curva antes de alcançar a porta de saída. Postei-me no local da curva, em companhia do pastor, que prosseguia de pescoço esticado à cata de Marcello Mastroianni. Logo, Gorbachev veio em nossa direção, acompanhado pelo empresário estadunidense Armand Hammer, que fora amigo de Lenin e, na Guerra Fria, servira de vínculo confiável entre a Casa Branca e o Kremlin. 

       Antes de nos movermos ao seu encontro, o dirigente soviético veio em nossa direção.  Mas logo se viu de novo cercado por outros ansiosos por cumprimentá-lo. Estampando seu sorriso tímido, Gorbachev tratou de apressar o passo e desapareceu atrás da porta que lhe prometia tranquilidade.

      Anos mais tarde, reencontrei-o no norte da Itália em um evento cultural. Já não atraía a atenção, talvez por ter deixado como legado um país imerso no mais visceral capitalismo, governado por um caudilho e impregnado das mesmas ambições expansionistas do antigo Império Russo e da União Soviética.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Juventudes e o cuidado com a Terra


Marcelo Barros


 

Encerrou-se em Glasgow a COP 26 da ONU sem dar à humanidade nenhum forte sinal de que governos e grandes empresas estejam realmente dispostos a curar o planeta Terra. Este continua ferido e ameaçado de morte, principalmente, pelo agronegócio, pela mineração, indústrias de armamento e, em geral, pelo sistema capitalista.

A Conferência da ONU sobre mudanças climáticas agiu como o médico que, diante de uma pessoa vítima de câncer destruidor, planeja por quantos dias, prolongará a vida do paciente.

A humanidade já sabia que a cura e a salvação da Mãe Terra não viriam de governos e dos que administram a economia dominante. A surpresa foi o protagonismo da Juventude nas iniciativas paralelas em Glasgow e nas mais diversas cidades do mundo. Durante a conferência oficial, milhares de jovens fizeram manifestações em defesa da Terra. Nestes dias, se espalham pelo mundo iniciativas pela ecologia integral. Na Suécia, a jovem Greta Thumbert criou e lidera o movimento Fridays por future. Na Inglaterra, Anna Taylor (17 anos) organiza uma rede de juventude estudantil consagrada às mudanças climáticas. Na Bélgica jovens como Anula de Wever e Kyra Gantois lideraram marchas pelo ambiente. Nos Estados Unidos, a adolescente Nadia Nazar e em Uganda, na África, Vanessa Nakate (24 anos) assumem liderança nos movimentos ecológicos. No Brasil, todas as pessoas que desenvolvem sua inteligência amorosa, em comunhão com os outros seres vivos se sentiram ligados à profecia da jovem índia Txai Suruí, a brasileira que pôde fazer ouvir sua voz na conferência da ONU. Ela expôs de forma lúcida e corajosa a situação trágica e dolorosa dos povos indígenas, a destruição da Amazônia e de todos os biomas brasileiros. Ela pediu socorro contra a política de morte que ameaça a Terra e o nosso povo.

O protagonismo das juventudes no cuidado com a mãe Terra nos dá esperança e ânimo. São principalmente lideranças jovens que na Igreja Católica levam adiante o Movimento Laudato si. É um desafio profético que Igrejas, dirigidas por hierarquias mais adultas se deixem animar por adolescentes e jovens.   

Há quem se pergunte se o desafio ecológico poderá ser enfrentado pela sociedade civil e quais as propostas que as juventudes nos trazem.

Sem dúvida, a primeira contribuição das juventudes é confirmar o que vemos e interpretamos melhor o mundo e a história quando vemos a partir de baixo, ou seja, quando assumimos o olhar dos movimentos populares, dos povos originários, das comunidades negras e, particularmente das/dos coletivos de juventudes militantes e inseridos nesses setores.

Nestes dias no Brasil, muitos amigos e amigas jovens me afirmaram que têm sido estimulados pelo site “Outras palavras”, brilhantemente coordenado pelo jornalista Antônio Martins e que agora retomou o projeto “Resgate” que entrevista diversas pessoas militantes nos projetos de resistência e de propostas inovadoras para vencermos o caos e ensaiarmos modos novos e originais de organizar o mundo e a sociedade.

Para muitos e muitas de nós trabalhar novas formas de habitar o território, investir no eco-regionalismo, ou pensar em formas brasileiras, o que o militante curdo Abdallah Ocalan chamou de “confederalismo democrático” não significa apenas ensaiarmos a utopia aqui e agora, mas vivermos a espiritualidade libertadora que a maioria das religiões e tradições espirituais nos ensinam. Hoje, a cura da Mãe Terra e os caminhos da ecologia integral são traduções indispensáveis da compaixão budista, da misericórdia muçulmana, do Axé afrodescendente ou do amor ao próximo judaico-cristão. 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

SOFRER COM QUEM SOFRE: A ATUALIDADE DA COMPAIXÃO

Leonardo Boff


Um manto de sofrimento e de dor cobre toda a humanidade, ameaçada pelo Covid-19. A cultura do capital, dentro da qual vivemos, se caracteriza pelo individualismo e por uma clamorosa falta de cooperação.O Papa na ilha italiana de Lampeduza, vendo centenas de africanos chegando de barco da África e sendo mal acolhidos pela população local,disse quase entre lágrimas: “Nossa cultura moderna nos tirou a compaixão pelos nossos semelhantes; nós nos tornamos incapazes de chorar”.

Parece que a inflação de racionalidade instrumental e analítica nos causou uma espécie de lobotomia: fizemo-nos insensíveis ao sofrimento do outro. O atual presidente é a mais trágica comprovação desta indiferença. Jamais visitou um hospital superlotado de contaminados pelo Covid-19, muitos morrendo sufocados.Sem qualquer sentimento leu num discurso público uma frase fria que lhe preparam mas que se sentia não vir de um coração sensibilizado pelas quase 600 mil vidas ceifadas por sua política necrófila.

A pandemia nos fez descobrir  a nossa profunda humanidade: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade e o cuidado necessário. Fez-nos mais sensíveis. Trouxe de volta a compaixão.

Ter compaixão não é ter pena dos outros, olhando-os de cima para baixo.Compaixão é a capacidade de sentir e compartilhar a paixão do outro, dizer-lhe o ouvido palavras de esperança, oferecer-lhe um ombro e dizer que está ai junto para o que der e vier, é ser capaz de chorar juntos mas também de mutuamente animar-se.

A compaixão é um sentimento humano transcultural. Encontra-se em todas as culturas: todos se vergam sobre o caído e se inclinam diante da dignidade do sofrimento do outro.

Tempos atrás descobriu-se um ancestral túmulo egípcio com esta inscrição, cheia de compaixão:”eu fui alguém que escutou a queixa da viúva; fui alguém que chorou por uma desgraça e consolei o abatido; fui alguém que ouviu o soluço da menina órfã e enxuguei-lhe as lágrimas; fui alguém que teve compaixão de uma mulher desesperada”.

Hoje os familiares dos mortos e afetados pelo Covid-19 que deixou nos curados sequelas graves nos conclamam a viver este lado melhor de nossa humanidade: a compaixão. Santo Tomás de Aquino escreveu na sua Suma Teológica que a compaixão é mais excelente que o amor ao próximo; este se dirige ao outro; a compaixão se dirige ao outro que sofre.

Da física quântica, da cosmologia contemporânea e da bioantropologia aprendemos que a lei fundamental de todas as coisas e do inteiro universo não é a competição e o triunfo do mais capaz de adaptação, mas é a cooperação e a sinergia de todos com todos. Até com o menor e mais fraco tem que de viver pois possui o seu lugar no conjunto dos seres e carrega em si uma mensagem a ser ouvida por todos. Neste campo também vale a compaixão entre todos os seres para além  dos humanos.

De São Francisco que se compadecia especialmente dos hansenianos (leprosos), da minhoca que não conseguia fazer um buraco no solo duro do caminho e a tirava, compassivo, e a levava à terra úmida ou do galhinho quebrado, se conta a seguinte legenda:

Encontrou um menino que levava numa gaiola pombinhas para serem vendidas no mercado. Suplicou-lhe: “bom menino, dê-me estas pombinhas tão humildes e inocentes para que não sejam mortas e comidas pelos homens”. O menino, tocado pelo amor inocente de São Francisco deu-lhe a gaiola com as pombinhas. Sussurando, disse-lhes São Francisco: “minhas queridas irmãzinhas, tolas e simples, por que vos deixastes apanhar? Eis que vou libertar-vos”. Abriu a gaiola. Ao invés de saírem voando, elas foram se alinhar  em seu peito e em seu capuz e não queriam sair. São Francisco levou-as para a ermida e lhes disse: “multiplicai-vos como vosso Criador o quer”. Tiveram muitos filhotes. Não saiam da companhia de São Francisco e dos frades, como se fossem domésticos. Só levantaram voo e sairam pelos ares quando São Francisco as abençoou e as deixou ir embora.

Como se depreende, a compaixão, bem na linha do budismo e do “Fundamento da moral”(1840) de Arthur Schopenhauer, toda fundada da ilimitada compaixão para com todos os seres, não é importantíssima só para quem está sofrendo atualmente, mas para toda a criação.

Concluamos com as palavras inspiradoras de Dalai Lama:”Quer você creia em Deus, quer não creia, quer creia em Buda ou não …Temos que participar dos sofrimentos das outras pessoas. Mesmo que você não possa ajudá-las com dinheiro, mesmo assim sempre é válido expressar apoio moral e empatia. Esta deve ser a base de nosso agir. Se chamamos isto de religião ou não, é o que menos importa”(Lógica do amor, 1998).O que importa é a compaixão.

Leonardo Boff escreveu Princípio de Compaixão e de Cuidado😮 encontro entre Oriente e Ocidente, Vozes 2009

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TEOLOGIA COM SABOR LATINO


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



Ser latino é nascer em algumas latitudes.  Ou ter ancestrais próximos que nasceram nessas latitudes, situadas ao sul do mundo antigo, nas praias do Mar Mediterrâneo. Os povos mediterrâneos construíram uma riqueza cultural complexa, identificada com o Lácio, mais especificamente a Roma antiga.

Ser latino significa ainda falar e expressar-se em determinadas línguas, denominadas latinas, quais sejam o italiano, o espanhol, o francês e o português. Nessas línguas os povos latinos escreveram, fizeram arte, construíram saber que hoje ainda é patrimônio precioso para toda a humanidade.

Alguns desses povos latinos saíram de seus lugares de origem e vieram para o sul da América, continente descoberto pelo genovês Cristóvão Colombo crendo achar o caminho para as Índias.  Encontraram o novo mundo chamado América e o colonizaram.

Posteriormente, ingleses e franceses dirigiram-se para o norte do continente americano e ali construíram o que hoje conhecemos como Estados Unidos e Canadá. Muitos territórios latinos foram apropriados pelo país que surgia e passaram a ser contados em sua federação.

Hoje chamamos latino-americanos os que vivem no sul do continente e norte americanos os que vivem ao norte.  Sucede que o mundo globalizado flexibilizou as fronteiras e há muitos anos o Sul migra para o Norte, sonhando e buscando encontrar aí uma vida melhor, com trabalho e prosperidade. A migração, no entanto, não significa a morte da cultura.  Por isso, hoje, nos Estados Unidos, existe uma grande presença da cultura latina, que resiste ao desaparecimento de sua identidade e leva a cabo ricas produções culturais e científicas que enriquecem não só o país onde vivem, mas toda a humanidade.

Uma dessas áreas é a teologia, reflexão sobre a fé, que elabora um discurso sobre as características dessa cultura e dessa religião inseridas em um país estrangeiro.  Partindo sobretudo das categorias do cotidiano, das celebrações, das festas e rituais, a teologia latina dos Estados Unidos converteu-se aos poucos em uma importante escola de teologia que é parceira obrigatória nos grandes debates e reflexões daquele país.

Até o momento, essa teologia dialogava entre si e com teólogos americanos, não somente descendentes de anglo-saxões, mas também de africanos e de asiáticos. Recentemente, porém, vem descobrindo um novo parceiro de diálogo: a teologia latino-americana.

Quando se olharam nos olhos, essas duas teologias constataram que eram irmãs de sangue.  Em suas veias corria um sangue feito dos povos originários indígenas e afro-ameríndios, primeiros habitantes dos países ao sul da América.  Em seu coração palpitava o desejo de que a fé,  raiz de sua vida, fosse igualmente sua forma de presença em uma cultura onde viviam como em exílio. Exílio físico para os latinos dos Estados Unidos; exílio social para os latino-americanos, cuja teologia brotava do encontro com o Senhor no rosto do pobre e do acompanhamento da fé do povo de Deus.

E um dia um Papa latino-americano, vindo do Sul, do fim do mundo, foi eleito para o trono de Pedro.  Sua liderança, seu carisma, sua capacidade de renovação e de diálogo fizeram ambas as teologias se verem por ele representadas e se sentirem ainda mais estimuladas ao diálogo e à mútua colaboração.

Hoje, o diálogo entre essas duas teologias tem diante de si um vasto e promissor horizonte.  Ambas sabem que podem enriquecer-se mutuamente e potencializar a força delas na comunidade teológica internacional.  Ambas esperam que sua reflexão e seu discurso sejam ouvidos em outras partes do mundo e possam fazer uma diferença importante no pensar e discorrer sobre a fé que é a teologia. Ambas sonham com o dia em que essa presença teológica latina tenha lugar reconhecido, de fato e de direito, nos grandes fóruns internacionais de pensamento, seja de teologia, seja de outras áreas do saber.  

Ambas manejam novas epistemologias vindas do sul.  O Sul real que é o da América Latina. E o Sul inserido no Norte, que é o da comunidade latina dos Estados Unidos. Desde este sul que quer dar-se a conhecer, a pensar e ajudar a crer essas teologias desejam dizer uma palavra não apenas para as igrejas, mas para a sociedade e a academia. Ambas fazem teologia com sabor latino e aí está sua riqueza e diferença.

  Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 
  Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ORDENAÇÃO DE MULHERES? PARA QUAL IGREJA E COM QUAL TEOLOGIA?

Por Ivone Gebara



Minha reflexão embora se abra a um contexto internacional da Igreja Católica Romana se situa mais particularmente no contexto latino-americano até certo ponto menos envolvido na temática da ordenação de mulheres. Nunca fomos assíduas lutadoras nessa reivindicação. Entretanto, nessas últimas semanas em meio ao conturbado contexto político nacional, uma quantidade significativa de textos sobre o assunto tem sido divulgada pelas redes sociais, sobretudo católicas.

Da mesma forma, em diferentes sites nacionais a reflexão sobre a ordenação de mulheres e a possível constituição de uma comissão de estudo no Vaticano para o diaconato feminino tem ocupado espaço significativo. Até uma paróquia da zona leste da cidade de São Paulo organiza para breve um debate sobre o tema. Muitos textos divulgados contam histórias de mulheres que segundo a oficialidade da Igreja Católica foram ilegitimamente ordenadas e, por isso, excomungadas. Calcula-se que mais de duzentas mulheres estejam hoje nessa situação e entre elas há também algumas poucas bispas, ordenadas sigilosamente por bispos refratários às ordens vaticanas. A questão da ordenação das mulheres sai de novo das catacumbas e começa a ver a luz do dia, apesar de envolta em mil e uma dificuldades provenientes de posições de grupos os mais diversos e divergentes.

Uma questão crítica

Reconheço que a efetivação da ordenação de mulheres seria um passo que, segundo algumas pessoas, poderia sanar em parte uma situação de desigualdade pública na sociedade e especialmente na Igreja Católica Romana. Entretanto, é preciso deixar claro que para muitas adeptas e adeptos da ordenação de mulheres trata-se apenas da afirmação de um “direito” de ambos os sexos de representarem Jesus Cristo diante da comunidade e não necessariamente de uma reivindicação feminista. Em outros termos, trata-se de pensar apenas na integração das mulheres ao sacerdócio oficial guardando-se a mesma forma de pensar e viver a Igreja. Critica-se a autoridade católica por não abrir espaços às mulheres quando o que elas pedem é estar a serviço da Igreja em diferentes tipos de trabalho e especialmente no ministério ordenado.

Quero apenas abrir algumas pistas de reflexão frente a essa questão de complexa solução no momento.

A meu ver o problema crítico situa-se justamente na consideração do direito das mulheres muitas vezes tomado de forma bastante simplista. O que significa um direito quando a instituição na qual se quer ter direitos é uma das que nega ou que não apóia muitos direitos às mulheres? O que significa ter direito numa instituição cuja ideologia teológica segue valorizando e incentivando o poder masculino em detrimento de uma visão mais participativa e diversificada de serviços, carismas e poderes? O que significa ter direito à ordenação de mulheres quando há uma visão do sacerdócio eminentemente masculina, anacrônica e com uma secular simbologia teológica masculina? O que significa esse direito quando outros direitos são frontalmente desrespeitados? Será que a admissão ao sacerdócio ordenado traria respostas a essas espinhosas questões?

A teologia sacerdotal vigente

A partir da teologia sacerdotal vigente os padres são revestidos de poderes não apenas simbólicos, mas poderes políticos e sociais que lhes permitem orientar vidas e até manipulá-las ou dominá-las.

Usam muitas vezes dos textos bíblicos como lhes convém e justificam suas escolhas como se fossem emanações evangélicas. Sem dúvida as exceções sempre existem e não quero esquecê-las. Mas, o mais comum é os padres concentrarem uma autoridade sobre as pessoas e especialmente sobre as mulheres mantendo e justificando de muitas formas as hierarquias que dominam a terra.

 Essa concentração exagerada de poder impede a ascensão e organização de ministérios ou serviços múltiplos a partir e em favor das comunidades cristãs. Além disso, o modelo de sacerdote que se apresenta é o sacerdócio de Jesus numa interpretação judaizante que me parece cada vez mais distante das ações e inspirações que descobrimos nos Evangelhos. Em vez de renunciarem ao poder que os coloca em evidencia e ao lado de seus pares seculares fortaleceram as alianças entre poder político, econômico e religioso ao longo dos séculos. Impõem decisões e muitos atuam de forma desrespeitosa, sobretudo quando o assunto refere-se à sexualidade feminina.

Reconheço o papel social e cultural de sacerdotes, pajés, mães e pais de santo, imãs nas diferentes religiões e sua evolução na história contemporânea. Estes atores e atoras sociais não são apenas os únicos “guardiães” da tradição religiosa a que pertencem, mas líderes que deveriam ter o coração colado às necessidades de suas comunidades. Dessa forma a participação dos membros nos serviços e na construção de significados atualizados seria uma responsabilidade comum. Isto requer um constante diálogo e uma divisão de saberes e poderes para responder aos sempre novos desafios do contexto em que se vive. Nesse sentido não pleiteio a extinção do papel de pessoas mais preparadas ou líderes éticos em relação aos conteúdos e tradições religiosas, mas estas pessoas só deveriam ter sua autoridade legitimada na medida em que estiverem em conexão com as questões vividas pela comunidade.

Reforma política da Igreja Católica

Nessa perspectiva não penso que as mulheres devam fortalecer um modelo de sacerdócio hierárquico masculino e nem aceitar a ordenação a partir de uma teologia também hierárquica no seu conteúdo e de simbologia fundamentalmente masculina. No processo histórico atual não se fala de “reforma política na Igreja Católica” o que seria a meu ver útil e necessário. É como se a política e a organização atual da Igreja proviessem diretamente de Deus, segundo a vontade de Jesus e se apresentassem de forma imutável nos diferentes séculos da história e nas diferentes culturas onde o cristianismo se implantou. Falar em “reforma política da Igreja Católica” implica igualmente falar de uma reforma das teologias que sustentam essas políticas de caráter masculino patriarcal centralizador. E a reforma dessa teologia vai revelar quase o óbvio, ou seja, a existência não só de muitas teologias e interpretações, mas entre a vida ordinária cotidiana e as teologias que sustentam a organização da Igreja nos seus diferentes níveis. Em termos concretos estou querendo dizer que uma coisa é a vida de cada dia e outra coisa é a teoria política teológica de uma organização religiosa com suas leis e princípios e, sobretudo com a diversidade de pessoas que dela participam. A pretensa uniformidade dos dogmas, a legalidade das leis canônicas escritas, apesar de sua utilidade, vão de encontro ao pluralismo das situações e crenças presentes nas diferentes culturas e momentos da História. A Igreja hierárquica nem sempre as respeitou, mas muitas vezes as combateu como negações da verdadeira doutrina revelada por Deus. É nesse contexto que também se pode falar das teologias feministas e de sua crítica ao centralismo religioso e ao corte eminentemente masculino de sua simbologia religiosa. Têm denunciado com insistência os abusos do poder religioso, sobretudo em relação à posse indevida da decisão sobre nossos corpos. Têm reinterpretado de forma rica e contextualizada a Bíblia e as teologias de forma a responder aos desafios atuais de nosso mundo.

Estas teologias são quase absolutamente rejeitadas ou ignoradas pelos mantenedores da tradição masculina, pois fogem do roteiro estabelecido por esta tradição.

Teologia feminista

Suspeito que boa parte do movimento em favor da ordenação das mulheres não trabalha na linha crítica assumida por muitas teologias feministas. Buscam apenas a igualdade de gênero nos ministérios sem fazer perguntas às bases de sustentação teológica e política da Igreja na atualidade.

Em geral, apenas visualizam o direito das mulheres a exercer ministérios na Igreja Católica pré-definida, na Igreja “universal” já constituída do ponto de vista de sua organização hierárquica. É como se apenas ao se tornarem presentes nas fileiras sacerdotais, as mulheres pudessem por sua presença modificar algo do panorama real, visual e formal de sua representação até agora unicamente masculina. Não ignoro a importância do visual, das quotas de representatividade, mas apenas isto não modifica por dentro nossas convicções. É preciso ter claro quais os comportamentos sociais, políticos e eclesiais que devem acompanhar a ordenação das mulheres. Que novas políticas a Igreja vai assumir, que orientações se vai propor quando novos “sujeitos”, os femininos, passarem a fazer parte de seus quadros de direção e da liderança das comunidades nos diferentes níveis. Estas são exigências que nós mulheres devemos fazer para não assumir algo como se fosse um favor dos homens de Igreja ou um ato magnânimo de concessão a nós simples mulheres.

Opino dessa forma porque conheço algumas das sacerdotisas, pastoras e candidatas ao sacerdócio feminino e minha impressão embora limitada e discutível, carrega a percepção de que não conseguirão uma mudança qualitativa e significativa na estrutura atual da Igreja Católica. Muitas apenas pedem o sacerdócio, mas não expõem e nem exigem as condições de seu lado para essa efetivação.

Trabalham como se a Igreja que deve reconhecê-las fosse, sobretudo o episcopado e o papado, instituições ministeriais masculinas. São estas que devem conceder-lhes a autorização para servirem a comunidade. Elas, sem perceber, se tornam ou se consideram menos Igreja identificando-a a hierarquia que a governa. Algumas dessas mulheres sacerdotisas têm trabalhos de ponta junto a populações marginalizadas e discretamente reorganizadas por elas. Algumas têm até doutorados em teologia e estudaram em universidades de renome internacional. E, no entanto, essa capacitação não é reconhecida pelos prelados. Posso entender a emoção e o desejo de muitas mulheres de se verem no altar, de sentirem que presidem uma celebração eucarística publicamente e que têm certo poder na comunidade. Posso até avaliar a emoção que algumas narraram de poder levantar a hóstia e dizer “este é o corpo de Cristo” como um sonho de infância esperando ser realizado. Ou ainda a emoção de sentirem-se chamadas de ‘pastoras’, ‘madres’ (?), presbiteras ou diáconas numa paróquia. Não as condeno, mas acredito que poderíamos ir mais longe e exigir bem mais num diálogo que deveria ser entre iguais e não entre superiores e inferiores.

Afetos e poderes absolutos e domésticos

Nessa problemática da ordenação das mulheres há um dado igualmente importante que nem sempre é considerado. Trata-se do fato de o Cristianismo na sua forma católica romana ser uma religião organizada a partir de fortes emoções culturais onde o circuito dos afetos revela uma espécie de divisão social de poderes que reproduz a sociedade na qual vivemos. A figura masculina de Deus Pai, Filho e Espírito Santo reveste-se de poder sócio-emocional absoluto enquanto que as figuras femininas como Maria e as muitas santas revestem-se de poder absoluto doméstico, cuidador, acolhedor, protetor e sanador. A representação sacerdotal masculina aparece também emocionalmente ligada ao poder político absoluto masculino, embora muitas vezes, o poder efetivo e decisivo no imediato seja o feminino. Sabemos bem que a ordenação masculina obedece a uma dogmática hierárquica masculina que no fundo começa pela imagem de Deus Pai entregando poder a seu Filho único que envia o Espírito perpetuado e simbolizado pelos sacerdotes masculinos.

Estaríamos nós mulheres, com o advento do feminismo, do pensamento crítico e da teologia feminista plural, dispostas a manter essa anacrônica hierarquia masculina? Estaríamos dispostas a manter a diferença entre sexo masculino e sexo feminino como desnível de capacidades que se expressa também no desnível salarial no serviço às comunidades? Estaríamos querendo manter a divisão social dos afetos e poderes de forma mecânica e naturalizada? Um pequeno exemplo chama nossa atenção. Hoje em muitas dioceses há uma discrepância salarial entre os padres e as freiras e leigos por serviços semelhantes... A discrepância salarial para além das necessidades de cada um reflete mais uma vez a manutenção do privilégio das hierarquias masculinas no interior da Igreja. A revolução de significados em curso nos tempos de hoje não estaria indicando a necessidade de sair das afirmações dogmáticas do passado e abrir novas possibilidades para repensar a herança cristã para nossos dias? A expansão da luta plural pelos direitos humanos não tocaria igualmente direitos mais amplos na Igreja na diversidade de suas comunidades, organizações e ministérios?

A naturalização

Outro aspecto importante nessa problemática refere-se ao perigo de naturalizarmos os comportamentos masculinos e femininos acreditando que todos os pertencentes a um ou outro gênero e até mesmo os transgêneros, se comportariam da mesma maneira. A naturalização significa tornar certos comportamentos como pré-dados pela natureza ou por Deus e afirmar, por exemplo, que a vocação sacerdotal das mulheres é o cuidado diário e não a lida nas políticas públicas em favor do bem comum. Era isso que se acreditava, por exemplo, em muitos países no tempo da luta sufragista das mulheres. Não se pode mais acreditar que existem tarefas ou trabalhos especificamente masculinos e outros especificamente femininos como se tivéssemos identidades laborais pré-definidas e comportamentos já pré-atribuídos a essas identidades. De certa forma essas atitudes assemelham-se as de Jean Jacques Rousseau e séculos depois ao do positivista Augusto Comte que queriam educar as mulheres em função dos homens e da família e buscavam preservá-las da política e dos vícios da vida social para o benefício da sociedade, dos maridos e da educação dos filhos. Além disso, consideravam as mulheres moralmente melhores do que os homens a até vítimas ilibadas reservando a elas um lugar que nada mais era do que uma reprodução talvez melhorada da naturalização dos comportamentos sociais de gênero. Assistimos hoje a reflexões e atitudes semelhantes embora com matizes e justificações diferentes. Estas precisam ser desconstruídas para que nosso rosto humano misturado apareça na sua complexidade e ambigüidade.

A história

Nesse contexto de “pedido” de ordenação das mulheres não podemos nos esquecer também das perseguições que prelados e funcionários da Igreja Católica Romana exerceram e exercem em relação às mulheres. Acusadas de bruxas ou de usurpadoras do poder de pensar que deveria ser apenas masculino foram condenadas à morte ou perseguidas e castigadas durante sua vida. De Ipazia de Alexandria (assassinada por ordem de futuro São Cirilo de Alexandria), a Marguerite Porette ( condenada à fogueira), a Joana D’Arc (condenada à fogueira) e Juana Inés de la Cruz(condenada e proibida de escrever e ensinar) e, sem falar das muitas contemporâneas, as figuras femininas massacradas por ousarem penetrar nos átrios do saber teológico foram milhares. Será que podemos esquecer estas histórias e também esquecer que nos séculos XX e XXI as teologias feministas repensaram boa parte da tradição cristã, mas que esse pensamento é minimamente conhecido além de freqüentemente recusado pelos donos do poder e saber religioso? A recusa a pensar de outro jeito é com freqüência característica das hierarquias religiosas e políticas... Podemos acaso esquecer que alguns eminentes personagens de nossa história atual até propõem a ‘ingenuamente’ a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ ou de uma ‘teologia feminina’ ignorando completamente o percurso já feito durante séculos de história e particularmente da história desses últimos 40 anos? E mais não aceitam sequer que se fale de feminismo no interior da Igreja...

Continuam usando um conceito de igualdade abstrata, igualdade diante de Deus, sem confrontar-se com a real situação de violência e exploração vivida pelas mulheres. É simplesmente lamentável...

Podemos acaso esquecer que ainda hoje há interrogatórios, cartas de advertência, admoestações a congregações religiosas femininas, a teólogas e filósofas que acolhem o dom de pensar a vida como parte do serviço ao Movimento de Jesus? Tudo se articula com tudo. 

Uma reivindicação não é um pedido isolado de um conjunto. A ordenação das mulheres se inscreve nesse complexo contexto de idéias e crenças clericais que governam mentes e corações e mantém estruturas organizacionais anacrônicas. Não pode haver um direito isolado da conjuntura em que ele deva ser afirmado e vivido.

Situação ideal?

Muitas pessoas poderão alegar que busco uma situação ideal para o exercício público do sacerdócio ordenado feminino. De forma alguma. Sinto-me apenas chamada a ajudar a refletir sobre velhas e novas questões em que algumas soluções que parecem justas e igualitárias escondem os sinistros meandros do fortalecimento de um poder hierárquico e patriarcal no qual continuamos a viver, a nos alimentar e alimentar outras vidas. Antes mesmo de aprovar esse sacerdócio como direito das mulheres, o que não penso que o governo atual da Igreja Católica fará, teremos que refletir sobre as condições do direito que pleiteamos e os limites do modelo de sacerdócio vigente. Ao mesmo tempo em que este modelo ainda presta alguns serviços à comunidade cristã, também a isenta de muitas responsabilidades frente à construção de sentidos e à organização plural da vida cristã. Por isso sou contra a ordenação das mulheres como concessão, no estilo atual, pois esse é igualmente limitativo e pernicioso para os homens e mulheres.

Tenho consciência, embora bem limitada, da história das mulheres na Igreja Católica Romana e do enorme percurso de lutas que nós percorremos no Cristianismo. Desde a participação próxima e íntima no Movimento de Jesus até os dias de hoje temos sustentado e vivido a fé, a esperança e a caridade, sabendo desde as nossas entranhas que a caridade continua a ser a maior delas. É nela e a partir dela que a reprodução de modelos sacerdotais tradicionais na configuração atual do mundo corre o risco de manter e até ampliar poderes autoritários que desde muito tempo deveriam ter sido revistos e transformados à luz do reconhecimento da outra/o como meu semelhante e meu diferente. Tudo isso é apenas um convite ao pensamento...



Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.