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sexta-feira, 5 de julho de 2019

A CONVENIÊNCIA DO SACERDÓCIO PARA AS MULHERES



Por Leonardo Boff

        
A dimensão do feminino não é exclusiva das mulheres, pois tanto homens quanto mulheres são portadores, cada um na sua modalidade própria, do masculino e do feminino. Tomás de Aquino na Suma Teológica já na sua primeira questão ao abordar o objeto da teologia, deixava claro que ela pode abordar qualquer tema, desde que o faça à luz de Deus. Caso contrário perderia sua pertinência. Portanto, cabe perguntar acerca do sacerdócio das mulheres, realidade que lhe foi negada na Igreja romano-católica. E considerar as boas razões teológicas que garantem sua conveniência.

O assim chamado “depósito da fé”, vale dizer, a positividade cristã não é uma cisterna de águas mortas. Ela se reaviva confrontando-se com as mudanças irrefreáveis da história como é o caso suscitado pelo Sínodo da Amazônia.

Assim no mundo todo, verifica-se cada vez mais a reafirmação da paridade da mulher, em dignidade e direitos, com o homem. Compreensivelmente não é fácil desmontar séculos de hétero-patriarcalismo que implica diminuir e marginalizar a mulher. Mas lenta e consequentemente as discriminações vão sendo superadas e, em certos casos, até punidas. Na prática, todos os espaços públicos e as mais diversas funções estão abertas às mulheres. Vale isso também para o sacerdócio para as mulheres dentro da Igreja romano-católica? Nas Igrejas evangélicas, na anglicana e também no rabinato, as mulheres foram admitidas na função antes reservada só aos homens.

A Igreja romano-católica, nos estratos da mais alta oficialidade, até recente data, se recusava sequer colocar a questão especialmente sob o Papa João Paulo II. Ela ficou refém da secular cultura hétero-patriarcal. Mas não pode se transformar num bastião de conservadorismo e anti-feminismo num mundo que avança rumo à riqueza da relacionaliade homem e mulher. O Papa Francisco tem o mérito de colocar as questões pertinentes do mundo de hoje, como a questão da moral matrimonial e o tratamento para com os homoafetivos, o sacerdócio para homens casados e outras minorias.
Como afirmava uma feminista ainda no século passado A.van Eyde:”O bem do homem e da mulher são interdependentes. Ambos ficarão lesados se, numa comunidade, um deles não puder contribuir com toda a medida de suas possibilidades. A Igreja mesma ficaria ferida em seu corpo orgânico se não desse lugar à mulher dentro de suas instituições eclesiais”(Die Frau im Kirchenamt, 1967, p. 360).

A minuciosa pesquisa de teólogos e teólogas, do mais alto gabarito, como Karl Rahner entre outros, tem demonstrado que não há nenhuma barreira doutrinária e dogmática que impeça o acesso do sacerdócio às mulheres.

Em primeiro lugar, importa recordar que há um só sacerdócio na Igreja, aquele de Cristo. Os que vêm sob o nome de “sacerdote”, são apenas figurações e representantes do único sacerdócio de Cristo. Sua função não pode ser reduzida, como sustenta a argumentação oficial, ao poder de consagrar. Toda a vida de Cristo é sacerdotal, vale dizer, apresentou-se como um ser-para-outros, defendeu os mais vulneráveis, também mulheres, pregou fraternidade, reconciliação, amor incondicional e perdão. Não é só na última Ceia que se se mostra sacerdote, mas em toda a sua vida, vale dizer, um criador de pontes e de reconciliação.

A função do sacerdote ministerial não é acumular todos os serviços, mas coordená-los para que todos sirvam à comunidade. Pelo fato de presidir a comunidade, preside também a eucaristia. Esse serviço (que São Paulo chama de “carisma” que são muitos) pode muito bem ser exercido pelas mulheres como se mostra nas igrejas não romano-católicas e nas comunidades eclesiais de base.

E haveria razões das mais convenientes que fundamentam tal ministério por parte das mulheres.

Em primeiro lugar, a primeira Pessoa divina a vir ao mundo foi o Espírito Santo que assumiu Maria para gerar em seu seio a segunda Pessoa, o Filho encarnado, Jesus Cristo. O Filho só veio depois do “fiat”(o sim) de Maria.

Seguiam Jesus não apenas Apóstolos e discípulos, mas também muitas mulheres que lhe garantiam a infra-estrutura. Elas nunca traíram Jesus, o que não se pode dizer dos Apóstolos, especialmente do mais importante deles, Pedro. Após a prisão e a crucificação todos fugiram. Elas ficaram ao pé da cruz.

Foram elas que, por primeiro, numa atitude genuinamente feminina, foram ao sepulcro para ungir o corpo do Crucificado. O maior evento da fé cristã, a ressurreição de Jesus, foi testemunhado primeiramente, por uma mulher, Maria Madalena, a ponto de São Bernardo dizer que ela foi “apóstolo”para os Apóstolos.

Se uma mulher, Maria, pôde dar à luz a Jesus, seu filho, como não pode representá-lo sacramentalmente na comunidade? Aqui há uma contradição flagrante, só compreensível no quadro de uma Igreja hétero-patriarcal, masculinista e composta de celibatários, responsáveis pela direção e pela animação da fé.

Logicamente, o sacerdócio feminino não pode ser a reprodução daquele masculino. Seria uma aberração se assim fosse. Deve ser um sacerdócio singular, com o modo de ser da mulher com tudo o que denota sua feminilidade no plano ontológico, psicológico, sociológico e biológico. Não será a substituta do padre. Mas  conformará o sacerdócio a seu modo próprio.

Tempos virão em que a Igreja romano-católica acertará seu passo com o movimento feminista mundial e com o próprio mundo, rumo a uma integração do “animus” e da “anima” para o enriquecimento humano e da própria Igreja.

Somos, pois, a favor do sacerdócio conferido às mulheres dentro da Igreja romano-católica, escolhidas e preparadas a partir das comunidades de fé. Cabe a elas dar-lhe uma configuração especifica, diversa daquela dos homens.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu com Rose-Marie Muraro, Feminino-Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record, 2010.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UMA SÓ ENTRE TODAS AS MULHERES



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



             Naquele tempo, o anjo do Senhor dirigiu-se a uma jovem mulher, noiva do carpinteiro José.  E o nome dela era Maria.  O anjo lhe revela uma notícia impossível: uma gravidez inesperada e não planejada. Dialogando com o mensageiro divino, ela assume o incompreensível mistério que nela se realiza.  E o assume com todas as suas consequências.

            Em uma sociedade patriarcal como a de seu tempo e seu lugar, uma gravidez acontecida fora do momento certo e da instituição abrigada por lei era algo perigosíssimo.  O compromisso de noivado equivalia ao matrimônio e uma infidelidade dentro deste contexto podia resultar em severa punição, até mesmo o apedrejamento reservado às adúlteras.

            Não é difícil imaginar a dificuldade de todo o processo da concepção de Jesus que Maria enfrentaria sem o concurso de José. Igualmente é fácil  imaginar o que aconteceria a ela em uma cultura patriarcal, segundo o relato de Mateus, se José não houvesse decidido tomá-la por esposa crendo no que Deus lhe dizia e passando além da letra da lei. 

Trata-se de algo profundamente revolucionário a hipótese de que o Espírito de Deus repouse em plenitude sobre uma mulher que apresenta uma gravidez de origem ignorada ou suspeita.  Mesmo se o que acontecia na corporeidade de Maria fosse fruto de uma violência – da qual eram vítimas muitas mulheres daquele tempo, jovens camponesas que sofriam o ataque dos soldados romanos de passagem -  isso a poria em situação de extrema vulnerabilidade, ameaçada pelo desprezo da sociedade em que vivia. 

 Por isso, é ainda mais extraordinário que ela, com a força que lhe foi dada por Deus, tenha sido capaz de converter em bem uma situação de insegurança e incalculável risco.  Parece-nos que aí está em movimento e acontecendo de fato uma revelação que ilumina problemas tão contemporâneos como a violência contra a mulher, desde a pornografia até as agressões físicas, as violações e as escravidões sexuais.

            A jovem aceita o que lhe é anunciado como graça e bênção.  O menino que nascer será Filho do Altíssimo.  No centro do plano de Deus está uma mulher jovem e grávida. Uma jovem mãe.

           O Advento que vivemos e celebramos é um tempo de espera, dessa espera que acontece no ventre fecundo de Maria.  Espera lenta e gozosa, como a da gravidez de Maria e de toda gravidez.  Em seu ventre livre e disponível cresce a semente da vida, o broto do Povo de Deus, o Salvador a quem dará o nome de Jesus, que significa Javé salva. 

            Maria é única pela enorme importância que tem o mistério que nela acontece no imaginário religioso cristão.  Mistério que no fundo está presente em toda mulher habitada por outra vida, gerando um novo ser, um novo membro do gênero humano.  No caso de Maria, este que é gerado tem um destino que supera a mãe, assim como a todos os outros seres humanos. E que por isso torna sua pessoa e vocação matriz de outras relações muito ricas e complexas: a de Deus com a humanidade, a do homem com a mulher, a do filho com a mãe. 

            Com ela e a partir dela, o Cristianismo e por causa dele o Ocidente encontrou um discurso sobre a maternidade que ultimamente parece correr o risco de perder.  Um novo olhar sobre o mistério de Maria exorciza esse risco, pois reabilita a corporeidade feminina – coisa que a arte, com relação a Maria, já andou fazendo – apresentando positivamente a erótica feminina, impossível sem essa glorificação do corpo da mãe judia do homem Jesus.

            O culto a Maria exorciza em parte a culpabilidade imposta à mulher desde Eva e suas filhas.  E torna possível uma ética para a modernidade, que sem o concurso das mulheres, não poderá ser construída. Trata-se de uma ética que não se confunde com a moral, que não evita a iniludível problemática da lei; ao contrário, lhe dá corpo, linguagem e fruição. 

            Em Jesus, o próprio Deus assumiu a carne humana, carne de homem e de mulher.  O Filho de Deus é igualmente o filho de Maria de Nazaré...nascido de mulher. Este que vigilantes esperamos e cujo nascimento celebraremos no Natal não é diferente daquele que nasceu da carne de Maria.  Desta mulher galileia, Jesus de Nazaré recebeu a carne reconhecida e aclamada pela Igreja e pela fé cristã como carne de Deus. 

            Nascido de Maria, Jesus de Nazaré andou pelos caminhos de terra da humanidade.  Tendo nascido do útero desta jovem mulher nazarena, nutrido e alimentado por sua carne e seu leite, cresceu em graça e sabedoria, e surpreendeu seus contemporâneos, os quais, vendo os maravilhosos e poderosos sinais que realizava disseram um ao outro: “É este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e não está no meio de nós? “ 

            No centro do mistério da Encarnação, o Novo Testamento situa o homem e a mulher, Jesus e Maria, Deus que assume a carne humana dentro e através da carne de uma mulher, “nascido de mulher”. Deus não se fez homem, não se identificou apenas com uma metade da humanidade.  Ele se fez carne, carne de homem e de mulher, a fim de que o caminho para o Pai possa passar necessariamente através da condição humana total, masculina e feminina, porque Deus criou a criatura humana macho e fêmea.

            A afirmação “Deus se fez carne” deve ser completada por outra de análogo valor: “Deus nasceu de uma mulher”.  Ambas significam um extraordinário salto qualitativo na consciência histórica da relação da humanidade com Deus.  A descoberta de que não há mais necessidade de buscar a Deus no estrito ritualismo ou na letra da Lei.  Deus pode e quer ser descoberto no nível mais frágil dos homens e mulheres.  Nos pobres e nas vítimas da injustiça e da violência, nas mulheres grávidas e nas crianças pequenas está a definitiva interpelação para a humanidade. 

            O mistério da Encarnação de Jesus na carne de Maria ensina que o ser humano não está dividido entre um corpo de pecado e defeito e um espírito de grandeza e transcendência.  O mistério da Encarnação está enraizado exatamente na fragilidade, na pobreza, e é nos limites da carne humana – carne de homem e de mulher – que a inefável e infinita grandeza do Espírito pode ser contemplada e adorada.  

Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, teóloga e autora Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br> 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

SEM CONTAR AS MULHERES E AS CRIANCAS


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

            Bordão constante da teologia feminista, esta frase que consta da perícope do evangelho de Mateus 15,38, volta hoje – invertida porém – à linha de frente do noticiário e da reflexão teológica.
            O contexto evangélico é a multiplicação dos pães, quando Jesus de Nazaré, a partir da pobreza de sete pães e dois peixinhos, dá de comer a uma imensa multidão faminta.  O texto identifica os personagens masculinos que se alimentaram, mas sem contar as mulheres e as crianças.
            Quando as mulheres entraram no campo da teologia, levantaram suspeita sobre esta frase, mostrando quão machista era a sociedade daquele primeiro século da nossa era.  Também foi assinalado por homens e mulheres que se deixaram tocar pela Escritura quão profunda se revelou a revolução do rabi de Nazaré, para quem as mulheres contavam – e muito! – pois as acolhia e ouvia com carinho, integrava-as em seu seguimento da Galileia até Jerusalém, apontava-as como exemplo a seus discípulos e convertia-as em beneficiárias privilegiadas de seus milagres.
            Também contavam para Jesus as crianças, a quem acolhia com alegria e desvelo, opondo-se aos discípulos que queriam afastá-las porque o perturbariam.  Jesus se alegrava de vê-las, ouvi-las e tê-las por perto, e afirma que delas é o Reino dos céus. 
            Hoje, mulheres e crianças são contados, sim.  Mas a contagem da qual fazem parte é macabra e terrível.  São contados entre as maiores vítimas da violência em nosso país.  A situação mundial não é muito diferente, mas no Brasil a coisa chega a níveis exponenciais. 
            Recentemente, a denúncia de uma mulher que sofreu abuso em um carro da frota Uber surpreendeu a sociedade.  Atacada e ameaçada pelo motorista, tornou pública a agressão na imprensa e nas redes sociais. A vítima, machucada, ofendida, humilhada e desrespeitada, desabafou: "O mundo é um lugar horrível para ser mulher".
                O agressor alegou que ela estava bêbada.  Como se isso fosse atenuante para seu comportamento absolutamente condenável.  Uma mulher independente e solteira, que volta para casa à noite de uma festa ou um encontro com amigos, pode ter ingerido álcool, mas nem por isso se encontra à disposição das taras de machistas e agressores que resolvem abusar de sua vulnerabilidade.  Chama um uber para não descumprir a lei seca que vigora em sua cidade e aquele que devia transportá-la segura para casa a ataca e desrespeita.
                Outro caso foi de um mesmo homem que abusou de várias mulheres em ônibus e transportes públicos.  Seu comportamento chegou ao grau máximo do desrespeito e da violência. Preso e solto em seguida, voltou à cadeia apenas depois de repetir mais de uma vez o mesmo crime. 
                Parece que o mundo evolui, a sociedade avança, as mulheres conquistam direitos e galgam degraus na escala social, mas a mentalidade machista permanece intocada.  E para estes homens elas não contam.  São objetos para serem usados e abusados, segundo a vontade e o desejo do macho. A cada 2 minutos uma mulher sofre violência no Brasil. Essa estatística parece haver aumentado nos últimos tempos.  Talvez porque hoje as mulheres já não se calem; elas denunciam os abusos e as agressões recebidas e os expõe no espaço público. 
                Com as crianças o panorama não é muito diferente. Desde o espancamento doméstico, onde as agressões à mulher acabam atingindo igualmente os filhos, até as balas perdidas que interrompem a vida de crianças pequenas e indefesas, a violência contra os menores só faz aumentar.  Violência anônima, que não mostra o rosto e atinge os pequenos que estão começando a vida, interrompendo brutalmente sua infância.  As crianças não contam, assim como as mulheres.  E a violência os atropela, semeando morte e terror entre aqueles que são os mais vulneráveis de um tecido social esgarçado e sem consistência.
                O mundo é um lugar terrível para ser mulher.  E para ser criança.  E para ser cidadão que passa tranquilamente pela rua, mas tem esse simples direito cassado pela violência, pelo terror, pela cegueira agressora, para a qual não contam os cidadãos pacíficos que estão apenas exercendo seu direito de ir e vir.  Mais ainda quando são mulheres e crianças. 
                Urge uma conversão em nível comunitário, social, e não apenas individual.  A humanidade é composta por homens e mulheres.  As crianças estão no mundo para serem protegidas e educadas.  Não para serem agredidas, desrespeitadas, espancadas e assassinadas.  Apenas quando o machismo e a violência por ele gerada forem superados, poderemos, enquanto sociedade, viver a alegria do Evangelho de Jesus e ver acontecer o Reino por Ele prometido. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de"Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco), entre outros livros.
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 7 de março de 2017

A REVOLUÇÃO DAS MULHERES


 Por Marcelo Barros



Nesse ano, o 08 de março, dia internacional da mulher, lembra que, há cem anos, quando na Rússia ainda se usava um antigo calendário e essa data caía em fevereiro, foram as mulheres em luta por melhores condições de trabalho e pelo direito do voto que se tornaram o elemento decisivo da vitória da revolução comunista. As mudanças sociais e políticas que as mulheres e os trabalhadores implementaram na Rússia se constituíram como a grande esperança para a humanidade, apenas sobrevivente dos horrores da primeira guerra mundial. A partir daquele 1917 e até a morte de Lenin em 1924, a União Soviética mostrou ao mundo sinais de grandes transformações, melhoras de vida para os trabalhadores e um grande salto social e cultural na direção do futuro. 

Se naquele fevereiro- março de 1917, alguém dissesse que cem anos depois, o mundo voltaria a estar à beira da catástrofe, poucos acreditariam. De fato, desde então, é impressionante contar todos os avanços da ciência. As grandes conquistas da técnica mudaram muito a fisionomia do mundo. O domínio que o ser humano alcançou sobre a máquina nunca teria sido antes imaginado. No entanto, apesar de tudo isso, a humanidade se encontra em uma situação-limite. A ONU declara que, no mundo, existe alimento estocado que poderia alimentar onze bilhões de pessoas. Atualmente o mundo conta com uma população de sete bilhões e meio. No entanto, um bilhão de pessoas passa fome e outro meio bilhão sofre de insegurança alimentar.  Depois que os impérios da América do Norte e da Europa roubam o que podem dos países do norte da África e do Oriente Médio, sessenta milhões de seres humanos vivem em acampamentos e campos de concentração, parecidos com os do nazismo. Os próprios países que foram responsáveis pelo fato deles terem de migrar rejeitam sua presença. Preferem conviver com a morte diária de refugiados afogados no Mediterrâneo ou eletrocutados nos muros de vergonha que os governos criam. 

Mesmo nos países ditos mais civilizados e democráticos, 62 famílias mais ricas acumulam uma riqueza correspondente à metade da humanidade. Quem vê os filmes da primeira guerra mundial e se espanta com os horrores daquele tempo ou acha que a revolução dos comunistas na Rússia foi violenta não sabe o que os Estados Unidos, a França e outros países ocidentais estão patrocinando na Síria. Não viram ainda as fotografias das crianças assassinadas em Alepo.

Cem anos depois do fevereiro de 1917, a luta das mulheres continua indispensável e urgente. As mulheres conseguiram algumas vitórias. No entanto, no Brasil e na maioria dos países, ainda há muitas discriminações. Em todas as cidades brasileiras, as delegacias da Mulher registram diariamente violências e assassinatos nos quais a vítima é mulher e por ser mulher.

No Brasil e em outros países, as mulheres ainda têm de lutar muito para garantir os mesmos espaços que os homens e em condições de igualdade, respeitadas as diferenças próprias a cada gênero. Uma justa relação de gêneros é causa comum a mulheres e homens. Somente assim, todos os seres humanos, de ambos os sexos, se libertarão das armaduras de medo e se tornarão cúmplices na busca de uma felicidade compartilhada sem algozes, nem vitimas.

Para quem é cristão, o dia internacional da mulher, (08 de março), ocorre no início da celebração anual da Quaresma, tempo forte de revisão de vida e renovação interior. Nesse contexto, é bom lembrar que as Igrejas cristãs e outras religiões têm uma dívida histórica e moral com a causa da igualdade social e da relação de gênero. Muitas delas têm sido cúmplices do patriarcalismo vigente. E o praticam em nome de Deus. Quem se deixa guiar pelo Espírito, qualquer que seja a sua tradição religiosa, sabe que as desigualdades, discriminações, seja de gênero, racial ou social, são anti-espirituais. Vão contra o projeto divino no mundo e ofendem a presença divina que sofre e geme com todo tipo de injustiça. Quem é atento à voz do Espírito aprende a escutar o gemido de Deus solidário com quem sofre.

Hoje, ao vermos filmes e novelas sobre o tempo da escravidão, podemos nos perguntar como muitos dos nossos antepassados puderam conviver com tanta atrocidade. Sem dúvida, no futuro, quando nossos netos e bisnetos estudarem o que ocorreu no Brasil em 2016 e 2017 vão saber de que lado estávamos nós e o que fizemos contra o genocídio que ocorre sob nossos olhos e diante de nossa consciência. Não vamos poder dizer, como no mito do paraíso perdido, "a serpente nos enganou". Não há desculpas para nos deixarmos hipnotizar pelas notícias enganosas, plantadas pelos grandes meios de comunicação, interessados em garantir o privilégio dos seus proprietários. Nessa semana na qual o mundo inteiro será mais sensibilizado para a causa da mulher e da igualdade de gêneros, recordemos o que disse sua santidade, o Dalai Lama: “Todos temos de desenvolver o dom da empatia recíproca que, interiormente, cada pessoa possui. Trata-se de ser incapaz de suportar o sofrimento da outra pessoa. Só a solidariedade compassiva salvará o mundo”.   

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.    

   

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ORDENAÇÃO DE MULHERES? PARA QUAL IGREJA E COM QUAL TEOLOGIA?

Por Ivone Gebara



Minha reflexão embora se abra a um contexto internacional da Igreja Católica Romana se situa mais particularmente no contexto latino-americano até certo ponto menos envolvido na temática da ordenação de mulheres. Nunca fomos assíduas lutadoras nessa reivindicação. Entretanto, nessas últimas semanas em meio ao conturbado contexto político nacional, uma quantidade significativa de textos sobre o assunto tem sido divulgada pelas redes sociais, sobretudo católicas.

Da mesma forma, em diferentes sites nacionais a reflexão sobre a ordenação de mulheres e a possível constituição de uma comissão de estudo no Vaticano para o diaconato feminino tem ocupado espaço significativo. Até uma paróquia da zona leste da cidade de São Paulo organiza para breve um debate sobre o tema. Muitos textos divulgados contam histórias de mulheres que segundo a oficialidade da Igreja Católica foram ilegitimamente ordenadas e, por isso, excomungadas. Calcula-se que mais de duzentas mulheres estejam hoje nessa situação e entre elas há também algumas poucas bispas, ordenadas sigilosamente por bispos refratários às ordens vaticanas. A questão da ordenação das mulheres sai de novo das catacumbas e começa a ver a luz do dia, apesar de envolta em mil e uma dificuldades provenientes de posições de grupos os mais diversos e divergentes.

Uma questão crítica

Reconheço que a efetivação da ordenação de mulheres seria um passo que, segundo algumas pessoas, poderia sanar em parte uma situação de desigualdade pública na sociedade e especialmente na Igreja Católica Romana. Entretanto, é preciso deixar claro que para muitas adeptas e adeptos da ordenação de mulheres trata-se apenas da afirmação de um “direito” de ambos os sexos de representarem Jesus Cristo diante da comunidade e não necessariamente de uma reivindicação feminista. Em outros termos, trata-se de pensar apenas na integração das mulheres ao sacerdócio oficial guardando-se a mesma forma de pensar e viver a Igreja. Critica-se a autoridade católica por não abrir espaços às mulheres quando o que elas pedem é estar a serviço da Igreja em diferentes tipos de trabalho e especialmente no ministério ordenado.

Quero apenas abrir algumas pistas de reflexão frente a essa questão de complexa solução no momento.

A meu ver o problema crítico situa-se justamente na consideração do direito das mulheres muitas vezes tomado de forma bastante simplista. O que significa um direito quando a instituição na qual se quer ter direitos é uma das que nega ou que não apóia muitos direitos às mulheres? O que significa ter direito numa instituição cuja ideologia teológica segue valorizando e incentivando o poder masculino em detrimento de uma visão mais participativa e diversificada de serviços, carismas e poderes? O que significa ter direito à ordenação de mulheres quando há uma visão do sacerdócio eminentemente masculina, anacrônica e com uma secular simbologia teológica masculina? O que significa esse direito quando outros direitos são frontalmente desrespeitados? Será que a admissão ao sacerdócio ordenado traria respostas a essas espinhosas questões?

A teologia sacerdotal vigente

A partir da teologia sacerdotal vigente os padres são revestidos de poderes não apenas simbólicos, mas poderes políticos e sociais que lhes permitem orientar vidas e até manipulá-las ou dominá-las.

Usam muitas vezes dos textos bíblicos como lhes convém e justificam suas escolhas como se fossem emanações evangélicas. Sem dúvida as exceções sempre existem e não quero esquecê-las. Mas, o mais comum é os padres concentrarem uma autoridade sobre as pessoas e especialmente sobre as mulheres mantendo e justificando de muitas formas as hierarquias que dominam a terra.

 Essa concentração exagerada de poder impede a ascensão e organização de ministérios ou serviços múltiplos a partir e em favor das comunidades cristãs. Além disso, o modelo de sacerdote que se apresenta é o sacerdócio de Jesus numa interpretação judaizante que me parece cada vez mais distante das ações e inspirações que descobrimos nos Evangelhos. Em vez de renunciarem ao poder que os coloca em evidencia e ao lado de seus pares seculares fortaleceram as alianças entre poder político, econômico e religioso ao longo dos séculos. Impõem decisões e muitos atuam de forma desrespeitosa, sobretudo quando o assunto refere-se à sexualidade feminina.

Reconheço o papel social e cultural de sacerdotes, pajés, mães e pais de santo, imãs nas diferentes religiões e sua evolução na história contemporânea. Estes atores e atoras sociais não são apenas os únicos “guardiães” da tradição religiosa a que pertencem, mas líderes que deveriam ter o coração colado às necessidades de suas comunidades. Dessa forma a participação dos membros nos serviços e na construção de significados atualizados seria uma responsabilidade comum. Isto requer um constante diálogo e uma divisão de saberes e poderes para responder aos sempre novos desafios do contexto em que se vive. Nesse sentido não pleiteio a extinção do papel de pessoas mais preparadas ou líderes éticos em relação aos conteúdos e tradições religiosas, mas estas pessoas só deveriam ter sua autoridade legitimada na medida em que estiverem em conexão com as questões vividas pela comunidade.

Reforma política da Igreja Católica

Nessa perspectiva não penso que as mulheres devam fortalecer um modelo de sacerdócio hierárquico masculino e nem aceitar a ordenação a partir de uma teologia também hierárquica no seu conteúdo e de simbologia fundamentalmente masculina. No processo histórico atual não se fala de “reforma política na Igreja Católica” o que seria a meu ver útil e necessário. É como se a política e a organização atual da Igreja proviessem diretamente de Deus, segundo a vontade de Jesus e se apresentassem de forma imutável nos diferentes séculos da história e nas diferentes culturas onde o cristianismo se implantou. Falar em “reforma política da Igreja Católica” implica igualmente falar de uma reforma das teologias que sustentam essas políticas de caráter masculino patriarcal centralizador. E a reforma dessa teologia vai revelar quase o óbvio, ou seja, a existência não só de muitas teologias e interpretações, mas entre a vida ordinária cotidiana e as teologias que sustentam a organização da Igreja nos seus diferentes níveis. Em termos concretos estou querendo dizer que uma coisa é a vida de cada dia e outra coisa é a teoria política teológica de uma organização religiosa com suas leis e princípios e, sobretudo com a diversidade de pessoas que dela participam. A pretensa uniformidade dos dogmas, a legalidade das leis canônicas escritas, apesar de sua utilidade, vão de encontro ao pluralismo das situações e crenças presentes nas diferentes culturas e momentos da História. A Igreja hierárquica nem sempre as respeitou, mas muitas vezes as combateu como negações da verdadeira doutrina revelada por Deus. É nesse contexto que também se pode falar das teologias feministas e de sua crítica ao centralismo religioso e ao corte eminentemente masculino de sua simbologia religiosa. Têm denunciado com insistência os abusos do poder religioso, sobretudo em relação à posse indevida da decisão sobre nossos corpos. Têm reinterpretado de forma rica e contextualizada a Bíblia e as teologias de forma a responder aos desafios atuais de nosso mundo.

Estas teologias são quase absolutamente rejeitadas ou ignoradas pelos mantenedores da tradição masculina, pois fogem do roteiro estabelecido por esta tradição.

Teologia feminista

Suspeito que boa parte do movimento em favor da ordenação das mulheres não trabalha na linha crítica assumida por muitas teologias feministas. Buscam apenas a igualdade de gênero nos ministérios sem fazer perguntas às bases de sustentação teológica e política da Igreja na atualidade.

Em geral, apenas visualizam o direito das mulheres a exercer ministérios na Igreja Católica pré-definida, na Igreja “universal” já constituída do ponto de vista de sua organização hierárquica. É como se apenas ao se tornarem presentes nas fileiras sacerdotais, as mulheres pudessem por sua presença modificar algo do panorama real, visual e formal de sua representação até agora unicamente masculina. Não ignoro a importância do visual, das quotas de representatividade, mas apenas isto não modifica por dentro nossas convicções. É preciso ter claro quais os comportamentos sociais, políticos e eclesiais que devem acompanhar a ordenação das mulheres. Que novas políticas a Igreja vai assumir, que orientações se vai propor quando novos “sujeitos”, os femininos, passarem a fazer parte de seus quadros de direção e da liderança das comunidades nos diferentes níveis. Estas são exigências que nós mulheres devemos fazer para não assumir algo como se fosse um favor dos homens de Igreja ou um ato magnânimo de concessão a nós simples mulheres.

Opino dessa forma porque conheço algumas das sacerdotisas, pastoras e candidatas ao sacerdócio feminino e minha impressão embora limitada e discutível, carrega a percepção de que não conseguirão uma mudança qualitativa e significativa na estrutura atual da Igreja Católica. Muitas apenas pedem o sacerdócio, mas não expõem e nem exigem as condições de seu lado para essa efetivação.

Trabalham como se a Igreja que deve reconhecê-las fosse, sobretudo o episcopado e o papado, instituições ministeriais masculinas. São estas que devem conceder-lhes a autorização para servirem a comunidade. Elas, sem perceber, se tornam ou se consideram menos Igreja identificando-a a hierarquia que a governa. Algumas dessas mulheres sacerdotisas têm trabalhos de ponta junto a populações marginalizadas e discretamente reorganizadas por elas. Algumas têm até doutorados em teologia e estudaram em universidades de renome internacional. E, no entanto, essa capacitação não é reconhecida pelos prelados. Posso entender a emoção e o desejo de muitas mulheres de se verem no altar, de sentirem que presidem uma celebração eucarística publicamente e que têm certo poder na comunidade. Posso até avaliar a emoção que algumas narraram de poder levantar a hóstia e dizer “este é o corpo de Cristo” como um sonho de infância esperando ser realizado. Ou ainda a emoção de sentirem-se chamadas de ‘pastoras’, ‘madres’ (?), presbiteras ou diáconas numa paróquia. Não as condeno, mas acredito que poderíamos ir mais longe e exigir bem mais num diálogo que deveria ser entre iguais e não entre superiores e inferiores.

Afetos e poderes absolutos e domésticos

Nessa problemática da ordenação das mulheres há um dado igualmente importante que nem sempre é considerado. Trata-se do fato de o Cristianismo na sua forma católica romana ser uma religião organizada a partir de fortes emoções culturais onde o circuito dos afetos revela uma espécie de divisão social de poderes que reproduz a sociedade na qual vivemos. A figura masculina de Deus Pai, Filho e Espírito Santo reveste-se de poder sócio-emocional absoluto enquanto que as figuras femininas como Maria e as muitas santas revestem-se de poder absoluto doméstico, cuidador, acolhedor, protetor e sanador. A representação sacerdotal masculina aparece também emocionalmente ligada ao poder político absoluto masculino, embora muitas vezes, o poder efetivo e decisivo no imediato seja o feminino. Sabemos bem que a ordenação masculina obedece a uma dogmática hierárquica masculina que no fundo começa pela imagem de Deus Pai entregando poder a seu Filho único que envia o Espírito perpetuado e simbolizado pelos sacerdotes masculinos.

Estaríamos nós mulheres, com o advento do feminismo, do pensamento crítico e da teologia feminista plural, dispostas a manter essa anacrônica hierarquia masculina? Estaríamos dispostas a manter a diferença entre sexo masculino e sexo feminino como desnível de capacidades que se expressa também no desnível salarial no serviço às comunidades? Estaríamos querendo manter a divisão social dos afetos e poderes de forma mecânica e naturalizada? Um pequeno exemplo chama nossa atenção. Hoje em muitas dioceses há uma discrepância salarial entre os padres e as freiras e leigos por serviços semelhantes... A discrepância salarial para além das necessidades de cada um reflete mais uma vez a manutenção do privilégio das hierarquias masculinas no interior da Igreja. A revolução de significados em curso nos tempos de hoje não estaria indicando a necessidade de sair das afirmações dogmáticas do passado e abrir novas possibilidades para repensar a herança cristã para nossos dias? A expansão da luta plural pelos direitos humanos não tocaria igualmente direitos mais amplos na Igreja na diversidade de suas comunidades, organizações e ministérios?

A naturalização

Outro aspecto importante nessa problemática refere-se ao perigo de naturalizarmos os comportamentos masculinos e femininos acreditando que todos os pertencentes a um ou outro gênero e até mesmo os transgêneros, se comportariam da mesma maneira. A naturalização significa tornar certos comportamentos como pré-dados pela natureza ou por Deus e afirmar, por exemplo, que a vocação sacerdotal das mulheres é o cuidado diário e não a lida nas políticas públicas em favor do bem comum. Era isso que se acreditava, por exemplo, em muitos países no tempo da luta sufragista das mulheres. Não se pode mais acreditar que existem tarefas ou trabalhos especificamente masculinos e outros especificamente femininos como se tivéssemos identidades laborais pré-definidas e comportamentos já pré-atribuídos a essas identidades. De certa forma essas atitudes assemelham-se as de Jean Jacques Rousseau e séculos depois ao do positivista Augusto Comte que queriam educar as mulheres em função dos homens e da família e buscavam preservá-las da política e dos vícios da vida social para o benefício da sociedade, dos maridos e da educação dos filhos. Além disso, consideravam as mulheres moralmente melhores do que os homens a até vítimas ilibadas reservando a elas um lugar que nada mais era do que uma reprodução talvez melhorada da naturalização dos comportamentos sociais de gênero. Assistimos hoje a reflexões e atitudes semelhantes embora com matizes e justificações diferentes. Estas precisam ser desconstruídas para que nosso rosto humano misturado apareça na sua complexidade e ambigüidade.

A história

Nesse contexto de “pedido” de ordenação das mulheres não podemos nos esquecer também das perseguições que prelados e funcionários da Igreja Católica Romana exerceram e exercem em relação às mulheres. Acusadas de bruxas ou de usurpadoras do poder de pensar que deveria ser apenas masculino foram condenadas à morte ou perseguidas e castigadas durante sua vida. De Ipazia de Alexandria (assassinada por ordem de futuro São Cirilo de Alexandria), a Marguerite Porette ( condenada à fogueira), a Joana D’Arc (condenada à fogueira) e Juana Inés de la Cruz(condenada e proibida de escrever e ensinar) e, sem falar das muitas contemporâneas, as figuras femininas massacradas por ousarem penetrar nos átrios do saber teológico foram milhares. Será que podemos esquecer estas histórias e também esquecer que nos séculos XX e XXI as teologias feministas repensaram boa parte da tradição cristã, mas que esse pensamento é minimamente conhecido além de freqüentemente recusado pelos donos do poder e saber religioso? A recusa a pensar de outro jeito é com freqüência característica das hierarquias religiosas e políticas... Podemos acaso esquecer que alguns eminentes personagens de nossa história atual até propõem a ‘ingenuamente’ a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ ou de uma ‘teologia feminina’ ignorando completamente o percurso já feito durante séculos de história e particularmente da história desses últimos 40 anos? E mais não aceitam sequer que se fale de feminismo no interior da Igreja...

Continuam usando um conceito de igualdade abstrata, igualdade diante de Deus, sem confrontar-se com a real situação de violência e exploração vivida pelas mulheres. É simplesmente lamentável...

Podemos acaso esquecer que ainda hoje há interrogatórios, cartas de advertência, admoestações a congregações religiosas femininas, a teólogas e filósofas que acolhem o dom de pensar a vida como parte do serviço ao Movimento de Jesus? Tudo se articula com tudo. 

Uma reivindicação não é um pedido isolado de um conjunto. A ordenação das mulheres se inscreve nesse complexo contexto de idéias e crenças clericais que governam mentes e corações e mantém estruturas organizacionais anacrônicas. Não pode haver um direito isolado da conjuntura em que ele deva ser afirmado e vivido.

Situação ideal?

Muitas pessoas poderão alegar que busco uma situação ideal para o exercício público do sacerdócio ordenado feminino. De forma alguma. Sinto-me apenas chamada a ajudar a refletir sobre velhas e novas questões em que algumas soluções que parecem justas e igualitárias escondem os sinistros meandros do fortalecimento de um poder hierárquico e patriarcal no qual continuamos a viver, a nos alimentar e alimentar outras vidas. Antes mesmo de aprovar esse sacerdócio como direito das mulheres, o que não penso que o governo atual da Igreja Católica fará, teremos que refletir sobre as condições do direito que pleiteamos e os limites do modelo de sacerdócio vigente. Ao mesmo tempo em que este modelo ainda presta alguns serviços à comunidade cristã, também a isenta de muitas responsabilidades frente à construção de sentidos e à organização plural da vida cristã. Por isso sou contra a ordenação das mulheres como concessão, no estilo atual, pois esse é igualmente limitativo e pernicioso para os homens e mulheres.

Tenho consciência, embora bem limitada, da história das mulheres na Igreja Católica Romana e do enorme percurso de lutas que nós percorremos no Cristianismo. Desde a participação próxima e íntima no Movimento de Jesus até os dias de hoje temos sustentado e vivido a fé, a esperança e a caridade, sabendo desde as nossas entranhas que a caridade continua a ser a maior delas. É nela e a partir dela que a reprodução de modelos sacerdotais tradicionais na configuração atual do mundo corre o risco de manter e até ampliar poderes autoritários que desde muito tempo deveriam ter sido revistos e transformados à luz do reconhecimento da outra/o como meu semelhante e meu diferente. Tudo isso é apenas um convite ao pensamento...



Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FRANCISCO, JESUS E AS MULHERES

por Frei Betto



      O papa Francisco nomeou uma comissão para analisar se as mulheres devem ter acesso ao diaconato, como já ocorre com homens solteiros ou casados. Diácono ocupa, na hierarquia, um grau abaixo do sacerdócio. Pode presidir matrimônios e batizar, mas não celebrar missa. Havia diaconisas na Igreja primitiva.

      Em muitos países, inclusive no Brasil, já há religiosas que, autorizadas pelo bispo local, presidem matrimônios e celebram batismos, embora não sejam diaconisas.

      Francisco é muito hábil. Em vez de implodir o prédio com dinamite, prefere demoli-lo tijolo a tijolo. É o que faz ao mexer em temas que, há séculos, estavam congelados pelos tabus que envolvem a doutrina católica tradicional: recasamentos, acesso de divorciados aos sacramentos, homossexualidade, celibato obrigatório, corrupção na Cúria Romana, punição rigorosa a pedófilos etc.

      Não há fundamento bíblico para excluir mulheres do sacerdócio, e até do direito de serem bispas e papisas. O grande obstáculo é a cultura patriarcal predominante nos primeiros séculos do cristianismo e ainda em voga na Igreja Católica.

      Mateus aponta, na árvore genealógica de Jesus, cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria; e, de modo implícito, a mãe de Salomão, aquela "que foi mulher de Urias". Não é bem uma ascendência da qual um de nós haveria de se orgulhar.

      Viúva, Tamar se disfarçou de prostituta para seduzir o sogro e gerar um filho do mesmo sangue de seu falecido marido. Raab era prostituta em Jericó. Rute, bisavó de Davi, era  moabita, ou seja, pagã aos olhos dos hebreus. A "que foi mulher de Urias", Betsabeia, foi seduzida por Davi enquanto o marido dela guerreava. E Maria, mãe de Jesus, também não escapou das suspeitas alheias, pois apareceu grávida antes mesmo de se casar com José. Como se vê, o Filho de Deus entrou na história humana pela porta dos fundos.

      Jesus se fez acompanhar pelos Doze e por algumas mulheres: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana “e várias outras”, diz Lucas (8,1). Portanto, Jesus nada tinha de machista. E frequentava, em Betânia, a casa de suas amigas Marta e Maria, irmãs de Lázaro.

      O primeiro apóstolo foi uma mulher: a samaritana que dialogou com Jesus à beira do poço de Jacó e, em seguida, saiu a anunciar que encontrara o Messias. A primeira testemunha da ressurreição foi Madalena. E ao curar a sogra de Pedro, Jesus demonstrou não associar sacerdócio e celibato. Pedro era casado e nem por isso deixou de ser escolhido como o primeiro papa.

      A misoginia é, na Igreja Católica, uma síndrome injustificável, sobretudo se considerarmos que em comunidades rurais e de periferias urbanas são as mulheres que predominantemente conduzem a atividade pastoral. Hoje, felizmente, várias mulheres casadas detêm, inclusive no Brasil, o título de doutoras em teologia.

      A teologia de meu confrade Tomás de Aquino data do século XIII e ainda serve de alicerce à doutrina oficial católica. Hoje, requer atualizações, como no quesito mulher, considerada um ser ontologicamente inferior ao homem. Razão pela qual o escravo liberto pode ser sacerdote, a mulher não.

      Não há um só caso nos evangelhos em que Jesus tenha repudiado uma mulher, como fez com Herodes Antipas, ou proferido maldições sobre elas, como fez com os escribas e fariseus. Com elas, mostrava-se misericordioso, acolhedor, afetuoso, e exaltava-lhes a fé e o amor.

      É chegada a hora de a Igreja assumir o seu lado feminino e abrir todos os seus ministérios às mulheres. Afinal, metade da humanidade é mulher. E a outra metade filha de mulher.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
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segunda-feira, 14 de março de 2016

MULHERES DE CALAMA


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



            No Dia Internacional da Mulher, sempre escolhemos uma ou outra das inúmeras mulheres admiráveis que conhecemos para homenageá-las.  Desta vez, escolho um coletivo: o grupo de mulheres de Calama, no Chile. Trata-se de um grupo de mulheres que se organizou na pequena cidade de Calama, no deserto de Atacama, norte do Chile, e que há 30 anos dedica-se a buscar os corpos de seus familiares assassinados.

            Situada a 2.260 metros de altura, Calama é  a porta de entrada para a maravilha do deserto de Atacama, monumento arqueológico e geológico que atrai turistas do mundo inteiro.  Ali estão instalados os telescópios mais poderosos do mundo, uma vez que o céu do Atacama é onde se pode visualizar mais astros e estrelas, descobrir  novos movimentos do firmamento que não se conseguem enxergar em outras partes do mundo. Ao mesmo tempo o Atacama é o deserto mais seco do mundo.

            Em 1973, o Chile sofreu um golpe de estado que culminou com a morte do presidente Salvador Allende e a tomada do poder pela ditadura encabeçada pelo general Augusto Pinochet.  Até  1990 o país viveu sob esse regime de força que se notabilizou por ser um dos mais cruéis de todos os que assolaram, naqueles anos de chumbo, o continente latino-americano. 

            A tragédia que dá origem ao grupo de mulheres ocorreu também em 1973, no mês de  outubro. Chegou a Calama a missão militar ordenada pelo general Pinochet com 26  prisioneiros políticos que foram tirados da prisão onde se encontravam detidos – em pleno deserto – e executados, com golpes de facas e rajadas de metralhadora.  Os cadáveres foram colocados em um caminhão, levados 15 quilômetros deserto adentro e sepultados clandestinamente em uma grande fossa.

            Como acontecia no regime Pinochet, os  detidos “desapareciam”.  A família não sabia de seus paradeiros nem onde procurá-los.  Assim foram vividos os quase 20 anos da ditadura militar chilena.  As mulheres de Calama – mães, esposas, filhas, noivas e namoradas – passaram todo esse tempo procurando, batendo à porta de batalhões e tribunais, falando com quem podiam.  Quando se iniciou a transição, em 1990, foram informadas sobre a existência da fossa clandestina.  E ao visitá-la, encontraram-na quase vazia.  Só havia alguns ossos remanescentes que testemunhavam a presença dos corpos ali.

            Dez anos depois, um novo crime foi revelado.   Em 2001, um relatório oficial do exército informava que para evitar que os corpos fossem encontrados algum dia, Pinochet havia ordenado exumá-los e lançá-los ao mar.

Começou ali uma nova etapa da via sacra dessas mulheres que há 20 vinte anos procuram pelo deserto os restos de seus amados, um dia levados brutalmente de suas casas e nunca mais vistos.  Quase vinte anos percorrendo o terreno árido do Atacama, buscando na areia um sinal do túmulo clandestino onde sepultaram seus homens.

            Antes de encontrarem a fossa clandestina, as mulheres iam ao deserto e lançavam cravos no ar, já que não tinham uma tumba onde depositar flores para seus amados. Ao encontrá-la passaram a depositar ali suas flores, sinal de um amor que não esquece. A busca continua, incansável e paciente, dolorosa e pungente.  Já vão mais de 40 anos que esperam por justiça, mas nada ainda foi claramente estabelecido. 

            O único cúmplice é o deserto.  Com a extrema secura do clima, os corpos ali enterrados não se decompõem.  Assim é  que os arqueólogos que escavam o terreno em busca de civilizações antigas e sinais de povos originários, de vez em quando encontram, além de múmias, pedaços de corpos que aparecem e são entregues às mulheres.  Elas desejam apenas encontrar os restos daqueles que amaram para poder enterrá-los com dignidade e fechar o ciclo de seu luto. 

            Sua história não terminou.  Essas mulheres, seus filhos e, agora, seus netos pedem justiça e ainda esperam a identificação daqueles dos quais nenhum resto foi encontrado. Apoiam-se umas às outras, consolam-se, ajudam-se.  Sustenta-as sua inquebrantável aliança com a vida.  Desde tempos imemoriais, a mulher tem inscrita em sua corporeidade a marca indelével da vida.  Em seu ventre gesta vida, carrega-a, transporta-a, alimenta-a com sua própria substância.  Como poderia ela acreditar que a morte tenha a última palavra?

            Assim aconteceu igualmente com outro grupo de mulheres, em Jerusalém.  O carpinteiro fazedor de milagres e palavras de fogo estava morto.  Elas viram quando a pedra se fechou sobre seu túmulo.  Pois não é que prepararam perfumes e óleos preciosos para ungi-lo?  E, ao chegar, o medo ao receber a notícia de sua ressurreição  rapidamente se transformou em alegria e energia para anunciar ao mundo inteiro a Boa Nova. 

            A grande escritora norte americana Susan Sontag afirma que o jogo da guerra tem gênero.  É um invento de homens.  Mulheres inventam, criam e realizam vida.  E quando a morte parece haver engolido as vidas que criaram, buscam, escavam desertos, desmentem notícias, esperam pacientemente o sinal de ossos, de restos, para recompor a imagem dos seres amados, mais vivos que nunca em seus corações.

            Neste Dia Internacional da Mulher, saúdo emocionada minhas irmãs do grupo Calama.  Que a beleza do deserto e a maravilha do céu que é cenário de sua silenciosa luta possa breve consumar a páscoa que tanto desejam e esperam, a fim de que seus entes queridos possam estar ainda mais vivos em sua memória e na história de seu povo.

          Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
    
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