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quarta-feira, 5 de maio de 2021

O TRISTE FIM DO ECUMENISMO

 


Ivone Gebara


Depois de séculos de separações religiosas as mais diversas, muitas das quais motivadas por razões políticas, o século XX assiste a um movimento de aproximação e diálogo entre elas. O diálogo se faz em primeiro lugar entre os ramos pertencentes à mesma árvore de origem e em seguida com árvores diferentes. Assim dentro da árvore cristã vários ramos começaram a se aproximar, a se olhar, a perceber suas diferenças, a apreciar-se e até a se abraçar.

Da mesma forma iniciamos uma aproximação com árvores diferentes do monoteísmo cristão aproximando-nos mais do monoteísmo judaico e muçulmano. Depois aproximamo-nos das religiões indígenas e das de corte africano consideradas antes crenças primitivas. E o processo foi crescendo para outras expressões religiosas presentes em nossas culturas na tentativa de superar preconceitos e divisões.

Entretanto, a medida que o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, ou seja, a tentativa de buscar uma aproximação e uma unidade possível entre as religiões e propor diferentes atividades comuns, fomos esquecendo que outras divisões continuavam se multiplicando entre nós.

As divisões nasciam em nós mesmas/os provocadas pela expansão de um Mundo Maior que nos englobava a todos, um mundo aparentemente aberto pelos meios de comunicação, porém cheio de fronteiras econômicas, políticas, sociais e emocionais. Mundo profundamente hierarquizado com aparência democrática. Mundo espetáculo de guerra e de aparente acesso a bens para todos os habitantes da terra, embora dominado por minorias que de fato se haviam tornado os novos deuses do planeta Terra. Nossas velhas divindades culturais identitárias, familiares e pessoais poderiam sobreviver apenas como consumidoras dos produtos que vinham de todos os lados. Podíamos apenas conservar nossas divindades ou transformá-las ajustando-as aos novos tempos contanto que permanecêssemos submissas aos novos deuses ocultos e dominadores cujo poder ‘religioso’ não era claramente manifesto, mas apenas sutilmente aparente.

Nosso ecumenismo rendia lucro à Grande Divindade sem nome, a Cabeça maior do mundo. Organizávamos convenções, assembleias, reuniões em nome do diálogo religioso e inter-religioso a nível nacional e internacional e éramos secundadas por ajudas indiretamente provenientes dos cofres da Grande Divindade. Essa, um dia achou que não apenas a união entre religiões era importante, mas também a manutenção da divisão entre elas. Dividiu-nos de novo. Classificou nossos corpos, nossas ideias, nossas tendências, nossas cores, nossas origens, nosso sexo e justificou-as com nossas tradições e até com nossos livros sagrados.

Não percebemos as divisões que incitados/as pela Divindade Maior acabamos criando em nossa própria família, em nossa casa, em nós mesmas/os. Havia cristãos ultraconservadores, conservadores, progressistas, ultra-progressistas, sem igreja, com novas comunidades etc. Da mesma forma muçulmanos e judeus cada vez mais ortodoxos ou progressistas divididos e opostos uns aos outros. Havia gente do candomblé e da umbanda de direita, de centro e de esquerda... Havia feministas e antifeministas.... Havia gays, lésbicas, transsexuais, transgêneros... Havia dúvidas crescentes interiores e exteriores quanto à nossa própria situação identitária pessoal e social... E a Babel se fez entre nós de tal forma que apenas ouvíamos a nossa própria voz, apenas dávamos razão aos que de perto nos ouviam. Já não víamos o outro, apenas constatávamos sua diferença, sua incômoda diferença aliada a suas posições políticas e a seu lugar econômico. Já não ouvíamos sua voz própria, apenas enquadrávamos seus balbucios como legais ou ilegais, como conformes à nossa lei religiosa ou inconformes e condenáveis segundo nossas ideologias. Os bons eram os parecidos comigo, os bons eram os que acreditavam no meu deus embora afirmássemos que Deus era todo poderoso, boníssimo e espírito puro...

As iniciativas ecumênicas foram muitas durante dezenas de anos assim como a riqueza dos diálogos inter-religiosos que provocamos e que nos ensinaram tanto. Cursos, leituras bíblicas, assembleias e campanhas ecumênicas da fraternidade para celebrarmos juntas a Quaresma que nos lembrava a trágica morte injusta de Jesus e sua gloriosa ressurreição. Convidamo-nos mutuamente ao diálogo e a ajudar o pobre , o órfão e a viúva relidos de formas diferentes na vida das novas opressões que tínhamos construído e estávamos vivendo. Mediamo-nos por nossas mútuas opressões, aceitações, rejeições e ações. Demonizávamos alguns e angelizávamos outros na tentativa de sobreviver sem pensar na obediência à Grande Divindade oculta que nos comandava. Chegamos ao ponto máximo em 2021. Foi quando nos demos conta das divisões que havíamos construído, muitas vezes sem perceber e outras vezes percebendo-nos como os donos da verdade sobre os outros/as que julgávamos com cetro forte de ferro.

Assim, sem perceber condenamos à morte o ecumenismo que havíamos buscado e construído. Estávamos destruindo um quadro belíssimo pintado a muitas mãos e corações. Desconectamo-nos da tradição de proximidade de uns e outras tão fortemente presente nos Evangelhos. Esquecemos a humanidade que nos unia e a rica diversidade que mantinha nossas vidas.

Alguns então assinaram o decreto de morte ao ecumenismo, à fraternidade e sororidade comuns quando se julgaram cristãos superiores aos outros, quando defenderam hierarquizações no cristianismo julgando-se ser os primeiros em proximidade histórica à Jesus. Esqueceram-se da história passada, dos desmandos religiosos e políticos e anularam as razões das separações fortalecendo posturas duvidosas sem buscar esclarecer a história passada com lucidez e cuidado.

Por isso apesar de sermos construtores/as de divisões e apesar de nossas buscas pelo bem comum há dias que a gente se sente ‘como quem partiu ou morreu’... A gente estanca de repente, estarrecidas frente a uma palavra institucional tão contrária à tradição dos Evangelhos, tão desconectada da realidade das comunidades cristãs, tão distante das causas propagadas pelo Evangelho. A gente sente a desconexão entre a vida e as pregações! E isto temos vivido com a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. O texto base suscitou divisões, fez aparecer o verniz que nos unia, revelou sua fragmentação múltipla, mostrou o pluralismo desrespeitoso que defendíamos.

Pastora Romi Márcia Bencke secretária nacional do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs) foi vítima dessas armadilhas inconsequentes lideradas por homens aparentemente bem preparados e socialmente bem posicionados. Ela foi criticada e diminuída por alguns que abraçam um cristianismo entre as muitas formas de cristianismo, porém que se julga superior e mais verdadeiro que outros.

Bispos católicos em nota pública diante da situação conflitual a esquecem e nem sequer seu nome é lembrado por essas autoridades da Igreja Católica Romana. Ao contrário, buscam explicar aos seus algozes, aos que se distanciam do hoje dos Evangelhos as razões de suas próprias atitudes eclesiásticas. Buscam justificar algumas aberturas institucionais apenas para continuar mantendo posturas que foram parte da cristandade dos séculos passados.

Os que condenam o ecumenismo, os que condenam o respeito a um cristianismo plural, os que condenam as lutas das mulheres por direitos, estes recebem atenção e cuidado. Os destruidores das diferenças recebem acolhida e apreço sub-reptício. Os que detêm o poder das alturas, os que não se preocupam com os corpos reais merecem resposta e explicações. Que ecumenismo é esse?

O triste fim de um certo Ecumenismo se anuncia. Não seria mesmo bom que este ecumenismo controlado por poderosas autoridades morresse? Não seria bom que esse ecumenismo institucional desaparecesse?

Muitas de nós mulheres cristãs, horrorizadas com essas condutas temos vontade de gritar o que o anjo da Igreja de Laodiceia gritou: ... “Não sois frios nem quentes, estamos para vomitar-vos de nossa boca” (Apocalipse 3: 15, 16). Estamos vomitando esse ecumenismo e criando algo diferente, talvez algo como uma amizade para além das instituições, uma cumplicidade nas dores e alegrias comuns...

Que tristeza ler a nota da CNBB! A Igreja Católica não é membro do CONIC? Se é porque se distancia de suas orientações, de suas posturas como se fosse uma instituição da qual não somos parte? Mais uma vez o ecumenismo institucional declara-se moribundo!

Por que as autoridades eclesiásticas insistem que sua palavra ‘católica’ seja a mais ouvida e seja considerada a mais próxima do Evangelho de Jesus? Não seria essa pretensão oculta algo do colonialismo que historicamente nos caracterizou, algo de nossa centralidade romana julgada sempre superior? Não seria essa tentação de superioridade sempre presente nos limitados esforços para um ecumenismo real? Não estariam alguns senhores fortalecendo um ecumenismo hierárquico patriarcal e misógino que não constrói uma igualdade nas relações diferentes? Não estariam menosprezando as palavras das mulheres que nos últimos decênios têm sustentado a tradição do Evangelho para além das fronteiras institucionais, para além do confessionalismo excludente, para além das divisões que os conflitos da guerra santa patriarcal querem manter a todo custo?

Institucionalmente, e talvez até mesmo dentro de si, muitos continuam a repetir a oração do fariseu no Templo: “ Ó Deus, graças vos dou porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros e nem como essa ‘publicana’. Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos”. Lucas 18,11.

Atrevo-me a expressar-me com certa dureza de linguagem e julgamento inevitável. Porém, nem de longe me aproximo do desprezo com o qual a nota da presidência da CNBB de 9 de fevereiro de 2021, ignorou nossa amiga e irmã Romi Bencke, desconsiderando seu trabalho e os ataques infames e maldosos que lhe foram dirigidos. Os bispos concentraram-se em formalidades e em benefícios pecuniários que são fruto de pedidos de gente bem pouco comprometida com a sorte dos mais pobres e com a justiça nas relações. Porém, é a eles que eles se explicam e é para eles que se justificam.

Perdoem-me a ousadia do julgamento, mas parece que algumas autoridades religiosas revelam estar protegendo mais a efígie de César cunhada nas moedas de ouro do que as necessidades do povo!

Algo de tudo o que escrevi no calor da ira e da paixão desses dias é o que especialmente muitas mulheres e homens das Igrejas Cristãs sentem frente à nota da presidência da CNBB em relação a Campanha da Fraternidade Ecumênica e à complexa situação das Igrejas cristãs no mundo de hoje.

Há um ecumenismo que se termina no mundo e especialmente no Brasil e outro que está em pleno vigor. O ecumenismo eclesiástico que defende seu próprio terreno, seu dinheiro, suas obras, suas doutrinas e dogmas este está em extinção. Uma outra Campanha da Fraternidade Ecumênica cujo lema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” está sendo vivida e orientada por grupos pequenos muitos dos quais liderados por mulheres da estirpe de Agar, de Sara, Miriam, Débora, Rute, Maria, Marielle, Romi, Sonia, Luzmarina, Valéria, Magali, Bianca, Yuri... Delas está nascendo uma outra organização de vida cristã!

O Lema da Campanha: “Cristo é a nossa paz. Do que era dividido fez uma unidade” não parece que se ajusta à nota dos bispos e ao desejo de muitos. A nota tem provocado guerra, divisões, mentiras sobretudo porque não incentiva a campanha ecumênica, mas nas entrelinhas e na conclusão final refere-se a Campanha da Fraternidade Católica, aquela na qual muitos julgam ter mais poder e pretendem dirigir os fiéis como manda a sua santa ‘Madre Igreja”.

Talvez seja mesmo a hora e a vez do fim do ecumenismo institucional! Talvez seja tempo de retomarmos de novo nossa vida, nossa liberdade

comum, nossas crenças vitais, nossas conversas de cozinha, nossas hortas de ervas medicinais...

Quem tem ouvidos para ouvir ouça, quem tem olhos para ver veja o que está acontecendo para além das fronteiras institucionais. É o Movimento plural de Jesus, qual fênix aparentemente destruída nascendo surpreendentemente de novo!

 


Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

 

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O DESRESPEITO À VIDA HUMANA POR MEMBROS DA IGREJA CATÓLICA ROMANA



Por Ivone Gebara

Se a Igreja Católica Romana continuar a educar os seus fiéis através de comportamentos de choque tais como os que estão acontecendo no Rio de Janeiro em relação ao aborto, estará incentivando a franca decadência dos costumes e a violência cultural.

Já imaginaram que daqui a pouco poderemos ter estátuas de pedófilos, e talvez alguns deles vestidos de batina expressando gestos de sexo explícito com crianças. Alguém de bom senso seria capaz de pensar que essas eventuais obras de plástico, fabricadas em série, expostas nos altares ou apresentadas no rito penitencial educariam os membros da Igreja e outros a não usar as crianças para suas fantasias sexuais? Ou talvez, poderiam apresentar slides com cenas de violência doméstica focalizando nas figuras masculinas que têm mutilado centenas de mulheres anualmente no Brasil. Poderiam até carregar nas cores e focalizar especialmente as cenas de sangue derramado. Acreditariam acaso estar educando os fiéis a combater a violência contra as mulheres?

A imaginação não me falta para tentar apresentar as mais diversas cenas, analogias e associações em relação ao caso atual dos embriões, aliás, de falso tamanho, expostos nos altares de algumas igrejas do Rio de Janeiro.

Sinto tristeza e vergonha que tenhamos chegado a este ponto. Sinto tristeza e vergonha dos comportamentos retrógrados da maior parte da hierarquia católica romana que não compreendeu os gestos de vida de Jesus de Nazaré e não aprendeu dos efeitos negativos dos comportamentos fascistas e ditatoriais que a Igreja teve ao longo de sua história em relação à ciência, às diferentes culturas e às mulheres. Sinto tristeza e vergonha da insensibilidade com que se trata um problema de saúde pública e da maneira como se usam os textos bíblicos descontextualizados para justificar posturas de um grupo como se fossem posturas da Igreja.

Como entender que o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, D. Antonio Augusto Dias Duarte afirme que a imagem do feto é singela e que a Igreja tem o direito de conscientizar a população? Por que não apresenta então os retratos das milhares de mulheres que morreram por abortos mal feitos. As imagens das mulheres mortas seriam menos singelas? Seriam impuras? Seriam acaso menos conscientizadoras?

Justificar estas ações de violência cultural, acobertadas pelo lema da Campanha da Fraternidade “Escolhe, pois a Vida” é ambíguo, contraditório e até certo ponto de má fé. Supõe que a hierarquia toda poderosa da Igreja, sem acolher um consenso mínimo entre a diversidade dos fiéis, visto que não acolhe as várias pesquisas de opinião pública e nem as reflexões de muitas mulheres, é capaz de afirmar o que é o melhor para as vidas humanas. Usa de sua autoridade e privilégio para fazer valer suas posições em desrespeito a um pluralismo real, necessário e salutar. Acredita com isso defender a vida sem pensar que a vida em geral não se defende de forma geral. Cada um de nós escolhe as vidas que vai defender de forma prioritária e as formas de defendê-las. Cada um de nós tem que arcar com a dose de contradição inerente a qualquer escolha. A instituição eclesiástica não foge à regra e, portanto está faz a mesma coisa. Fica claro quem defende em primeiro lugar. Por isso, vale a pergunta: por que o embrião e não a mulher? Não estaríamos ainda vivendo no mundo dos princípios abstratos, dos mitos de pureza sem conexão com a vida real? Estas e muitas outras perguntas são convites ao pensamento diante dos problemas reais de nosso tempo.

Como a Igreja hierárquica sempre fez e continua fazendo quando seus fiéis se desviam das normas que estabeleceu, creio que, o mínimo que se poderia esperar, é que não só o bispo D. Antonio Augusto, mas também, os padres e conselhos paroquiais que acolheram sua diretiva sejam considerados cúmplices do mesmo crime de violência cultural e de desrespeito simbólico aos corpos humanos. O mínimo que a presidência da CNBB deveria fazer é alertá-los e instá-los a retirar imediatamente de suas Igrejas os embriões de plástico. Além disso, se possível, convidá-los a pedir perdão publicamente por esse ato de terrorismo religioso, especialmente contra as mulheres e as crianças.

No caso dos embriões de plástico expostos nas igrejas do Rio não se trata de respeito às opiniões da Igreja ou à autonomia de cada diocese. Dar e respeitar opiniões inclui um limite ético. Estas ações vão além desses limites. A Igreja sempre usou do direito de opinar sobre várias questões sociais e, sobretudo ultimamente. Nesse caso particular como em outros semelhantes, que têm acontecido, trata-se de uma usurpação de poder, trata-se de uma instrumentalização das consciências, trata-se de uma violência praticada, sobretudo num momento em que os fiéis se reúnem para uma celebração da memória da vida de Jesus de Nazaré. Mais uma vez o desejo de poder, de influir nas decisões do Estado, de acreditar que seus princípios e suas propostas são as melhores para a vida em sociedade fortalece uma visão retrógrada do cristianismo e uma visão contraria ao pluralismo social. Além disso, distancia a Igreja Católica Romana de um possível discipulado entre iguais e da urgência de diálogo a partir das dores concretas de corpos concretos.

O que está acontecendo é vergonhoso e totalmente ilegítimo. AGUARDAMOS MEDIDAS DAS AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS assim como uma reação mais contundente dos FIÉIS e dos movimentos sociais. Não podemos mais aceitar que a ignorância disfarçada em fé, o autoritarismo disfarçado em serviço e a intransigência obscurantista disfarçada em educação conscientizadora tenham a última palavra nas comunidades cristãs. Em vez de usar a expressão “Escolhe, pois a vida” como álibi para manter sua luta contra o aborto terapêutico, poderiam simplesmente convidar os fiéis a respeitar as escolhas diferentes ajudando-os na construção de relações para além dos dogmatismos e sectarismos religiosos.
*Publicado na Adital – Agência Frei Tito para América Latina (http://www.adital.com.br) em 18 de março de 2008.

Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

BEM VINDO AO TEMPO QUE SE CHAMA HOJE


por Ivone Gebara

Estamos hoje habituadas a ler e a ouvir que vivemos em tempos obscuros, que perdemos o rumo da verdade e da justiça e estamos imersos numa longa noite escura. Tudo isso talvez seja verdadeiro, mas se absolutizado, corre o risco de atrapalhar a percepção das coisas boas que também estão acontecendo. Coisas boas não são apenas coisas agradáveis no imediato, mas são passos na direção de valores que foram objeto de longas ou pequenas lutas de muitas pessoas. Coisas boas são coisas difíceis que apesar do sofrimento que nos causam indicam que estamos num caminho de purificação de nossas relações.

É, nesse sentido, que busco louvar este tempo, tempo que é nosso, um hoje único que nos é oferecido. Em meio às muitas ambiguidades e contradições temos que reconhecer as revelações, as denúncias e exigências de respeito que soam bem alto como realidades positivas. Elas quebram a ordem estabelecida da injustiça sobre muitos corpos, quebram a hegemonia dos poderes e dos deuses. Revelam o nefasto escondido, a opressão consentida. Refiro-me especialmente a algo que vem acontecendo nos lugares de dominação masculina religiosa. Quantas denúncias acolhemos em relação à pedofilia do clero! Quantos pedidos de inquérito em relação às contas das igrejas! Quantas noticias de assédio, de violência e responsabilidades não assumidas! As novas vozes que gritam abrem as portas das sacristias, dos conventos e igrejas como abriram dos escritórios de empresários famosos, de artistas, de cineastas, de políticos. Vão mostrando à luz do dia as cenas de exploração antes ocultas nas alcovas e confessionários.

Ah! Que belos tempos os nossos onde até no Vaticano as freiras, religiosas de diferentes congregações que trabalham lá ousam revelar o regime de trabalho injusto a que são submetidas. Exploração de sua mão de obra a serviço de prelados e de muitos clérigos sem mesmo receber o devido pagamento. Os jornais europeus e norte-americanos da última semana como Euronews, e outros como o britânico ‘The Guardian’ nos deixarem estarrecidas. A notícia de fato saiu numa revista distribuída pelo L‘Osservatore Romano’ embora possa parecer contraditório que um jornal ligado a ‘Santa Sé’ fale da exploração das freiras que lá trabalham. Uma casa falando mal da própria casa! 

As freiras não têm o hábito de reivindicar direitos para si mesmas, mas dessa vez a exploração estendida por muitos e muitos anos chegou a seu limite. As religiosas denunciam o peso e a enorme quantidade de trabalho servil doméstico que fazem e a pouca retribuição que recebem pelo trabalho realizado. Além disso, dizem sentir-se exploradas “pelos homens da hierarquia da Igreja” que elas servem diariamente sem nenhum reconhecimento de seu trabalho. São mulheres simples vindas de muitos lugares do mundo e obedientes ao chamado que lhes foi feito. Nessa linha sugiro a leitura de uma série de artigos sobre o trabalho doméstico e especialmente o trabalho das religiosas no Vaticano escrito por várias intelectuais. A religião é também empresa exploradora da mão de obra feminina! 

Sem nomear diretamente os beneficiários desses serviços femininos desde muito tempo, sabemos bem que os homens da Igreja desenvolveram a ideologia de que os sacerdotes representam a Cristo na terra. Mesmo os mais sinceros são atingidos indiretamente por ela. As mulheres que se consagraram a Cristo muitas vezes se sentiram obrigadas a se consagrarem também aos homens da religião acolhendo acriticamente essa falsa representação. Homens, obedientes às suas necessidades não hesitaram em incentivar a fundação de congregações dedicadas aos Seminários, à ajuda ao clero, ao cuidado com os bispos, cardeais e papas. Os prelados e seus jovens alunos continuam proclamando-se celibatários por causa do Cristo, mas não abriram mão dos benefícios de ter mulheres para cuidar da limpeza de sua casa, da roupa e da cozinha. Reproduzem o mesmo sistema vigente em muitos lugares do mundo. Continuam a ter casa e comida cuidada e preparada pelas especialistas do mundo doméstico, aquelas cujo corpo lhes serve idealizado como o a da Virgem Maria e, ao mesmo tempo usado para os cuidados da vida cotidiana.

O tom crítico e até meio irônico dessa crônica é também marcado pela alegria diante da coragem de muitas religiosas que estão abrindo a boca em relação a sua condição subalterna exaltada pelos clérigos como serviço gratuito ao Senhor. Fariam bem de usar aqui o plural e falar de serviço e submissão aos senhores!

Não sei se somos nós, as feministas espalhadas pelo mundo todo, se são as atrizes de Hollywood ou as intelectuais que lutam pelo direito das minorias que estamos enfim ajudando tantas mulheres a ouvir os clamores coletivos de seus corpos no lugar em que vivem sua consagração. Não sei se é a internet e seu acesso em alguns conventos inclusive no Vaticano que têm aberto as mentes, os corações e as bocas de muitas que estão ousando fazer a denúncia dos senhores representantes do Senhor. O fato é que tempos novos estão sendo anunciados! E isso é maravilhoso!

Minha ira e minha alegria misturadas são enormes porque estamos acordando para a farsa em que vivemos. Estamos percebendo o ópio misturado ao Evangelho de Jesus. Mesmo com boa fé, mesmo acreditando no bem que estávamos fazendo, estávamos e estamos reforçando um sistema que nos exclui e explora. De repente nossos olhos estão se abrindo e percebemos a falsidade no interior dos belos discursos nos quais acreditávamos terem vindo dos céus através das bocas clericais. É claro que a vida é uma mistura mais complexa do que um texto de denúncia, mas quando a gente percebe que ingredientes inadequados nos fazem mal então é preciso fazer de tudo para eliminá-los.

Na mesma linha embora de forma diferente, entristeceu a muitas de nós ver através dos meios de comunicação o Encontro do Papa Francisco com 500 monjas contemplativas no Perú. Que humor mais sem graça o do Papa Francisco qualificando a ‘fofoca’ como o maior pecado das religiosas contemplativas. E não só isso falando que essa ‘fofoca’ (bisbilhotice) era mais perigosa que as antigas ações do grupo Guerrilheiro Sendero Luminoso. E muitas das religiosas entre as presentes, por vício de educação riram com ele embora não tivessem gostado de seu discurso! Por favor, Papa Francisco! Há formas de humor que são aviltantes! Há formas de humor que destilam desrespeito, ignorância e injustiça. E a sua foi uma. Perdoe-me a ousadia de deixar pública a minha ira, mesmo sabendo de sua atuação brilhante em outras áreas da vida dos cristãos. Um deslize sem dúvida, mas um grave deslize que confirma as formas de tratamento que os sacerdotes e bispos dedicam às mulheres.

O Papa Francisco seguindo um raciocínio que convidava as religiosas a construírem a unidade em seus conventos afirmou: “O diabo é mentiroso, e também bisbilhoteiro: gosta de levar e trazer, procura dividir, deseja que, nas comunidades, falem mal umas das outras. Já disse isto muitas vezes, repetindo-me: Sabeis o que é uma religiosa bisbilhoteira (fofoqueira)? É uma "terrorista". Pior que aqueles terroristas de Ayacucho, alguns anos atrás. Pior, porque o mexerico é como uma bomba: ela vai e "bss... bss... bss...", como o diabo, atira a bomba, destrói e parte tranquila. Nada de irmãs "terroristas", sem bisbilhotices. Já sabeis que o melhor remédio para não bisbilhotar é morder-se a língua. A enfermeira terá um pouco que fazer, porque a vossa língua se inflamará, mas pelo menos não atirastes a bomba. Por conseguinte, que não haja bisbilhotices no convento, porque isto é inspirado pelo diabo. Ele, por natureza, é bisbilhoteiro e mentiroso. E recordai-vos dos terroristas de Ayacucho, quando vos vier vontade de bisbilhotar. 

Bisbilhotice, terrorismo, coisas do demônio, convite a morder a própria língua... Que linguagem inadequada para falar para as monjas, para mulheres que tiveram e têm uma história de dedicação ímpar na Igreja!

A forma de comportamento com que as religiosas são tratadas pelos clérigos em todas as escalas da hierarquia sugere que elas sejam umas ignorantes e ingênuas. Fico simplesmente irada com a palavra “irmãzinha” que muitas vezes usam para dirigir-se a nós. Longe do afeto fraterno e sororal que podemos dedicar uns aos outros o tom é de superioridade melosa, de uma artificialidade impar e de uma falsidade que provoca náuseas.

Se nós mulheres temos hoje que reconhecer nossa submissão ao clero que identificamos erroneamente à Igreja, os homens têm que reconhecer como se aproveitaram da ingenuidade e do bom coração de muitas para fazer valer a realização de suas necessidades domésticas.

Perdoem-me os leitores e leitoras! Mas a experiência na frequentação desses ambientes ensinou-me muitas vezes a avaliar o alcance da inconsistência da educação que o clero dá a si mesmo para manter as aparências de um poder mentiroso, de uma caridade falsa e de uma doutrina que eles pregam, mas na qual não creem. Apesar das exceções, há um excesso de palavras bonitas endereçadas a umas e outras. Mas essas palavras não colam mais a realidade. São falsas e produtoras dos mais diferentes tipos de violência e alienação.

Bendito esse tempo que é o nosso! Tempo do acordar da consciência das mulheres religiosas! Tempo em que não ficará mais pedra sobre pedra, que já vê caírem templos e palácios episcopais e se ouvem os gritos e os lamentos dos falsos profetas. Em cumplicidade com os políticos roubam os pobres e iludem os ignorantes. Não ficará pedra sobre pedra. Estamos ainda no começo da destruição da mentira que impomos uns aos outros em nome de nossa astúcia e egoísmo ‘religiosos’.

Mas há bem mais do que esse fatos acima narrados. Lembrei-me da Comissão Teológica para estudar a ordenação diaconal das mulheres estabelecida pelo Papa Francisco. Em que deu? Em nada. Provavelmente daqui a alguns meses teremos um documento dizendo que após longos estudos a Comissão chegou à conclusão de que tradição da Igreja Católica Una, Santa, Masculina e Vaticana não autoriza a essa Comissão a se desfazer de uma sólida Tradição. Só não dirão que foi a tradição que eles mesmos criaram e querem manter. Afirmarão convictos que a escolha dos 12 apóstolos, apenas homens, não é deles, mas herança de Jesus e, portanto desígnio divino. É simplesmente triste! Só ouvem a sua voz e só se apegam aos dogmas que os mantêm ainda por um tempo no poder. Mas daqui a um tempo cairão para que novos tempos possam de fato aparecer!

Sei que estes problemas que abordo nesse momento são menores frente aos dramas de populações inteiras destruídas pelas paixões humanas como é o caso atual da Síria e do crescente número de emigrantes forçados, desempregados e famintos do mundo. Mas acredito que o pequeno tem a ver com o grande assim como o grande se manifesta no pequeno. Tudo o que fazemos de bom a um pequeno fazemos indiretamente a todo o mundo.

Por isso, as mulheres religiosas do Vaticano fazem o bem ao mundo ao dizer: Basta! E com elas muitas mulheres e homens fazem eco a esse profético BASTA!

Não queremos ser um tribunal uns dos outros. Nem atirar pedras. Não é essa a ética dos Evangelhos. Mas queremos sim nos alertar mutuamente para as paixões que nos atraem, cegam e levam-nos a negar o respeito devido à vida de todas as pessoas. Por isso continuamos dizendo: BASTA!

Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SOBRE VENCEDORES E VENCIDOS: UMA REFLEXÃO OPORTUNA E IMPORTUNA


Por Ivone Gebara

Em tempos de desesperança e tendência a se calar na multidão postamos um artigo de 2016 para reacender a chama da esperança.

“Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ou vir
E se ela for de samba
Há de querer ficar"


Não chore presidenta Dilma porque tem muita gente no bom samba da dignidade que se recusa a calar sua voz, se recusa a parar de gingar, se recusa a parar de pensar, de escrever, de analisar o momento presente e de cantar, e cantar... Liberdade, liberdade, liberdade. A vida brasileira está confusa e atirar pedras ou lamentar o leite derramado não resolve a situação! Convencer os outros de que há uma única culpada de nossos atuais problemas é no mínimo assustador e incompreensível. O ser humano habituou-se a encontrar ‘bodes expiatórios’ que levam a culpa sem coletivizá-la e sem tornar a responsabilidade social e política uma responsabilidade comum assumida.

Não chore ainda não presidenta, não vale chorar porque os que se julgam vencedores e creem em sua vitória estão alegremente atribulados e acuados. Mas qual é mesmo essa vitória tão grande? Uma lei expressa em palavra inglesa, ‘impeachment’ pareceu mudar os rumos da vida de muitos e a sua? É ela que os tornou vitoriosos? É ela que nos tornou vencidos com você?

Depois de nosso orgulho de ter você como primeira presidenta, de saber de suas lutas e fraquezas como as de todas nós, com você estamos ouvindo novos impropérios sobre a incapacidade das mulheres de fazer política original e eficaz. Não nos deram muito tempo e nem muitos espaços...

Não chore presidenta... Tem muita gente sentindo a mesma raiva que você deve estar sentindo, mas reunindo forças de vida por que “tanto menino novo nasceu” nessa semana, tanto “jovem se apaixonou pela vida”, “tanto velho dançou nas praças”, “tantas andorinhas estão cantando”, tanta “flor nasceu no campo”,... Embora, o som do violão esteja fraco...

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Olé, Olé, Olá..
.
Depois de uma noite de quase insônia na qual pedaços da fala da presidenta Dilma explicando e se defendendo em meio à fala acusatória de alguns senadores povoavam involuntariamente meus pensamentos, decidi levantar-me para não aumentar mais minha angústia. A música do Chico Buarque “Olé, Olé, Olá” estranhamente fazia um fundo musical insistente na minha tristeza. Passei do quarto para meu pequeno escritório e, não sei bem porque olhando minha estante de livros tomei em minhas mãos um velho livro sobre ‘a oração de Jesus' escrito em 1973, pleno período de governo militar, pelo saudoso amigo Padre José Comblin. Folheei o livro e algumas palavras que faziam as vezes de pequenos subtítulos começaram a desfilar sob meus olhos... Solidão, abandono, derrota, vencedores, vencidos, reconhecimento... Li um e outro parágrafo como se quisesse buscar neles a calma necessária para começar o dia. Sentia-me atravessada pelo dia e noite de julgamento de nossa presidenta e depois pelo dia do veredito final. Mal conseguia imaginar as noites que ela passou depois das perguntas ardilosas e armadilhas que os juízes senadores lhe estendiam. Parecia-me aviltante que ela tivesse que repetir várias vezes a mesma informação porque as excelências presentes só tinham em vista a pergunta que queriam lhe fazer em público. Mal ouviam o que ela dizia atentos aos seus celulares, às câmaras de televisão e a buscar um ou outro olhar de cumplicidade entre os seus pares. Sob o pretexto de julgar seus atos políticos se mostravam ao público como justos e justiceiros defendendo o pobre povo brasileiro contra a primeira mulher presidenta de nossa história!

Minha tribulação aumentou com essas lembranças e por isso resolvi escrever convencida que cantar, escrever, cozinhar 'parecem com não morrer' sobretudo diante da confusão do momento político e das trevas que sem querer invadem a alma.

Espontaneamente pensei que apenas fazer de novo críticas aos opositores de Dilma, à sua superficialidade democrática e humanista não aliviariam meu coração. Da mesma forma, cantar as glórias da presidenta não me parecia o melhor caminho. Provavelmente muitas amigas e amigos estariam fazendo as mesmas constatações e não tinha mais vontade de beber de novo da mesma massacrante situação vivida que parecia não me levar a nenhuma saída. Também fazer análises políticas a partir da conjuntura nacional e internacional não era o meu forte...

Lembrei-me então do que havia lido no livro de José Comblin e me voltou a ideia de que nem sempre os vitoriosos, os que têm o êxito imediato são de fato os construtores da história da dignidade humana. O êxito talvez gere a boa consciência do dever cumprido, da vitória aparente da legalidade, do bom resultado obtido pelo desempenho social, da vitória sobre os adversários... Entretanto, o êxito ou a vitória não levam à reflexão, a interiorização e análise de nossos comportamentos e sentimentos. Que insensatos /as somos! Inebriamo-nos facilmente com nossa própria imagem acreditando ser o centro do mundo. Esquecemos que a vitória de Pilatos, do Império Romano, dos doutores da lei e até do povo acusador na realidade foi o golpe mortal à liberdade. E por isso foi um golpetambém contra os acusadores. Condenar Jesus à crucifixão e à morte foi uma vitória daqueles a quem a integridade das ações de Jesus molestava no imediato. A História tem nos ensinado embora não tenhamos aprendido que não há uma relação lógica de coerência entre os atos humanos realizados e os resultados obtidos e, sobretudo os considerados vitoriosos ou exitosos. Provavelmente Hitler e seus aliados mais próximos sentiram-se vitoriosos quando as câmaras de gás e os fornos crematórios conseguiram eliminar milhares de seres humanos...

Estupenda vitória! Limpeza étnica realizada! Missão cumprida! Também os ditadores sanguinários da América Latina vibraram de alegria quando torturaram e mataram milhares dos chamados 'inimigos da pátria'... Afinal conseguiram o que esperavam, ou seja, eliminar os 'vermes' que buscavam a liberdade do povo. E quantas guerras vitoriosas foram glorificadas apenas porque as armas que mataram vidas significaram o sucesso das empresas produtoras de artefatos bélicos? A história humana é de fato eivada de uma mistura imensa de sentimentos, palavras, ações salvíficas e cruéis que levam à vida e à morte num movimento sem fim.

Quase sempre pensamos que a vitória é o resultado do sucesso provisório de nossa ideologia, de nossa empresa, de nossa competência ou de nosso sonho por mais extravagante que seja ele. Mas a história também acaba por desmentir a vitoria dos vencedores... Só que não a história imediata cheia de conflitos passionais, tecida de mentiras vestidas de verdade, de encobrimentos e acusações mútuas, de golpes de luva de pelica sob a qual se escondem alfinetes envenenados. Também não a história oficial dos Impérios que se sucedem e escrevem suas vitórias ensinadas e aprendidas nas escolas. Mas a história que desmente as grandes vitórias das guerras de uns contra os outros é a pequena história dos pequenos amores e das pequenas ações de justiça e solidariedade que sustentam a dignidade da vida. Essas pequenas histórias irrompem cada dia de diferentes maneiras...

Num campo de concentração um decide dar a vida no lugar de outro, a outra dá a sua porção de alimento à colega grávida, a lavadeira entrega seu salário para comprar o remédio para a filha da vizinha, um homem ajuda um marginal que matou seu filho, mulheres denunciam a violência infantil...

Estas e outras tantas pequenas histórias são as narrativas muitas vezes desconhecidas das pequenas vitórias da vida. Histórias ocultas, de personagens desconhecidos e insignificantes mantêm a chama da dignidade humana!

Para além das polarizações da história imediata na qual cada indivíduo espera convencer o outro ou atirá-lo num covil de leões famintos, para além do reducionismo da realidade limitada e perspectivista que apenas meus olhos são capazes de ver, há um tênue fio de contradição que se instaura em todas as posições. É ele que nos fará pensar e buscar a de novo a liberdade... É ele que convidará as novas gerações a analisar os fatos passados e perceber que é esse fio obscuro e incômodo, talvez enredado a muitos outros o portador da novidade que nos fará reviver com dignidade. É a contradição e o paradoxo de nossos atos que nos convida ao pensamento e a novas ações. É ele que revela a fragilidade de nossos pensamentos e de nossos atos e nos remete à limitada condição humana. É a suspeita em relação as nossas próprias verdades e interpretações, aos poderes que utilizamos aos abusos que deles fazemos que conduzem a História para frente. São esses incômodos no pensamento e nas emoções, na consciência e no coração que emergem sem querer e que persistem apesar dos pesares... São eles que desmentem a vitória dos vencedores imediatos e a tragédia vivida pelos vencidos que não são apenas os “outros” partidos, mas o povo vivendo em condições sub-humanas. São eles que restauram de novo a história da dignidade humana e nos fazem esperar de novo apesar dos medos que nos acompanham sempre.

No presente, os vencidos parecem cabisbaixos mesmo quando gritam sua dor e decepção nas praças públicas. Sentem-se feridos e abandonados até por quem antes parecia estar de seu lado...

Os vencidos são deixados aos seus próprios problemas e os que eram próximos deles até negam conhecê-los, os que antes os aconselhavam para serem ‘ganhadores’ desviam-se de seus caminhos, orgulhosos de serem também indiretamente vitoriosos, pois afirmam que seus sábios conselhos não foram seguidos. Facilmente, em meio à derrota, desenvolvem outras vitórias, alinham-se aos moralmente corretos, fazem teoria ‘clara e distinta’, explicam as razões dos vencidos, querem ser bons e justos sem perder a aura de sua moralidade. Escondem-se usando mil e um pretextos e não aderem mais à causa que os movia e os fazia brilhar no provisório palco da história. Hipócritas! Sepulcros caiados!

Os vencidos parecem desamparados... Nem suas velhas esperanças os sustentam visto que os vencedores parecem ter se apropriado delas... Apropriaram-se de seus feitos, de sua linguagem, de suas vestes, de seus amigos e de suas leis. Desnudaram os vencidos de suas crenças, roubaram a ‘bandeira nacional’ de todos e fizeram dela a veste de alguns privilegiados sedentos de glória e poder.

Porém, os vencidos por incrível que pareça não são apenas os que perderam uma partida de futebol, ou perderam as eleições, ou um trabalho, ou um lugar ao sol... Somos todos nós como humanidade buscando o sentido de sua vida embora só saibamos considerar a nossa individualidade.

Em tudo isso, ainda resta a contradição, o paradoxo, aquela experiência que nos mostra que no fundo todos nós somos menores que nossas vitórias e bem maiores que nossas derrotas. Todos nós somos de alguma maneira, vencidos e vencedores. Todos nós temos que recomeçar nossa busca comum de dignidade para além dos fracassos experimentados. Nosso futuro se chama hoje...

Por isso, querida presidenta Dilma, “não chore ainda não”, não choremos porque temos razões para não chorar... Olé, Olé, Olá...

Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CORPORATIVISMO DO CLERO RELIGIOSO



por Ivone Gebara

Escrevo sobre o corporativismo do clero religioso embora seja o corporativismo dos políticos quando defendem seus próprios interesses individualistas que esteja na ordem do dia. Entretanto, sobre este corporativismo os meios de comunicação têm se debruçado à exaustão e nosso estômago e razão aguentado demasiadas agressões, sobretudo diante do que o contexto atual tem nos mostrado. Além disso, muitos especialistas têm escrito análises interessantes sobre esse fenômeno que revela a inconsistência de nossas instituições políticas nas quais manipuladores atuam a céu aberto.

Hoje, nesse mesmo contexto, quero escrever sobre o corporativismo do clero, do clero religioso, aquele que se diz submisso a vontade de Deus, aquele que se acredita guardião da tradição do bem e da justiça, aquele que se auto-identifica como arauto da mensagem de Jesus e fiel à sua postura ética. A ele outros ‘religiosos’, embora sem regras e sem ordens clericais, se juntam formando a gloriosa extirpe dos leigos servidores da moral tradicional e da Igreja. Representam talvez as teologias fundamentalistaspor oposição às teologias pluralistas como escreve Boaventura Sousa Santos em seu livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”. Cortez 2014. Acreditam, talvez sem muita reflexão, que sua religião cristã é fundada numa Revelação divina eterna. Essa Revelação contém em si toda a História e por isso, segundo eles pode julgá-la segundo seus preceitos. Impõem, excluem e perseguem de forma sutil ou agressiva todas as pessoas que pleiteiam formas plurais de expressão da mesma fé cristã. Creem-se os únicos verdadeiros anunciadores da vontade divina que segundo eles é monolítica e intervêm na sociedade pluralista impedindo que seus membros reflitam de forma crítica sobre o mundo atual que é o nosso. Tal comportamento existiu no passado, mas no presente se reveste de formas especiais de manifestação. Ao criticá-los não estou destituindo-os de seu direito de existir, mas sim da usurpação que fazem do direito dos outros de pensar e agir de forma diferente. Estou criticando sua guerra ao pluralismo constitutivo de todas as vidas e em especial da vida humana nas suas múltiplas manifestações. Estou criticando seu fechamento dentro da comunidade cristã tornada quase um gueto. Negam o simples fato de que habitamos como diferentes o mesmo mundo e este dado não pode ser eliminado sob o risco de eliminarmos forças vitais.

corporativismo clerical é de direita, de esquerda, de centro e de muitas outras tendências conforme os interesses em jogo. Reproduzem as mesmas polarizações da política miúda caracterizada pela divisão de poderes; acusam-se mutuamente de conservadores e progressistas, etiquetam-se sem conhecer a origem histórica das etiquetas que colam uns nos outros. Apresentam-se ao público como mensageiros da ‘palavra de Deus’, como obreiros do Evangelho e em posse de um verniz religioso manipulam as massas com seus discursos, ameaças e muitas vezes com suas litúrgicas apresentações artísticas. Atraem multidões para si e estas os aplaudem e os glorificam quase como semideuses. Constroem comunidades virtuais que atacam outras como se fossem torcidas organizadas violentas e destrutivas de pessoas e instituições. Incitam ao ódio como forma de defesa da fé. Tudo virtualmente em nome de Deus, mas tudo com consequências desastrosas na vida de muitas pessoas.

Influenciam o agir de autoridades políticas e religiosas que inebriadas pelo número de seus seguidores confundem a popularidade superficial com a verdade. Eximem-se da responsabilidade de pensar os novos rostos e os novos desafios que constituem a sociedade plural em que vivemos e convivemos.
Alguns dentre eles, mesmo em época de fome generalizada, usam anéis e tiaras douradas. Vivem em casas confortáveis, quase palácios. Vestem-se de púrpura e sentam-se nos primeiros lugares de mesas cheias de iguarias saborosas oferecidas por indivíduos de grande prestígio social. Têm a reputação de sábios, instruídos na excelência do saber teológico espiritual capaz de conduzir o povo que julgam incapaz de seguir seu próprio caminho sem a ajuda de seus ‘legítimos pastores’. Eles mesmos estão convencidos de sua superioridade e, embora obrigados pela falsa humildade que lhes foi ensinada, tentam aparecer como iguais diante daqueles que os ouvem e se submetem a eles.

Hoje, talvez, já não obedeçam mais de fato a um poder central, mas cada um se faz ‘poder’ à sua imagem e semelhança imaginando que obedece a uma ortodoxia da verdade. Têm blogs, páginas, faces, seguidores, televisões a seu dispor... Disputam espaços na mídia ou convidam outros para fazê-lo em seu nome. Quando criticam alguém ou algum evento, imediatamente se auto-inocentam em nome de sua responsabilidade na preservação do povo de Deus ou da tradição que dizem defender. Hipocrisia e covardia não lhes faltam apesar da simplicidade e sociabilidade que acreditam ter e manifestar.

Atacam pessoas que pensam ou se apresentam de forma diferente apontando para a diversidade do mundo de hoje e para a necessidade de repensar a tradição cristãpara esse novo tempo. Vivem atacando os outros e, sobretudo as outras em nome de sua verdade que já não resiste mais à multifacetária realidade na qual vivemos. Refiro-me especialmente a ignorância desses doutos senhores em relação ao feminismo, à teologia feminista, ao movimento de mulhereslésbicasgaystrans e etc. Refiro-me ao seu racismo escondido e à sua xenofobia disfarçada. Refiro-me à sua misoginia flagrante ou disfarçada. Refiro-me às suas críticas e à falta de percepção quase proposital do mundo em que vivemos assim como das justas reivindicações de direitos de muitos grupos. Controlam as consciências assim como os meios de comunicação o fazem sem que percebamos seu controle e sua nefasta influência.

Apelam para o respeito e agem com desrespeito. Apelam para os bons costumes e agem imaginando que apenas seus costumes são bons. Falam de um mundo mítico e ludibriam as pessoas com esperanças vãs. Falam de justiça, mas não movem uma palha para que ela aconteça.

Fazem-me lembrar do profeta Isaias embora o contexto seja outro. “Esse povo é rebelde, constituído de filhos desleais, de filhos que se recusam a ouvir a Verdade e dizem aos videntes: ‘ não queirais ver’ e aos seus profetas: ‘ Não procureis ter visões que nos revelem o que é reto’. Dizei-nos antes coisas agradáveis, procurai ter visões ilusórias. Afastai-vos do caminho, apartai-vos da vereda, fazei desaparecer da nossa presença a Santidade”. Isaias 30, 9 a 11.
Isaias continua denunciando a mentira, a fraude, a tortuosidade dos caminhos apresentados como caminhos de justiça e de Deus. De que Deus?

Mas de quem estou falando? O que estou querendo denunciar? Estou falando da má fé, da surdez, da cegueira, do dogmatismo de tantos clérigos e ‘leigos’ em relação aos fundamentos de sua fé. Quero denunciar a máfia da religião, mesmo daquela que se apresenta de forma digna e defensora dos pobres. Ela também se esconde como amante e proprietária da verdade e não é capaz de reconhecer os limites de suas afirmações. Quero especialmente denunciar a perseguição que muitas mulheres têm sofrido nas Igrejas cristãs e particularmente na Igreja Católica romana através da censura a seus trabalhos, através da proibição de sua expressão nos espaços ditos de Igreja, através da anulação de cursos e conferências de que estão sendo vítimas.

Quando um bispo ou um cardeal ou o núncio proíbem uma professora de cumprir sua responsabilidade em assessorias previamente aceitas e, sobretudo a convite de comunidades locais esses senhores apelam para que se evite o escândalo das novas idéias radicais e se mantenha a fé e os costumes. Fé de que tempos e a partir de que costumes? Não percebem a indissociabilidade de nossos corpos, de nossos gêneros, de nossas diferentes culturas e tempos. Não percebem a contradição dos poderes que dizem representar?

Na realidade me parece que essas autoridades estão no mesmo ato da proibição dos cursos e conferências declarando a comunidade cristã como incapaz, como ‘menor’ para julgar seus processos formativos. Estão declarando a comunidade cristã incapaz de discernimento e de análise do mundo em que vivem. Estão impedindo-a de escolher seus rumos mesmo que apareçam mais tarde como equivocados. Talvez essa seja a parte mais triste dessa triste história de nossa atualidade eclesial. Ou seja, a exclusão da comunidade cristã do direito de pensar, do direito de escolher, de assumir sua responsabilidade diante da vida corrente e de seus múltiplos desafios e transformações.

sistema religioso vigente apesar de algumas aberturas mantêm-se através de poderosas ‘estruturas de ordem’. A partir delas se afirmam normas, comportamentos, ensinamentos como se fossem realidades objetivas indiscutíveis. Por isso mesmo, esses senhores ‘pastores’ julgam-se donos de suas ‘ovelhas’, únicos capazes de encontrar os bons caminhos para seu ‘rebanho’, únicos capazes de orientar suas escolhas e as formas políticas que escolheram para se orientar na sociedade atual. Não estaria na hora de mudar a imagem das ovelhas submissas a um pastor e introduzir a imagem dos amigos/as que conversam juntos, que discernem e que olham para a necessidade uns dos outros?

Sem dúvida, através das autoridades religiosas, o ‘Santo Oficio’, hoje Congregação para a Doutrina da Fé, continua sub-repticiamente exercendo suas funções através de outras formas de coerção. Na maioria das vezes não há mais o decreto romano de interdição vindo diretamente do Vaticano, mas o decreto romano se faz local e se expande de forma assustadora tomando posse de lugares, de instituições, de meios de comunicação onde apenas ‘uma verdade’ pode ser transmitida e ensinada. Recusam-se ao diálogo, não querem conversar sobre as questões atuais mesmo quando são convidados por suas vítimas. Fazem ouvidos surdos a esses apelos.
Às vezes, chegam a crer que entendem de todos os assuntos a partir de sua leitura das Escrituras e de sua teologia. Controlam corpos, definem comportamentos, definem teorias, julgam a arte e a literatura, determinam mediações sociológicas e filosóficas, sem o menor diálogo com as comunidades plurais que constituem as igrejas. A discussão que reduz as questões de gênero à ideologia e a crítica ao feminismo como destruidor da família estão nessa linha. Da mesma forma a nota da Arquidiocese de Porto Alegre em relação à Exposição do Santander cultural “Queer museu” (11/9/2017) torna-se mais um exemplo do que estou querendo denunciar. Ao mesmo tempo em que falam de combater o preconceito falam do respeito às minorias. Quais preconceitos combatem? A quais minorias se referem? E qual o respeito que dedicam aos seus fiéis e não fiéis? Dizem que o ‘museu cultural queer’ é uma agressão a fé e ao corpo. Mais uma vez, qual fé e qual corpo?

Entretanto, não criticam os que são dogmáticos defensores da ordem estática. Não chamam a atenção à sua ação destrutiva, às guerrilhas que organizam pela internet para desabonar pessoas e instituições. Não impedem sua violência física e simbólica. Não proíbem e não condenam esses malvados súditos de expressarem seu ódio pelos ‘diferentes’ em meio a essa profunda confusão em que vivemos. Estes malvados não querem ouvir outras vozes, não querem conhecer outras realidades. Estão convencidos que agem segundo a ordem de Deus e que essa ordem imutável trará a salvação para todos.

Talvez muitos dirão que confundo as coisas e que há que distinguir os bons hierarcas dos grupos incontroláveis. Há que distinguir, mas nessa ‘salada’ que é a nossa tudo se confunde, sobretudo quando as autoridades religiosas não enfrentam as questões que afligem as comunidades.

Os tradicionalistas podem pensar de seu jeito e segundo sua escolha, mas não podem impor esse caminho para aquelas e aqueles que nascendo ou acolhendo uma comunidade católica como umas das referências de sua vida se vejam obrigadas/os a calar diante da pretensa hegemonia de interpretação teológica e ética que as autoridades impõem.

corporativismo clerical mantém as injustiças contra todas e todos que se sentem excluídos das formulações teológicas e políticas dos hierarcas e de seus sustentadores. O corporativismo clerical mantém a censura às novas ideias e decide o que acolhe e o que rejeita no seio das comunidades cristãs. Elas não têm voz e nem vez para se organizarem de forma diferente.

baixo clero, facilmente se defende e acusa o alto clero em relação ao que foi proibido. Mas sempre acabam se submetendo. Fazem corpo entre si e, mesmo se no corpo haja dissidências teóricas ou apenas retóricas, seu lamento muitas vezes parece falso como uma desculpa de cortesia e sem fundamento real. Mesmo pessoas as mais bem intencionadas envolvem-se nessas discussões e acabam se limitando a apoios formais que na realidade não produzem nenhum efeito de revisão e mudança no comportamento do clero e de seus cúmplices e subordinados. Não assumem sua responsabilidade pessoal na mudança. Estão sempre a jogar para o outro a responsabilidade pelo que está acontecendo e em última análise apoiam-se em Deus, pois afirmam agir segundo sua vontade ou segundo as Escrituras. Nessa linha descartam levianamente tudo o que parece ser diferente de seu conceito de injustiça social. Não percebem que a injustiça é entranhada em diferentes comportamentos humanos, até o mais cotidianos, até os mais litúrgicos, os mais domésticos. Isentam-se das chamadas responsabilidades menores aquelas que têm a ver com o mundo doméstico e de suas mantenedoras enquanto se mostram proclamadores de sua justiça social. Escolhem sua forma de justiça sem perceber a interdependência entre elas. E, é nesse ‘bom e salutar’ espírito que acabam destruindo a tradição ética dos Evangelhos e tornando o cristianismo inviável para aqueles que não se enquadram na ordem metafísica perfeita dos funcionários de Deus.

A propaganda antifeminista que encabeçam é a atração mais exuberante de concordismo em relação a uma ‘pequena tradição’ e, a meu ver, um alimento suculento entregue aos fascismos políticos de nosso tempo. Os preconceitos contra as mulheres aumentam a violência contra elas e incitam ao ódio às minorias étnicas e sexuais que constituem o chamado ‘povo brasileiro’. Um fosso se abre no interior das igrejas cristãs. Cada vez mais perdem membros oficialmente identificados à instituição. Diante do obscurantismo de seus líderes leigos ou clérigos há um notável abandono ou um recuo em relação às conquistas de um humanismo plural e respeitoso da diferença.

Não pretendo que eliminemos o pluralismo de direita, de esquerda ou de centro. Gostaria que eliminássemos as formas de exclusão e destruição de nós mesmos. Gostaria que percebêssemos que o direito à diferença é um direito vital e quanto mais o outro é diferente mais tenho que respeitá-lo e esperar que me respeitem. O respeito não é a conivência com o mal e não é também o ataque mortífero àqueles que não pensam como eu. Aceitar o paradoxo da vida, aceitar que nenhum pensamento explica todas as vidas e, além disso, como já dizia Hannah Arendt em vários textos de ‘Compreender’ (Companhia das Letras, 2008) que ‘ a realidade se apresenta diretamente ao homem como incerta, incompreensível e imprevisível’. Por isso não conseguimos resolver nossos problemas a partir dos conflitos do pensamento, das morais, dos partidos políticos. Há que desenvolver em nós um ‘coração de carne’, sensível à dor do outro, sensível a diferença do outro que me atormenta e ao mesmo tempo é condição da vida comum. Nenhuma pessoa pode se erigir em dona da verdade... Somos todos caminhantes e não há caminhos bons e verdadeiros antecipadamente. Sem nenhuma pretensão a ter razão ouso apenas pensar e propor de novo o respeito efetivo à diversidade.


Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.
É uma das principais defensoras da Teologia Feminista, irmã da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora. Aos 73 anos, tem mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática