O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador humana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humana. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de julho de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NA CASA COMUM

 Marcelo Barros


 

A ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população".  Há quem veja nessa data um alerta para se encontrar meios de diminuir a população da Terra. Atualmente a população humana está chegando perto de oito bilhões de pessoas no mundo. O planeta Terra teria recursos para alimentar e prover a vida de 11 bilhões de seres humanos. No entanto, isso não será possível se a atual geração se comporta de forma irresponsável e egoísta no uso da água, dos alimentos e dos bens que deveriam ser comuns a toda a humanidade. 

Com este “dia mundial da população”, a ONU quer chamar a atenção da humanidade para a urgência de um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos e maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável. A cada ano, a população da Terra registra um aumento de mais ou menos 75 milhões de pessoas.

Não temos os dados a partir da pandemia, mas sabemos que que a população cresce na África e diminui em alguns países ricos.. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos,  como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.  Atualmente, nos países ricos, quem quer está vacinado. Em países pobres, a taxa de pessoas vacinadas mal ultrapassa 10% e em alguns países mais estranhos, surgem perguntas até sobre as datas de validade das vacinas.

Como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar quase o dobro da população humana. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, esperava-se que até 2030, a humanidade tivesse conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. A pandemia veio revelar que essa meta fica cada vez mais longe de ser alcançada. Em plena pandemia, desigualdades sociais se multiplicaram, os mais ricos triplicaram os seus ganhos e muitos governos aumentaram os gastos em armamentos.

Cada vez mais fica claro: se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado. Com o aquecimento global e a destruição provocada pela sociedade capitalista na natureza, mudou a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera. Entramos em uma nova era geológica.

Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno, recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno, porque é provocada pelo ser humano (antropos). Cientistas de diversos países estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é esquivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.

Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.  

O papa Francisco tem insistido com toda a humanidade para criar nova consciência ecológica e retomar a proposta da fraternidade humana. Na encíclica Fratelli Tutti, ele nos lança este convite: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas dessa mesma terra que nos abriga a todos e todas, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” (FT 8).

 

terça-feira, 29 de junho de 2021

DA PANDEMIA HUMANA À PANDEMIA DA MÃE-TERRA

 Marcelo Barros


 

A realidade atual do Brasil e do mundo já nos proporciona suficientes motivos de tristeza e preocupação. Não precisamos mais de sinais preocupantes que ainda nos angustiem mais em relação ao futuro. Qualquer pessoa minimamente informada e isenta sabe que a maioria das pessoas que negam a gravidade da pandemia e a responsabilidade do governo tentam, apenas, garantir interesses econômicos ou políticos. Alguns cientistas advertem sobre a possibilidade de novas pandemias, até mais cruéis.  

Em meio a todo esse caos, ouvimos alertas do governo em relação à crise hídrica e a que a diminuição trágica do volume de águas nas hidroelétricas do país provocará uma pane elétrica mais grave. A escassez de água já se manifesta em várias de nossas cidades e tivemos apagões no sistema elétrico do Amapá e de alguns estados do Norte e Nordeste.

Na quinta-feira, 17 de junho, ecoou no mundo inteiro um alerta vindo da ONU. Mami Mizutori, representante especial do secretário-geral na Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNDRR, na sigla inglesa) alertou: “é iminente a ocorrência de uma grande seca que atingirá muitos países do mundo e esta seca pode tomar a proporção de uma verdadeira e próxima pandemia e para esta, não há vacinas que nos curem (Público, Lisboa, sexta-feira, 18/ 06/ 2021, p. 22).

De acordo com o documento da ONU, este fenômeno será ocasionado pelas alterações climáticas que provocam diminuição de chuvas. Também para isso contribui a poluição dos rios provocada pelo elevado uso de fertilizantes tóxicos, os desmatamentos e uso irresponsável da água para a indústria do agronegócio.

Nos diversos continentes, os observatórios do clima já preveem um período longo e indefinido de estiagem que provocará escassez de água e maior insegurança alimentar. Essa seca afetará o mundo inteiro, se os países não tomarem medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e cuidarem melhor da água e dos solos. Este relatório da ONU será assunto de debates e estudos na próxima conferência mundial sobre o clima que ocorrerá em novembro deste ano, em Glasgow (Cop 26).

Em todos os continentes, ao menos há mais de cinco mil anos, populações tradicionais têm convivido com secas e períodos de escassez. No entanto, agora, esse fenômeno de seca e escassez de água é, em grande parte, provocado por atividades humanas e pelas opções políticas de governos e das empresas que dominam a economia no mundo.  

Conforme o relatório da ONU, esta crise ecológica será intensa e mais prolongada. Pode durar décadas e vai alterar o clima e as condições de vida da Terra. Isso vai se refletir mais e mais em áreas de bacias hidrográficas, mas também em regiões longínquas das mesmas. Na América do Sul, as fumaças das queimadas na Amazônia são vistas em nuvens tóxicas que descem sobre o sul do Brasil e sobre o Paraguai, Uruguai e Argentina. A destruição do bioma do Cerrado em Goiás e Mato Grosso afeta o nível de água dos rios que desaguam no Plata e na bacia amazônica.

No mundo atual, conforme a ONU, mais de um bilhão de pessoas não tem acesso garantido à água potável necessária para a vida e a saúde. Não porque falta água, mas por distribuição injusta e por um sistema social que faz com que um norte-americano disponha, em média, de 44 litros de água potável por dia. Enquanto isso, a água disponível em média para um africano não chega a um litro.

Este comunicado da ONU vem nos dizer que esta pandemia da seca e da crise da água pode ocasionar uma tragédia para a humanidade mais grave até do que a Covid. Trará o agravamento da fome e da insegurança alimentar em vários continentes e ocasionará a volta de enfermidades endêmicas, que, em outros tempos, a humanidade já tinha parecido vencer.  

Para a pandemia do Covid, temos várias vacinas que funcionam e nos dão boa margem de segurança. Para esta pandemia anunciada pela ONU, provocada, não por fenômenos naturais, mas pelo sistema capitalista depredador, a única vacina segura será a conversão ecológica. O papa Francisco a propõe em sua encíclica sobre o cuidado com a Casa Comum. A conversão ecológica supõe nos sentirmos todos guardiães das florestas, da mãe Terra e das águas, assim como das comunidades originárias que, por suas culturas, já vivem permanentemente este cuidado.

Na cultura antiga do povo bíblico, dois séculos antes de Cristo, às margens do Mar Morto, surgia um grupo religioso que tentava renovar a consciência de unidade com Deus, com a Terra e uns com os outros. Em suas regras, os essênios deixaram escrito o seguinte ensinamento: “Em verdade, te digo:  Tu és um com tua Mãe Terra. Ela está em ti e tu estás nela. Dela tu nasceste, nela tu vives e para ela voltarás novamente. Olha para o sol, teu avô e louva quem o criou. Segue as leis da terra, pois teu alento é o alento dela. Teu sangue o sangue dela. Teus ossos são os mesmos seus.  Tua carne, a sua carne. Teus olhos e ouvidos são também os seus. Quem encontra a paz na sua mãe Terra nunca morrerá. Conhece esta paz na tua mente.  Deseja esta paz em teu coração. Realiza esta paz com o teu corpo” (Evangelho dos essênios)[1].  

 

 


.  

 

 

 

 

 



[1] - citado por REGINA FITTIPALDI, Cidades em Transição, em Sophia, ano 7, n. 28, p. 26.

terça-feira, 4 de maio de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NO PLANETA DA INFORMAÇÃO

 


Marcelo Barros

 

Em meio a tantas datas comemorativas destes dias (dia da Mãe Terra e dia da classe trabalhadora), poderia parecer pouco relevante que a ONU tenha consagrado o 03 de maio como “dia internacional da liberdade de imprensa”. Quantas questões envolvidas nesta proposta!

Em nossos dias, apesar não estarmos mais submetidos a ditaduras militares, há pessoas processadas e ameaçadas de punição com a lei de segurança nacional, por ter se expressado contra o presidente da República. No Brasil e em outros países, a liberdade de imprensa continua cerceada, seja pelo poder político de índole totalitária, seja principalmente pelo poder econômico dos grandes conglomerados que fazem da comunicação a arma para concentrar mais poder e obter mais lucros.

O domínio econômico impõe um controle quase total sobre as informações que a sociedade recebe. Atualmente, assiste-se a uma concentração sempre maior de órgãos da imprensa nas mãos de poucos proprietários. No Brasil, a grande imprensa sempre foi propriedade de poucas famílias que, em cada região, controlam jornais, rádios e televisões. Em todo o mundo, mais de 80% das agências de notícia e dos organismos de comunicação pertencem a grandes empresas que controlam, ao mesmo tempo, as redes de informação, as grandes companhias petrolíferas e também indústrias de armamentos. 

No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam. O governo norte-americano gasta milhões de dólares para que, diariamente, em todos os países da América, se publiquem notícias negativas em relação aos governos ou aos políticos que devem ser destruídos. A guerra de quarta geração foi usada contra a Líbia, contra a Síria. Hoje, o império norte-americano a usa contra o governo e o povo da Venezuela.

Este tipo de guerra se tornou muito mais barata do que a convencional e mais eficiente. No Brasil, a produção de notícias falsas já elegeu até presidente da República. Todo mundo sabe que a rede da família Marinho promoveu um juizinho do interior a falso herói nacional. Serviu-se amplamente dele para destruir a democracia e possibilitar a entrega sistemática de todas as riquezas nacionais a empresas estrangeiras. Garantiu a vitória do inominável para o governo do país. Depois que as coisas não saíram de acordo com o esperado e, por várias razões, a farsa está sendo descoberta, a Rede Esgoto descarta o juiz e quer dar ao país a impressão de que tomou a defesa do povo.

  É verdade que todo ponto de vista é sempre vista de um ponto. Também se sabe que é mais barato opinar do que informar objetivamente. Mas, os cidadãos têm direito a uma informação honesta. É direito de quem informa tomar partido e declarar suas preferências ideológicas e sociais. Basta que isso seja claro, até para favorecer o debate e a pluralidade de opções. Embora pertença a uma empresa particular, um meio de comunicação social é sempre serviço público. Deve cumprir sua tarefa sem ser subjugado a interesses privados.

Em sua mensagem para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais que ocorrerá no domingo 16 de maio, o papa Francisco apontou para os riscos de uma comunicação social que não tenha controles, diante da expansão das chamadas ‘fake news‘. O papa afirmou: “Há algum tempo, descobrimos como as notícias e imagens são fáceis de serem manipuladas. Isso ocorre por diversos motivos, às vezes até apenas por um narcisismo banal. É preciso perceber os riscos provocados pelas notícias falsas na internet, especialmente, com a pandemia da Covid-19. Atualmente, os meios de comunicação oferecem mais espaço para uma “informação reconfeccionada”, e são menos capazes de interceptar a verdade das coisas ou a vida concreta das pessoas. Também não conseguem informar sobre os fenômenos sociais mais graves. A consciência crítica nos empurra não a demonizar os instrumentos de comunicação e sim a cuidar de termos sempre maior capacidade de discernimento”.(...) “Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, das informações que damos, do controle que, juntos, podemos exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos convocados a ser testemunhas da verdade”, completou. “É necessário um jornalismo  “valente” e com coragem para ir de encontro às pessoas e às histórias de vida”.

Quem é cristão se lembra: a palavra de Deus nos vem através do “evangelho”, termo grego que significa boa notícia, informação verdadeira e libertadora, a respeito do projeto divino no mundo. O compromisso dos meios de comunicação com a humanidade é fazer com que as notícias publicadas e seus comentários possam ser realmente como “evangelhos”, isso é notícias que levem à vida e à liberdade humana. Independentemente de serem ligados ou não a uma religião, serão notícias evangélicas se servirem a um projeto de mundo mais justo e fraterno. Para isso, é indispensável e urgente que os meios de comunicação sejam livres e democráticos.

  

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?(II)

 

                                   


Leonardo Boff

 

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivência comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a  eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na  humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder

O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como  a mais conhecida  Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoreou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade

Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A  radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde  nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um  radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Aí se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo

Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo  a pergunta como quem não está totalmente convencido: “Será que  a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:

”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar  um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).

A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros  e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se  responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: ”não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um  novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto  dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

REPORT THIS AD

A grande tentação de São Francisco

Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é  o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos  a ponto que seu  biógrafo São Boaventua o chamar de  vir desideriorum (homem de dsejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está  à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus.E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta  a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com  a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza

Francisco buscou incansavelmente  a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não,  levar a humanidade a oprimir-se  a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999).  Face às ameaças planetárias também afirmou:”A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano” .

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a  em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada  mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo

Francisco viveu em termos pessoais a  fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de  uma instância de direção social.  Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e  dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria:  dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma  nova presença e como um modo ser  que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo

Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise economico-financeira de 1929 e  mesmo na de 2008. Ninguém  colocava em  questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este concepção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta

Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência  da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

 O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e  do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia..Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só  podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundete: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal

Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução  mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

 Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o  sentido de pertença fraterna,  o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças qe pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será  a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo  rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta  da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama  Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

 Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque  então poderemos  continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

 

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu:”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?(I)

                                                       Leonardo Boff


 

Na encíclica social Fratelli tuttiI (2020)o Papa Francisco apresenta seu “sonho” de uma nova humanidade fundada na fraternidade universal e no amor social (n.6), inspirado na figura e no exemplo de São Francisco de Assis, o irmão universal.

Esse tema da fraternidade universal foi a insistente preocupação de um dos melhores conhecedores do espírito de Assis:Eloi Leclerc em várias de suas obras ,especialmente, na Sabedoria de um Pobre (Paris 1959,Braga 1968) e no O Sol  nasce em Assis (Pars 1999, Vozes 2000). Ele não fala teoricamente mas a partir de um aterradora experiência pessoal. Jovem frade francês,mesmo não sendo judeu, foi levado para a Alemanha e mergulhou no inferno dos campos de extermínio nazista de Buchenwald e de Dachau. Conheceu a banalidade do mal,as matanças feitas pela SS pelo simples gosto de matar, as torturas e as humilhações que marcaram sua alma como ferro em brasa.

Abalado na fé no ser humano e duvidando de todo o ideal de uma fraternidade humana, buscava desesperadamente um raio de luz que não lhe vinha de nenhum lugar, Mesmo depois de sua libertação pelos aliados em 1945 começou  a ter medo de todo o ser humano. Confessa:”de noite, acordava sobressaltado, o suor escorrendo e  a alma tomada de pavor; aquelas imagens de horror sempre voltavam e me perseguiam; eu não podia apagá-las”(p.33). E continua:”Que o Senhor me perdoe, se às vezes de noite, esse homem velho que me tornei, levante os olhos inquietos ao céu, à busca de um pouco de luz”(p.31).

Carregava dentro de si os carrascos nazistas que o perseguiam e lhe suscitavam questões terrificantes sobre o destino humano e sua capacidade de destruir vidas indefesas.Esse mesmo trauma, mais que psicológico, pois invade e destrói todo ser humano por dentro e por fora, foi vivenciado pelo dominicano brasileiro Frei Tito Alencar, barbaramente torturado pelo delegado Fleury. Internalizou sua imagem perversa de tal forma que se sentia sempre perseguido por ele até que,não aguentando mais, deu fim à sua vida, preferindo  morrer do que viver uma  permanente tortura.Essa experiência terrível foi vivenciada também por Frei Eloi Leclerc,que longa e sofridamente refletida, nos entregou uma trêmula luzinha  apontando a possibilidade de uma  fraternidade universal,inspirada no pobre de Assis.

Foi o encontro com essa figura e com seu exemplo que lhe fez nascer de novo o sol em sua alma obnubilada e conseguiu resgatar o sentido secreto de todo o sofirimento. Narra um fato misterioso que ocorreu no trem descoberto e carregado de prisioneiros que por 28 dias de Buchenwald  viajava de um lugar ao outro ate parar em Dachau nos arredores de Munique. Eram três confrades,um deles agonizante. No meio do inferno, irrompeu algo do céu. Sem saber por quê,movidos por uma força superior, começaram a cantar com vozes quase inaudíveis o Cântico das Criaturas de São Francisco. As densas trevas não puderam impedir a luz do senhor e irmão Sol e a generosidade da mãe e senhora Terra. No Cântico se celebra o encontro  da ecologia interior com a ecologia exterior e o esponsal do Céu com a Terra, do qual nascem todas as coisas. A pergunta que sempre lhe atravessava a garganta: será que a fraternidade entre os humanos e com os demais seres da criação é possível? Essa experiência entre agonia e deslumbramento, não poderia conter uma eventual resposta esperançadora? Abriu-se pelo menos um trêmulo clarão. Tal choque existencial o motivou a estudar e a aprofundar qual seria a singularidade desta figura absolutamente excepcional dentro do conjunto das angiografias.

 

Leclerc descreve, então, o processo de construção da fraternidade universal na trajetória de Francisco de Assis. Filho de um rico comerciante de tecidos, considerado o rei da jeneuse dorée da cidade que vivia em farras e algazarras, de repente começou a dar-se conta da futilidade daquela vida. Passava horas na capelinha de São Damião,  contemplando o rosto doce e terno de um crucifixo bizantino.  Algo semelhante fazia Dostoievsky  que uma vez ao ano viajava até Dresden na Alemaha para na  igreja contemplar, por horas, a beleza de um quadro de Maria extraordinariamente deslumbrante. Precisava desta contemplação para apaziguar sua alma atormentada. No romance Os Irmãos Karamasov deixou esta instigante frase: ”é a beleza que salvará o mundo”.

Assim foi a doçura e o olhar misericordioso do Cristo bizantino, à semelhança com Dostoievsky, que conquistou aquele jovem em profunda crise existencial e lhe mudou o destino da vida. Convenceram-no a fé no Criador que criou uma fraternidade fundamental, fazendo que todos os seres, pequenos e grandes, também os humanos e o próprio Jesus de Nazaré, fossem todos tirados do pó, do húmus da Terra. Todos têm a mesma origem, formam uma fraternidade terrenal.

São Paulo aos Efésios lembrava aos seguidores:”Tende os mesmos sentimentos que Cristo teve. Sendo Deus, não fez caso de sua condição divina; fez-se um nada e assumiu a condição de servo por solidariedade com os seres humanos; apresentou-se como simples homem; humilhou-se- obedientemente até à morte e à morte de cruz”(o mais humilhante dos castigos impostos aos subversivos: Flp 2,5-8).

À luz destas matutações, Francisco esqueceu sua situação de filho de um rico mercador, descobriu a origem comum de todos os seres, do pó da Terra,  de seu húmus e contemplou também a humildade de Cristo retratada no rosto sereno e doce do crucifixo bizantino.  Como era prático e resoluto em tudo o que se propunha,  tirou logo uma conclusão: vou solidariamente unir-me àqueles que mais próximos estão  do Crucificado: os leprosos e com eles, vou viver aquilo que nos faz pela criação irmãos e irmãs e criar uma uma radical fraternidade com eles. Confessa em seu testamento: “aquilo que antes me parecia amargura agora emergia como doçura”. Conhecemos o resto da saga do Sol de Assis como o chama Dante na Divina Comédia.

Entretanto, Eloi Leclerc não se contentou com a experiência iluminadora do Cântico das Criaturas. A angustiante pergunta não lhe dava sossego: qual é  o grande obstáculo que impede  a fraternidade humana e com todas as criaturas e que cria espaço para os massacres e a eliminação sumária de pessoas, tidas inferiores ou sub-humanas como ocorreu nos campos de extermínio? Chegou à conclusão: é a vontade de poder.

Como C.G.Jung já havia percebido, a vontade de poder constitui o mais perigoso arquétipo do ser humano, pois lhe dá a ilusão de ser como Deus, dispondo como quiser da vida e da morte dos outros. E arrematava: ”onde predomina o poder aí não há mais ternura nem amor”. Quando se  torna absoluto, o poder se mostra assassino e elimina a todos os que fazem ouvir outra voz (p.30). Ora, nossas sociedades históricas (à exceção dos povos originários) se estruturam ao redor da vontade de poder e de dominar tudo o que se apresente: o outro, os povos, a natureza e a própria vida. Ela introduz a grande divisão entre aqueles que têm poder e aqueles que não têm poder.

Enquanto prevalecer o poder como eixo estruturador de tudo jamais haverá fraternidade entre os humanos e com a criação. Como este arquétipo é humano, ele está latente dentro de cada um de nós. Em nós se esconde um Hitler, um Stalin, um Pinochet e um Bolsonaro.O próprio Lclerc confessa:”Senti despertar em mim mesmo, a besta com sua sede de vingança”(p.32). Temos que colocar sob severo controle  essa figura funesta que mora em nós, se quisermos manter a nossa humanidade. Se nos entregamos à sedução do poder, quebramos todos os laços e a indiferença, o ódio e a barbárie podem ocupar todo o espaço da consciência, como está ocorrendo em vários países no mundo, especialmente entre nós no Brasil. Emergem então as figuras sinistras e até necrófilas referidas.

Quem diria que num país da velha cristandade que nos deu tantos gênios como Mozart e Bethoven, Goethe, Freud, Einstein, Marx, Heidegger,Brecht e outros tantos pudessem ter liberado o inimus homo latente dentro deles?

Esse fato dramatiza ainda mais a questão ousadamente proposta pelo Papa Francisco na Fratelli tuttiuma fraternidade universal e um amor sem fronteiras. Talvez porque desta vez, como tem repetido várias vezes: ”Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Pode ser que nos é oferecida pela própria Terra, quem sabe, pelo próprio universo, uma derradeira chance: ou mudamos ou a Terra seguirá girando ao redor do sol, mas sem nós. ( continua)

 

Leonardo Boff é ecotólogo e filósofo e escreveu: O Covid-19: um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade, Vozes 2.ed,2020/21.

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O DESRESPEITO À VIDA HUMANA POR MEMBROS DA IGREJA CATÓLICA ROMANA



Por Ivone Gebara

Se a Igreja Católica Romana continuar a educar os seus fiéis através de comportamentos de choque tais como os que estão acontecendo no Rio de Janeiro em relação ao aborto, estará incentivando a franca decadência dos costumes e a violência cultural.

Já imaginaram que daqui a pouco poderemos ter estátuas de pedófilos, e talvez alguns deles vestidos de batina expressando gestos de sexo explícito com crianças. Alguém de bom senso seria capaz de pensar que essas eventuais obras de plástico, fabricadas em série, expostas nos altares ou apresentadas no rito penitencial educariam os membros da Igreja e outros a não usar as crianças para suas fantasias sexuais? Ou talvez, poderiam apresentar slides com cenas de violência doméstica focalizando nas figuras masculinas que têm mutilado centenas de mulheres anualmente no Brasil. Poderiam até carregar nas cores e focalizar especialmente as cenas de sangue derramado. Acreditariam acaso estar educando os fiéis a combater a violência contra as mulheres?

A imaginação não me falta para tentar apresentar as mais diversas cenas, analogias e associações em relação ao caso atual dos embriões, aliás, de falso tamanho, expostos nos altares de algumas igrejas do Rio de Janeiro.

Sinto tristeza e vergonha que tenhamos chegado a este ponto. Sinto tristeza e vergonha dos comportamentos retrógrados da maior parte da hierarquia católica romana que não compreendeu os gestos de vida de Jesus de Nazaré e não aprendeu dos efeitos negativos dos comportamentos fascistas e ditatoriais que a Igreja teve ao longo de sua história em relação à ciência, às diferentes culturas e às mulheres. Sinto tristeza e vergonha da insensibilidade com que se trata um problema de saúde pública e da maneira como se usam os textos bíblicos descontextualizados para justificar posturas de um grupo como se fossem posturas da Igreja.

Como entender que o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, D. Antonio Augusto Dias Duarte afirme que a imagem do feto é singela e que a Igreja tem o direito de conscientizar a população? Por que não apresenta então os retratos das milhares de mulheres que morreram por abortos mal feitos. As imagens das mulheres mortas seriam menos singelas? Seriam impuras? Seriam acaso menos conscientizadoras?

Justificar estas ações de violência cultural, acobertadas pelo lema da Campanha da Fraternidade “Escolhe, pois a Vida” é ambíguo, contraditório e até certo ponto de má fé. Supõe que a hierarquia toda poderosa da Igreja, sem acolher um consenso mínimo entre a diversidade dos fiéis, visto que não acolhe as várias pesquisas de opinião pública e nem as reflexões de muitas mulheres, é capaz de afirmar o que é o melhor para as vidas humanas. Usa de sua autoridade e privilégio para fazer valer suas posições em desrespeito a um pluralismo real, necessário e salutar. Acredita com isso defender a vida sem pensar que a vida em geral não se defende de forma geral. Cada um de nós escolhe as vidas que vai defender de forma prioritária e as formas de defendê-las. Cada um de nós tem que arcar com a dose de contradição inerente a qualquer escolha. A instituição eclesiástica não foge à regra e, portanto está faz a mesma coisa. Fica claro quem defende em primeiro lugar. Por isso, vale a pergunta: por que o embrião e não a mulher? Não estaríamos ainda vivendo no mundo dos princípios abstratos, dos mitos de pureza sem conexão com a vida real? Estas e muitas outras perguntas são convites ao pensamento diante dos problemas reais de nosso tempo.

Como a Igreja hierárquica sempre fez e continua fazendo quando seus fiéis se desviam das normas que estabeleceu, creio que, o mínimo que se poderia esperar, é que não só o bispo D. Antonio Augusto, mas também, os padres e conselhos paroquiais que acolheram sua diretiva sejam considerados cúmplices do mesmo crime de violência cultural e de desrespeito simbólico aos corpos humanos. O mínimo que a presidência da CNBB deveria fazer é alertá-los e instá-los a retirar imediatamente de suas Igrejas os embriões de plástico. Além disso, se possível, convidá-los a pedir perdão publicamente por esse ato de terrorismo religioso, especialmente contra as mulheres e as crianças.

No caso dos embriões de plástico expostos nas igrejas do Rio não se trata de respeito às opiniões da Igreja ou à autonomia de cada diocese. Dar e respeitar opiniões inclui um limite ético. Estas ações vão além desses limites. A Igreja sempre usou do direito de opinar sobre várias questões sociais e, sobretudo ultimamente. Nesse caso particular como em outros semelhantes, que têm acontecido, trata-se de uma usurpação de poder, trata-se de uma instrumentalização das consciências, trata-se de uma violência praticada, sobretudo num momento em que os fiéis se reúnem para uma celebração da memória da vida de Jesus de Nazaré. Mais uma vez o desejo de poder, de influir nas decisões do Estado, de acreditar que seus princípios e suas propostas são as melhores para a vida em sociedade fortalece uma visão retrógrada do cristianismo e uma visão contraria ao pluralismo social. Além disso, distancia a Igreja Católica Romana de um possível discipulado entre iguais e da urgência de diálogo a partir das dores concretas de corpos concretos.

O que está acontecendo é vergonhoso e totalmente ilegítimo. AGUARDAMOS MEDIDAS DAS AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS assim como uma reação mais contundente dos FIÉIS e dos movimentos sociais. Não podemos mais aceitar que a ignorância disfarçada em fé, o autoritarismo disfarçado em serviço e a intransigência obscurantista disfarçada em educação conscientizadora tenham a última palavra nas comunidades cristãs. Em vez de usar a expressão “Escolhe, pois a vida” como álibi para manter sua luta contra o aborto terapêutico, poderiam simplesmente convidar os fiéis a respeitar as escolhas diferentes ajudando-os na construção de relações para além dos dogmatismos e sectarismos religiosos.
*Publicado na Adital – Agência Frei Tito para América Latina (http://www.adital.com.br) em 18 de março de 2008.

Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A FESTA DA NOSSA CAMINHADA HUMANA


Por Marcelo Barros

Essa semana é marcada por dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem sem nenhuma relação, mas, de fato, estão profundamente ligados. A ONU considera o 02 de outubro como o “dia internacional das pessoas sem-teto”. No mundo atual, 250 milhões de seres humanos são empobrecidos e excluídos dos seus direitos básicos por uma elite social cruel e impiedosa que domina o mundo. Obrigados por guerras assassinas ou pela fome provocada pelos impérios do mundo, uma multidão de migrantes e refugiados buscam desesperadamente salvar as vidas suas e de suas famílias nas fronteiras de países que não os acolhem ou recebem muito mal. No Brasil, os dados da ONU falam em 33 milhões de brasileiros sem moradia, dos quais 24 milhões de sem-teto sobrevivem em meio a nossas cidades.

 O outro evento que marca essa semana é religioso. A partir dessa quarta-feira à noite, as comunidades judaicas celebram a festa das Tendas (Sukkot). Durante oito dias, em toda casa judaica, as pessoas armam uma barraca improvisada como uma tenda no jardim. Nela, devem viver durante o período da festa. É o modo de recordar o tempo em que os hebreus peregrinaram pelo deserto, conduzidos por Deus, em busca da terra prometida. A festa das Tendas lembra que todos somos peregrinos/as. Na base da fé está a esperança da libertação e a luta para que a terra seja chão de irmandade para toda humanidade.

A respeito dessa festa, diz o Zohar, livro sagrado da Cabala: “Durante todo o Sukkot, as pessoas devem estar felizes em se alegrar de diversas formas”. Pode parecer estranho um livro religioso pretender ordenar alguém a ser feliz. É que, na Bíblia, Deus revelou o seu projeto de um mundo de paz e justiça habitado por uma humanidade de irmãos e irmãs em comunhão com todo o universo. Procurar ser feliz e fazer os outros viverem com alegria e na paz é atender a esse apelo de Deus. A festa das Tendas recorda a todo crente essa responsabilidade.

Atualmente, vivemos no Brasil um tempo de conflitos sociais e políticos. Os mais pobres, organizados em movimentos sociais, viram um governo constitucional ser derrubado e um bando de aventureiros nada recomendáveis se apoderarem do país. A alienação, pregada pelos grandes meios de comunicação interessados na deseducação do povo, fomenta um clima de grande intolerância. A tentação mais frequente é a do desânimo em relação ao futuro.  Nesse contexto, precisamos de uma grande celebração das Tendas, como festa da esperança. Aceitamos retomar uma espiritualidade do deserto como treinamento para um tempo novo de justiça ao qual Deus nos convoca. O Brasil pode se orgulhar do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em muitas de nossas cidades, ele tem contribuído para organizar a população sem teto e chama a atenção de toda a sociedade para o grave atentado aos direitos humanos, sofridos pelos irmãos e irmãs que vivem sem habitação.


Seja qual for sua pertença religiosa ou mesmo que você não tenha nenhuma, se coloque com os migrantes, refugiados e sem-teto nessa caminhada das tendas para uma terra de justiça e partilha fraterna centrada no amor. E creia: onde houver esse amor solidário, aí está o Espírito que recria de felicidade a sua vida e a de todo o universo.  

   Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países