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segunda-feira, 2 de maio de 2022

O CARNAVAL E SEUS CONTRASTES: A RELIGIÃO NA FESTA PAGÃ

 

                                                           Maria Clara Bingemer


 

É parte constitutiva da identidade do ser humano o elemento da festa.  A festa interrompe o tempo cotidiano e introduz a diferença do ritual e da celebração, para marcar uma ocasião especial em que é preciso deixar a rotina e voltar os olhos para o extraordinário que irrompe no tempo cronológico. 

 Todas as festas são eventos pelos quais se entra em “outra” ordem de coisas, onde a fantasia, a imaginação e o desejo tomam lugar.  Festejar, portanto, é reafirmar nossa condição de ser humano, é sublinhar o fato de que não somos guiados apenas pelos instintos e pelo kronos que implacavelmente passa.  Festejar é demonstrar que temos algum poder sobre o tempo, transfigurando-o com o rito da comemoração e da celebração. 

Em tempo de carnaval, mesmo fora de época como no feriado de 21 de abril, as reflexões acima se aplicariam. Somos instigados a refletir sobre o sentido e  o objetivo da música e da dança, dos espetáculos cheios de luzes e cores, dos corpos desnudados e fantasiados em desfile, do samba na rua, de tudo que compõe os três dias que o povo espera com sofreguidão. Isso torna-se ainda mais importante no Brasil, país onde o carnaval ocupa lugar central no imaginário do povo. Chamado com justeza país do Carnaval, o Brasil parece que entra em câmara lenta no Ano Novo para só recuperar seu ritmo e dinamismo depois dos festejos momescos. E agora, com este carnaval adiado devido à pandemia, impressiona a adesão de muitíssimos foliões saudosos da festa que não puderam celebrar nos dois últimos anos. 

Efetivamente, a maioria daqueles e daquelas que “brincam” o Carnaval conhecem pouco ou nada do seu sentido mais profundo. A primeira dimensão dos folguedos carnavalescos tem a ver com um tempo religioso, cósmico e sagrado, onde a Transcendência é que irrompe e transfigura o kronos.  O antropólogo Roberto da Matta nos chama a atenção, em seu conhecido livro “Carnavais, malandros e heróis”, para o fato de o carnaval ficar suspenso entre o Advento (tempo ligado ao nascimento de Cristo que é celebrado no Natal) e os 40 dias da Quaresma, esse período de penitência e mortificação que visa à conversão (metanoia) e culmina com a  celebração dos mistérios da paixão,  morte e  ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, é como se todo o ritual carnavalesco, tão apaixonadamente preparado e vivido pelo povo e que tantos milhões rende aos bolsos dos donos das festas e desfiles só deixasse brilhar seu verdadeiro sentido quando o silêncio da Quarta-feira de Cinzas se faz, com seu ritual das cinzas aplicadas em cruz sobre a testa dos penitentes acompanhado das palavras: Convertei-vos e crede no Evangelho. A quarta-feira proclama a morte de Cristo, agora assumida pela disciplina da Quaresma, que substitui os folguedos e a descontração carnavalesca. 

O carnaval, portanto, não tem rosto próprio, já que sua identidade é dada por um outro tempo e uma outra ordem de coisas e de sentido. Figura – ainda seguindo Roberto da Matta -  como um momento sem nome ou vez, escondido nas dobras de um calendário sagrado. Situado entre o nascimento e a paixão,  morte e ressurreição de Jesus Cristo, a festa que é o reinado de Momo é efêmera como as alegrias e gozos imediatos.  Assume e resume simbolicamente os momentos crísticos do Natal e da Páscoa. E a numerologia cristã dos três dias de que fala o Novo Testamento.

 O  carnaval é, portanto, um evento relativo.  Com o  brilho e o ruído que atraem todos os focos de atenção, na verdade está simplesmente resumindo algo de fulgor bem maior e duradouro: os três dias de folia se referem e encontram significação no mistério cristão,  já que a festa carnavalesca  nasce, agoniza e morre em três dias. 

     Sendo um evento  sincrônico, repetitivo, prenhe de conteúdos cognitivos e afetivos, o Carnaval tornou-se e passou a ser um tempo social importante, fortemente ligado à experiência vital de uma sociedade, muito especialmente da sociedade brasileira. 

     Em uma leitura informada pela fé, mas aos olhos das Ciências Sociais, o Carnaval só pode ser compreendido no contexto da visão cristã de mundo. Carnaval e Quaresma – no calendário cristão que rege o mundo após a queda do Império Romano -  opõem-se no ciclo anual por seus conteúdos sociais e religiosos, implicando comportamentos individuais e coletivos opostos. Porém, na verdade, encontram seu ponto luminoso e iluminador na pessoa de Jesus Cristo, Sol que nunca se apaga, Vivente por excelência, sobre quem a efemeridade das coisas não tem e poder. 

     A alegria do povo que vai às ruas fazer festa é bendita.  É cura para as dores e catarse para as opressões vividas e padecidas.  Assim foi esse carnaval extemporâneo, acontecido depois da Páscoa, mas onde se expressou uma alegria pascal após tanto luto e tanta morte,  como as que assolaram o povo brasileiro nos últimos dois anos. Essa demonstração de alegria encontra seu paradigma no mistério que configura o cristianismo e sua esperança no amor que é mais forte que a morte. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de teologia da PUC-Rio e autora de “Viver como crentes no mundo em mudança” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A FESTA DO CORPO



Frei Betto


        Na festa do Corpo de Cristo, deixarei o meu flutuar em alturas abissais. Acariciarei uma por uma de minhas rugas, desvelarei histórias em meus cabelos brancos, decifrarei, com a ponta dos dedos, meu perfil interior.

  Não recorrerei ao bisturi das falsas impressões. Nem ao espectro da magreza anoréxica. O tempo prosseguirá massageando meus músculos até torná-los flácidos como as delicadezas do espírito.

       Suspenderei todas as flexões, exceto as que aprendo na academia dos místicos. Beberei do próprio poço e abrirei o coração para o anjo da faxina atirar, pela janela da compaixão, iras, invejas e amarguras.

       Pisarei sem sapatos o calor da terra viva. Bailarino ambiental, dançarei abraçado à Gaia ao som ardente de canções primevas. Dela receberei o pão; a ela darei a paz.

        Acesas as estrelas, contemplarei na penumbra do mistério esse corpo glorioso que nos funde, eu, você e Gaia, em um único sacramento divino. Seu trigo brotará como alimento para todas as bocas, e suas uvas farão correr rios inebriantes de saciedade.

        Na mesa cósmica, ofertarei as primícias de meus sonhos. De mãos vazias, acolherei o corpo do Senhor no cálice de minhas carências.

        Dobrarei os joelhos ao mistério da vida e contemplarei o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são gregas palavras, e deitam raízes na mesma beleza.

        Despirei meus olhos de todos os preconceitos e rogarei pela fé acima de todos os preceitos. Como Ezequiel, contemplarei o campo dos mortos até ver a poeira consolidar-se em ossos, os ossos se juntarem em esqueletos, os esqueletos se recobrirem de carne, e a carne inflar-se de vida no Espírito de Deus.

        Proclamarei o silêncio como ato de profunda subversão. Desconectado do mundo, banirei da alma todos os ruídos que me inquietam e, vazio de mim mesmo, serei plenificado por Aquele que me envolve por dentro e por fora, por cima e por baixo.

        Suspenderei da mente a profusão de imagens e represarei no olvido o turbilhão de ideias. Privarei de sentido as palavras. Absorvido pelo silêncio, apurarei os ouvidos para escutar a brisa de Elias e, os olhos, para admirar o que tanto extasiou Simeão.

        Não mais farei de meu corpo mero adereço estranho ao espírito. Serei uma só unidade, onda e partícula, verso e reverso, anima e animus.

        Recolherei pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los no sangue de Cristo, antes que se soltem de seus casulos para alçar o voo salvífico das borboletas.

       Curarei da cegueira os que se miram no olhar alheio e besuntarei de cremes bíblicos o rosto de todos que se julgam feios, até que neles transpareça o esplendor da semelhança divina.



     Arrancarei do chão de ferro os pés congelados da dessolidariedade e farei vir vento forte aos que temem o peso das próprias asas. Ao alçarem o topo do mundo, verão que todos somos um só corpo e um só espírito.



     Farei do meu corpo hóstia viva; do sangue, vinho de alegria. Ébrio de efusões e graças, enlaçarei em um amplexo cósmico todos os corpos e, no salão dourado da Via Láctea, valsaremos até que a música sideral tenha esgotado a sinfonia escatológica.

     Na concretude da fé cristã, anunciarei aos quatro ventos a certeza de ressurreição da carne e de todo o Universo redimido pelo corpo místico de Cristo.

      Então, quando a morte transvivenciar-me, o que é terno tornar-se-á eterno.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Adquiria-o: www.cortezeditora.com.br

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terça-feira, 3 de outubro de 2017

A FESTA DA NOSSA CAMINHADA HUMANA


Por Marcelo Barros

Essa semana é marcada por dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem sem nenhuma relação, mas, de fato, estão profundamente ligados. A ONU considera o 02 de outubro como o “dia internacional das pessoas sem-teto”. No mundo atual, 250 milhões de seres humanos são empobrecidos e excluídos dos seus direitos básicos por uma elite social cruel e impiedosa que domina o mundo. Obrigados por guerras assassinas ou pela fome provocada pelos impérios do mundo, uma multidão de migrantes e refugiados buscam desesperadamente salvar as vidas suas e de suas famílias nas fronteiras de países que não os acolhem ou recebem muito mal. No Brasil, os dados da ONU falam em 33 milhões de brasileiros sem moradia, dos quais 24 milhões de sem-teto sobrevivem em meio a nossas cidades.

 O outro evento que marca essa semana é religioso. A partir dessa quarta-feira à noite, as comunidades judaicas celebram a festa das Tendas (Sukkot). Durante oito dias, em toda casa judaica, as pessoas armam uma barraca improvisada como uma tenda no jardim. Nela, devem viver durante o período da festa. É o modo de recordar o tempo em que os hebreus peregrinaram pelo deserto, conduzidos por Deus, em busca da terra prometida. A festa das Tendas lembra que todos somos peregrinos/as. Na base da fé está a esperança da libertação e a luta para que a terra seja chão de irmandade para toda humanidade.

A respeito dessa festa, diz o Zohar, livro sagrado da Cabala: “Durante todo o Sukkot, as pessoas devem estar felizes em se alegrar de diversas formas”. Pode parecer estranho um livro religioso pretender ordenar alguém a ser feliz. É que, na Bíblia, Deus revelou o seu projeto de um mundo de paz e justiça habitado por uma humanidade de irmãos e irmãs em comunhão com todo o universo. Procurar ser feliz e fazer os outros viverem com alegria e na paz é atender a esse apelo de Deus. A festa das Tendas recorda a todo crente essa responsabilidade.

Atualmente, vivemos no Brasil um tempo de conflitos sociais e políticos. Os mais pobres, organizados em movimentos sociais, viram um governo constitucional ser derrubado e um bando de aventureiros nada recomendáveis se apoderarem do país. A alienação, pregada pelos grandes meios de comunicação interessados na deseducação do povo, fomenta um clima de grande intolerância. A tentação mais frequente é a do desânimo em relação ao futuro.  Nesse contexto, precisamos de uma grande celebração das Tendas, como festa da esperança. Aceitamos retomar uma espiritualidade do deserto como treinamento para um tempo novo de justiça ao qual Deus nos convoca. O Brasil pode se orgulhar do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em muitas de nossas cidades, ele tem contribuído para organizar a população sem teto e chama a atenção de toda a sociedade para o grave atentado aos direitos humanos, sofridos pelos irmãos e irmãs que vivem sem habitação.


Seja qual for sua pertença religiosa ou mesmo que você não tenha nenhuma, se coloque com os migrantes, refugiados e sem-teto nessa caminhada das tendas para uma terra de justiça e partilha fraterna centrada no amor. E creia: onde houver esse amor solidário, aí está o Espírito que recria de felicidade a sua vida e a de todo o universo.  

   Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

quinta-feira, 22 de junho de 2017

FESTA DE SÃO JOÃO

por Frei Betto



      João, santo cuja festa se celebra no próximo sábado, era primo de Jesus, filho de Zacarias, sacerdote do Templo de Jerusalém, e de Isabel, prima de Maria. Por ter nascido seis meses depois de seu primo Jesus, João tem a sua festa natalícia a 24 de junho.

      As duas festas decorrem das festividades pagãs, apropriadas pela Igreja, dos solstícios de verão e inverno no hemisfério norte. Solstício vem do latim sol + sistere, “que não se mexe”. É quando o sol, medida a sua latitude a partir da linha do equador, se encontra em sua maior declinação em relação à Terra. Então, neste dia, no hemisfério norte o dia é o mais longo do ano e, a noite, a mais curta. No hemisfério sul ocorre o contrário.

      Os solstícios variam conforme o ano. Mas quase sempre entre os dias 20 e 25 de junho e de dezembro. Por isso, os dias 21 de junho e 21 de dezembro marcam mudanças de estações. No hemisfério sul, do outono para o inverno, em junho; e da primavera para o verão, em dezembro.

      Há indícios de que João, decidido a não seguir a carreira sacerdotal do pai no Templo de Jerusalém, preferiu unir-se aos monges essênios de Qumran, junto ao Mar Morto. Talvez por discordar do elitismo espiritual dos essênios, que se consideravam os prediletos de Deus, João trocou a vida monástica pela pregação ambulante às margens do rio Jordão. Ali formou a sua própria comunidade, selada pelo batismo cuja espiritualidade se centrava na prática da justiça. Daí passou a ser conhecido como João Batista (aquele que batiza). Jesus aderiu à comunidade de seu primo e foi por ele batizado nas águas do Jordão. 

      João denunciou a vida corrupta e devassa do governador da Galileia, Herodes Antipas, que se juntara à mulher de seu irmão, Felipe. Preso, foi degolado a pedido de Salomé, enteada do governador, orientada pelo ódio vingativo de sua mãe, Herodíades. Em plena festa palaciana, a cabeça de João foi exibida em uma bandeja.

      A atuação de Jesus só teve início após o martírio de João. É como se o primo firmasse posição para demonstrar a Herodes Antipas, a quem chamava de “raposa”, que a luta continua... Seus primeiros discípulos, André e Simão, o cananeu, vieram do grupo de João.

      Da comunidade dos doze apóstolos, o mais jovem também se chamava João, autor do quarto evangelho. Ele abre o seu relato em homenagem ao xará, a quem chama de “enviado de Deus para ser testemunha da luz.”

      A festa de São João é marcada, no hemisfério sul, pela fogueira e os fogos de artifício, que simbolizam a “luz do mundo”, e o fato de a luz (Jesus) vencer as trevas (da noite mais longa do ano).

      Desde o século XVIII, a festa é comemorada no Brasil com adereços que os portugueses trouxeram da Ásia, especialmente da China, como balões, bandeirinhas e fogos de artifício.

 Neste ano, todos nós, devotos de São João, devemos pedir muita luz para o Brasil, onde felizmente muitas cabeças vêm sendo degoladas pela corrupção e pelos desmandos administrativos, enquanto outras mantêm indisfarçável cumplicidade com os responsáveis pelo nosso desgoverno.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.  
Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 



terça-feira, 20 de junho de 2017

A FESTA NO MEIO DA LUTA

Por Marcelo Barros


Alguém que viesse de outro planeta poderia se espantar com o povo brasileiro. Em meio a todos os problemas sociais e políticos do país, em várias regiões, o povo se entrega às alegrias das festas juninas.

Evidentemente, as festas populares podem ser expressões de mera alienação social e política. Através delas, as pessoas esquecem, ao menos por instantes, as lutas cotidianas da vida. No entanto, podem também servir de ensaio para uma mais eficiente organização popular. Assim, revelam uma resistência cultural que os meios de comunicação não conseguem vencer.

Na Bolívia, Peru e Equador, na noite do 24 de junho ou nos dias próximos, os índios festejam o Inti-Rami, festa do Sol, celebração principal do ano novo andino. É o correspondente aos festejos juninos do Brasil. Algumas dessas danças tiveram sua origem em cortes da Europa. Hoje, as pessoas se vestem como gente da roça, mas executam danças da nobreza de outros séculos. Em brincadeiras como casamentos caipiras, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas, porque só se interessam por dinheiro e poder. 

Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar sua crítica e seu protesto social. Até os santos são envolvidos no clima de festa. Santo Antônio é considerado santo casamenteiro. São João Batista é uma criança que vem brincar nas fogueiras do povo e São Pedro se torna companheiro de festas. O povo liga os santos às realidades da vida cotidiana.  


O caráter lúdico da crítica popular, latente nas brincadeiras juninas pode ser ensaio de uma sociedade nova na qual todos são protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua expressão laical, essas festas trazem alegria e criam certa unidade nas comunidades. Parecem cumprir a palavra do mensageiro de Deus no evangelho que, ao anunciar o nascimento do profeta João Batista, prometeu: "Por seu nascimento, muitos se alegrarão" (Lc 1, 14). Ao criticar a sociedade dominante e expressar uma palavra dos pobres, as festas juninas expressam a verdade que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2). 

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

FESTA DE SÃO JOÃO

por Frei Betto



      João, santo cuja festa se celebra a 24 de junho, era primo de Jesus, filho de Zacarias, sacerdote do Templo de Jerusalém, e de Isabel, prima de Maria. Como o nascimento de Jesus se comemora a 25 de dezembro, por ter nascido seis meses depois de seu primo, João tem a sua festa natalícia a 24 de junho.

      De fato, as duas festas decorrem das festividades pagãs, apropriadas pela Igreja, dos solstícios de verão e inverno no hemisfério norte. Solstício vem do latimsol + sistere, “que não se mexe”. É quando o sol, medida a sua latitude a partir da linha do equador, se encontra em sua maior declinação em relação à Terra. Então, neste dia, no hemisfério norte o dia é o mais longo do ano e, a noite, a mais curta. No hemisfério sul ocorre o contrário.

      Os solstícios não ocorrem sempre no mesmo dia. Variam conforme o ano. Mas quase sempre entre os dias 20 e 25 de junho e dezembro. Por isso, os dias 21 de junho e 21 de dezembro marcam as mudanças de estações. No hemisfério sul, do outono para o inverno, em junho; e da primavera para o verão, em dezembro.

      Há indícios de que João, decidido a não seguir a carreira sacerdotal do pai no Templo de Jerusalém, preferiu unir-se aos monges essênios de Qumran, junto ao Mar Morto. Talvez por discordar do elitismo espiritual dos essênios, que se consideravam os prediletos de Deus, João trocou a vida monástica pela pregação ambulante às margens do rio Jordão. Ali formou a sua própria comunidade, selada pelo batismo cuja espiritualidade se centrava na prática da justiça. Daí passou a ser conhecido como João Batista (aquele que batiza). Jesus aderiu à comunidade de seu primo e foi por ele batizado nas águas do Jordão.

      João denunciou a vida corrupta e devassa do governador da Galileia, Herodes Antipas, que se juntara à mulher de seu irmão, Felipe. Preso, foi degolado a pedido de Salomé, enteada do governador, orientada pelo ódio vingativo de sua mãe, Herodíades. Em plena festa palaciana, a cabeça de João foi exibida em uma bandeja.

      A atuação de Jesus só teve início após o martírio de João. É como se o primo firmasse posição para demonstrar a Herodes Antipas, a quem chamava de “raposa”, que a luta continua... Seus primeiros discípulos, André e Simão, o cananeu, vieram do grupo de João.
      Da comunidade dos doze apóstolos, o mais jovem também se chamava João, autor do quarto evangelho. Ele abre o seu relato em homenagem ao xará, a quem chama de “enviado de Deus para ser testemunha da luz.”

      A festa de São João é marcada, no hemisfério sul, pela fogueira e os fogos de artifício, que simbolizam a “luz do mundo” e o fato de a luz (Jesus) vencer as trevas (da noite mais longa do ano).

      Desde o século XVIII, a festa é comemorada no Brasil com adereços que os portugueses trouxeram da Ásia, especialmente da China, como balões, bandeirinhas e fogos de artifício. Já a dança da quadrilha (quadrille, dança de quatro casais), aqui em trajes caipiras, veio da Holanda e recebeu influências portuguesa e francesa. A marcação, hoje abrasileirada, lembra foneticamente o francês: anarriê (en arièrre, retornar); anavantu (tout em avance, todos para frente).

      Neste ano, todos nós, devotos de São João, devemos pedir muita luz para o Brasil, onde muitas cabeças vêm sendo degoladas pela corrupção e os desmandos administrativos.

Frei Betto é escritor, autor de “Fidel e a religião” (Fontanar, 2016), entre outros livros.





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quarta-feira, 13 de abril de 2016

DOIS GÊNIOS EM FESTA NO CÉU

por Frei Betto


      Em 23 de abril de 1616 – há exatos 400 anos – houve festa no céu. Com certeza, um grande sarau literário. Naquela data, dois gênios da literatura universal deixaram o nosso mundo, que tão bem retratam em suas obras: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes.

      Se considerarmos que o calendário gregoriano havia sido adotado no reino de Castela desde o século XVI, e pela Inglaterra apenas em 1751, Shakespeare teria vivido 10 dias a mais do que Cervantes.

      Shakespeare, nascido em 1564, viveu 51 anos. Cervantes, nascido em 1547, 68. Talvez os dois tenham se admirado com a coincidência de data ao se evadirem dessa Terra tão atribulada, e felizes por, afinal, se conhecerem pessoalmente. E exultaram se comungavam a esperança expressada, séculos mais tarde, por Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca.” Espero que sim, pois nesse curto período de vida é impossível ler todos os livros que me atraem.

      Shakespeare se casou aos 18 anos com a rica Anne Hathaway, de 26, que lhe deu três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Em Londres, trabalhou como ator e escritor. Até 1590, influenciado pelo teatro italiano, escreveu principalmente comédias, como A megera domada e A comédia dos erros

      O melhor de sua produção foi entre 1590 e 1613. Em 1595, Romeu e Julieta. Em 1599, Júlio César. De 1600 a 1608, HamletRei Lear e Macbeth. Ao longo da vida, produziu 16 comédias, 12 tragédias e 11 dramas históricos.

      Machado de Assis teria buscado em Otelo a inspiração para criar o personagem Bentinho, do romance Dom Casmurro. E a revolta dos canjicas, na novela O alienista, seria a versão tupiniquim de rebelde Jack Cade, da peça Henrique IV

      O conto A cartomante, de Machado de Assis, abre com a famosa frase de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia.”

      Em 1569, aos 22 anos, Cervantes se refugiou na Itália, após ferir um desafeto com quem duelou. Em 1571, participou da batalha de Lepanto, quando a esquadra formada por países cristãos derrotou os soldados do Império Otomano, de fé islâmica. Ferido, ficou com a mão esquerda inutilizada.      Ao navegar de Nápoles a Castela, em 1575, foi capturado por corsários argelinos, que o retiveram por cinco anos, até receberem o resgate. Viveu em Lisboa entre 1581 e 1583.

      De retorno à Castela, casou com Catalina de Salazar, em 1584, aos 37 anos, com quem teve a filha Isabel. No ano seguinte, publicou seu primeiro romance, A galatea. Preso em 1597 por dívidas bancárias, durante o ano que permaneceu no cárcere esboçou o Dom Quixote, cuja primeira parte se editou em 1605 e, a segunda, dez anos depois. Escreveu também novelas, comédias e poemas. 

      Além da coincidência de falecerem na mesma data, Shakespeare e Cervantes foram mestres no modo de tratar temas políticos com refinado talento artístico e, ao mesmo tempo, dissecar as profundezas da alma humana. 

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A FESTA DO ENCONTRO

por Marcelo Barros



Em todo o Brasil, já se respira o clima do Carnaval. Em algumas capitais do Nordeste e do litoral, a festa começou há vários dias e se prolonga por outros. Muita gente espera o ano inteiro por esses dias. Outros aproveitam para descansar ou viver alguma experiência alternativa. Grupos contrários à folia fazem encontros paralelos. Grupos de tradição católica fazem o que chamam de “Cristoval”, ou “carnaval de jovens cristãos”. Evangélicos e pentecostais fazem acampamentos de juventude. Essa diversidade é positiva. Só devemos tomar cuidado para não dar a impressão de que Deus está conosco e não com os outros.  

Em 1975, em uma crônica de rádio, assim se expressava Dom Helder Camara, então arcebispo de Olinda e Recife: "Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu....Tú és muito mais bonita que a camélia que morreu... Brinque meu povo querido! É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!" (crônica de 01/ 02/1975 no programa “Um olhar sobre a cidade”- Rádio Olinda - AM). 

É verdade que daquele tempo para cá, o mundo mudou muito. Aliás, já tinha mudado antes. O Carnaval surgiu em tempos de cultura religiosa, quando as pessoas brincavam três dias para depois entrar na penitência da Quaresma. Atualmente, o Carnaval se torna um intervalo em meio a um ano de trabalho. É verdade que até as festas populares se tornaram comerciais. No entanto, vários filósofos atuais mostram como, para um mundo doente, o remédio mais eficaz é a “Ética da Convivência”. Muitas vezes, a delicadeza é vista como sinal de insegurança ou fraqueza. Por isso, é importante insistirem relações humanas baseadas na gentileza e na ternura, como algo belo e humano. A maioria dos meios de comunicação de massa tem a tendência de apresentar o outro, principalmente o desconhecido, como ameaça e perigo à segurança. Nesse contexto, brincar juntos nas ruas com conhecidos e desconhecidos é profecia de outro modo de organizar o mundo. Nesses dias, em várias cidades do Brasil e do mundo, é isso que as pessoas fazem. Sem dúvida, é preciso evitar excessos que ocorrem, tanto no plano do abuso de bebidas, uso de drogas, banalização do sexo e instrumentalização do outro e mesmo da violência que ocorre em qualquer manifestação de grande massa. No entanto, no ano passado, um sociólogo europeu, depois de ver nas ruas do centro do Recife dois milhões de pessoas brincando e pulando ao sol do Galo da Madrugada quis saber da polícia qual a estatística de violência, roubos e problemas ocorridos na ocasião. Voltou à sua terra e escreveu um artigo dizendo: Não poderia imaginar em Paris ou em Berlim tal manifestação de massa com tão poucas violações da lei e da paz. No Carnaval de uma capital nordestina, se constataram menos problemas sociais do que em uma noite de ano novo na praia de Copacabana.

Seja como for, pelo seu caráter de festa de rua, o Carnaval aponta que  é possível sentir prazer em se estar juntos. A cada ano, em Campina Grande, PB, se reúnem pessoas de todo o Brasil e ligadas às mais diversas tradições espirituais, para mais um “Encontro da Nova Consciência”. É um encontro que começa na noite da sexta feira antes do Carnaval e se encerra na noite da terça.  Ali se encontram de várias religiões, índios nordestinos na defesa de suas culturas, ecologistas e pessoas interessadas na medicina natural. Muitas das iniciativas têm em comum a dança e o prazer de se estar juntos. Ali se ensaia um jeito de viver, alternativo aos dogmas da produção, consumo e competição. No domingo à tarde, todos/as são convidados/as a uma marcha e ato interreligioso pela Paz. Nesse ano, o encontro terá como tema: “Civilização ou Barbárie: suas ações vão definir o futuro do planeta”.

Na sociedade atual, as tradições religiosas têm a função de incentivar um convívio amoroso da humanidade para testemunhar que  somos todos irmãos e irmãs de uma única humanidade. A Bíblia tem um salmo que canta: “Como é bom e suave os irmãos viverem – conviverem em harmonia” (Sl 132).


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CORPO: O DE CRISTO E O DOS OUTROS


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

                                                               
 E mais uma vez a Igreja celebra  a festa de Corpus Christi. Nela, toda a comunidade eclesial se reúne para louvar a eucaristia, mistério maior da vida eclesial, que proclama que o pão que partimos e o vinho que bebemos são real e indubitavelmente o corpo e o sangue de Jesus Cristo transubstanciados, feitos ''outra'' substância pela ação do Espírito Santo.

Essa substância ''outra'', radicalmente diferente das humildes aparências do trigo e da uva, são para a fé cristã a própria pessoa do Senhor que se dá em alimento ao povo. Antes de sua morte, Jesus deixou como testamento a seus discípulos e amigos o dom maior da entrega de sua vida nos sinais do pão e do vinho, com os quais celebra sua última ceia. Por não querer permanecer longe daqueles e daquelas a quem amava ardentemente, Jesus deixa a si mesmo, sua pessoa, sua vida como alimento que será a força e a vida do povo que é seu e que o Pai lhe deu desde toda a eternidade. Essa foi a forma amorosa e sublime que o Filho de Deus escolheu para fazer-se presente para sempre em meio aos seus, sendo-lhes sustento, comida e bebida.

Porém, há uma outra forma de presença de Deus no meio de nós que a festa de Corpus Christi nos faz irresistivelmente recordar. Trata-se da corporeidade do outro, da pessoa do semelhante, do sacramento do irmão. O Cristo que comemos e bebemos na eucaristia é o mesmo que está presente no outro que, diante de nós, é seu sacramento, sua epifania. Comer o corpo e beber o sangue do Senhor implicará, portanto, cuidar, reverenciar, respeitar e servir com todo amor, com todas as forças e com toda verdade o corpo do outro que diante de mim revela a presença do Senhor.

Implica sobretudo fazer-se responsável pelo corpo do outro mais carente: do pobre, do órfão, da viúva, do infeliz, do doente, do preso. Cuidar para que nada atinja esse corpo significa lutar para que nada impeça a vida de florescer ali, em plenitude, pois ali está sacramentalmente presente o corpo de Cristo. Parece-me que o momento que vivemos hoje em nossa cidade, nosso país e nosso mundo é propício e instigante para fazer-nos refletir sobre como temos tratado o corpo de Cristo presente e vivo no outro. As bárbaras cenas de violência que temos presenciado ultimamente, e que a televisão e a internet não cessam de brindar-nos, no Oriente Médio, na Líbia, no Iraque ou bem perto, na bela Lagoa Rodrigo de Freitas onde a vida é banalizada e vidas ceifadas com barbárie, confirmam a banalização que a vida humana vem sofrendo nestes últimos tempos.

Tudo isso nos chama a atenção para o fato de que a corporeidade humana - lugar da dignidade e ao mesmo tempo da vulnerabilidade do ser humano - vem sendo sistemática e violentamente profanada. A festa de Corpus Christi nos recorda a dignidade de nossa condição humana, feita de um corpo animado pelo espírito divino. Essa carne frágil e mortal que é a nossa, criada por Deus, foi assumida pelo próprio Deus na encarnação de Seu Filho no tempo e no espaço.    

Jesus, ao dar sua carne para a vida do mundo e deixar-nos seu corpo e seu sangue em alimento, está ao mesmo tempo dizendo-nos qual deve ser nossa atitude diante do corpo nosso e dos outros: respeito e cuidado, delicadeza e proteção, carinho e desvelo. Nunca violência, ataque, brutalização.

A festa de Corpus Christi nos relembra igualmente que se agredimos o irmão, se desrespeitamos o corpo que é semelhante àquele que foi assumido pelo próprio Deus, estamos nos exilando irremediavelmente da comunhão com esse Deus e com seus filhos. Aproximar-se da mesa eucarística para receber o corpo e o sangue de Jesus Cristo, deixando atrás de si um rastro de morte, destruição ou mesmo de omissão e conivência com a violência que assola a cidade, o país e o mundo, é uma escandalosa contradição.

De nada adianta acompanhar a procissão e pisar nos tapetes de flores que enfeitam as cidades brasileiras que se engalanam para louvar o Santíssimo Sacramento; de pouco serve inclinar-se, cantar e aplaudir à sua passagem, se o Corpo de Cristo continua a ser agredido e profanado em nossas casas, ruas, cidades e caminhos. A festa que celebramos é uma boa ocasião para iniciarmos um processo de profunda conversão. Todos nós, das autoridades governamentais aos mais simples cidadãos, somos interpelados pela festa do Corpo de Cristo, que nos remete irremissivelmente ao corpo dos outros, de cuja guarda fomos feitos responsáveis.

  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

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