O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Cristo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cristo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de junho de 2021

ECOLOGIA INTEGRAL:CORPO DE CRISTO

 Marcelo Barros


 

Nesta semana, a ONU celebra no sábado 05 de junho, o dia mundial do ambiente e nesta quinta-feira, 03 de junho, a Igreja Católica celebra a festa da Eucaristia (Corpo de Cristo). É uma festa criada na Idade Média para, em meio a polêmicas doutrinais, ressaltar a importância da presença do Cristo na eucaristia. Por isso, essa celebração contém um desafio ecumênico. Reforça um estilo de espiritualidade dogmática que agrava a divisão entre as Igrejas.

O elemento ecumênico é que a nossa fé valoriza o corpo, seja o corpo do homem e da mulher, seja o corpo cósmico do universo, no qual podemos também contemplar a presença do Espírito. Theillard de Chardin afirmava que os cristãos sempre valorizaram em Jesus a sua natureza humana e sua natureza divina. Agora deveriam reconhecê-lo em seu corpo cósmico: a Terra e o universo.

Mesmo se até hoje, se discute a origem do Coronavírus, uma coisa é certa: a sua disseminação mortífera por todo o mundo tem muito a ver com a destruição da natureza e as mudanças climáticas. É urgente uma reação da humanidade. Há seis anos, o papa Francisco surpreendeu o mundo ao escrever a carta encíclica Laudato Si sobre o cuidado com a casa comum dirigida a toda humanidade. Há poucos dias, encerramos as comemorações de um ano, proposto para a releitura e revisão da carta. O objetivo deste ano Laudato Si era atualizar para os nossos dias as propostas fundamentais da ecologia integral. Depois da publicação da encíclica, tivemos o evento importante do Sínodo para a Amazônia que mobilizou as forças vivas da Igreja Católica e até de outras Igrejas em solidariedade à Amazônia, à biodiversidade da região e aos povos amazônicos, diversos em suas culturas, mas unidos em sua pobreza.

O documento final do Sínodo falava da Ecologia Integral como missão essencial das Igrejas cristãs e não como algo alheio à fé e à espiritualidade. Em outubro de 2020, o papa Francisco publicou a encíclica sobre a fraternidade universal e amizade social (Fratelli Tutti). A partir de então, os dois documentos (Laudato Si e Fratelli Tutti) formam um só apelo a todas as pessoas e comunidades. Fica, então, claro: “ou nos salvamos juntos ou ninguém se salva” (Cf. FT 137).

As Igrejas têm como missão educar as pessoas para viverem e estimularem a fraternidade entre todos os seres humanos e a comunhão com todos os seres vivos. De fato, a vida depende de ecossistemas, necessários para que animais e vegetais possam sobreviver e se proteger uns aos outros. A Carta da Terra sublinha que todos os seres vivos formam uma verdadeira “comunidade da vida”. A festa de Corpo de Cristo pode lembrar aos cristãos que, atualmente o universo inteiro se constitui como um imenso “corpo de Deus”, ou seja, uma presença amorosa do Espírito Divino em todos os seres vivos.

Ao cear com os discípulos e discípulas, Jesus tornou a refeição profecia de uma forma de viver. Ao participar do mesmo pão, a comunidade cristã propõe que se organize o mundo a partir da partilha e não da concorrência e do individualismo. Em outras religiões, também há ritos através dos quais o Espírito Divino vem participar da mesa das comunidades. De um modo ou de outro, as diversas tradições espirituais revelam que a convivência humana pode ser organizada a partir da comunhão. Nos cultos afro-brasileiros, mesmo nas comunidades mais pobres, em todas as festas, as refeições são sempre abertas a todos/as que querem participar da comida dos Orixás.

No século IV, a respeito da Eucaristia, Santo Agostinho ensinava aos fieis: “Na ceia de Jesus,  esse pão representa o que vocês são: corpo de Cristo. O pão é símbolo e sacramento da comunidade. É quando vivemos em comunidade que somos a presença de Cristo no mundo” (sermão 277).  

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O NATAL CÓSMICO DO CRISTO




Por Marcelo Barros

O Natal não é uma festa única. O Papai Noel do Capitalismo nada tem a ver com o Natal de Jesus Cristo. O Capitalismo é cruel e discriminatório. Torna-se responsável pelo sofrimento e morte de milhões de pessoas. No entanto, apesar de tudo, a tradição do Natal acaba unindo famílias e promovendo um ambiente positivo de confraternização humana.

Mesmo nas Igrejas e comunidades cristãs, embora o Natal seja sempre memória do nascimento de Jesus, o conteúdo das devoções populares não parece a mesma celebração da liturgia. Existem modos de celebrar o Natal que  parecem mera regressão a uma religiosidade infantil do Menino Jesus, com cânticos românticos e belos, mas sem relação com a vida e o mundo. Diferentemente disso, a liturgia cristã do Natal fala da expectativa do reino de Deus e da manifestação da vinda do Cristo. Celebra as festas natalícias para renovar nas pessoas o compromisso de testemunhar a presença do divino no humano. Como no século V, pregava o papa São Leão: O Filho de Deus se fez humano para que todo ser humano se torne divino.

Cremos que Jesus de Nazaré é o Cristo, isso é, o Ungido, enviado de Deus para renovar a humanidade e o universo. Em suas cartas, o apóstolo Paulo tinha praticamente dito isso do Cristo Ressuscitado: “Ele sujeitará a si todas as coisas. Tudo o que existe no universo tem sua subsistência nele (no Cristo). Ele recapitula tudo o que existe” (Col 1, 15 – 22). Sua ressurreição inaugurou uma “criação nova” como parto de um universo reconciliado consigo mesmo, com o Espírito que atua em todos os seres e com a humanidade que deve ser guardiã e cuidadora da mãe Terra, das águas e da Vida (Gl 6, 2 e 2 Cor 5, 14 ss). toda a criação. Assim sendo, o seu Espírito renova a natureza inteira.  

Por isso, a festa do Natal não pode ser simples aniversário do nascimento de Jesus. No século IV, essa festa foi colocada no 25 de dezembro, porque nessa data, os antigos romanos celebravam o solstício do inverno. No lugar de celebrar o sol invencível que renasce da escuridão do inverno, os cristãos quiseram lembrar que o Cristo é o sol da justiça que vem do alto para renovar nossas vidas. Nos primeiros tempos, o nome oficial da festa do Natal era “A Páscoa do novo Nascimento do Cristo”. Assim, os antigos cristãos afirmavam que o Natal celebra uma manifestação nova do Cristo Ressuscitado. Apesar de que o nosso mundo parece cada vez mais doente e dividido, celebramos a confiança de que a manifestação do Cristo Cósmico venha salvar a nós e ao universo.

Nesses dias, as comunidades judaicas celebraram Hanuká, a festa das Luzes. Antigamente, nesses dias, se acendiam as lâmpadas do templo de Jerusalém, para trazer luz à escuridão do inverno. Agora, o templo de Deus é o universo. As luzes de Hanuká se acendem nas casas judaicas para que iluminem o coração de todas as pessoas de boa vontade afim de  libertar o mundo da escuridão do desamor e da indiferença.

Na Amazônia, o povo Yanomami tenta escutar de novo os Xamãs que fazem ressuscitar os cânticos dos Xariris, espíritos da floresta que é viva, embora ferida pelas queimadas dos grandes fazendeiros, pelas máquinas dos garimpeiros e das grandes mineradoras.

É importante que as comunidades cristãs que, nesses dias, preparam a festa do Natal, liguem a celebração do Natal com o cuidado da terra, da água e de toda a natureza. Hoje, o universo é o verdadeiro presépio do Cristo Cósmico. Embora de forma ainda invisível, ele  vem, hoje a esse mundo. A liturgia dessa última semana antes do Natal invoca Jesus como Salvador para o mundo de hoje. Com sua profunda formação litúrgica e grande sensibilidade artística, Reginaldo Veloso traduziu de forma adaptada as grandes invocações do Advento, comumente chamadas de Antífonas Ó. Cada dia, nova invocação chama o Cristo Ressuscitado. No primeiro dia, ele é invocado como Mistério e no dia seguinte, Libertação. A partir do dia 17, é a Semana Santa do Natal e o Cristo é invocado como Sabedoria. Assim, as invocações continuam. Em um dia, a Igreja o contempla como nova Sarça Ardente, na qual Deus se revela aos Moisés de hoje. No outro, Chave de Davi, Rei das Nações e assim por diante.  Finalmente, ele é chamado de Emanuel, presença divina no meio de nós. Todos os dias, a versão das comunidades  conclui sempre com um refrão que, durante nove dias, canta: “Vem, ó filho de Maria, vem trazer-nos alegria. Quanta sede, quanta espera, quando chega, quando chega aquele dia?”    
  
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O CRISTO CÓSMICO E OS MUITOS “CRISTOS” NA HISTÓRIA




Por Leonardo Boff

O processo de planetização, colocou as religiões em contacto uma com as outras e mostrou como podemos ser religiosos das mais diferentes formas. Esta situação nova coloca a questão referente à figura de Jesus, crido como Cristo e  salvador universal. Como situar Jesus ao lado de outros, considerados por seus povos também como portadores de salvação?
O Cristianismo não é uma cisterna de águas mortas. Ele possui a natureza de um organismo vivo que cresce e se enriquece em diálogo com o diferente. Ele tem agora a oportunidade de revelar virtualidades até hoje latentes. Deve mostrar-se não um problema uma coisa boa.
Queremos nos concentrar na relevância do Cristo cósmico. Ele é visto como dado que está se formando lentamente dentro do cosmos. Ele se densificou no homem Jesus de Nazaré. Mas esgotou nele todas as suas virtualidades ou outras figuras podem ser também expressões deste Cristo cósmico que está inserido na criação?
Mais e mais estamos atualmente nos acostumando a entender todos os fenômenos como emergências do universo em evolução. Assim as figuras de Jesus, de Sidarta Gautama e de outros e outras, antes de surgirem na história humana, estavam em gestação dentro do universo. O universo inteiro se organizou de tal forma que criou as condições de sua formação e emergência. O que irrompeu neles não se transformou em monopólio pessoal. Assim podemos dizer que o Jesus histórico surge como uma expressão singular do Cristo cósmico presente no processo da evolução. O Jesus histórico não esgotaria todas as formas possíveis das manifestações do Cristo cósmico. Algo semelhante vale para Sidarta Gautama.
Pertence à compreensão cristã dizer: cada ser humano foi tocado pelo Filho de Deus encarnado. O que se atribui a Jesus, por ter a nossa natureza, pode ser atribuído,sob uma forma própria, a cada ser humano,formado ao longo de milhões de anos de história cósmica.
Concretamente, nele e em Buda estão presentes todas as energias e os elementos físico-químicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas antes de explodirem e de lançarem tais elementos pelo universo afora como o fósforo, o cálcio, o ferro e outros .
Como o universo não possui apenas exterioridade mas também interioridade podemos dizer que a profundidade psíquica deles vem habitada pelos movimentos mais primitivos do inconsciente coletivo com seus arquétipos ancestrais.
Sem estas determinações eles não seriam concretos como foram. Detenhamo-nos rapidamente na figura de Jesus pois ele é de nosso lar espiritual.
Pierre Teilhard de Chardin (+1955) viu a inserção cósmica de Jesus, chamado de Cristo e cunhou o termo “crístico” em distinção do “cristão”. O “crítico”é um dado objetivo da criação em evolução. Quando chega à consciência no homem Jesus, o “cristico” se transforma em “cristão” que é o “crístico” conscientizado.
Em outras palavras, o Jesus histórico não esgota em si todas as possibilidades contidas no “crístico”. O “crístico” irrompeu em Jesus mas pode emergir também em outras figuras e se encontra na raiz de todo o ser.
Para entender tais afirmações precisamos esclarecer a palavra “Cristo”. Não é um nome, mas um adjetivo que se atribui a uma pessoa. “Cristo” em grego ou “Messias” em hebraico significam o “ungido”.
“Ungido” é aquela pessoa assinalada para desempenhar uma determinada missão. O rei, os profetas, os sacerdotes eram “ungidos”, para desempenharem suas missões específicas. Mas cada pessoa individual é também um “ungido” pois tem o seu lugar no desígnio divino. Jesus foi chamado de “Cristo-ungido” por causa de sua obra redentora e libertadora, realizada de forma exemplar.
O budismo conhece semelhante caminho. Em primeiro lugar existe Sidarta Gautama, o ser histórico que viveu seiscentos anos antes de Cristo. Mediante um processo de interiorização e ascese chegou à “iluminação” que é um mergulho radical no Ser. Começou então a ser chamado de “Buda” que significa o “Iluminado”. Mas essa iluminação – ser Buda – não é o monopólio dele. Ela é oferecida a todos. Existe, portanto, a “budeidade”, aquela realidade radical que pode se autocomunicar de muitas formas às pessoas. O Buda é uma manifestação da “budeidade” que é a mais pura luz, a essência do Inominável. É um “ungido”.
Como transparece, o conteúdo concreto de “Cristo” e de “Buda” remete à mesma realidade “crística”. Ambos revelam o Ser que faz ser tudo o que é. Sidarta Gautama é uma manifestação do Cristo cósmico como o é também Jesus de Nazaré. Ou Jesus de Nazaré é um “Iluminado” como Buda.
Expressões singulares do Cristo cósmico ou da Iluminação são figuras como Krishna, Francisco de Assis. Mahatma Gandhi, o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce entre tantos e tantas. Eles e elas não esgotam as possibilidades desta sublime realidade “crística”. Ela se dá em todos. Mas neles ganharam tal densidade que se transformaram em referências e arquétipos orientadores para muitos.
O conhecido mestre yogui do Brasil, Hermógenes, já falecido, sem cair no sincretismo fácil mas a partir de uma profunda experiência espiritual de unidade com o Todo criou a seguinte fórmula como “Glória ao Uno”:
“Pedi a benção a Krishna. E o Cristo me abençoou.Orei ao Cristo. E foi Buda que me atendeu.Chamei por Buda.E foi Krishna que me respondeu”.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O CRISTO CÓSMICO:UMA ESPIRITUALIDADE DO UNIVERSO


Por Leonardo Boff


        Uma das buscas mais persistentes entre os cientistas que vem geralmente das ciências da Terra e da vida é pela da unidade do Todo. Dizem: “precisamos identificar aquela fórmula que tudo explica e assim captaremos a mente de Deus”. Esta busca vem sob o nome de “A Teoria da Grande Unificação” ou “A Teoria Quântica dos Campos” ou, pelo pomposo nome de “A Teoria de Tudo”. Por mais esforços que se tenham feito, todos acabam se frustrando ou como o grande matemático Stephan Hawking, abandonando, por impossível, esta pretensão. O universo é por demais complexo para ser apreendido por uma única fórmula.

         Entretanto, pesquisando as partículas subatômicas, mais de cem, e as energias primordiais, chegou-se a perceber que todas elas remetem àquilo que se chamou de “vácuo quântico” que de vácuo não possui nada porque é a plenitude de todas as potencialidades. Desse Fundo sem fundo surgiram todos os seres e o inteiro universo. É representado como um vasto oceano sem margens, de energia e de virtualidades. Outros o chamam de “Fonte Originária dos Seres” ou o “Abismo alimentador de Tudo”.

         Curiosamente, cosmólogos como um dos maiores deles, Brian Swimme, denomina-o de o Inefável e o Misterioso (The Hidden Heart of the Cosmos, 1996) Ora, estas são características que as religiões atribuem à Última Realidade que vem chamada por mil nomes, Tao, Javé, Alá, Olorum, Deus. O Vácuo pregnante de Energia se não é Deus (Deus é sempre maior) é a sua melhor metáfora e representação.

         O fundamental não é a matéria mas esse vácuo pregnante. Ela é uma das emergências desta Fonte Originária. Thomas Berry, o grande ecólogo/cosmólogo norte-americano, escreveu: “Precisamos sentir que somos carregados pela mesma energia que fez surgir a Terra, as estrelas e as galáxias; essa mesma energia fez emergir todas as formas de vida e a consciência reflexa dos humanos; é ela que inspira os poetas, os pensadores e os artistas de todos os tempos; estamos imersos num oceano de energia que vai além da nossa compreensão. Mas essa energia, em última instância, nos pertence, não pela dominação mas pela invocação”(The Great Work,1999, 175), quer dizer, abrindo-nos a ela.

         Se assim é tudo o que existe é uma emergência desta energia fontal: as culturas, as religiões, o próprio cristianismo e mesmo as figuras como Jesus, Moisés, Buda e cada um de nós. Tudo vinha sendo gestado dentro do processo cosmogênico na medida em que surgiam ordens mais complexas, cada vez interiorizadas e interconectadas com todos os seres. Quando acontece determinado nível de acumulação dessa energia de fundo, então ocorre a emergência dos fatos históricos e de cada pessoa singular.

         Quem viu esta gestação de Cristo no cosmos foi o paleontólogo e místico Teilhard de Chardin(+1955), aquele que reconciliou a fé crista com a ideia da evolução ampliada e com a nova cosmologia. Ele distingue o “crístico” do “cristão”. O crístico comparece como um dado objetivo dentro do processo da evolução. Seria aquele elo que une tudo com tudo. Porque estava lá dentro pôde irromper, um dia na história, na figura de Jesus de Nazaré, aquele por quem todas as coisas têm sua existência e consistência, no dizer de São Paulo.

         Portanto, quando este crístico é reconhecido subjetivamente, se transforma em conteúdo da consciência de um grupo, ele se transforma em “cristão”. Então surge o cristianismo histórico, fundado em Jesus, o Cristo, encarnação do crístico. Daí se deriva que suas raízes derradeiras não se encontram na Palestina do primeiro século, mas dentro do processo da evolução cósmica.

         Santo Agostinho escrevendo a um filósofo pagão (Epistola 102) intuiu esta verdade: ”Aquela que agora recebe o nome de religião cristã sempre existia anteriormente e não esteve ausente na origem do gênero humano, até que Cristo veio na carne; foi então que a verdadeira religião que já existia, começou a ser chamada de cristã.”

         No budismo se faz semelhante raciocínio. Existe a budeidade (a capacidade de iluminação) que vem se forjando ao longo do processo da evolução, até que ela irrompeu em Sidarta Gautama que virou Buda. Este só pôde se manifestar na pessoa de Gautama porque antes, a budeidade, estava lá no processo evolucionário. Então virou o Buda, como Jesus virou o Cristo.

         Quando esta compreensão vem internalizada a ponto de transformar nossa percepção das coisas, da natureza, da Terra e no Universo, então abre-se o caminho para uma experiência espiritual cósmica, de comunhão com tudo e com todos. Realizamos por esta via espiritual o que os cientistas buscavam pela via da ciência: um elo que tudo unifica e atrai para frente.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu O Evangelho do Cristo cósmico, Record 2010


sexta-feira, 5 de junho de 2015

CORPO: O DE CRISTO E O DOS OUTROS


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

                                                               
 E mais uma vez a Igreja celebra  a festa de Corpus Christi. Nela, toda a comunidade eclesial se reúne para louvar a eucaristia, mistério maior da vida eclesial, que proclama que o pão que partimos e o vinho que bebemos são real e indubitavelmente o corpo e o sangue de Jesus Cristo transubstanciados, feitos ''outra'' substância pela ação do Espírito Santo.

Essa substância ''outra'', radicalmente diferente das humildes aparências do trigo e da uva, são para a fé cristã a própria pessoa do Senhor que se dá em alimento ao povo. Antes de sua morte, Jesus deixou como testamento a seus discípulos e amigos o dom maior da entrega de sua vida nos sinais do pão e do vinho, com os quais celebra sua última ceia. Por não querer permanecer longe daqueles e daquelas a quem amava ardentemente, Jesus deixa a si mesmo, sua pessoa, sua vida como alimento que será a força e a vida do povo que é seu e que o Pai lhe deu desde toda a eternidade. Essa foi a forma amorosa e sublime que o Filho de Deus escolheu para fazer-se presente para sempre em meio aos seus, sendo-lhes sustento, comida e bebida.

Porém, há uma outra forma de presença de Deus no meio de nós que a festa de Corpus Christi nos faz irresistivelmente recordar. Trata-se da corporeidade do outro, da pessoa do semelhante, do sacramento do irmão. O Cristo que comemos e bebemos na eucaristia é o mesmo que está presente no outro que, diante de nós, é seu sacramento, sua epifania. Comer o corpo e beber o sangue do Senhor implicará, portanto, cuidar, reverenciar, respeitar e servir com todo amor, com todas as forças e com toda verdade o corpo do outro que diante de mim revela a presença do Senhor.

Implica sobretudo fazer-se responsável pelo corpo do outro mais carente: do pobre, do órfão, da viúva, do infeliz, do doente, do preso. Cuidar para que nada atinja esse corpo significa lutar para que nada impeça a vida de florescer ali, em plenitude, pois ali está sacramentalmente presente o corpo de Cristo. Parece-me que o momento que vivemos hoje em nossa cidade, nosso país e nosso mundo é propício e instigante para fazer-nos refletir sobre como temos tratado o corpo de Cristo presente e vivo no outro. As bárbaras cenas de violência que temos presenciado ultimamente, e que a televisão e a internet não cessam de brindar-nos, no Oriente Médio, na Líbia, no Iraque ou bem perto, na bela Lagoa Rodrigo de Freitas onde a vida é banalizada e vidas ceifadas com barbárie, confirmam a banalização que a vida humana vem sofrendo nestes últimos tempos.

Tudo isso nos chama a atenção para o fato de que a corporeidade humana - lugar da dignidade e ao mesmo tempo da vulnerabilidade do ser humano - vem sendo sistemática e violentamente profanada. A festa de Corpus Christi nos recorda a dignidade de nossa condição humana, feita de um corpo animado pelo espírito divino. Essa carne frágil e mortal que é a nossa, criada por Deus, foi assumida pelo próprio Deus na encarnação de Seu Filho no tempo e no espaço.    

Jesus, ao dar sua carne para a vida do mundo e deixar-nos seu corpo e seu sangue em alimento, está ao mesmo tempo dizendo-nos qual deve ser nossa atitude diante do corpo nosso e dos outros: respeito e cuidado, delicadeza e proteção, carinho e desvelo. Nunca violência, ataque, brutalização.

A festa de Corpus Christi nos relembra igualmente que se agredimos o irmão, se desrespeitamos o corpo que é semelhante àquele que foi assumido pelo próprio Deus, estamos nos exilando irremediavelmente da comunhão com esse Deus e com seus filhos. Aproximar-se da mesa eucarística para receber o corpo e o sangue de Jesus Cristo, deixando atrás de si um rastro de morte, destruição ou mesmo de omissão e conivência com a violência que assola a cidade, o país e o mundo, é uma escandalosa contradição.

De nada adianta acompanhar a procissão e pisar nos tapetes de flores que enfeitam as cidades brasileiras que se engalanam para louvar o Santíssimo Sacramento; de pouco serve inclinar-se, cantar e aplaudir à sua passagem, se o Corpo de Cristo continua a ser agredido e profanado em nossas casas, ruas, cidades e caminhos. A festa que celebramos é uma boa ocasião para iniciarmos um processo de profunda conversão. Todos nós, das autoridades governamentais aos mais simples cidadãos, somos interpelados pela festa do Corpo de Cristo, que nos remete irremissivelmente ao corpo dos outros, de cuja guarda fomos feitos responsáveis.

  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

  Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 3 de junho de 2014

Cristo está dividido!




por Marcelo Barros


Para muita gente, a divisão entre as Igrejas cristãs e os conflitos entre as religiões são assuntos internos do clero e não dizem respeito ao mundo. No entanto, há alguns anos, Le Monde des Réligions, revista francesa, publicou que no mundo atual existem 36 guerras ou conflitos de caráter internacional ou de maior repercussão. Desses, mais de dois terços têm como motivo principal, ou pretexto, fatores religiosos. Judeus contra muçulmanos (palestinos) em Israel, hindus contra muçulmanos no sul da Índia, muçulmanos contra cristãos em algumas regiões do Egito e mesmo protestantes contra católicos na Irlanda do Norte, muçulmanos e cristãos ortodoxos na antiga Tchecoslováquia.

 Mesmo em países como o Brasil, onde não existem guerras e conflitos abertos entre religiões, diariamente, em alguma parte do Brasil, há notícias de discriminação e violências da parte de cristãos fundamentalistas contra pessoas ou grupos das religiões afrodescendentes. E esses atos de ódio e intolerância são cometidos em nome de Jesus que nunca discriminou ninguém e, ao contrário, elogiou a fé de uma mulher da religião cananeia, de um oficial romano e tomou um samaritano (herege) como modelo para uma de suas principais parábolas. 

Essa realidade de conflitos interculturais e inter-religiosos  confirma o que dizia o teólogo Hans Kung: “O mundo não terá paz se as religiões não se entenderem e, por motivos históricos e culturais, o diálogo entre as religiões não ocorrerá, se as Igrejas cristãs não se unirem”. Por isso, o movimento pela unidade das Igrejas e pelo diálogo e cooperação das religiões a serviço da paz e da justiça diz respeito a todas as pessoas de boa vontade que querem um mundo mais justo e fraterno.

Como está organizado no mundo, o movimento pela unidade dos cristãos tem pouco mais de cem anos. Como os cristãos acreditam que a unidade é um dom divino, a primeira ação para se viver o diálogo e a unidade é a oração. Por isso, uma das iniciativas mais importantes da pastoral ecumênica é a “Semana de oração pela Unidade dos Cristãos”. No Brasil, ela é celebrada sempre em preparação à festa de Pentecostes. Neste ano, ela ocorre nesta semana, de 02 a 08 de junho. É preparada e coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), com o apoio da conferência dos bispos católicos (CNBB). Nesse ano, os subsídios preparatórios para as celebrações e cultos ecumênicos foram preparados por cristãos de várias Igrejas do Canadá. Eles têm como tema a palavra provocatória do apóstolo Paulo na carta aos coríntios: “Estará o Cristo dividido?” (1 Cor 1, 1- 13).
De fato, a Bíblia ensina que todos os discípulos/as de Jesus formam o Corpo de Cristo do qual Jesus é a cabeça e todos os cristãos formam o corpo. Assim sendo, ao se dividirem, as Igrejas dão um testemunho de que o próprio Cristo, embora não esteja, parece ao mundo como dividido.

Há 50 anos, na Igreja Católica, o Concílio Vaticano II promulgava o Decreto sobre a unidade dos cristãos. Esse documento começava dando os principais motivos pelos quais todo cristão tem de considerar prioritário e essencial o esforço para a unidade visível das Igrejas:

1o – a divisão é contrária à vontade de Deus.

            2o -  é um escândalo para o mundo (os cristãos pregarem o amor e eles mesmos serem divididos).
            3o – Por isso mesmo, a divisão é um obstáculo para a missão. (Jesus orou ao Pai: “Faze que todos os meus discípulos sejam Um para que o mundo creia!”(Jo 17, 19 – 21).

           No século III, Cipriano, pastor da Igreja de Cartago, ensinava: “A unidade abole a divisão, mas respeita as diferenças”. A unidade dos cristãos não visa a uniformidade de uma só instituição eclesiástica, mas a diversidade reconciliada de Igrejas irmãs, como um ensaio de um mundo de diálogo e de paz.   São Paulo escreveu aos efésios: “Há um só Senhor, uma só fé, um mesmo e único batismo (em todas as Igrejas). Nós cristãos, somos todos chamados a uma única esperança” (Ef 4, 1- 4).


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  

CLIQUE AQUI - PARA ACESSAR TEXTOS MAIS ANTIGOS ANTERIORES AO BLOG

terça-feira, 12 de março de 2013

E Cristo chorou sobre os palácios do Vaticano




 Por LEONARDO BOFF

Andando pelas comunidades eclesiais de base constituídas  de ribeirinhos da Amazônia, nos limites com o Acre, lá onde viceja uma Igreja pobre e libertadora, ouvi de um líder comunitário, bom conhecedor da leitura popular da Bíblia, a seguinte visão que ele pretende ter sido verdadeira.
         Estava um dia a caminho do centro comunitário, quando se viu transportado, não sabe se em sonho ou em espírito, aos jardins do Vaticano. Viu de repente um Papa, encurvado pela idade, todo de branco, cercado pelos seus principais cardeais conselheiros. Faziam o costumeiro passeio após o almoço, andando pelos jardins floridos do Vaticano.  
       
         De repente, o Papa vislumbrou, a uns poucos metros de distância, a figura do Mestre. Este sempre aparece disfarçado seja como jardineiro para Maria Madalena seja como andarilho para os jovens de Emaús. Mas o sucessor de Pedro, afastando-se do grupo de cardeais, com fino tato,  identificou logo o Ressuscitado. Ajoelhou-se e quis proferir a profissão de fé que fez Pedro ser pedra, pois sobre esta fé  se constrói sempre a Igreja :”Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”.
         Nisso foi atalhado por Jesus. Olhando o palácio do Vaticano ao longe e o perfil dos prédios da Santa Sé, disse Jesus com voz entristecida: ”Não te bendigo, sucessor de Pedro,  o pescador, porque tudo isso não foi inspirado por meu Pai que está nos céus mas pela carne e pelo sangue. Digo-te  que não foi sobre estas pedras que edifiquei minha Igreja, porque temia que então as portas do inferno poderiam prevalecer contra ela”.
         O Papa ficou perplexo e olhou o rosto do Senhor. Viu que caiam-lhe furtivamente duas lágrimas dos olhos. Lembrou-se de Pedro que o havia traído duas vezes e que, arrependido, chorara amargamente. Quis proferir algumas palavras, mas estas lhe morreram na garganta. Começou também ele,  o Papa, a chorar. Nisso o Senhor desapareceu.
         Os Cardeais ouviram as palavras do Mestre e se apressaram para amparar o Papa. Este logo lhes disse com grande severidade: ”Irmãos, o Senhor me abriu os olhos. Por isso, as coisas não podem ficar como estão. Temos que mudar e mudar em muitas coisas. Ajudem-me a realizar a vontade do Senhor”.
         O Cardeal camerlengo, o mais ancião de todos, afirmou: ”Santidade, iremos, sim, fazer alguma coisa conforme a vontade do Mestre  e segundo a tradição dos Apóstolos. Amanhã reuniremos todo o colégio cardinalício presente em Roma e, invocando o Espírito Santo, decidiremos como vamos proceder, consoante as palavras do Senhor”.
         Todos se afastaram pesarosos, vindo-lhes à memória aquelas cenas do Novo Testamento que se referem a Jesus chorando sobre a cidade santa, que matava seus profetas e apedrejava os enviados de Deus e que se negava a reunir seus filhos e filhas como a galinha que recolhe os pintainhos debaixo de suas asas.
         Um e outro entretanto, comentavam: ”irmãos, sejamos realistas e prudentes, pois nos toca viver neste mundo. Precisamos de edifícios para a Cúria e o Banco do Vaticano para recolher os óbulos dos fiéis e cobrir os nossos gastos. Podemos negar essas necessidades? Mas vejamos o que o Espírito nos inspirar”.
         No dia seguinte, quando os cardeais se dirigiam à sala do consistório, graves e cabisbaixos, o secretário do Papa veio correndo e lhes comunicou quase aos gritos: ”O Papa morreu, o Papa morreu”.
         Nove dias após, celebraram-se os funerais com toda a pompa e circunstância como manda a tradição.  Vindos de todas as partes do mundo, os cardeais desfilavam com suas vestes vermelhas e luzidias, quais príncipes de tempos antigos. Depois sepultaram o Papa.
 E ninguém mais se lembrou das palavras que o Mestre havia dito e que eles escutaram. E tudo continuou como antes nos palácios do Vaticano.
         Post Scriptum: o Espírito Santo fala pelos sinais dos tempos. Um desses sinais são os escândalos ocorridos  que exigem reformas para resgatar a credibilidade da Igreja. Será que os cardeais no Conclave saberão ler esse sinal e dizer como no primeiro Concílio em Jerusalém:”Pareceu bem a nós e ao Espírito Santo tomar tais e tais decisões”? Caso contrário o Mestre continuará chorando sobre as pedras do Vaticano.
 Leonardo Boff, teólogo e escritor