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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NOVO OLHAR SOBRE O UNIVERSO


 Frei Betto

 

       Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo hebreu, por não levar a sério o Decálogo da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

       Ao longo dos 400 anos de monarquia em Israel (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

       O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo hebreu para o Decálogo da Criação: “O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus” – afirma Mesters. “É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração”.

       A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de um milênio predominou no Ocidente a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celeste. 

       Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

       Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obriga a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

       Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

       A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

       Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido ao estudar cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas... Tudo que existe coexiste, subsiste e preexiste. 

       Há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

       Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora pananteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O pananteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida. 

       Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo. 

 Frei Betto es escritor, autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio/Record), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

Copyright 2023 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DIREITOS HUMANOS E DO UNIVERSO



Por Marcelo Barros

Na próxima segunda-feira, a humanidade celebrará os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde que, no 10 de dezembro de 1948, a assembleia geral da ONU, constituída por representantes de 190 países, assinou a declaração e se comprometeu em defender esses direitos, a humanidade caminhou muito. No entanto, cada vez mais, os Direitos Humanos são temas de discursos, mas não de práticas que efetivamente garantam a salvaguarda desses direitos.

Atualmente, a maioria da população mundial não tem reconhecidos os seus direitos humanos. Os impérios usam o tema dos direitos humanos como arma política para defender interesses colonialistas e para legitimar práticas   opressivas contra os pobres e os que querem transformar o mundo. Governos de países da Europa e também dos Estados Unidos desrespeitam os direitos dos migrantes e refugiados, contrariamente à lei que os seus países assinaram em 1948. No Brasil, foram eleitos para o governo federal e para Estados como Rio de Janeiro e São Paulo homens que aceitam direitos humanos apenas para humanos direitos, ou que eles consideram cidadãos direitos. Os outros (e aí há muitas categorias incluídas nesses diferentes: negros, homoafetivos e até pessoas de religiões que não são as deles) não seriam sujeitos de direitos. Esses governantes afirmam isso com toda naturalidade e agem assim, com a cumplicidade dos meios de comunicação, das elites que os apoiam e de muita gente do povo, simples e desinformada.

 O discurso dos direitos humanos tem sido usado e manipulado para justificar invasões colonialistas, guerras que escondem interesses econômicos e esmagar pretensões liberacionistas. Por isso, intelectuais como Boaventura de Sousa Santos têm falado em que devemos lutar por “direitos humanos anti-hegemônicos”. A declaração de 1948 só contempla direitos individuais e do Estado. Ali não existe a humanidade, nem grupos como povos originários e tribos espalhadas por vários países. No decorrer desses anos, a ONU assinou acordos sobre a defesa das crianças, dos asilados, dos ciganos, dos povos indígenas e assim por diante. No entanto, mesmo com esses tratados, a realidade do mundo tem piorado cada vez mais. Diariamente morrem mais de 4000 crianças, por doenças devidas à falta de acesso à água potável e aos serviços higiênicos. Milhões de lavradores sem-terra passam fome. Um bilhão e 300 milhões de pessoas em idade ativa não têm trabalho e vivem na insegurança de como sobreviver. 60 milhões de refugiados atravessam os oceanos ou desertos, à procura de um lugar onde viver. Ao mesmo tempo. a produção de armas e guerras se tornou um dos setores econômicos mais lucrativos do mundo, depois da indústria farmacêutica, de informática e de petróleo, sem falar nas drogas e no mercado de pornografia.

As classes dominantes não creem na igualdade entre os seres humanos diante do direito à vida. Argumentam que as desigualdades são o preço a pagar para o progresso, o crescimento econômico e a riqueza das nações ditas desenvolvidas.

 Atualmente, além dos direitos humanos, defendemos os Direitos da Terra e do Cosmos. Também, a Terra, as águas, os animais e as plantas precisam ser cuidados e defendidos. Não podemos tratá-los como se fossem meras mercadorias. Conosco eles formam uma grande teia de relação que é como uma comunidade: a comunhão da vida. Esse modo de viver e compreender a vida e os direitos humanos faz parte de uma cultura amorosa que chamamos de Espiritualidade integral ou cósmica. Não podemos continuar permitindo que, a cada ano, mais de 15 mil espécies vivas desapareçam,  por causa de modos de produção e de consumo predadores.

Ao privilegiarem a relação amorosa com a terra, a cura das doenças e o equilíbrio da vida, as tradições indígenas e afrodescendentes revelam a mesma raiz ética e espiritual.  De uma forma ou outra, todas as religiões reconhecem: o divino só pode ser encontrado realmente no humano e na relação com toda a natureza. A espiritualidade, seja religiosa ou não, faz da defesa dos direitos da humanidade e dos seres vivos um método de intimidade com o Divino, presente no mundo. No século II, Irineu, pastor da Igreja de Lyon, ensinava: “Como você poderá divinizar-se se ainda nem se tornou humano? Antes de tudo, garanta a condição de ser humano e, assim, poderá participar da glória divina”.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 4 de outubro de 2016

TEMPO NOVO PARA O UNIVERSO


Por Marcelo Barros



Nessa terça-feira, 04 de outubro, as comunidades judaicas celebram a entrada no Ano Novo de 5777 do seu calendário tradicional. A partir desse dia, vivem uma semana de festas que se encerram na quarta-feira, 12, com o Dia do Perdão (Yom Kippur). É a data mais importante para a fé judaica. Conforme uma antiga tradição rabínica, o Yom Kippur era a única vez no ano em que, no mais íntimo do templo, o Santo dos Santos, o sumo-sacerdote pronunciava o nome divino. As quatro consoantes sagradas, (o tetragrama) constituem misteriosamente o significado da palavra amorosa pela qual o Eterno criou o universo. A partir do seu Nome misterioso e íntimo, o universo inteiro se recria e se reconcilia.

Lamentavelmente, em nossos tempos, Israel aparece na imprensa mundial sempre ligado à guerra e à repressão dos palestinos. Dentro deste contexto, é mais do que oportuno recordar que a tradição espiritual do povo de Israel é de paz (shalom) e justiça. O Judaísmo contém a fé em uma aliança que o Eterno faz com todas as suas criaturas. Nesta perspectiva, é preciso que se realize, hoje, um verdadeiro Yom Kippur, dia da reconciliação e do perdão, na relação entre o Estado de Israel e o povo palestino, assim como em um novo cuidado do ser humano com a natureza e uma nova relação ecológica entre todos os seres humanos. Todos precisamos urgentemente de um Yon Kippur, amplo e prolongado. Ele é urgente em um Brasil, dividido politicamente e com um governo ilegítimo que, sem que o povo se dê conta, leva o país a um abismo terrível de maior desigualdade social e sofrimento para os pobres. Ele é igualmente necessário em todo o continente latino-americano com dificuldades de manter a integração iniciada no começo desse século.

Ao desejar para o mundo um novo Yom Kippur, não se trata de incorporar a cultura religiosa judaica e sim que todos aprendamos com as culturas antigas alguns instrumentos e métodos eficazes para responder aos desafios da realidade e desarmar os instrumentos que a cada dia os idealizadores de guerra inventam para matar. Enquanto as comunidades do Judaísmo fazem o Yom Kippur, nesse início de primavera no sul do mundo, caciques e Xamãs de diferentes tradições espirituais se reúnem em pontos altos da Cordilheira dos Andes, como na Serra da Mantiqueira em Minas Gerais, para realizar ritos de cura da terra ferida pela poluição e pelas injustiças nossas de cada dia. 

No Yon Kippur judaico, cada crente medita sobre a sua responsabilidade pessoal e procura reparar o que fez de errado em relação aos outros seres humanos. Assim, alegre por sempre ser perdoado, retoma a aliança com o Criador e antecipa o “último dia da História”, esperança de um mundo reconciliado na paz e na união com Deus.

Atualmente, uma parte cada vez maior da humanidade  busca viver, de forma laical e sócio-política, a mesma ética de justiça e paz que as antigas religiões propõem de forma ritual e sagrada. Não estamos mais nos tempos bíblicos, quando, durante o Yom Kippur, o sacerdote pronunciava o Nome divino pelo qual o universo se renova. Em uma sociedade pluralista, como afirma Dom Pedro Casaldáliga, quem diz justiça, paz, solidariedade, diz Deus. Infelizmente, nem todas as pessoas que dizem Deus estão dizendo amor, justiça e paz. Precisamos mudar isso. Em todos os recantos do mundo nos quais há pessoas famintas e sedentas de justiça, ali se está pronunciando o mais santo nome divino: Amor Solidário. A cada dia, no mundo inteiro, as pessoas procuram maior harmonia consigo mesmo, com o universo e com a fonte de todo amor, que as religiões chamam de Deus. O Yom Kippur judaico convida crentes e não crentes a essa reconciliação consigo mesmo, com a humanidade, com o universo e, através desse caminho, com a própria fonte divina do amor.

Que cada um/uma de nós aceite celebrar um novo tempo de reconciliação e de renovação da vida. Reconheça-se irmão e irmã do outro ser humano e, junto com todos os seres vivos, membros da comunidade da vida. No plano mais concreto do nosso dia a dia, esforcemo-nos para que todas as nossas relações entre nós e com a natureza sejam fundamentadas sobre a paz, a justiça e a comunhão.  


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O CRISTO CÓSMICO:UMA ESPIRITUALIDADE DO UNIVERSO


Por Leonardo Boff


        Uma das buscas mais persistentes entre os cientistas que vem geralmente das ciências da Terra e da vida é pela da unidade do Todo. Dizem: “precisamos identificar aquela fórmula que tudo explica e assim captaremos a mente de Deus”. Esta busca vem sob o nome de “A Teoria da Grande Unificação” ou “A Teoria Quântica dos Campos” ou, pelo pomposo nome de “A Teoria de Tudo”. Por mais esforços que se tenham feito, todos acabam se frustrando ou como o grande matemático Stephan Hawking, abandonando, por impossível, esta pretensão. O universo é por demais complexo para ser apreendido por uma única fórmula.

         Entretanto, pesquisando as partículas subatômicas, mais de cem, e as energias primordiais, chegou-se a perceber que todas elas remetem àquilo que se chamou de “vácuo quântico” que de vácuo não possui nada porque é a plenitude de todas as potencialidades. Desse Fundo sem fundo surgiram todos os seres e o inteiro universo. É representado como um vasto oceano sem margens, de energia e de virtualidades. Outros o chamam de “Fonte Originária dos Seres” ou o “Abismo alimentador de Tudo”.

         Curiosamente, cosmólogos como um dos maiores deles, Brian Swimme, denomina-o de o Inefável e o Misterioso (The Hidden Heart of the Cosmos, 1996) Ora, estas são características que as religiões atribuem à Última Realidade que vem chamada por mil nomes, Tao, Javé, Alá, Olorum, Deus. O Vácuo pregnante de Energia se não é Deus (Deus é sempre maior) é a sua melhor metáfora e representação.

         O fundamental não é a matéria mas esse vácuo pregnante. Ela é uma das emergências desta Fonte Originária. Thomas Berry, o grande ecólogo/cosmólogo norte-americano, escreveu: “Precisamos sentir que somos carregados pela mesma energia que fez surgir a Terra, as estrelas e as galáxias; essa mesma energia fez emergir todas as formas de vida e a consciência reflexa dos humanos; é ela que inspira os poetas, os pensadores e os artistas de todos os tempos; estamos imersos num oceano de energia que vai além da nossa compreensão. Mas essa energia, em última instância, nos pertence, não pela dominação mas pela invocação”(The Great Work,1999, 175), quer dizer, abrindo-nos a ela.

         Se assim é tudo o que existe é uma emergência desta energia fontal: as culturas, as religiões, o próprio cristianismo e mesmo as figuras como Jesus, Moisés, Buda e cada um de nós. Tudo vinha sendo gestado dentro do processo cosmogênico na medida em que surgiam ordens mais complexas, cada vez interiorizadas e interconectadas com todos os seres. Quando acontece determinado nível de acumulação dessa energia de fundo, então ocorre a emergência dos fatos históricos e de cada pessoa singular.

         Quem viu esta gestação de Cristo no cosmos foi o paleontólogo e místico Teilhard de Chardin(+1955), aquele que reconciliou a fé crista com a ideia da evolução ampliada e com a nova cosmologia. Ele distingue o “crístico” do “cristão”. O crístico comparece como um dado objetivo dentro do processo da evolução. Seria aquele elo que une tudo com tudo. Porque estava lá dentro pôde irromper, um dia na história, na figura de Jesus de Nazaré, aquele por quem todas as coisas têm sua existência e consistência, no dizer de São Paulo.

         Portanto, quando este crístico é reconhecido subjetivamente, se transforma em conteúdo da consciência de um grupo, ele se transforma em “cristão”. Então surge o cristianismo histórico, fundado em Jesus, o Cristo, encarnação do crístico. Daí se deriva que suas raízes derradeiras não se encontram na Palestina do primeiro século, mas dentro do processo da evolução cósmica.

         Santo Agostinho escrevendo a um filósofo pagão (Epistola 102) intuiu esta verdade: ”Aquela que agora recebe o nome de religião cristã sempre existia anteriormente e não esteve ausente na origem do gênero humano, até que Cristo veio na carne; foi então que a verdadeira religião que já existia, começou a ser chamada de cristã.”

         No budismo se faz semelhante raciocínio. Existe a budeidade (a capacidade de iluminação) que vem se forjando ao longo do processo da evolução, até que ela irrompeu em Sidarta Gautama que virou Buda. Este só pôde se manifestar na pessoa de Gautama porque antes, a budeidade, estava lá no processo evolucionário. Então virou o Buda, como Jesus virou o Cristo.

         Quando esta compreensão vem internalizada a ponto de transformar nossa percepção das coisas, da natureza, da Terra e no Universo, então abre-se o caminho para uma experiência espiritual cósmica, de comunhão com tudo e com todos. Realizamos por esta via espiritual o que os cientistas buscavam pela via da ciência: um elo que tudo unifica e atrai para frente.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu O Evangelho do Cristo cósmico, Record 2010


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

DIREITOS HUMANOS E DO UNIVERSO

Por Marcelo Barros


A convivência social e política se apoia na consciência de que todas as pessoas têm direitos invioláveis que, sob nenhuma condição, podem ser desrespeitados. Nessa quinta feira, a humanidade celebra mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinado pelos 190 países da ONU no dia 10 de dezembro de 1948. Infelizmente, grande parte da humanidade ainda não se convenceu de que, cada vez que se desrespeita o direito de uma pessoa humana, seja ela quem for, é toda humanidade que é atingida e desrespeitada. Comumente, a sociedade dominante apresenta os Direitos Humanos apenas como campo de inviolabilidade individual. Nele se destacam os direitos liberais de ir, vir, comprar e consumir. Nas últimas décadas, quem mais invoca a Declaração dos Direitos Humanos são os impérios ocidentais. Eles insistem nesses direitos individuais, mas, para tê-los o passaporte necessário é o dinheiro. Nessa sociedade, a pessoa só é cidadã se puder ganhar e consumir. Ao mesmo tempo que prega direitos individuais para ganhar mais dinheiro, governos de potências que se dizem democráticas têm invadido países, torturado e assassinado pessoas, além de destruir civilizações e culturas humanas, como ocorreu recentemente com templos milenares no Paquistão e monumentos culturais no Golfo Pérsico e em todo o Oriente Médio. Povos pobres da América Latina e da África testemunham que, desde tempos coloniais, governos ocidentais, ditos democráticos e civilizados violam a justiça internacional e patrocinam golpes. Financiam os piores partidos políticos, sempre à sombra dos direitos humanos e até em nome da civilização cristã. O resultado disso é o que vemos todos os dias nos jornais: países destruídos pela ambição imperial, milhares e milhares de migrantes tentando sobreviver em outros países e grupos radicais que respondem à violência do Império com o terrorismo fundamentalista. No fundo, o que os grupos terroristas conseguem é apenas dar uma aparência de legitimidade às guerras que agora se declaram contra os terroristas. Pouco adiantou que, já no seu tempo, o Mahatma Gandhi lembrava aos impérios que, se cumprirmos a lei do “olho por olho, dente por dente”, acabaremos todos cegos e desdentados.

As antigas civilizações da Ásia, Oceania e África, assim como as comunidades índias e afrodescendentes da América insistem que os direitos não são apenas individuais e sim comunitários e coletivos. Existem os direitos de cada pessoa e direitos que são comunitários como o direito dos índios ao seu território, o direito de todo ser vivo à água potável para beber e viver, o direito ao ar puro para respirar e assim por diante. 

O amor incondicional e solidário nos leva a assumir a responsabilidade ética pelos mais frágeis e marginalizados. E além de nos solidarizar à luta dos lavradores, índios, negros, mulheres oprimidas e todas as categorias, de alguma forma, vítimas da sociedade excludente, essa solidariedade nos leva a um novo modo de pensar e viver a relação com a Terra, a água, a natureza, os animais e todo ser vivo.  Também, a Terra, as águas, os animais e as plantas precisam ser cuidados e defendidos. Não podemos tratá-los como se fossem meras mercadorias. Conosco eles formam uma grande teia de relação que é como uma comunidade: a comunhão da vida. Esse modo de viver e compreender a vida e os direitos humanos faz parte de uma cultura amorosa que chamamos de Espiritualidade integral ou cósmica.

Ao privilegiarem a relação amorosa com a terra, a cura das doenças e o equilíbrio da vida, as tradições indígenas e afro-descendentes revelam a mesma raiz ética e espiritual.  De uma forma ou outra, todas as religiões reconhecem: o divino só pode ser encontrado realmente no humano. A espiritualidade, seja religiosa ou não, faz da defesa dos direitos do ser humano e da natureza um método de intimidade com o Divino, presente no mundo. No século II, Irineu, pastor da Igreja de Lyon, ensinava: “Como você poderá divinizar-se se ainda nem se tornou humano? Antes de tudo, garanta a condição de ser humano e, assim, poderá participar da glória divina”. A mística francesa Simone Weil afirmava: “Eu reconheço quem é de Deus não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de tratar as outras pessoas”.



Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013

DICAS LITERÁRIAS: A Linguagem, Universo e Limite de cada um




Por Marisa Lajolo *


     O romance Aldeia do silêncio, lançamento recente da Rocco, é um livro impressionante e talvez imprescindível. Parece trilhar caminhos atualmente pouco percorridos na ficção  brasileira. E parece também representar uma nova face na já  numerosa e variada obra de Fr. Betto.

      Dedicado a Marco Lucchesi, tem duas epígrafes: uma do Eclesiastes e outra de Wittgenstein. Mas, vamos com calma: epígrafes habitam o interior do livro . E, como ocorre com qualquer livro, a leitura deste romance começa pela capa. Em prateleiras de livrarias e em sites de vendas, uma bela e sóbria capa antecipa a simplicidade envolvente da história. E, página a página, o enredo vai enredando o leitor nos delicados traços que desenham a paisagem que sobressai na metade inferior da capa. É a partir da tênue linha de montanhas, árvores e pedras, que cada leitor cria suas primeiras expectativas.

     O que é que este livro que folheio me reserva ? Que história ele vai me contar ?

     Logo na abertura, um texto curto intitulado prólogo já começa a responder ao leitor. Nele se  inicia a história propriamente dita, informando que se trata de uma autobiografia. De quem ? De um completo anônimo. Um narrador tão anônimo, que a equipe do hospital onde ele estava internado o chamava de Nemo, palavra latina que significa ninguém.

     Um caderno, no qual Nemo registrou sua história é o livro que o leitor já começou a ler.

     A infância de Nemo transcorre na aldeia que figura no título  da obra. Na verdade, no entanto, a aldeia da história resume-se a um casebre, onde Nemo vive com a mãe, o avô, uma cadela e um urubu. É pelos olhos e pela voz do menino que o leitor vai sendo envolvido pela narração, que conta de uma vida reduzida ao essencial e que - a partir desse essencial-  constrói seu sentido maior e melhor.

     O avô, com sabedoria de poucas palavras. A mãe, com gestos e olhares de afeto. Basileia e Ubelino, os animais da aldeia. É a voz de Nemo que, desse quase nada em que vive tece um quase tudo de beleza, que dá vida a pedras e a plantas, faz ouvir o vento e a chuva.

     A aldeia é um espaço primordial, em que vivem vidas igualmente primordiais. O que nela se aprende não tem palavras que o expressem. Aos poucos, o olhar do leitor confunde-se com o olhar com que o menino vê a aldeia e, dela, vê o mundo. Lá, a noite é negrura do céu perfurado de cristais (p.49), e de dia o sol onipresenciava-se ( p.35).   E é desse espaço onde o ruído é o das folhas da mangueira flautadas pelo vento (p.33)  que Nemo vai para uma cidade grande.

     A quarta capa do livro antecipa para o leitor – aquele leitor que vira e revira o livro na mão antes de se decidir-   o encontro de Nemo com a vida urbana, (des)encontro que aguarda o leitor no final do livro: Perguntaram meu nome. Não tenho. Indagaram-me se eu tinha dinheiro. Eu não sabia o que era. (p.177) . Os saberes da aldeia não vigem na cidade. É só já adulto que Nemo aprende a ler e a escrever: o produto da aprendizagem é o caderno que se transforma no romance.

     Aprendida a leitura e a escrita, Nemo mergulha na nova linguagem, e nela se recompõe.  Das veredas da linguagem, envereda pelo silêncio. O silêncio que sobrepairava ao tempo de sua vida na aldeia primordial, onde o avô lhe ensinara rara virtude: a fidelidade ao silêncio ( p. 178).

     É este silêncio que – já agora para sempre identificado com Nemo – talvez o leitor tivesse deixado passar desapercebido nas epígrafes lá do começo. Nelas, vem do Eclesiaste a ideia de que Há tempo de falar e tempo de calar, e, na sequência, Wittgenstein reforça: o que não se pode falar, deve-se calar.

     É a partir da tardia aprendizagem da leitura e da escrita, que a reflexão sobre a linguagem reconstrói a aldeia e a cidade, Nemo e o leitor. O narrador é leitor de si mesmo, melhor dizendo, ouvinte e criador de si mesmo, criação que se materializa no caderno, e que alça voo no esforço de desenhar  palavras no papel.

     A voz que narra - narra num tom talvez próximo do que se imagina seja a voz do narrador primordial que, como sugere o filósofo W.Benjamin, porque viaja tem o que contar. A viagem pela qual o livro conduz seus leitores é uma viagem interior. É este mergulho na interioridade, o encontro do indivíduo com a linguagem, com a sua linguagem - universo e limite de cada um – que o leitor celebra ao ler este belíssimo romance .

* Marisa Lajolo é professora de Literatura na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na UNICAMP.