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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NOVO OLHAR SOBRE O UNIVERSO


 Frei Betto

 

       Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo hebreu, por não levar a sério o Decálogo da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

       Ao longo dos 400 anos de monarquia em Israel (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

       O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo hebreu para o Decálogo da Criação: “O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus” – afirma Mesters. “É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração”.

       A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de um milênio predominou no Ocidente a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celeste. 

       Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

       Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obriga a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

       Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

       A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

       Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido ao estudar cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas... Tudo que existe coexiste, subsiste e preexiste. 

       Há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

       Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora pananteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O pananteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida. 

       Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo. 

 Frei Betto es escritor, autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio/Record), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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segunda-feira, 4 de março de 2019

IGREJA E ABUSOS: A CORAGEM DE OLHAR DE FRENTE





                por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Acaba de encerrar-se, em Roma, a reunião sobre os abusos sexuais dentro da Igreja. Ali tiveram voz sobretudo as vítimas, que foram ouvidas com toda abertura e transparência. O Papa, presente durante toda a reunião, ouviu as acusações com dor e respeito e, ao final, comprometeu-se ao declarar que a Igreja “não se cansará de fazer tudo que for necessário para levar à justiça qualquer um que haja cometido abusos sexuais” e “nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso” .

            Os 190 representantes da Igreja Católica presentes à reunião comprometeram-se juntamente com o Papa a assumir a mesma atitude e comportamento. Fica claro agora diante do mundo inteiro que a Igreja está consciente da chaga que leva em seu interior na questão de abusos a menores e quer combatê-los com todos os recursos de que dispõe.  Além disso, deseja assumir uma atitude de transparência com os fatos e tolerância zero para com os abusadores, seja quem for e que cargo ocupem. 

            Francisco chama a atenção para o fato de o crime de abusos sexuais a menores ser “universal e transversal”.  Citou, para respaldar o que dizia, vários relatórios de instituições internacionais e institutos de pesquisa.  Deixou claro, no entanto, que “isso não diminui sua monstruosidade dentro da Igreja”.  O fato de tais crimes acontecerem dentro da Igreja é mais grave, porque contrasta e entra em rota de colisão com a autoridade moral e a credibilidade ética, porque a mensagem de que os religiosos são portadores provém do Evangelho de Jesus Cristo, em quem a comunidade cristã reconhece o próprio Deus encarnado. 

            É realmente muito triste e assustador que em nossa sociedade as crianças, os seres mais indefesos e vulneráveis, estejam expostos e indefesos, ameaçados até mesmo no seio de suas famílias.   E que tantos, ao procurarem a Igreja como lugar de paz, amor e crescimento espiritual e moral, tenham se deparado com agressões corporais e psicológicas que as marcaram para sempre. 

            Na verdade, os abusadores gostam da sombra, do silêncio.  Perpetram seus crimes na calada da noite e no silencio de ambientes considerados seguros e não controlados.  Alguns ameaçam as vítimas de perseguições e morte se falarem. No caso dos clérigos abusadores, quer me parecer que jamais cogitaram que as vítimas terminassem falando.  O respeito e mesmo a veneração, sobretudo em países católicos como os nossos latino-americanos, pela figura do sacerdote ainda é forte, mesmo em tempos de secularização como aqueles que vivemos. 

            Mas o silêncio foi quebrado, o tumor deixou correr seu líquido viscoso e asqueroso.  Graças a isso, pode-se iniciar um caminho de tratamento e cura.  E é isso o que pretende a Igreja liderada por Francisco: escutar, tutelar, proteger e cuidar dos menores abusados. Também punir os culpados uma vez comprovada a acusação.  O próprio Papa declara estar disposto a levar à justiça qualquer um que haja cometido tais crimes. 

            Apesar de toda a dor que esses acontecimentos representam para nós que amamos a Igreja e nos sentimos membros dela, é inegável que esta reunião e suas conclusões nos trazem uma profunda esperança.  A comunidade eclesial, pela boca de sua cabeça visível que é Francisco, declarou publicamente o caminho que pretende tomar.  E este caminho é o da transparência, da escuta respeitosa das vítimas, das medidas claras e concretas para punir culpados e defender inocentes. 

            Cabe agora, parece-me, por parte da sociedade e da opinião pública, tomar com seriedade essa atitude da Igreja. É legítimo e necessário estar atento e verificar se as medidas profiláticas são realmente aplicadas, denunciando quando não o são. Importa também apoiar com respeito uma instituição que tem a coragem de expor-se assim e rever tão radicalmente seus procedimentos.  

            Que o mesmo Espírito da verdade que animava Jesus de Nazaré assista Francisco e a Igreja neste momento de conversão.  A Quaresma que começará em breve é um tempo propício para reconhecimento de culpas e mudanças de vida.  É imperativo voltar ao Evangelho, que diz: “só a verdade liberta” e “da boca das crianças Deus faz sair o verdadeiro louvor”. Que a inocência da infância e da adolescência possa encontrar novamente na Igreja lugar de abrigo e proteção, e não de perigo e agressão. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de O mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença (Editora Rocco)


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

VER, OLHAR, CONTEMPLAR

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 




De todos os sentidos, talvez o da visão seja o mais ambíguo e arriscado.  O que mais engana, o que mais finge efeitos especiais que não são reais.  E, no entanto, trata-se de um sentido fundamental, o veículo da luz para o corpo e para a vida inteira.  O que seríamos sem os olhos, sem o olhar, sem a capacidade de perceber a beleza, as cores, os seres vivos?

A Bíblia fala sabia e belamente da importância deste sentido.  O desejo mais profundo do ser humano, segundo os textos bíblicos, é “ver a Deus”.  O salmista suspira por essa visão e geme porque ela tarda: “Quando irei ao encontro de Deus e verei tua face, Senhor?” Ver a face do Senhor é abismar-se na contemplação de uma beleza que não tem fim, de um mistério que é dinamismo que impulsiona a vida, e ao mesmo tempo aconchego que a protege e cultiva, alimenta, nutre e acalanta. 

Em meio a uma vida fragmentada e ameaçada, com a morte como horizonte obrigatório e temido, o ser humano anseia por essa visão que não terá fim.  A fé, que é um caminhar ainda sem ver, incute no ser humano a certeza a respeito do que ele não vê e o faz prosseguir no caminho, mesmo sem enxergar.  Por isso a Bíblia tanto valoriza a escuta, que permite andar sem ver, e crer sem vislumbrar o objeto de Amor que o coração deseja e por cuja visão anseia. Por isso igualmente o ver é tão posto sob suspeita na Escritura, uma vez que ele sozinho, desvinculado de uma escuta obediente e atenta, pode conduzir ao caminho desviado da idolatria e das imagens enganosas.
Para nós que vivemos em uma cultura da imagem, esses matizes bíblicos sobre a importância do olhar, do ver, do contemplar podem ser de grande valia.  Vivemos acossados de todos os lados por imagens que procuram invadir, sem ser convidadas, nossos sentidos e deles apossar-se.  Em todo o decurso do dia, somos instados a olhar, ver coisas, objetos, luzes, que nos despertam sensações, desejos e dinamizam todas as dimensões de nosso ser.

É tanto a olhar que muitas vezes não se consegue ver.  Sim, parece sem sentido, mas é isso mesmo que se quer dizer.  Perdidos em meio a uma abundância de estímulos visuais, poluídos pela superabundância de imagens, corremos o sério risco de não mais ver, enxergar, o que é mais importante.  Não ver o que se encontra para além do imediatamente visível, não ver a identidade mais profunda, não ver o sentimento exposto, a alma em carne viva, o sonho machucado.  Não ver o verdadeiro rosto do outro, da outra e permanecer apenas em sua aparência.

A experiência humana de olhar não se transforma em ver realmente se não consegue atravessar a floresta de imagens que se oferecem sem cessar a nossas retinas e aportar naquilo – ou melhor dito – naquele ou naquela que é digno de ser visto.  É então que fazemos a passagem do olhar e do ver para o contemplar.  É neste momento que nossos olhos deixam de ser simplesmente um sentido biológico e corpóreo, para ser um sentido espiritual, transcendente.

Os antigos olhavam o universo e viam nele a presença de deuses, semideuses, divindades várias que povoavam cada astro, cada planta, cada animal e a tudo dava sentido.  A modernidade trouxe consigo o desencantamento deste mundo que desde muito tempo a humanidade concebeu como povoado de deuses.  Chamou as coisas por nomes racionais, proclamou em alto e bom som que estávamos sozinhos, entregues à realidade de nossa condição humana, finita e mortal.
A partir daí, nos foi dito e ensinado que não havia mais que gastar tempo buscando olhar para além das coisas visíveis a fim de experimentar o Misterioso, o Invisível.  Mais valia permanecer no visível, no alcançável, no tangível, para não se iludir, não se enganar, não se transviar. E neste vazio o enlouquecimento da imagem, a sociedade do espetáculo penetrou e nos fez seus reféns.

Hoje, ensinados pela implacável racionalidade moderna, mas também mais lúcidos sobre seus limites e patologias, procuramos com grande esforço redescobrir a contemplação.  E sentimos que é necessário reeducar nosso olhar, para que então possamos ver um mundo re-encantado, grávido, prenhe de beleza, de presença, de sentido. Entramos em um segundo noviciado para reaprender a ser contemplativos.
E nesse aprendizado experimentamos, como o grande Agostinho de Hipona, que Aquele que de Si mesmo disse ser a Luz do mundo, relampejou e afugentou nossa cegueira. E capacitou-nos, então, a ver a beleza do mundo em sua abundante generosidade, mas também em seus signos invertidos.  É bom não esquecer e ter olhos para ver que o mais belo dos filhos dos homens não tinha graça nem beleza que pudesse atrair os humanos olhares, porque fora reduzido a nada pelo amor.  A única beleza digna de contemplação, digna do olhar re-encantado pela contemplação, é o amor.

  Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do departamento de teologia da PUC-Rio,  teóloga e é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
   Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>