Vamos ouvir o comentário de Pe José Oscar Beozzo para esse 26º Domingo do Tempo Comum?
Vamos ouvir o comentário de Pe José Oscar Beozzo para esse 26º Domingo do Tempo Comum?
Marcelo Barros
A ONU consagra o 11 de julho como
"dia mundial da população". Há
quem veja nessa data um alerta para se encontrar meios de diminuir a população
da Terra. Atualmente a população humana está chegando perto de oito bilhões de
pessoas no mundo. O planeta Terra teria recursos para alimentar e prover a vida
de 11 bilhões de seres humanos. No entanto, isso não será possível se a atual
geração se comporta de forma irresponsável e egoísta no uso da água, dos
alimentos e dos bens que deveriam ser comuns a toda a humanidade.
Com este “dia mundial da
população”, a ONU quer chamar a atenção da humanidade para a urgência de um
planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos e maior cuidado com
o planeta, para que a terra não se torne inabitável. A cada ano, a população da
Terra registra um aumento de mais ou menos 75 milhões de pessoas.
Não temos os dados a partir
da pandemia, mas sabemos que que a população cresce na África e diminui em
alguns países ricos.. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão,
na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países
africanos, como a Zâmbia e o Zimbabue, é
considerado feliz quem atinge a idade de 35.
Atualmente, nos países ricos, quem quer está vacinado. Em países pobres,
a taxa de pessoas vacinadas mal ultrapassa 10% e em alguns países mais estranhos,
surgem perguntas até sobre as datas de validade das vacinas.
Como afirmava o Mahatma
Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar quase o dobro da
população humana. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite
econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos
quinze anos. De acordo com essa meta, esperava-se que até 2030, a humanidade tivesse
conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a
população da terra. A pandemia veio revelar que essa meta fica cada vez mais
longe de ser alcançada. Em plena pandemia, desigualdades sociais se
multiplicaram, os mais ricos triplicaram os seus ganhos e muitos governos aumentaram
os gastos em armamentos.
Cada vez mais fica claro: se
a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de
vida no planeta Terra está ameaçado. Com o aquecimento global e a destruição
provocada pela sociedade capitalista na natureza, mudou a temperatura na superfície
do planeta e na sua atmosfera. Entramos em uma nova era geológica.
Essa nova idade da Terra, que
se sucedeu ao Holoceno, recebeu dos
cientistas o nome de Antropoceno, porque
é provocada pelo ser humano (antropos).
Cientistas de diversos países estudaram a quantidade de energia ou calor que
entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como
os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram
que o calor ali acumulado é esquivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor
equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa
realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os
governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro.
No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos
aos filhos dos nossos filhos.
Quem crê em Deus como Amor
sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando
trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou
simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida
e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos
colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente
o evoluir de sua criação.
O papa Francisco tem
insistido com toda a humanidade para criar nova consciência ecológica e retomar
a proposta da fraternidade humana. Na encíclica Fratelli Tutti, ele nos lança este convite: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana,
como filhos e filhas dessa mesma terra que nos abriga a todos e todas, cada
qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria
voz, mas todos irmãos e irmãs” (FT 8).
Maria Clara Bingemer
Acho bonito as pessoas tirando foto do momento em que são
vacinadas. Comecei a reparar nisso quando a primeira senhora britânica de
mais de 90 anos foi vacinada e disse estar “altamente aliviada”. Depois foram
idosos de ambos os gêneros e em melhor ou pior estado de saúde. Sempre a foto
acompanhando o evento histórico de receber a vacina. Amigos e amigas já
próximos de minha idade também documentaram sua experiência.
O que há de tão transcendental nesse ato de imunizar-se e oferecer o
braço para receber a espetadela que carrega um líquido impregnado de
esperança? Em que essa vacina difere das outras? Por que nos traz essa
emoção como se a vida entrasse em nosso corpo com a inoculação do líquido que
promete imunizar-nos em boa proporção contra a pandemia que aterroriza toda a
humanidade?
Existem vários elementos que me parecem fazer dessa vacina tão ardentemente
esperada não apenas um evento sanitário, mas igualmente um evento inspirador e
revelador do que é a condição humana.
Somos
seres relacionais. Não existimos senão coexistindo e convivendo. Isso é
verdade desde que o Criador pronunciou no sexto dia sobre a criatura que
formara do barro e em cujas narinas soprara o hálito da vida: “Não é bom que o
homem esteja só”. A vocação de Adão é a comunhão e não a solidão. E
quando a Adão foi dada a companheira Eva, mãe dos viventes, a comunhão
aconteceu. A alteridade a instituiu e isso foi muito bom, disse Deus,
antes de descansar ao sétimo dia contemplando sua obra.
É
fato que após isso Adão e Eva romperam essa comunhão. E por isso é tão
trabalhoso reconstituí-la. Somos todos Adão e Eva que buscamos a vida com
dificuldades e dor, mas também a fruímos com gozo e deleite. E todos
experimentamos o desejo da comunhão plena em todos os momentos em que ela se
fragmenta e é obstaculizada pelas várias investidas diabólicas de tudo que
divide e separa.
O
vírus vem sendo uma pedagogia dura e fecunda sobre tudo isso. Os gestos
de proximidade, afeto, amor nos foram proibidos em nome da saúde coletiva.
Foram interditados os abraços e beijos, os encontros, as celebrações
festivas. Nos foram impostas máscaras que erguem barreira entre nós e os
outros. E o álcool e a água e o sabão nos obrigam a exterminar os rastros dos
contatos humanos a cada momento e a cada passo.
Demorou perceber que toda essa separação com relação aos outros, junto aos
quais sempre desejamos tanto estar, era na verdade a forma acertada de proceder
em benefício deles e delas mesmo. O amor que antes se exprimia com gestos
de contato e proximidade agora devia expressar-se por atos de distanciamento em
nome do cuidado e do amor.
A
vacina é um elemento novo que entra nesse cenário. Anunciando esperança
de imunização, baixa de contágio e controle da pandemia, é a única opção que
existe no horizonte para vencer essa tão difícil prova que atravessamos já há
mais de um ano. Por isso, a alegria tão radiante e um brilho de tal
fulgor nos olhos daqueles que após uma longa peregrinação em meio às trevas do
medo e do desânimo agora sentiam poder ter novamente esperança.
Essa
esperança consiste em voltar a poder realizar os gestos do afeto e da comunhão.
Os avós sonham em novamente beijar e abraçar os netos. Os amigos desejam voltar
a poder juntar-se, conversar, rir e cantar juntos, sentir a presença cálida e
estimulante daqueles que se querem bem. Todos desejam andar livremente pelas
ruas, entrar nos cinemas e teatros, ouvir, cantar e dançar em shows musicais,
sem medo e sem barreiras.
Os
que cremos desejamos ardentemente poder voltar a frequentar nossas igrejas em
celebrações com muita gente e poder abraçar os irmãos efusivamente,
desejando-lhes a paz. E comungar o corpo e sangue do Senhor, expressão da
comunhão vital e verdadeira que realiza e conduz à vida plena.
Tantas vacinas já tomamos: sarampo, tuberculose, poliomielite,
antitetânica. Mas apenas a vacina contra a Covid- 19 nos acendeu na
consciência essa convicção de que oferecendo o braço para a tão desejada
espetadela estamos, na verdade, realizando um profundo ato ético.
Já o Papa Francisco que não apenas vacinou-se mas providenciou doses de
vacina para todos os funcionários do Vaticano declarou: “Eu acredito
que, eticamente, todo mundo deve tomar a vacina. É uma opção ética porque você
aposta na sua saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros”
Esperemos
que a pandemia nos tenha ensinado em profundidade que nada do que penso ou faço
afeta apenas a mim. Estou conectada com todos os seres vivos e tudo
impacta em tudo. E dentro desse tudo, meus irmãos em humanidade agora me
pedem esse gesto ético, de fé e esperança na vida, de abertura e amor. A
vacina me dá essa oportunidade. Que ela seja o sinal pascal de vitória da vida
nesses tempos de tanta paixão e tanta treva que temos vivido. É uma boa
motivação para uma celebração mais profunda e esperançosa da Semana Santa que
se aproxima.
Maria Clara
Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora
de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros
M
Pe Fabio Potiguar dos Santos
O diálogo inter-religioso é um imperativo para todas
as expressões religiosas do mundo. Seja
para conservar autenticamente a proposta de cada uma das religiões como espaço
do encontro da pessoa com Deus ou o sagrado, consigo mesmo, com todas as
mulheres e homens – especialmente os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé
e vivência – e com o cosmos.
Encontro este norteado pelos princípios místicos,
éticos e morais; bem como para ser no mundo uma presença e instrumento de
promoção da dignidade da pessoa humana, da justiça, o cuidado com a Casa Comum,
da fraternidade e da paz. Abraço do bem com o belo, comunhão ética e estética.
As religiões são assim, lugares do encontro do homem
com Deus, com os seus companheiros de humanidade e uma relação de alteridade
com o meio ambiente. Individual e coletivamente os seus membros deverão viver e
celebrar os seus mistérios e o que lhes foi revelado dentro de seus próprios
espaços sagrados no santuário do coração e da consciência e naqueles
construídos como o lugar do culto. Deste modo, respeitadas todas as
especificidades litúrgicas, particularidades morais e singularidade doutrinal,
sem perder e anular aquilo que lhe é próprio, em meio a poucas ou muitas
divergências, cada religião tem o compromisso – para apresentar-se à sociedade
como boa e verdadeira – do diálogo e de ações conjuntas com as demais, a partir
do ponto de convergência e matriz de todas elas que são, sem sombra de dúvidas,
Os valores éticos comuns de base,como a mística, o amor, a felicidade, a
justiça social, a paz nos corações e no mundo.
Nesta crise mundial de valores as religiões
desempenham um papel, intrínseco e obrigatório de ser no mundo um lugar do encontro
com uma orientação básica, quando as
mais diversas expressões de fé se reúnem para apresentar a imagem de Deus ou do
sagrado, e não sua perversa caricatura, apresentar aqueles princípios milenares
acima mencionados - nem alienados nem alienantes - ao mesmo tempo tão contemporâneo e ainda a partir
de suas fontes mostram-nos o verdadeiro rosto da pessoa humana, onde o homem
torna-se mais homem e a mulher mais mulher, enfim, a pessoa humana mais pessoa
e mais humana; Repito, ínsito e teimo: as religiões desempenham um papel,
intrínseco e obrigatório, - de não obstante todas as suas contradições e
apesar de todas as grandes objeções postas legitimamente pelos crentes com
autocrítica aguçada, os materialistas históricos, os ateus e agnósticos por
razões ideológicas, científicas, filosóficas, psicológicas e outras - de ser no mundo um lugar do encontro com uma
orientação básica, como diria Hans
Küng, para as grandes perguntas sobre o homem e a mulher: de onde, porquê e
para quê – uma orientação básica para a vida individual e social. Sem negar a ciência,
mas dialogando com ela, afirma ainda o teólogo suíço, as religiões podem
apresentar sem equívocos, não um Deus
contra a humanidade, mas sim como um Deus a favor da humanidade.