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terça-feira, 13 de julho de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NA CASA COMUM

 Marcelo Barros


 

A ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população".  Há quem veja nessa data um alerta para se encontrar meios de diminuir a população da Terra. Atualmente a população humana está chegando perto de oito bilhões de pessoas no mundo. O planeta Terra teria recursos para alimentar e prover a vida de 11 bilhões de seres humanos. No entanto, isso não será possível se a atual geração se comporta de forma irresponsável e egoísta no uso da água, dos alimentos e dos bens que deveriam ser comuns a toda a humanidade. 

Com este “dia mundial da população”, a ONU quer chamar a atenção da humanidade para a urgência de um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos e maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável. A cada ano, a população da Terra registra um aumento de mais ou menos 75 milhões de pessoas.

Não temos os dados a partir da pandemia, mas sabemos que que a população cresce na África e diminui em alguns países ricos.. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos,  como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.  Atualmente, nos países ricos, quem quer está vacinado. Em países pobres, a taxa de pessoas vacinadas mal ultrapassa 10% e em alguns países mais estranhos, surgem perguntas até sobre as datas de validade das vacinas.

Como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar quase o dobro da população humana. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, esperava-se que até 2030, a humanidade tivesse conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. A pandemia veio revelar que essa meta fica cada vez mais longe de ser alcançada. Em plena pandemia, desigualdades sociais se multiplicaram, os mais ricos triplicaram os seus ganhos e muitos governos aumentaram os gastos em armamentos.

Cada vez mais fica claro: se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado. Com o aquecimento global e a destruição provocada pela sociedade capitalista na natureza, mudou a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera. Entramos em uma nova era geológica.

Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno, recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno, porque é provocada pelo ser humano (antropos). Cientistas de diversos países estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é esquivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.

Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.  

O papa Francisco tem insistido com toda a humanidade para criar nova consciência ecológica e retomar a proposta da fraternidade humana. Na encíclica Fratelli Tutti, ele nos lança este convite: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas dessa mesma terra que nos abriga a todos e todas, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” (FT 8).

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

VACINA: BEM COMUM

 


    Maria Clara Bingemer


 

Acho bonito as pessoas tirando foto do momento em que são vacinadas.  Comecei a reparar nisso quando a primeira senhora britânica de mais de 90 anos foi vacinada e disse estar “altamente aliviada”. Depois foram idosos de ambos os gêneros e em melhor ou pior estado de saúde. Sempre a foto acompanhando o evento histórico de receber a vacina.  Amigos e amigas já próximos de minha idade também documentaram sua experiência. 

O que há de tão transcendental nesse ato de imunizar-se e oferecer o braço para receber a espetadela que carrega um líquido impregnado de esperança?  Em que essa vacina difere das outras? Por que nos traz essa emoção como se a vida entrasse em nosso corpo com a inoculação do líquido que promete imunizar-nos em boa proporção contra a pandemia que aterroriza toda a humanidade?

            Existem vários elementos que me parecem fazer dessa vacina tão ardentemente esperada não apenas um evento sanitário, mas igualmente um evento inspirador e revelador do que é a condição humana.

            Somos seres relacionais.  Não existimos senão coexistindo e convivendo. Isso é verdade desde que o Criador pronunciou no sexto dia sobre a criatura que formara do barro e em cujas narinas soprara o hálito da vida: “Não é bom que o homem esteja só”.  A vocação de Adão é a comunhão e não a solidão. E quando a Adão foi dada a companheira Eva, mãe dos viventes, a comunhão aconteceu.  A alteridade a instituiu e isso foi muito bom, disse Deus, antes de descansar ao sétimo dia contemplando sua obra. 

            É fato que após isso Adão e Eva romperam essa comunhão.  E por isso é tão trabalhoso reconstituí-la.  Somos todos Adão e Eva que buscamos a vida com dificuldades e dor, mas também a fruímos com gozo e deleite.  E todos experimentamos o desejo da comunhão plena em todos os momentos em que ela se fragmenta e é obstaculizada pelas várias investidas diabólicas de tudo que divide e separa. 

            O vírus vem sendo uma pedagogia dura e fecunda sobre tudo isso.  Os gestos de proximidade, afeto, amor nos foram proibidos em nome da saúde coletiva. Foram interditados os abraços e beijos, os encontros, as celebrações festivas.  Nos foram impostas máscaras que erguem barreira entre nós e os outros. E o álcool e a água e o sabão nos obrigam a exterminar os rastros dos contatos humanos a cada momento e a cada passo. 

            Demorou perceber que toda essa separação com relação aos outros, junto aos quais sempre desejamos tanto estar, era na verdade a forma acertada de proceder em benefício deles e delas mesmo.  O amor que antes se exprimia com gestos de contato e proximidade agora devia expressar-se por atos de distanciamento em nome do cuidado e do amor. 

            A vacina é um elemento novo que entra nesse cenário.  Anunciando esperança de imunização, baixa de contágio e controle da pandemia, é a única opção que existe no horizonte para vencer essa tão difícil prova que atravessamos já há mais de um ano.  Por isso, a alegria tão radiante e um brilho de tal fulgor nos olhos daqueles que após uma longa peregrinação em meio às trevas do medo e do desânimo agora sentiam poder ter novamente esperança.  

            Essa esperança consiste em voltar a poder realizar os gestos do afeto e da comunhão. Os avós sonham em novamente beijar e abraçar os netos.  Os amigos desejam voltar a poder juntar-se, conversar, rir e cantar juntos, sentir a presença cálida e estimulante daqueles que se querem bem. Todos desejam andar livremente pelas ruas, entrar nos cinemas e teatros, ouvir, cantar e dançar em shows musicais, sem medo e sem barreiras. 

            Os que cremos desejamos ardentemente poder voltar a frequentar nossas igrejas em celebrações com muita gente e poder abraçar os irmãos efusivamente, desejando-lhes a paz.  E comungar o corpo e sangue do Senhor, expressão da comunhão vital e verdadeira que realiza e conduz à vida plena. 

            Tantas vacinas já tomamos: sarampo, tuberculose, poliomielite, antitetânica.  Mas apenas a vacina contra a Covid- 19 nos acendeu na consciência essa convicção de que oferecendo o braço para a tão desejada espetadela estamos, na verdade, realizando um profundo ato ético. 

Já o Papa Francisco que não apenas vacinou-se mas providenciou doses de vacina para todos os funcionários do Vaticano declarou: “Eu acredito que, eticamente, todo mundo deve tomar a vacina. É uma opção ética porque você aposta na sua saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros”

Esperemos que a pandemia nos tenha ensinado em profundidade que nada do que penso ou faço afeta apenas a mim.  Estou conectada com todos os seres vivos e tudo impacta em tudo.  E dentro desse tudo, meus irmãos em humanidade agora me pedem esse gesto ético, de fé e esperança na vida, de abertura e amor.  A vacina me dá essa oportunidade. Que ela seja o sinal pascal de vitória da vida nesses tempos de tanta paixão e tanta treva que temos vivido.  É uma boa motivação para uma celebração mais profunda e esperançosa da Semana Santa que se aproxima.

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

M  

sábado, 21 de novembro de 2020

AS RELIGIÕES E OS VALORES ÉTICOS DE BASE COMUM


Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

O diálogo inter-religioso é um imperativo para todas as expressões religiosas do mundo.  Seja para conservar autenticamente a proposta de cada uma das religiões como espaço do encontro da pessoa com Deus ou o sagrado, consigo mesmo, com todas as mulheres e homens – especialmente os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé e vivência – e com o cosmos.

 

Encontro este norteado pelos princípios místicos, éticos e morais; bem como para ser no mundo uma presença e instrumento de promoção da dignidade da pessoa humana, da justiça, o cuidado com a Casa Comum, da fraternidade e da paz. Abraço do bem com o belo, comunhão ética e estética.

 

As religiões são assim, lugares do encontro do homem com Deus, com os seus companheiros de humanidade e uma relação de alteridade com o meio ambiente. Individual e coletivamente os seus membros deverão viver e celebrar os seus mistérios e o que lhes foi revelado dentro de seus próprios espaços sagrados no santuário do coração e da consciência e naqueles construídos como o lugar do culto. Deste modo, respeitadas todas as especificidades litúrgicas, particularidades morais e singularidade doutrinal, sem perder e anular aquilo que lhe é próprio, em meio a poucas ou muitas divergências, cada religião tem o compromisso – para apresentar-se à sociedade como boa e verdadeira – do diálogo e de ações conjuntas com as demais, a partir do ponto de convergência e matriz de todas elas que são, sem sombra de dúvidas, Os valores éticos comuns de base,como a mística, o amor, a felicidade, a justiça social, a paz nos corações e no mundo.

 

Nesta crise mundial de valores as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica,  quando as mais diversas expressões de fé se reúnem para apresentar a imagem de Deus ou do sagrado, e não sua perversa caricatura, apresentar aqueles princípios milenares acima mencionados - nem alienados nem alienantes -  ao mesmo tempo tão contemporâneo e ainda a partir de suas fontes mostram-nos o verdadeiro rosto da pessoa humana, onde o homem torna-se mais homem e a mulher mais mulher, enfim, a pessoa humana mais pessoa e mais humana; Repito, ínsito e teimo: as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório,  -  de não obstante todas as suas contradições e apesar de todas as grandes objeções postas legitimamente pelos crentes com autocrítica aguçada, os materialistas históricos, os ateus e agnósticos por razões ideológicas, científicas, filosóficas, psicológicas e outras -  de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, como diria Hans Küng, para as grandes perguntas sobre o homem e a mulher: de onde, porquê e para quê – uma orientação básica para a vida individual e social. Sem negar a ciência, mas dialogando com ela, afirma ainda o teólogo suíço, as religiões podem apresentar sem equívocos, não um Deus contra a humanidade, mas sim como um Deus a favor da humanidade.

 Podemos a partir dessas quatro premissas da religião como possibilidade do encontro da pessoa com Deus, consigo, com os outros e o cosmos, afirmar a exigência de todas elas reunidas, ser no mundo,  um importante instrumento, em permanente diálogo com outros protagonistas, através do que convencionamos chamar de Diálogo Inter-religioso, para movimentar as pessoas e o mundo na busca de uma ética mundial (respeitadas toda diversidade cultural e geográfica) e na práxis da fraternidade, da justiça e da paz.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

DIREITOS HUMANOS E DA CASA COMUM



por Marcelo Barros

Nessa terça-feira, a humanidade celebra mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada pelos países que formavam a ONU no dia 10 de dezembro de 1948. Infelizmente, grande parte das pessoas ainda não percebeu que, cada vez que se desrespeita o direito de uma pessoa humana, seja ela quem for, toda humanidade é atingida e desrespeitada. Mais de 70 anos depois, quase não existe um país no mundo no qual esses direitos sejam respeitados. Comumente, a sociedade dominante apresenta os Direitos Humanos apenas como direitos individuais e de quem tem dinheiro. Os governos só se preocupam com os direitos de ir, vir, comprar e consumir. São direitos garantidos pelo dinheiro e posição social. Sem dinheiro, não se garante direito, nem para viver. O que dizer do direito de morar dignamente, comer, receber educação e cuidados de saúde?

Ao mesmo tempo que prega direitos individuais para ganhar mais dinheiro, governos de potências que se dizem democráticas têm invadido países, torturado e assassinado pessoas, além de destruir civilizações e culturas humanas, assim como, na primeira década desse século,  ocorreu com templos milenares no Paquistão e monumentos culturais no Golfo Pérsico e em todo o Oriente Médio.

Povos pobres da América Latina e da África testemunham que, desde tempos coloniais, governos ocidentais, ditos democráticos e civilizados violam a justiça internacional e patrocinam golpes. Financiam os piores partidos políticos, sempre à sombra dos direitos humanos e até em nome da civilização cristã. O resultado disso é o que vemos todos os dias nos jornais: países destruídos pela ambição imperial, milhares e milhares de migrantes tentando sobreviver em outros países e grupos radicais que respondem à violência do Império com o terrorismo fundamentalista. No fundo, o que os grupos terroristas conseguem é apenas dar uma aparência de legitimidade às guerras que agora se declaram contra os terroristas. Pouco adiantou que, já no seu tempo, o Mahatma Gandhi lembrava: “se cumprirmos a lei do olho por olho, dente por dente, acabaremos todos cegos e desdentados”.

As antigas civilizações da Ásia, Oceania e África, assim como as comunidades índias e afrodescendentes da América insistem que os direitos não são apenas individuais e sim comunitários e coletivos. Existem direitos de cada pessoa e direitos que são comunitários como o direito dos índios ao seu território e a suas culturas próprias. Atualmente, a  ONU reconhece o direito coletivo dos nômades, ciganos, tuareg, assim como o direito de categorias sociais como crianças, idosos e outros. As organizações sociais insistem nos direitos comuns que estão acima dos direitos individuais. Assim todos os seres vivos têm direito a viver na Terra, a ter acesso gratuito à água potável, ao ar sadio, à saúde e à educação básica.

Além de nos solidarizar à luta dos lavradores, dos povos originários, das mulheres oprimidas e de outras categorias, vítimas da sociedade excludente, a solidariedade nos leva a novo modo de pensar e viver a relação com a Terra, a água, a natureza, os animais e todo ser vivo.  Também, a Terra, as águas, os animais e as plantas precisam ser cuidados e defendidos. Não podemos tratá-los como se fossem meras mercadorias. Conosco eles formam uma grande teia de relação que é como uma comunidade: a comunhão da vida. A consciência da humanidade reconhece hoje os direitos da Mãe Terra e da natureza. Em alguns países, rios ameaçados foram proclamados como sendo sujeitos de direito.

Esse modo de viver e compreender a vida e os direitos humanos faz parte de uma cultura amorosa que chamamos de Espiritualidade integral ou cósmica. Ao privilegiarem a relação amorosa com a terra, a cura das doenças e o equilíbrio da vida, as tradições indígenas e afro-descendentes revelam a mesma raiz ética e espiritual.  De uma forma ou outra, todas as religiões reconhecem: o divino só pode ser encontrado realmente no humano. A espiritualidade, seja religiosa ou não, faz da defesa dos direitos do ser humano e da natureza um método de intimidade com o Divino, presente no mundo. No século II, Irineu, pastor da Igreja de Lyon, ensinava: “Como você poderá divinizar-se se ainda nem se tornou humano? Antes de tudo, garanta a condição de ser humano e, assim, poderá participar da glória divina”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

terça-feira, 5 de novembro de 2019

PACTO DAS COMUNIDADES PELA CASA COMUM




Por Marcelo Barros

Continuam repercutindo nas mídias e principalmente nos corações de muitas pessoas as imagens e notícias dos bispos e missionários/as da Amazônia, reunidos nas Catacumbas de Domitila em Roma e refazendo o Pacto das Catacumbas. O primeiro Pacto das Catacumbas foi realizado no dia 16 de novembro de 1965, nos dias finais do Concílio Vaticano II e foi assinado por 44 bispos de todo o mundo. Inseriu a Igreja na luta dos pobres por sua libertação. Agora, no domingo 20 de outubro de 2019, bispos e missionários/as da Amazônia, presentes no Sínodo em Roma, refizeram o Pacto das Catacumbas, em um compromisso com os povos originais e com a defesa da mãe Terra, nossa Casa Comum.  

Pela internet e nas redes sociais, vimos bispos amigos e outros companheiros/as assinando o documento, nas Catacumbas de Domitila, onde repousam os restos mortais de muitos mártires cristãos dos primeiros séculos. Ao verem essas fotos, muitos irmãos e irmãs pensaram: Gostaria de também assinar esse compromisso com os mais pobres, com os índios e com a defesa da Terra, das águas e da Vida.

De fato, diferentemente do primeiro Pacto, esse foi assinado por bispos, missionários/as e pessoas que quiseram assinar. Também podemos perceber que, em 1965,  quando o primeiro pacto foi publicado, a perspectiva dos bispos abertos era um estilo pessoal de vida simples e de comunhão com os pobres. Alguns anos depois, a Teologia da Libertação clareou que o compromisso evangélico é de comunhão com os pobres, mas contra a pobreza injusta. Atualmente, o Pacto tem em vista a inserção nas comunidades, a valorização de suas culturas, a defesa do seu modo de viver, a sustentabilidade da floresta, dos rios e do bioma amazônico, assim como a defesa da Vida, onde essa estiver ameaçada. 

O novo pacto, assinado nesses dias em Roma é um documento aberto que pode ser retomado e inclusive adaptado às diversas situações do nosso país. De fato, no Brasil de hoje, os desafios da Amazônia se reproduzem por todas as outras regiões. De norte a sul, leste a oeste, os povos indígenas estão, como nunca, ameaçados em sua sobrevivência. A sociedade brasileira enfrenta uma desigualdade social maior do que antes. As condições ambientais são sempre mais agredidas. Nesses dias, nas praias do Nordeste, enquanto o presidente cuida de garantir uma embaixada para o seu filho, as pessoas sensíveis se unem para limpar as belas praias do nosso litoral do estrago provocado pelas toneladas de petróleo derramadas no mar.

Em Recife, na Igreja das Fronteiras onde Dom Helder Camara viveu em uma pequena sacristia para ser fiel ao compromisso assumido no Pacto das Catacumbas, estamos convidando padres, religiosos/as e leigos/as para assinarmos juntos o Pacto das Fronteiras e irmos divulgando esse documento em meio a todos os irmãos e irmãs da Igreja para que no próximo ano, quando nessa mesma data se encerrará o XVIII Congresso Eucarístico Nacional no Recife, consigamos que bispos e padres, presentes no Congresso aceitem assinar um Pacto das Catacumbas que una o compromisso com os mais pobres ao ministério de repartir com os irmãos e irmãs a Ceia do Senhor, para que haja “Pão em todas as mesas”, tema central do congresso eucarístico.

Já em 1965, bispos como Dom Helder Camara e outros percebiam que essa inserção da Igreja na vida dos pobres e a causa da justiça no mundo não são apenas consequências externas da missão da Igreja e sim constituem o próprio núcleo central da missão. O papa Francisco tem insistido nisso.  

O próximo sábado 16 de novembro cairá na véspera do domingo que o papa propõe seja o 3º Dia Mundial dos Pobres, data na qual ele (o papa) costuma almoçar com os/as pobres depois de dialogar com eles e escutá-los. É excelente oportunidade para que, nas paróquias e comunidades, o maior número possível de pessoas aceite assinar um novo Pacto das Catacumbas, como compromisso de inserção e comunhão com os mais pobres e com a Terra nossa mãe.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A AMAZÔNIA: BEM COMUM DA TERRA E DA HUMANIDADE




por leonardo boff

Os recentes incêndios da Amazônia brasileira e boliviana trouxeram à baila a importância do  bioma amazônico para o equilíbrio e, eventualmente, para o futuro da vida. Os descaso com que o presidente do Brasil tratou a questão ambiental, negando os dados científicos mais sérios e as ameaças às reservas indígenas, acrescido ainda o desmonte feito pelo ministro do Meio Ambiente dos principais organismos de proteção da floresta e das terras indígenas e da vigilância do avanço descontrolado do agronegócio sobre a mata virgem, mostraram a gravidade da situação.
Segundo alguns especialistas internacionais, a Amazônia é a segunda área mais vulnerável do planeta em relação à mudança climática provocada pelos seres humanos. O próprio Papa Francisco advertiu “que o futuro da humanidade e da Terra está vinculado ao futuro da Amazônia; pela primeira vez, se manifesta com tanta claridade que desafios, conflitos e oportunidades emergentes em um território, são a expressão dramática do momento que atravessa a sobrevivência do planeta Terra e a convivência de toda a humanidade”. São palavras graves, menosprezadas pelas grandes corporações depredadoras, porque se dariam conta de que deveriam trocar de modo de produção, de consumo e de descarte. Mas preferem o lucro que a salvaguarda da vida humana e terrenal.
Não sem razão, o Papa Francisco convocou um Sínodo Panamazônico para outubro do corrente ano cujo tema é:”Amazônia:novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Trata-se de uma aplicação de sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum” para evitar uma catástrofe socioecológica mundial. Não se trata de uma ecologia ambiental e verde mas de uma ecologia integral, que envolve o ambiente, a sociedade, a política, a economia, o cotidiano e a dimensão espiritual.
Eis alguns dados gerais sobre o bioma amazônico: cobre uma extensão de 8.129.057 Km2 com nove países: Brasil (67%), Peru (13%), Bolívia (11%), Colômbia (6%), Equador (2%), Venezuela(1%), Suriname,Guiana e Guiana francesa (0,15). Vivem aí 37.731.569 habitantes, sendo que 2,8 milhões são indígenas de 390 povos distintos falando 240 idiomas, da rica matriz de 49 ramos linguísticos, um fenômeno inigualável na história da linguística mundial.
Existem três rios amazônicos: o visível, da superfície, o aéreo, os chamados “rios volantes”(cada copa de árvore com 20 metros de extensão produz 1000 litros de umidade que vão trazer chuvas para o cerrado, para o sul, até o norte da Argentina); o terceiro invisível é o rio “rez do chão”(não confundir com o lugarejo turístico Rez do Chão), um rio subterrâneo que corre debaixo do atual Amazonas.
Todo o bioma amazônico constitui um Bem Comum da Terra e da Humanidade.Na visão dos astronautas isso é evidente: da Lua ou de suas naves espaciais, Terra e Humanidade formam uma única entidade. O ser humano é aquela porção da Terra que começou a sentir, pensar, amar e cuidar. Somos Terra, como enfatiza o Papa e a própria Bíblia.
Agora, na fase planetária, todos nos encontramos numa mesma e única Casa Comum. O tempo das nações está passando; agora é o tempo da Terra e temos que nos organizar para garantir os meios que sustentarão a nossa vida e a da natureza. Ninguém é dono da Terra. Ela é o nosso maior Bem Comum. Todos têm direito de estar nela. Como a Amazônia é parte da Terra, ninguém pode  considerar só seu o que é um Bem de todos e para todos. O Brasil, no máximo, possui a administração da parte brasileira (67%) e o faz de forma irresponsável.Daí a preocupação geral.
Atualmente o bioma amazônico é objeto da cobiça mundial por causa de suas riquezas. Usa-se muita violência. Há na Amazônia brasileira,a partir dos meados dos anos 1980 mais de 12 mártires, indígenas, leigos e religiosos; no Equador 6, no Peru 2 e na Colômbia inumeráveis.
Os G 7 reunidos em Biaritz em agosto, se deram conta da importância do bioma amazônico para o equilíbrio dos climas e da própria Terra. Suspeito que a veem convencionalmente ainda como um baú de recursos para seus projetos econômicos. Suspeito que não incorporaram a visão da nova ecologia que entende a Terra como um super-orgnismo vivo e nós parte dele e não seus senhores.. Caso a Amazônia fosse totalmente abatida, todo o sul do Brasil até o norte da Argentina e do Uruguai se transformariam num deserto. Daí a vital importância desse bioma multinacional.
A irresponsabilidade de Bolsonaro é de tal monta que juristas mundiais cogitam acusá-lo de ecocídio, crime reconhecido pela ONU em 2006 e levá-lo ao tribunal dos crimes contra a humanidade. Termino com palavras de um indígena ianomâmi Miguel Xapuri Ianomâmi:
“Vocês têm Deus, nós temos Omama. Ela criou a vida, criou os ianomâmis, permite tudo o que acontece. Nós nos comunicamos com ela permanentemente”. Quem do mundo secularalizado falaria de coração desta forma?
Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escritor.


terça-feira, 11 de julho de 2017

A FAMÍLIA HUMANA E A CASA COMUM


Por Marcelo Barros



Anualmente, a ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população". O objetivo é chamar a atenção da humanidade para o fato de que, quanto mais aumenta a população mundial, mais se tornam necessário um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos. Além disso, é também urgente maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável.

Os dados atuais comprovam que a humanidade conta com 7, 3 bilhões de pessoas. A maior parte da população continua sendo de asiáticos, dos quais a China é ainda o país mais populoso. A Índia a segue imediatamente e, provavelmente, a vencerá em pouco mais de uma década. A cada ano, a população mundial registra um aumento de 75 milhões de pessoas. Esse crescimento é desigual. A população cresce na África e diminui em alguns países ricos. Em 19 nações da Europa, a taxa populacional tem baixado. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos, como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.

As maiores preocupações da ONU e dos cientistas é que, como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar até 11 bilhões de pessoas. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, espera-se que até 2030, a humanidade tenha conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. Até lá, devemos ter diminuído de tal forma a pobreza, que a fome e as doenças endêmicas que ainda ameaçam a vida nos países pobres, tenham sido superadas. Além disso, cientistas de todo o mundo concordam que, se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado.

Desde o começo desse século, cientistas como Paul Crutzen e Eugene Stoermer ensinam que, com o Capitalismo industrial, a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera mudou tanto que entramos em uma nova era geológica. Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno , recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno porque é provocada pelo ser humano ( antropos ). Em uma guerra nuclear, a destruição do planeta seria consequência da decisão consciente de governantes que detêm o poder. As mudanças climáticas podem também acarretar a destruição da vida na terra, mas como consequência não-intencional das ações humanas. Nesse caso, só uma análise científica pode mostrar que essa destruição é resultado de nossas ações, enquanto espécie. Nesses últimos três anos, cientistas de diversos países, alguns que receberam Prêmio Nobel de Ciências, estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é equivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.


Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.

  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

terça-feira, 23 de maio de 2017

RECONCILIAÇÃO E CAMINHO EM COMUM

Por Marcelo Barros



A cada ano, no hemisfério sul, na semana anterior à festa de Pentecostes, (nesse ano, de 29 de maio a 03 de junho), as Igrejas cristãs, ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, celebram a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Essa iniciativa da Oração pela Unidade já acontece nas Igrejas há mais de cem anos. Desde João XXIII (1959), todos os papas têm prestigiado e participado da Semana da Unidade. Apesar disso, ainda são poucas as comunidades, paróquias e grupos de base, tanto católicos, como evangélicos, sensíveis e abertos a esse chamado de Deus à unidade com cristãos de outras denominações.

Nesse ano, o tema escolhido pela comissão mundial que preparou a Semana da Unidade é "Reconciliação: é o amor de Cristo que nos impele" (2 Cor 5, 14- 20). Esse tema lembra o chamado de Jesus para a unidade. Ao mesmo tempo, ao falar de reconciliação, recorda que, nesse ano, celebramos os 500 anos da Reforma, isso é, do início da grande divisão das Igrejas Católica e Evangélicas. Por isso, os subsídios para encontros e reflexões foram preparados por uma comissão ecumênica da Alemanha, país de onde partiu a reforma.

A convicção comum é que a divisão é sempre consequência e expressão do pecado humano. Ao contrário, quando buscamos a reconciliação, estamos realizando uma ação inspirada pelo Espírito. Quando as Igrejas se fecham em uma postura conservadora, provocam divisões e sofrimentos. Quando se abrem à renovação constante que o Espírito de Deus inspira, vão no caminho da reconciliação e da unidade.

Desde o início das Igrejas até hoje, as pessoas proféticas que propunham renovação sempre tiveram dificuldade de ser aceitas. Na Igreja do Ocidente um grande movimento de reforma ocorreu no século XII e XIII. Foi liderado por São Francisco de Assis, Valdo de Lion e Joaquim de Fiori. Eles queriam tornar a Igreja Católica mais de acordo com o evangelho de Jesus. Foi uma primeira reforma. Três séculos depois, no início do século XVI, Martinho Lutero, João Calvino, Ulrico Zwinglio e outros propuseram uma segunda reforma para fazer a Igreja retornar ao evangelho de Jesus. A hierarquia católica não aceitou as propostas dos reformadores, mas o papa se deu conta de que alguma coisa tinha de mudar e convocou o concílio de Trento para a reforma católica.

Podemos dizer que, no século XX, agora há cem anos, se iniciou uma terceira reforma que é justamente o caminho ecumênico. No mundo inteiro, o Cristianismo é a única das grandes religiões do mundo que, apesar de tudo, tem esse movimento de unidade interna. Ele se baseia no esforço de conversão pessoal ao evangelho e de aprofundar o espírito do diálogo e da acolhida do outro. Como disse Paulo no texto lembrado nessa semana da unidade: "é o amor de Cristo que nos impele".

Em um recente encontro com irmãos pentecostais, o papa Francisco comparou o Cristianismo com a figura geométrica do poliedro. No poliedro, todas as partes são diversas. Cada lado é diferente do outro e cada um conserva a sua peculiaridade. No Cristianismo, também é assim. Cada Igreja tem e manifesta o seu carisma. No entanto, como o poliedro, as Igrejas formam um só corpo, uma só unidade na diversidade.

O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs propõe a meta de uma "diversidade reconciliada". Em várias de suas alocuções, o papa Francisco tem assumido esse princípio como possível caminho de unidade. Para isso, de um lado e do outro, é preciso superar pecados ligados à compreensão quase divinizada do poder, a arrogância cultural e a dificuldade de aceitar o diferente. É preciso de novo valorizar o princípio medieval, retomado por Lutero e lembrado pelo papa Francisco: "A Igreja deve se reformar permanentemente".

Para essa renovação contínua, os critérios apontados pelo papa João XXIII são a volta ao Evangelho de Jesus e a busca profunda de atualização para "ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas" (Ap. 2). Para cada cristão e para cada comunidade, retomar a referência ao evangelho é assumir o compromisso permanente de uma conversão pessoal e comunitária, progressiva e sempre mais exigente. Assim, nos abrimos ao amor divino que nos torna capazes de dialogar com a humanidade atual e nos atualizar.

As comemorações do quinto centenário da Reforma e essa semana da unidade são ocasiões para darmos graças a Deus pelo caminho percorrido em comum, católicos e evangélicos. Esses encontros nos ajudam a nos unir cada vez mais em em um trabalho de reforma permanente de nossa própria Igreja. Assim, vivemos de forma mais fiel o evangelho de Jesus. E podemos trabalhar juntos pela transformação do mundo, a partir do projeto divino de paz, justiça e comunhão com a natureza.  Assim, poderemos, com Jesus viver a oração que, na véspera da sua partida, ele disse ao Pai: "Pai, que todos sejam Um, como eu e Tu somos Um, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17, 20- 21).


  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

sexta-feira, 17 de março de 2017

UMA ÉTICA DA MÃE TERRA, NOSSA CASA COMUM


 Por Leonardo Boff



É um fato cientificamente reconhecido hoje que as mudanças climáticas, cuja expressão maior se dá pelo aquecimento global é, num grau de certeza de 95%, de natureza antropogênica, Quer dizer, possui sua gênese num tipo de comportamento humano violento face à natureza.
Este comportamento não está de sintonia com os ciclos e ritmos da natureza. O ser humano não se adapta à natureza mas a coage a se adaptar a ele e a seus interesses. O interesse maior que domina já há séculos se concentra na exploração desapiedada dos bens e serviços naturais em vista da acumulação ilimitada. Junto a isso segue a dominação de outros povos, o colonialismo e o imperialismo.
A forma como a Mãe Terra demonstra a pressão sobre seus limites intransponíveis é pelos eventos extremos (prolongadas estiagens de um lado e enchentes devastadoras de outro, nevascas sem precedentes por uma parte e ondas de calor insuportáveis por outra parte).
Face a tais eventos, a Terra se tornou o claro objeto da preocupação humana. As muitas COPs (Conferência das Partes), organizadas pela ONU acerca do aquecimento global, nunca chegavam a uma convergência. Somente na COP21 de Paris, realizada de 30 de novembro a 13 de dezembro de 2015 se chegou, pela primeira vez, a um consenso mínimo, assumido por todos: evitar que o aquecimento chegue aos 2 graus Celsius. Lamentavelmente essa decisão não é vinculante. Quem quiser pode segui-la mas não existe nenhuma obrigatoriedade nem penas, como o mostrou o Congresso norte-americano que vetou as medidas ecológicas do Presidente Obama. Agora o Presidente Donald Trump as nega rotundamente como algo sem sentido e enganoso. Esse negacionismo da maior potência do mundo é ameaçador para todos e para a Terra.
Está ficando cada vez mais claro que a questão é antes ética do que científica. Vale dizer, a qualidade de nossas relações para com a natureza e para com a Casa Comum não eram e não são adequadas, antes, são destrutivas.
Citando o Papa Francisco em sua inspiradora encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum” (2015): “Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos… Essas situações provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo”(n.53).
Precisamos, urgentemente, de uma ética regeneradora da Terra. Esta deve devolver-lhe a vitalidade vulnerada a fim de que possa continuar a nos presentear com tudo o que sempre nos galardoou. Será uma ética do cuidado, do respeito a seus ritmos, da compaixão e da responsabilidade coletiva.
Mas não é suficiente uma ética da Terra. Precisamos fazê-la acompanhar por uma espiritualidade. Ela lança suas raízes na razão cordial e sensível. De lá nos vem a paixão pelo cuidado e um compromisso sério de amor, de responsabilidade e de cuidado para com a Casa Comum. Bem o expressou no final da encíclica do bispo de Roma, Francisco, ao enfatizar “uma paixão pelo cuidado do mundo, uma mística que nos anima com uma moção interior   que impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216).
O conhecido e sempre apreciado Antoine de Saint-Exupéry, num texto póstumo, escrito em 1943, Carta ao General “X” afirma com grande ênfase: ”Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano”(Macondo Libri 2015, p. 31).
Num outro texto, escrito em 1936, quando era correspondente do “Paris Soir”, durante a guerra da Espanha, leva como título “É preciso dar um sentido à vida”. Aí retoma o tema da vida do espírito. Aí afirma:”o ser humano não se realiza senão junto com outros seres humanos, no amor e na amizade; no entanto, os seres humanos não se unem apenas se aproximando uns dos outros, mas se fundindo na mesma divindade. Num mundo feito deserto, temos sede de encontrar companheiros com os quais con-dividimos o pão”(Macondo Libri p.20). No final da “Carta do General “X” conclui: “Como temos necessidade de um Deus”(op.cit. p.36).
Efetivamente, só a vida do espírito confere plenitude ao ser humano. Ela representa um belo sinônimo para espiritualidade, não raro identificada ou confundida com religiosidade. A vida do espírito é mais, é um dado originário de nossa dimensão profunda, um dado antropológico como a inteligência e a vontade, algo que pertence à nossa essência. Ela está na base do nascimento de todas as religiões e caminhos espirituais.
Sabemos cuidar da vida do corpo, hoje uma verdadeira cultura com tantas academias de ginástica. Os psicanalistas de várias tendências nos ajudam a cuidar da vida da psiqué, para levarmos uma vida com relativo equilíbrio, sem neuroses e depressões.
Mas na nossa cultura, praticamente, esquecemos de cultivar a vida do espírito que é nossa dimensão radical, onde se albergam as grandes perguntas, se aninham os sonhos mais ousados e se elaboram as utopias mais generosas. A vida do espírito se alimenta de bens não tangíveis como é o amor, a amizade, a convivência amiga com os outros, a compaixão, o cuidado e a abertura ao infinito. Sem a vida do espírito divagamos por aí, sem um sentido que nos oriente e que torna a vida apetecida e agradecida.
Uma ética da Terra não se sustenta sozinha por muito tempo sem esse supplément d’ame que é a vida do espírito. Ele nos faz sentir parte da Mãe Terra a quem devemos amar e cuidar.
Leeonardo Boff é articulista do JB online e autor de Ética e Espiritualidade: como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O GOLPE PARLAMENTAR COMO ASSALTO AO BEM COMUM


Por Leonardo Boff


Um dos efeitos mais perversos do golpe parlamentar, destituindo com razões juridicamente questionáveis pelos juristas mais conceituados de nosso país e também do exterior, foi impor um projeto econômico-social de ajustes e de modificações legais que significam um assalto ao já combalido bem comum. O golpe foi promovido pelas oligarquias endinheiradas e antinacionais que usaram um parlamento de fazer vergonha por sua ausência de ética e de sentido nacional, que por ele pretendem drenar para seu proveito a maior fatia da riqueza nacional. Isso foi denunciado por nomes notáveis como Luiz Alberto Moniz Bandeira, Jessé Souza, Bresser Pereira, entre outros.

Está em curso um desmonte da nação. Isto significa a implantação de um neoliberalismo ultraconservador e predatório que praticamente anula as conquistas sociais em favor de milhões de pobres e miseráveis, tirando-lhes direitos com referencia ao salário, ao regime de trabalho e das aposentadorias além de reduzir e até liquidar com projetos fundamentais como a Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, o FIES e outros institutos que permitiam o acesso aos filhos e filhas da pobreza ao estudo técnico ou superior.

Mais que tudo, começou-se a leiloar bens coletivos como partes da Petrobrás e a colocação à venda de terrras nacionais. A privatização significa sempre uma diminuição do bem de interesse geral que passa às mãos do interesse particular. Atacam-se ao que se chama hoje de “direitos de solidariedade” que submete os interesses particulares ao interesses coletivos e comuns.

Estão sendo erodidas as duas pilastras fundamentais que historicamente construíram o bem comum: a participação dos cidadãos (cidadania ativa) e a cooperação de todos. Em seu lugar, a atual ordem imposta pelos que perpetraram o golpe, enfatiza as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituída pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competitividade.

A participação e a cooperação asseguravam a base do interesse e do comum. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu. Assim surge um individualismo avassalador, acolitado por ondas de ódio, de homofobia, de machismo e de todo tipo de discriminações.

O propósito dos atuais gestores, já reconhecidos como incompetentes, alguns até embecilizados é: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Ingenuamente creem ainda que é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir o bem comum? Deslegitimou-se o bem-estar social e o bem comum foi enviado ao limbo.

Mas cabe denunciar: quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral além de enfraquecer o Estado, o gerenciador do interesse geral. Estão nos impondo um killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie vão aguentar os movimentos sociais, aqueles que da pobreza estão sendo jogados para a miséria, os partidos de raiz popular e a intelligentsia brasileira com sentido de nação e de soberania de nosso pais?

Esclareçamos o conceito de bem comum. No plano infra-estrutural o bem comum é o acesso justo de todos aos bens comuns básicos como à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à comunicação. No plano social é a possibilidade de levar uma vida material e humana satisfatória na dignidade e na liberdade num ambiente de convivência pacífica.

Pelo fato de estar sendo desmantelado pela atual ordem injusta, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição e articular todas as forças comprometidas com o interesse geral a resistir, a pressionar e a ganhar as ruas.

Por outro lado, o bem comum não pode ser concebido antropocentricamente. Hoje desenvolveu-se a consciência da interdependência de todos os seres com todos e com o meio no qual vivemos. Nós enquanto humanos, somos um elo, embora singular, da comunidade de vida e responsáveis pelo bem comum também desta comunidade de vida. Não podemos vender nossas terras nem deixar de delimitar os territórios indígenas, os donos originários de nosso país nem descuidar do desmatamento desenfreado da Amazônia como está ocorrendo agora.

Nós humanos, possuímos os mesmos constituintes físico-químicos com os quais se constrói o código genético de todo o vivente. Dai se deriva um parentesco objetivo entre todos os seres vivos como o tem enfatizado o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral. Por isso cuidar e defender a natureza é cuidar e defender a nós mesmos, pois somos parte dela. Em razão desta compreensão o bem comum não pode ser apenas humano, mas de toda a comunidade terrenal e biótica com quem compartimos a vida e o destino.

Cooperação se reforça com mais cooperação, pois aqui reside a seiva secreta que alimenta e revigora permanentemente o bem-comum, atacado pelas forças que ocuparam o Estado e seus aparelhos no interesse de poucos contra o bem comum de todos os demais.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: De onde vem? o Universo, a Terra, a vida, o espírito, Mar de Ideias, Rio.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

“CASA COMUM, NOSSA RESPONSABILIDADE”


por Marcelo Barros


Esse é  o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica que, em todo o Brasil, será aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) nessa quarta feira, 10 de fevereiro ou, no próximo domingo, o 1o da Quaresma. De fato, desde o ano 2000, essa será a 4a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Reúne cinco Igrejas cristãs e diversas organizações interconfessionais. Dessa vez, além das Igrejas, essa Campanha da Fraternidade envolve também a Misereor, organização dos bispos católicos da Alemanha. O tema geral é o cuidado com a Terra, especialmente no que diz respeito ao saneamento básico que inclui o abastecimento de água urbano e rural; a coleta e tratamento de esgoto; o manejo adequado dos resíduos sólidos (lixo) e a drenagem das águas de chuva. Certamente, na realidade que, nesses dias, enfrentamos no Brasil, não podemos esquecer o combate a mosquitos que transmitem doenças que assolam a nossa população e provocam tantos males. 

As estatísticas mostram que, no Brasil, apesar dos esforços do governo nos últimos dez anos, ainda temos um longo caminho a percorrer no cuidado com a terra e com os nossos rios. É difícil compreender como um país que produz até aviões comerciais de grande porte não consegue solucionar os problemas de saneamento nem em cidades centrais como São Paulo e Rio de Janeiro. Os centros metropolitanos de médio e de grande porte enfrentam cada vez mais problemas relacionados à poluição da água. Nas cidades, a maior parte do esgoto residencial e industrial contamina todas as águas superficiais, como rios, lagos, e o próprio oceano. Nos grandes rios brasileiros, ainda se veem esgotos serem jogados in natura.

É uma graça divina que, no Brasil, ao menos as cinco Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas (CONIC) tenham um desafio tão concreto e urgente para ligar com a celebração da Quaresma e da Páscoa. De fato, a responsabilidade pela Terra como causa comum tem de unir dois aspectos: o cuidado ambiental e a ecologia social. Tanto o Conselho Mundial de Igrejas, em seus documentos, como  o papa Francisco, na sua encíclica Laudatum sii, têm insistido: não se pode separar o equilíbrio ambiental e o cuidado com a justiça. Por isso, nessa CF 2016, o lema é a palavra bíblica: “Quero ver a justiça brotar como fonte e o direito correr como riacho que não seca” (Am 5, 24). Essa profecia confirma: O que para Deus é mais importante não é o culto e nem atos de devoção individual e sim que todos cuidem da justiça social e trabalhem para que, no país e no mundo, todos tenham respeitados os seus direitos  individuais, sociais e de saúde. Só assim, as celebrações se tornarão profundas e chegarão aos ouvidos de Deus.

Ao falar em saneamento básico, muita gente dirá que isso é obrigação do governo e que, sobre isso, os cidadãos comuns podem fazer pouco. De fato, em termos estruturais, é verdade: a primeira obrigação é do governo. No entanto, a tarefa dos cidadãos é velar e exigir que os seus direitos sejam respeitados. O trabalho das autoridades deve ser complementado pelo cuidado de toda a população. A limpeza de córregos e rios feita pelas autoridades públicas só funciona se a população colabora e não joga lixo nas ruas. Nessa linha, o texto-base da CF 2016, dirigido aos cristãos de todas as Igrejas e pessoas de boa vontade, sugere várias ações simples e cotidianas. O objetivo é criar uma nova consciência de cuidado com a terra e com a água, assim como uma maior solidariedade social. O texto propõe que as comunidades cristãs estimulem as pessoas a fazerem a coleta seletiva do lixo caseiro e a tratar a rua como espaço coletivo a ser cuidado por todos. Além disso, como gesto comum, nessa Quaresma, pede que evitemos o consumismo. Como, em muitas Igrejas, o jejum é um costume tradicional do tempo da Quaresma, a CF 2016 propõe que façamos um dia de jejum, repartindo com uma família mais pobre o alimento daquele dia. Que essa CFE nos ajude a aprofundar a unidade das Igrejas que Deus quer e pede que vivamos. “Ó Deus da vida, da justiça e do amor, Tu fizeste com ternura o nosso planeta, morada de todas as espécies e povos. Dá-nos assumir, na força da fé e em irmandade ecumênica (com as outras Igrejas cristãs), a corresponsabilidade na construção de um mundo sustentável e justo para todos. No seguimento de Jesus, com a alegria do Evangelho e com a opção pelos pobres. Amém”. (oração da CFE – Texto base, p. 73).


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.