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segunda-feira, 13 de junho de 2022

A FAMÍLIA E A ALEGRIA DO AMOR

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            Volto de Roma, onde participei de um seminário na Universidade Gregoriana, pensado a propósito dos cinco anos da Exortação “Amoris Laetitia” e que aconteceu apenas este ano devido à pandemia. Organização impecável, alto nível de conferencistas e debatedores, frutíferas discussões. E o consenso de que bons tempos vão sendo vividos pelas famílias cristãs com a abertura que esse grande documento pontifício traz. 

            A perspectiva não é a casuística estreita e legalista que fez muitos casais e famílias sofrerem, dilacerados entre a fidelidade à sua fé e sua pertença eclesial e os apelos novos e surpreendentes que a vida lhes trazia. É, ao contrário, a porta aberta e luminosa da alegria.  A alegria do amor, única verdadeira. Assim quer o Papa Francisco que seja vista e concebida a família: lugar de vivência da alegria do amor. 

            A família é inicialmente lugar de formação a uma consciência crítica.  Trata-se do primeiro fórum onde as pessoas aprendem a ler e avaliar o mundo que é sua casa.  Esse fórum pedagógico é formado de pessoas que se ajudam umas às outras a tomar consciência dos desafios do mundo em que habitam para discerni-los e enfrentá-los com alegria.  Isso é verdade no que diz respeito aos esposos, mas também de maneira especial quando se trata da formação das crianças.  No número 261 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco afirma que para formar moralmente uma criança é preciso ajudar a criar em seu interior, com amor, processos de maturação da liberdade de formação na cultura de uma autêntica autonomia. 

            Essa liberdade e autonomia levam forçosamente a que a criança possa ser e situar-se não apenas protegido e ao abrigo de todo percalço no seio da família, mas exposto aos problemas de seu meio, alguns muito duros, conflitivos e dolorosos.  Porém, aí em meio a esses desafios estará sempre acompanhada, sem ser dominada ou que lhe seja imposta a leitura feita por outros.  Ao revés, será instada e acompanhada para avaliar e discernir o que se lhe apresenta da realidade, a fim de poder tomar atitudes e decisões. 

            A tomada de consciência sobre todas as questões que a realidade lhe traz ao encontro proporciona aos jovens e adultos que formam a comunidade familiar a perplexidade diante da velocidade com a qual as coisas mudam, caracterizando uma mudança de época.  E essa constatação, que aflora à consciência, leva ao espírito que atravessa do começo ao fim o documento papal: não se pode, no que diz respeito às questões de moral, simplesmente repetir fórmulas antigas que não repercutem mais nas pessoas e não fazem nem mesmo sentido para as mesmas. 

            A exortação Amoris Laetitia concebe – em profunda sintonia com o que diz constantemente o Papa Francisco – a vida moral baseada essencialmente nos exemplos e  testemunhos.  Assim, a teologia moral seria como uma pedagogia, tecida de numerosos exemplos, nos quais os casais e as famílias possam reler sua própria experiência e dela aprender.  E assim crescer como comunidade.  Se damos crédito ao que diz Paulo VI no documento Evangelii Nuntiandi – que as pessoas hoje em dia escutam mais as testemunhas que os mestres – estes exemplos são cruciais para a credibilidade da família enquanto instituição. 

            Na beleza desse desafio, a sexualidade deve ser vivida enquanto dinamismo constitutivo e essencial da vida e ser assumida na dinâmica familiar e na vida de fé em um sentido mais largo.  Um verdadeiro crescimento integrado das e nas famílias não pode perder de vista que a sexualidade hoje apresenta aspectos muito diversos aos do passado, com consequências vitais igualmente diversas.  Os distintos modelos de família revelam essa comunidade humana como multicêntrica e configurada em modelos muito diversos, que não podem ser ignorados.  

            Segundo a lógica do Evangelho, a família não existe para si mesma nem pode existir autocentrada e voltada para a consecução de sua própria virtude e excelência. Isso estabeleceria uma dicotomia malsã entre a vida privada do lar e a dimensão pública do mundo e da sociedade. A família existe no mundo e para o mundo.  E é pela escuta das necessidades e prioridades deste mundo e desta sociedade que deve desenvolver sua identidade e prioridades pedagógicas e ativas.  A proposta e o apelo do Evangelho dirigem-se aos que formam uma família no sentido de que ela não se autocompreenda como fim em si mesma, mas sim como uma comunidade que existe para que o mundo seja mais justo e mais humano. 

            A mensagem cristã não é feita para seres perfeitos, mas para seres humanos com imperfeições, ambiguidades e pecados.  A Amoris Laetitia relembra à Igreja que ela deve ser capaz de dialogar com todas as pessoas, mesmo as que estariam em situação irregular perante a Igreja que amam e à qual querem continuar a pertencer. É enquanto seres criados com um corpo sexuado que a salvação nos é proposta.  A Igreja não quer ser juíza implacável do modo pelo qual as pessoas administram e vivem sua sexualidade, mas apresentar-lhes a alegria do amor.  Assim, a sexualidade será fonte de alegria e não de repressão, tristeza, violência, opressão. A humanização da sexualidade seria um objetivo a perseguir com a ajuda da graça. 

            Ao término do seminário, em encontro com o Papa Francisco, pudemos ouvir de sua boca a confirmação do vivido e refletido naqueles dias: é preciso saber buscar as fontes e a primeira raiz sem andar para trás.  Anda-se para a frente, não para trás.  Andar para trás não é cristão.  Conciliar a fidelidade às fontes mais profundas e originárias do amor e vivê-lo caminhando para a frente é o desafio posto às famílias que hoje desejam viver a alegria desse amor. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Editora Vozes).

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

COVID -19 - QUINQUAGÉSIMA QUINTA - REFLEXÃO - PROBLEMAS DE FAMÍLIA EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

 


Por Frei Aloísio

 

     Para esta nova REFLEXÃO vou precisar da compreensão dos leitores e leitoras. É que pretendo abordar, nesta semana da família, um assunto sobre o qual a única linguagem confiável é a da experiência. Confesso que não a tenho suficientemente. Desde muitos anos, não convivo numa família constituída por laços de sangue.

     A quarentena do coronavirus reagrupou as famílias em um isolamento compulsório, para uns benfazejo, para outros, conflitivo.  O que daí resultou e resultará para o futuro, decerto será objeto de muitos estudos, pesquisas e surpresas. Atrevo-me a apreciar um ponto específico, em meio a muitos outros que se oferecem a quem entenda melhor da matéria.

     O que está acontecendo em grupos familiares compulsoriamente reunidos, onde convivam pessoas com opiniões e posições antagônicas e mesmo irreconciliáveis? E quando suas controvérsias incidirem nos acontecimentos polêmicos oriundos da última campanha presidencial? Não se trata do direito constitucional inalienável do voto nem também do resultado final das urnas. Trata-se antes de suas sequelas, de seus efeitos colaterais. Estes detonaram fenômenos inesperados.  Liberaram segredos ocultos nos porões das consciências individuais. Desarquivaram traumas pessoais há muito tempo represados. Enfim, acenderam uma luz para enxergar realidades ainda não percebidas.

     Para muitas famílias a surpresa foi grande: havia um mundo de valores separando  parentes, valores fundamentais que determinam a escolha de caminhos nos mais importantes segmentos da vida em formação: educação dos filhos, exercício da profissão, visão do mundo, sentido da vida, prática religiosa.

     Sempre que estas questões se contrapõem, torna-se difícil construir algo em comum para o futuro. Daí a dificuldade de voltar a reunir estes familiares nos costumeiros e aprazíveis encontros fraternos. Não dá para sentar-se à mesma mesa e comer o mesmo pão e cantar os mesmos hinos e rezar a mesma oração, quando os convivas precisam reprimir o debate de assuntos relevantes em troca da convivência pacífica.

     Vale aqui resgatar uma palavra de Jesus que anda (mal)dita em bocas infectadas pelo vírus do poder político: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará".

     Se passarmos por cima da Verdade, evitando-a,  contornando-a, sob qualquer pretexto, podemos salvar as aparências, jamais construir a unidade.

    A vida mesma, em seu movimento, nos ensina uma coisa: toda convivência humana se nutre de relações pessoais. Nas famílias, durante anos, esta convivência é alimentada por laços de sangue, por recordações do passado, por variados lazeres, por afetos e carinhos, pela mesa e pelo pão.

     Com o passar dos anos, no entanto, e o amadurecimento das pessoas, estes sentimentos deixam de bastar. As amizades passam a ser selecionadas e consolidadas com base nos valores mais do que nos afetos. Torna-se quase impossível aprofundar uma amizade com alguém que não comunga em nada comigo, seja nos  princípios morais, na visão de vida, nos ideais e utopias, e  outros pontos essenciais da vida, e logo fica clara a incompatibilidade de convicções.

     Chega o momento em que estas convicções se radicalizam a ponto de se  converterem  em intolerância e paixão irracional. As discussões começam a destilar  preconceitos e antipatias, arruinando os fundamentos da paz.

     Nestas circunstâncias, o distanciamento físico acaba sendo uma consequência natural, uma estratégia para evitar rupturas graves, irreversíveis. Este distanciamento,  evidentemente, não diz respeito à família nuclear, durante o tempo em que o convívio permanente de pais, filhos, irmãos é constitutivo e garante a estabilidade e segurança comum.

     E onde fica o amor nisso tudo?

     (A esta altura, o espaço limitado obriga-nos a uma pausa neste assunto e convida-nos a dar-lhe continuidade na próxima REFLEXÃO)

     Até lá, reflitamos no que Jesus quis dizer em Lc.11,27: "Ouvindo as suas palavras, uma mulher do povo levantou a voz e exclamou, maravilhada: bem-aventurados o ventre que te gerou e os peitos que te amamentaram! Ao que Jesus respondeu: antes bem-aventurados os que ouvem as minhas palavras e as põem em prática".    Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 

quinta-feira, 22 de março de 2018

TELEFONEMA DO PAPA A FAMÍLIA DE MARIELLE NÃO TEVE INFLUÊNCIA DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL


 
Frei Betto

        Na missa de sétimo dia por Marielle Franco, dia 20, celebrada na igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio, Dona Marinete da Silva, mãe da vereadora assassinada, revelou que a família recebeu telefonema do papa Francisco manifestando solidariedade e afeto. Marielle participou da Pastoral de Juventude e sua mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, foi ministra da Eucaristia na Maré.
        A Igreja Católica no Brasil não teve nenhuma influência no gesto de compaixão do papa Francisco. Luyara, filha de Marielle, escreveu ao pontífice dois dias após o assassinato da mãe, e fez a carta chegar às mãos dele por meio do professor argentino Gustavo Vera, amigo de Francisco e presidente da Fundación Alameda, dedicada ao combate do tráfico de pessoas. Participou da articulação Lucas Schaerer, do Partido do Bem Comum, assessor de comunicação da fundação.
        A atitude de Francisco se contrapõe ao silêncio da direção da CNBB e a ausência de autoridades católicas em manifestações e cultos em homenagem à vereadora. A única nota de protesto ao assassinato e à violência veio do Regional Leste 1 da CNBB e, assim mesmo, assinada pela “assessoria de imprensa”.
        Alguns católicos manifestaram nas redes digitais indignação pela nota do Regional, enfatizando que Marielle defendia o direito ao aborto, à união homoafetiva e era mãe solteira. Em 2015, o papa Francisco foi enfático: “Não existe mãe solteira, pois mãe não é estado civil.”
        A tímida reação de autoridades católicas do Brasil frente ao brutal assassinato de Marielle e Anderson contrasta com a história da CNBB durante a ditadura militar, quando reagiu publicamente em defesa dos direitos de comunistas e ateus perseguidos, exilados, presos ou assassinados. Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, tomou a si a defesa de Vladimir Herzog, judeu e comunista, a ponto de celebrar missa em memória dele na catedral da Sé. Interpelado por que o fazia, respondeu: “Jesus também era judeu.”
        Jesus jamais discriminou pessoas que divergiam dele ou viviam em contraposição aos valores que ele propagava. Acolheu o centurião romano, defendeu a mulher adúltera, louvou o gesto afetuoso da prostituta que lhe perfumou os pés, aceitou jantar na casa do opressor Zaqueu.
        E ensinou que toda pessoa, não importa o que faz ou como pensa, é templo vivo do Espírito de Deus.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.

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terça-feira, 11 de julho de 2017

A FAMÍLIA HUMANA E A CASA COMUM


Por Marcelo Barros



Anualmente, a ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população". O objetivo é chamar a atenção da humanidade para o fato de que, quanto mais aumenta a população mundial, mais se tornam necessário um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos. Além disso, é também urgente maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável.

Os dados atuais comprovam que a humanidade conta com 7, 3 bilhões de pessoas. A maior parte da população continua sendo de asiáticos, dos quais a China é ainda o país mais populoso. A Índia a segue imediatamente e, provavelmente, a vencerá em pouco mais de uma década. A cada ano, a população mundial registra um aumento de 75 milhões de pessoas. Esse crescimento é desigual. A população cresce na África e diminui em alguns países ricos. Em 19 nações da Europa, a taxa populacional tem baixado. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos, como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.

As maiores preocupações da ONU e dos cientistas é que, como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar até 11 bilhões de pessoas. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, espera-se que até 2030, a humanidade tenha conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. Até lá, devemos ter diminuído de tal forma a pobreza, que a fome e as doenças endêmicas que ainda ameaçam a vida nos países pobres, tenham sido superadas. Além disso, cientistas de todo o mundo concordam que, se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado.

Desde o começo desse século, cientistas como Paul Crutzen e Eugene Stoermer ensinam que, com o Capitalismo industrial, a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera mudou tanto que entramos em uma nova era geológica. Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno , recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno porque é provocada pelo ser humano ( antropos ). Em uma guerra nuclear, a destruição do planeta seria consequência da decisão consciente de governantes que detêm o poder. As mudanças climáticas podem também acarretar a destruição da vida na terra, mas como consequência não-intencional das ações humanas. Nesse caso, só uma análise científica pode mostrar que essa destruição é resultado de nossas ações, enquanto espécie. Nesses últimos três anos, cientistas de diversos países, alguns que receberam Prêmio Nobel de Ciências, estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é equivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.


Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.

  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A FAMÍLIA HUMANA E A CASA COMUM


Por Marcelo Barros



A conclusão cada vez mais comum entre cientistas de vários ramos que estudam o que une e o que diferencia os vários povos da terra é que somos fundamentalmente iguais, apesar de todas as diferenças de cor, de culturas e de histórias. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos já declarava que todos os seres humanos são iguais em dignidade, direitos e necessidades que comportam deveres de todos para com todos. Mesmo no plano biológico, temos todos um DNA comum. Somos todos irmãos e irmãs de uma humanidade que é membro da comunidade da vida.

Cada ano, no 11 de julho, a ONU celebra o dia mundial da população, criado em 1987, exatamente na data na qual a humanidade atingiu a marca de cinco bilhões de habitantes. Quase 30 anos depois, já somos sete bilhões e meio de seres humanos. A data serve para aprofundarmos o que significa viver em um planeta no qual, a cada ano, a população humana cresce e as desigualdades sociais aumentam. Se você for branco, tiver nascido nos Estados Unidos, Canadá ou na Europa tem dez vezes mais chances de ter saúde, educação e independência pessoal do que se nasceu em algum país da África ou da América Latina. Além disso, a cada dia, os bens da terra, como água, ar e alimentação, afetados pela ação humana, se tornam limitados e insuficientes.

Alguns países pensam resolver o problema da população com regras rígidas de controle de natalidade. Hoje, a humanidade compreende que ser pai e mãe deve ser um ato consciente e responsável. É preciso sim que as famílias tenham um planejamento ético e justo de seus filhos. No entanto, de modo algum isso justifica o egoísmo de quem se nega a ter filhos para não ter de cuidar de alguém. Nem legitima políticas internacionais que esterilizam mulheres pobres ou importam métodos anticoncepcionais para países da África. Não se trata de selecionar quem tem ou não direito a ter filhos. Por outro lado, não basta diminuir a taxa de natalidade para a humanidade solucionar a questão da sustentabilidade e do futuro da vida para todos. De acordo com os dados científicos, o planeta Terra tem todas as condições de alimentar e sustentar até onze bilhões de pessoas. No entanto, como o Mahatma Gandhi afirmava: “o mundo tem o suficiente para saciar as necessidades de todos os seres humanos, mas não basta para satisfazer a ganância e a ambição dos ricos”.

A humanidade precisa mudar a cultura com a qual se relaciona entre si e com o planeta que habita. Um sistema social e econômico que gera desigualdade e aprofunda injustiças sociais só pode resultar em violência e infelicidade para todos. Somente uma organização social que se preocupe com todos os seres humanos e busque a igualdade e a justiça é ecologicamente sustentável e socialmente justificável.

Antigamente, a humanidade vivia no campo e a densidade populacional era fraca. Hoje, a maioria das pessoas vive em cidades. Já se contam em milhares as metrópoles com mais de um milhão de habitantes. Já somam 23, as cidades com mais de dez milhões de habitantes. São Paulo já ultrapassou vinte milhões. Nessas sociedades, ao menos aparentemente, o ideal humano é de liberdade máxima para cada um, mas essa liberdade supõe orientação e um projeto comum. Eduardo Galeano afirmava: "Somos uma sociedade de solidões que se encontram e desencontram sem se reconhecer mutuamente. Esse é nosso drama: um mundo organizado para o desvínculo, onde o outro é sempre uma ameaça e nunca uma promessa"


No mundo atual, estamos sempre mais juntos e ao mesmo tempo, cada vez mais sozinhos. Isso é tido como liberdade. Nesse contexto, filósofos judeus como Emmanuel Mounier e Martin Buber, baseados em sua fé bíblica, insistiram no valor básico da alteridade: descobrir a importância do outro, aceitar que dependemos uns dos outros e aprender a viver a partir do outro. Essa abertura para o outro, humano, garante uma convivência baseada na justiça e na paz. Somente a convivência com o diferente e a solidariedade amorosa ao outro nos fazem descobrir que somos de uma só família humana e membro da comunidade da vida. Essas são as bases de uma espiritualidade que vai além das religiões e podem consolidar a justiça eco-social e a sustentabilidade do planeta. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

NOVOS PERFIS DE FAMÍLIA



Por Frei Betto


     
     Maria Antônia, bebê gaúcho, tem duas mães, um pai, seis avós! Nascida em Santa Maria, em setembro de 2014, o juiz Rafael Cunha autorizou seu registro de nascimento.

     Os pais são Fernanda, Mariani e Luis Guilherme, que engravidou uma das moças e fez questão de ter seu nome na certidão de nascimento. O juiz reconheceu legalmente que Maria Antônia nasceu em um “ninho multicomposto”.

     Desde que resolução do Conselho Federal de Medicina, em 2013, permitiu a utilização de técnicas de fecundação “in vitro” por casais homoafetivos, cresceu no Brasil o número de crianças registradas em nome de dois pais ou duas mães.
     O preconceito ainda impede que muitos reconheçam o óbvio: o perfil da família já não se restringe ao da relação monogâmica heterossexual.

     Quem melhor percebe essa mutação é o papa Francisco que, em vez de se fingir de cego, como papas anteriores frente aos fenômenos da pós-modernidade, convocou um sínodo para debater o tema. Precedido por reunião extraordinária em outubro de 2014, o Sínodo da Família terá lugar em Roma, em outubro deste ano.

     No questionário remetido a todas as dioceses do mundo, o papa pergunta como os católicos encaram casais recasados, a homossexualidade e outros temas considerados polêmicos no interior da Igreja. Francisco quis ouvir as bases, num gesto inédito de democratização da instituição eclesiástica.

     É o fim da família? A família é uma estrutura cultural, não natural. Tal como a conhecemos hoje, existe há apenas meio milênio. Aliás, hoje se multiplicam as famílias monoparentais, cujo “chefe” é a mãe. Em comunidades indígenas, a qualidade de proteção e afeto às crianças faz a todos nós, “civilizados”, corar de vergonha.

     Para quem, como eu, foi educado no catolicismo à luz de estampas da Sagrada Família, não é fácil acolher os novos perfis de relações afetivas. Porém, ao abrir o Evangelho, nos deparamos com algo distinto do modelo devocional: o jovem Jesus que se desgarra do cuidado dos pais e abandona a caravana de peregrinos; o pregador ambulante que não merece a credibilidade de seus irmãos (João 7,5) e a família o tem na conta de “louco” (Marcos 3,21-31); o filho que parece rejeitar a própria família: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” (Mateus 12, 48).

     Quando exclamaram a Jesus “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram”, ele não desmentiu, mas assinalou a diferença: “Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam.” (Lucas 11, 27-28).

     Jesus enfatizou que não são os laços de sangue que mais aproximam as pessoas, e sim o projeto comum que elas assumem.

      Projetos alternativos criam conflitos. Jesus chegou a falar em “odiar” a própria família (Lucas 14, 26). O verbo grego miseo (=odiar) pode ser traduzido por “amar menos”: “Se alguém quer me seguir e não prefere a mim mais que a seu pai e sua mãe...”

     Frente ao modelo de família-gueto, centrada no umbigo de seus membros e avessa a estranhos e necessitados, Jesus propôs um modelo de família aberta, centrada no afeto, na gratuidade e na abertura ao próximo.

     A família do século XXI já não será apenas a que possui em comum características biológicas, e sim a que o amor aproxima e une pessoas comprometidas com um projeto comum de vida, que estabelece entre elas profundas relações de intimidade e reciprocidade.

     E há que lembrar que, em sua recente visita à Ásia, o papa Francisco rogou aos fiéis católicos que evitem “ser como coelhos”, procriando irresponsavelmente. Um sinal de que os métodos contraceptivos, como o uso do preservativo, serão afinal aceitos pela Igreja Católica?


      Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

PAPA BUSCA IDENTIFICAR A FAMÍLIA ATUAL



Por Frei Betto

       Desde de 5 de outubro, até o próximo dia 19, reúne-se em Roma o Sínodo Extraordinário sobre a Família. Convocado pelo papa Francisco em outubro de 2013, esta reunião de bispos do mundo inteiro foi precedida pelo debate em torno de documento sobre os desafios à Igreja, dentre os quais os novos perfis de família. O tema será retomado no Sínodo Ordinário de 2015.

      Constata o documento: “Hoje perfilam-se problemáticas até há poucos anos inéditas, desde a difusão dos casais de fato, que não acedem ao matrimônio e, às vezes, excluem esta própria ideia, até as uniões entre pessoas do mesmo sexo, às quais não raramente é permitida a adoção de filhos. Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimônios mistos ou interreligiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimônios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do não comprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenômenos migratórios e a reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimônio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimônio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; a difusão do fenômeno das mães de substituição (“barriga de aluguel”); e as novas interpretações dos direitos humanos. Mas, sobretudo, no âmbito mais estritamente eclesial, o enfraquecimento ou abandono da fé na sacramentalidade do matrimônio e no poder terapêutico da penitência sacramental.”

      Francisco vai direto ao ponto, ao contrário de outros papas que, para não criar atritos com os conservadores, preferiam deixar às calendas temas candentes que exigem, com urgência, posicionamento da Igreja, como aborto, sacerdócio de mulheres, volta ao ministério sacerdotal de padres casados, homossexualidade, celibato obrigatório etc.

      O documento preparatório explicitou as preocupações do papa, entre as quais como evangelizar crianças de pais divorciados impedidos de se aproximar dos sacramentos? Podem os divorciados participar da eucaristia?

      O documento enviou a todas as dioceses do mundo perguntas cujas respostas servem agora de base ao Sínodo Extraordinário. Entre elas, o tópico “Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo: a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimônio? b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união? c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união? d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?”

      Não se espere desta reunião decisões que, da noite para o dia, mudem o comportamento pastoral da Igreja Católica. Instituição bimilenária, seus avanços são cautelosos.

      No entanto, Francisco tem pressa. Conhece os escândalos no interior da Igreja: casos gritantes de pedofilia (que ele pune com rigor); congregações religiosas que se transformaram em grandes empresas famintas por lucros; casais que mantêm relações sexuais sem intenção de procriar (o que é vetado pela doutrina em vigor); jovens que perdem a virgindade antes do casamento; relativização da ideia de pecado etc.

      O fundamento da família é o amor. “Deus é amor” e “quem ama nasceu de Deus”, diz João no capítulo 4 de sua primeira carta. De que vale uma família desprovida de amor? E Deus não se faz presente em toda verdadeira relação amorosa, ainda que fuja ao modelo de família próprio da modernidade?
      Sonho com o dia em que um casal de jovens, ao experimentar a primeira paixão, saiba que faz experiência de Deus!

Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros.
     


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