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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

BENTO XVI: AS SURPRESAS DE UM PAPA

 

Maria Clara Bingemer


 

     Talvez seja um pouco tardia esta reflexão sobre o Papa Bento XVI já mais de dez dias após sua morte.  Outras preocupações tomam o lugar do tempo do luto mais próximo do falecimento do pontífice que governou a Igreja Católica por oito anos e depois permaneceu em Roma como Papa Emérito até o último dia 31 de dezembro de 2022.  O cenário nacional fervilha com as últimas ameaças à democracia e parece não haver outro assunto.  No entanto, me parece que a figura do falecido é por demais importante para não trazer alguma reflexão sobre sua pessoa. 

   Por isso mesmo, porque tantas coisas importantes – positivas e críticas – foram ditas e escritas, atenho-me ao que foi essencial de meu contato com o teólogo Ratzinger, em cujos livros li e estudei durante minha graduação em Teologia, e com aquele que se tornou sucessor de João Paulo II em 2005.  

    Quando foi anunciada sua eleição pelo cardeal camerlengo em 2005, confesso que tinha sentimentos não muito claros por dentro. Por um lado, compreendia que o conclave o tivesse eleito, era o colaborador mais próximo do papa polonês, o teólogo e pensador refinado, o homem culto que presidia a Pontifícia Comissão para a Doutrina da Fé.  No entanto, pude conhecer de perto igualmente sua atuação à frente desta comissão e minha impressão era de uma certa perplexidade diante de algumas punições e restrições impostas a teólogos que eu conhecia bem de perto e cuja fé profunda e o rigor teológico admirava. Os dois lados se fizeram sentir naquele momento em que a Igreja, após 26 anos do governo de João Paulo II, esperava ventos novos. 

Dos oito anos em  que reinou Bento XVI lembro-me de vários momentos em que surpreendeu positivamente : a reconciliação com a Companhia de Jesus, que havia recebido intervenção do antecessor João Paulo II, coisa que tanto fizera sofrer o querido padre Arrupe; o belo texto da primeira encíclica, Deus caritas est, onde o intelectual refinado que era Bento XVI não temia dialogar inclusive com Nietzche, o filósofo tão crítico do cristianismo; a oração pungente em Auschwitz que se lançava de encontro ao silêncio de Deus.  Haveria outras, muitas mais a mencionar. 

Desejo destacar duas ocasiões que me parecem centrais para compreender por que vejo Bento XVI como alguém surpreendente.

A primeira foi sua vinda ao Brasil para abrir a Conferência de Aparecida, em 2007.  Havia um ambiente de desconforto e temor entre muitos que trabalhavam e participavam do evento.  A Conferência de Santo Domingo, em 1992, havia sido difícil e penosa.  O documento final quase não foi escrito e divulgado.  Graças a circunstâncias várias, entre elas o gênio e a santidade de Dom Luciano Mendes de Almeida, houve um documento com pontos positivos, mas que parecia não levar em conta o sopro profético das conferências de Medellín e Puebla, como a centralidade da opção pelos pobres. Temia-se o que poderia dizer Bento XVI. Se o Papa, no discurso de abertura, pronunciasse uma clara condenação da teologia da libertação, que tinha como centro a opção pelos pobres, seria realmente muito triste para a caminhada da Igreja latino-americana. 

O Papa falou.  Declarou que a fé nos liberta do isolamento e nos conduz à comunhão com Deus e com os irmãos, implicando responsabilidade para com o outro.  E continuou.  Cito literalmente pela importância que reside nesta frase que mudou completamente o panorama da V Conferência, em Aparecida: “Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2 Co 8, 9).”

A partir daquele momento encerravam-se as discussões sobre se a opção pelos pobres seria realmente teológica ou, ao contrário, apenas um subproduto de um marxismo mal compreendido. 

A alguns não caiu bem a afirmação do Papa. Chegaram a retirar-se da conferência.   Para muitos de nós que ali estávamos foi uma lufada de ar fresco e uma injeção de ânimo. Aparecida retomou a questão dos pobres, dando-lhe a centralidade devida, e produziu um documento que voltava a trazer esperança para a Igreja do continente. 

Em 2012, encontrava-me em Chicago conversando com o grande amigo e teólogo maior David Tracy.  Meio abruptamente ele me perguntou: “Você acha que o Papa vai renunciar?”  Surpreendida, disse que jamais havia passado por minha cabeça esta ideia.  David me explicou o porquê de suas suspeitas e sua argumentação não me convenceu.   De Chicago viajei a Roma. Fora convidada a apresentar, ao lado do Cardeal Ravasi e de outros teólogos e editores, o livro de Bento XVI sobre a Infância de Jesus.  Após a apresentação, fomos todos  cumprimentar o autor.  Bento XVI nos recebeu sorridente e alegre com o lançamento do livro.  Ao cumprimentá-lo disse-lhe, referindo-me à Jornada Mundial da Juventude que teria lugar no Rio de Janeiro, em julho de 2013: “Nós o esperamos no próximo ano, no Rio.”  Ao que ele respondeu com um meio sorriso: “Se Deus me der saúde...”

No dia 8 de fevereiro de 2013, uma jornalista da Globo News me chamou ao telefone às 8 horas da manhã.  Era segunda feira de Carnaval.  Ouvi do outro lado a seguinte pergunta: “Professora, pode falar algo sobre a renúncia do Papa?” A notícia me deixou perplexa.  Pedi uma hora para inteirar-me e liguei a televisão.  Os olhos do mundo inteiro estavam voltados para Roma e o gesto histórico da renúncia do Pontífice.

O resto é história.  O papa Ratzinger explicou ao mundo as razões de sua renúncia.  À medida que o ouvia e lia, sentia crescendo em mim, juntamente com a surpresa,  admiração por ele.  É muito difícil retirar-se quando se vê que chegou o momento.  O papa bávaro o fez com elegância e firmeza. 

Seu corajoso gesto abriu o caminho para a primavera de Francisco, iniciada pouco mais de um mês depois, em 13 de março de 2013.   Este segue o caminho das surpresas, embora de forma bem diferente de seu antecessor.   Que o Papa Bento descanse em paz e Francisco continue nos surpreendendo ainda por bastante tempo. 

 

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Santidade: chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Bento XVI – Um Papa da velha cristandade

 

Leonardo Boff 


 

Sempre que morre um Papa toda a comunidade eclesial e mundial se comove, pois vê nele o  confirmador da fé cristã e o princípio de unidade entre as várias igrejas locais. Podem-se fazer muitas interpretações da vida e dos atos de um Pontífice. Farei uma a partir do Brasil (da América Latina), seguramente parcial e incompleta.

Importa constatar que na Europa vivem apenas 23,18% dos católicos e na América Latina 62%, o restante na África e na Ásia.  A Igreja Católica é uma Igreja do Segundo e do Terceiro mundo. Provavelmente os futuros Papas virão dessas Igrejas, cheias de vitalidade e com novos estilos de encarnar a mensagem cristã nas culturas não ocidentais.

Com referência ao Bento XVI convém distinguir o teólogo Joseph Ratzinger e o Pontífice Bento XVI.

 

teólogo Joseph Alois Ratzinger é um típico intelectual e teólogo centro-europeu, brilhante e erudito. Não é um criador, mas um exímio expositor da teologia oficial.Isso aparecia claramente nos vários diálogos públicos que fez com ateus e agnósticos.

Não introduziu visões novas, mas deu uma outra linguagem às já tradicionais, especialmente fundadas em Santo Agostinho e São Boaventura. Talvez algo novo seja a sua proposição da Igreja como um pequeno grupo altamente fiel e santo como “representação” da totalidade. Não era importante para ele o número dos fiéis.Era suficiente o pequeno grupo altamente espiritual que está no lugar de todos. Ocorre que dentro desse grupo de puros  e santos houve pedófilos e envolvidos em escândalos financeiros, o que desmoralizou sua compreensão de Representação.

Outra posição singular, objeto de uma interminável polêmica comigo mas que ganhou ressonância na Igreja, foi a interpretação de que a “Igreja Católica é a única Igreja de Cristo”. As discussões conciliares e o espírito ecumênico mudaram o “é” por “subsiste”. Assim abria-se um caminho para que em outras Igrejas também “subsistisse” a Igreja de Cristo. Ratzinger sempre afirmou que essa mudança era apenas um outro sinônimo do ”é”, o que a pesquisa minuciosa das atas teológicas do Concílio não confirmou. Mas, continuou sustentando sua tese. Ademais afirmou que as outras Igrejas não são igrejas, mas possuem somente elementos eclesiais.

Ele chegou a afirmar, várias vezes, que essa minha posição se difundiu entre os teólogos como algo comum o que motivou novas críticas por parte do Papa. Contudo, ele ficou isolado, pois havia provocado grande decepção às demais igrejas cristãs, como a luterana, a batista, presbiterana e outras, por fechar as portas ao diálogo ecumênico.

Entendeu a Igreja como uma espécie de castelo fortificado contra os erros da modernidade, colocando a ortodoxia da fé, sempre ligada à verdade (seu tonus firmus), como referência principal. Não obstante seu caráter pessoal sóbrio e cortês, se mostrou como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé,  extremamente duro e implacável.

 

Cerca de cem teólogas e teólogos, dos mais proeminentes, foram sentenciados seja com a perda da cátedra, seja com a proibição de ensinar e escrever teologia ou, como no meu caso, com o “silêncio obsequioso” Assim nomes notáveis da Europa como Hans Küng, Edward Schillebeeck, Jacques Dupuis, B. Haering, J. M. Castillo entre outros. Na América Latina, o fundador da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez, a teóloga Ivone Gebara censurada, bem como o autor destas linhas. Foram atingidos outros nos USA como Charles Curran e R. Haight. Até de um teólogo já falecido da India, padre Anthony de Mello, foram-lhe proibidos seus livros,além de outro indiano Belasurya.

Os/as teólogos/as da América Latina, decepcionados, nunca acabamos de compreender o porquê haver proibido a coleção “Teologia e Libertação”, em 53 volumes, envolvendo dezenas de teólogos e teólogas (publicaram-se uns 25 tomos) que se destinava a subsidiar os seminários, as comunidades eclesiais de base e os grupos cristãos comprometidos com os direitos humanos. Era a primeira vez que se produzia uma obra teológica de vulto, fora da Europa, com ressonância mundial. Mas foi logo abortada. O teólog Joseph Ratzinger mostrou-se inimigo dos amigos dos pobres. Isso entrará negativamente na história da teologia.

 

São muitos os teólogos que afirmam ser ele tomado por uma obsessão pelo marxismo, embora tivesse ruído na União Soviética. Publicou um documento sobre a teologia da libertação, Libertatis nuntius (1984), cheio de advertências, mas sem uma explícita condenação. Um outro documento posterior, Libertatis conscientia (1986) realça-lhe os elementos positivos mas com demasiadas  restrições.

 

Podemos dizer que ele nunca entendeu a centralidade dessa teologia: a “opção pelos pobres contra a pobreza e pela libertação”. Fazia dos pobres protagonistas de sua libertação e não meros destinatários da caridade e do paternalismo. Essa era a visão tradicional e do Papa Bento XVI. Suspeitava haver marxismo dentro desse protagonismo da força histórica os pobres.

 Bento XVI como Pontífice inaugurou a “Volta à Grande Disciplina”, com clara tendência restauradora e conservadora, a ponto de reintroduzir a missa em latim e de costas ao povo. Causou estranhamento geral na própria Igreja quando no ano 2000 publicou o documento “Dominus Jesus”.Aí reafirma a velha doutrina medieval e superada pelo Concílio Vaticano II, segundo a qual “fora da Igreja Católica não há salvação”. Os não-cristãos corriam grave risco. Novamente negou o qualificativo de “igreja” às demais Igrejas, o que provocou geral irritação.Seriam apenas comunidades eclesiais.Com toda sua argúcia polemizou com os muçulmanos, com os evangélicos, com as mulheres e com o grupo integrista contra o Vaticano II.

 

Sua forma de conduzir a Igreja não era carismática como a de João Paulo II. Orientava mais pela ortodoxia e pelo zelo vigilante das verdades de fé do que pela abertura ao mundo e pela ternura para com o povo cristão como o faz o Papa Francisco.

Foi um lídimo representante da velha cristandade europeia com sua pompa e poder político-religioso.Na perspectiva da nova fase da planetização, a cultura europeis, rica em todos os campos, enclausurou-se em si mesma. Raramente mostrou-se aberta à outras culturas como as antigas da América Latina, da África e da Ásia. Nunca se livrou de certa arrogância de ser a melhor e em nome disso colonizou o mundo todo, tendência ainda não totalmente superada.

Não obstante as limitações, mas por suas virtudes pessoais e pela humildade de haver renunciado, em razão dos limites de suas forças, ao múnus papal, seguramente se contará entre os bem-aventurados.

              Leonnardo Boff, teólogo católico brasileiro.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O PAPA E A UNIÃO HOMOAFETIVA


 


Frei Betto

        Esse reconhecimento de Francisco, contudo, não muda a doutrina da Igreja Católica. Ela continua a não abençoar sacramentalmente uniões homoafetivas. O que é óbvia contradição, em especial por proclamar, doutrinariamente, que o valor supremo entre um casal não são os direitos decorrentes da união, e sim o amor que suscita e alimenta a relação. 

 

       Quem diria? O noticiário alardeia que o papa Francisco aprova a união civil de casais gays! Ora, faz tempo que Francisco assume tal posicionamento. Em 2014, em entrevista ao jornal italiano “Corriere dela Sera”, ele reconheceu que as leis estatais de união civil foram aprovadas principalmente para fornecer direitos legais aos parceiros do mesmo sexo.

       Em 2017, em entrevista ao escritor francês Dominique Wolton, ao ser questionado sobre a possibilidade de casamento de casais do mesmo sexo, reagiu: “Chamemos isso de ‘união civil’. Nós não brincamos com a verdade”.

       Quando cardeal em Buenos Aires, Bergoglio exortou os bispos argentinos a apoiarem as uniões civis. Teve papel de destaque em 2010, quando o governo argentino avaliava se permitiria o casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

       Agora, reafirmou sua posição no documentário “Francisco”, sobre os seus sete anos de pontificado, dirigido por Evgeny Afineevsky e estreado em Roma em 21/10. Ele afirma que gays são “filhos de Deus” e “têm direito a uma família”. E acrescenta que as leis de união civil protegem os direitos legais das pessoas que mantêm relacionamentos homoafetivos.

       O tema surge no filme quando aparece o depoimento de Andrea Rubera, homossexual italiano que participa de missas na casa Santa Marta, no Vaticano, onde mora o papa. Rubera conta ter entregado a Francisco uma carta, na qual ele e seu parceiro manifestam receio de levar os filhos à igreja, com medo de serem rejeitados por terem pais gays. O papa telefonou a Rubera e o encorajou a fazê-lo e, inclusive, conversar com o pároco a respeito da união deles.

       Chris Vella, da Rede Global de Católicos Arco-Íris (GNRC, sigla em inglês), que representa mais de quarenta organizações dos cinco continentes, declarou ao receber a notícia do posicionamento do papa: “Como homem casado, em casamento civil do mesmo sexo desde 2018, olho com esperança para um futuro em que a Igreja não apenas reconheça as uniões civis para casais do mesmo sexo, mas também celebre seus relacionamentos como sinais sagrados e sacramentais do amor como presença manifesta de Deus no mundo. A Igreja deve celebrar nossa fidelidade, compromisso, perseverança e fecundidade tanto quanto celebra essas qualidades para as uniões heterossexuais”. 

       Esse reconhecimento de Francisco, contudo, não muda a doutrina da Igreja Católica. Ela continua a não abençoar sacramentalmente uniões homoafetivas. O que é óbvia contradição, em especial por proclamar, doutrinariamente, que o valor supremo entre um casal não são os direitos decorrentes da união, e sim o amor que suscita e alimenta a relação. 

       Ainda levará um tempo para a Igreja adequar seu duplo discurso, o para fora e o para dentro da instituição. Padres e bispos não podem fazer casamento religioso de gays, mas são cada vez mais frequentes as bênçãos a esses casais, ainda que não tenham seu matrimônio registrado na paróquia. Para fora, a Igreja defende que todos os direitos da mulher devem ser assegurados e toda discriminação de gênero, combatida. Para dentro, as mulheres continuam impedidas de acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado. O machismo, o patriarcalismo e a misoginia prevalecem.

       A manifestação do papa, porém, traz importante contribuição para o Brasil: agora fica muito mais difícil para o Judiciário aprovar a obsessão bolsonarista de descriminalizar a homofobia. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Sexo, orientação sexual e ‘ideologia de gênero’”, entre outros livros. Livraria Virtual: freibetto.org

  Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

O PAPA E A CIDADANIA UNIVERSAL

Por  Marcelo Barros 

Nesta semana a ONU celebra seus 75 anos e lembra o 24 de outubro de 1945, quando foi criada. Nestes dias, a humanidade recebe de presente a nova carta do papa Francisco sobre a fraternidade universal e amizade social. Esta carta-encíclica é dirigida a toda a humanidade e tem como objetivo provocar uma reflexão sobre a vida depois da pandemia.

O papa afirma que se sentiu motivado a escrever esta carta desde que, em fevereiro de 2019, se encontrou com o grande Imã Ahmad Al- Tayyeb, uma das maiores autoridades do Islamismo no mundo. Juntos, eles publicaram uma Declaração sobre a Paz e a Fraternidade.  Outro fator que apressou a carta foi a inesperada ocorrência da pandemia. No primeiro capítulo da encíclica, o papa lamenta que, salvo poucas exceções, nesta emergência sanitária, a humanidade demonstrou total incapacidade de atuar conjuntamente. Na maioria dos países o desmantelamento do sistema público de saúde foi responsável pela morte de muitas pessoas que teriam sido salvas, se o mundo tivesse outra forma de organização (Cf. n. 35).

Nesta semana, a Organização Mundial de Saúde publicou uma cifra que os meios de comunicação evitam mostrar. Conforme os dados oficiais, os Estados Unidos, com toda a sua riqueza, é o país no mundo com número maior de vítimas da Covid 19 (280 mil) e o Brasil ultrapassou a marca de 150 mil. Ao mesmo tempo, a China que tem dois bilhões e quatrocentos milhões de pessoas conta até agora cinco mil mortos. O Vietnam com cem milhões de habitantes chora 35 mortes e Cuba, cuja população é de 10 milhões, teve 153 vítimas fatais. Estes dados confirmam que, como o papa escreve em sua encíclica: a sociedade atual perdeu o sentido da História (n. 13), desenvolve novas formas de colonização cultural (n. 14) e gera situações cruéis e inusitadas de escravidão (n. 24).

No capítulo 2: “Um estranho no caminho”, o papa pede permissão aos leitores não cristãos para comentar a parábola evangélica do samaritano. Denuncia que a sociedade dominante exclui os diferentes e transforma o próximo em sócio (n. 102). E reafirma: “a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para a humanidade” (n. 105). Convida todos os seres humanos a pensar e atuar como parte da humanidade, com senso comunitário. Mostra que, para lutar contra a pobreza, é preciso enfrentar suas causas estruturais. Declara que a propriedade individual é legítima, mas o bem coletivo deve estar acima do individual e toda propriedade deve ter uma função social (n. 116).

O capítulo V, “A melhor Política” mostra valores, mas também os limites das visões liberais (163- 164). Propõe uma reforma profunda da ONU que deve ampliar sua tarefa e se tornar família das nações ou verdadeira comunidade internacional (173). Pede que se resgate a dignidade da Política com P maiúsculo e que esta seja expressão do amor social (176- 177).

No capítulo 6 desenvolve uma pedagogia do Diálogo como forma de convivência e cita o nosso Vinícius de Moraes ao dizer que “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida” (n. 215). O papa cita Vinícius, no “Samba da Bênção”, canção na qual Vinícius se apresenta como Capitão do Mato, pede a bênção à Mãe Menininha do Gantois e se apresenta como sendo o branco mais negro do Brasil.

O capítulo 7 trata de como tomar posição diante dos conflitos que são inevitáveis na vida. Defende o perdão como perspectiva, mas deixa claro que o perdão não substitui a justiça, nem supõe esquecimento (n. 246- 248). Condena a violência do Estado, sempre muito mais forte e cruel do que qualquer violência de grupos particulares (253). Rejeita radicalmente a guerra, a pena de morte e a prisão perpétua (n. 253). Pede que a humanidade constitua um Fundo Mundial para acabar com a Fome (263). No último capítulo (o VIII) dedica-se a mostrar como as Religiões devem se colocar a serviço da fraternidade no mundo. Deixa claro que “os textos religiosos clássicos de todas as tradições podem oferecer um significado para todas as épocas (n. 275). Insiste que as religiões devem se renovar através de dois cuidados ou perspectivas: concentrar-se no essencial e voltar às fontes da fé (n. 282).   

Mais uma vez, ao intensificar o diálogo com a humanidade na busca de saídas para a crise que vivemos, o papa sofre ataques. Intensificam-se contra Francisco hostilidades e oposições que, no passado recente, nenhum papa viveu. Os inimigos do papa vêm de dois setores: daqueles que, como Steve Banon, têm fortes interesses econômicos a salvaguardar e para isso usavam a religião e agora se sentem deslegitimados pelo papa. No entanto, a oposição mais violenta vem de um grupo de cardeais, bispos e padres da própria Igreja Católica. Estes se sentem ameaçados em suas ambições eclesiásticas e suas necessidades de poder e riqueza. Alguns afirmam claramente que esperam a mudança de papa para recolocar a Igreja no seu devido lugar. Independentemente dos inimigos que querem a sua morte, o papa continua a nos convidar: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” Encíclica Fratelli Tutti, n. 8). 

 

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 15 de setembro de 2020

O PAPA E A ONU

 



 

Por Marcelo Barros

 

Nesta terça-feira, 15 de setembro, em Nova York, se abrirá mais uma assembleia geral das Nações Unidas. Desde a última assembleia que reuniu representantes dos 193 países-membros, o mundo sofreu uma mudança inesperada. Em menos de um ano, ninguém imaginava que um organismo minúsculo, invisível a olho nu, incapaz de viver por si mesmo, pudesse provocar um transtorno tão grande em todos os continentes. É claro que isso aconteceu não apenas pela capacidade mortífera do vírus e sim pelo despreparo da sociedade em relação a este tipo de situação.

A elite dominante do mundo e seus representantes nos diversos governos continuam a promover uma forma de organizar o mundo baseada no individualismo e na competição. Nenhuma religião ou ensinamento social conseguiu transmitir à humanidade valores profundos de solidariedade e comunhão. De repente, o coronavírus veio revelar que tudo está interligado. Querendo ou não, todos estamos no mesmo planeta. Se um é contaminado, todos correm riscos. Ou cuidamos uns dos outros, ou morremos todos/todas.

Esta 75ª assembleia geral da ONU terá como tema principal a reorganização da vida no mundo depois da pandemia. A articulação internacional de cidadãos e cidadãs de vários países e continentes escreve a Antonio Guterrez, Secretário Geral da ONU e à assembleia das Nações Unidas pedindo que declarem todas as vacinas contra vírus como bens comuns da humanidade.

Há cinco anos, nesta mesma época, o papa Francisco visitou a ONU e falou à assembleia geral.  Naquela ocasião, o papa assinou o documento no qual a ONU se comprometia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para os quinze anos até 2030. Agora, nesta realidade de um mundo em crise, o papa enviará uma videomensagem à assembleia da ONU. O papa proporá ao mundo caminhos de saída para a crise social e sanitária provocada pela pandemia, assim como a crise da economia mundial e a crise ecológica que ameaça o planeta. O Vaticano já aceitou publicar o eixo central da palavra do papa: "De uma crise se sai ou melhor ou pior. Depende de nós. Não podemos, na ordem mundial e local, repetir os mesmos modelos socioeconômicos de um ano atrás, nem ajustá-los ou envernizá-los um pouco. Isso seria pior." 

Já no dia 20 de dezembro, no Palácio Apostólico do Vaticano, o papa e o secretário-geral das Nações Unidas gravaram juntos um vídeo no qual pediam o fim da corrida armamentista e do rearmamento nuclear. Nesta sua mensagem, agora, o papa certamente retomará esta proposta. Somente em armamentos, em 2019, os governos do mundo gastaram mais de 1,9 trilhão de dólares. Conforme o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) divulgado na segunda-feira 27 de abril deste ano, é o valor mais alto de gastos com armas desde 1988. De acordo com os cálculos da OXFAM, um quinto deste dinheiro gasto com armas resolveria o problema da fome do mundo. Esse é o escândalo que os governos não querem abordar. O papa apontará esta ferida. Insistirá no cancelamento drástico e total da dívida externa dos países periféricos. Tal decisão não representa apenas um ato de bondade ou esmola dos países credores já que, em geral, os juros da dívida já representam um peso imenso. Na realidade, os países que devem já pagaram mais do que o triplo daquilo que receberam como empréstimo. Portanto, o cancelamento da dívida é uma questão de justiça. É preciso um novo começo para a sociedade internacional. Isso só poderá ocorrer a partir de uma nova concepção de justiça social e de paz.

Nestes dias, o organismo do Vaticano encarregado da relação com outras religiões e a comissão encarregada do mesmo assunto no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra publicaram juntos um documento sobre a necessária e urgente colaboração das religiões para formarem uma cultura de solidariedade no mundo. Juntas, as diversas correntes espirituais poderão testemunhar a vocação de todo ser humano para a comunhão do bem viver.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

Postado por Blog O Porta Voz às 18:38 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 23 de março de 2018

COMO O PAPA FRANCISCO TERMINA A IGREJA SÅO OCIDENTAL E COMEÇA A IGREJA UNIVERSAL




por Leonardo Boff

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeria intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, co m suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis-Francisco de Roma, a irrupção da primavera, Mar de Ideias, Rio 2013.

quinta-feira, 22 de março de 2018

TELEFONEMA DO PAPA A FAMÍLIA DE MARIELLE NÃO TEVE INFLUÊNCIA DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL


 
Frei Betto

        Na missa de sétimo dia por Marielle Franco, dia 20, celebrada na igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio, Dona Marinete da Silva, mãe da vereadora assassinada, revelou que a família recebeu telefonema do papa Francisco manifestando solidariedade e afeto. Marielle participou da Pastoral de Juventude e sua mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, foi ministra da Eucaristia na Maré.
        A Igreja Católica no Brasil não teve nenhuma influência no gesto de compaixão do papa Francisco. Luyara, filha de Marielle, escreveu ao pontífice dois dias após o assassinato da mãe, e fez a carta chegar às mãos dele por meio do professor argentino Gustavo Vera, amigo de Francisco e presidente da Fundación Alameda, dedicada ao combate do tráfico de pessoas. Participou da articulação Lucas Schaerer, do Partido do Bem Comum, assessor de comunicação da fundação.
        A atitude de Francisco se contrapõe ao silêncio da direção da CNBB e a ausência de autoridades católicas em manifestações e cultos em homenagem à vereadora. A única nota de protesto ao assassinato e à violência veio do Regional Leste 1 da CNBB e, assim mesmo, assinada pela “assessoria de imprensa”.
        Alguns católicos manifestaram nas redes digitais indignação pela nota do Regional, enfatizando que Marielle defendia o direito ao aborto, à união homoafetiva e era mãe solteira. Em 2015, o papa Francisco foi enfático: “Não existe mãe solteira, pois mãe não é estado civil.”
        A tímida reação de autoridades católicas do Brasil frente ao brutal assassinato de Marielle e Anderson contrasta com a história da CNBB durante a ditadura militar, quando reagiu publicamente em defesa dos direitos de comunistas e ateus perseguidos, exilados, presos ou assassinados. Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, tomou a si a defesa de Vladimir Herzog, judeu e comunista, a ponto de celebrar missa em memória dele na catedral da Sé. Interpelado por que o fazia, respondeu: “Jesus também era judeu.”
        Jesus jamais discriminou pessoas que divergiam dele ou viviam em contraposição aos valores que ele propagava. Acolheu o centurião romano, defendeu a mulher adúltera, louvou o gesto afetuoso da prostituta que lhe perfumou os pés, aceitou jantar na casa do opressor Zaqueu.
        E ensinou que toda pessoa, não importa o que faz ou como pensa, é templo vivo do Espírito de Deus.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

NO CRISTIANISMO ENCARNADO NA CULTURA GUARANI, O BISPO SERIA UM POBRE E O PAPA UM MENDIGO



 por Leonardo Boff
Há uma crise generalizada acerca do poder e de seu exercício, una real crise sistêmica, vale dizer, a percepção de que a forma como entendemos o poder e seu exercício em todos os âmbitos da realidade, não nos faz melhores. Vivemos quase sempre sob formas degeneradas,burocráticas, patriarcais, autoritárias senão ditatoriais. Max Weber, um dos grandes teóricos do poder, deu-lhe uma definição que tomou como referencia seu lado patológico e não seu lado sadio. Para ele, poder é fazer com que o outro faça aquilo que eu quero.
Por que não entender o poder como expressão jurídica da soberania popular, poder compartido e servicial? O ético deste poder consiste em reforçar o poder do outro para que ninguém se sinta sem poder mas participante nas decisões que afetam a todos.
Em tempos de crise como o nosso, convém revisitar outras formas de exercício de poder que nos ajudam a superar o pensamento único acerca do poder. Penso aqui na formas como os Guarani entendiam o poder e seu portador, o chefe da tribo. Sabemos historicamente que os tupi -guarani por volta de 1.100 anos antes da chegada dos europeus constiuiram um vasto império na selva que ia do norte nos contrafortes andinos até as bacias do Paraguai e Paraná ao sul. Não deixavam monumentos mas terras trabalhadas e muitos caminhos, até hoje identificáveis, que ligavam outras tribos para negócios (ver o livro de  Evaristo E.de Miranda, Quando o Amazonas corria pra o Pacífico, Vozes 2007, p.91-94). Portanto, era um formidável império.
Um pesquisador francês Louis Necker nos traz um relato impressionante acerca do tema do poder entre os guaranis (Indios guranies y chamanes franciscanos: las primeras reducciones del Paraguay (1580-1800, Asunción 1990). Permito-me transcrever alguns tópicos ilustrativos de um outro ipo de exercício de poder.
“O chefe não tinha poder de coerção. Seus “súditos” aceitavam sua autoridade e sua preeminência só na medida das contraprestações que recebiam dele. O chefe dirigia os empreendimentos comunais…. Tinha um privilégio: a poligamia. Mas por sua vez tinha obrigações bem precisas cuja não execução podia significar-lhe o abandono de seus súditos: conduzir habilmente a política exterior do grupo, tomar decisões judiciosas em matéria econômica, repartir com justiça entre as familias nucleares os lotes de terreno limpados em mutirão, manter a paz no grupo e muitas vezes ter qualidades de chamã, úteis ao grupo, como o poder de curar ou o controle das forças sobrenaturais. Era muito importante que o chefe fosse eloquente. E sobretudo devia ser generoso. Como o notou   Levi-Strauss, nos povos do tipo dos Guarani,”a generosidade é o atributo essencial do poder. Para conservá-lo o chefe devia sem cessar fazer presentes de bens, de serviços, de festas,..Na selva tropical, este tipo de obrigação pode ser tão pesada que o chefe se via obrigado a trabalhar muito mais que os outros e a renunciar quase a toda posse para si mesmo. É o papel do chefe…dar tudo o que se lhe pedissem: em algumas tribos se pode reconhecer sempre o chefe na pessoa que possui menos que os outros e leva os ornamentos mais miseráveis. O resto se lhe foi em presentes”.
O Cristianismo não escolhe a cultura na qual vai se encarnar. Encarna-se naquela que encontra. Assim fez com a cultura do judaismo da diáspora (judeus que viviam fora da Palestina), com o judaismo palestinense, com a cultura grega da Ásia Menor e com a cultura imperial romana. Desta encarnação nos veio o atual cristianismo com suas positividades e limitações próprias desta cultura. Especialmente a Igreja romano-católica assumiu o estilo de poder, não pregado por Jesus, mas dos Imperadores, poder absoluto e carregado de símbolos que subsistiram nos Papas até o advento do Papa Francisco que se libertou deles renunciando especialmente da famosa “mozetta” aquela capinha nos ombros carregade ouro e prata, símbolo maior do poder do imperador e a vida em palácios. O Papa Francisco seguiu os passos do poverello de Assis e foi morar onde vão se hospedar os bispos e padres que chegam a Roma.
Façamos um exercício de imaginação. Que tal se o cristianismo, ao invés de lançar raízes na cultura mediterrânea grego-latina e depois germânica, tivesse assumido a forma Guarani, nas vastas extensões amazônicas que dominvavam, de exercício de poder?
Então encontraríamos os padres, paupérrimos, os bispos, miseráveis e o papa, um verdadeiro mendigo. Trabalhariam incansavelmente a serviço dos fiéis. Sua marca registrada seria a generosidade sem limites.
E dariam um testemunho espontâneo e profundamente inspirador do sonho de Jesus. Ele pediu semelhante exercídio do poder, como puro serviço: ”sabeis que entre as nações quem tem poder manda e os grandes dominam sobre elas; assim não há de ser entre vós; ao contrario, se alguém de vós quiser ser grande, seja vosso servidor; pois o Filho do Homem não veio para ser sevido mas para servir” (Mc 10, 42 ss).
Que esse ensinamento seja permanente auto-crítica a todo poder, também daquele ecclesiastico, mas principalmente seja inspirador de uma forma não dominadora do poder.
Leonardo Boff é articulista do JBon line, teólogo e escreveu Igreja: carisma e poder, Vozes 1982.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

FRANCISCO E O VALOR HUMANO

por Frei Betto



       Notícias que nos dão a impressão de retrocessos dos valores conquistados pela modernidade: Trump cassa o direito dos pobres à saúde; Marine Le Pen falsifica documento para acusar o adversário Emmanuel Macron de manter contas em paraíso fiscal; terroristas islâmicos atacam acampamento de refugiados; deputado do PSDB assina projeto de lei em prol da neoescravatura do trabalhador rural; a corrupção no Brasil parece não ter fim; bispos denunciam reformas trabalhista e previdenciária como violação de direitos dos trabalhadores etc.

       Talvez a contradição seja inerente à nossa condição humana, o que a Bíblia chama de pecado original. Sempre houve malfeitos. Não havia, porém, meios de comunicação que dessem notícias da aldeia vizinha. Como ainda hoje pouco se divulga o lado positivo da vida.

       Na Igreja primitiva também havia fiéis que prestavam culto a Deus embora se mantivessem insensíveis aos direitos dos excluídos: “Queres honrar o corpo de Cristo? Então não deixes que ele seja alvo de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm roupa para se vestir. Não o honres aqui na igreja com retalhos de seda, enquanto lá fora o deixas padecer de frio e nudez.” (Homilia de São João Crisóstomo [344-407], patriarca de Constantinopla).

       Não é fácil criar uma cultura que induza todo ser humano a encarar o outro como digno de supremo respeito. Na linguagem evangélica, como “morada de Deus” (Carta a Timóteo 3, 15). Não haveria massacres de sem-terras no Mato Grosso, ataque a índios no Maranhão ou a refugiados em São Paulo, fuzilaria nos morros do Rio.

       Onde a causa dessa incivilidade? Na cultura neoliberal que respiramos, na qual os bens valem mais que as pessoas. Merecem valor apenas as pessoas portadoras de bens materiais ou simbólicos (fama, poder, riqueza).

       A essa óptica equivocada reagiu o papa Francisco: “Gostaria de vos contar uma história que aparece no midrash bíblico de um rabino do século XII. Relata a construção da Torre de Babel. Para construir a torre era preciso fazer tijolos: amassar a lama, formatar na palha, pôr as peças no forno. Quando o tijolo estivesse pronto, tinha de ser levado para cima. Um tijolo era um tesouro, tendo em vista todo o trabalho necessário para fabricá-lo. Cada vez que caía um, era uma tragédia, e se punia o operário culpado. Um tijolo era muito precioso. Mas se caísse um operário, era diferente, não acontecia nada.

       É o que acontece hoje: se os investimentos nos bancos diminuem minimamente, eis uma tragédia! Mas se as pessoas morrem de fome, não têm o que comer, não gozam de boa saúde, não faz mal! Eis a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.” (Galleazzi, Giacomo; Tornielli, Andrea. Papa Francisco, esta economia mata. Lisboa, Bertrand Editora, 2016, pp. 24-25).

       Ao receber embaixadores junto à Santa Sé, em 16 de maio de 2013, Francisco sublinhou: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e desapiedada no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano. A crise mundial que atinge as finanças e a economia parece evidenciar as deformidades e, sobretudo, a grave falta de perspectiva antropológica, que reduz o homem a apenas uma das suas exigências: o consumo. E, pior ainda: hoje o próprio ser humano é considerado um bem de consumo descartável.

       Inauguramos esta cultura do desperdício. Nesse contexto, a solidariedade, o tesouro dos pobres, é muitas vezes julgada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e econômica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria diminuem. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, aos quais caberia a responsabilidade de zelar pelo bem comum.”

       A voz do papa clama no deserto? Há que atacar as causas desses efeitos que tanto nos horrorizam.

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.
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