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quinta-feira, 18 de maio de 2017

FRANCISCO E O VALOR HUMANO

por Frei Betto



       Notícias que nos dão a impressão de retrocessos dos valores conquistados pela modernidade: Trump cassa o direito dos pobres à saúde; Marine Le Pen falsifica documento para acusar o adversário Emmanuel Macron de manter contas em paraíso fiscal; terroristas islâmicos atacam acampamento de refugiados; deputado do PSDB assina projeto de lei em prol da neoescravatura do trabalhador rural; a corrupção no Brasil parece não ter fim; bispos denunciam reformas trabalhista e previdenciária como violação de direitos dos trabalhadores etc.

       Talvez a contradição seja inerente à nossa condição humana, o que a Bíblia chama de pecado original. Sempre houve malfeitos. Não havia, porém, meios de comunicação que dessem notícias da aldeia vizinha. Como ainda hoje pouco se divulga o lado positivo da vida.

       Na Igreja primitiva também havia fiéis que prestavam culto a Deus embora se mantivessem insensíveis aos direitos dos excluídos: “Queres honrar o corpo de Cristo? Então não deixes que ele seja alvo de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm roupa para se vestir. Não o honres aqui na igreja com retalhos de seda, enquanto lá fora o deixas padecer de frio e nudez.” (Homilia de São João Crisóstomo [344-407], patriarca de Constantinopla).

       Não é fácil criar uma cultura que induza todo ser humano a encarar o outro como digno de supremo respeito. Na linguagem evangélica, como “morada de Deus” (Carta a Timóteo 3, 15). Não haveria massacres de sem-terras no Mato Grosso, ataque a índios no Maranhão ou a refugiados em São Paulo, fuzilaria nos morros do Rio.

       Onde a causa dessa incivilidade? Na cultura neoliberal que respiramos, na qual os bens valem mais que as pessoas. Merecem valor apenas as pessoas portadoras de bens materiais ou simbólicos (fama, poder, riqueza).

       A essa óptica equivocada reagiu o papa Francisco: “Gostaria de vos contar uma história que aparece no midrash bíblico de um rabino do século XII. Relata a construção da Torre de Babel. Para construir a torre era preciso fazer tijolos: amassar a lama, formatar na palha, pôr as peças no forno. Quando o tijolo estivesse pronto, tinha de ser levado para cima. Um tijolo era um tesouro, tendo em vista todo o trabalho necessário para fabricá-lo. Cada vez que caía um, era uma tragédia, e se punia o operário culpado. Um tijolo era muito precioso. Mas se caísse um operário, era diferente, não acontecia nada.

       É o que acontece hoje: se os investimentos nos bancos diminuem minimamente, eis uma tragédia! Mas se as pessoas morrem de fome, não têm o que comer, não gozam de boa saúde, não faz mal! Eis a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.” (Galleazzi, Giacomo; Tornielli, Andrea. Papa Francisco, esta economia mata. Lisboa, Bertrand Editora, 2016, pp. 24-25).

       Ao receber embaixadores junto à Santa Sé, em 16 de maio de 2013, Francisco sublinhou: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e desapiedada no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano. A crise mundial que atinge as finanças e a economia parece evidenciar as deformidades e, sobretudo, a grave falta de perspectiva antropológica, que reduz o homem a apenas uma das suas exigências: o consumo. E, pior ainda: hoje o próprio ser humano é considerado um bem de consumo descartável.

       Inauguramos esta cultura do desperdício. Nesse contexto, a solidariedade, o tesouro dos pobres, é muitas vezes julgada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e econômica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria diminuem. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, aos quais caberia a responsabilidade de zelar pelo bem comum.”

       A voz do papa clama no deserto? Há que atacar as causas desses efeitos que tanto nos horrorizam.

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

CUIDAR E RESPEITAR O VALOR INTRÍNSECO DE CADA SER


Por Leonardo Boff


A esplêndida encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” insiste  continuamente que cada ser, por menor que seja, possui valor intrínseco e tem algo a nos dizer, ademais de estar sempre interconectado com todos os demais seres. Por isso merece respeito e cuidado de nossa parte.

Estes pensamentos nos remetem ao pensador que melhor no Ocidente pensou o ilimitado respeito a tudo o que existe e vive: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965). Era oriundo da Alsácia. Desde cedo apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach e compositor. Foi grande a minha emoção quando visitei a sua casa e o órgão que tocava em Kaysersberg.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre e no oprimido, resolveu abandonar tudo e estudar medicina. Em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no atual Gabun, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido”.

E continua: “depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”(A. Schweitzer, Wie wir überleben können, 1994 p. 25-26).

Em seu hospital no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles O respeito diante da vida (Ehrfurcht vor dem LebenI edição de 1996).

Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente, com aqueles que mais sofrem.

Ponto de partida para Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa:”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que querem viver”(Wie wir überleben können: 73). À vontade de poder (Wille zur Macht) de Nietzsche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver (Wille zum Leben). E continua :”A ideia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”(op. cit. p. 52 e 73).

Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir todas as formas de vida que se nos apresentam. O Papa em sua encíclica faz uma rigorosa crítica a este antropocentrismo (nn. 115-121). O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).

Numa palavra: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo  que existe e vive” (Wie wir überleben, p. 52 e Was sollen wir tun p. 29).
Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação suscinta afirma :”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”(Was sollen wir tun?.op. cit. p. 26).

Dai derivam comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando cada ouvinte numa homilia conclama: “Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo-poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’. Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas”(Was sollen wir tun, op.cit. p. 55).

A ética do respeito e do cuidado de Albert Schweitzer une inteligência emocional, cordial e inteligência racional, num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas. O maior inimigo desta ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder  de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas.

O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade. E se sentirá pertencendo a um Todo maior, superando a falta de enraizamento e a solidão dos filhos da modernidade.

Leonardo Boff é colunista do JB on line teólogo, filósofo e escritor.