O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador católica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador católica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de março de 2021

JOSÉ COMBLIN: A INSTITUIÇÃO CATÓLICA, TAL QUAL SE APRESENTA HOJE, PODE SER CONSIDERADA ‘APOSTÓLICA’?

  Eduardo Hoornaert


 

O livro, já antigo, de José Comblin, intitulado Échec de l’ Action Catholique? (Fracasso da Ação Católica?), publicado no ano 1961 pelas Éditions Universitaires de Paris, ainda tem algo a nos dizer hoje? Focado numa situação do passado, concretamente na situação da Ação Católica nos anos 1950-60, ainda pode suscitar nosso interesse hoje?

 

Vejamos primeiro os debates suscitados no ambiente da Universidade Católica de Lovaina, onde Joseph acaba de terminar seu curso em Teologia, que focalizam situações vivenciadas pela Ação Católica e pela Igreja Católica em geral, na Europa, sessenta anos atrás. Diversos professores de Comblin participam dos debates, como Philips, Moeller, Dondeyne, Thils, Suenens, Cerfaux, Aubert. Principalmente Gustave Thils (1909-2000), que publica para o grande público e produz uma série de publicações muito lidas e comentadas: Théologie des Réalités terrestres (2 vol. 1946-1949); Christianisme sans Religion? (1968); Syncrétisme ou Catholicité? (1967) [‘Teologia das realidades terrestres’; ‘Cristianismo sem religião?’; ‘Sincretismo ou catolicidade?’]. É principalmente seu livro anterior, Mission du Clergé et du Laicat (‘Missão do Clero e do Laicato’, 1945) que deve ter atraído a atenção do estudante Comblin. Outra referência é Gerard Philips (1899-1972), Professor de Teologia Dogmática, Assistente Eclesiástico Nacional da Ação Católica na Bélgica e, como tal, participante do Congresso Mundial do Apostolado do Laicato, em Roma, 1957. No livro que aqui comento, Comblin o cita seis vezes contra Journet três vezes, Hourdin, Garonne, Congar (Jalons pour une Thélogie du Laicat,Seuil, Paris,1953: ‘Balizas para uma Teologia do Laicato’) duas vezes, Suenens, Rahner, Civardi e Hoyois uma vez. Outros nomes entram no debate: Charles Moeller (1912-1986), o querido Professor Lucien Cerfaux (1883-1968) e, finalmente, o Professor historiador Roger Aubert (1914-2009), cujos enfoques historiográficos marcam a produção teológica de José Comblin ao longo da vida.

O livro que estamos comentando é o primeiro de uma longa lista que Comblin escreve em torno de questões do momento, ou ainda no sentido de assessorar autoridades eclesiásticas. Aqui já descobrimos uma importante opção intelectual de sua parte: dar mais importância à assessoria intelectual em torno de questões do momento que ao ensino regular em seminários ou universidades. Essa opção percorre toda a sua vida. Os dois volumes de sua Théologie de la Paix (1961-1962) foram escritos a pedido do Arcebispo Suenens, de Bruxelas. E, na América Latina, Comblin será mais tarde assessor não oficial de quatro bispos: Helder Camara, José Maria Pires, Manuel Gonzales (Chile) e Leônidas Proaño (Ecuador).

 

&&&&

 

Um sentimento de desconforto.

 

O que nos interessa aqui é saber se essas reflexões em torno da Ação Católica, de sessenta anos atrás, contêm algo que nos interessa hoje. Para tanto, vejamos por uns instantes quais os sentimentos do autor ao decidir comentar um possível ‘fracasso’ da Ação Católica.  

Ao abrir o livro hoje, sentimos que nele vai a comoção, e até desorientação, de um jovem sacerdote que pensou penetrar num mundo de referências seguras, e em pouco tempo constata que esse mundo se desmorona rapidamente.

Quando, em 1950, aos vinte e sete anos, ele é nomeado vigário auxiliar numa paróquia de Bruxelas, ele carrega consigo o entusiasmo de uma geração de jovens sacerdotes que têm como modelo o Padre Joseph Cardijn (1882-1967), fundador da Juventude Operária Católica (JOC), um movimento na época em plena expansão, já divulgado em 60 países. Mas na paróquia não se sente nada disso. Nela reina um sentimento de perda. A assistência à missa diminui aos poucos, as vocações sacerdotais também, os católicos se sentem marginalizados em meio ao progresso das ciências e as vivências de novas liberdades. A paróquia, instrumento principal da pastoral católica ao longo de séculos, não cumpre mais sua função social de formar um ‘povo de Deus’. Crenças secularmente incontestes desmoronam e não há resposta pronta. Desorientação por toda parte (o que escrevo aqui representa a situação em Bruxelas e nas cidades grandes. No interior, a situação é bem diferente). Numa entrevista, concedida em 2008 (três anos antes de sua morte) a um jornal chileno, Comblin rememora esse período de sua vida (a tradução do castelhano é minha) e cava fundo: eu não queria mais assistir a essa lenta decadência da igreja na Europa, sobretudo com a convicção de que esse processo era o resultado de erros gigantescos da hierarquia católica, que nunca entendeu a evolução do continente, porque queria defender seus privilégios da cristandade medieval. Será que a Ação Católica é uma resposta?  

 

&&&&

 

A Ação Católica.  

 

A Ação Católica emerge na igreja católica nos inícios da década de 1920, por iniciativa de sacerdotes decepcionados com o papel exercido pela igreja por ocasião da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Como foi possível que, quando países ditos cristãos partiram para uma guerra fratricida tão cruel, a igreja ficou em silêncio? Como foi possível que a igreja católica na França, por exemplo, deixou de tomar posição no famoso caso Dreyfus? Um militar de alto patente é injustamente condenado por ser judeu, e as autoridades eclesiásticas não reagem. Esse caso, como dizem os historiadores, foi o estopim da convulsão de 1914-1918.

A parte mais consciente do clero, na França e na Bélgica, pondera: é preciso salvaguardar a juventude católica de tais aventuras perigosas. Efetivamente, a Ação Católica consegue preservar grandes segmentos da juventude católica da ‘contaminação’ por ideias que passam por ‘modernas’, mas na realidade são perigosas. Trata-se de jovens que estão sob o controle da igreja católica. Nesse sentido se pode dizer que a Ação Católica perpetua e atualiza o trabalho tradicional da paróquia, no sentido de preservar, proteger, afastar influências consideradas nefastas, dinamizar energias positivas.

Quando, na mesma década de 1920, a paróquia entra em declínio, as esperanças se voltam para a Ação Católica. Nas cidades grandes, como Paris, Marseille, Bordeaux, Lille, Bruxelas, etc. a assistência à missa e aos sacramentos vai diminuindo gradativamente. O catolicismo ainda resiste no mundo rural, mas, nas cidades, o declínio é patente. O Professor Gerard Philips, mencionado acima, escreve: verifica-se um êxodo de fiéis nas cidades e um refúgio do catolicismo no mundo rural.

No final do decênio, em 1929, o Papa Pio XI também volta sua atenção para o fenômeno da perda de fieis e vê igualmente a salvação do catolicismo na Ação Católica. Ele dá a entender que ela teria capacidade de reconquistar a cultura ocidental ao catolicismo.  Ou, dito em outros termos: ele atribui à Ação Católica uma capacidade ‘apostólica’. É o que se entende pela expressão ‘Apostolado Leigo’. O papa insiste: ‘que a Ação Católica venha socorrer o clero na missão apostólica’.

No livro em apreço, Comblin dá a entender - sempre em termos velados - que o apelo do papa é baseado numa pressuposição. É uma constatação extremamente grave que implica em afirmar que o catolicismo tenha perdido a apostolicidade dos apóstolos de Jesus no transcurso da história. Que não consegue mais ‘evangelizar’, pois não adianta falar em ‘apostolado’ num sentido que não corresponde ao que se lê nos evangelhos. Enraizada numa longa história de ritos, regulamentos, dogmas, comportamentos morais e tradições transmitidas de geração em geração, a igreja católica não tem nada a oferecer a quem está caminho de abandonar tais ritos, regulamentos, moral e costumes. Enquanto os sacerdotes ainda podem camuflar essa penosa questão entendendo por ‘evangelizar’ a execução de ritos sacramentais, a celebração de missas, a reunião do povo em torno da igreja paroquial, os leigos demonstram à clara luz do dia essa incapacidade de evangelizar. Eles mesmos não sabem mais o que é o evangelho. Confundem entre evangelho e ritualismo, moralismo, preservação da família e das tradições, sabedoria de séculos.

A Ação Católica, enquanto exerce bem seu papel de educadora da juventude católica, não consegue corresponder ao que o papa dela espera. Ela não penetra naqueles segmentos da sociedade que não se declaram mais ‘afiliados’ a alguma instituição religiosa (e que, de modo não tão exato, costumam ser chamados de ‘sem religião’).

Observo aqui que esses segmentos, desde as análises de observadores como Joseph Comblin, não deixaram de crescer.  Em 1929 ainda podiam ser ignorados. Mas hoje, em 2021, os ‘no affiliated’ a alguma religião já são um quarto da população dos Estados Unidos (veja os números do Pew Center na Internet). A situação na Europa não deve ser muito diferente. Na América Latina, os ‘sem filiação religiosa’ já passam dos 10 %.  É o segmento que mais cresce, nas estatísticas sobre o item ‘religião’.

Em 1929, o Papa não viu, ou não quis ver, que a igreja católica não tinha condições de enfrentar a modernidade, ou seja, a visão do mundo que se estava de desenvolvendo – lenta e persistentemente – após os erros gigantescos, cometidos pela hierarquia na Idade Média, como declara Comblin na entrevista acima citada. A impressão é que o Papa Pio XI estava longe de perceber a fragilidade e provisoriedade da igreja católica, assim como de qualquer institucionalização do espírito cristão, seja ela a Ação Católica ou qualquer outra iniciativa. No momento em que ele pensou conferir à Ação Católica uma missão ‘apostólica’, que seria a de re-evangelizar segmentos significativos de uma população europeia em processo de afastamento da fé tradicional (um processo que na época se chamava ‘secularização’), ele falhou em sua análise da realidade. A impressão que se tem é que o Papa Pio XI, por ‘apostolado’, entendia o cuidado com o povo cristão, a proteção desse povo diante de perigos ‘de fora’, não a conquista do mundo segundo os ordenamentos de Jesus de Nazaré. Preservação de segmentos conservados contra o comunismo e o socialismo. Por exemplo: uma peregrinação de Jocistas a Roma só é recebida pelo Papa despois de este certificar que a JOC não é ‘socialista’.

A ineficácia da palavra do Papa Pio XI ainda se verificou mais tarde, e de modo traumático. Numa mensagem dirigida aos bispos alemães em 1937 sob as palavras Mit brennender Sorge (‘com grande preocupação’), o papa escreveu com insistência: ‘guardem distância do nazismo’. Palavras que se dissiparam no vento. Os bispos não fizeram nada. Foi preciso que, bem mais tarde, um teólogo como Metz apontasse o terrível campo de concentração de Auschwitz, onde milhares e milhares de judeus foram cremados vivos, para que a igreja alemã alertasse para o abismo em que caíra.

O apelo do papa patenteia uma realidade dura, difícil de ser aceita em meios católicos: não dá como enfrentar o mundo moderno sem rever métodos secularmente usados para congregar o povo. Lutar contra as ‘liberdades modernas’ ou contra ‘o progresso das ciências’ é perder tempo.

 

&&&&

 

A instituição católica, tal qual se apresenta hoje, pode ser considerada ‘apostólica’?

 

O jovem teólogo Comblin vai mais longe que seu Mestre Philips na análise da situação em que a instituição católica se encontra. Quando esse último, na página 82 do livro em apreço, constata que muitos leigos se declaram incapazes de sustentar com não-católicos um contato realmente produtivo, Comblin comenta: isso revela a fraqueza de alma dos cristãos. Se, no fundo de si mesmos, os cristãos não têm uma tensão espiritual, o apostolado é impossível (ibidem).

Essas palavras fazem pensar: fraqueza de alma dos cristãos; falta de tensão espiritual; e, no texto citado mais acima, erros gigantescos cometidos pela hierarquia católica no passado.

No passado, a igreja era especialista em pregar ‘ideias sábias’, preceitos de uma sabedoria transmitida de geração em geração: respeito às autoridades, obediência a regras religiosas e morais, preservação da família e das boas tradições. Isso foi a tarefa da igreja durante séculos e nisso reside, exatamente, a confusão. Pois o evangelho não é uma sabedoria transmitida de geração em geração, é a subversão dessa sabedoria milenar. É outra coisa. Como expressa Paulo em sua prosa inconfundível, no corpo místico de Cristo não vigora a hierarquia ‘da boa tradição’, mas uma hierarquia invertida: o fraco no centro, o forte a serviço do fraco. Ou, como diz o próprio Jesus em Lucas 14, 26, de modo extremamente incisivo: se quisermos seguir a ele, temos de aprender a ‘odiar’ os que amamos (os parentes): se alguém se aproxima de mim e não odeia (o verbo grego ‘miseô’ significa ‘odiar, rejeitar, negar’) seu próprio pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs e até a si mesmo, ele não pode ser meu discípulo.  Não se trata aqui de um ‘ódio’ por desavença ou desentendimento, mas por entendimento de um nível diferente de relacionamento com os demais e consigo mesmo, como demonstra a inclusão das palavras: (odiar) até a si mesmo. Uma verdadeira subversão dos valores, uma ‘Umwertung aller Werte’, como escreveu Nietzsche. Eis o cristianismo de Jesus, desconhecido por quem pensa que o cristão precisa se integrar na sociedade existente, obedecendo, respeitando, seguindo as regras de uma convivência harmoniosa.

Jesus usa outras expressões igualmente fortes para expressar o que ele vem fazer, como a exigência de enxergar o bem numa pessoa que não aparenta nada de bem, perdoar setenta vezes sete vezes, andar na companhia de exploradores do povo (publicanos) e de mulheres da vida. Isso não tem nada de ‘sabedoria ancestral’. É, como escreve Comblin, tensão espiritual, superação de uma fraqueza de alma.

Curvado sob o peso de tradições seculares, a igreja católica tem dificuldade em captar a novidade do evangelho. Seu passado pesa muito no presente. A maioria dos cristãos não entende que o evangelho postula uma rejeição da sabedoria tradicional que recomenda obediência, seguimento das leis, respeito pelas autoridades, bom comportamento. Que o evangelho é uma ‘boa nova’ subversiva, o seguimento de um Jesus subversivo. Para a maioria dos fieis, Jesus não constitui mais nenhum desafio. Foi ‘amansado’, integrado na cultura.  Não é mais novidade, não tem mais nada a dizer, fica enquadrado em dogmas, doutrinas e ritos, aparecendo nas imagens de um Jesus Cristo ‘humilde e doce de coração’, de um ‘Coração de Jesus’, integrado na boa família, educador de boas maneiras. Jesus revolucionário? Nem pensar.

Ao apontar erros gigantescos cometidos pela hierarquia, principalmente ao longo da Idade Média, Comblin alude ao fato que, naquele período, se formou um ‘povo de Deus’ por meio de uma hegemonia política, cultural e religiosa. Não por meio do apostolado, no sentido evangélico.  

A mutação do sentido atribuído ao termo apostolado foi uma evolução de séculos, e hoje ficamos perplexos, pois nos damos conta que resgatar o sentido original do apostolado é coisa muito difícil hoje, como o livro em apreço deixa entender a cada página. Mudar de postura psicológica, convencer-se que é preciso mudar de mentalidade e abandonar o complexo de superioridade de quem se sente herdeiro de um glorioso passado. Não se vira página de séculos de triunfalismo católico por sem esforços continuados. Um passado tão glorioso como o do catolicismo, se nao for redimido pelo espírito genuino do cristianismo, ameaça voltar com redobrado vigor, como alertam não poucos observadores. Como reza o ditado: ´Quem desconhece o passado é condenado a repeti-lo‘. Ou ainda: ´O passado vive em nós‘.Estamos tão acostumados a ver a igreja no centro, o bispo com mitra na cabeça e o padre com microfone na mão, que perdemos o senso do que seja ´apostolado leigo‘.

 

Para concluir: podemos dizer que o livro Fracassou a Ação Católica chega a uma conclusão que combina perfeitamente com o dito de Chesterton: o cristianismo não falhou: ainda não foi tentado.

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O DESRESPEITO À VIDA HUMANA POR MEMBROS DA IGREJA CATÓLICA ROMANA



Por Ivone Gebara

Se a Igreja Católica Romana continuar a educar os seus fiéis através de comportamentos de choque tais como os que estão acontecendo no Rio de Janeiro em relação ao aborto, estará incentivando a franca decadência dos costumes e a violência cultural.

Já imaginaram que daqui a pouco poderemos ter estátuas de pedófilos, e talvez alguns deles vestidos de batina expressando gestos de sexo explícito com crianças. Alguém de bom senso seria capaz de pensar que essas eventuais obras de plástico, fabricadas em série, expostas nos altares ou apresentadas no rito penitencial educariam os membros da Igreja e outros a não usar as crianças para suas fantasias sexuais? Ou talvez, poderiam apresentar slides com cenas de violência doméstica focalizando nas figuras masculinas que têm mutilado centenas de mulheres anualmente no Brasil. Poderiam até carregar nas cores e focalizar especialmente as cenas de sangue derramado. Acreditariam acaso estar educando os fiéis a combater a violência contra as mulheres?

A imaginação não me falta para tentar apresentar as mais diversas cenas, analogias e associações em relação ao caso atual dos embriões, aliás, de falso tamanho, expostos nos altares de algumas igrejas do Rio de Janeiro.

Sinto tristeza e vergonha que tenhamos chegado a este ponto. Sinto tristeza e vergonha dos comportamentos retrógrados da maior parte da hierarquia católica romana que não compreendeu os gestos de vida de Jesus de Nazaré e não aprendeu dos efeitos negativos dos comportamentos fascistas e ditatoriais que a Igreja teve ao longo de sua história em relação à ciência, às diferentes culturas e às mulheres. Sinto tristeza e vergonha da insensibilidade com que se trata um problema de saúde pública e da maneira como se usam os textos bíblicos descontextualizados para justificar posturas de um grupo como se fossem posturas da Igreja.

Como entender que o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, D. Antonio Augusto Dias Duarte afirme que a imagem do feto é singela e que a Igreja tem o direito de conscientizar a população? Por que não apresenta então os retratos das milhares de mulheres que morreram por abortos mal feitos. As imagens das mulheres mortas seriam menos singelas? Seriam impuras? Seriam acaso menos conscientizadoras?

Justificar estas ações de violência cultural, acobertadas pelo lema da Campanha da Fraternidade “Escolhe, pois a Vida” é ambíguo, contraditório e até certo ponto de má fé. Supõe que a hierarquia toda poderosa da Igreja, sem acolher um consenso mínimo entre a diversidade dos fiéis, visto que não acolhe as várias pesquisas de opinião pública e nem as reflexões de muitas mulheres, é capaz de afirmar o que é o melhor para as vidas humanas. Usa de sua autoridade e privilégio para fazer valer suas posições em desrespeito a um pluralismo real, necessário e salutar. Acredita com isso defender a vida sem pensar que a vida em geral não se defende de forma geral. Cada um de nós escolhe as vidas que vai defender de forma prioritária e as formas de defendê-las. Cada um de nós tem que arcar com a dose de contradição inerente a qualquer escolha. A instituição eclesiástica não foge à regra e, portanto está faz a mesma coisa. Fica claro quem defende em primeiro lugar. Por isso, vale a pergunta: por que o embrião e não a mulher? Não estaríamos ainda vivendo no mundo dos princípios abstratos, dos mitos de pureza sem conexão com a vida real? Estas e muitas outras perguntas são convites ao pensamento diante dos problemas reais de nosso tempo.

Como a Igreja hierárquica sempre fez e continua fazendo quando seus fiéis se desviam das normas que estabeleceu, creio que, o mínimo que se poderia esperar, é que não só o bispo D. Antonio Augusto, mas também, os padres e conselhos paroquiais que acolheram sua diretiva sejam considerados cúmplices do mesmo crime de violência cultural e de desrespeito simbólico aos corpos humanos. O mínimo que a presidência da CNBB deveria fazer é alertá-los e instá-los a retirar imediatamente de suas Igrejas os embriões de plástico. Além disso, se possível, convidá-los a pedir perdão publicamente por esse ato de terrorismo religioso, especialmente contra as mulheres e as crianças.

No caso dos embriões de plástico expostos nas igrejas do Rio não se trata de respeito às opiniões da Igreja ou à autonomia de cada diocese. Dar e respeitar opiniões inclui um limite ético. Estas ações vão além desses limites. A Igreja sempre usou do direito de opinar sobre várias questões sociais e, sobretudo ultimamente. Nesse caso particular como em outros semelhantes, que têm acontecido, trata-se de uma usurpação de poder, trata-se de uma instrumentalização das consciências, trata-se de uma violência praticada, sobretudo num momento em que os fiéis se reúnem para uma celebração da memória da vida de Jesus de Nazaré. Mais uma vez o desejo de poder, de influir nas decisões do Estado, de acreditar que seus princípios e suas propostas são as melhores para a vida em sociedade fortalece uma visão retrógrada do cristianismo e uma visão contraria ao pluralismo social. Além disso, distancia a Igreja Católica Romana de um possível discipulado entre iguais e da urgência de diálogo a partir das dores concretas de corpos concretos.

O que está acontecendo é vergonhoso e totalmente ilegítimo. AGUARDAMOS MEDIDAS DAS AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS assim como uma reação mais contundente dos FIÉIS e dos movimentos sociais. Não podemos mais aceitar que a ignorância disfarçada em fé, o autoritarismo disfarçado em serviço e a intransigência obscurantista disfarçada em educação conscientizadora tenham a última palavra nas comunidades cristãs. Em vez de usar a expressão “Escolhe, pois a vida” como álibi para manter sua luta contra o aborto terapêutico, poderiam simplesmente convidar os fiéis a respeitar as escolhas diferentes ajudando-os na construção de relações para além dos dogmatismos e sectarismos religiosos.
*Publicado na Adital – Agência Frei Tito para América Latina (http://www.adital.com.br) em 18 de março de 2008.

Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.


quinta-feira, 22 de março de 2018

TELEFONEMA DO PAPA A FAMÍLIA DE MARIELLE NÃO TEVE INFLUÊNCIA DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL


 
Frei Betto

        Na missa de sétimo dia por Marielle Franco, dia 20, celebrada na igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio, Dona Marinete da Silva, mãe da vereadora assassinada, revelou que a família recebeu telefonema do papa Francisco manifestando solidariedade e afeto. Marielle participou da Pastoral de Juventude e sua mãe, devota de Nossa Senhora Aparecida, foi ministra da Eucaristia na Maré.
        A Igreja Católica no Brasil não teve nenhuma influência no gesto de compaixão do papa Francisco. Luyara, filha de Marielle, escreveu ao pontífice dois dias após o assassinato da mãe, e fez a carta chegar às mãos dele por meio do professor argentino Gustavo Vera, amigo de Francisco e presidente da Fundación Alameda, dedicada ao combate do tráfico de pessoas. Participou da articulação Lucas Schaerer, do Partido do Bem Comum, assessor de comunicação da fundação.
        A atitude de Francisco se contrapõe ao silêncio da direção da CNBB e a ausência de autoridades católicas em manifestações e cultos em homenagem à vereadora. A única nota de protesto ao assassinato e à violência veio do Regional Leste 1 da CNBB e, assim mesmo, assinada pela “assessoria de imprensa”.
        Alguns católicos manifestaram nas redes digitais indignação pela nota do Regional, enfatizando que Marielle defendia o direito ao aborto, à união homoafetiva e era mãe solteira. Em 2015, o papa Francisco foi enfático: “Não existe mãe solteira, pois mãe não é estado civil.”
        A tímida reação de autoridades católicas do Brasil frente ao brutal assassinato de Marielle e Anderson contrasta com a história da CNBB durante a ditadura militar, quando reagiu publicamente em defesa dos direitos de comunistas e ateus perseguidos, exilados, presos ou assassinados. Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, tomou a si a defesa de Vladimir Herzog, judeu e comunista, a ponto de celebrar missa em memória dele na catedral da Sé. Interpelado por que o fazia, respondeu: “Jesus também era judeu.”
        Jesus jamais discriminou pessoas que divergiam dele ou viviam em contraposição aos valores que ele propagava. Acolheu o centurião romano, defendeu a mulher adúltera, louvou o gesto afetuoso da prostituta que lhe perfumou os pés, aceitou jantar na casa do opressor Zaqueu.
        E ensinou que toda pessoa, não importa o que faz ou como pensa, é templo vivo do Espírito de Deus.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.

Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

​UMA NOVA PRIMAVERA NA IGREJA




 A Igreja Católica Romana, com certeza, recebeu um sopro generoso do Espírito Santo ao ser presenteada com a eleição do papa Francisco. Desde que assumiu o papado ele tem se mostrado um verdadeiro pastor, que olha por sua ovelhas, escuta os seus problemas, as suas dores e tenta minimizá-las da melhor forma possível.

Abraço acolhedor, sorriso largo e muito amor no coração, Francisco vem renovando o ar no vaticano, resgatando a verdadeira missão da Igreja que é cuidar de suas ovelhas.

Francisco trouxe uma nova primavera para uma Igreja que estava tão ultrapassada e presa em seus conceitos arcaicos que foi se afastando, pouco a pouco dos Evangelhos, deixando de lado o fundamental: o amor ao próximo, seja ele de que religião, país, cor, opção política ou gênero  for.

E, sob os novos ares soprados por essa nova primavera, será realizado o evento: UMA NOVA PRIMAVERA NA IGREJA, promovido pelos grupos ENCONTRO DA PARTILHA e FÉ E POLITICA DOM HELDER CAMARA, com o apoio do Instituto Humanitas, da UNICAP.

O evento acontecerá nos dias 13 e 14 de outubro, sempre às 19h, nos auditórios da Unicap.

No dia 13, Leonardo Boff falará sobre Compaixão, espiritualidade e cuidado, no auditório G2.

No dia 14 será a vez do Painel: Religiões Afro: diálogo e Raízes, com a participação de Marcelo Barros, OSB e Vera Baroni.

A entrada é franca e não há necessidade de fazer inscrição. Os grupos organizadores pedem para quem puder leve leite em pó, massa para mingau e roupinhas para crianças de 1 a 4 anos, que serão entregue à comunidade de Dois Unidos, em colaboração aos trabalhos sociais ali realizados.







quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O NASCIMENTO DA IGREJA CATÓLICA LATINO-AMERICANA


Por Eduardo Hoornaert



O nascimento da Igreja Católica Latino-americana tem local, data e identidade própria: Medellin (Colômbia), 1968, ‘opção pelos pobres’. Escrevo ‘nascimento’, pois, antes de 1968, as rédeas da Igreja latino-americana não estavam nas mãos de pessoas que aqui viviam, mas basicamente de europeus, que teleguiavam os destinos dos latino-americanos. Mas na segunda Conferência Geral dos bispos do subcontinente, acontecida na cidade de Medellin em 1968, verifica-se uma autonomia que nunca se manifestara antes.

Isso tem muito a ver com o Concílio Vaticano II, celebrado em Roma entre os anos 1962 e 1965, e que tornou as conferências episcopais nacionais ou regionais, por todo o mundo, mais independentes. Mesmo assim, a dinâmica que resultou no nascimento da Igreja Latino-americana deve ser procurada num acontecimento ocorrido em Roma, quinze dias antes da abertura do Concílio Vaticano II. 

Numa emissão radiofônica, no dia 11/09/1962, o Papa João XXIII pronuncia a seguinte frase: ‘a igreja é de todos, mas é antes de tudo uma igreja de pobres’.  Essa afirmação, feita sem alarde e como de passagem, constitui a primeira tomada de posição oficial da Igreja hierárquica diante da pobreza em longos séculos. Ao longo da tradição cristã houve, decerto, repetidos casos em que cristãos se comprometiam com os pobres, como São Martinho, São Francisco, São Vicente de Paulo e muitos outros. Mas a Igreja oficial não costumava se posicionar formalmente em relação à pobreza. Ela mantinha silêncio e é por isso que as palavras de João XXIII são tão importantes, pois elas trazem de volta, à consciência eclesial, a fala de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 18-19):

Um Sopro do Senhor está sobre mim:
Por ele fui escolhido para anunciar uma boa nova aos pobres
Enviado por ele, declaro aos prisioneiros sua libertação
Aos cegos a recuperação da visão
Aos oprimidos o perdão.
Venho declarar publicamente um ano de favor do Senhor.

As palavras do Papa João não causaram um grande impacto sobre os trabalhos do Concílio Vaticano II. Isso se deve ao fato que os 1.500 bispos que veem a Roma para participar do Concílio, não encaravam a pobreza como questão, mas como uma realidade. Realidade, sem dúvida triste, mas inevitável, já que faz parte da história humana. Assim, as palavras do papa dão origem, dentro do Concílio, a uma movimentação discreta, que passa despercebida pela maioria dos bispos participantes. Mesmo assim, algo se mexe, e nessa discreta movimentação se percebem os germes da Igreja Latino-americana, tal qual se manifesta em Medellin.

- Primeiro episódio: um bispo melquita (das igrejas orientais), ao ser convidado ao Concílio, traz consigo ao Concílio o Padre francês Paul Gauthier e a freira carmelita Marie-Thérèse Lescase. Ambos são da Fraternidade Companheiros de Jesus Carpinteiro e trabalham como operários em Nazaré, em meio a árabes. Eles começam a organizar reuniões no apartamento alugado de Gauthier em Roma, e mais tarde no Colégio Belga em Roma. Cardeal Gerlier e Cardeal Lercaro mostram interesse, assim como Dom Helder Câmara, na época bispo auxiliar do Rio de Janeiro. É o ‘grupo dos pobres’, que se reúne regularmente ao longo de toda a duração do Concílio.

- Segundo episódio: o Cardeal Lercaro faz um discurso na Assembleia de 1.500 bispos e declara que o tema da pobreza teria de ser o ‘único tema do Concílio’. É profusamente aplaudido, mas não se percebe seguimento. Não se fala mais em pobreza na Aula Conciliar. A maioria continua pensando em reforma litúrgica, ecumenismo, modelo de igreja, dogma, luta ao comunismo, medo da secularização, luta contra o comunismo etc. Entre os Padres Conciliares, o bloco central, na Grande Basílica, não mostra maior interesse pelo tema da pobreza.

- Terceiro episódio, o mais importante: duas semanas antes da clausura do Concílio, no dia 16/11/1965, aproximadamente 40 bispos, convidados pelo ‘grupo dos pobres’, se reúnem na Catacumba de Santa Domitila e participam de uma missa celebrada pelo bispo belga Himmer. Depois assinam um documento, chamado Pacto das Catacumbas, em que se comprometem a viver de modo pobre. São 42 assinaturas, aproximadamente 15 latino-americanas.

Como escrevi acima, o tema da pobreza não encontra muita ressonância entre os bispos da Europa e da América do Norte que retornam às suas dioceses depois do Concílio, Mas na América Latina, algo diferente acontece. Há um grupo de bispos que colocam em prática o que prometeram no Pacto das Catacumbas, em 1965. Uns exemplos: em Recife, Dom Helder troca o Palácio dos Manguinhos pela sacristia da Igreja das Fronteiras; em São Paulo, Dom Paulo Evaristo vende o Palácio Pio XII e constrói centros comunitários com a renda da venda; em Crateús, Dom Fragoso deixa o ‘palácio’ (que já não é grande coisa) por uma casa na periferia da cidade; em João Pessoa, Dom José Maria Pires vai morar numa casinha perto do Convento histórico dos franciscanos; etc. Há bispos que fazem minirreformas agrárias em terras de suas dioceses, como Dom Tiago Cloin, Dom Delgado e Dom Helder. Outros doam prédios ou intervêm em ações militares contra camponeses. Que se mencione aqui o martírio do bispo argentino Angelelli que, após uma intervenção numa expulsão de camponeses em La Rioja, é morto numa emboscada planejada por militares.

É desse modo que o tema da pobreza ocupa chama a atenção dos participantes da Conferência Geral dos bispos latino-americanos reunida em Medellin, Colômbia, em 1968. É acolhido com entusiasmo e é desse entusiasmo original que nasce a Igreja Latino-americana, que é a única, no universo católico, a assumir oficialmente o tema da pobreza levantado pelo Papa João, como se evidencia em declarações de princípio reafirmadas ao longo de quatro sucessivas Conferências Gerais do Episcopado latino-americano: Medellín 1968; Puebla 1979; Santo Domingo 1992; Aparecida 2007. Para não cair aqui numa euforia ‘triunfalista’, é preciso dizer que a formulação ‘opção pelo pobre’, incondicional em Medellin 1968, fica ‘amansada’ com o tempo, o que mostra resistência, muitas vezes passiva, por parte da maioria. Passa-se de ‘opção pelos pobres’ para ‘opção preferencial pelos pobres’ (em Puebla) e ‘opção não exclusiva nem excludente’ (em Aparecida).

 Aqui se verifica uma conquista definitiva: o lema ‘opção pelos pobres’, expresso em Medellin, não é uma palavra retórica vazia, como se verifica no surgimento de uma geração excepcional de bispos, que podem ser chamados de ‘Padres da Igreja Latino-americana’. Uma geração tão excepcional, segundo o teólogo José Comblin, só aparece de mil em mil anos na história da Igreja: Mons. Proaño no Ecuador (o bispo dos indígenas andinos), Mons. Larrain no Chile (o bispo da nova reforma), Mons. Mendez Arceo em Cuernava, no México (o bispo da Missa Panamericana), Mons. Samuel Ruiz em Chiapas, no México, (que fala seis línguas indígenas de Chiapas), Mons. Romero em El Salvador (o bispo do ‘não matarás’), Mons. 

Girardi em Guatemala, os bispos Helder Câmara, Valdir Calheiros, Antônio Fragoso, Pedro Casaldáliga, José Maria Pires, além dos Cardeais Aloísio Lorscheider e Paulo Evaristo Arns, todos no Brasil. São bispos que simbolizam uma guinada histórica da Igreja católica universal. Estamos acostumados a chamar os intelectuais do primeiro milênio da tradição de Jesus de ‘Padres da Igreja’. A Igreja Católica Latino-americana dispõe hoje de uma Patrologia que pode ser comparada à clássica Patrologia, representada por Atanásio, Basílio, Gregório, Crisóstomo, Agostinho, Jerônimo, Ambrósio, Dámaso e Hilário. Hoje, na América Latina,  dispomos de textos de Romero (El Salvador), Proaño (Ecuador), Angelelli (Argentina), Samuel Ruiz (Chiapas, México), Mendez Arceo (Cuernavaca, México), Câmara (Recife), Larrain (Chile), Girardi (Guatemala), Valdir Calheiros (Volta Redonda), José Maria Pires (João Pessoa), Casaldáliga (Conceição do Araguaia), Fragoso (Crateús), Lorscheider (Fortaleza), Arns (São Paulo), Krautler (Xingu), Balduíno (Goiás Velho). Todos nos deixaram textos, longos ou curtos que merecem ser lidos, publicados e estudados a fundo, com a mesma aplicação e o mesmo respeito com que lemos a antiga Patrologia.

O documento mais importante dessa Patrologia latino-americana é constituído pelas 2.110 Cartas Circulares de Helder Câmara escritas entre 1962 e 1976. Dessas Cartas Circulares, até agora (2016), foram publicadas 13 Tomos, desde a primeira, redigida na noite entre 12 e 13 de outubro de 1962. A última, publicada até hoje, data da noite entre 24 e 25 de janeiro de 1970. O bispo redigiu essas cartas na vigília noturna que ele manteve desde os tempos de sua ordenação, entre aproximadamente uma hora da madrugada até duas horas ou mais. Prevê-se para os próximos anos a publicação completa (com mais quatro ou cinco tomos, completando uma coleção de aproximadamente 18 Tomos). Apresento aqui uma leitura superficial das primeiras Cartas, em que o tema da pobreza aparece em alto relevo.

A primeira Carta, que conta a abertura do Concílio Vaticano II (12-13/10/1962), se inicia com uma frase enigmática: ‘O Concílio vai ser dificílimo’. Por que? Só na nona Carta (21/10) se encontra uma explicação: os bispos em Roma não aprofundam o tema da pobreza no mundo. Enquanto Dom Helder sente desalento ao observar como os bispos andam preocupados com a liturgia, a disciplina eclesiástica, o comunismo, o secularismo, o ateísmo, os seminários, o ecumenismo, a organização das dioceses, etc. ele sente certo alento quando verifica que, mesmo assim, um texto circula entre os bispos. São as ‘Réflexions nazaréennes pour le Concile’, da autoria do já mencionado Padre Paul Gauthier. De qualquer modo, o tema da pobreza aparece em Roma, pensa Helder Câmara. Na Carta 12, de 24/10, ele escreve que está procurando pessoas que possam levar adiante a questão da pobreza na Aula Conciliar. Mas as pessoas que ele consegue contatar, como o Cardeal Suenens, o Cardeal Lercaro, o Padre Congar, o Padre Houtart, alegam a dificuldade em fazer entrar em pauta oficial esse tema, já que os bispos, em geral, pensam em outros assuntos. Em seu desalento, o ‘bispinho’ Helder recorre a Monsior Francisco (em todas as suas cartas, Helder se refere a São Francisco por meio do nome ‘Monsior’). É com Monsior que ele ‘sonha em ver a Igreja enfrentar a luta pelos humildes e pobres’ (ibidem).

Penso que existe aí um desafio hoje, 17 anos após a morte de Helder Câmara. As Cartas Circulares estão aí, para serem atenta e minuciosamente lidas, pois contêm sugestões importantes e atuais, para a Igreja na América Latina. Essas Cartas estão sendo publicadas pela Editora do Estado de Pernambuco (CEPE). Veja: Câmara, H., Circulares conciliares, Volume I, Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2009, 3 tomos; Volume II, Circulares interconciliares, CEPE, Recife, 2009, 3 tomos; Volume III, Circulares pós-conciliares, CEPE, Recife, 2011, 3 tomos; volume IV, CEPE,
Recife, 2014, 4 tomos (em total, são 13 tomos publicados até hoje). 

O nascimento da Igreja Latino-americana traz consigo alguns questionamentos, entre os quais destaco, em textos separados, três:
- questionamentos em torno da pobreza;
- questionamentos em torno do ritualismo;

- questionamentos em torno do sacerdócio.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

A FORMAÇÃO HISTÓRICA DA IGREJA CATÓLICA EM TRÊS FLASHES: OS ANOS 150, 325 E 420


Por Eduardo Hoornaert







1. O ano 150: palavras que não entendemos mais.

Há como descobrir traços da atual igreja católica, como instituição, na história dos três primeiros séculos do movimento de Jesus? Os que tentaram descobrir esses traços têm de reconhecer: os documentos disponíveis não respondem às nossas perguntas. As palavras não colam. Isso se deve ao fato que fazemos perguntas a partir de uma igreja enorme, de mais de um bilhão de adeptos, e os documentos não respondem. Por volta do ano 150, quando emerge uma literatura cristã com certa envergadura, autores como Justino, Atenágoras, Barnabé e o autor anônimo da carta a Diogneto não respondem aos questionamentos de hoje. Eles não falam em ‘religião’, por exemplo. Na carta de Tiago se lê: ‘o culto puro e sem mácula consiste em assistir a órfãos e viúvas em suas dificuldades e guardar-se livre da corrupção do mundo’ (1, 26). Ele não usa o termo ‘religião’, mas fala em culto, o que significa dedicação, empenho. O Novo Testamento não tem um vocábulo equivalente ao termo latino ‘religio’, que provém do universo imperial romano. Em vez de falar em religião, os primeiros autores recorrem a termos como ‘caminho’, ‘modo de vida’, ‘escola’, ‘seguimento’, vida ‘fora da cidade’ ou ‘fora das portas’ (na Carta aos Hebreus).  Para os observadores de fora, os cristãos são ‘ateus’, ou seja, não participam de cultos programados pela administração do império. Outro exemplo: os termos ‘paróquia’ e ‘papa’ não têm, em 150, o sentido que lhes é atribuído hoje.  

Enfim, não encontramos a igreja católica de hoje nos escritos dos três primeiros séculos. A imagem de uma árvore genealógica’ do cristianismo, com um tronco original do qual derivariam as diversas confissões cristãs de hoje, não corresponde ao que os documentos dos três primeiros séculos nos informam. O que existe é a multiplicidades de comunidades que formulam projetos locais provisórios, passageiros e incompletos, inspirados no evangelho de Jesus. Não se enxerga, nos documentos dos primeiros séculos, uma linha de continuidade entre o projeto de Jesus e a igreja bizantina (ortodoxa) e, depois, católica, ou ainda protestante, etc. Pelo simples fato que Jesus não fundou uma instituição religiosa, mas lutou para renovar a fundo a instituição herdada de Moisés.

Além disso e mais fundamentalmente, desde o início ficou claro que não é fácil compreender o projeto de Jesus (Veja: Moingt, J., Deus que vem ao homem, I: do luto à revelação de Deus, Loyola, São Paulo 2010, 348-363). O Evangelho de Marcos mostra em diversos episódios que os apóstolos dificilmente compreendem Jesus. Marcião, o melhor teólogo do século II, confirma o que já está em Marcos: muitos seguidores de Jesus não entendem seu projeto.

2. O ano 325: a sedução da corte.

O ano 325 pode ser considerado a data de fundação da igreja católica. Nesse ano, bispos cristãos, que representam um movimento ainda muito recentemente perseguido pela administração romana, são acolhidos em 325, com todas as honrarias, na própria Residência de Verão do Imperador Constantino em Niceia, perto da nova metrópole Constantinopla, que está em plena construção. Constantino sabe o que faz quando recebe esses bispos, pessoas rudes do interior, com tantas honrarias. O que ele tem na cabeça? Ao que tudo indica, Constantino percebe que a política de seu predecessor Diocleciano, que perseguia implacavelmente os cristãos, tem de ser interrompida. Ele observa com apreensão o surgimento, em muitos setores da administração, um de um retrocesso a formas ditatoriais e totalitários, além de muita corrupção. Ele procura forças vivas, de alto padrão ético, capazes de reanimar a sociedade e corrigir um sistema corroído por falta de ética e é nesse sentido que ele resolve mudar radicalmente a política diante do cristianismo. Em vez de perseguição, ele opta pelo acolhimento.

Há um relato memorável do historiador Eusébio de Cesareia que mostra o impacto da recepção em Niceia na mente dos bispos. Eles são tratados como Senadores do Império. Cito o texto: ‘Destacamentos da guarda imperial e de outras tropas cercaram a entrada do palácio com espadas desembainhadas. Os homens de Deus puderam passar sem medo em meio a soldados, até o coração dos aposentos imperiais, onde alguns se sentavam à mesa junto com o imperador e outros se reclinavam em divãs espalhados dos dois lados. Quem olhava tinha a impressão de que se tratava de uma imagem do reino de Cristo, de um sonho, em vez da realidade’ (Eusébio de Cesareia, Vita Constantini, 3, 15. Cit. Crossan, J.D., O Jesus histórico: A Vida de um Camponês judeu do Mediterrâneo, Imago, Rio de Janeiro, 1994. 462).  

Eis um texto precioso, pois flagra o momento exato em que a igreja muda. Os mais diversos termos são utilizados pelos historiadores para descrever esse momento histórico. Uns falam em constantinismo, cesaropapismo, cristandade, outros em triunfalismo e cristandade. Uma formulação que me parece particularmente apropriada é inspirada num ensaio escrito em 1933 pelo sociólogo Norbert Elias sob o título: ‘A sociedade de corte’ (Zahar, Rio de Janeiro, 2001; o texto original é de 1933). Nesse livro, o autor faz da ‘corte’ um paradigma histórico fundamental. A corte e uma forma de se organizar a sociedade. Elias analisa a luta pelo prestígio, a maledicência, o ritual, as cerimônias, o protocolo, o bom comportamento, a adulação, a arte de falar, o papel do ‘bobo na corte’ e do ‘outsider’ etc. Se a gente segue o modo em que Elias analisa a história, então a gente compreende que a coisa mais importante de Niceia não é o famoso ‘Credo de Niceia’ (que ainda hoje se reza nas missas do domingo), mas o impacto psicológico causado nos bispos pela recepção na Residência Imperial. Os bispos mudam: de simples, rudes, espontâneos, sinceros, soltos, diretos, eles se tornam suaves, polidos, civilizados, educados e finos. Capricham na maneira de falar e se comportar, aprendem a arte retórica, controlam a fala e os gestos. Enfim, mudam de hábito (no sentido original do termo). Paulo de Samósata (260-272), o primeiro bispo ‘cortês’ da história do cristianismo, já forma em seu redor uma miniatura da corte romana, uma corte episcopal. Claro, não há só fascínio. Os bispos passam a desfrutar de residências melhores, meios de transporte e correio rápidos e gratuitos através das ‘vias romanas’, doações para construção de suas basílicas e igrejas. Mas a principal novidade consiste na aprendizagem das regras da corte. Podemos dizer que, em Niceia, a igreja vira uma ‘sociedade de corte’.

Apresento aqui sete pontos em que há ruptura flagrante entre o movimento de Jesus dos três primeiros séculos e a igreja cristã do século IV por diante. Aparecem novas palavras, uma nova linguagem, novas vestes, uma nova administração, nova política, nova disciplina e nova liturgia. Há outros pontos, sem dúvida, não se pode dizer tudo.

(1) Novas palavras.

O vocabulário cristão ganha em Niceia uma nova palavra: ‘religio’. É uma palavra que provém da diplomacia imperial. Não se encontra na Bíblia nem tem seu equivalente na cultura helenística. Pertence à política romana e indica o culto ao Imperador. Por meio da ‘religião’, que é o elo entre cada cidadão romano e o Imperador, esse último penetra no mundo sagrado e adquire uma autoridade inconteste. O cerne da questão é de ordem imaginária: divide-se espaço da vida em dois campos, o sagrado e o profano. As pessoas vivem a vida de cada dia no campo profano, ou seja, fora do templo, que é a imagem do mundo sagrado. O termo latino ‘pro fanum’ significa ‘anterior ao templo’. Mas quando as pessoas se dirigem ao templo, elas penetram num campo sagrado. Depois de trabalhar, as pessoas oferecem o fruto de seu trabalho à divindade. Trata-se de uma antiga tradição agrícola, que a diplomacia imperial romana transforma em instrumento político. Muitos líderes cristãos aceitam a distinção entre profano e sagrado, pois percebem que ela aumenta sua autoridade junto ao povo. Eles começam a usar termos superlativos: santíssimo, reverendíssimo e excelentíssimo. Falam em ‘Deus todo-poderoso e onipotente’, como nas primeiras palavras do Credo de Niceia: ‘Creio num só Deus, pai onipotente, criador do céu e da terra...’.


(2) Nova linguagem.

Aparece, no seio do cristianismo, uma nova linguagem. Os líderes das comunidades se tornam ‘ministros sagrados’. Os apóstolos se transformam em sacerdotes. De pescador e exorcista de sucesso, o apóstolo Pedro se torna ‘pontífice’. Ainda no século III, o escritor cristão Tertuliano considera o uso do termo como um insulto (em seu tratado ‘De pudicitia’). Ele critica o bispo de Roma, que começa a usar o título de ‘pontífice romano’, e escreve a ele: ‘tenha vergonha, você se comporta como um pagão! ’. Mas no século IV, a sensibilidade eclesiástica muda completamente. Pedro é entronizado e revestido de vestes sacerdotais, faz seu Introito na Basílica e se dirige à ‘Cathedra Petri’, o trono imperial. Doravante, os bispos são ‘sucessores dos apóstolos’, conforme construção literária do historiador Eusébio de Cesareia que, nos capítulos 4 a 7 de sua História Eclesiástica, elabora longas listas ‘dinásticas’ para as principais cidades, muitas delas puramente imaginárias, criando desse modo a imagem de uma ‘sucessão apostólica’ e dinástica ininterrupta, que atravessa os séculos.

(3) Novas vestes.

No século IV, a veste talar faz sua entrada na igreja. Até Jesus ganha uma roupa que o cobre até os pés. Um afresco na Catacumba de São Calisto, em Roma, do século III, ainda apresenta Jesus como o bom pastor, vestido por uma túnica que vai até os joelhos e deixa pernas e braços desnudos. No ombro uma mochila a tiracolo, na mão direita as patas de uma ovelha enrolada nos ombros e na outra mão uma chaleira, caldeira ou panela, provavelmente para preparar alimentos. Depois do século IV, esse Jesus da vida diária nunca mais aparece. Quanto aos bispos, eles herdam dos sacerdotes de Mitra as suas ‘mitras’ (o termo ficou até os nossos dias). Mas o importante mesmo é a veste talar.

(4) Nova administração.

Simpatizantes de Roma, principalmente por causa das facilidades organizatórias (viagens, uso dos correios imperiais, isenção de impostos), os bispos colaboram com a administração romana no sentido de promover a unificação do Império. É nesse sentido que eles combatem as heresias e qualquer outra ameaça à unidade. Eles adotam o modelo diocesano, ou seja, dividem o mundo cristão em ‘territórios’, segundo o modelo romano. A diocese é uma opção administrativa fundamental, pois ela possibilita a implementação do grande projeto católico no século V. Outro procedimento administrativo consiste na divisão entre clero e laicato, ou seja, na separação entre ‘os de dentro’ e ‘os de fora’ (os outsiders), como diria Norbert Elias (veja seu livro: ‘Os estabelecidos e os outsiders’, Zahar, Rio de Janeiro).

(5) Nova política.

No século IV, os clérigos cristãos rivalizam com os sacerdotes da oficialidade romana. Para ter mais força, eles se unem numa corporação. Doravante a igreja será uma corporação clerical, de grande coesão interna e destacada separação com os ‘de fora’, os leigos.


(6) Nova disciplina.

Os clérigos aprendem a disciplinar o riso, seguindo um dos requisitos fundamentais da vida na corte. Já no século III, Clemente de Alexandria escreve que o cristão ‘sério’ não se altera, não ri. Mais tarde, no final do século IV, o metropolita João Crisóstomo afirma que Cristo nunca riu (Migne, Patrologia grega, 57, 69). Em geral, nos escritos dos Padres da Igreja (os intelectuais cristãos da época), o tema do prazer e da expansão dos sentimentos é abordado de forma negativa. Os cristãos se educam antes para o sofrimento que para o prazer, ficam mais ocupados com afazeres intelectuais e espirituais que com ‘carnais’. Em seu romance ‘O Nome da Rosa’, Umberto Eco conta que o velho bibliotecário de um mosteiro medieval bem sabe que ‘o riso é incentivo à dúvida’ (p. 159 da edição brasileira) e não permite que os jovens monges discutam sobre o riso de Cristo. Os monges não podem conhecer o Cristo brincalhão, o Arquivo Secreto da Biblioteca guarda sua memória. Pois Jesus alegre contradiz a sisudez do abade, do bispo e do papa. É dentro desse contexto que germina a ideia do seminário de formação sacerdotal, um dos maiores sucessos da história da igreja. O seminário visa antes de tudo o autocontrole, que no fundo fez parte da educação da classe A na sociedade romana. Os trabalhos de Peter Brown mostram que o controle do corpo, que desemboca na exaltação do celibato, não deve ser entendido no sentido de rejeição da sexualidade, mas do controle do homem superior (Brown, P., Corpo e Sociedade: o Homem, a Mulher e a Renúncia sexual no Início do Cristianismo, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1990). O cidadão de classe superior tem de mostrar superioridade diante dos escravos e dos empregados por meio do autocontrole. Assim o clérigo diante dos fiéis.

(7) Nova liturgia.

Adotando o modelo da corte, a liturgia cristã se ‘teatraliza’, ou seja, deixa de ser comunitária e imita o cerimonial romano. Isso repercute na arquitetura das igrejas, que daqui por diante parecem antes salas de teatro que casas comunitárias. A arquitetura da primeira Basílica cristã, a Hagia Sofia de Constantinopla (hoje Istambul), é concebida segundo o modelo de uma sala de teatro. Por sinal, as pessoas têm razão quando falam em ‘assistir à missa’. O aspecto mais negativo da teatralização da liturgia consiste no fato que ela deixa o indivíduo isolado. A liturgia deixa de criar laços, vira um espetáculo religioso.

3. O ano 420: a formulação do projeto católico.

Até agora tratei da reviravolta operada no seio do cristianismo pela política do imperador Constantino. Um ponto seguinte consiste em considerar como se formula um projeto católico propriamente dito. Esse projeto é igualmente resultado de condicionamentos históricos.

Em 410, Roma, a invicta e invencível cidade eterna, é tomada pelas tropas de Alarico, o visigodo, e saqueada por três dias (os dias 24 a 26 de agosto de 410 ficam por muito tempo gravados na memória). A imensa população escrava fica na cidade, enquanto os ricos fogem para longe. É um desastre. A população da cidade cai bruscamente de um milhão a 200 mil. Lactâncio, autor cristão, atribui o desastre à ‘ira de Deus’, e muitos concordam com ele. O rumor atinge o norte da África, onde o talentoso escritor Agostinho é bispo da pequena cidade de Hipona. O bispo se sente tão impressionado pelo quadro do mundo de referências que desmorona diante de seus olhos, que se dedica durante quinze anos à elaboração de uma obra gigantesca em 22 livros: a ‘cidade de Deus’. Essa cidade é um sonho grandioso da salvação da humanidade depois da queda de Roma, identificada com a ‘cidade do homem’. A cidade de Caim, marcada pelo sinal indelével do pecado (original), caminha para a perdição. Enquanto isso, os peregrinos da ‘cidade de Deus’, a cidade de Abel, caminham para a salvação. Os da cidade de Caim andam à toa, pois só buscam o poder e a glória, enquanto os habitantes da cidade de Abel peregrinam, em meio a muitas dificuldades, em demanda da vida eterna na presença de Deus. Uma imagem fascinante, que seduz muitas gerações de dirigentes cristãos. Vê-se a igreja católica como uma luz de santidade em meio à perversidade do mundo. Agostinho é um sonhador, ele não se preocupa com as questões administrativas que a eventual transformação de seu sonho em projeto político pode acarretar. Não enxerga, por exemplo, que sua ‘cidade de Deus’ não abre espaço para a liberdade, pois tudo está baseado na obediência.

Leiamos uns trechos, eles dizem mais que os melhores comentários.

A paz da cidade é a concórdia bem ordenada dos cidadãos na obediência. A paz é a tranquilidade da ordem. Essa ordem é a disposição de seres desiguais, que indica a cada um o lugar que convém. Os miseráveis, que são infelizes, certamente não têm a paz, não gozam da tranquilidade da ordem. Mesmo assim, não podem ficar fora da ordem. Pois, caso se revoltem contra a lei pela qual se rege a ordem natural, serão mais infelizes ainda’ (Cidade de Deus, livro 19, capítulo 13, 1).

No capítulo 16 do mesmo livro, Agostinho trata da ‘paz doméstica’. E escreve: ‘Se, na casa, alguém perturba a paz doméstica por sua desobediência, deve ser corrigido por palavras ou chicote (chibata), por todo castigo justo e legítimo, em conformidade com o que a sociedade humana permite, e fim de conduzi-lo de novo, em seu próprio interesse, à paz da qual se separou’ (19, 16).

A igreja é um instrumento de educação das massas. Eis como Agostinho fala da educação: ‘É você que educa e ensina. Você submete as mulheres aos seus maridos por uma casta e fiel obediência. Você confere aos maridos autoridade sobre suas mulheres. Você submete as crianças aos seus pais por uma espécie de servidão e coloca os pais acima das crianças numa piedosa dominação. Você ensina aos escravos a respeitar seus amos, não tanto pela necessidade de sua condição como pelo charme do dever. Você ensina aos reis como vigiar sobre os povos e adverte os povos a se submeterem aos reis’ (De moribus ecclesiae catholicae, 1, 30, 63).

Com o tempo, Agostinho se agarra sempre mais à ideia da obediência incondicional, a tal ponto que nos últimos quinze anos de sua vida ainda se mete numa infeliz disputa com o monge Pelágio, que defende a liberdade. O grande escritor se afunda no fundamentalismo e termina sua vida no amargor, como se pode verificar lendo as Confissões. Mesmo assim, as lideranças católicas se empolgam com Agostinho, pois ele confere uma aparência de legitimidade ao que de fato acontece na igreja em termos de dominação e poderio. No entusiasmo do momento, poucos percebem que a ‘cidade de Deus’ é na realidade uma cópia da sociedade imperial romana, onde os súditos obedecem e se submetem à vontade dos governantes.

O sonho de Agostinho se concretiza na paróquia. A paróquia é a expressão mais clara do projeto católico. É um reduto. O viajante pelo interior da Europa pode observar como as casas, nas aldeias, se agrupam em torno da igreja paroquial. Parecem pintinhos em baixo das asas da galinha. O ‘pastor’ cuida das ovelhas (os paroquianos) e os defende diante dos perigos de fora. A paróquia é uma defesa, ela defende a ‘cidade de Deus’ diante dos ataques da ‘cidade de Caim’, que são os judeus, islamitas, vagabundos e heréticos. A paróquia não é feita para acolher os que pensam de forma diferente, pois o paroquiano costuma ter um comportamento defensivo. Na paróquia, as pessoas se acomodam a uma vida na obediência. Quem não aguenta essa vida vai para a cidade.  As virtudes da paróquia são as virtudes feudais: fidelidade (até a morte), coragem (imagem da espada), proteção ao fraco (cavaleiro medieval), voto perpétuo. A cruz e a espada, as duas espadas, a cruzadas, o bom combate contra os hereges, luta, fraternidade, lealdade, o rei sagrado (padre, bispo, papa). A paróquia é uma távola (tabula) redonda do rei Artur, ou seja, do vigário. Aí Parsifal, Tannhäuser, Tristão (e Isolde), Orlando, Sigfrido são os leigos engajados, destemidos, totalmente dedicados à boa causa. Eles defendem as ovelhas contra os perigos de fora.
Ainda há muito a se comentar sobre esses pontos, mas por enquanto basta dizer que os anos em que Agostinho elabora sua ‘Cidade de Deus’ (de 420 por diante) são fundamentais para a formação da igreja católica tal qual funciona até nossos dias.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/