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sábado, 20 de agosto de 2022

A arte de Adélia Carvalho.

 

Eduardo Hoornaert.


 

Faleceu em Recife (Pernambuco, Brasil), no dia 16 de agosto de 2022, a Irmã Adélia Carvalho, brasileira, religiosa salesiana e ‘artista da caminhada’. Ela acompanhou, durante longos anos, trabalhos junto a lideranças populares ligadas à Teologia da Libertação, tanto no Brasil como - por um curto período - no Moçambique. Ilustrou numerosas publicações do Cehila-Popular (uma iniciativa do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina, que funcionou entre 1980 e 2000 aproximadamente), e ajudou a elaborar, igualmente por longos anos, grandes painéis que serviam de quadro de fundo em Cursos de Verão promovidos pelo CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), situado em São Paulo, Brasil. Além dos clássicos ‘cartões de Natal’. Adélia formava parte de um pequeno grupo de desenhistas, pintores e poetas, que se autodenominavam ‘artistas da caminhada’.

 

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Para apresentar a artista Adélia Carvalho, copio aqui seu texto autobiográfico ‘Falando sobre minha trajetória artística’, que ela redigiu em 25 de agosto de 2015, em preparação de um encontro rememorativo do Cehila, realizado em Belo Horizonte.

Vai aqui a breve autobiografia:

‘Meu nome é Adélia Oliveira de Carvalho. Assino Adélia Carvalho. Sou brasileira, nordestina, natural do Rio Grande do Norte, no município de Santo Antônio, agreste potiguar e bioma caatinga. Nasci em Lagoa das Cobras (25/10/1937), no sítio de meu avô materno. Sou descendente indígena, por parte de minha avó materna, provavelmente da Nação Cariri. Esses indígenas, vindos do sul do Brasil, tempos atrás, andavam em busca da ‘Terra sem Males’. Aqui, nesta região nordestina, se assentaram. Por não entenderem sua língua, os portugueses os chamavam ‘tapuios’, ‘povo calado’.

Desde cedo, gostei de me expressar em desenhos e trabalhos manuais. Diante das cores, sombras, relevos, paisagens, imagens, esculturas, o meu instinto é de contemplação e admiração. A natureza é o meu espaço preferido. Na escola, meus desenhos eram admirados por serem bem feitos, com combinações de cores.

Aos 22 anos, (24/01/1960), fiz minha consagração religiosa no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas) em Recife – PE, onde resido. Minha caminhada artística, propriamente dita, tem início no noviciado (1958-1959), quando começo a pintar a óleo temas religiosos. Nos anos seguintes ao noviciado, continuo pintando, mas sem orientação. Pintei cenários, murais e quadros. Minha preferência é por figuras humanas. Paisagens e outros elementos aparecem como complemento.

Então, sou autodidata, ainda que tenha feito alguns exercícios de trabalhar com modelo vivo (a figura humana), em 1972, no atelier do Prof. Inaldo Medeiros (em memória), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Não tive condições de continuar. Parei no início do caminho, com esperança de poder, algum dia, estudar regularmente a arte do desenho e da pintura. Sentia-me insegura com o que produzia. Em 1995, a esperança se fez presente quando cheguei a frequentar o atelier do prof. Maerlant Denis, aqui em Recife, à Rua das Pernambucanas. Logo ele observou que tinha um estilo próprio, tanto nos conteúdos como nas cores. Em menos de um ano, ele me deu um certificado ‘com distinção’.

A partir de então, me considerei artista profissional. Meus quadros eram adquiridos com facilidade e eu recebia encomendas. Mas não me sinto qualificada para adotar o nome de artista plástica. Isso me incomoda. Acho que é grande demais para mim. Este sentimento talvez tenha sido motivo de nunca ter feito uma mostra individual, preferindo expor coletivamente, na qualidade de ‘artista da Caminhada’.

Em minhas expressões artísticas, gosto de representar temas contemporâneos (sacros/religiosos/místicos e, ao mesmo tempo, de caráter social). Com este viés falo em arte religiosa ‘profanada’, onde o religioso e o profano se misturam, tornando um só motivo. A figura feminina de olhares grandes e profundos, ganha destaque especial.

 

Perante meus trabalhos em exposições, percebo três reações diferentes nas pessoas: 1) admiração e contemplação pelas cores vivas e alegres, pelas formas e pela temática; 2) identificação com o estilo e com os temas. Muitos começam a fazer uma leitura do ‘seu mundo’ e do seu derredor; 3) provocação, um certo escândalo, um choque, vendo o religioso e o profano misturados. Isso é bom para mim e me convence de que estou alcançando objetivos concretos.

Dizem que meus quadros são considerados obras de arte. Já são conhecidos internacionalmente, têm nome e estilo próprios. Neles eu expresso e revelo meus sentimentos, minha psicologia, mística, espiritualidade e o caminho por onde caminho, enfim, minha personalidade.

Sei que a arte, como expressão do belo e como comunicação, tem necessidade de expansão e de buscar leitores de diferentes olhares, de diferentes culturas. Isso levou meus trabalhos a caminharem não apenas pelo Brasil, mas por outros continentes como Europa, Estados Unidos e África (Moçambique). Minha arte também foi tema de dissertações e teses acadêmicas. Ela caminhou e continua caminhando como beleza e profecia de Deus. Fui muito além do que imaginava’. Até aqui, o depoimento de Adélia Carvalho sobre sua trajetória até 2015.

 

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Tomo a liberdade de copiar aqui o texto, emitido no dia da morte de Adélia, 16/08/2022, pelo CESEEP. Vai intitulado Páscoa de Adélia de Carvalho (16/08/2022)

 

 

Um passarinho, uma flor e um caju. Nas imagens de pessoas, olhos grandes e expressivos como marca de seus traços na tela, com capacidade de prender o olhar e até a respiração de quem vê cada obra de arte. A tela como forma de comunicação de uma alma leve, generosa e cheia de amor.

A voz baixa, o olhar sereno e os passos tranquilos pelos corredores da PUC sempre foram inconfundíveis. O sorriso meigo trazia a luz presente em sua alma e que nela não cabia, então era preciso partilhar.
Adélia de Carvalho deixa em nós todas e todos que com ela convivemos, a dor da partida, mas também a alegria pela dádiva da convivência.

Ela fica entre nós, pela lembrança de sua pessoa, sempre suave e amorosa e pela vasta obra de arte que deixa como legado.

Os cartões de Natal do CESEEP, sempre tiveram sua arte como ilustração e inspiração e, no Curso de Verão, deixou, nesses anos todos, a beleza de cada quadro ou painel, como produção individual ou coletiva.

Registre-se aqui a GRATIDÃO imensa por toda a sua generosa contribuição ao Curso de Verão e a cada uma e cada um que com ela conviveu.
Deus a acolha em sua glória!

 

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Gostaria de focalizar, por uns instantes, a colaboração de ‘artistas da caminhada’, especificamente de Domingos Sávio e Adélia de Carvalho, nos trabalhos do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina (Cehila). Copio um texto que escrevi em 2015 a esse respeito: ‘O Cehila só será plenamente Cehila, quando estiver em diálogo contínuo com a cultura popular. Fomos eclesiásticos, hoje somos universitários. Um dia, seremos ‘populares’? Isso dependerá de nossa capacidade de tocar os instrumentos culturais do povo e de fazer com que as pessoas do povo reconheçam seu próprio rosto na arte criada pelo Cehila. Como escreveu o teólogo Hans Urs von Balthasar: ‘Deus entre no homem pelos sentidos, pela beleza e pela arte, não por abstrações nem por lógica. Penso que os ‘artistas da caminhada’ abriram uma senda nessa direção.

 

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No já mencionado Encontro de 2015, em Belo Horizonte, Adélia de Carvalho apresentou sua pintura Ameríndia. Nela representa, por meio de uma proliferação de símbolos, a história de cinco séculos de cristianismo no  continente ameríndio e as esperanças que o povo latino-americano nutre. Copio aquí essa pintura, que merece ser vista com atenção.

 

Há a verticalidade do tradicional simbolismo cristão medieval: o céu desce à terra. Desce o Cordeiro de Deus;  desce, em cima do corpo de Ameríndia, o bico agudo de um  pássaro (será o Espírito Santo? É ele que dará vida ao embrião?).

Em torno de Ameríndia, tudo é problemático. As bandeiras dos Estados Unidos, da China e do Brasil flutuam no alto; a caravela de Cristo derrama sangue na cabeça do indígena; aparece a favela pobre na periferia da cidade altiva;  esgotos e crânios; crianças inocentes morrendo na violência das ruas; o prato de comida vazio; ‘retirantes’ em busca de nova vida na cidade grande; o labor na cana de açúcar dos engenhos.

 

Mas a Ameríndia está grávida. Plumas indígenas, cajus, flores, fogo novo. Vai nascer a criança, um novo mundo aparecerá. Viagens para as estrelas. Uma nova terra e um novo sol.

 

 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O Papa Franciso, mais uma vez, surpreende.

 Eduardo Hoornaert.


 

A costumeira entrevista que o Papa Francisco concedeu no avião que o levou a Roma, de retorno de sua viagem ao Canadá, no dia 29 de julho passado, respondendo a perguntas de nove jornalistas, sete delas mulheres, e que ganhou pouco realce na imprensa e nas redes, me surpreendeu. Tive a impressão que ele vivenciou seus dias no interior do Canadá, junto a representantes de povos originários, como um retiro espiritual, no melhor estilo inaciano de ‘discernimento’. Teve tempo e oportunidade de refletir (1) sobre o magistério na igreja, do qual é o principal representante e (2) sobre o núcleo formador da igreja. 

A entrevista anda cheia de ‘discernimentos’, alguns sutis e de não fácil percepção, outros evidentes, mas comumente mal percebidos. Guardo na mente a foto de Francisco, sentado, de cadeira de rodas, em silêncio, à beira do ‘Lago de Santa Ana’, no norte do Canadá. Meditando. Penso que esse foi o momento culminante dessa visita ao Canadá, pois a entrevista no avião expressa um espírito meditativo. Não penso que um papa em meditação suscite muito interesse nos grandes meios de comunicação, mas aí reside, talvez, o que há de mais original no jesuíta Jorge Bergoglio. Pois aqui, esse papa se revela, antes de tudo, jesuíta, seguidor de Inácio de Loyola. Comento apenas alguns tópicos.

 

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O magistério.

 

A sétima jornalista a fazer perguntas ao papa, Claire Giangrave da ‘Religion News Service’, indagou a respeito de uma possível re-evaluação, por parte de autoridades eclesiásticas, da postura assumida pelo Papa Paulo VI, em sua encíclica ‘Humanae Vitae’, em relação aos anticonceptivos. E não deixou de provocar Francisco, ao lhe dizer que, ao que parece, seu predecessor, João Paulo I, pensou que a proibição total (de contraceptivos) talvez devesse ser reconsiderada. Eis a porta pela qual o papa entra, desenvolvendo uma reflexão que vai fundo na questão da fragilidade, até falibilidade, do chamado ‘Magistério’, mas, ao mesmo tempo, realça sua necessidade. Cito as palavras do papa e, num segundo momento, as comento.

 

O dogma e a moral estão sempre em desenvolvimento, mas sempre no mesmo sentido. Para dizer as coisas de modo claro: para o desenvolvimento de uma questão moral ou dogmática, há uma regra muito clara e esclarecedora. Ela foi expressa por Vicente de Lérins no século V: ele disse que a verdadeira doutrina, para avançar, para se desenvolver, não deve ser tranquila, mas caminha ‘ut annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate’. A doutrina se consolida ao longo dos anos, se expande com o tempo, se consolida na idade. Sempre progredindo, frequentemente em meio a conflitos.

(Vicente de Lérins foi um monje do século V, que vivia numa comunidade situada em Lérins, uma ilha no sul da então chamada Gália, hoje França).

Por isso, o dever dos teólogos é a investigação, a reflexão teológica. Não se pode fazer teologia com um ‘não’ pela frente. Logo, o Magistério lhe dirá: ‘foste para além, voltes’, mas o desenvolvimento teológico deve ser aberto, os teólogos (aí) estão para isso. E o Magistério deve ajudar a compreender os limites. Então, o Magistério dirá se é bom ou não. Mas a discussão esclarece muitas coisas. Pensemos, por exemplo, nas armas atómicas: declarei oficialmente que o uso e a posse de armas atómicas é imoral. Pense na pena de morte: hoje posso dizer que aí estamos perto da imoralidade, porque a consciência moral, acerca desse ponto, se desenvolveu bem.  Para ser claro: quando se desenvolve o dogma ou a moral, está bem, mas nessa direção, com as três regras de Vicente de Lérins.

Creio que isso é muito claro: uma Igreja que não desenvolve o seu pensamento num sentido eclesial é uma Igreja que anda para trás, e este é o problema de hoje, de muitos que se intitulam tradicionais. Não, não, não são tradicionais, são 'para trás', são indietristas, andam para trás, sem raízes: isso sempre foi assim, no século passado foi assim. E o indietrismo é um pecado, porque não vai com a igreja.  

(O neologismo ‘indietrismo’ provém de um advérbio da língua italiana: ‘indietro’, que significa ‘para trás’. Andar ‘indietro’: andar para trás, regressar, retroceder).

A tradição é a fé viva dos mortos, enquanto esses indietristas, que se chamam tradicionalistas, professam a fé morta dos vivos. A tradição é precisamente a raiz, a inspiração para avançar na igreja, e essa é sempre vertical.

(Como a raiz, que alimenta a árvore ‘verticalmente’. O papa alude à relação entre um enunciado e seu comentário ao longo dos tempos, entre enunciados do magistério e a reflexão dos teólogos a seu respeito, ou, em suas palavras, entre a ‘doutrina’ e a ‘tradição’).

E o indietrismo anda para trás, está sempre fechado. É importante compreender bem o papel da tradição, que está sempre aberta, como as raízes da árvore, e a árvore cresce...Um músico tinha uma frase muito bonita. Gustav Malher disse que a tradição, nesse sentido, é a garantia do futuro, não é uma peça de museu. Se você concebes a tradição cerrada, essa não é a tradição cristã. Sempre é a seiva das raízes que o empurra para frente, para frente, para frente. Por isso, pelo que você diz, pensar e levar a fé e a moral para frente, mas enquanto vai em direção das raízes, da seiva, está bem. Com as três regras de Vicente de Léris que mencionei.

 

Comentário.

- A entrevistadora trouxe à tona uma ponderação do papa João Paulo I que, antes de ser eleito papa (ele governou a igreja por apenas um mês), tinha opinado que a ‘doutrina’ oficial da igreja, referente à contracepção, mereceria ser reconsiderada. O assunto é da maior relevância, pois se trata de tomar posição diante de um ‘fato’, ocorrido em 1961, e que ‘mudou a face da terra’. Eu me refiro ao que aconteceu, no mundo inteiro, em sucessivas ondas, a partir do momento em que os serviços da saúde pública, dos Estados Unidos, liberaram a pílula anticoncepcional para uso comercial. Isso foi em 1961. Logo, a pílula atravessou fronteiras e ganhou o mundo. As mulheres não ergueram a voz, não fizeram declarações, mas tomaram a pílula.  As católicas também. Segundo a escritora carioca Rose Marie Muraro (1930-2014), a pílula anticoncepcional foi a maior descoberta, para o benefício da mulher, em todos os tempos. Ela permitiu à mulher controlar sua fertilidade e entrar, assim, ao mercado de trabalho. E isso foi quebrando uma opressão de milênios. Continua Rose Marie Muraro: A primeira fase da identidade de uma pessoa não-escrava é controlar o próprio corpo. Pois o corpo do escravo pertencia ao dono, assim como o corpo da mulher pertencia ao homem. Então, a mulher era escrava do homem. Hoje a diferença é brutal. O mundo da mulher é o mundo de antes da pílula e depois da pílula.  

O uso da pílula, que já vai para mais de 60 anos, alterou profundamente as relações de gênero. Ocorreu um ganho no plano da identidade e no plano social e político: estamos transformando a noção de política e economia. Quando dominado pelo homem, o mundo é hierarquizado. Quando a mulher entra em cena, o mundo se estabelece em rede. Os homens não estão acostumados. Eles estão acostumados a mandar, a fazer guerra, e quando se encontram com outra figura, que lhe faz frente e diz ‘não’, eles se apavoram, pois nunca ouviram esse ‘não’. É a primeira vez na história.

Até aqui Rose Marie Muraro.

- O Papa Francisco não menciona explicitamente o caso da pílula anticoncepcional, mas nos conduz a uma reflexão em profundidade. Fala da necessidade e, ao mesmo tempo, fragilidade da doutrina. A doutrina é frágil, mas necessária. É frágil por ser atravessada por emoções do momento, é necessária por ser uma bússola num alto mar turbulento.  E ele explica: a verdadeira doutrina, para avançar, para se desenvolver, não deve ser tranquila. Aí, Francisco passa a citar em latim palavras de um monge do século V, Vicente de Léris, que, aparentemente, navegou igualmente por águas turbulentas, pois constata que a verdadeira doutrina annis consolidatur, dilatatur tempore, sublimatur aetate. Dilatare’ se traduz por ‘explicar com maior profundidade’ e ‘sublimare’ por ‘elevar a um patamar superior’. Ou seja, a doutrina nunca sai ‘perfeita’ no momento de sua primeira enunciação, ela necessita se consolidar (‘consolidetur’), ganhar uma explicação mais profunda (‘dilatetur’) e alcançar um patamar mais elevado (‘sublimetur’). Há uma evolução em direção à maior clareza. Com o tempo, ditos do momento se aperfeiçoam, se corrigem, se aprofundam.

- Ao falar desse modo, o Papa Francisco demonstra cultivar uma visão otimista da história da doutrina cristã, do cristianismo e da humanidade em geral. Afinal, a ‘verdadeira doutrina’ está sempre em nossa frente e não conseguimos alcançá-la senão como vislumbre de um futuro ainda incerto. Só aos poucos, na fragilidade, a humanidade percebe o alcance do ‘terremoto’ causado na história por figuras como Jesus. O evangelho está em nossa frente, é coisa do futuro, não do passado.

 

Dou alguns exemplos do entrelaçamento entre fragilidade e necessidade:

- Mais de dez séculos atrás, em 1095, o Papa Urbano II (governou entre 1088 e 1099), ao declarar guerra contra os ‘sarracenos’, disse que o motivo era recuperar a terra santa das mãos dos infiéis. Era isso mesmo? No calor da hora, parece que ele gritou: Dieu veult! (Deus quer!). Eis o que se conta. Quais os motivos, pelo que sabemos? Em 1095 já estava claro que o Ocidente cristão estava se constituindo em ‘periferia’ de um imenso império, centrado em Bagdad. Diante da ameaça de uma rápida islamização da cultura europeia, o papa optou pela ofensiva, pela ‘cruzada’, por uma guerra que Deus quer. E, por todo canto, gente vestiu a armadura, se juntou ao exército do papa e partiu para o Oriente desconhecido, em cruzada. Houve oito cruzadas, com número imenso de mortes e violências diversas. Qual o núcleo ‘doutrinário’ que as palavras do papa Urbano II expressam? A resposta não é fácil.

O que sabemos é que o Dieu veult funcionou por séculos. Quando Constantinopla, capital multissecular da cristandade grega, caiu nas mãos dos turcos, em 1453, um susto perpassou o Ocidente cristão. De novo. Isso repercutiu na Bula de Alexandre VI, intitulada ‘Inter Caetera’, de 1493, que afirmou que as nações bárbaras (leia: latino-americanas) sejam derrubadas e trazidas à fé (leia: fé católica). O papa, que não entendia muito de geografia, pensou que um domínio sobre os ´índios’ poderia ‘encurralar’ o poder muçulmano e facilitar a ‘reconquista’ do mundo cristão.

Não vou contar mais histórias acerca do ‘Deus quer’. Só trago uma lembrança de minha própria infância. Quando, em 1940, os soldados alemães invadiram minha terra natal, a Bélgica, ele tinham, gravadas, no capacete, as seguintes palavras: Gott mit uns (Deus conosco). É o ‘Deus quer’ do Papa Urbano II. E não será que o Papa Pio XII, ao publicar, em 1959, a encíclica ‘Fidei Donum’, para fomentar a ida de sacerdotes diocesanos para a África e a América Latina, tinha em mente a mesma luta contra os ‘inimigos da fé’, desta vez contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo? O grito ‘Deus quer’, do Papa Urbano II, ressoou por séculos e continua ressoando.

A história de textos emanados do magistério papal é, pois, bastante controvertida. Comentei algo a esse respeito em meu livro Formação do Catolicismo Brasileiro (Vozes, 1974), quando escrevi: o católico brasileiro sente certa dificuldade em interpretar a longa tradição em que está inserido (p. 31). Pois a empresa colonial, desde seus inícios, foi apresentada como uma guerra santa. Um messianismo guerreiro permeou, durante séculos, a ação dos missionários católicos na América Latina (veja o referido livro pp. 31-65). Isso provoca insegurança.

- Mas, nem sempre a voz do magistério é sujeita a revisões e retificações. Em 1537, o Papa Paulo III, em sua Bula Sublimis Deus, dirigida aos cristãos das Índias Ocidentais, declara: pelas presentes letras decretamos e declaramos, com nossa autoridade apostólica, que os referidos índios e todos os demais povos que daqui por diante venham ao conhecimento dos cristãos, embora se encontrem fora da fé de Cristo, são dotados de liberdade e não devem ser privados dela, nem do domínio de suas coisas. E, ainda mais, que podem dispor, possuir e gozar livremente desta liberdade e deste domínio, nem devem ser reduzidos à escravidão. E que é irrito (sic), nulo e de nenhum valor tudo quanto se fizer em qualquer lugar de outra forma (contracapa do livro História da Igreja no Brasil, Cehila, Vozes, 1979).

- Aqui entra o discernimento de Santo Inácio: rejeitar Alexandre VI e acolher Paulo III. A tradição postula critério. Ela nunca é uníssona. Por vezes, é contraditória, outras vezes profética, mas sempre ‘turbulenta’, ou seja, controvertida. Os historiadores encontram enunciados, a cada página da história, que dão testemunho da fragilidade e provisoriedade de tudo que o homem empreende e dos esforços que ele tem de fazer para alcançar mensagens que ultrapassem seu comum modo de sentir e reagir. Eles sabem que o tempo condiciona e, eventualmente, redireciona o discurso. O papa vai nessa linha ao evocar palavras do monge Vicente de Léris e nelas encontrar uma chave de leitura.

Isso pressupõe cultivar uma visão otimista da história e da doutrina, e penso que Francisco cultiva essa visão. Pressupõe considerar que a ‘verdadeira doutrina’ fica em nossa frente e que só conseguimos alcançá-la em vislumbre, num futuro ainda incerto. Pois, só aos poucos e na fragilidade, percebemos o alcance do ‘terremoto’ causado na história por figuras como Jesus. O evangelho está em nossa frente, não é coisa do passado. A ‘doutrina’ não é algo petrificado, enunciado para sempre. Há de se cultivar a capacidade de salvar a intencionalidade da doutrina e precarizar sua formulação. Desse modo, surge diante de nós uma tradição colorida, diversificada, por vezes controvertida, outras vezes com largo consenso. Mas sempre com vida.  Em contraste com o dogma frio e sem vida. A tradição não é tranquila, ela é cheia de vida e contrastes. Captar a tradição viva é captar a vida da igreja.

- Conclusão: tradicionalismo não é indietrismo, não é andar para trás, estar sempre fechado. É importante compreender bem o papel da tradição, que está sempre aberta, como as raízes da árvore, e a árvore cresce...Um músico tinha uma frase muito bonita. Gustav Malher disse que a tradição, nesse sentido, é a garantia do futuro, não é uma peça de museu. Por baixo de contradições corre a seiva das raízes. O fruto amadurece com o tempo. O erro consiste em invocar as palavras do magistério fora do contexto. Enfim, em ter medo do futuro. Não se volta ao passado por medo do futuro.

 

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O núcleo formador da igreja.

 

Já no final da entrevista, depois da nona intervenção, Francisco diz: antes de me despedir, gostaria de falar de algo que é muito importante para mim. E aí, ele começa rememorando alguns momentos de sua viagem pelo Canadá. A viagem ao Canadá esteve intimamente relacionada com a figura de Santa Ana. Falei algumas coisas sobre as mulheres, mas, sobretudo, sobre as mulheres mais velhas, mães e avós. E sublinhei uma coisa que é clara: a fé deve ser transmitida em dialeto, o dialeto - disse claramente - materno, o das avós. Recebemos a fé na forma de um dialeto feminino, e isso é muito importante: o papel da mulher na transmissão da fé e no seu desenvolvimento. É a mãe ou a avó que ensina a rezar, é a mãe ou a avó que explica as primeiras coisas que a criança não entende sobre a fé. E posso falar, portanto, em transmissão dialetal da fé.

Alguém pode me dizer: mas como você explica isso teologicamente? Porque eu direi que quem transmite a fé é a igreja e a igreja é uma mulher, a igreja é uma noiva. A igreja não é masculina, é mulher. E devemos entrar nesse pensamento da igreja como mulher, da igreja como mãe, que é mais importante que qualquer fantasia ministerial machista ou qualquer poder machista. A mãe igreja, a maternidade da igreja feminina. A figura da mãe do Senhor. Nesse sentido, é importante destacar a importância, na transmissão da fé, desse dialeto materno. Descobri-o lendo, por exemplo, o martírio dos Macabeus: duas ou três vezes se diz que a mãe lhes deu a alma, no dialeto materno. A fé deve se transmitir em dialeto. E esse dialeto é falado por mulheres. Esta é a grande alegria da igreja, porque a igreja é uma mulher, a igreja é uma noiva. Eu queria dizer isso claramente, pensando em Santa Ana.

 

Comentário.

- Onde está o núcleo formador da igreja? Quando a criança reza a Jesus, é imitando a reza da mãe. Quando vai à missa ou ao culto, é de mãos dadas com a mãe. Quando respeita o colega na escola, é porque a mãe lhe ensinou assim. Qual é o sacerdote, o pastor, o bispo, o patriarca, o papa, que não recebeu a primeira evangelização de uma mulher?

- Aqui estamos com Paulo Freire, o pedagogo do cotidiano, do vivido em família, no bairro, na escola, na rua, na natureza, e que parte daí para construir o pensamento. Pelo que sei, Freire não usou o adjetivo ‘dialetal’. Mas ele ia gostar, penso, em saber que um papa valorizasse o dialeto materno. Um olhar novo, inusitado, original. Francisco não cita Paulo Freire, mas diz sem rodeios que a igreja não é uma fantasia ministerial machista, mas um fato que pode ser observado a cada dia: a mãe conduz seu filho a Jesus falando em dialeto. Não fala em latim, nem em inglês, nem na linguagem da TV e dos noticiários. Fala dialeto.

- O que acontece quando o máximo representante da igreja ‘masculinizada’ medita sobre o fato que a igreja, em sua concretude, é feminina, não somente sustentada por mulheres, mas evangelizada por elas, dialetalmente? Provavelmente não acontece nada em ambientes oficiais. Mas a palavra é lançada e dará seus frutos com o tempo. Francisco não tem pressa, não reivindica nada.  Simplesmente diz: ‘Abram os olhos, reparem o que acontece na realidade’.

 

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Jesus e a mulher.

 

A originalidade da fala do papa remete a uma reflexão sobre o comportamento de Jesus em relação à mulher. Em primeiro lugar, observo que, nos evangelhos, diversas mulheres se comportam diante de Jesus como mães, como aquelas que ajudam o filho a enxergar, como agir em determinadas circunstâncias e a corrigir comportamentos incorretos. A mulher siro-fenícia chama a atenção de Jesus para seu enraizado nacionalismo judaico, a mulher doente lhe mostra que é preciso saber parar para atender às pessoas e a mulher do perfume lhe dá uma lição inesquecível de ternura (sucessivamente Mc 7, 24-30; Mc 5, 24-34 e Mc 14, 3-9). Mais tarde, quando está pendurado numa cruz, as mães estão presentes, de longe. Os homens fugiram todos, como relata o Evangelho de Marcos.

Podemos cavar um pouco mais. Em 1989, a Editora Vozes publicou um pequeno livro, intitulado Fragmentos dos Evangelhos apócrifos, em que aparecem textos que mostram como o comportamento de Jesus em relação à mulher suscita, já no século II, intensas discussões. Evoco aqui dois desses textos: o Evangelho de Maria (pp. 139-144) e o último ‘logion’ (n. 114) do Evangelho de Tomé (p. 99).

- O primeiro, desde sua publicação em 1955, atrai a mais viva atenção dos comentaristas. É baseado em dois fragmentos gregos do século III e numa tradução copta do século V, cujo manuscrito foi adquirido em Cairo no ano 1896 e só publicado em 1955, na onda de publicação dos textos de Nag Hammadi. O texto parece ter circulado desde cedo nas comunidades, pois consta em diversas referências patrísticas. Desde sua pristina divulgação, talvez já no século II, suscitou a mais viva resistência por parte de uma igreja em rápido processo de masculinização, cujo símbolo principal era a figura de Pedro. Sua circulação suscita sentimentos subconscientes, que emergem de um fundo multimilenar. Cria desconforto, resistência e, em alguns casos, conflito aberto. O Evangelho de Maria, então, passa por um período de marginalização e suspeição, para depois, com a vitória da ‘ortodoxia’ após séculos de luta contra ‘heresias’, desembocar em silêncio e ulterior esquecimento.

A questão é que, no referido evangelho, Jesus coloca a mulher no centro da igreja. A figura central se chama ‘Maria’. Trata-se de Maria Madalena. Embora o nome ‘Madalena’ não apareça no título, é claro que se trata da apóstola de Mágdala, pois seu nome vai 17 vezes mencionado no documento.

Cito alguns dos trechos do Evangelho de Maria que interessam mais. Pedro, decididamente, não gosta nada da aproximação entre Jesus e Maria Madalena. Será que o Salvador falou secretamente com uma mulher sem combinar conosco? Será que nós temos de escutá-la? Será que ela é maior que nós? Levi interfere: Se o Salvador lhe deu valor, quem é você para rejeitá-la? Sem dúvida, o Salvador a conhece muito bem. Ele tem mais estima por ela que por nós. E fica nisso. A discussão termina ali.

- Um segundo texto é o Evangelho de Tomé, que mencionei acima. No ‘logion’ 114, no final do texto, Jesus assume a defesa de Maria Madalena: Simão Pedro disse: ‘Que Maria saia do nosso meio. As mulheres não são dignas da vida’. Disse Jesus: ‘Vejam, eu vou fazer dela um homem, par que ela também se torne um Sopro Vivo, igual a vocês, homens. Pois cada mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus’ (Vozes 1997, p. 211).  Jesus se refere aqui ao preconceito, muito difundido na época, de que a mulher não seria apta a pensamentos mais profundos. Ele declara que seu posicionamento diante da mulher foge a esses preconceitos. Eu vou fazer dela um homem, ou seja, ‘para mim não faz diferença, homem ou mulher’. Vale ressaltar aqui que, dentro e fora do movimento de Jesus, não se admite, na época, que uma mulher exerça autoridade sobre homens. O filósofo latino Celso, do século II, acha ridículo ver um homem sentado aos pés de uma mulher a receber conselhos. E o teólogo Orígenes, que escreve para refutar Celso, não sabe bem o que dizer sobre esse ponto, pois não está isento do mesmo preconceito. Ele também acha ‘indecente’ uma mãe ensinar as coisas aos seus filhos. Às filhas, sim, mas não aos filhos. Ele acha que uma mulher que ensina a meninos desmoraliza o ensino cristão (Orígenes, Homilia em Isaías 6, 3. Citado em: Nürnberg, R.,´Non decet neque necessarium est, ut mulieres doceant´, em: Jahrbuch für Antike und Christentum, 31 [1988], pp. 57-73).

 

Não resisto à vontade de terminar este texto citando um trecho do artigo As mulheres e o futuro da Igreja, escrito pelo teólogo francês Joseph Moingt (1915-2020), jesuíta como Bergoglio, e publicado na Revista jesuítica francesa Études, de janeiro de 2011.

Os encontros de Jesus com mulheres não têm nada de casual. Principalmente no Evangelho de João aparece a intenção de Jesus no sentido de colocar a mulher como exemplo. Jesus pratica seu primeiro milagre, em Cana, por solicitação de sua mãe; em diversas ocasiões erige mulheres como modelos de fé e realiza curas que atribui à sua fé; da unção recebida de uma mulher na vigília de sua morte faz um memorial de sua paixão que prescreve seja transmitida às gerações futuras; dá crédito às duas irmãs, suas amigas, Marta e Maria, como autênticas discípulas, recebendo de uma delas o melhor testemunho de sua divindade: ‘Tu és a Ressurreição e a Vida’, e apresentando a outra como o perfeito receptáculo de sua Palavra: ‘Maria escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada’. Enfim, é a outra mulher, outra amiga, Maria de Mágdala, que aparece por primeira vez na saída do túmulo e a quem confia a mensagem de sua ressurreição, a fim de que ela comunique a Boa Nova aos seus apóstolos.

Jesus acreditou nelas, confiou nelas, lhes confiou seu Evangelho, como aos seus apóstolos, talvez de modo diverso: não as envia a percorrer o mundo, mas, de modo não menos autêntico, faz delas transmissoras da missão que havia recebido do Pai de difundir a vida no mundo. Desse modo, convida sua igreja a se apoiar em mulheres para continuar sua obra. Em suma, não pode ser deduzido nenhum princípio de exclusão das palavras ou dos exemplos de Jesus, em nada diversos de uma insistente exortação a não temer de encarregar do ministério do Evangelho qualquer um, homem ou mulher, uma vez que tenha bastante fé nele para oferecer-se a esta tarefa: porque somente ele dá a força de levá-la em frente e de fazer que produza frutos.

Mas o problema principal não consiste em dar poder às mulheres. Não nos embalemos em ideias idílicas: encontrar-se-iam facilmente mulheres extasiadas pela ideia de entrar no personagem do padre, transmitindo-nos igualmente uma dose de sedução, da qual se sabe que torna o poder mais perigoso. Trata-se, acima de tudo, de renovar o terreno das comunidades cristãs, de nelas instaurar liberdade, alteridade, igualdade, corresponsabilidade, cogestão, de nelas deixar penetrar as preocupações do mundo exterior, de tornar as celebrações mais conviviais, à imagem das primeiras refeições eucarísticas nas quais se compartilhava o pão e os víveres sob a presidência benévola de um pai de família.

Não se correrá, então, o risco de subverter o poder monárquico sobre o qual a tradição construiu a organização da instituição eclesiástica? Talvez, mas devemos apavorar-nos em relação a isso antecipadamente? Não é da boca de uma mulher que vem a profecia: ‘Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes’? Não se trata de subverter seja o que for, mas de exaltar o que é injustamente discriminado.

A mulher é o futuro da Igreja? A mulher é e será o futuro da Igreja.

 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A coragem e a lucidez da Irmã Lúcia Caram

 

 Eduardo Hoornaert.


 

Uma das últimas notícias do ano 2021, no campo religioso, é das mais insólitas. E mais interessantes. No início de dezembro, o Convento de Santa Clara, en Manresa, na Catalunha (Espanha), anunciou que deixava de ser um convento de clausura para poder exercer um trabalho em favor dos mais vulneráveis da sociedade.

Santa Clara de Manresa é uma fundação muito antiga, oriunda do movimento franciscano em seus inícios. Já entre o final do século XIII e início do século XIV, irmãs de Santa Clara se estabelecem em Manresa, no exato lugar onde Inácio de Loyola, mais de dois séculos depois (no século XVI) vai meditar e planejar a formação da Companhia de Jesus. O impressionante conjunto de edifícios passa, no XVII, para as mãos de irmãs dominicanas de clausura.

Agora, recentemente, a religiosa dominicana Lúcia Caram, de origem argentina, passou a ser superiora de Santa Clara e começou uma experiência de passagem de vida contemplativa à vida religiosa ativa, de caráter social. Seguida por diversas religiosas, apoiada pelo Papa Francisco,

 

a irmã Lúcia Caram (à direita do papa, na foto), juntamente com um grupo de religiosas dominicanas, conseguiu se desvincular da Federação Dominicana chamada Imaculada e mudar as regras de vida da comunidade religiosa. O grupo conseguiu superar impedimentos burocráticos. A iniciativa no sentido de abandonar uma regra incompatível com um trabalho social em favor dos necessitados - algo que essas irmãs vêm realizando desde mais de uma década sob a liderança de Lúcia Caram através da ‘Fundação do Convento de Santa Clara’ – tem redundâncias de longo alcance e nos aponta a possibilidade de abandono de um princípio, que orienta a vida religiosa desde muitos séculos. Uma mudança ainda incerta nos dias que correm (afinal, a experiência de Santa Clara em Manresa é algo muito isolado pelo momento), mas que merece nossa atenção e reflexão. Daí o texto que segue.

 

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O princípio contemplativo.

 

Temos de cavar fundo na história para perceber o que está por trás da decisão daquelas irmãs de Santa Clara em Manresa. Na opção por vida contemplativa, entra um fator absoluto e um fator relativo. O fator absoluto reside na vinda de Deus numa vida humana, o relativo ao fato que a resposta ao apelo de Deus é historicamente condicionada e, portanto, sujeita a precariedades, provisoriedades e fragilidades próprias de tudo que é histórico. No caso da opção por uma vida contemplativa, entram, ao lado do mencionado fator absoluto, os condicionamentos da tradição cristã no longínquo século III.  

No século III dC, o cristianismo se impregna progressivamente de elementos da cultura helenística, hegemônica em toda extensão do Império Romano da época. Forma-se um só tecido, em que sabedoria grega e espírito cristão de tal modo se entrelaçam que fica quase impossível destrinchar o que provém do evangelho e o que deriva de influências helenísticas na época, concretamente da sabedoria neoplatônica.   

 

Explico-me. Quando, no ano 244 dC, o filósofo alexandrino neoplatônico Plotino (203-269 dC), aparece em Roma e aí forma uma escola de filosofia, ele alcança um renome extraordinário em poucos anos. A filosofia de Plotino, na realidade uma sabedoria de vida, capta admiravelmente a solidão dos indivíduos nas grandes cidades do Império Romano. Ao sentimento de vazio, ela responde com uma arte de vida que ensina o amor pelas realidades espirituais, a purificação do amor, partindo do que é ‘material’ ao que é ‘espiritual’.

O sucesso dessa filosofia é tão intenso que o neoplatonismo vai permeando aos poucos a inteligência e a espiritualidade cristãs. Não exagero quando falo aqui em ‘violação'. A ‘alma’ (psuchè) da filosofia platônica de tal modo subjuga o ‘espírito’ (ruah) da tradição bíblica, que esse último quase desaparece. Uma absorção quase completa. Cria-se uma confusão que perdura por longos séculos. Muitos confundem ‘alma’ (princípio oposto a ‘corpo’, segundo Platão) com ‘espírito’ em sentido bíblico. Passa-se a falar em ‘espiritualidade’ num sentido platônico, dentro da pressuposição de um ‘espírito mergulhado em matéria’.

Nas comunidades cristãs se opera um progressivo processo avassalador. Tudo começa nas comunidades de Alexandria, no Egito, a segunda cidade do Império Romano, onde, já no início do século III, as interpretações neoplatônicas tomam conta da reflexão cristã, como se verifica nos escritos de Clemente de Alexandria e Orígenes, e se alastra pelas comunidades espalhadas pelo universo do Império Romano. Aparece uma multiplicidade heterogênea de filosofias e ‘artes de vida’, todas inspiradas nas ideias do filósofo grego Platão, atingindo comunidades cristãs pelo mundo afora. Podemos dizer que Plotino promove uma síntese entre o pensamento grego e a visão bíblica do mundo, o que, para muitos observadores, é um enriquecimento. Não será que estamos aqui, na realidade, diante de um ocultamento? O ocultamento da dimensão social da vida cristã, o esquecimento do imperativo evangélico da opção por fracos e despossuídos?

 

O neoplatonismo cristão, ao se caracterizar por uma categórica oposição entre o espiritual e o carnal, resulta na aversão frente ao mundo dos sentidos, os cinco sentidos que nos colocam em relação ao mundo e nos fazem enxergar o que nele se passa. O mestre neoplatônico recomenda uma rigorosa ascese, com a finalidade de a pessoa se libertar da matéria. Isso fica claro nos escritos dos Padres da Igreja, os intelectuais dos séculos III a V, todos, de um ou outro modo, afetados pelo neoplatonismo. No século V, Agostinho abre largas portas para sabedorias neoplatônicas, que doravante se infiltram em sermões, catecismos, teologias. No neoplatonismo agostiniano, tempo e história perdem seu sentido. O cristão neoplatônico não pensa em política, nem em questões sociais. Para ele, o drama se processa entre a alma e Deus. Os impulsos do corpo devem ser controlados e possivelmente eliminados. O acento cai na contemplação e na meditação, nos chamados ‘exercícios espirituais’. Enfim, tudo emana da razão e da vontade, não dos impulsos do corpo. O corpo deve ser mortificado.

 

Dou alguns dados a mais, acerca da compreensão platônica do mundo e da vida. Abaixo do mundo divino, onde o mal não penetra, existe a matéria, onde a luz divina só penetra em forma de sombra (veja o ‘mito da caverna’, de Platão). A matéria é o último reduto das trevas, a raiz do mal que afeta a vida humana. O corpo, morada da alma na matéria, é um espaço ambíguo: ou se deixa seduzir pelas formas vãs da matéria, ou se fascina com a luz imaterial. O corpo é prisão e sepulcro, mas pode se tornar trampolim para a luz. Precisa a alma tomar distância diante dos impulsos do corpo, por meio do amor pelas realidades espirituais, pela purificação do amor. O homem precisa deixar para trás o mundo material e caminhar para o mundo espiritual. Precisa a alma arrancar tudo de si para amar o que é invisível, fechar os olhos diante da materialidade e esperar o Deus que vem, assim como, antes da aurora, nossos olhos esperam a chegada da luz do sol. Para perceber a luz espiritual, há de se exercitar a ‘contemplação’. Quando o sol chega, ele logo toma conta de tudo. A luz espiritual dissipa as trevas da matéria. Eis algumas imagens usadas por Plotino.

 

O resultado: enquanto o neoplatonismo se ‘cristianiza’, o cristianismo se ‘neoplatoniza’. Esse é o processo. A perspectiva social, onipresente nos evangelhos, desvanece. Aparece um drama de outro tipo, o drama que se processa entre a ‘alma’ e Deus. Os impulsos do corpo são controlados e possivelmente eliminados, enquanto o ápice da experiência cristã passa a ser a contemplação de Deus.

A facilidade com que o neoplatonismo penetra no mundo cristão se deve, entre outros, ao fato que ele, impregnado de um senso religioso agudo e místico em seus intentos, parte de uma concepção muito próxima ao monoteísmo bíblico, o que faz com que muitos confundam as coisas e não consigam distinguir com clareza entre cristianismo e neoplatonismo.

 

Termino ressaltando que a interpenetração entre cristianismo e neoplatonismo se processa de forma lenta, quase imperceptível. Nem sempre aparece com clareza no nível dos textos. Nem sempre é fácil saber se tal Padre da Igreja é um pensador cristão imbuído de ideias neoplatônicas ou um neoplatônico que trabalha com imagens e símbolos cristãos. O caso de Agostinho (século V) é sintomático: será ele um místico neoplatônico que usa categorias cristãs ou um místico cristão que recorre a categorias platônicas? Quem dirá?

 

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Conventos de clausura.

 

A expressão convento de clausura, que aparece nos termos da decisão tomada pela Irmã Lúcia Caram e suas coirmãs em Manresa, tem a ver com o que acabo de descrever. Tem a ver com espiritualidade neoplatônica.

 

Explico. Sendo a filosofia neoplatônica uma arte de viver, ela tem um grande impacto na vida cotidiana, não só nas altas classes romanas, mas igualmente no meio do povo, nas comunidades cristãs. É dessa impregnação que nasce o movimento monacal. Já no século III, o século de Plotino, grupos andam pelo mundo à procura de ‘espiritualidade’. Grupos compostos de pessoas que rejeitam o modo de vida na cidade e preferem andar pelo mundo. Os ‘monachoi’ são, em sua maioria, camponeses que vivem à margem do mundo estabelecido, nos terrenos ainda inexplorados que rodeiam as cidades e vilarejos do Oriente cristão. Sua experiência nos fornece um ‘insight’ na vida de coptas, sírios, palestinenses, capadócios, habitantes do Ponto, africanos do norte, etc. nos séculos III e IV. Gente que, de outro modo, nunca teria entrado na literatura.

O ‘monachos’ (monge) anda sozinho, ele não se estabelece numa ‘casa’, mas anda só, sem vínculo (em grego, a palavra ‘monos’ significa ‘solitário, sem vínculo’), recusa a vida cidadã sedentária. Ele ‘foge do mundo’ e ‘vai ao deserto’.

Todas as localidades do mundo romano antigo têm seu ‘deserto’ (seu ‘erèmos’, em grego). Ou, para falar em termos brasileiros, seu ‘mato’. É no mato, em torno das conglomerações humanas, onde vivem os bichos, que encontramos o monge, que precisa vencer o medo dos bichos (alguns perigosos como leões e cobras) e saber arranjar sua comida (normalmente por mendicância) para sobreviver. Normalmente, a distância topográfica entre a cidade e o ‘deserto’ é pequena. Muitos desses ‘anacoretas’, ‘eremitas’ ou ‘monges’ vivem ao alcance da vista das pessoas que vivem na cidade ou no vilarejo. O monge fica por um período longo numa cela solitária rezando, jejuando, sem falar com ninguém. A qualquer momento ele parte de novo e vai caminhando, se for monge de verdade.

Com o tempo, principalmente na imensidão do Egito, esses ‘monges’ e ‘monjas’ se congregam em casas comuns, em ‘mosteiros’ ou ‘conventos’.  Exemplo paradigmático é a ‘congregação’ em torno do monge Pacômio, que já conta com três mil mosteiros em 340, data de sua morte.

A experiência se desdobra, ganha corpo, atravessa os séculos, conquista o universo cristão e acaba marcando profundamente o universo cristão, tanto no Ocidente como no Oriente.

 

Sabemos todos/as que o monarquismo não se restringe ao mundo cristão e que existem, milenarmente, monaquismos budistas, hinduístas e shintoistas, hoje com crescente influência no mundo cristão. Por isso quero deixar claro que aqui só trato de monaquismo cristão de cunho platônico e que me limito a afirmar que é esse tipo de monaquismo que se espalhou larga e longamente no universo cristão e o caracteriza até hoje. Meu intento consiste em mostrar que a impressionante proliferação de conventos de clausura e mosteiros, ao longo de séculos, muito tem a ver com um movimento de espiritualidade grego-cristã, denominado neo-platonismo, com os pressupostos acima descritos.

 

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A coragem e a lucidez da Irmã Lúcia Caram.

 

Diante desse painel histórico, as figuras da Irmã dominicana Lúcia Caram e de suas coirmãs ganham alto relevo. Essas mulheres captam o que se passa no mundo e percebem que um modelo de vida religiosa vai esvaecendo. Decidem abandonar a vida ‘contemplativa’ e abraçar a vida religiosa ‘ativa’. Vanguarda de uma geração que entende que o declínio do paradigma contemplativo acontece por toda parte, de modo variado e intermitente, com altos e baixos, sucessos e derrotas, oposições e adesões.

As religiosas de Manresa sabem que o instituto eclesiástico, em geral, reage com nervosismo diante desse declínio em marcha e não se sente bem no novo mundo que vai se delineando. Sabem que isso gera um labirinto tão intricado de explicações, controvérsias e hipóteses, que resulta praticamente impossível traçar linhas minimamente claras. Elas sabem igualmente que a ´vida religiosa‘, em não poucos aspectos proveniente do passado, está na iminência de perder o trem da história e que a igreja está numa encruzilhada, parada. Ainda não decidiu que direção tomar, ainda não respondeu aos desafios de nosso tempo.

O perigo de descarrilamento é real. Se não houver posicionamento por parte dos/as próprios/as religiosos/as, muitos conventos, principalmente os que se situam em centros históricos (e turísticos) de cidades importantes, seguirão a lógica do mercado imobiliário, ou seja, serão transformados em hotéis, pousadas ou restaurantes de luxo.

- Aqui em Salvador, já faz anos que o histórico Convento do Carmo, no centro turístico da cidade, virou um hotel cinco estrelas. 

- Na cidade em que nasci (Bruges, na Bélgica, cidade histórica), o Convento de Santa Clara foi vendido e as irmãs foram morar num castelo no sul da França.

- Em muitos lugares turísticos, ‘pousadas’ são na realidade conventos transformados.

Refiro-me apenas a alguns casos que conheço pessoalmente. Não conferi dados estatísticos (se é que existem).

 

Penso que se trata de um tema que interessa a todos/as que participamos da cultura ocidental, que sejamos cristãos ou não. Pois, não raramente, os conventos constituem um patrimônio cultural de valor e, nesse sentido, podem ser considerados patrimônios da sociedade como um todo. Seu destino interessa à sociedade como um todo.

Será tão inconveniente ver roupa lavada estendida em janelas de conventos, encontrar crianças brincando nos venerandos pátios e moradores de rua cuidando, com todo respeito, em preservar o ‘patrimônio’ em que residem? O destino, irremediavelmente, tem de ser a hotelaria, o turismo, a lógica imobiliária? Isso é irreversível?  Moradores de rua, hoje, já não se abrigam em degraus de igrejas e conventos, nos centros de nossas cidades? Por que não se lhes abre a porta?

 

Falo de um processo que só tem chances de surtir efeito por meio de uma decisão por parte dos/as efetivos religiosos/as de convento, como demonstra o exemplo das Irmãs de Manresa. Aqui, mais que em outros processos, decisões de cima para baixo correm o perigo de não dar em nada. Os superiores podem incentivar a reflexão, mas - afinal – a transformação da vida ‘contemplativa’ em vida ‘ativa’ depende de uma transformação no foro interior dos próprios habitantes de conventos. Por isso as considerações de teor histórico, que pincelei acima.

 

Termino com os depoimentos de duas pessoas que conhecem de perto a experiência de Santa Clara de Manresa:

- Josep Miquel Bausset (81 anos), monge de Montserrat na Catalunha, ao aludir à decisão das Irmãs de Manresa: A vida contemplativa se torna um problema quando deixamos de viver como discípulos de Jesus e nos tornamos uma caricatura do que teríamos de ser. Como a figueira estéril que não dá fruto.

- Gemma Morató, uma religiosa catalã muito ‘mediada’:  Não creio que nada morra com essa iniciativa das irmãs de Santa Clara. Ao contrário, é uma inovação. Oxalá muitos conventos, mosteiros, congregações e institutos se mostrem capazes de se perguntar o que lhes inspira o Espírito hoje.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

A opção de Marina Bandeira

 Eduardo Hoornaert


 

Este texto é um comentário do primeiro capítulo do livro Vigília e Testemunho, uma autobiografia que Marina Bandeira (1925-2019) redigiu entre 2008 e 2011 e que foi digitalizada e publicada como e-book em novembro 2013 pelo ‘Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade’ (CAALL). Esse é o primeiro livro que li por inteiro em PDF (Portable Document Format), projetado em letras grandes em meu computador, o que permite uma leitura fácil.

O livro contém 370 páginas, subdivididas em capítulos que focalizam eventos sucessivos na vida de Marina. Cada capítulo vai subdividido em breves narrativas: episódios vividos pela autora, reflexões esporádicas. Estilo direto, não rebuscado. Afinal, uma literatura bem próxima da oralidade. O primeiro capítulo, intitulado XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, contém 40 subdivisões. O segundo, intitulado Comissão Justiça e Paz, tem 11, o terceiro, Fundação Nacional do Bem-estar do Menor, 7, e o quarto, Retorno à Comissão Justiça e Paz, tem apenas 6 subdivisões. Isso significa que o primeiro capítulo contém três quartos do texto de Marina. É nele que me concentro. Desde já escrevo que, nesse capítulo, entram muitos episódios vividos no Movimento de Educação de Base (MEB), um trabalho que roubou o coração de Marina.

Numa primeira leitura, as memórias de Marina vão descritas de modo linear, sem relevo. Mas, quem lê o Prefácio (pp. 9-11), redigido pelo Professor Cândido Mendes, fundador do CAALL, percebe que, por trás das aparências, o texto tem relevo, sim. Expressa uma ‘opção’. Eis como Cândido Mendes se expressa, em seu estilo característico: Marina Bandeira sempre optou, ao longo de sucessivos empreendimentos, por abandonar os aparelhos para se aproximar do espontaneismo coletivo e de sua auto-organização. O Professor Cândido vê Marina como uma navegadora por muitas águas, mas sempre com bússola na mão, a indicar o ‘norte’. Ela procura passar de trabalhos em aparelhos (trabalhos articulados a partir de organismos estabelecidos por autoridades, sejam estas civis, militares ou eclesiásticas), ao espontaneismo coletivo e de sua auto-organização (trabalhos oriundos de iniciativas).

Neste texto, sigo a intuição de Cândido Mendes. Marina Bandeira, efetivamente, não mergulha de corpo e alma em projetos com a Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), que ela aborda no terceiro capítulo de seu livro. Trata-se de um projeto do governo brasileiro e Marina não vê a hora de abandonar os trabalhos na Funabem e voltar à Comissão Pontifícia Justiça e Paz, com a qual colabora ao longo de 25 anos. E, mesmo em relação à CPJP, Marina fica sempre ‘com um pé para trás’. Quando recebe o convite de se tornar Coordenadora Internacional de dita Comissão, sediada em Roma, ela recusa peremptoriamente: essa não é minha praia. Trata-se de um projeto que, afinal, também cai ‘de cima para baixo’ e, daí, corre o perigo de se perder na burocracia.

Em vivo contraste com esses projetos ‘governamentais’, Marina embarca com entusiasmo em iniciativas ‘espontâneas’. Quando ela ouve falar, numa data que não sei precisar, de um grupo de mulheres, no Rio de Janeiro, que se reúne mensalmente, ela se anima em participar (descrevo essa iniciativa no parágrafo 02 deste texto). Com o mesmo entusiasmo recebe, em 1954, a sugestão, por parte de José Vicente Távora, na época bispo auxiliar no Rio de Janeiro, de colaborar na preparação do 36o Congresso Eucarístico Internacional (veja parágrafo 04). Nesse contexto, ela entra em contato o outro Bispo auxiliar do Rio, Helder Camara. Aí mergulha de vez em projetos alternativos, que a levam a participação entusiasta na Cruzada São Sebastião, no Banco da Providência, na Feira da Providência. Tudo isso na segunda parte dos anos 1950. Quando ela ouve falar de escolas radiofônicas educativas, em Natal, por iniciativa de Dom Eugênio Sales, e quando Dom José Vicente Távora a convida formalmente no sentido de colaborar no ‘Movimento de Educação de Base (MEB), Marina não hesita. Dedica ao MEB os melhores anos de sua vida (15 anos). Deixo de comentar muitos outros episódios, pois não é minha intenção escrever uma nova biografia de Marina (!). Apenas ainda aponto aqui que, já nos últimos anos de sua atuação, ela se sente bem a dar suporte logístico à Comunidade de Emaús e agradece o acolhimento que lhe é dispensado pela CAALL. Tudo isso se encaixa na distinção, feita por Cândido Mendes, entre trabalhos ‘mandados’ e trabalhos ‘espontâneos’, no transcurso da vida de Marina Bandeira.

 

Escrevi acima, na primeira frase deste texto, que aqui só pretendo comentar o primeiro capítulo da biografia Vigília e Testemunho. Divido meu texto em cinco parágrafos: (1) O ambiente familiar; (2) Um grupo feminino; (3) Mulheres que mexem com a igreja; (4) O ano 1955. Os parágrafos 02 e 03 constituem, na realidade, uma pré-história da atuação de Marina. Mesmo assim, fiz questão de mencionar esses anos anteriores à atuação de Marina, pois isso ajuda a situar sua vida no contexto mais amplo de uma atuação feminina marcante na cúpula da igreja católica no Brasil, entre 1940 e 1980.  Só no parágrafo 04, Marina entra em cena. Mas não resisto à vontade de juntar um quinto parágrafo (5), em que conto como Marina, certa feita, no Vaticano em Roma, transformou uma audiência privada com o Papa Paulo VI num tête à tête com ele, em cima de todos os regulamentos protocolares. Um episódio que, em meu entender, caracteriza bem o modo de ser de Marina Bandeira.

 

Primeiro parágrafo: o ambiente familiar.

 

Deixemos a palavra com Marina: Por temperamento e formação na família, eu era contra a ditadura. No caso, a de Vargas, do Estado Novo. Minha mãe e minha avó materna estudaram na Inglaterra, logo, tradição democrática. Meu pai se formara em Engenharia nos Estados Unidos. Faleceu aos 45 anos, em 1935, mas gravei diversos comentários sobre os horrores da Revolução Russa: ‘Havia muitos abusos, antes e agora se vingam. É como navio lançado ao mar: tende para um lado, para o outro, depois acerta o rumo’. Criticava os abusos do ditador Mussolini. Contava que amigo seu, mexicano, na universidade, nos Estados Unidos, dizia que a sorte do Brasil era não ter fronteira com eles. Meu pai não pertenceu à Aliança Nacional Libertadora, mas era simpatizante. Em resumo: tinha tendência para a esquerda.

Morávamos em Ipanema, naquela época bairro novo, uma espécie de Liga das Nações, com a presença de vários estrangeiros: funcionários de embaixadas e consulados e de sedes de grandes empresas estrangeiras. Brincávamos com crianças inglesas, alemãs e francesas e, é claro, com brasileiras, como a família Paranhos. Após a morte de meu pai, minha mãe, chefe da família, teve de sustentar os cinco filhos: a mais velha com 13 anos, a segunda com 12, eu com 10 anos incompletos, meu irmão com 6 e a mais moça com 2 e meio. Minha mãe, depois de fazer traduções em casa, trabalhou, durante a Segunda Guerra Mundial, na Base Naval Americana, no Rio – com salário equivalente ao de almirante da Marinha de Guerra do Brasil, mas trabalhava no Carnaval e na Semana Santa etc., pois se tratava de “esforço de guerra”. Enfim, são recordações de criança, de adolescente (Vigília e Testemunho, p. 39).  

 

Ela continua com recordações familiares nas páginas 84-87: Meu vovô pertencera à Loja Maçônica na juventude, fez seus estudos de Medicina em Salvador e no Rio de Janeiro e especializações em Viena, Milão e Paris. Já casado, com dois filhos, foi eleito por Pernambuco para a primeira Assembleia Constituinte da República. Em discurso inflamado em que criticava o marechal Floriano, então no poder, renunciou ao mandato e abriu consultório médico no Rio. Na maturidade, tornou-se católico praticante. A maioria de seus pacientes era inglesa anglicana... Minha mãe e irmãs estudaram no Colégio Holy Child Jesus, na Inglaterra, no qual os católicos, por motivos históricos, eram minoria discriminada. Para facilitar o diálogo com cristãos não romanos, no colégio estudavam a Bíblia, em tempo de forte influência do cardeal Newman, de visão bem aberta. Duas irmãs de minha mãe tornaram-se religiosas da Sociedade do Sacré Cœur de Jésus. A terceira, botânica, aluna do professor Pacheco Leão, após a morte dos pais, veio a ser assistente de professor na Escola de Botânica da Sorbonne, em Paris, mas retornou ao Rio e entrou para o Carmelo de Santa Teresa. A nós, crianças – ela era muito querida –, explicava que, ante a tentação de candidatar-se a “vereadora comunista”, pois eram tantas as injustiças sociais, preferiu a clausura: pedir ajuda constante a Deus. Meu tio, engenheiro, depois fazendeiro, benfeitor dos jesuítas, era conhecido como “jesuíta de casaca”. A família de meu pai era espírita (Allan Kardec), mas papai, ao se casar, rapidamente deixou de frequentar as sessões e passou a apoiar minha mãe em nossa educação católica. Havia parentes judeus. Meu pai trabalhava em empresa de ingleses anglicanos.

Após a morte de papai, mamãe decidiu que os parentes mais próximos eram as tias freiras do Sacré-Cœur. Pagava as mensalidades de nós três, talvez com algum desconto. Minha tia Mère Christina Bandeira era a diretora de estudos. Ao fim do primeiro dia de aula, que consistia na leitura em francês do regulamento do colégio – todas as alunas reunidas no imenso Salon des Actes –, convocou nós três ao seu gabinete, no prédio então inaugurado, no Morro da Graça, no bairro de Laranjeiras. Há tempos não convivíamos com essa tia, por motivo de atritos durante o inventário dos meus avós. A nós três, de fumo no braço (faixa preta, sinal de luto), perguntou se tínhamos entendido o “règlement”. Ante a resposta afirmativa, declarou: “O règlement se aplica a todas as alunas, mas a vocês com maior rigor. A partir de hoje, não há mais tia Christina, sou Mère Bandeira”. Era manifestação do sentido de duty inglês. Nada de nepotismo.

Tive dificuldade de me adaptar ao colégio. No Colégio Notre Dame de Sion, passamos apenas o segundo semestre (até a morte de papai) antes de ir para o Sacré-Cœur de Jésus, onde fiquei dos 10 aos 17 anos. Se não era indisciplinada, também não ganhei medalha por bom comportamento, ou outra qualquer. Mas fiz boas amigas... Para nós, semi-internas, a missa era diária, às 8 horas.

 

Essa educação, que se pode qualificar de ética, rigorosa e elitista, fez de Marina uma mulher que sabe se comportar em todos os ambientes, inclusive na ‘alta sociedade’ nacional e internacional, sempre demonstrando um comportamento ético a toda prova.

Marina é uma ‘senhora’, uma ‘lady’. Há um delicioso episódio que ela mesma conta nas páginas 166-168 de seu livro sob o título: four brazilian ladies.  Cito (com ligeiras adaptações no texto original): Em Nova York, setembro de 1964, no hotel, recebo um telefonema comunicando que ‘Her Majesty the Queen’ (Sua Majestade a Rainha [da Inglaterra]) me pergunta se aceito seu convite para ir à Inglaterra (num programa de intercâmbio cultural) com outras três brazilian ladies, entre os dias 24 de setembro e 21 de outubro de 1964. (Aceito e empreendemos a) viagem em primeira classe na British Airways, um luxo só.  Em Londres, carro com motorista para nossos deslocamentos. Instaladas em bom hotel, onde, no jantar para as boas-vindas, tivemos a companhia de lady Edith Summerskill, médica, antiga deputada pelo Partido Trabalhista (Labour Party), agora na Câmara dos Lordes. Jantar interessantíssimo para nós. Lady Summerskill não escondeu sua surpresa: ‘Não sabia que no Brasil existiam mulheres como vocês!’...Fomos a Birminghan, Stratford-upon-Avon. Assistimos a um balé no Royal Covent Garden e à apresentação de uma orquestra no Royal Albert Hall, etc., etc.

Esse depoimento dispensa comentários, pois demonstra quanto Marina deve ao ambiente em que nasceu e se formou. Depois de ler essas memórias, em que cintila vida e alegria, compreendo o cuidado da sobrinha Marina Bandeira Klink em cultivar a memória da família Bandeira. Vale a pena.

 

Segundo parágrafo: Um grupo feminino.

 

O que vou contar aqui constitui uma pré-história no percurso da vida de Marina Bandeira. A história começa com Virgínia Côrtes de Lacerda, uma leiga católica que, no início dos anos 1940, ensina numa universidade do Rio de Janeiro e se encontra diariamente com o padre Helder Camara por ocasião da missa matutina no Hospital Ana Nery. Ambos passam a trocar livros para leitura. É que o referido sacerdote está passando por uma fase na vida em que se torna um leitor quase obsessivo, de tanto procurar se orientar, numa igreja basicamente autoritária, por paradigmas democráticos (Veja: Lucy Pina Neta, O Dom da Leitura. Helder Câmara e suas bibliotecas, São Paulo, Edições Paulinas, 2018).

Virgínia fica intrigada com as numerosas anotações a mão que aparecem nas margens dos livros que Helder lhe empresta, as datilografa por conta própria e as encaderna. Acha tão interessantes essas anotações, que convoca algumas amigas a ler e comentá-las em reuniões mensais que, bem no estilo da Ação Católica da época e de suas ‘equipes de vida’, constituem momentos de lazer e arte (cinema, teatro, com comentários) alternados com momentos de espiritualidade (uma manhã por mês). Essa vontade, no sentido de compartilhar impressões, planos e espiritualidades, corresponde bem a um sonho do padre Helder Camara, que acalenta, desde muito, formar um ‘círculo de leitura’, como realça Lucy Pina Neta no trabalho acima mencionado.

Com o tempo se forma uma real ‘equipe de vida’ que acompanha o padre e depois bispo Helder ao longo da vida e que, ao sabor de sua insuperável inventividade, no correr do tempo, ganha diversos nomes: Grupo Confiança, Família São Joaquim, Apostolado Oculto, Família Messejanense, ou simplesmente Família. Finalmente, prevalece o nome ‘Família Messejanense’, alusão a um distrito da cidade de Fortaleza no Ceará (terra originária de Helder Camara).

Não me consta que Marina Bandeira, naqueles anos iniciais, tomasse algum contato com essa ‘Família’. Mas quando, a partir de 1954, nela se integrou, foi para valer. Efetivamente, a ‘Famíia’ de Helder Camara tornou-se uma das articulações mais criativas da igreja católica nos anos 1950-80. Os primeiros sinais de aproximação de Marina se deram por meio do padre José Vicente Távora. Eis o que ela escreveu a esse respeito: Minha convivência com conventos mostrou aspectos positivos e negativos. Ao sair do colégio, queria distância da “Igreja dos Padres”. A Europa devastada pela guerra marcou-me; afinal, todos eram países cristãos. O que é amor ao próximo? Onde fica o Evangelho? Foi o padre José Vicente Távora quem, com sua simplicidade, seu empenho diário em favor dos mais fracos, me fez ver que os ensinamentos dos Evangelhos, na prática, passo a passo, eram viáveis. No Palácio São Joaquim, para onde dom Távora me levou, encontrei clima de fraternidade e confiança. Os riscos de atritos pessoais foram resolvidos na raiz por dom Helder, dom Távora e Cecilinha Monteiro (Vigília e Testemunho, p. 89).

 

Terceiro parágrafo: Mulheres que mexem com a igreja.

 

Continuo com algumas palavras sobre a ‘pré-história’ da atuação de Marina. A assessoria, muitas vezes gratuita, de mulheres, em trabalhos de apostolado e secretaria, é algo comum na igreja católica. Mulheres que se prontificam a trabalhar por ‘amor a Deus e à igreja’. Elas consolidam, dia após dia, as bases do poder do padre junto ao povo, frequentemente suportam que esse as trate de forma paternal e costumam ser discretas em relação à sua condição de subalternas generosas.

Mas com o grupo em torno de Virgínia Lacerda e Helder Camara, as coisas são diferentes. Trata-se de um grupo feminino que ‘mexe’ com a igreja católica em sua organização interna.

 

Situado no bairro da Glória, setor histórico da cidade do Rio de Janeiro, palco dos mais garbosos bailes em tempos de Império na segunda parte do século XIX, na presença do Imperador Dom Pedro II, de Dona Teresa, do Marquês do Abrantes, do Visconde do Meriti (dono do Palácio), da alta sociedade do Rio de Janeiro, o Palácio São Joaquim é doado ao primeiro Cardeal brasileiro, Dom Arcoverde, no início do século XX. Desde então, funciona como moradia de Arcebispos e Centro Administrativo/Pastoral da Igreja Católica na Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 1948, o Arcebispo Cardeal Dom Jaime Câmara mora aí, quando fica surpreendido, segundo suas próprias palavras, pela conquista do térreo do Palácio por mulheres e, por conseguinte, se encontra na contingência de se retirar no piso superior.

 

Conto em poucas palavras como isso ocorre. Em 1947, o então padre Helder recebe a solicitação de reorganizar, em nível nacional, o movimento da Ação Católica. Ele aceita, mas sob uma condição: que sua ‘Família’ colabore no projeto. Assim, uma equipe feminina se instala no térreo do Palácio São Joaquim. E não demora em impressionar por realizar grandes trabalhos, em nível nacional, no lapso de tempo relativamente curto de quinze anos (entre 1947 e 1962): a reorganização nacional da Ação Católica; as articulações preparativas à criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, alguns anos depois, à criação do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). O padre Helder Camara e sua equipe trabalham intensivamente, conseguem centralizar em nível nacional atividades antes desarticuladas, espalhadas pelo país, de militantes da Ação Católica, ao criar um Secretariado Nacional e, com isso, conseguir que os militantes se sintam mais livres da tutela de bispos locais, ao mesmo tempo em que se superam o isolamento e a particularização num país imenso como o Brasil. O modelo de centralização nacional da Ação Católica é tão bem-sucedido que encontra ressonância fora do país: formam-se Secretariados Nacionais da Ação Católica pelo mundo afora. Em 1952, Helder é nomeado Bispo auxiliar no Rio de Janeiro e aplica logo a experiência bem-sucedida da Ação Católica à centralização de dioceses, ou seja, à criação de uma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que já mostra os primeiros resultados no final do mesmo ano 1952, quando Helder é aclamado, por unanimidade, como primeiro Secretário Geral da CNBB.

 

Na literatura corrente acerca desses sucessos, o foco comum é a figura de Helder Camara. Mas a teóloga Ivone Gebara, numa entrevista em 22 de agosto de 2019, encontra as palavras certeiras: Helder (Camara) é o que é porque havia mulheres extraordinárias que estavam junto dele. Palavras que se aplicam plenamente a Marina Bandeira.

 

Quarto parágrafo: O ano 1955.

 

Três anos depois da criação da CNBB, em 1955, a incansável equipe feminina consegue outro resultado espetacular. Ela é grandemente responsável pelo imenso sucesso do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro, onde o Brasil se torna, pela primeira vez em sua história, um palco do mundo.  O imenso sucesso projeta o nome de Helder Camara nacional e mesmo internacionalmente, enquanto a ‘Família’ fica na sombra.

Por volta de 1955, Marina Bandeira entra em cena. Deixemos a palavra com ela: Em 1954, deixei meu trabalho no Departamento de Imprensa da Embaixada da Índia para me dar um ano sabático. As férias duraram pouco: Dom José Vicente Távora, recém-nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, meu amigo, me pediu para colaborar na organização do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, que se realizaria entre 17 e 24 de julho de 1955, no Rio de Janeiro. Minha experiência na BBC em Londres (como locutora e tradutora júnior) e os contatos com a imprensa no Rio seriam úteis. Para aceitar, estabeleci uma condição: só estaria disponível uma tarde por semana. Minha primeira tarefa foi assistir a uma palestra de dom Helder Camara, que não conhecia, sobre o Congresso. O orador realçou a importância do evento e a extrema necessidade de voluntários. Na quarta-feira seguinte, lá estava eu no Palácio São Joaquim, para as reuniões semanais. Já na primeira presença, fui apresentada como secretária de dom Távora, na Comissão de Publicidade do Congresso (Vigília e Testemunho, p. 25).

 

Não vou contar aqui a história do famoso Congresso Eucarístico Internacional de 1955. Só quero lembrar que o sucesso foi tanto que provocou um questionamento de seus pressupostos (como acontece frequentemente na história com eventos espetaculares). Para que reunir tanta gente em torno da Eucaristia? O que significa, afinal, Eucaristia? Não significa compartilhamento, beber no mesmo cálice e comer do mesmo pão? O Bispo Auxiliar Helder Camara vivencia na alma a ‘irrupção do evangelho’ em sua vida. Já nos últimos meses do mesmo ano 1955, ele volta sua atenção às 150 favelas que configuram o panorama da cidade de Rio de Janeiro, e pede a colaboradoras e colaboradores do tempo da preparação do Congresso Eucarístico que não abandonem seus postos, mas redirecionem seus trabalhos no sentido de focar a urbanização e humanização das favelas. E no dia 29 de outubro 1955, apenas 90 dias após a conclusão do Congresso, se cria a ‘Cruzada São Sebastião’, um plano ambicioso de urbanização de favelas do Rio de Janeiro no curto prazo de dez anos, de modo que a cidade possa comemorar, em 1966, já plenamente urbanizada, seu quarto centenário. Eis, pelo menos, o planejamento na época. A Cruzada é secundada, desde 1959, pelo ‘Banco da Providência’, uma superintendência filantrópica para manter e supervisionar trabalhos assistenciais espalhados pela cidade a socorrer pessoas em situação de risco. Mais adiante vem a ‘Feira da Providência’, que deve servir para abastecer lares com recursos angariados em atividades assistenciais apoiadas pelo Banco.  A Praia do Pinto, no Leblon, fica perto da zona de apartamentos onde mora parte da burguesia do Rio. Helder, com suas auxiliares, planeja construir aí uma vila popular, para que os pobres vivam próximos de seus locais de trabalho como empregadas domésticas, porteiros, caseiros, serventes. A ideia é revolucionária: que os pobres façam parte da privilegiada Zona Sul da Cidade Maravilha.

Em tudo isso, Marina Bandeira entra de cheio e demonstra seus talentos de organizadora e articuladora. Em 1965, Helder Camara anota numa de suas Cartas Circulares (Carta Circular 19/20-11-1965, Cepe, I, III, p. 266): Marina tem jeito para public relations. Verifiquei pessoalmente, em diversas oportunidades, o grande apreço que ele tinha por Marina Bandeira.

Ela mesma conta a história, que acabo de evocar, em seu livro acerca do período 1940-1964 da história da igreja católica no Brasil, que o CAALL publicou e que, por sugestão de Cândido Mendes, recebeu o título A Igreja católica na virada da questão social. Virada na igreja, virada também na vida da autora.

 

Quinto parágrafo: Tête-a-tête com o Papa.

 

Sei que meu retrato de Marina Bandeira é incompleto e provisório. Relato aqui um episódio de sua vida que compensa um pouco essa incompletude ao flagrar, ao vivo, a personalidade de Marina Bandeira. Nas páginas 194-195 do livro Vigília e Testemunho vai uma deliciosa história vivida por ela em Roma, quando pede uma audiência privada com o Papa Paulo VI para solicitar sua colaboração no encaminhamento de problemas financeiros e humanos que ela enfrenta no Movimento de Educação de Base (MEB). A ‘audiência’ se transforma em outra coisa, como revela o texto a seguir.

 

Eis como Marina relato o ocorrido: Chegou o esperado cartão para a audiência com o papa: dia e hora em Castel Gandolfo (residência de verão). O cartão informava a vestimenta: vestido de manga comprida e véu. Tudo isso tinha em ordem – vestido de duas peças cinza-claro que Leninha, minha irmã, não queria mais. Uma das AFIs (Auxiliares Femininas Internacionais), disponível no horário, me levou no seu Volkswagen ao Castel Gandolfo. Chegamos com bastante antecedência. Recebida no castelo-palácio pelo mordomo, este, após longo percurso, indicou-me o salão, com cadeiras à volta, onde deveria aguardar. O salão, muito belo, não tinha paredes no corredor e se viram as pessoas que voltavam após a audiência. Enquanto aguardava, procurava imaginar a audiência. De todos, a quem perguntava, ouvia: de uma coisa esteja certa, tête-à-tête com o papa não existe. Então imaginava o papa em algum tipo de trono, assessores à volta, e eu em pé, tentando explicar nossos problemas. A sós, sem testemunhas, na igualdade, não existe. É audiência. Escuta-se. (Aí Marina conta que, num certo momento, apareceu Monsenhor Benelli, secretário, que explicou a Marina por que sua hora de atendimento estava demorando tanto). Benelli: ‘O papa sabe que você está aqui... Você ficou por último para não ter limite de tempo’. Perguntei como se fala com o papa: ‘apenas diplomacia ou se diz a verdade?’.  Resposta: ‘Se você não disser tudo o que pensa, cometerá o maior erro de sua vida’. Mais tranquila, esperei mais um pouco até me levarem para a antessala, onde aguardei a saída do ministro de Malta e família.

Paulo VI abriu a porta e indicou que entrasse. Tentei ajoelhar, beijar o anel, mas suas mãos seguraram as minhas, impedindo-me. Encaminhou-se para a escrivaninha e, de pé, mostrou a cadeira defronte. Durante segundos houve cena meio cômica: o papa, cavalheiro, insistia que me sentasse, mas eu não queria sentar-me antes. Devemos ter sentado ao mesmo tempo. Escolhi o idioma francês. Descrevi as dificuldades com o governo militar, a não liberação de recursos. Acentuei as contradições dos bispos: uns apoiavam firmemente, outros criticavam com dureza. Expliquei a viagem prevista para a Europa, na tentativa de conseguir recursos financeiros. Descrevi o estado de exaustão da mocidade, que se debatia, alguns com úlceras e outros problemas de saúde. Sustentei que melhor seria encerrar o trabalho e facilitar a ida dos que quisessem para outros continentes: a África, por exemplo. Eu me empolguei. Disse tudo o que pensava. De repente, vi que o papa, com as mãos nos braços da cadeira, cabeça um pouco para trás, dava uma boa gargalhada… Só então percebi meu dedo apontado para o nariz de sua Santidade! Pedi perdão e procurei me controlar. Paulo VI afirmou: ‘O MEB é muito importante. O melhor trabalho de educação de base da Igreja no mundo. Não pode acabar’. E acrescentou: ‘É inútil procurar recursos, nas entidades católicas da Europa, sem antes ter ‘un bout de papier quelconque’ (um pedaço de papel) do governo do Brasil’. Repeti que era difícil. Resposta: ‘Insista, vai conseguir’. Com seu sorriso amigo, nos despedimos.

 

Isso não é ‘audiência’, é ‘tête à tête’, diálogo ‘horizontal’ com alguém que representa, como ninguém, ‘verticalidade’ e respeito hierárquico. Aparece uma mulher segura de si, sem timidez e sem medo de externar seu pensamento. O dedo em riste (como se fosse cabo de lança) em direção ao nariz de um papa: isso é uma cena impagável! Autenticidade, pragmatismo, espontaneidade, afirmatividade. Esse diálogo, de certo modo, caracteriza a vida inteira de Marina. Ela não se intimida diante do detentor de uma dignidade considerada suprema. Não se faz de humilde suplicante, não se faz representante dos pobres, seu comportamento não tem essa coloração artificial que se percebe em muitos/as que pretendem representar ‘a base da sociedade’. Marina é elite. Elite cultural, intelectual e ética, que representa o melhor que nossa sociedade tem.

De repente, a história de Marina Bandeira evoca tempos passados. Tempos medievais, quando a igreja se empenhou em ‘evangelizar’ as classes altas da sociedade, quando o Senhor do Castelo saía para defender ‘viúvas e órfãos’, ou seja, fracos e indefesos, quando o cavaleiro nobre obedecia às regras da ‘Deuda Dei’, ou seja, respeitava os tempos, no calendário anual, de trânsito seguro (sem medo de assaltantes) nas estradas que levavam a feiras, por onde se escoava a produção local em produtos agrícolas e artesanais. O resultado foi um florescimento sem par de uma economia bastante igualitária. Há historiadores que dizem que essa ‘evangelização da nobreza’ foi a maior vitória que a igreja católica conseguiu, ao longo de dois mil anos de atuação.  

Olhando com atenção se percebe que a história de Marina se encaixa nesse método tradicional de evangelização da elite. É o que se desprende da leitura do primeiro parágrafo deste texto, onde Marina aparece herdeira de uma sucessão de gerações de uma elite cultural, intelectual e ética. É nesse sentido que repito: Marina representa o melhor que nossa sociedade tem.  

 

Por fim, faço votos para que a leitura de Vigília e Testemunho ajude a pessoas de classe privilegiada a fazer sua opção por não privilegiados.