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sábado, 20 de agosto de 2022

A arte de Adélia Carvalho.

 

Eduardo Hoornaert.


 

Faleceu em Recife (Pernambuco, Brasil), no dia 16 de agosto de 2022, a Irmã Adélia Carvalho, brasileira, religiosa salesiana e ‘artista da caminhada’. Ela acompanhou, durante longos anos, trabalhos junto a lideranças populares ligadas à Teologia da Libertação, tanto no Brasil como - por um curto período - no Moçambique. Ilustrou numerosas publicações do Cehila-Popular (uma iniciativa do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina, que funcionou entre 1980 e 2000 aproximadamente), e ajudou a elaborar, igualmente por longos anos, grandes painéis que serviam de quadro de fundo em Cursos de Verão promovidos pelo CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), situado em São Paulo, Brasil. Além dos clássicos ‘cartões de Natal’. Adélia formava parte de um pequeno grupo de desenhistas, pintores e poetas, que se autodenominavam ‘artistas da caminhada’.

 

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Para apresentar a artista Adélia Carvalho, copio aqui seu texto autobiográfico ‘Falando sobre minha trajetória artística’, que ela redigiu em 25 de agosto de 2015, em preparação de um encontro rememorativo do Cehila, realizado em Belo Horizonte.

Vai aqui a breve autobiografia:

‘Meu nome é Adélia Oliveira de Carvalho. Assino Adélia Carvalho. Sou brasileira, nordestina, natural do Rio Grande do Norte, no município de Santo Antônio, agreste potiguar e bioma caatinga. Nasci em Lagoa das Cobras (25/10/1937), no sítio de meu avô materno. Sou descendente indígena, por parte de minha avó materna, provavelmente da Nação Cariri. Esses indígenas, vindos do sul do Brasil, tempos atrás, andavam em busca da ‘Terra sem Males’. Aqui, nesta região nordestina, se assentaram. Por não entenderem sua língua, os portugueses os chamavam ‘tapuios’, ‘povo calado’.

Desde cedo, gostei de me expressar em desenhos e trabalhos manuais. Diante das cores, sombras, relevos, paisagens, imagens, esculturas, o meu instinto é de contemplação e admiração. A natureza é o meu espaço preferido. Na escola, meus desenhos eram admirados por serem bem feitos, com combinações de cores.

Aos 22 anos, (24/01/1960), fiz minha consagração religiosa no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas) em Recife – PE, onde resido. Minha caminhada artística, propriamente dita, tem início no noviciado (1958-1959), quando começo a pintar a óleo temas religiosos. Nos anos seguintes ao noviciado, continuo pintando, mas sem orientação. Pintei cenários, murais e quadros. Minha preferência é por figuras humanas. Paisagens e outros elementos aparecem como complemento.

Então, sou autodidata, ainda que tenha feito alguns exercícios de trabalhar com modelo vivo (a figura humana), em 1972, no atelier do Prof. Inaldo Medeiros (em memória), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Não tive condições de continuar. Parei no início do caminho, com esperança de poder, algum dia, estudar regularmente a arte do desenho e da pintura. Sentia-me insegura com o que produzia. Em 1995, a esperança se fez presente quando cheguei a frequentar o atelier do prof. Maerlant Denis, aqui em Recife, à Rua das Pernambucanas. Logo ele observou que tinha um estilo próprio, tanto nos conteúdos como nas cores. Em menos de um ano, ele me deu um certificado ‘com distinção’.

A partir de então, me considerei artista profissional. Meus quadros eram adquiridos com facilidade e eu recebia encomendas. Mas não me sinto qualificada para adotar o nome de artista plástica. Isso me incomoda. Acho que é grande demais para mim. Este sentimento talvez tenha sido motivo de nunca ter feito uma mostra individual, preferindo expor coletivamente, na qualidade de ‘artista da Caminhada’.

Em minhas expressões artísticas, gosto de representar temas contemporâneos (sacros/religiosos/místicos e, ao mesmo tempo, de caráter social). Com este viés falo em arte religiosa ‘profanada’, onde o religioso e o profano se misturam, tornando um só motivo. A figura feminina de olhares grandes e profundos, ganha destaque especial.

 

Perante meus trabalhos em exposições, percebo três reações diferentes nas pessoas: 1) admiração e contemplação pelas cores vivas e alegres, pelas formas e pela temática; 2) identificação com o estilo e com os temas. Muitos começam a fazer uma leitura do ‘seu mundo’ e do seu derredor; 3) provocação, um certo escândalo, um choque, vendo o religioso e o profano misturados. Isso é bom para mim e me convence de que estou alcançando objetivos concretos.

Dizem que meus quadros são considerados obras de arte. Já são conhecidos internacionalmente, têm nome e estilo próprios. Neles eu expresso e revelo meus sentimentos, minha psicologia, mística, espiritualidade e o caminho por onde caminho, enfim, minha personalidade.

Sei que a arte, como expressão do belo e como comunicação, tem necessidade de expansão e de buscar leitores de diferentes olhares, de diferentes culturas. Isso levou meus trabalhos a caminharem não apenas pelo Brasil, mas por outros continentes como Europa, Estados Unidos e África (Moçambique). Minha arte também foi tema de dissertações e teses acadêmicas. Ela caminhou e continua caminhando como beleza e profecia de Deus. Fui muito além do que imaginava’. Até aqui, o depoimento de Adélia Carvalho sobre sua trajetória até 2015.

 

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Tomo a liberdade de copiar aqui o texto, emitido no dia da morte de Adélia, 16/08/2022, pelo CESEEP. Vai intitulado Páscoa de Adélia de Carvalho (16/08/2022)

 

 

Um passarinho, uma flor e um caju. Nas imagens de pessoas, olhos grandes e expressivos como marca de seus traços na tela, com capacidade de prender o olhar e até a respiração de quem vê cada obra de arte. A tela como forma de comunicação de uma alma leve, generosa e cheia de amor.

A voz baixa, o olhar sereno e os passos tranquilos pelos corredores da PUC sempre foram inconfundíveis. O sorriso meigo trazia a luz presente em sua alma e que nela não cabia, então era preciso partilhar.
Adélia de Carvalho deixa em nós todas e todos que com ela convivemos, a dor da partida, mas também a alegria pela dádiva da convivência.

Ela fica entre nós, pela lembrança de sua pessoa, sempre suave e amorosa e pela vasta obra de arte que deixa como legado.

Os cartões de Natal do CESEEP, sempre tiveram sua arte como ilustração e inspiração e, no Curso de Verão, deixou, nesses anos todos, a beleza de cada quadro ou painel, como produção individual ou coletiva.

Registre-se aqui a GRATIDÃO imensa por toda a sua generosa contribuição ao Curso de Verão e a cada uma e cada um que com ela conviveu.
Deus a acolha em sua glória!

 

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Gostaria de focalizar, por uns instantes, a colaboração de ‘artistas da caminhada’, especificamente de Domingos Sávio e Adélia de Carvalho, nos trabalhos do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina (Cehila). Copio um texto que escrevi em 2015 a esse respeito: ‘O Cehila só será plenamente Cehila, quando estiver em diálogo contínuo com a cultura popular. Fomos eclesiásticos, hoje somos universitários. Um dia, seremos ‘populares’? Isso dependerá de nossa capacidade de tocar os instrumentos culturais do povo e de fazer com que as pessoas do povo reconheçam seu próprio rosto na arte criada pelo Cehila. Como escreveu o teólogo Hans Urs von Balthasar: ‘Deus entre no homem pelos sentidos, pela beleza e pela arte, não por abstrações nem por lógica. Penso que os ‘artistas da caminhada’ abriram uma senda nessa direção.

 

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No já mencionado Encontro de 2015, em Belo Horizonte, Adélia de Carvalho apresentou sua pintura Ameríndia. Nela representa, por meio de uma proliferação de símbolos, a história de cinco séculos de cristianismo no  continente ameríndio e as esperanças que o povo latino-americano nutre. Copio aquí essa pintura, que merece ser vista com atenção.

 

Há a verticalidade do tradicional simbolismo cristão medieval: o céu desce à terra. Desce o Cordeiro de Deus;  desce, em cima do corpo de Ameríndia, o bico agudo de um  pássaro (será o Espírito Santo? É ele que dará vida ao embrião?).

Em torno de Ameríndia, tudo é problemático. As bandeiras dos Estados Unidos, da China e do Brasil flutuam no alto; a caravela de Cristo derrama sangue na cabeça do indígena; aparece a favela pobre na periferia da cidade altiva;  esgotos e crânios; crianças inocentes morrendo na violência das ruas; o prato de comida vazio; ‘retirantes’ em busca de nova vida na cidade grande; o labor na cana de açúcar dos engenhos.

 

Mas a Ameríndia está grávida. Plumas indígenas, cajus, flores, fogo novo. Vai nascer a criança, um novo mundo aparecerá. Viagens para as estrelas. Uma nova terra e um novo sol.

 

 

quinta-feira, 10 de março de 2022

ARTE DE ENVELHECER

 Frei Betto


 

       Quando criança, considerava meus avós muito velhos. A bisavó, então, uma Matusalém… E possivelmente nem tivessem 60 anos. Nosso olhar é condicionado também pela faixa etária. E a nossa idade, pelo olho do outro. Por mais que eu insista, alguns sobrinhos não conseguem me chamar apenas pelo nome. O “tio” é inevitável.

       Nos damos conta de que já não somos jovens quando passam a nos tratar de “senhor” e “senhora”. Na cultura dionísiaca que respiramos não é fácil assumir a velhice. O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em cirurgias plásticas de rejuvenescimento, depois dos EUA. As mulheres são quem mais padecem. A cultura machista aceita homem barrigudo, careca, desengonçado. Mas ai da mulher se não for esbelta, desenrugada e bem vestida!

       A vida pode ser dividida em duas fases: a da sorveteria e a da farmácia. Embora a criança sofra mil restrições de liberdade, ao menos pode mergulhar num pote de açúcar sem que ninguém lhe chame a atenção. Na velhice, um dos lugares que mais frequentamos é o consultório médico. O corpo dá sinais de que a fase apolínea acabou. E haja despesas com medicamentos! 

       A senectude é, sobretudo, uma tensão psicológica que nos induz a superdimensionar as possibilidades do próprio corpo. Óbvio, não podemos voar apenas abrindo os braços para que se transformem em asas. Entretanto, na idade provecta guardamos a memória do que já não somos capazes e que, agora, restam como lembranças, já que há progressiva dissociação entre a mente e o corpo. A memória, esfuziante, prazenteira, nos faz bailar pelos infinitos salões da imaginação sem, contudo, lograr que haja correspondência nas pernas e nos pés. Envelhecer é diminuir inelutavelmente os passos, sair da celeridade das ruas para a sala de espera da morte, ainda que convictos de que seremos tardiamente atendidos. 

       Não somos educados para encarar a velhice com sabedoria. Em meus 22 anos de bancos escolares, jamais foi tema. Faz-se dela um tabu. Nessa sociedade de “campeões”, o velho é quase um doente. O próprio termo sofre censura e exige eufemismos: terceira idade, melhor idade etc. Ai de quem disser: “Como você envelheceu!” Melhor escutar “Como você está bem!”, como quem oculta o subtexto: “Eu esperava encontrá-lo em avançado estado de decrepitude”. 

       Os sintomas da velhice são clandestinizados até a corda arrebentar. Tingem-se cabelos brancos, botoxicam-se as rugas, escondem-se as idades. Porque velhice é sinônimo de inatividade, embora os fatos não confirmem. É cada vez maior o número de idosos (acima de 60 anos) em plena atividade laboral. É o meu caso. Isso apesar de muitas empresas estabelecerem um limite de idade a seus funcionários. Demissão compulsória. Um erro calcado em preconceito, o de que a idade biológica coincide com a mental e intelectual. 

       Foi após os 60 anos que minha mãe, Maria Stella Libanio Christo, se tornou autora de renomados livros de culinária. Cora Coralina começou a publicar aos 75. Knut Hamsun, Nobel de Literatura em 1920, escreveu “Pelos atalhos fechados” (1949), uma de suas obras de maior sucesso, aos 90. Victor Hugo publicou “Os miseráveis” aos 60. E J.R.R. Tolkien, autor da trilogia “O senhor dos anéis”, aos 62. 

       O mundo envelhece. Em muitos países os governos entram em pânico porque o número de idosos tende a superar o de jovens. Felizmente no Brasil temos o Estatuto do Idoso. Apesar disso, o setor de serviços insiste em ignorar a realidade. Quantos balcões de atendimento ao público (repartições, lojas, bancos) são precedidos de cadeiras? Como o idoso pode ter acesso ao banheiro ao se encontrar na rua? Em quais e quantos municípios os agentes de saúde percorrem os domicílios para acompanhar os mais velhos? 

       Gosto de ser velho, embora lamente não ter a mesma agilidade física de outrora. O bom da velhice é não ter morrido jovem. E em vez de encará-la como etapa final da vida, mantenho o olhos em meu passado e colho autoestima. Não haverá de constar da lápide do meu túmulo o verso de Fernando Pessoa: “Fui o que não sou”. 

       Nunca pretendi ser o que não sou. Cedo, blindei-me contra as três tentações sofridas por Jesus e todos nós: ter, prazer e poder. “Nada é bastante para quem considera pouco o suficiente”, dizia Epicuro. Para mim, o necessário é suficiente. Não acumulei bens e, portanto, jamais perdi tempo e sono em administrá-los. 

       Levo da vida o que trago em mim. E meus prazeres pouco têm a ver com os cinco sentidos. Decorrem da meditação, do ofício de escrever, das amizades. E cuidei para me livrar de qualquer instância de poder. Nunca me filiei a partido político. Na Igreja, optei por não ser sacerdote, o que me impede de subir qualquer degrau hierárquico. 

       O que mais me faz feliz é fazer os outros felizes. Isso não significa que me julgo melhor que os outros. Conheço bem meus pecados, defeitos e erros. Mas ao menos Deus me permitiu abraçar o que mais nos livra do medo da morte: um sentido à existência. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ARTE DE NUTRIR A VIDA




Frei Betto

         Sou filho da mãe. A minha, Maria Stella Libanio Christo, era mestra na arte de cozinhar. Autora de livros de culinária, pesquisou três séculos de receitas para publicar “Fogão de lenha – 300 anos de cozinha mineira”.

         Ela nunca sofisticou o cardápio. Preferia o trivial: bolinho de feijão, canjiquinha com costelinha de porco, feijão tropeiro, inhame com melado, espera-marido. Assim como certas linhagens familiares se estabelecem pela audição, como na família Caymmi, no meu lado materno predomina o paladar. A mesa, ainda hoje, é o centro vital de minha família.

         Minha avó materna, Maria, pilotava admiravelmente seu fogão de lenha, acolitada pela doce Bertula, cozinheira que fazia parte da família. Especialista em roscas-de-rainha e balas delícias, vovó preparava a massa das roscas em grandes tabuleiros negros, trançadas como em ninho de serpentes e, após assadas, a superfície se cobria de um brilho castanho, açucarado, como se envernizadas. Não se partia com a faca; arrancavam-se pedaços com as mãos, seguindo o contorno das tranças.

         As balas delícias, brancas como neve, eram enroladas e cortadas à tesoura sobre a grande mesa de madeira da copa. Açucaradas, desmanchavam na boca. As receitas se transmitiam de mãe para filha em engordurados cadernos preenchidos com letras bordadas a mão.

         Ter sido educado à mesa faz com que o paladar seja o mais apurado de meus cinco sentidos. Nunca fui de comer muito. O peso jamais me incomodou. Nem exijo comidas refinadas. Habituado à vida conventual, espartana, só em casa de amigos ou restaurantes faço da mesa uma liturgia de prazer. Ou quando cozinho.

         Há tempos viajei à Suécia com um grupo de líderes sindicais. Submetidos à culinária escandinava, me confessaram sonharem com um bom bife. Os anfitriões nos levaram a um dos melhores restaurantes de Estocolmo, onde nos serviram filé mignon. O pior de toda a minha vida. A carne, dura, parecia ter passado imediatamente do freezer ao prato, após breve aquecimento. Porém, a vontade era tanta que não rejeitamos a gororoba. É melhor um bife no bucho que dois bois no pasto.

         O ser humano é o único animal que manipula, tempera e cozinha o seu alimento. Comer é um ato cultural, litúrgico. Assim como falamos distintos idiomas, comemos pratos que outros povos abominam só de ouvir falar. Segundo o antropólogo Marvin Harris, no Camboja comem-se coleópteros, como besouros e joaninhas, baratas d’água, tarântulas, lagartixas e morcegos. No Vietnam, cobras e cães. Na Nova Guiné, vermes do saguzeiro, duros por fora e cremosos por dentro. Na China, miolo de macaco. No México, os escamoles são feitos com ovos de formigas. Vale lembrar o que dizia Montaigne, “cada qual denomina barbárie aquilo que não faz parte de seus costumes”.

         Hoje o mundo produz mais alimentos do que consome e, no entanto, a fome atinge 820 milhões pessoas, que dispõem de menos de 1.500 calorias/dia, segundo a ONU (2019). Para uma vida saudável, o ser humano necessita ingerir 2 mil calorias/dia. No Ocidente, a média é de 2.900. Um terço da população mundial consome cerca de 2 mil. E um bilhão de pessoas têm peso acima do normal.

        A ingestão de alimentos suscita, hoje, acalorados debates. Há argumentos para consumir ou não todo tipo de comida. Os vegetarianos se dividem em ovolactovegetarianos. (não consomem nenhum tipo de carne, frango, peixe ou frutos do mar), mas consomem laticínios e ovos; os lactovegetarianos; os vegetarianos estritos; e os veganos (que não consomem nada de origem animal).

Isso não isenta de riscos os ortoréxicos, obcecados por alimentos saudáveis, pois verduras contêm pesticidas; peixes, mercúrio e plásticos; açúcar causa diabetes; manteiga aumenta o colesterol etc. Ou seja, morre-se também pela boca. E no sistema econômico prevalente em nossa sociedade, os alimentos têm valor de troca, e não de uso, e o lucro reluz acima da saúde humana.

Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros.
  
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A DIFÍCIL ARTE DO ENCONTRO



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Após as eleições, paira no ar uma sensação de depressão pós-parto.  Tanto em vencedores como em vencidos. Os que tiveram seus candidatos eleitos esperam preocupados como se delineará a governabilidade.  Os primeiros gestos, decisões, semeiam mais insegurança que firmeza.  Desconcertam, angustiam. Parece que não se entende os rumos de um tempo diferente com outro estilo que começa.

Os que foram derrotados nas urnas se dividem.  Alguns optam pela oposição, resistência e combate cerrados.  Outros preferem esperar para verificar, pagar para ver ou até deixar que o adversário vencedor fracasse e mostre sua verdadeira cara.  Apostam que a governabilidade inexistirá e então a incompetência de uma vitória indevida mostrará sua verdadeira face de ilegitimidade e incapacidade de responder aos desafios e responsabilidades concedidos pelas urnas.

Em todo caso, o que temos é um país dividido, desencontrado.  Famílias se indispuseram ou até, em alguns casos, cortaram relações entre seus membros.  Amizades de anos foram interrompidas e palavras de acusação e raiva pronunciadas onde antes reinava harmonia e companheirismo. Relações foram perdidas e parece muito difícil refazê-las. Em suma, o panorama nacional mostra um tremendo desencontro.

Enquanto isso, o papa Francisco fala da importância de construir uma cultura do encontro. Não se trata certamente de um discurso piedoso e fácil adotado pelo pontífice para dizer a todos que se amem e respeitem sem nenhuma dificuldade ou obstáculo.  Longe disso.  Para o papa, a cultura do encontro é um estilo de vida e uma atitude, fruto de uma experiência e um itinerário pessoal, agora proposta à Igreja e à sociedade como um todo.

Diante da cultura do fragmento, da desintegração e da divisão é importante, afirma o pontífice, não favorecer os que pretendem capitalizar o ressentimento, o esquecimento das relações vividas e desfrutadas, ou os que se deleitam em debilitar vínculos e laços.  Esse seria, a seu ver, o caminho para superar os desencontros que sucedem na sociedade.

Tão importante é a construção da arte do encontro, que antes mesmo de Bergoglio o poetinha maior de nosso país, Vinicius de Moraes, disse: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”  Com sua imensa sensibilidade, queria o poeta ressaltar algo que é constitutivo e visceral no ser humano: sua vocação para a relação, para o afeto, o amor, aquilo que configura e realiza o que chamamos encontro.

Assim também parece entender o papa.  Quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, Argentina, várias vezes se empenhou em instar a seus compatriotas a superar os desencontros e refundar os vínculos sociais, políticos, na abertura e na esperança. Agora, desde o Vaticano, onde lidera a Igreja e fala também ao mundo, Francisco não se cansa de repetir esse convite, que consiste em abrir-se à alteridade do outro, aproximar-se, vincular-se, construindo com esperança uma nova mentalidade, um novo estilo de vida, uma nova cultura, onde seja possível o encontro, o diálogo e a comunhão.

Há que admitir que é muito difícil.  A tentação do desânimo diante desta proposta vem carregada da pesada tinta da impossibilidade.  Como dispor-se ao encontro e ao diálogo com quem parece querer conduzir o país na direção oposta daquela em que acreditamos? Como apostar em um possível consenso com pessoas e grupos que parecem falar outra língua, oposto idioma àquele em que acreditamos, que detém os códigos comunicacionais da justiça, do direito, da paz e da prosperidade?

Mais: como fazer esta busca de encontro, consenso e acordo se transformar em verdadeira cultura, que procura o que une em lugar do que divide, e não recua diante de nenhum gesto, atitude ou palavra que possa fazer acontecer  a solidariedade e a comunicação? É duro acreditar que isso poderá ocorrer, sobretudo quando escrevo este artigo no momento seguinte à decisão que liquida com a presença dos médicos cubanos no Brasil e não há como não se pensar que uma represália política deixará na orfandade sanitária milhões de pessoas nos lugares mais pobres e vulneráveis do país.

É duro, porém mais que nunca necessário.  O encontro pode acontecer, mesmo com dificuldade, quando há ao menos um objetivo comum. E este existe e está diante de nossos olhos.  Todos queremos o bem do país.  Todos queremos o povo brasileiro respirando com liberdade, esperança, vendo a perspectiva de um futuro melhor para seus filhos e netos. Enrijecer-se nas divisões certamente não ajudará o Brasil a conseguir esse objetivo.

O povo brasileiro, sempre inspirado na arte de sobreviver a toda impossibilidade, de esperar contra toda esperança e alegrar-se mesmo e sobretudo sem motivo algum, tem agora diante de si este desafio: tornar-se perito na arte do encontro. Aprofundar as divisões não nos levará longe.  É preciso, é urgente desarmar espíritos e buscar possíveis consensos. Sem eliminar o respeito às diferenças, a resistência ao que é nefasto, a denúncia do indefensável. A difícil arte do encontro deve fazer-se ainda que em meio a esse mar de desencontros em que vivemos agora. O Brasil merece e precisa.
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

  Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AINDA A ARTE DA TOLERÂNCIA



Frei Betto

       Enquanto os povos viviam distantes um do outro, cada um com as suas crenças e costumes, a intolerância não se evidenciava. Isso teve início com a ruptura provocada na Igreja pelo surgimento do protestantismo. Então, pessoas de um mesmo vilarejo, bairro ou família se dividiam entre católicos e protestantes. O conflito se desencadeou e, inclusive, fez correr sangue.

       A reforma luterana rompeu a unidade religiosa do Sacro Império Germânico e, por consequência, a unidade de toda a Europa Ocidental.

       Foi preciso encontrar novos critérios para a paz. Não através da submissão forçada de uns por outros. E sim pela via do entendimento e do bom senso.

       Em 1686, Pierre Bayle escreveu ser um absurdo querer forçar alguém a pensar de uma determinada maneira. No máximo se pode obrigá-lo a fingir. Como já havia assinalado santo Tomás de Aquino no século XIII, a consciência de cada pessoa é irredutivelmente livre. A ponto de poder inclusive recusar a ideia de Deus.

       A obra de Bayle preparou o terreno para a liberdade de consciência. Três anos depois, em 1689, John Locke, filósofo inglês, publicou sua “Carta sobre a tolerância”, na qual defende que o Estado não deve interferir nas convicções religiosas, e sim assegurar a liberdade de crenças. Deu-se o início da laicização do Estado e da sociedade.

       Entre os séculos XVII e o início do XVIII, muitas vozes se ergueram contra a intolerância, como Baruch Spinoza, Jonathan Swift, John Toland, John Locke e Shaftesbury. A eles se somaram Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau, D’Holbach, entre outros.

      Em 1763, Voltaire lançou o “Tratado sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas”. Este comerciante de Toulouse era protestante. Seu filho, Marc-Antoine, de 20 anos, apareceu enforcado no sótão da casa. Como manifestara a vontade de aderir ao catolicismo, o pai foi acusado de matá-lo, condenado à morte e executado.

       Voltaire ergueu a sua voz contra o fanatismo. Exigiu revisão do caso. Apurou-se que o rapaz sofria de depressão. O pai, declarado inocente, foi reabilitado quando já se estava morto.

       Voltaire salientou que existe uma fraternal solidariedade entre os seres humanos. Todos se mobilizam quando há uma catástrofe – incêndio, alagamento, terremoto, furacão etc. Aliás, como há dias se comprovou após o terremoto no México e o massacre em Las Vegas, quando multidões se dispuseram a doar sangue e socorrer as vítimas. Por que a intolerância quando se trata de pensar ou crer de modo diferente?

       A intolerância só é aplicável às ciências exatas. Inútil querer que a água ferva antes de atingir os 100 graus centígrados. Ou insistir que 2 + 2 são 5...

       No campo científico, a tolerância só é aceitável em se tratando de hipóteses. Antes de se chegar ao dado científico há várias hipóteses até a comprovação empírica de que a molécula de água resulta da junção de dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio.

       Isso é impossível em se tratando de crenças religiosas. Jamais as diferentes religiões ou tendências confessionais chegarão a um acordo quanto às suas convicções de fé. Restam, portanto, duas alternativas: a guerra ou a tolerância. E o passado demonstra que a guerra é inútil, apenas deixa lastro de ódio e sangue.

       Fora do âmbito das ciências, a tolerância é desejável. Se alguém acredita que todos procedemos, não da evolução dos símios, mas da união de Adão e Eva, isso é tolerável porque não faz mal a ninguém. Embora os criacionistas não logrem explicar como estamos aqui, neste planeta superpovoado, se Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. A menos que admitam o incesto com a mãe...

       Nem sempre é fácil demarcar a fronteira entre o tolerável e o intolerável. Depende de cada cultura. Para muitos é inconcebível que, em pleno século XXI, uma sociedade exija por lei que a mulher seja submissa ao homem, como ocorre na Arábia Saudita. Ainda que um estrangeiro que mora naquele país seja tolerante frente a esse absurdo, não significa que esteja de acordo com tal violação dos direitos humanos.

       Diante de opiniões e atitudes diferentes, como em recentes exposições artísticas no Brasil, o tolerante se alegra e celebra a diversidade; o intolerante se enche de ódio e apela à violência.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.
      
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O MATRIMÔNIO: OBRA DE ARTE

por Maria Clara Lucchetti Bingemer

    Grandes livros e filmes sempre nos fazem refletir.  É o que me acontece neste momento após ver o maravilhoso “Monsieur et Madame Adelman”.  Filme com roteiro escrito pelo casal Nicolas Bedos e Doria Tillier, que também atua nos papéis principais. Trata-se de um retrato adequado e excelente sobre o matrimônio nos dias de hoje. 

O início é o fim, ou seja, a morte de Victor Adelman.  Portanto, a narrativa pertence à mulher, a viúva Sarah.  O percurso da vida conjugal de mais de quarenta anos é feito por ela. 

Aos olhos do espectador é a leitura de uma mulher que viveu com um homem por mais de quatro décadas. A narrativa seria outra se fosse feita por Victor, o viúvo?  Provavelmente.  O que aparece claro, no entanto, é que a longa convivência do casal e o amor que inegavelmente viveram não subtrai a presença do mistério e do indecifrável em suas vidas.  A mensagem do filme é que o matrimonio não é algo simples ou fácil de ser descrito.  Não se trata de um contrato entre duas pessoas que se gostaram e decidiram construir a vida juntos. É mais que isso e vai muito além. 

O Papa Francisco, em sua exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia”, usa um sem número de palavras para descrever as atitudes humanas que devem estar presentes em um matrimônio: paciência, humildade, serviço, amabilidade, desprendimento, perdão.  Mas igualmente alegria, confiança, gozo, esperança, tolerância.  Trata-se nada mais nada menos de pôr em comum tudo que se tem e se é a vida toda, sem agendas escondidas ou planos B ou secretos.  Nisso está a beleza e, ao mesmo tempo, o desafio. 

O casal Adelman era, sem dúvida, marcado pela alegria.  Em uma de suas crises, Victor se queixa de que o que mais sente falta em Sarah é que ela não ri mais nem o faz rir.  Ele morre de nostalgia daquele riso dela e dele; dele porque provocado por ela e vice-versa.  Para Victor, a beleza reside naquele riso, naquele prazer ridente de olhar a esposa que naquele momento, por diversos motivos, havia se transformado em alguém triste e distante.

O riso renasce e o casal vai em frente.  Outros problemas, mais graves, surgem.  Mas vão sendo superados.  Às vezes com meios que não nos convenceriam a muitos de nós.  A vida a dois segue. E a morte de um dos cônjuges vai desvelar, enfim, parte do mistério dos Adelman.  Não a totalidade, mas uma parte importante.  Um mistério que é totalmente desvendável continua sendo mistério?

Quando se fala de relações entre pessoas - amizade, amor erótico, amor paternal, maternal, filial, enfim toda a gama que a humanidade inventou para expressar seu apego, afeto, cuidado pelo outro que, diferente de mim, faz emergir energias e potencialidades que eu desconhecia e ignorava, trata-se de mistério.

O casal Adelman teve um longo tempo para desvendar seu recíproco mistério. E deixa para os espectadores que receberam sua narrativa alguma curiosidade, interrogação, perplexidade. Por isso, o mistério da vida a dois, do amor, do matrimônio, pode continuar a ser pensado, explorado, expresso. 

Na verdade, o que o belíssimo filme de Bedos e Tillier traz é a revelação de que, mesmo em tempos pós-modernos de relações líquidas e laços frágeis, o matrimônio continua a existir e a configurar a vida não apenas de pessoas que professam alguma fé ou religião, mas igualmente não crentes, agnósticos e secularizados, como eles.  

Talvez a definição do matrimônio como obra de arte seja uma das mais felizes, sobretudo quando é dada por um casal que está junto há 50 anos: a psicanalista búlgara Julia Kristeva e o escritor francês Philippe Sollers. Segundo ambos declaram em quatro diálogos que foram publicados no livro “Le mariage comme un des beaux arts” (O matrimônio como uma das belas artes), o homem e a mulher são estrangeiros um para o outro.  O casal que assume a liberdade desses dois estrangeiros pode tornar-se um campo de batalha.  Daí a necessidade de harmonizar-se.  A fidelidade é uma espécie de harmonização da condição de estrangeiros.  Se se permite ao outro ser tão estrangeiro quanto a si mesmo, a harmonia acontece. 

Nessa arte de conviver, que o poeta maior Drummond classificava como a maior das viagens, há todo um trabalho fino e artístico a realizar. Por isso, o matrimônio nunca acaba de construir-se, de esculpir-se, de retocar-se.  Como acontece com as obras de arte que, mesmo tendo saído das mãos do artista, podem sempre ser retocadas, refeitas pela interpretação, leitura, contemplação, pelas experiências que provocam.

Fazendo a experiência bela e desafiante de estar casada há quarenta e oito anos, posso atestar que o mistério nosso de cada dia desafia a criatividade e a capacidade de reinventar-se.  É importante não perder a capacidade de surpreender-se, admirar-se, rever-se, recomeçar, retocar o tom que esmaeceu, refinar o som que perdeu o rumo da melodia.  E tocar juntos o grande instrumento da vida, harmonizando risos e lágrimas, mágoas e alegrias, prazer e aridez, tristezas e euforias.  E rir, rir muito, em todas as gamas que vão do sorriso silencioso à gargalhada sonora.  

Assim se responde ao dom infinito do mistério do outro que convida a embarcar na louca aventura da convivência, do amor compartilhado, da vida a dois, da amizade até o fim da vida. Como os casais Adelman e Kristeva/Sollers.  E tantos, tantos outros que vão colaborando com pinceladas, toques, escritos, pensamentos, emoções,  essa grande obra de arte que é a união entre o homem e a mulher, para crescer sempre mais no amor, na esperança e suportar juntos o peso e a beleza da vida. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.  A   teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

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