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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

BENTO XVI: AS SURPRESAS DE UM PAPA

 

Maria Clara Bingemer


 

     Talvez seja um pouco tardia esta reflexão sobre o Papa Bento XVI já mais de dez dias após sua morte.  Outras preocupações tomam o lugar do tempo do luto mais próximo do falecimento do pontífice que governou a Igreja Católica por oito anos e depois permaneceu em Roma como Papa Emérito até o último dia 31 de dezembro de 2022.  O cenário nacional fervilha com as últimas ameaças à democracia e parece não haver outro assunto.  No entanto, me parece que a figura do falecido é por demais importante para não trazer alguma reflexão sobre sua pessoa. 

   Por isso mesmo, porque tantas coisas importantes – positivas e críticas – foram ditas e escritas, atenho-me ao que foi essencial de meu contato com o teólogo Ratzinger, em cujos livros li e estudei durante minha graduação em Teologia, e com aquele que se tornou sucessor de João Paulo II em 2005.  

    Quando foi anunciada sua eleição pelo cardeal camerlengo em 2005, confesso que tinha sentimentos não muito claros por dentro. Por um lado, compreendia que o conclave o tivesse eleito, era o colaborador mais próximo do papa polonês, o teólogo e pensador refinado, o homem culto que presidia a Pontifícia Comissão para a Doutrina da Fé.  No entanto, pude conhecer de perto igualmente sua atuação à frente desta comissão e minha impressão era de uma certa perplexidade diante de algumas punições e restrições impostas a teólogos que eu conhecia bem de perto e cuja fé profunda e o rigor teológico admirava. Os dois lados se fizeram sentir naquele momento em que a Igreja, após 26 anos do governo de João Paulo II, esperava ventos novos. 

Dos oito anos em  que reinou Bento XVI lembro-me de vários momentos em que surpreendeu positivamente : a reconciliação com a Companhia de Jesus, que havia recebido intervenção do antecessor João Paulo II, coisa que tanto fizera sofrer o querido padre Arrupe; o belo texto da primeira encíclica, Deus caritas est, onde o intelectual refinado que era Bento XVI não temia dialogar inclusive com Nietzche, o filósofo tão crítico do cristianismo; a oração pungente em Auschwitz que se lançava de encontro ao silêncio de Deus.  Haveria outras, muitas mais a mencionar. 

Desejo destacar duas ocasiões que me parecem centrais para compreender por que vejo Bento XVI como alguém surpreendente.

A primeira foi sua vinda ao Brasil para abrir a Conferência de Aparecida, em 2007.  Havia um ambiente de desconforto e temor entre muitos que trabalhavam e participavam do evento.  A Conferência de Santo Domingo, em 1992, havia sido difícil e penosa.  O documento final quase não foi escrito e divulgado.  Graças a circunstâncias várias, entre elas o gênio e a santidade de Dom Luciano Mendes de Almeida, houve um documento com pontos positivos, mas que parecia não levar em conta o sopro profético das conferências de Medellín e Puebla, como a centralidade da opção pelos pobres. Temia-se o que poderia dizer Bento XVI. Se o Papa, no discurso de abertura, pronunciasse uma clara condenação da teologia da libertação, que tinha como centro a opção pelos pobres, seria realmente muito triste para a caminhada da Igreja latino-americana. 

O Papa falou.  Declarou que a fé nos liberta do isolamento e nos conduz à comunhão com Deus e com os irmãos, implicando responsabilidade para com o outro.  E continuou.  Cito literalmente pela importância que reside nesta frase que mudou completamente o panorama da V Conferência, em Aparecida: “Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2 Co 8, 9).”

A partir daquele momento encerravam-se as discussões sobre se a opção pelos pobres seria realmente teológica ou, ao contrário, apenas um subproduto de um marxismo mal compreendido. 

A alguns não caiu bem a afirmação do Papa. Chegaram a retirar-se da conferência.   Para muitos de nós que ali estávamos foi uma lufada de ar fresco e uma injeção de ânimo. Aparecida retomou a questão dos pobres, dando-lhe a centralidade devida, e produziu um documento que voltava a trazer esperança para a Igreja do continente. 

Em 2012, encontrava-me em Chicago conversando com o grande amigo e teólogo maior David Tracy.  Meio abruptamente ele me perguntou: “Você acha que o Papa vai renunciar?”  Surpreendida, disse que jamais havia passado por minha cabeça esta ideia.  David me explicou o porquê de suas suspeitas e sua argumentação não me convenceu.   De Chicago viajei a Roma. Fora convidada a apresentar, ao lado do Cardeal Ravasi e de outros teólogos e editores, o livro de Bento XVI sobre a Infância de Jesus.  Após a apresentação, fomos todos  cumprimentar o autor.  Bento XVI nos recebeu sorridente e alegre com o lançamento do livro.  Ao cumprimentá-lo disse-lhe, referindo-me à Jornada Mundial da Juventude que teria lugar no Rio de Janeiro, em julho de 2013: “Nós o esperamos no próximo ano, no Rio.”  Ao que ele respondeu com um meio sorriso: “Se Deus me der saúde...”

No dia 8 de fevereiro de 2013, uma jornalista da Globo News me chamou ao telefone às 8 horas da manhã.  Era segunda feira de Carnaval.  Ouvi do outro lado a seguinte pergunta: “Professora, pode falar algo sobre a renúncia do Papa?” A notícia me deixou perplexa.  Pedi uma hora para inteirar-me e liguei a televisão.  Os olhos do mundo inteiro estavam voltados para Roma e o gesto histórico da renúncia do Pontífice.

O resto é história.  O papa Ratzinger explicou ao mundo as razões de sua renúncia.  À medida que o ouvia e lia, sentia crescendo em mim, juntamente com a surpresa,  admiração por ele.  É muito difícil retirar-se quando se vê que chegou o momento.  O papa bávaro o fez com elegância e firmeza. 

Seu corajoso gesto abriu o caminho para a primavera de Francisco, iniciada pouco mais de um mês depois, em 13 de março de 2013.   Este segue o caminho das surpresas, embora de forma bem diferente de seu antecessor.   Que o Papa Bento descanse em paz e Francisco continue nos surpreendendo ainda por bastante tempo. 

 

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Santidade: chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

OS SINAIS DE QUEM VEM



       
Maria Clara Bingemer

 

            Que ano duro e difícil para o povo brasileiro, esse 2022 que se aproxima do fim.  Quanta angústia, quanta dor, quanto medo vivido, quanta ansiedade reprimida. Após dois anos de uma pandemia que a todos confinou e tantas perdas dolorosas gerou, parecia que no início do ano anunciava-se uma trégua.  As vacinas existiam e estavam disponíveis, muitos as tomamos, sentíamo-nos protegidos. 

            Porém nesse momento a “outra” pandemia – ou seria a mais real de todas, a única que realmente existiu? – mostrou seu rosto sombrio.  E a política polarizada e enraivecida dividiu o país e o povo, rompendo relações e instaurando um clima ameaçador no cotidiano dos brasileiros.  A inflação, a subida dos preços, as dificuldades muitas de cada dia pareciam pequenas, menores, diante da terrível perspectiva de que poderíamos ser obrigados a viver mais alguns anos de opressão, impiedade e violência.  E talvez, com mais tempo pela frente, essa desolação maior se instalasse e permanecesse roubando-nos para sempre a alegria.  

            A eleição aconteceu e parecia que a vitória acontecida exorcizava os fantasmas.  No entanto, o que se vive agora, neste tempo posterior às urnas, continua a ser obscurecido e ameaçado por manifestações que bloqueiam estradas, impedem o direito de ir e vir, decretam que filhas não podem dar o último abraço à mãe que está morrendo em hospital distante; bloqueiam a ida de um jovem à rodoviária para tomar o ônibus que o levaria à cirurgia que lhe devolveria a visão.

            Grupos revestidos com a bandeira brasileira se aglomeram diante de quartéis ou em plena rua, pedindo a intervenção militar em nome da democracia.  O nome de Deus é invocado a cada momento, seja ao lado de outras palavras de ordem como pátria e família, seja simbolizado em celulares postos no alto de cabeças na absurda intenção de comunicar-se com seres extraterrestres para que concedam a graça do estado de exceção em nome da liberdade. 

            Tudo isso leva a desejar mais ardentemente que venha o que se espera: a paz, a vida em abundância, a alegria.  E a buscar ansiosamente sinais desse estado de coisas, por mínimos que sejam. Porém, em meio a essa sagrada busca notícias de partidas abruptas de seres admirados e amados por todos, que ajudaram a dar ao Brasil sua identidade, trazem outra vez a dor:  Gal Costa, a baiana linda de cabelos negros e cacheados, boca vermelha e voz afinada cai fulminada por um infarto em sua casa.  Erasmo Carlos, o gigante gentil, o tremendão amado que embalou juventudes e brasileiros de todas as idades, é derrubado por uma doença já instalada em seu corpo e diz adeus. 

            Como  viver o Advento nesse clima em que parece que nada vem e tudo se vai.  Vai-se o bem-estar, o sentir-se livre, as referências afetivas.  E o vazio parece instalar-se com ares sombrios de quem veio para ficar.  E, no entanto, uma vez mais, somos chamados a voltar-nos para a espera de quem vem.  De quem disse que vinha e fielmente vem a cada ano, porque na verdade já veio na história humana há mais de dois mil anos.  E vem a cada dia para todo homem e mulher que seja capaz de abertura ao mistério e esteja em busca do sentido maior da vida. 

            A poesia de mais um artista que graças a Deus se encontra vivo entre nós – Alceu Valença – nomeia a expectativa que insiste em habitar-nos, apesar de todos os percalços, as trevas e o medo. 

Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais

            Como podemos crer nisso?  Como, se tudo ao nosso redor parece desmentir a existência desses sinais e dessa vinda. Como se não enxergamos sinal algum?  E, no entanto, a voz do anjo sussurrou a uma jovem que ela seria mãe do Salvador.

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais

Na casa de uma jovem moça em Nazaré da Galileia, o mensageiro de Deus chegou dizendo notícias de começos e boas novas.  A voz do anjo sussurrou ao ouvido de Maria, noiva de José o carpinteiro.  E ela, embora perplexa, acreditou e se dispôs a ser a serva do Senhor e a tornar-se morada de Sua Palavra. Escutando os sinais que o anjo trouxe, seu corpo engravidou do mistério que anuncia que Deus não se esqueceu da humanidade e uma vez mais foi fiel a seu povo.  

Por isso, hoje nosso povo está convidado a escutar esses sinais prenhes de esperança.  O anjo sussurra e convoca a estar atentos aos sinais da chegada de quem traz uma vez mais a todos o amor, a união e a paz. Escutar esses sinais é acreditar. 

Que tu virias numa manhã de domingo. 

             Os sinais trazidos pelo mensageiro da alegria e pelo ventre grávido da jovem mãe nos convidam com firmeza e delicadeza a crer, acolher e anunciar sua vinda por cima dos telhados, no fundo dos poços, nos grotões da miséria, no aconchego das casas e nos sinos das catedrais. 


          Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Crônicas de cá e de lá ( Editora Subiaco), entre outros livros.

 

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O PLANETA: PAIXÃO DAS NOVAS GERAÇÕES



Por Maria Clara Bingemer

Nós, que vivemos os tempos empolgantes do final dos anos 1960 e da década de 1970, muitas vezes nos perguntamos o que acontece com as novas gerações. Queríamos mudar o mundo, respirávamos utopia, apostávamos todas as fichas na luta por um mundo melhor.  E ficamos perplexos por não ver essa mobilização acontecendo com nossos filhos e netos, que nos parecem por vezes reféns de uma passividade imediatista que só deseja sorver o presente e cujo horizonte mais e mais se encurta. 

A sexta-feira da greve global pelo clima mudou esse nosso olhar e transformou igualmente a percepção de nossa geração sobre o imenso desafio que temos pela frente. As crianças e os jovens nos disseram o que os mobiliza, o que os apaixona, o que os faz perder noites de sono e ir às ruas cheios de esperança.  Trata-se do futuro do Planeta, da Mãe Terra, do habitat nosso e de todos, da Casa Comum. 

A liderança foi da ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos. Desde seus 15 anos Greta faz greve às sextas-feiras diante do Parlamento de seu país em favor do clima e contra a indiferença dos governos à ameaça que paira sobre o planeta. A greve foi convocada e a resposta surpreendeu: mais de 130 países aderiram, milhares de pessoas foram às ruas exigir medidas concretas contra a destruição do planeta.

A esmagadora maioria desses manifestantes é jovem, alguns recém-saídos da infância e entrando na adolescência.  O futuro do planeta os mobiliza, e eles e elas mostram aguda consciência do perigo que correm todos os humanos e todos os seres vivos se não for detida a destruição massiva que está em curso com o aquecimento global, as emissões de combustíveis, o desmatamento descontrolado e outras ocorrências que se multiplicam. Todos esses preocupantes sinais são impulsionados por um sistema que só visa lucro a qualquer preço e padece de crônica miopia por tudo que se situe além do imediatismo e do curto prazo. 

Entre os pensadores que refletem sobre o tema e dão as pautas a esse movimento está o Papa Francisco, que com sua encíclica publicada em 2015, Laudato Si, faz uma aguda análise da situação da ecologia em nível mundial.  Mas além disso adverte que aquilo que afeta o planeta, toca sobretudo nos mais vulneráveis de seus habitantes: os pobres, os oprimidos de toda sorte que são as primeiras vítimas da destruição da casa comum. 

Além de denunciar o mal que faz a destruição do planeta aos pobres da sociedade, a Encíclica apresenta a Terra como um desses pobres e vulneráveis, vítima de um progresso desordenado e desenfreado. Já no início do documento, Francisco afirma que “entre os pobres mais abandonados e maltratados, está nossa oprimida e devastada terra, que geme e sofre dores de parto”. Destacando a luminosa figura de Francisco de Assis, cujo cântico das criaturas dá o título à encíclica – Laudato sì – o Papa relembra que ele era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Alguém que mostra até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça com os pobres, o compromisso com a sociedade e a paz interior. 

Talvez sem o saber, essas crianças e jovens, muitos deles oriundos de países secularizados, estão em profunda sintonia com a Igreja naquilo que reivindicam. Em busca de um líder ao qual possam confiar seus desejos e reivindicações, encontrarão certamente o Papa Francisco que, em sua encíclica, apresenta ao mundo a urgência de uma conversão ecológica integral, a fim de que a criação de Deus e a vida que nela habita tenha futuro. 

A visão dos milhares de jovens e adolescentes manifestando e pedindo pelo planeta tinha a forma de uma grande liturgia.  Ali está a utopia de sua geração, sua paixão, aquilo pelo qual estão dispostos a tudo. De seus corpos e bocas saía a expressão da verdade que denuncia a hipocrisia e a irresponsabilidade dos poderes destruidores da terra e da vida. 

A multicolorida manifestação evoca uma frase de Jesus no Evangelho de Mateus: “Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor’”. A indignação dos meninos é louvor ao Senhor da vida, cujo Espírito sopra e anima tudo que existe. E que deseja ver sua criação desabrochada e bela, jorrando vida em plenitude àqueles que a habitam. 

A jovem Greta passeou sua liderança indignada pelas ruas de Nova York e na sede das Nações Unidas fez um dramático apelo a todos nós.  Legamos à sua geração um mundo dizimado por duas guerras mundiais e estamos a ponto de destruir para sempre o planeta onde ela e seus filhos habitarão. 

É triste que essas crianças e jovens devam interromper sua infância e juventude, prejudicar sua escolaridade,  para lembrar-nos de nossas responsabilidades negligenciadas.  Mas ao mesmo tempo é fonte de muita esperança que o façam com tanta paixão e tanto compromisso.  Laudato si!

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc).

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Maria Helena Guimarães Pereira
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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A CRIATIVIDADE DO AMOR





              por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            As situações-limite pelas quais passa a humanidade são reveladoras.  Às vezes ressaltam a crueldade de que são capazes os seres humanos, inventando técnicas de tortura, linhas de montagem industriais para eliminação massiva de pessoas, corrupção monumental que beneficia uns poucos, atirando outros mais fundo na fome e na miséria. Pressionado pela desgraça e a crueldade, o ser humano se animaliza e em seu instinto de sobrevivência busca a todo custo salvar-se ainda que seja ao preço da vida e da segurança de outros. 
            O extraordinário é que essas mesmas situações extremas revelam um outro aspecto, não tenebroso, mas luminoso.  E extremamente criativo. Evidenciam os ápices de nobreza da qual são capazes os mesmos seres humanos, os quais, premidos e encurralados por tiranias e opressões, criam respostas generosas e até mesmo heroicas. Ou seja, extraem vida ali onde a vida é humanamente impossível. 
            Toda essa introdução vem a propósito da festa – celebrada em 14 de agosto -  de um santo do século XX que talvez seja pouco conhecido: o franciscano polonês Maximiliano Kolbe. Entrando jovem para a ordem franciscana, fez doutorado em filosofia e teologia em Roma. Foi posteriormente missionário no Japão. Era profundamente devoto da Virgem Maria e se dedicou durante toda a vida a promover a espiritualidade de veneração a ela como Imaculada, ou seja, a sem pecado, a toda pura. 
            O fato mais marcante da biografia desse homem acontece, no entanto em Auschwitz, o campo de extermínio nazista para onde foi levado como prisioneiro durante a Segunda Guerra Mundial.  O número tatuado em seu braço era 16.670. Um dia do ano de 1941, após a fuga de um prisioneiro, os SS seguiram o protocolo habitual. Dez outros prisioneiros deviam morrer como represália à fuga.  O sargento polonês Franciszek Gajowniczek, ao ouvir seu nome chamado para dar um passo à frente murmurou: “Coitada de minha esposa e de meus filhos”. 
            Maximiliano Kolbe, que estava a seu lado, ouviu essas palavras e interpelou o oficial nazista dizendo: “Sou um sacerdote católico polonês.  Estou velho.  Gostaria de ocupar o lugar deste homem, que tem esposa e filhos”. O oficial ficou irritado, mas finalmente aceitou o louco oferecimento de Kolbe.  E o franciscano de 47 anos foi enviado a uma cela subterrânea juntamente com outros nove a fim de morrer de fome.
            Kolbe, enquanto teve forças e lhe foi permitido, celebrou a Eucaristia com pão e vinho fornecidos às escondidas por guardas que lhe tinham simpatia.  Após três semanas, ainda sobrevivia, juntamente com três outros.  Os nazistas necessitavam desocupar a cela onde estavam os condenados e eliminaram os sobreviventes com uma injeção de fenol. Os corpos foram incinerados no forno crematório no dia seguinte.  Era o dia 15 de agosto, festa da Assunção de Maria.
Não posso dizer que sintonizo com o estilo de espiritualidade de Maximiliano Kolbe.  Sua intensa devoção à Imaculada Conceição de Maria é admirável, mas soa um tanto piegas para os dias de hoje, sobretudo em tempos de diálogo ecumênico, quando importa reforçar os pontos em comum com os irmãos de outras igrejas. 
Porém, sintonizando ou não, é necessário reconhecer que seu gesto é de uma força tal que dignifica não apenas sua pessoa, mas a todo o gênero humano.  Revela a constitutiva capacidade de autotranscedência que tem a criatura finita penetrada pelo Espírito divino. Em meio a um contexto de morte e horror, o obscuro franciscano realizou um movimento redentor de extraordinário alcance. De sua morte brotou a vida para um homem e toda a sua família.  E seu testemunho permanece através dos tempos lembrando que é salvando a vida do outro que salvo a minha.  
Na festa de São Maximiliano Kolbe, a alteridade revela sua prevalência sobre o ego e suas imediatas necessidades. E o amor mostra-se mais criativo que o ódio, gerando vida ali onde os conluios da morte parecem haver fechado todas as saídas. 
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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

GANGORRA NA FRONTEIRA





           por Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Não é de hoje que o movimento da vida é comparado ao de uma  gangorra. O brinquedo no qual se sobe e desce alternadamente nas extremidades de uma longa trave apoiada sobre um espigão faz as delícias das crianças.  E também dos adultos muitas vezes. Pelo movimento que faz subir e descer, não podendo jamais estacionar ao mesmo nível, o significado de gangorra é associado à  insegurança, incerteza, instabilidade. 
            Daí a comparação com a vida, que é o território das surpresas e dos inesperados, levando ora para cima, ora para baixo, aqueles que nela estão embarcados pelo nascimento e que só chegarão ao porto no momento da morte. Nada mais inseguro, instável do que a vida.  E, no entanto, como é apaixonante, bela, preciosa.  Tudo que sabemos é que não pedimos para nascer, mas não queremos morrer.  A gangorra em movimento nos fascina e nela queremos estar, sem parar e sem desistir. E os pequenos que estão começando a viver se deliciam com o movimento para cima e para baixo, incessante e constante. 
            No entanto, há alguns dias esse tradicional brinquedo ganhou a mídia e as redes sociais com novo significado.  Tudo porque dois professores da Califórnia resolveram através não de uma, mas de várias gangorras, subverter o bloqueio e o terror instaurados na fronteira entre México e Estados Unidos. A política migratória, cada vez mais dura do Presidente Donald Trump, tem tido como consequência violência, mortes e deportações na fronteira entre os vizinhos do norte e do sul. 
Dois artistas que são também educadores resolveram inverter a mensagem de obstrução e interdição que o muro representa.  Em Sunland Park, no estado de New Mexico, foram instaladas gangorras que, deflorando a violência fria e inexpugnável do muro, chegam a Ciudad Juarez, do outro lado.  E assim convidam à brincadeira e ao balanço tanto estadunidenses como mexicanos, adultos e crianças, pessoas que se encontram de um lado e outro da fronteira. 
            Desde o último dia 29, as gangorras foram instaladas e começaram a ser usadas.  De um lado, Sunland Park, do outro Ciudad Juarez, uma das mais violentas na fronteira mexicana, onde o feminicídio tem taxas altíssimas e tem havido muitos casos de estupro, violência e morte com os migrantes que por ali passam. 
            A ideia dos dois professores, um arquiteto e uma designer, é mais antiga. Data de 2009.  Mas somente agora foi implementada.  E o resultado foi que o mundo inteiro pôde ver, graças às tecnologias de comunicação veloz que hoje temos, crianças e adultos de ambos os países interagindo, rindo, conversando, brincando enfim. O símbolo sombrio do muro que separa os dois territórios foi subvertido pelas gangorras de cor rosa forte, onde mexicanos e estadunidenses sobem e descem, dialogam e fazem comunhão. 
            Embora aparentemente a intenção da instalação das gangorras tivesse um objetivo primário imediato, que era atrair as crianças, já alcançou muito mais. Não só crianças têm usado a gangorra.   Adultos também se balançam na trave inquieta e rosada que atravessa a grande barreira de aço do muro da divisão.  E pessoas de distintas nacionalidades, não apenas mexicanos e estadunidenses, entram no balanço das gangorras e alternam subidas e descidas que movimentam o corpo e refrescam o espírito. 
            Mais que isso, porém, os dois pedagogos tinham um objetivo ainda mais profundo.  O muro foi feito para separar os dois países e deter os migrantes que vêm não apenas do México, mas de vários países da América Central, tentando chegar ao sonho de uma vida melhor e mais digna. Agora, porém, é ponto de apoio de relações. E as gangorras fazem com que aqueles que ali se sentam e se balançam, rindo e conversando, também reflitam sobre o fato de que o que acontece de um lado tem uma consequência direta para o outro lado. 
            Aí reside talvez o sentido mais pleno e profundo da afirmação de que a vida é uma gangorra.  Nada do que se faz fica impune.  Nenhuma de nossas ações deixa de repercutir sobre o outro e sua vida.  O fechamento das fronteiras de uma nação rica, obstruindo a entrada de pessoas que vêm de uma situação de pobreza e violência, tem consequências dolorosas e até mortais. 
            A gangorra ensina que tudo que sobe desce.  Isso significa que aquele ou aquela que hoje está em situação confortável observando a vida desde uma altitude privilegiada, amanhã poderá estar por baixo, em vulnerabilidade e desvantagem.  Se fosse transferida para o comunitário e o coletivo, talvez as gangorras que perfuram o muro “intransponível” para conectar os de cima e os de baixo pudessem servir para chamar atenção e conscientizar uns e outros, transformando a fronteira em um lugar mais humano e menos inóspito. 
            As gangorras da fronteira mostram que podem, além de subir e descer, perfurar silêncios e bloqueios, e construir relações e solidariedade. Parabéns aos dois autores que colocaram em prática essa bela ideia. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 22 de julho de 2019

CAROLA RACKETE: A BRAVURA DE ANTÍGONA





             Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Ela é jovem e branca.  Nasceu em um país rico e nunca experimentou dificuldades para viver. Pôde estudar em três universidades e aperfeiçoar-se na carreira que escolheu: conservação do meio ambiente. Formou-se aos 23 anos e navegou em barcos quebra gelos no Ártico.  Ali foi tomando consciência das necessidades do planeta e da humanidade.  E começou a perceber até que ponto era privilegiada. 

            Como declarou  em uma entrevista: “Minha vida foi fácil, pude frequentar três universidades, me formei com 23 anos. Sou branca, alemã, nascida em um país rico e com o passaporte correto.  Quando me dei conta, senti a obrigação moral de ajudar a quem não tinha as mesmas oportunidades que eu tive.”

 E assim começou o trabalho de Carola no Sea Watch. 

            A ONG alemã Sea Watch, como seu nome mesmo diz, se propõe a ser “vigilante dos mares”.   Apoia o resgate de refugiados no Mediterrâneo, concretamente comissionando barcos de resgate. Esses barcos humanitários que navegam no “Mare Nostrum” vêm efetuando o resgate de muitos migrantes vindos das costas africanas e do Oriente Médio ameaçados de naufrágio e de morte devido às condições terríveis em que se encontram, às vezes após muitos dias à deriva, à intempérie e sem alimento. Depois de resgatá-los a bordo, procuram levar os migrantes a algum porto seguro. 

            O Sea Watch 3, capitaneado por Carola Rackete, era, desde o último mês de junho, o único barco humanitário que navegava a partir da Líbia em direção à Europa. Foi quando a jovem capitã e sua tripulação resgataram 52 migrantes que estavam à deriva em alto mar diante da costa líbia. Os náufragos foram levados em direção a um porto seguro na Itália.  

            Antes do porto, porém, havia um obstáculo mais terrível que o mar encapelado, que o sol causticante e a assustadora tempestade.  Tratava-se do governo italiano, tendo à frente o conhecido e temido ministro do Interior, Matteo Salvini.  Ele negou ao Sea Watch 3 o acesso ao porto de Lampedusa, no qual pretendia atracar com sua combalida carga. Considerava ilegal o desembarque em terras italianas. Alguns dos náufragos resgatados pelo Sea Watch 3 estavam em condições tão precárias que foram levados à terra para receber tratamento de urgência.  Os 40 que ficaram a bordo enfrentaram uma longa espera de duas semanas, e suas condições psicológicas encontravam-se no limite do suportável.  

            A capitã e sua tripulação vigiavam permanentemente e em seguidos turnos os migrantes exauridos, temendo que houvesse suicídios a bordo. No dia 29 de junho, Carola tomou a difícil decisão de atracar o barco mesmo sem permissão.  Sabia que corria um risco grande, mas diante da ameaça a tantas vidas humanas sob sua responsabilidade atracou no porto de Lampedusa de madrugada, protegida pela noite e a menor vigilância dos barcos militares. 

            Os migrantes desembarcaram e foram alocados em furgões que os transportariam para diferentes países europeus onde teriam asilo. Carola foi imediatamente detida sob acusação de violência contra um barco de guerra, já que ao atracar bateu contra uma lancha militar que tentou impedi-la de chegar ao porto. Acusada de tráfico ilegal de pessoas e de entrada em águas italianas sem permissão do Estado, a jovem foi presa.  Em seu horizonte imediato, a possibilidade de três a dez anos de prisão era uma realidade palpável e possível. 

            Outra mulher, a juíza Alessandra Vala, devolveu a  capitã à liberdade.  Em sua sentença favorável, declarou que a ativista alemã cumpria “o dever de socorro, que não termina no mero embarque a bordo de náufragos, mas em sua condução a um porto seguro.” Livre, Carola continuou a ser acusada de crime pelo ministro Salvini e seus apoiadores, o que acarretou ameaças à sua vida e integridade.

            Há poucos dias, reapareceu, porém. Retomou sua luta elevando a voz para pedir aos países europeus que acolham os numerosos migrantes que se encontram na Líbia sob a ameaça de grupos traficantes e em condições infra-humanas. Relembrou a responsabilidade histórica dos países europeus por haver criado uma estrutura de poder que torna a vida na África desumana e impossível, empurrando grandes contingentes humanos à migração. Segundo a capitã, a Europa tem a obrigação de acolher as vítimas da situação de perigo e risco que criou. 

            Carola Rackete, qual nova Antígona que desafiou as leis de Tebas para dar sepultura digna a seu irmão, enfrentou proibições, ameaças e riscos para assegurar a 40 pessoas o direito de viver. Sua bravura inspira e nos dá orgulho de ser humanos.  Ao mesmo tempo nos enche de esperança de que a humanidade tenha realmente um futuro. A nós, mulheres, nos reafirma uma vez mais em nossa vocação fundamental: a de guardiãs da vida. Bravo, Carola.  E obrigada!



Maria Clara Bingemer é teóloga,  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.

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segunda-feira, 8 de julho de 2019

ÓSCAR, VALERIA E A REPETIÇÃO DE UMA TRAGÉDIA



                             Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Há quatro anos, em 2015, chocou o mundo a foto de um menino. Aylan Kurdi, pequeno turco de três anos de idade.  Vestido com bermuda e camisa vermelha, seu corpo jazia de bruços sobre a areia da praia de Bodrum, na Turquia.  Aylan era mais uma vítima da violência no Oriente Médio.  Originário de uma cidade sob o domínio do Estado Islâmico e constantemente bombardeada, fugiu juntamente com sua família - pai, mãe e irmão mais velho - na esperança de poder viajar ao Canadá, a partir da Europa. A esperança foi brutalmente assassinada com o naufrágio que matou Aylan, seu irmão Galip e a mãe de ambos. 

            Quatro anos depois, damos um salto da Europa sobre o Oceano Atlântico e terminamos nas águas do Rio Grande ou Rio Bravo, na fronteira do México com os Estados Unidos.  Novamente está presente a água, desta vez do rio.  A tragédia agora tem rosto de menina: Angie Valeria, salvadorenha de menos de dois anos de idade, cujo corpo foi encontrado abraçado ao do pai, Óscar, de 25 anos. 

Na esperança de escapar à pobreza, à falta de oportunidades e à ausência de futuro, Óscar partiu rumo aos Estados Unidos com a mulher e a filha.  Desanimado diante da longa espera que suportava em Matamoros, no norte do México, até conseguir ser atendido pela Agencia de Aduanas y Protección Fronteriza, resolveu enfrentar as águas do rio. A correnteza arrastou pai e filha, e seus corpos foram encontrados no dia seguinte. De bruços, sobre a areia da margem do rio.  Abraçados. A pequena Valeria, dentro da camiseta de Óscar, pai e filha pareciam ser um só corpo.

A tragédia sucede em pleno recrudescimento da política migratória mexicana após o acordo com o governo de Donald Trump e expõe diante do mundo a situação limite que vivem os povos centro-americanos, em um contexto onde a injustiça e a violência são barreiras dificilmente transponíveis para aqueles que lutam para viver dignamente. 

Até chegar a Matamoros, Óscar pretendia migrar legalmente. Ao entrar no México, recebeu com sua família um visto humanitário que lhes permitia residir legalmente no país, enquanto tramitavam os pedidos de asilo aos Estados Unidos.  Estava disposto a requisitar os papéis necessários e cruzar a fronteira quando estivesse quites com a justiça migratória. No entanto, foram informados que deviam inscrever-se em uma longa lista de espera para requisitar o asilo. 

Nos últimos anos, durante a administração Trump, os Estados Unidos agregaram um grande número de restrições à sua já rígida política migratória.  Vigora um sistema de cotas diárias no número de pedidos de asilo por parte de migrantes que chegam à fronteira.  Isso gerou listas intermináveis de espera, que podem durar muitas semanas nas cidades fronteiriças, algumas delas perigosas e violentas. 

A família de Óscar Martinez desesperou de esperar e resolveu lançar-se ao rio. Este – grande e bravo – sepultou em suas águas mutantes e agitadas o sonho de uma vida melhor, de um trabalho digno, de poder ter uma casa para residir em família. Sepultou a graça de viver, de estar vivos, da qual até então desfrutavam ambos. E os corpos abraçados do pai e da filha denunciaram, em alto e bom som, o absurdo que é o fato de seres humanos arriscarem suas vidas por não conseguirem receber a proteção internacional a que têm direito. 

As mortes de Óscar e Valeria simbolizam o fracasso do qual a humanidade cada dia mais prova o sabor amargo.  Fracasso em encontrar alguma solução, mesmo parcial, para a violência e o desespero que empurram quantidades imensas de pessoas a empreender viagens muito perigosas em busca de segurança e dignidade. Fracasso em formular políticas migratórias mais humanas e mais respeitosas dos direitos humanos fundamentais à vida e à segurança. 

O governo executivo de El Salvador expressou sua solidariedade aos parentes dos mortos.  Segundo declaração do mesmo, “ nenhum salvadorenho deveria ver-se na necessidade de deixar seu país por falta de oportunidades”. As vidas interrompidas de Óscar e Valeria – assim como a de Aylan Kurdi – habitam para sempre nossas retinas com suas chocantes imagens.  Oxalá possam habitar igualmente, de forma inquietante e interpelativa, nossas consciências. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.
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