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quarta-feira, 12 de abril de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - PAIXÃO

 

Dom Pedro Casaldáliga



 Tu, leproso e desprezado... Varão

de dores, sem glória, que pisaste

sozinho – e ébrio – o lagar, e te manchaste

do mosto de amargura...

tu, que trazes, Senhor, o Coração

rompido sob a pressão do pecado.

Verme e não homem, que em sanção

aos teus próprios amores condenado,

és o grande Pecado sem perdão!

Mediste, Amador, o louco excesso

que tirou-te do Sétimo Dia...?

Não foi suficiente cobrir-te de empréstimos?

Não te basta ser preso pelo modesto embrulho de um pão?

Por que não te rendes, Forte,

à agonia e à cilada trêmula de um beijo?

 

Pedro Casaldáliga, Palavras Ungidas

Desenho: Cerezo Barredo

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

LIVRO: UMA PAIXÃO






            por Maria Clara Lucchetti Bingemer


      As centenas de feiras literárias organizadas todos os anos nas capitais, nas cidades do interior, no sertão, no semiárido e nas periferias nos dão uma boa oportunidade para prestar homenagem a esse grande, fiel e inseparável amigo, feito de papel, cola, grampo, linhas e letras que é o livro.  Essa moldura recheada de conteúdos os mais diversos: paixão, aventura, amor, dor, suspense e, sobretudo, a mais elevada forma de atividade do espírito humano: a atividade literária, a criação do texto, a inspiração poética.

     Lamentavelmente vamos ficando poucos os que ainda nos aproximamos do livro com paixão ansiosa. Trata-se de uma verdadeira aventura amorosa abrir um novo livro, virar suas páginas, tocar seu papel e sentir-lhe a consistência, cheirá-lo e finalmente mergulhar em seu conteúdo, absorvendo ávida e deliciosamente as palavras mágicas que nos fazem viajar, sofrer, chorar, rir, amar, refletir, rezar...
     As novas tecnologias entraram com força em nossas vidas, atraindo-nos e conquistando-nos por inteiro com sua rapidez, eficiência e imediatez.  O clique de um botão envia pela internet a antes carta perfumada e laboriosamente escrita, que passava pelas etapas do selo, do correio, do carteiro.  O telefone celular agora não se limita a receber e enviar chamadas telefônicas, mas envia e recebe mensagens eletrônicas, toca música, apresenta os mais variados jogos.  A rede faz chegar do outro lado do mundo livros inteiros em questão de minutos e mesmo segundos.  E disponibiliza bibliotecas, periódicos e artigos onde se pode, sem sair da frente da tela do computador, fazer o que antes se fazia das páginas impressas do livro.

     Há ainda a televisão, que a cada dia apresenta capítulos de novela e sessões de “reality shows”. Breve será interativa e poderemos “conversar” com ela e através dela, tal como já fazemos através da internet no computador.

    E, no entanto...será que se trata da mesma coisa?  Será idêntica a experiência que temos e vivemos diante de um computador ou de uma televisão e aquela que desafia todas as nossas energias e faculdades mentais diante das páginas de um livro novo, recém aberto, ou de um livro antigo e tão amado que se tornou amigo de infância e que não cansamos de revisitar e reler?

     Não há dúvida que as novas tecnologias revolucionaram para melhor nossas vidas e nos trouxeram contribuições inestimáveis em termos de possibilidades de aceder mais veloz e diligentemente a toda e qualquer informação que desejamos. Porém, é inegável que essas mesmas tecnologias podem criar em nós uma espécie de dependência, de vício, que funciona como uma droga que nos impede de estar abertos e disponíveis a outras coisas. É assim que as novas gerações podem passar horas brincando em um computador, em salas de "chat" na internet em conversas que muitas vezes não são tão produtivas.  Ou não perder um capítulo de novelas e “reality shows” que vão encurtando e atrofiando cada vez mais sua potencialidade criativa, não estimulada por contribuições sempre menores e menos significativas.

     Enquanto a leitura do livro nos desafia, nos exige e nos ajuda a fazer novas interpretações e sínteses que vão nos permitir viver as situações vitais com maior preparação e um quadro de referências mais ricas, muitas das novas tecnologias, sobretudo se utilizadas com excesso e falta de discernimento, podem instaurar uma comunicação veloz, sim, mas sem muita consistência. A prova disso é o tamanho dos poucos textos que acompanham a louca dança das imagens na internet: são cada vez mais curtos, escritos em estilo menos elaborado, cheios de erros de português ou eivados de uma gíria própria que exclui as gerações nela não iniciadas.

     A leitura exige tempo, calma e investimento.  Ler um grande texto, uma bela poesia, um denso ensaio pede atenção, concentração, reflexão.  Parece ser coisa que não se está mais disposto a exercitar nos tempos que correm.  Rezar diante de uma passagem bíblica, de um salmo, ou de um poema religioso pede que toda a pessoa - corpo e espírito - esteja voltada para as letras que na escritura desenham paciente e paulatinamente o rosto do divino buscado ansiosa e amorosamente.

      As feiras literárias conseguem trazer-nos de volta um pouco da velha paixão e respeito que merecem esses tão fiéis e adoráveis amigos que são os livros. Quem sabe, também e não menos, conseguem nos devolver algo do sentimento tão profundamente humano que vê e sente a leitura como um ato que tem algo de profundo e de sagrado?
 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros

Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O PLANETA: PAIXÃO DAS NOVAS GERAÇÕES



Por Maria Clara Bingemer

Nós, que vivemos os tempos empolgantes do final dos anos 1960 e da década de 1970, muitas vezes nos perguntamos o que acontece com as novas gerações. Queríamos mudar o mundo, respirávamos utopia, apostávamos todas as fichas na luta por um mundo melhor.  E ficamos perplexos por não ver essa mobilização acontecendo com nossos filhos e netos, que nos parecem por vezes reféns de uma passividade imediatista que só deseja sorver o presente e cujo horizonte mais e mais se encurta. 

A sexta-feira da greve global pelo clima mudou esse nosso olhar e transformou igualmente a percepção de nossa geração sobre o imenso desafio que temos pela frente. As crianças e os jovens nos disseram o que os mobiliza, o que os apaixona, o que os faz perder noites de sono e ir às ruas cheios de esperança.  Trata-se do futuro do Planeta, da Mãe Terra, do habitat nosso e de todos, da Casa Comum. 

A liderança foi da ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos. Desde seus 15 anos Greta faz greve às sextas-feiras diante do Parlamento de seu país em favor do clima e contra a indiferença dos governos à ameaça que paira sobre o planeta. A greve foi convocada e a resposta surpreendeu: mais de 130 países aderiram, milhares de pessoas foram às ruas exigir medidas concretas contra a destruição do planeta.

A esmagadora maioria desses manifestantes é jovem, alguns recém-saídos da infância e entrando na adolescência.  O futuro do planeta os mobiliza, e eles e elas mostram aguda consciência do perigo que correm todos os humanos e todos os seres vivos se não for detida a destruição massiva que está em curso com o aquecimento global, as emissões de combustíveis, o desmatamento descontrolado e outras ocorrências que se multiplicam. Todos esses preocupantes sinais são impulsionados por um sistema que só visa lucro a qualquer preço e padece de crônica miopia por tudo que se situe além do imediatismo e do curto prazo. 

Entre os pensadores que refletem sobre o tema e dão as pautas a esse movimento está o Papa Francisco, que com sua encíclica publicada em 2015, Laudato Si, faz uma aguda análise da situação da ecologia em nível mundial.  Mas além disso adverte que aquilo que afeta o planeta, toca sobretudo nos mais vulneráveis de seus habitantes: os pobres, os oprimidos de toda sorte que são as primeiras vítimas da destruição da casa comum. 

Além de denunciar o mal que faz a destruição do planeta aos pobres da sociedade, a Encíclica apresenta a Terra como um desses pobres e vulneráveis, vítima de um progresso desordenado e desenfreado. Já no início do documento, Francisco afirma que “entre os pobres mais abandonados e maltratados, está nossa oprimida e devastada terra, que geme e sofre dores de parto”. Destacando a luminosa figura de Francisco de Assis, cujo cântico das criaturas dá o título à encíclica – Laudato sì – o Papa relembra que ele era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Alguém que mostra até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça com os pobres, o compromisso com a sociedade e a paz interior. 

Talvez sem o saber, essas crianças e jovens, muitos deles oriundos de países secularizados, estão em profunda sintonia com a Igreja naquilo que reivindicam. Em busca de um líder ao qual possam confiar seus desejos e reivindicações, encontrarão certamente o Papa Francisco que, em sua encíclica, apresenta ao mundo a urgência de uma conversão ecológica integral, a fim de que a criação de Deus e a vida que nela habita tenha futuro. 

A visão dos milhares de jovens e adolescentes manifestando e pedindo pelo planeta tinha a forma de uma grande liturgia.  Ali está a utopia de sua geração, sua paixão, aquilo pelo qual estão dispostos a tudo. De seus corpos e bocas saía a expressão da verdade que denuncia a hipocrisia e a irresponsabilidade dos poderes destruidores da terra e da vida. 

A multicolorida manifestação evoca uma frase de Jesus no Evangelho de Mateus: “Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor’”. A indignação dos meninos é louvor ao Senhor da vida, cujo Espírito sopra e anima tudo que existe. E que deseja ver sua criação desabrochada e bela, jorrando vida em plenitude àqueles que a habitam. 

A jovem Greta passeou sua liderança indignada pelas ruas de Nova York e na sede das Nações Unidas fez um dramático apelo a todos nós.  Legamos à sua geração um mundo dizimado por duas guerras mundiais e estamos a ponto de destruir para sempre o planeta onde ela e seus filhos habitarão. 

É triste que essas crianças e jovens devam interromper sua infância e juventude, prejudicar sua escolaridade,  para lembrar-nos de nossas responsabilidades negligenciadas.  Mas ao mesmo tempo é fonte de muita esperança que o façam com tanta paixão e tanto compromisso.  Laudato si!

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc).

Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
mhgpal@gmail.com

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

CAVALOS DA RAZÃO E DA PAIXÃO



 Frei Betto

      Diziam os gregos antigos que somos como cocheiros de carruagens tentando controlar dois cavalos, o da razão e o da paixão. Cada um puxa para um lado. O cocheiro procura manter o equilíbrio entre eles.
      As decisões que envolvem a emoção são mais difíceis de serem tomadas do que as que envolvem apenas a razão. A neurociência explica. Na decisão racional, o cérebro ativa os córtices pré-frontal dorsolateral, pré-frontal ventrolateral e o parietal. Na emocional, se estabelece uma intrincada conexão entre os córtices cingulado anterior, pré-frontal medial, orbitofrontal, a amídala e o tronco encefálico.
      A guerra, por exemplo, suscita comoção. Por isso, durante a do Vietnã, a Casa Branca perdia prestígio a cada novo caixão desembarcado nos EUA. Utilizou-se, então, a UTI para prolongar ao máximo a agonia dos pacientes, de modo a não morrerem antes de tocar o solo pátrio. Assim não eram contabilizados como mortos em território inimigo.
      Mais tarde, na guerra do Iraque, Bush tomou uma posição mais drástica. Para evitar comoção na opinião pública proibiu que os caixões fossem vistos pela mídia. Assim, o número de soldados usamericanos mortos se resumia a uma fria estatística.
      A tensão entre o racional e o emocional é perfeitamente manifestada quando se trata de nossas próprias decisões. Um diretor de empresa reduz o número de empregados ao assinar-lhes a demissão, a fim de poupar custos. Porém, se um dos empregados é seu afilhado pode ser que, por isso, não seja cortado. 
      O envolvimento emocional provoca o nepotismo. O político emprega na máquina pública parentes, amantes e amigos, não por terem competência, e sim por estarem emocionalmente vinculados a ele.
      Hoje, o poder já não se empenha em evitar a violência, da qual tem o monopólio legal. Procura apenas aplacar o impacto emocional das decisões que induzem à violência. Usa drones para assassinar supostos terroristas no Afeganistão e na Somália e, assim, poupa soldados que poderiam morrer no enfrentamento com o inimigo. 
      O mesmo raciocínio lógico, frio e implacável induziu a Casa Branca a promover, sem a menor dose de culpa, o maior atentado terrorista de todos os tempos: as bombas atômicas que, em 1945, dizimaram Hiroshima e Nagasaki. Nenhum dos envolvidos na monstruosa decisão tinha parentes ou conhecidos naquelas cidades japonesas, o que tornou tudo mais fácil.
      Para nós, que comemos além do que devemos e necessitamos, as estatísticas do número de famintos no mundo são apenas dados frios no noticiário. Não temos parentes que passam fome e jamais vimos a mãe de crianças raquíticas oferecer aos filhos lagartos e insetos.
          É essa cultura “clean”, fria, que o neoliberalismo tenta nos incutir para ficarmos insensíveis aos dramas alheios e centrados no próprio umbigo. Cabe à educação associar razão e paixão, e suscitar empatia e solidariedade. O mundo virtual não pode ser a nossa caverna de refúgio e omissão. É preciso quebrar as suas fronteiras e mergulhar no mundo real, única forma de assegurar a nossa sensibilidade a tudo que é humano e às dádivas da natureza.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.
 Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

PAIXÃO RESSUSCITADA



por Frei Betto

          Sexta-feira da Paixão. Frei Nicolau, pároco da igreja de São Domingos, na capital paulista, pediu-me para encontrar um Cristo sofrido para a procissão do Senhor morto. No templo, o clima litúrgico, com as imagens cobertas de roxo, recordava a prisão, a tortura e a morte de Jesus.

          Fui ao Bexiga atrás do Paco, cenógrafo que trouxera da Espanha a mania de colecionar Cristos. Mostrou-me sua coleção, na qual se destacavam um Cristo lavrador do Vale de Jequitinhonha, com o ventre oco, crucificado nas próprias enxadas; um Cristo peruano com cara indígena, todo retorcido, a cabeça avançada, como que prestes a se desprender do tronco; e um Cristo guatemalteco, amarrado no poste de tortura, tendo sobre a cabeça um capuz por baixo da coroa de espinhos. Emprestou-me os três para que frei Nicolau escolhesse.

          Na volta, parei no Largo do Arouche para comprar flores. Dia seguinte, o altar da igreja deveria ser enfeitado para a noite do sábado de Aleluia. De repente, uma mulher em trajes sumários, descabelada, olhos a brilhar de ódio, invadiu uma das barracas e, com uma jarra nas mãos, começou a derrubar tudo e a xingar o florista. Foi a única vez que vi uma briga de casal sob chuva de pétalas... 

          O homem, acuado, começou a gritar que ela era louca. Três ou quatro fregueses acorremos a segurá-la. Ao conseguir, senti algo quente e pastoso correr pelo meu braço direito. Ela tinha cortado as mãos com a jarra. Acalmada, aceitou que eu a levasse até o Hospital das Clínicas para que fosse medicada.

          ― O que houve com a senhora? – indaguei no caminho.

          ― Frei, ele me largou – disse vacilante, exalando forte cheiro de álcool. – É meu homem, mas agora anda com uma piranha.

          Padres e pastores são como médicos, ainda que não tenham tido a doença devem prescrever algum remédio aos males da alma. Procurei explicar que ela deveria buscar outros métodos para reconquistá-lo. A agressão e a ofensa não eram os mais indicados. Quem sabe ele logo cairia em si e se daria conta da importância de trocar a aventura pelo verdadeiro amor.

          A mulher contou que trabalhava em um restaurante próximo à Praça da República, onde lavava copos, pratos e talheres. Viera da Bahia. O florista era de Minas. Os dois se conheciam há cinco anos. Eles se lavavam no restaurante, comiam o que sobrava das travessas retornadas das mesas e, à noite, dormiam na barraca, cercados de rosas, margaridas, cravos, hortênsias e bicos-de-papagaio.

          ― Prefiro morrer, padre, a viver sem ele.

          Falei do amor, de Deus, da esperança. Por mais que tentasse fugir do discurso convencional, eu sabia que, nas águas da emoção, não se pesca com a rede da razão. Um coração machucado só conhece dois remédios: o amor, que cura e transfigura; ou o tempo, que cauteriza.

          No pronto-socorro do Hospital das Clínicas, ela foi logo atendida. Na saída, me pediu que a deixasse junto ao cemitério do Araçá.

          ― Algum parente enterrado lá? – perguntei.

          ― Não; vou comprar uma flor ali na porta e levar para o meu homem.

          O gesto, que a princípio me pareceu redundante, como oferecer pão ao padeiro, logo me fez entender que, no amor, a atitude fala muito mais alto do que a própria oferenda.

          De volta à igreja de São Domingos, frei Nicolau veio correndo ver os Cristos que eu havia conseguido.

          ― Por que demorou tanto? - perguntou ele.

          ― Porque eu estava acompanhando uma outra paixão. E ela tem nome: Maria das Graças.

          No Domingo de Páscoa, retornei ao Largo do Arouche com uma caixa de chocolates. Das Graças e Antônio, sorridentes, atendiam os fregueses na barraca de flores. 

          ― Olá Maria, olá amigo, então vocês ressuscitaram?

          Ela me reconheceu:

          ― Frei, acho que é isso mesmo o que aconteceu. A gente ressuscitou. O Antônio largou da piranha. 

          ― Agora é pra sempre – disse ele. E acrescentou com um toque de ironia: ― O amor é eterno enquanto dura.

          Corrigi-o:

          ― O amor dura enquanto é terno – e frisei a distinção entre o verbo e o adjetivo.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.


Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Livro: Uma Paixão



 Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer



       É sempre ocasião de prestar homenagem a esse grande, fiel e inseparável amigo, feito de papel, cola, grampo, linhas e letras que é o livro.  Essa moldura recheada de conteúdos os mais diversos: paixão, aventura, amor, dor, suspense e, sobretudo, a mais elevada forma de atividade do espírito humano: a atividade literária, a criação do texto, a inspiração poética.

     Lamentavelmente vamos ficando poucos os que ainda nos aproximamos do livro com paixão ansiosa. Trata-se de uma verdadeira aventura amorosa abrir um novo livro, virar suas páginas, tocar seu papel e sentir-lhe a consistência, cheirá-lo e finalmente mergulhar em seu conteúdo, absorvendo ávida e deliciosamente as palavras mágicas que nos fazem viajar, sofrer, chorar, rir, amar, refletir, rezar...
     As novas tecnologias entraram com força em nossa vida, atraindo-nos e conquistando-nos por inteiro com sua rapidez, eficiência e imediatez.  O clique de um botão envia pela internet a antes carta perfumada e laboriosamente escrita, que passava pelas etapas do selo, do correio, do carteiro.  O telefone celular agora não se limita a receber e enviar chamadas telefônicas, mas envia e recebe mensagens eletrônicas, toca música, apresenta os mais variados jogos.  A rede faz chegar do outro lado do mundo livros inteiros em questão de minutos e mesmo segundos.  E disponibiliza bibliotecas, periódicos e artigos onde se pode, sem sair da frente da tela do computador, fazer o que antes se fazia das páginas impressas do livro.

     Há ainda a televisão, que a cada dia apresenta capítulos de novela e sessões de “reality shows”. Breve será interativa e poderemos “conversar” com ela e através dela, tal como já fazemos através da internet no computador.

    E, no entanto...será que se trata da mesma coisa?  Será idêntica a experiência que temos e vivemos diante de um computador ou de uma televisão e aquela que desafia todas as nossas energias e faculdades mentais diante das páginas de um livro novo, recém aberto, ou de um livro antigo e tão amado que se tornou amigo de infância e que não cansamos de revisitar e reler?

     Não há dúvida que as novas tecnologias revolucionaram para melhor nossas vidas e nos trouxeram contribuições inestimáveis em termos de possibilidades de aceder mais veloz e diligentemente a toda e qualquer informação que desejamos. Porém, é inegável que essas mesmas tecnologias podem criar em nós uma espécie de dependência, de vício, que funciona como uma droga que nos impede de estar abertos e disponíveis a outras coisas. É assim que as novas gerações podem passar horas brincando em um computador, em salas de "chat" na internet em conversas que muitas vezes não são tão produtivas.  Ou não perder um capítulo de novelas e “reality shows” que vão encurtando e atrofiando cada vez mais sua potencialidade criativa, não estimulada por contribuições sempre menores e menos significativas.

      Enquanto a leitura do livro nos desafia, nos exige e nos ajuda a fazer novas interpretações e sínteses que vão nos permitir viver as situações vitais com maior preparação e um quadro de referências mais ricas, muitas das novas tecnologias, sobretudo se utilizadas com excesso e falta de discernimento, podem instaurar uma comunicação veloz, sim, mas sem muita consistência. A prova disso é o tamanho dos poucos textos que acompanham a louca dança das imagens na internet: são cada vez mais curtos, escritos em estilo menos elaborado, cheios de erros de português ou eivados de uma gíria própria que exclui as gerações nela não iniciadas.
  
     A leitura exige tempo, calma e investimento.  Ler um grande texto, uma bela poesia, um denso ensaio pede atenção, concentração, reflexão.  Parece ser coisa que não se está mais disposto a exercitar nos tempos que correm.  Rezar diante de uma passagem bíblica, de um salmo, ou de um poema religioso pede que toda a pessoa - corpo e espírito - esteja voltada para as letras que na escritura desenham paciente e paulatinamente o rosto do divino buscado ansiosa e amorosamente.

     Quem sabe as Bienais do Livro e as Feiras Literárias que felizmente hoje proliferam por diversas cidades, de norte a sul do país, conseguem trazer-nos de volta um pouco da velha paixão e respeito que merecem esses tão fiéis e adoráveis amigos que são os livros? Quem sabe, também e não menos, conseguem nos devolver algo do sentimento tão profundamente humano que vê e sente a leitura como um ato que tem algo de profundo e de sagrado?

Maria Clara Lucchetti Bingemer, Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “Ser cristão hoje" (Editora Ave Maria).
 Copyright 2014 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



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