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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

GANGORRA NA FRONTEIRA





           por Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Não é de hoje que o movimento da vida é comparado ao de uma  gangorra. O brinquedo no qual se sobe e desce alternadamente nas extremidades de uma longa trave apoiada sobre um espigão faz as delícias das crianças.  E também dos adultos muitas vezes. Pelo movimento que faz subir e descer, não podendo jamais estacionar ao mesmo nível, o significado de gangorra é associado à  insegurança, incerteza, instabilidade. 
            Daí a comparação com a vida, que é o território das surpresas e dos inesperados, levando ora para cima, ora para baixo, aqueles que nela estão embarcados pelo nascimento e que só chegarão ao porto no momento da morte. Nada mais inseguro, instável do que a vida.  E, no entanto, como é apaixonante, bela, preciosa.  Tudo que sabemos é que não pedimos para nascer, mas não queremos morrer.  A gangorra em movimento nos fascina e nela queremos estar, sem parar e sem desistir. E os pequenos que estão começando a viver se deliciam com o movimento para cima e para baixo, incessante e constante. 
            No entanto, há alguns dias esse tradicional brinquedo ganhou a mídia e as redes sociais com novo significado.  Tudo porque dois professores da Califórnia resolveram através não de uma, mas de várias gangorras, subverter o bloqueio e o terror instaurados na fronteira entre México e Estados Unidos. A política migratória, cada vez mais dura do Presidente Donald Trump, tem tido como consequência violência, mortes e deportações na fronteira entre os vizinhos do norte e do sul. 
Dois artistas que são também educadores resolveram inverter a mensagem de obstrução e interdição que o muro representa.  Em Sunland Park, no estado de New Mexico, foram instaladas gangorras que, deflorando a violência fria e inexpugnável do muro, chegam a Ciudad Juarez, do outro lado.  E assim convidam à brincadeira e ao balanço tanto estadunidenses como mexicanos, adultos e crianças, pessoas que se encontram de um lado e outro da fronteira. 
            Desde o último dia 29, as gangorras foram instaladas e começaram a ser usadas.  De um lado, Sunland Park, do outro Ciudad Juarez, uma das mais violentas na fronteira mexicana, onde o feminicídio tem taxas altíssimas e tem havido muitos casos de estupro, violência e morte com os migrantes que por ali passam. 
            A ideia dos dois professores, um arquiteto e uma designer, é mais antiga. Data de 2009.  Mas somente agora foi implementada.  E o resultado foi que o mundo inteiro pôde ver, graças às tecnologias de comunicação veloz que hoje temos, crianças e adultos de ambos os países interagindo, rindo, conversando, brincando enfim. O símbolo sombrio do muro que separa os dois territórios foi subvertido pelas gangorras de cor rosa forte, onde mexicanos e estadunidenses sobem e descem, dialogam e fazem comunhão. 
            Embora aparentemente a intenção da instalação das gangorras tivesse um objetivo primário imediato, que era atrair as crianças, já alcançou muito mais. Não só crianças têm usado a gangorra.   Adultos também se balançam na trave inquieta e rosada que atravessa a grande barreira de aço do muro da divisão.  E pessoas de distintas nacionalidades, não apenas mexicanos e estadunidenses, entram no balanço das gangorras e alternam subidas e descidas que movimentam o corpo e refrescam o espírito. 
            Mais que isso, porém, os dois pedagogos tinham um objetivo ainda mais profundo.  O muro foi feito para separar os dois países e deter os migrantes que vêm não apenas do México, mas de vários países da América Central, tentando chegar ao sonho de uma vida melhor e mais digna. Agora, porém, é ponto de apoio de relações. E as gangorras fazem com que aqueles que ali se sentam e se balançam, rindo e conversando, também reflitam sobre o fato de que o que acontece de um lado tem uma consequência direta para o outro lado. 
            Aí reside talvez o sentido mais pleno e profundo da afirmação de que a vida é uma gangorra.  Nada do que se faz fica impune.  Nenhuma de nossas ações deixa de repercutir sobre o outro e sua vida.  O fechamento das fronteiras de uma nação rica, obstruindo a entrada de pessoas que vêm de uma situação de pobreza e violência, tem consequências dolorosas e até mortais. 
            A gangorra ensina que tudo que sobe desce.  Isso significa que aquele ou aquela que hoje está em situação confortável observando a vida desde uma altitude privilegiada, amanhã poderá estar por baixo, em vulnerabilidade e desvantagem.  Se fosse transferida para o comunitário e o coletivo, talvez as gangorras que perfuram o muro “intransponível” para conectar os de cima e os de baixo pudessem servir para chamar atenção e conscientizar uns e outros, transformando a fronteira em um lugar mais humano e menos inóspito. 
            As gangorras da fronteira mostram que podem, além de subir e descer, perfurar silêncios e bloqueios, e construir relações e solidariedade. Parabéns aos dois autores que colocaram em prática essa bela ideia. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

GANGORRA NA FRONTEIRA




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Não é de hoje que o movimento da vida é comparado ao de uma  gangorra. O brinquedo no qual se sobe e desce alternadamente nas extremidades de uma longa trave apoiada sobre um espigão faz as delícias das crianças.  E também dos adultos muitas vezes. Pelo movimento que faz subir e descer, não podendo jamais estacionar ao mesmo nível, o significado de gangorra é associado à  insegurança, incerteza, instabilidade. 

            Daí a comparação com a vida, que é o território das surpresas e dos inesperados, levando ora para cima, ora para baixo, aqueles que nela estão embarcados pelo nascimento e que só chegarão ao porto no momento da morte. Nada mais inseguro, instável do que a vida.  E, no entanto, como é apaixonante, bela, preciosa.  Tudo que sabemos é que não pedimos para nascer, mas não queremos morrer.  A gangorra em movimento nos fascina e nela queremos estar, sem parar e sem desistir. E os pequenos que estão começando a viver se deliciam com o movimento para cima e para baixo, incessante e constante. 

            No entanto, há alguns dias esse tradicional brinquedo ganhou a mídia e as redes sociais com novo significado.  Tudo porque dois professores da Califórnia resolveram através não de uma, mas de várias gangorras, subverter o bloqueio e o terror instaurados na fronteira entre México e Estados Unidos. A política migratória, cada vez mais dura do Presidente Donald Trump, tem tido como consequência violência, mortes e deportações na fronteira entre os vizinhos do norte e do sul. 

Dois artistas que são também educadores resolveram inverter a mensagem de obstrução e interdição que o muro representa.  Em Sunland Park, no estado de New Mexico, foram instaladas gangorras que, deflorando a violência fria e inexpugnável do muro, chegam a Ciudad Juarez, do outro lado.  E assim convidam à brincadeira e ao balanço tanto estadunidenses como mexicanos, adultos e crianças, pessoas que se encontram de um lado e outro da fronteira. 

            Desde o último dia 29, as gangorras foram instaladas e começaram a ser usadas.  De um lado, Sunland Park, do outro Ciudad Juarez, uma das mais violentas na fronteira mexicana, onde o feminicídio tem taxas altíssimas e tem havido muitos casos de estupro, violência e morte com os migrantes que por ali passam. 

            A ideia dos dois professores, um arquiteto e uma designer, é mais antiga. Data de 2009.  Mas somente agora foi implementada.  E o resultado foi que o mundo inteiro pôde ver, graças às tecnologias de comunicação veloz que hoje temos, crianças e adultos de ambos os países interagindo, rindo, conversando, brincando enfim. O símbolo sombrio do muro que separa os dois territórios foi subvertido pelas gangorras de cor rosa forte, onde mexicanos e estadunidenses sobem e descem, dialogam e fazem comunhão. 

            Embora aparentemente a intenção da instalação das gangorras tivesse um objetivo primário imediato, que era atrair as crianças, já alcançou muito mais. Não só crianças têm usado a gangorra.   Adultos também se balançam na trave inquieta e rosada que atravessa a grande barreira de aço do muro da divisão.  E pessoas de distintas nacionalidades, não apenas mexicanos e estadunidenses, entram no balanço das gangorras e alternam subidas e descidas que movimentam o corpo e refrescam o espírito. 

            Mais que isso, porém, os dois pedagogos tinham um objetivo ainda mais profundo.  O muro foi feito para separar os dois países e deter os migrantes que vêm não apenas do México, mas de vários países da América Central, tentando chegar ao sonho de uma vida melhor e mais digna. Agora, porém, é ponto de apoio de relações. E as gangorras fazem com que aqueles que ali se sentam e se balançam, rindo e conversando, também reflitam sobre o fato de que o que acontece de um lado tem uma consequência direta para o outro lado. 

            Aí reside talvez o sentido mais pleno e profundo da afirmação de que a vida é uma gangorra.  Nada do que se faz fica impune.  Nenhuma de nossas ações deixa de repercutir sobre o outro e sua vida.  O fechamento das fronteiras de uma nação rica, obstruindo a entrada de pessoas que vêm de uma situação de pobreza e violência, tem consequências dolorosas e até mortais. 

            A gangorra ensina que tudo que sobe desce.  Isso significa que aquele ou aquela que hoje está em situação confortável observando a vida desde uma altitude privilegiada, amanhã poderá estar por baixo, em vulnerabilidade e desvantagem.  Se fosse transferida para o comunitário e o coletivo, talvez as gangorras que perfuram o muro “intransponível” para conectar os de cima e os de baixo pudessem servir para chamar atenção e conscientizar uns e outros, transformando a fronteira em um lugar mais humano e menos inóspito. 

            As gangorras da fronteira mostram que podem, além de subir e descer, perfurar silêncios e bloqueios, e construir relações e solidariedade. Parabéns aos dois autores que colocaram em prática essa bela ideia. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros
  
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


segunda-feira, 2 de julho de 2018

VIVER NA FRONTEIRA


por Maria Clara Lucchetti Bingemer

O problema das migrações e das pessoas em situação de vulnerabilidade devido à sua mobilidade se avoluma a cada dia no mundo inteiro. Especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas, mesmo no Sul do mundo - por exemplo, no Brasil – onde se acha que isto não é problema nosso, o cardeal Claudio Humes lembrou a ferida que temos com os índios. 
 Na Amazônia - região da qual é responsável o mesmo cardeal, enquanto ainda há muitas tribos indígenas que não têm contato com o chamado mundo civilizado – não sem ironia -, há muitos mais que vivem em mobilidade nas cidades, onde  vagam sem trabalho, sem abrigo, em estado de total vulnerabilidade. Despojados pela colonização - antiga e nova - da identidade, língua, cultura, religião, agora esses índios se movem sem rumo e sem meios de subsistência.
Entre as maiores vítimas da sociedade de hoje, no entanto, estão os migrantes, os estrangeiros que chegam em grande número às fronteiras de países desenvolvidos em busca de uma vida melhor para si e seus filhos. Escapam de situações de guerra e devastação; são também vítimas da fome e da escassez; querem empregos fora do lugar onde moram porque não encontram mais oportunidades.
 Eles são o "outro”, o “diferente”, oferecido aos sentidos e à percepção de abastadas sociedades do hemisfério norte.  Muitas vezes, em vez de encontrar acolhida e melhoria de vida como desejam e esperam, encontram a morte nas águas do Mediterrâneo, no deserto do Arizona ou em qualquer outra circunstância. Trata-se de um fenômeno que cresce em importância e configura uma nova forma de escravidão.
Recentemente nos Estados Unidos, outro tipo de problema aparece: o das crianças migrantes. Elas chegam sozinhas ou com os pais, dos quais muitas são separadas.  Estes foram deportados ou presos e os menores ficam em abrigos com grades.  O fato provocou tal indignação no mundo inteiro que o presidente Trump recuou da aplicação radical e truculenta da lei, que determina a separação dos menores das mães que entrarem ilegalmente no país. Esta lei existe desde o governo Clinton.
 Mas o problema persiste.  Não só as inúmeras crianças que ficaram para trás sem os pais já deportados, como a quantidade enorme que chega desacompanhada e sozinha. Nesse momento, mais de 1800 crianças que chegaram com os pais continuam separados deles.  E essa cifra não inclui as milhares de crianças migrantes que chegaram sozinhas à fronteira ao longo dos anos e que se encontram em refúgios ou casas de acolhida em vários pontos do país. 
A violência do problema do migrante e do estrangeiro hoje está ligada à crise das construções religiosas e morais. A assimilação que havia dos estrangeiros por parte de nossas sociedades em períodos mais remotos no tempo revela-se inaceitável para o indivíduo moderno, que cuida zelosamente de sua diferença, não apenas nacional e ética, mas essencialmente subjetiva, irredutível. E seria apenas no momento em que o indivíduo moderno deixasse de considerar-se como bem resolvido e glorioso, descobrindo suas inconsistências e seus abismos, suas "peculiaridades" ou "estranhezas", em suma, que a questão poderia ser reformulada: não mais acolher o estrangeiro em um sistema que o anula e rejeita, mas instaurar a convivência destes estrangeiros que somos todos.
O espaço do estrangeiro é a errância, o nomadismo. E aquilo que é sua condição é também sua ferida secreta. Mas ao mesmo tempo é aquilo que o protege do domínio e controle de todos. Sempre ausente, sempre inacessível a todos. Sua condição é aquilo que falta, a ausência que ele experimenta. Sua pátria é um país desejado, embora ainda não habitado e sempre adiado, diferido. Este país, ele carrega em seu sonho, e o vislumbra apenas além de si próprio, de seu tempo e espaço. 
Com o estranhamento daqueles que o confrontam a partir de fora e que simultaneamente o habita dentro de si mesmo, o estrangeiro desconfortável e inadequado levanta animosidade e postula a questão sobre o fato de não estar em seu próprio lugar, mas sempre no lugar do outro, ou o "outro" lugar. A distância entre ele, o diferente e os locais ou cidadãos lhe dá uma distância privilegiada para ver o que os outros não veem. Isso lhe dá a sensação de viver numa perene fronteira, relativizando e sendo relativizado lá onde os outros estão submersos nos sulcos da nacionalidade, da pertença cidadã etc. O desapego do estrangeiro na verdade é a resistência com a qual ele ou ela consegue combater sua angústia matricida.
 O migrante estrangeiro está condenado sempre ao silêncio. Mudo está, mesmo em relação à sua língua materna. Habita e constrói comunidades cortadas da memória do corpo, do idioma, das memórias da infância e da juventude.  Carrega em si mesmo como um cofre secreto onde habita a linguagem antiga que não pode mais pronunciar. 
E ainda que aprendendo a língua do outro, do país onde chega e tenta radicar-se, sempre haverá o sotaque que o denunciará, afastando-o dos habitantes locais e o exilará a seu verdadeiro terreno linguístico: o silêncio.  Silêncio que na verdade não é somente imposto de fora.  É interior, habita dentro dele ou dela. 
            Sua pátria, sua pertença, ficou para trás.  Sua nova pátria é a fronteira, que ele vive permanentemente, no espaço onde pisa e em sua alma permanentemente cindida. 
 
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Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora  de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

 
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segunda-feira, 25 de junho de 2018

PRANTO NA FRONTEIRA



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Que som é esse, triste, rouco, desesperado?  De onde vêm esse pranto, esses soluços, essa tristeza infinita?  Que palavras são essas, repetidas como mantras, incessantemente, tristemente, obstinadamente?  O que dizem, a quem chamam, de que bocas saem?  São dezenas, centenas, milhares de crianças.  Vêm de Honduras, Guatemala, El Salvador ou qualquer outra parte da América Central ou de outro canto do continente.  Choram desconsoladamente porque foram separadas de seus pais e não há nada que possa consolar uma criança que se sente sozinha em um mundo hostil e não encontra a mãe ou o pai para protegê-la.  Esses pequenos chamam, uma e outra vez, insistentemente, desesperadamente: “Papai! Mamãe!”
            A política anti-migratória dos Estados Unidos endureceu ainda mais.  O presidente faz constantes e bombásticas declarações, alegando que não pode transformar o país em um campo de refugiados, que todo adulto que entrar ilegalmente em solo americano será considerado criminoso ou delinquente, portanto passível de prisão e deportação. Muitos chegam com os filhos menores.  E como estes não podem ser encarcerados, são separados dos pais. 
            Entre abril e junho mais de duas mil crianças centro-americanas foram separadas dos pais quando suas famílias tentaram entrar no país do norte passando fronteiras oficiais.  Além destes, há um número elevado de pessoas que chegam aos EUA por vias não oficiais. Se descobertos pela polícia de fronteiras, passam pelo mesmo processo de separação e deportação. Na verdade, tal como foi feito com os jovens “dreamers” (sonhadores) que chegaram ao país na infância e ali cresceram, o governo agora faz pressão sobre o Congresso com a dramática separação de famílias para levar avante sua reforma migratória mais restritiva.  
            A lei aprovada em 2008 e que visava a conter o tráfico de crianças determina que os menores imigrantes que chegam sozinhos ao país permaneçam o mínimo tempo possível nos centros de detenção e sejam rapidamente encaminhados a uma família de acolhida.  Proíbe igualmente a deportação imediata de menores sem documentos. E limita a menos de um mês o tempo que uma mãe pode permanecer com seu filho menor em um centro de detenção.  
            Ora, se as famílias forem separadas já não há essa restrição de tempo.  A prisão pode estender-se e a deportação acontecer sem restrição de qualquer espécie devido à presença de uma criança.  Por sua vez, as crianças que chegam sozinhas ou que são separadas dos pais têm um limite de tempo para permanecer em um centro de detenção e devem ser encaminhadas o mais rápido possível a uma família de adoção ou a algum parente residente nos EUA.  Sucede, porém, que muitas vezes esses familiares não respondem ao chamado telefônico e não resgatam a criança.  E isso pela simples razão de que têm medo de que, ao fazê-lo, suas vidas se compliquem, a polícia os deporte por serem indocumentados ou ainda que a documentação pela qual esperam tão ansiosamente lhes seja negada. 
            As crianças, sozinhas e com muito medo são, então, geralmente postas em salas com grade, agasalhadas com cobertores metálicos.  E aí choram a ausência de seus pais, chamando por eles.  São pequenos de 4, 5 ou 6 anos, para quem a referência maior são os pais e a quem a solidão em que se encontram literalmente desespera. 
            A situação desses menores comoveu o mundo inteiro ao serem veiculadas imagens e áudios onde as crianças aparecem atrás de grades e podem ser ouvidas chamando pelos pais em meio a um pranto convulsivo. Protestos se fizeram ouvir não apenas das organizações defensoras de direitos humanos.  A primeira dama dos EUA, Melania Trump, veio a público declarar-se contra a separação das crianças de seus pais.  A ex-primeira dama Laura Bush protestou igualmente com veemência.  A Associação Americana de Pediatras declarou que a prática de separar crianças  de seus pais pode causar-lhes dano irreparável.
            Nada parece comover ou demover a alta administração do governo estadunidense, que cita inclusive a Sagrada Escritura para justificar sua posição. O Secretário de Justiça cita a Bíblia, na Carta aos Romanos, capítulo 13, para justificar a política migratória de “tolerância zero”: “Há que obedecer as leis do governo, porque Deus ordenou o governo para seus propósitos. “ 
            Esquece o secretário que o mesmo Paulo de Tarso, autor do versículo citado, convoca à prática do amor, que supera toda lei.  Assim fazendo, segue seu Mestre, Jesus de Nazaré, que foi sempre livre diante da Lei quando estava em jogo o bem das pessoas. Se as pessoas em questão são crianças menores de idade e em situação de extrema vulnerabilidade, com mais razão ainda.
            Nas fronteiras, ecoa o pranto dos milhares de menores indefesos, tornados órfãos por decreto do governo do país mais rico do mundo. Parece esquecido nessa política migratória radicalmente restritiva o fato de que esse país conseguiu a supremacia econômica e o poder de que hoje desfruta em boa parte devido ao trabalho dos imigrantes. O lamento das crianças pode não ser atendido pelos altos escalões do governo estadunidense, mas certamente chega aos ouvidos e ao coração de Deus. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros.
 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>