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sábado, 8 de abril de 2023

Como viver a Páscoa no meio de tantas crises?

 




                                     Leonardo Boff

         Muitas crises  estão assolando a humanidade: a crise econômica derrubando grandes bancos nos países centrais, a crise política com o ascenso mundial das políticas de direita e de extrema-direita, s crise das democracias em quase todos os países, a crise do Estado cada vez mais burocratizado, a crise do capitalismo globalizado que não consegue resolver os problemas que ele mesmo criou,gerando uma acumulação de riqueza em pouquíssimas mãos num mar de probreza e de miséria, a crise ética, pois não contam mais valores da grande tradição da  humanidade, mas o vale tudo pós moderno (every think goes), a crise do humanismo pois impera relações de ódio e de barbárie nas relações sociais, a crise de civilização que começou a introduzir a inteligência artificial autônoma que articula bilhões de algorítmos, toma decisões, independente da vontade humana, pondo em risco nosso futuro comum, a crise sanitária que atingiu toda a humanidade pelo Covid-19, a crise ecológica que, se não cuidarmos da biosfera, nos alerta para uma tragédia possível e terminal do sistema-vida e do sistema-Terra. Por detrás de todas estas crise há uma crise ainda maior: a crise do espírito que representa uma crise da vida humana neste planeta.

O espírito é aquele momento da vida consciente no qual nos damos conta de que pertencemos a um todo maior, terrenal e cósmico,que estamos à mercê de uma Energia poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas e a nós mesmos. Temos a faculdade específica de com ela poder  dialogar e a ela nos abrir,identificando um Sentido maior que tudo perpassa e que atende ao nosso impulso de infinitude. A vida do espírito (que neurólogos chamam de”ponto Deus” no cérebro) vem soterrada pela votande irrefleável de acumulação de bens materiais, pelo cnsumismo, pelo egoismo e pela falta profunda de solidariedade.

Depois de agosto de 1945, os USA lançando duas bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, nos sbriu a consciência de que podemos nos auto-aniquilar. Esse risco aumentou com a corrida armamentista,incluindo nove nações, com armas químicas, biológicas e cerca de 16 mil ogivas nucleares. A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia fez com que Putin ameaçasse o uso de armas nucleares, trazendo o temor apocalíptico do fim da espécie humana.

Nesse cenário como celebrar a maior festa da cristandade que é a Páscoa, a ressurreição do Crucificado, Jesus de Nazaré? Ressurreição não deve ser entendida como  a reanimação de um cadáver como o de Lázaro. Ressurreição, nas palavras de São Paulo representa a irrupção do “novissimus Adam (1Cor 15,45), vale dizer, do ser humano novo, cujas infinitas virtualidades presentes nele (somos um projeto infinito) afloram totalmente. Desta forma comparece como uma revolução na evolução, uma antecipação do fim bom da vida humana. O Ressuscitado ganhou uma dimensão cósmica, nunca mais deixou o mundo e enche todo o universo.

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Nesse sentido a ressurreição não é a memória de um passado, mas a celebração de um presente, sempre presente a nos suscitar alegria, o suave sorriso na certeza de que a morte matada de Jesus de Nazaré, a sexta-feira santa, é só uma passagem para uma vida, livre da morte e plenamente realizada: a ressurreição. O horizonte sombrio se desanuviou e o irrompeu o Sol da esperança.

Pensando em termos do processo cosmogênico que tudo engloba, a ressurreição não está fora dele. Ao contrário, é uma emergência nova da cosmogênese e daí seu valor universal, para além do salto da fé. A ressurreição é a síntese da dialética, de onde Hegel tirou sua dialética, da vida (tese), da morte (antítese) e da ressurreição (síntese).Esta é o termo de tudo, agora antecipado para nossa alegria.  É o gênesis verdadeiro, não do começo, mas do fim já alcalçado.

Considero a versão do evangelho de São Marcos sobre a ressurreição a mais realista e verdadeira.Ele termina se texto com Jesus ressuscitado,dizendo às mulheres:”ide dizer aos apóstolos e a Pedro que ele (o Ressuscitado) vos precede na Galiléia. Lá o vereis com vos disse”(Mc 16,7). E assim termina. As aparições relatadas, é covicção dos estudiosos, seria um acréscimo posterior. Quer dizer: todos estamos a caminho da Galiléia para encontrar o Ressuscitado. Ele pessoalmente ressuscitou mas sua ressurreição não se completou enquanto seus irmãos e irmãs e a inteira natureza ainda não ressuscitaram.Estamos a caminho, esperados pelo Ressuscitado que ainda não se mostrou totalmente. Por esta razão, o mundo fenomenoligicamente continua o mesmo ou pior, com guerras e momentos de paz, com bondades e perversidades, como se não tivesse havido a ressureição como sinal de superação desta realidade ambigua.

Mesm assim depois que Cristo ressuscitou não podemos mais ficar tristes: o fim bom está garantido.

Boa festa de Páscoa para todos os que puderem realizar este percurso e também para aqueles que não o podem realizar.

Leonardo Boff escreveu: A ressurreição de Cristo e a nossa na morte, Vozes 1972 várias edições.

 

domingo, 4 de julho de 2021

VIVER E RESISTIR, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(27/06/2021)

 

      É nas grandes crises ou nas grandes alegrias que se revela a verdade oculta das pessoas. A pandemia do coronavirus tem sido disso uma prova contundente. Ela liberou, dos porões do inconsciente coletivo e individual, uma série de monstros, de bruxas, de insanidades, de rancores clandestinos,  de fraturas mal tratadas, de traumas e recalques. O estrago foi enorme e não poupou nem amizades pessoais nem laços de sangue familiares.

 

     Em meio a estas avarias, voltou à tona uma velha e desgastada pergunta: a vida é uma bênção ou um fardo? O ser humano é anjo ou é demônio?  A pandemia deu argumentos de sobra para as duas torcidas. Numerosas vidas que voluntariamente sacrificaram-se para salvar outras tantas vidas reacenderam nossa confiança na bondade humana. Por outra parte, a insensibilidade e o descaso criminoso da parte das Cúpulas políticas, do Poder econômico e de muitos indivíduos misturaram o joio com o trigo e deixaram dúvidas sobre qual dos dois há de prevalecer.

 

     O que fazer deste sentimento de revolta reprimido, arriscando-se a virar ódio ou depressão?  Deixar-nos mover pelo ódio é algo autofágico, o ódio se devora a si mesmo. Odiar é reconhecer a própria inferioridade, o próprio medo, pois não se justifica odiar o inimigo quando acreditamos convictamente em nossas condições de vencê-lo.

 

     E o mandamento maior do amor, onde fica? Ele está inserido dentro da luta. E naturalmente corre riscos. Um destes riscos é o de confinar-se em gestos de caridade. Matar a fome dos esfaimados é dever elementar e prioritário. Nenhum general abandona seu soldado ferido, mesmo com risco de comprometer os planos da batalha. Fome não tem partido político nem ideologia nem religião nem nada, só tem pressa. Mas não podemos esquecer que ela também é arma na mão dos opressores; eles sabem que o faminto não quer mudanças, só quer comida. Daí a importância de juntarmos a este empenho outras iniciativas que impeçam  trocar direitos por dependência.

 

     Temos nos deparado diariamente com o espantalho de mortes brutais; são mortes matadas, muito mais do que mortes morridas. Milhares morreram para que alguns ganhassem muito dinheiro. Em favor de nós mesmos, pela nossa dor, choramos, mas, em homenagem a eles, aos que partiram, e em defesa de outras vidas, lutemos sem tréguas. ("Oh fazedores de morte, que não cessais de fazê-la, em vossa maligna sorte de redigir pesadelos, quando deixareis à vida a chance de ser vivida?" Drumond de Andade). A despeito desta justa raiva, não há razão de proibir-nos festejar a vida, manter o bom humor, cultivar alegrias, repartir o prazer. Sem prazer não há vida e o bom humor ativa nosso senso de proporção, impede que o excesso de raivas nos leve à desesperança.

 

     Por um bom tempo ainda caminharemos em meio a sombras, por vezes em meio a trevas. Nem por isso deixamos de ser conduzidos pela luz. "Não há maior tragédia do que ter medo da luz", escreve o filósofo Platão.

 

     Quanto a nós, pomos toda confiança em Alguém que disse "Eu sou a Luz do mundo".

       Sua luz brilhou ao máximo na Cruz do Calvário. Foi aí que Ele provou sua absoluta coerência entre palavra e vida, entre viver e resistir, preferindo o sacrifício total à recusa da sua missão.  Como podemos ter medo,  estando na companhia de Quem por nós despojou-se até a  morte? Seja Ele nosso Guia, enquanto rezamos o salmo 144: "Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestrou minhas mãos para a luta". Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

sábado, 14 de novembro de 2020

ABRAÇAR O MUNDO INTEIRO É VIVER COMUNHÃO

 


 Pe Fabio Potiguar dos Santos


Em Cristo, na sinergia do Espírito Santo, Deus reuniu todas as coisas. O Mistério Pascal que celebramos, tem conseqüências não só antropológicas, o Homem Novo e a Mulher Nova, as Novas Criaturas, mas igualmente consequências cósmicas, o Novo Céu e a Nova Terra. Resulta daqui a Comunhão Cósmica.

Todas as antigas tradições místicas e espirituais, cada uma ao seu modo, sempre apresentaram essa união Humanidade e Criação. Talvez as expressões indígenas sejam as mais bonitas e as mais autênticas nessa relação.

Já o Antigo Testamento, no belíssimo Cântico das Criaturas encontrado no livro do Profeta Daniel, temos essa experiência onde homens e mulheres, o céu, a terra e o mar com tudo o que neles vivem bendizem o Senhor. Nos Salmos muitas orações também estão imbuídas desse espírito, onde, junto com as pessoas, os rios e as montanhas batem palmas a Deus, e as árvores das florestas dançam de alegria na presença do Senhor. Os nossos irmãos judeus, filhos que somos do mesmo Pai Abraão, juntamente com os mulçumanos, foram, no desenrolar dos tempos, tomando consciência e sentimento dessa tão linda comunhão cósmica que tomará plenitude na Plenitude dos Tempos quando Deus se encarna, morre e ressuscita. O Pobrezinho de Assis, São Francisco, mil e duzentos anos depois de Cristo, entende melhor do que todos, de que tudo e todos foram recapitulados em Cristo. Daí este santo chamar a tudo de irmão e irmã.

 As ricas tradições religiosas de matriz africana, bem como as espíritas, budistas, hindus, os cristãos católicos, ortodoxos e evangélicos,  e tantas outras, expressão essa matriz espiritual e ética de base comum dos valores universais da fraternidade, da dignidade da pessoa humana, da justiça social, da paz e do respeito ecológico.

Bom, se somos uma Comunhão Cósmica que incidências tem tudo isso em nossas vidas? Tem a ver que só estamos em comunhão com Deus se estivermos em comunhão com as pessoas. Por sua vez, essa comunhão só é verdadeira quando se estende a um abraço fraterno e terno com a Mãe Terra e o espaço sideral. Comunhão então que ao mesmo tempo em que é mística tem a ver com as nossas relações humanas, com promoção da paz e a justiça social, superando, sem tergiversar, a insanidade das guerras e conflitos e o escândalo da miséria, da fome e da pobreza que ainda assolam o mundo. Uma vergonha que mancha a consciência mundial e comprova a perversão e a iniquidade do modelo econômico vigente, exclusivista e excludente contrários a Deus, a Humanidade e a Ecologia. Tem a ver com a preservação do meio ambiente com um desenvolvimento sustentável, a ecologia integral que tanto nos lembra o Papa Francisco.  Tem a ver com os buracos na camada de ozônio, do aquecimento global e todas as suas conseqüências.

Viver em comunhão é a única garantia de felicidade. Viver em comunhão é a única garantia de que ou nos salvaremos juntos ou nos condenaremos todos. Viver em comunhão é pulsar no mesmo hálito de um beijo do céu, da terra, do mar, da humanidade e Deus.

  Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PARA, O MUNDO VIVER EM PAZ




Por Marcelo Barros

Há menos de um mês desejávamos uns aos outros ano novo de paz. No entanto, do início de janeiro até hoje, o mundo continua imerso em um mar de violência. O presidente dos Estados Unidos assume oficialmente que, em ato terrorista, mandou assassinar um general do Irã e ao armar o atentado no Iraque, por acaso, matou mais onze pessoas. Na Europa, governos deixam migrantes clandestinos se afogarem no Mediterrâneo.  No Brasil, mesmo sem guerra declarada, morre mais gente assassinada as nas periferias das cidades do que em muitos combates de guerra. Policiais e traficantes disputam quem mata mais. Cada dia, milícias particulares e membros da própria polícia exterminam rapazes da periferia e de preferência negros. O governador do Rio de Janeiro declara que matar bandido não fere a Constituição. Esse extermínio de jovens, com requintes de crueldade, lança o veneno da desesperança sobre o futuro.
O mais trágico é que muitos desses homens cujo esporte é matar ou provocar a morte de milhares de pessoas se dizem cristãos e não ligam a fé com a solidariedade e a defesa da vida. Ao contrário, fomentam uma cultura de intolerância e violência. Meios de comunicação transmitem a ideia de que a pena de morte é a única solução para os problemas do Brasil. 
Em Nova Dehli, na Índia, nessa segunda-feira e durante toda a semana, milhões de pessoas visitam o túmulo do Mahatma Gandhi. Reverenciam o profeta da paz e da não violência, assassinado por um fanático religioso hindu, no dia 30 de janeiro de 1948. Ele ensinava que o único remédio para a violência é não entrar na mesma lógica. Insistia na não violência ativa e no caminho da verdade. Mais de 70 anos depois, a humanidade ainda não aprendeu. Nos anos 60, nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King perdeu a vida. No entanto, através da não violência ativa, venceu a luta contra a discriminação racial. No Brasil, Dom Helder Camara consagrou sua vida à luta pacífica pela justiça e pela paz.
No livro “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire afirma que estamos mal porque seguimos um mau modelo de sociedade e não nos damos conta de que é um caminho equivocado.  As pessoas são orientadas a competir. Vencer na vida passa a significar exercer um domínio sobre outros. A cada dia, a Mãe Terra, explorada e ameaçada, grita de dor. E a humanidade segue sua luta por paz. No entanto, como imaginar que pode ter paz um mundo no qual um pequeno grupo de pessoas privilegiadas possui 90% dos bens disponíveis para todos e o resto, mais de 80% da população da terra tem de viver com quase nada?
O Capitalismo mundial é uma iniquidade, responsável pela morte de milhões e pela infelicidade de povos inteiros. Como isso não se faz impunemente, o sistema se protege com imensos gastos em armamentos. Não se dá conta de que a única coisa que geraria verdadeira segurança seria a igualdade social. No momento atual, nenhum país em crise busca alternativas para esse modelo de organização social.
O único líder mundial sensível a esse problema parece ser o papa Francisco que convoca para março, em Assis, um encontro com economistas jovens de todo o mundo para pensar como seria uma economia baseada na solidariedade às pessoas e no cuidado com a vida no planeta. As Igrejas cristãs precisam superar a divisão entre fé e vida. Precisam servir ao projeto divino que os evangelhos chamam de “reino de Deus”. Jesus deu sinais do reino ao curar doentes, reconciliar pessoas excluídas com a comunidade e anunciar a libertação de toda pessoa humana. Neste ano, a Conferência dos bispos católicos do Brasil escolheram como tema da Campanha da Fraternidade 2020: Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso. O lema é a palavra do evangelho que diz: "Viu, sentiu compaixão e cuidou dele" (Lc 10,33-34). Assim, a fé cristã nos convida a todos, crentes e não crentes a refletir sobre o significado mais profundo da vida em suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.
 

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com



terça-feira, 24 de julho de 2018

VIVER É CUIDAR




Por Marcelo Barros

Somos todos filhos e filhas do cuidado. Ninguém sobrevive sem ter, ao menos nos primeiros dias, uma pessoa que lhe garanta os cuidados necessários. Mesmo depois, a criança continua precisando de uma mãe ou/e pai. Na Índia, do século V antes de nossa era, Sidharta Guatama, o Buda, afirmava: "Todos/as somos chamados a olhar  a outra pessoa como uma mãe carinhosa olha o filho que está em seu útero".

Desde os tempos antigos até filósofos do século XX como Heidegger, compreenderam: o que mais define o ser humano não é a capacidade de pensar ("O ser humano é um animal racional). Nem é a possibilidade de criar. O ser humano se define, principalmente, pela vocação de cuidar.

Nos anos 60, o psicólogo Carl Rogers afirmava que nascemos indivíduos e, somente através da relação com os outros, nos tornamos pessoas. O que nos torna pessoas é a relação do cuidado, recebido e compartilhado.. O outro do qual devemos cuidar é todo ser humano. No entanto, é também a Terra, a água e todos os seres vivos, com os quais formamos o que Leonardo Boff denomina "a comunidade da vida".  

É urgente lembrar isso para compreender melhor as raízes da crise social e política em que estamos mergulhados. A sociedade contemporânea se desenvolveu muito no plano técnico e científico. Aprimorou a comunicação virtual e isso é maravilhoso. No entanto, nem o conforto proporcionado pela riqueza, nem as facilidades obtidas pelo computador e celular preenchem o imenso vazio que as pessoas sentem.

No século IV, Santo Agostinho orava a Deus: "O coração humano nunca se saciará enquanto não repousar em Ti". No entanto, atualmente, parece que a maioria das pessoas não se mostra tão interessada nessa relação. Provavelmente, um dos motivos foi que, no decorrer da história, muitas vezes, as religiões apresentaram a Deus como um ser distante da nossa vida. Falaram de uma divindade  todo-poderosa. Ensinaram que Deus é amigo de seus amigos e cruel com as pessoas que não o conhecem. Essas imagens mesquinhas de Deus afastaram dele grande porção da humanidade. E essa continua com fome e sede de amor.

Todo mundo quer ser feliz, mas procura a felicidade no consumo e na ambição do possuir. As pessoas correm atrás do lucro, da eficiência e da produtividade. Trocam a emoção genuína do bem-querer pelas conveniências sociais de boas maneiras. Preferem tirar fotografias e selfies aqui e ali, no lugar de conviver e curtir a natureza. No plano da Política, o fato de oito pessoas possuírem o equivalente à metade de toda a humanidade é considerado legal. Não se considera ilegal que governos europeus deixem migrantes africanos se afogarem no Mar Mediterrâneo. De junho a julho, agora, calculam-se em 600 pessoas afogadas pela rejeição dos governos europeus em resgatá-las vivas do mar. Nos Estados Unidos e no mundo, nesses meses, o presidente Trump jogou 3900 crianças latino-americanas, menores de dez anos, separados de seus pais, em campos de concentração. No mundo inteiro, isso provocou um sentimento de indignação, mas ninguém disse que esse louco e criminoso fere as leis vigentes.

O sistema dominante exilou a ética das discussões sobre o viver/l. Ao desprezar a ética como base da organização social, de certa forma, a sociedade humana deserta da própria possibilidade de vida tanto em comum, como mesmo no plano da sobrevivência pessoal e ameaça a continuidade da vida no planeta.

Quem crê em Deus sabe que o seu Espírito se manifesta em todo ato de cuidado e solidariedade. Muitas vezes, as Igrejas têm a pretensão de dizer aos cristãos e ao mundo como devem se comportar na totalidade de suas vidas. No entanto, elas fazem isso no plano da moral pessoal. No âmbito social e político, os que se dizem crentes se preocupam mais com a moralidade das relações pessoais do que com a ética da justiça e da paz. Atualmente, o papa Francisco tem insistido: a ética de Jesus se fundamenta no amor e na misericórdia. Na época de Jesus, muitos dos que representavam a religião usavam  Deus e a Bíblia para legitimar o seu poder e seus interesses sociais e econômicos. No Congresso Nacional, a chamada "bancada evangélica" se associa ao que há de pior na política brasileira para defender seus interesses. Lutam por pautas contra os direitos das minorias e a favor de liberar a venda de armas no Brasil. E vários deles se sentem com direito de entrar em negócios escusos, desde que o dinheiro da falcatrua seja colocado em uma empresa que tenha por nome Jesus.com

Sobre esses fariseus e escribas de hoje, católicos e evangélicos, o evangelho repete a palavra de Jesus: "esse povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim" (Mt 15, 8). E sem excluir os próprios discípulos, chegou a afirmar: "Em verdade vos digo, os publicanos e as prostitutas chegarão antes de vocês no reino dos céus" (Mt 21, 31). As sociedades indígenas da América Latina propõem como critério de organização social o Bem-viver. Esse paradigma parte do cuidado na relação interpessoal, na organização social e na busca da comunhão com o universo. É um caminho de espiritualidade ecumênica no qual contemplamos e testemunhamos o Espírito que, como diz o livro bíblico da Sabedoria, “enche todo o universo e está presente em toda relação humana” (Sb 1, 7). 


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

VIVER NA FRONTEIRA


por Maria Clara Lucchetti Bingemer

O problema das migrações e das pessoas em situação de vulnerabilidade devido à sua mobilidade se avoluma a cada dia no mundo inteiro. Especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas, mesmo no Sul do mundo - por exemplo, no Brasil – onde se acha que isto não é problema nosso, o cardeal Claudio Humes lembrou a ferida que temos com os índios. 
 Na Amazônia - região da qual é responsável o mesmo cardeal, enquanto ainda há muitas tribos indígenas que não têm contato com o chamado mundo civilizado – não sem ironia -, há muitos mais que vivem em mobilidade nas cidades, onde  vagam sem trabalho, sem abrigo, em estado de total vulnerabilidade. Despojados pela colonização - antiga e nova - da identidade, língua, cultura, religião, agora esses índios se movem sem rumo e sem meios de subsistência.
Entre as maiores vítimas da sociedade de hoje, no entanto, estão os migrantes, os estrangeiros que chegam em grande número às fronteiras de países desenvolvidos em busca de uma vida melhor para si e seus filhos. Escapam de situações de guerra e devastação; são também vítimas da fome e da escassez; querem empregos fora do lugar onde moram porque não encontram mais oportunidades.
 Eles são o "outro”, o “diferente”, oferecido aos sentidos e à percepção de abastadas sociedades do hemisfério norte.  Muitas vezes, em vez de encontrar acolhida e melhoria de vida como desejam e esperam, encontram a morte nas águas do Mediterrâneo, no deserto do Arizona ou em qualquer outra circunstância. Trata-se de um fenômeno que cresce em importância e configura uma nova forma de escravidão.
Recentemente nos Estados Unidos, outro tipo de problema aparece: o das crianças migrantes. Elas chegam sozinhas ou com os pais, dos quais muitas são separadas.  Estes foram deportados ou presos e os menores ficam em abrigos com grades.  O fato provocou tal indignação no mundo inteiro que o presidente Trump recuou da aplicação radical e truculenta da lei, que determina a separação dos menores das mães que entrarem ilegalmente no país. Esta lei existe desde o governo Clinton.
 Mas o problema persiste.  Não só as inúmeras crianças que ficaram para trás sem os pais já deportados, como a quantidade enorme que chega desacompanhada e sozinha. Nesse momento, mais de 1800 crianças que chegaram com os pais continuam separados deles.  E essa cifra não inclui as milhares de crianças migrantes que chegaram sozinhas à fronteira ao longo dos anos e que se encontram em refúgios ou casas de acolhida em vários pontos do país. 
A violência do problema do migrante e do estrangeiro hoje está ligada à crise das construções religiosas e morais. A assimilação que havia dos estrangeiros por parte de nossas sociedades em períodos mais remotos no tempo revela-se inaceitável para o indivíduo moderno, que cuida zelosamente de sua diferença, não apenas nacional e ética, mas essencialmente subjetiva, irredutível. E seria apenas no momento em que o indivíduo moderno deixasse de considerar-se como bem resolvido e glorioso, descobrindo suas inconsistências e seus abismos, suas "peculiaridades" ou "estranhezas", em suma, que a questão poderia ser reformulada: não mais acolher o estrangeiro em um sistema que o anula e rejeita, mas instaurar a convivência destes estrangeiros que somos todos.
O espaço do estrangeiro é a errância, o nomadismo. E aquilo que é sua condição é também sua ferida secreta. Mas ao mesmo tempo é aquilo que o protege do domínio e controle de todos. Sempre ausente, sempre inacessível a todos. Sua condição é aquilo que falta, a ausência que ele experimenta. Sua pátria é um país desejado, embora ainda não habitado e sempre adiado, diferido. Este país, ele carrega em seu sonho, e o vislumbra apenas além de si próprio, de seu tempo e espaço. 
Com o estranhamento daqueles que o confrontam a partir de fora e que simultaneamente o habita dentro de si mesmo, o estrangeiro desconfortável e inadequado levanta animosidade e postula a questão sobre o fato de não estar em seu próprio lugar, mas sempre no lugar do outro, ou o "outro" lugar. A distância entre ele, o diferente e os locais ou cidadãos lhe dá uma distância privilegiada para ver o que os outros não veem. Isso lhe dá a sensação de viver numa perene fronteira, relativizando e sendo relativizado lá onde os outros estão submersos nos sulcos da nacionalidade, da pertença cidadã etc. O desapego do estrangeiro na verdade é a resistência com a qual ele ou ela consegue combater sua angústia matricida.
 O migrante estrangeiro está condenado sempre ao silêncio. Mudo está, mesmo em relação à sua língua materna. Habita e constrói comunidades cortadas da memória do corpo, do idioma, das memórias da infância e da juventude.  Carrega em si mesmo como um cofre secreto onde habita a linguagem antiga que não pode mais pronunciar. 
E ainda que aprendendo a língua do outro, do país onde chega e tenta radicar-se, sempre haverá o sotaque que o denunciará, afastando-o dos habitantes locais e o exilará a seu verdadeiro terreno linguístico: o silêncio.  Silêncio que na verdade não é somente imposto de fora.  É interior, habita dentro dele ou dela. 
            Sua pátria, sua pertença, ficou para trás.  Sua nova pátria é a fronteira, que ele vive permanentemente, no espaço onde pisa e em sua alma permanentemente cindida. 
 
-- 
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora  de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

 
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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O MEDO: INIMIGO DA ALEGRIA DE VIVER


Por Leonardo Boff

Hoje o mundo, o Brasil e as pessoas são assoladas pelo medo de assaltos, às vezes com morte, de balas perdidas e de atentados terroristas. Estes recentemente praticados em Barcelona e Londres provocaram um medo generalizado, por mais que tenha havido demonstrações de solidariedade e manifestações pedindo paz.

Indo mais a fundo na questão, há que se reconhecer que esta situação generalizada de medo é a consequência última de um tipo de sociedade que colocou acumulação de bens materiais acima das pessoas e estabeleceu a competição e não a cooperação como valor principal. Ademais escolheu o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e sociais.

A competição deve ser distinguida da emulação. Emulação é coisa boa, pois traz à tona o que temos de melhor dentro de nós e o mostramos com simplicidade. A competição é problemática, pois significa a vitória do mais forte entre os contendores, derrotando todos os demais, gerando tensões, conflitos e guerras.

Numa sociedade onde esta lógica se faz hegemônica, não há paz, apenas um armistício. Vigora sempre o medo de perder, perder mercados, vantagens competitivas, lucros, o posto de trabalho e a própria vida.

A vontade de acumulação introduz também ansiedade e medo. A lógica dominante é esta: quem não tem, quer ter; quem tem, quer ter mais; e quem tem mais, diz, nunca é suficiente. A vontade de acumulação alimenta a estrutura do desejo que, como sabemos, é insaciável. Por isso, precisa-se garantir o nível de acumulação e de consumo. Daí resulta a ansiedade e o medo de não ter, de perder capacidade de consumir, de descer em status social e, por fim, de empobrecer.

O uso da violência como forma de solucionar os problemas entre países, como se mostrou na guerra dos USA contra o Iraque, se baseia na ilusão de que derrotando o outro ou humilhando-o, conseguiremos fundar uma convivência pacífica. Um mal de raiz, como a violência, não pode ser fonte de um bem duradouro. Um fim pacífico demanda igualmente meios pacíficos. O ser humano pode perder, mas jamais tolera ser ferido em sua dignidade. Abrem-se as feridas que dificilmente se fecham e sobra rancor e espírito de vingança, húmus alimentador do terrorismo que vitima tantas vidas inocentes como temos assistindo em muitos países.

A nossa sociedade de cunho ocidental, branca, machista e autoritária escolheu o caminho da violência repressiva e agressiva. Por isso está sempre às voltas com guerras, cada vez mais devastadoras, como na atual Síria, com guerrilhas, cada vez mais sofisticadas e atentados, cada vez mais frequentes. Por detrás de tais fatos existe um oceano de ódio, amargura e vontade de vindita. O medo paira como manto de trevas sobre as coletividades e sobre as pessoas individuais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros. O cuidado constitui um valor fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. O cuidado é o orientador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.   
  
Cuidar de alguém é envolver-se com ele, interessar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável do destino dele. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, cuidado pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecossistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada pessoa, cuidado com as relações sociais no sentido de serem participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura que permite as pessoas viverem um sentido positivo da vida, acolher suas limitações, o envelhecimento e a própria morte como parte da vida mortal: esta sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

Em momentos de grande medo, ganham especial sentido as palavras do salmo 23, aquele do “Senhor é meu pastor e nada me falta”. Ai o bom pastor garante: ”ainda que tu devesses passar pelo vale da sombra da morte, não temas porque Eu estou contigo”.

Quem consegue viver esta fé se sente acompanhado e na palma da mão de Deus. A vida humana ganha leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade e alegria de viver. Pouco importa o que nos acontecer, acontece em seu amor. Ele sabe o caminho e sabe bem certo.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu o livro O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

A PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: VIVER É A MELHOR OPÇÃO

Por Leonardo Boff

O jornalista André Trigueiro é possuído por duas paixões: a causa ambiental e a prevenção do suicídio. No fundo é movido por um único grande amor: o amor apaixonado pela vida, seja da natureza ou seja do ser humano sob risco. O amor pela natureza se materializa por seu programa, talvez o melhor do gênero sobre o ambiente da televisão nacional, transmitido pela Globonews com o título Cidades e Soluções. O amor pelo ser humano sob risco de suicídio se mostra por sua atuação no Centro de Valorização da Vida (CVV) do Rio de Janeiro e por este esplêndido livro cujo título diz tudo: “Viver é a melhor Opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo”(Editora Espírita, São Bernardo do Campo 2015). 

Não conheço na literatura acessível, texto mais minucioso, analítico, inspirador e sustentador do amor e da esperança pela vida que este de André Trigueiro. Antes de mais nada, se comporta como um consciencioso jornalista investigador: recolhe, nas fontes mais seguras, os principais dados atinentes ao suicídio no Brasil e no mundo. Em seguida analisa os fatores e as causas que levam as pessoas a buscarem a própria morte. Por fim, sugere e propõe caminhos de acompanhamento e de superação. Como uma espécie de adendo, mas sem qualquer propósito proselitista, expõe didaticamente a visão espírita do suicídio, como ela o ajudou pessoalmente a ser mais humano e espiritual e como o suicida vem tratado pela doutrina. Primeiramente quebra o tabu e o silêncio que cercam o fenômeno mundial do suicídio. Prevenção se faz com informação. Falar do suicídio como falamos da AIDS ajuda a eventuais suicidas a evitarem este caminho. Mas não basta falar. Trata-se de falar, como o demonstra em seu próprio texto, com sumo respeito, imbuído de compreensão e compaixão, evitando qualquer dramatização e espetacularização excessiva.

 Os dados nos obrigam a falar do suicídio pois sua grande ocorrência se transformou num problema de saúde pública, raramente inserido nos planos sanitários dos governos. Os últimos dados acessíveis da Organização Mundial da Saúde (OMS) são de 2012. Ai se se diz: são cerca de 804 mil casos por ano, o que vem dar, um suicida a cada 40 segundos e ainda a cada dois segundos uma tentativa de suicídio. No Brasil são 11.821 casos por ano o que equivale a 32 por dia especialmente na Amazônia, na Paraíba, na Bahia e no Rio Grande do Sul. Numa perspectiva global, depois dos acidentes de trânsito é o suicídio a causa principal de mortalidade, cobrindo todas as idades mas afetando principalmente os jovens entre 15-29 anos que representam 8,5% das mortes no mundo. Este fato desafia a inteligência humana: como é possível que um ser chamado à vida, o dom mais precioso que existe no universo, pode buscar a eliminação da própria vida? Aqui se faz necessária uma realista compreensão da condição humana, feita de luz e de sombras, de sucessos e de fracassos, de esperança e de desespero. Este dado não é um defeito de nossa natureza, mas a constituição de nosso próprio ser, mortal, finito, imperfeito e sempre a caminho da perfeição. Há inúmeros fatores que levam as pessoas a buscar o suicídio: a inundação da dimensão de sombra, transtornos psicológicos, doenças incapacitantes, profundas decepções e prolongadas depressões.

 Mas mais que tudo, a perda do sentido da vida que suscita nas pessoas vulneráveis o impulso de desaparecer. Não raro, tirar a própria vida é uma forma de buscar um sentido que lhe é negado nesta vida. Daí nosso respeito face a quem toma tal decisão, não por covardia, mas por amor a uma vida supostamente melhor que esta. Mas André Trigueiro sustenta com determinação e profunda esperança, a tese: “na maioria absoluta dos casos os suicídios são preveníveis”. É neste contexto que detalha os vários caminhos especialmente desenvolvidos pelo grupo Samaritanos em Londres e pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), ambos de origem espírita mas sem qualquer disposição de conquistar para esse caminho espiritual. Estas duas instituições maiores compostas de voluntários (só os 70 postos no Brasil atendem por ano, na média 800 mil ligações por telefone ou internet) são as que diretamente se dedicam à prevenção do suicídio. Os valores que os inspiram são profundamente humanísticos e ético-espirituais: a compreensão, a acolhida, a escuta, a fraternidade, a cooperação, o crescimento interior e o exercício da vida plena. 

Só o que reforça a vida pode salvar a vida sob risco. Vale a tese de Trigueiro: “viver é a melhor opção”. É mérito de André Trigueiro não apenas nos transmitir essa mensagem de esperança e de escuta mas também de vive-la concretamente em sua própria vida.

Leonardo Boff Teólogo e escritor


terça-feira, 14 de abril de 2015

VIVER, EM DEUS, COMO SE FOSSE SEM DEUS

Por Marcelo Barros


Em Londres, quem passa pelo pórtico da Catedral anglicana de Westminster, verá em meio às imagens de mártires do século XXI a estátua de um pastor luterano. Para celebrar o ano 2000, a Igreja Anglicana colocou nas portas da Catedral em Londres figuras de vários mártires do século XX. Ali se veem não cristãos como Gandhi e cristãos de várias Igrejas que os anglicanos reconhecem como santos. Ali estão homenageados o bispo católico Dom Oscar Romero, o pastor batista Martin-Luther King e, entre os dois, o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, fuzilado em um campo de concentração nazista.

Nessa semana, no dia 09 de abril, completaram-se 70 anos do martírio do pastor Bonhoeffer. No entanto, a sua mensagem profética continua atual e provoca admiração no mundo inteiro. Pelo seu modo de viver e por seus escritos, ele ensinou uma espiritualidade que une fé e política. Para ele, a fé cristã exige inserção na realidade social, assim como Jesus entrou profundamente nos problemas da sociedade do seu tempo. Por isso, Bonhoeffer propôs que as Igrejas reagissem à injustiça. Os pastores deveriam denunciar a iniquidade do Nazismo e de todo regime político que negue a dignidade e a liberdade dos filhos e filhas de Deus.

Ele era um homem de oração cotidiana, mas, afirmava: “É um insulto a Deus cantar ofícios litúrgicos, enquanto as bombas caem sobre as cidades e muitas pessoas morrem em campos de concentração”. “Para quem é cristão, não basta evitar o mal ou dele fugir. É preciso combatê-lo”. “Nenhuma guerra é justa. Toda guerra é opressora e iníqua”. Na Alemanha, as Igrejas se dividiram. A maioria aceitou colocar ao lado do altar a bandeira com a suástica nazista. Muitas despediram pastores de sangue judeu e algumas chegaram a colaborar com o regime. Bonhoeffer liderou o grupo das Igrejas que ocultavam fugitivos e colaboravam com a resistência. Nesse contexto, o pastor Bonhoeffer decidiu participar de um complô para assassinar Hitler e assim acabar com a guerra. O plano fracassou e ele foi preso.  Afirmou que fez isso não por motivações políticas, mas em nome da fé e como testemunha do Deus que Jesus anunciou nos evangelhos. Foi morto no 09 de abril de 1945.

Na América Latina, todos consideram o pastor Bonhoeffer um dos grandes pioneiros e patronos da Teologia da Libertação. Livros seus como “Ética”, “Vida Comunitária” e “Seguir Jesus” marcaram gerações. No campo de concentração, enquanto esperava a morte, escreveu suas cartas da prisão que estão reunidas no livro “Resistência e Submissão”, hoje, um clássico da literatura cristã.

Em várias cartas, Bonhoeffer coloca a seguinte pergunta: “Como falar de Deus em um mundo no qual Deus não é reconhecido? Antigamente, os cristãos tentavam converter os descrentes a aderir à fé. No mundo contemporâneo, a maioria da humanidade não sente necessidade de religião. A única forma correta de falar de Deus aos que não creem é através do testemunho pessoal, da amorosidade e do modo coerente de viver a ética e a justiça. Por isso, o pastor Bonhoeffer propõe que as pessoas que têm fé vivam profundamente a intimidade com Deus mas de forma a respeitar a sociedade que tem sua autonomia e não precisa de um Deus pai para lhe dizer como deve se conduzir. Os cristãos devem viver mergulhados em Deus, mas inseridos no mundo e como cidadãos iguais aos outros, “como se Deus não existisse”. Ele atualizou essa expressão de um jurista cristão do século XVII para fundamentar a compreensão cristã de uma sociedade laical e pluralista que não pode ceder a fundamentalismos religiosos. Nenhuma Igreja ou religião tem direito de impor a um povo ou nação suas leis próprias. Não deve fazer lobbys para que a sociedade respeite leis e princípios que, embora possam ser válidos para toda a humanidade, são baseadas em crenças de uma ou outra tradição. Tomara que, hoje, nossos congressistas pentecostais ou de qualquer outra tradição religiosa tenham o bom senso de seguir esse conselho do pastor Bonhoeffer: viver em Deus, como se fosse sem Deus.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países





terça-feira, 27 de janeiro de 2015

PARA O MUNDO VIVER EM PAZ



Por Marcelo Barros



Há menos de um mês desejávamos uns aos outros um ano novo de paz. No entanto, do início de janeiro até hoje, o mundo continua imerso em um mar de violência. Nos Estados Unidos, policiais mataram mais um jovem negro. Na França, terroristas mataram profissionais da imprensa. Na Síria, a cada dia, execuções e mortes fazem parte do cotidiano de um país devastado. Na Nigéria, o grupo terrorista Boko Haran massacrou recentemente 3000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Em todo o mundo, ninguém fez nenhuma passeata de protesto por causa disso, já que esses crimes ocorrem na África  e não na França.

No Brasil, não temos guerra declarada, mas nas periferias das nossas cidades, o tráfico não perdoa. Mata. A cada dia, o tráfico ou milícias particulares e, em alguns casos, membros da própria polícia exterminam rapazes da periferia e de preferência negros. Esse extermínio de jovens, com requintes de crueldade, lança sobre o futuro o veneno da desesperança. E os vilões não são extraterrestres. São pessoas comuns, dessas que encontramos a cada dia, na padaria ou na fila de ônibus. Matam porque vivem em uma cultura da violência, na qual, a cada dia, os meios de comunicação social transmitem a ideia de que a pena de morte é a única solução para os problemas do Brasil.  

Nessa semana, na Índia, milhões de pessoas visitam o túmulo do Mahatma Gandhi, em Nova Dehli. Reverenciam o profeta da paz e da não violência, assassinado por um fanático religioso hindu, no dia 30 de janeiro de 1948. Ele ensinava que o único remédio para a violência é não entrar na mesma lógica. Insistia na resistência da não violência ativa e no caminho da verdade. Quase 70 anos depois, a humanidade ainda não aprendeu. Nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King perdeu a vida, mas, através do método da não violência ativa, venceu a luta contra a discriminação racial. No Brasil, Dom Helder Camara consagrou sua vida à luta pacífica pela justiça e pela paz.

A CNBB quis consagrar esse ano de 2015 como um ano da paz. Certamente, não está se referindo apenas à superação de guerras, mas ao estabelecimento da paz na nossa forma de organizar a sociedade.

No livro “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire afirma que estamos mal porque seguimos um mau modelo de sociedade e não nos damos conta de que é um caminho equivocado.  As pessoas são orientadas a competir. Vencer na vida passa a significar exercer um domínio sobre outros. A cada dia, a Mãe Terra, explorada e ameaçada, grita de dor. E a humanidade segue sua luta por paz. No entanto, como imaginar que pode ter paz um mundo no qual um pequeno grupo de pessoas privilegiadas possui 90% dos bens disponíveis para todos e o resto, 80% da população da terra tem de viver com 10% ou, segundo a ONU, um pouco mais? No mundo, vários países estão em uma profunda crise social e econômica, mas tentam ainda superar o mal com o próprio veneno que provocou a doença. Como uma iniquidade dessas dimensões, responsável pela morte de muitas pessoas e pela infelicidade de povos inteiros, não se faz impunemente, o sistema se protege com um cifras astronômicas gastas em armamentos. Ainda não se deu conta de que a única coisa que geraria verdadeira segurança seria a igualdade social. No momento atual, nenhum país em crise busca alternativas para esse modelo de organização social. Só poucos países latino-americanos, como Venezuela, Bolívia e Equador, sem poder romper com o sistema social vigente, tentam consertar ou controlar a selvageria capitalista.

É preciso entre as classes mais pobres reorganizar uma educação que crie uma tomada de consciência sobre a realidade. Sem uma educação crítica e uma verdadeira conscientização social, já nos anos 70, afirmava Paulo Freire, nenhuma transformação será possível. Nesse plano, as Igrejas têm uma missão importante. Elas anunciam o evangelho. Ele contém o programa que Deus tem para o mundo todo (o que os evangelhos chamam de “reino de Deus”). Infelizmente, durante séculos, o Cristianismo separou material e espiritual e pregava um céu para depois da morte. Jesus deu sinais do reino ao curar doentes, reconciliar pessoas excluídas com a comunidade e anunciar a libertação de toda pessoa humana. E afirmou: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem a cabeça porque se aproxima a libertação de vocês”. (Lc 21, 28).
 


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países