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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Encontro do Povo de Deus – Junto na Caminhada

Marcelo Barros



A comunidade ecumênica de Taizé na França e mais 60 organizações ecumênicas, assim como várias federações de igrejas  evangélicas estão convidando juventudes de todo o mundo para se unir em oração e vigília em um projeto chamado em inglês Togheter (juntos). É um processo de diálogo e de caminho em comum que jovens de 18 a 35 anos são chamados a percorrer. Enquanto em Roma, no dia 4 de outubro, se abre a primeira sessão mundial do Sínodo dos Bispos sobre o caminho da sinodalidade que a Igreja deve percorrer, as mais diversas juventudes da Igreja e do mundo são convidadas a se reunirem para ensaiarem caminhos para a unidade e a paz da humanidade, no cuidado com a Mãe-Terra, nossa casa comum.


O início desse processo acontecerá no sábado 30 de setembro e foi convocado pelo papa Francisco. No domingo, 15 de Janeiro deste ano, em Roma, no final da oração do Angelus, o Papa Francisco anunciou que os trabalhos da próxima assembleia do Sínodo da Igreja Católica serão recedidos por uma vigília ecumênica de oração, a ser realizada, no sábado 30 de Setembro na Praça de São Pedro. Ele afirmou:

«O caminho da unidade dos cristãos e o caminho da conversão sinodal da Igreja estão ligados. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para anunciar que no sábado 30 de Setembro haverá uma vigília de oração ecuménica na Praça de São Pedro, onde confiaremos a Deus os trabalhos da 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Para os jovens que virão à vigília, haverá um programa especial durante todo o fim-de-semana, animado pela Comunidade de Taizé. Desde já, convido os irmãos e as irmãs de todas as confissões cristãs a participar neste "Encontro do Povo de Deus»

Esse Encontro do Povo de Deus está sendo preparado há vários meses por representantes de cerca de 50 organizações e entidades de várias Igrejas e de caráter ecumênico. Ao mesmo tempo que jovens de 18 a 35 anos, vindos de toda a Europa se encontrarão na noite do sábado, 30 de setembro, na Praça de São Pedro, em Roma, as organizações desse projeto Togheter propõem que nas mais diferentes regiões, por todo esse mundo de Deus, jovens e adultos se encontrem em vigílias de oração e de caminhada para formar uma rede de energia amorosa e de paz que inunde o mundo.

Na escuridão de nossas noites, vamos acender velas que simbolizem luz para os caminhos a seguir. Assim, poderemos retomar a profecia do projeto divino da Paz e da Justiça, de forma não violenta, a partir da organização de pequenas comunidades de Pastoral de Juventude  (PJ), de redes ecumênicas de jovens ou de grupos independentes que possam ser células e laboratórios que ensaiem um novo mundo possível.

Quem quiser seguir as informações sobre a vigília em Roma, veja:

https://together2023.net/pt/info-page/genese-do-projecto/

Quem desejar se inscrever, aí vai o site para a inclusão: 

https://together2023.net/pt/info-page/carta-de-inclusao/

Nesse momento do mundo, para enfrentarmos os desafios atuais, as guerras, conflitos e divisões que ferem a família humana, precisamos escutar de modo novo e diferente os gritos dos povos crucificados pelo Capitalismo e pela desumanidade da elite que se apodera para si dos bens de toda a terra.

É o Espírito de Deus, a Divina Ruah, que nos chama e nos abre um caminho para avançarmos com o Cristo, como companheiros de viagem, juntamente com a multidão dos/das excluídos/as que vivem à margem das nossas sociedades. Nessa viagem, num diálogo que reconcilia, queremos recordar que precisamos uns dos/as outros/as, não para quepossamos ser mais fortes juntos, mas como contribuição para a paz na família humana.

Queremos juntos escutar os gritos e gemidos da Mãe Terra e, assim, no encontro e na escuta mútua, caminhemos juntos como o povo de Deus, profecia de uma humanidade reconciliada e unida. E aí experimentaremos a verdade do que escreveu o apóstolo Paulo: “Onde estiver o Espírito de Deus, aí haverá a liberdade” (2 Cor 3, 6).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Vamos ao encontro de nossa destruição?

 

Leonardo Boff


A história de ser humano na Terra, em grande parte,se resume num permanente conflito contra o ambiente. Esse processo foi levado tão longe que o ser humano moderno moveu uma verdadeira guerra contra a Terra em todos as suas  frentes: no solo, no subsolo, no ar e no mar, sempre na perspectiva de saquear e extrair mais e mais vantagens.Fala-se em  círculos científicos que a ação humano sobre a Terra como um todo fundou uma nova era geológica, o antropoceno. Significa: os danos à natureza não vêm de fora, mas da própria ação pensada e orquestrada do ser humano no seu afã de extrair mais e mais benesses para a sua vida. Tal fato teve como consequência o desequilíbrio do planeta que reage enviando-nos mais calor, eventos extremos como enchentes, tufões e secas além de uma gama crescente de vírus, muitos deles letais como o Coronavírus.

O fato é que perdeu-se a perspectiva do Todo. Ficou-se somente com a parte. Ocorreu uma verdadeira fragmentação e atomização da realidade e dos respectivos saberes. Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos.Tal fato possui suas vantagens mas também seus limites. As vantagens, especialmente, na medicina que conseguiu identificar os vários tipos de enfermidades e como tratá-las. Mas importa recordar que a realidade não é fragmentada. Por isso os saberes sobre ela também não podem ser fragmentados.

Dito figurativamente: a atenção se concentrou nas árvores, consideradas em si mesmas, perdendo-se a visão global da floresta. Pior ainda, deixou-se de considerar as relações de interdependência que todas coisas guardam entre si. Elas não estão jogadas ai ao esmo, uma ao lado da outra sem as necessárias conexões entre elas que lhes permitem, solidariamente viver, se auto-ajuda e juntas  co-evoluir.

Vejamos as árvores: elas possuem uma  linguagem própria, diversa da nossa, fundada na emissão de sons. Elas falam mediante odores que emitem e a produção de toxinas que enviam para as outras. Entre as iguais estabelecem relações de reciprocidade e colaboração. Com outras diversas, não raro, fazem verdadeiras batalhas químicas, no afã de cada uma ter mais acesso à luz do sol ou a nutrientes do solo.  Mas sempre é feito sem excesso, numa medida justa de tal forma que o conjunto das árvores formam uma rica e diversa floresta.

No caso humano, perdemos estes equilíbrio e justa medida: erodiu-se aquela corrente que relaciona todos com todos, chamada de  Matriz Relacional. Desconsiderou-se a vastíssima rede de relações e de  interconexões que envolvem o próprio universo e todos os seres existentes. Nada existe fora da relação. Tudo está relacionado com tudo em todas as circunstâncias. Essa é a realidade de todas as coisas existentes, no universo e na Terra, das galáxias mais distantes à nossa Lua, até às ervas   silvestres. Elas têm  seu lugar e sua função no Todo.

Numa elegante formulação do Papa Francisco em sua encíclica Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) se afirma:

 “Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa que nos une com terna afeição,ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à irmã e Mãe Terra…o Sol e  Lua, o cedro e a florizinha, a águia e o pardal só coexistem na dependência uma das outras para se completarem mutuamente no serviço uma das outras”(n.92;86).

Se realmente todos estamos entrelaçados, então devemos concluir que o modo de produção capitalista, individualista, visando o maior lucro possível à custa da exploração da força de trabalho e da inteligência humana e especialmente das riquezas naturais sem se dar conta das relações existentes entre todas as realidades, poluindo o  ar, contaminando as águas e envenenando os solos com pesticidas, está na contramão da lógica da natureza e do próprio universo que ligam e religam tudo com tudo, constituindo o esplendoroso grande Todo.

A Terra nos criou um lugar amigável para viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao contrário, a agredimos sem parar a ponto de ela não aguentar mais e começar a reagir, numa espécie de contra-ataque. Este é o significado maior da intrusão de toda uma gama dos vírus, especialmente o Covid-19. De cuidadores da natureza (Gênesis 2,15) nos fizemos em seu Satã ameaçador.

Ate o advento da modernidade entre os séculos XVII-XVIII, a humanidade se entendia normalmente com parte da Mãe Terra e de um cosmos vivente e cheio de propósito. Percebia-se ligado ao Todo. Agora a Mãe Terra foi transformada num armazém de recursos e num baú cheio de bens naturais a serem explorados. Nessa compreensão que acabou por se impôr, as coisas e os seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso individual.

A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o descaso das teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos desenraizados e mergulhados numa profunda solidão. Somos possuídos por um sentimento de que estamos sós no universo e perdidos, coisa que uma visão integradora do mundo, que existia anteriormente, o impedia. Hoje nos damos conta de que devemos estabelecer um laço de afetividade para com a natureza e para com os seus diversos seres vivos e inerte, pois possuímos a mesmo código genético de base, portanto, somos irmãos e irmãs, (árvores, animais mas também montanhas, lagos e rios). Sem não colocarmos coração em nossa relação – daí a razão cordial – dificilmente salvaremos a diversidade da vida e a própria vitalidade da Mãe Terra.

Por que fizemos esta inversão de rumo? Não será uma única causa, mas um complexo delas. Mas a mais importante e danosa foi ter abandonado da assim chamada Matriz Relacional. Vale dizer, a percepção da teia de relações que entrelaçam todos os seres. Ela nos conferia a sensação de sermos parte de um Todo maior, de que estávamos inseridos na natureza como parte dela e não simplesmente como  seus usuários e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade de encantamento pela grandeza da criação, de reverência face ao céu estrelado e de respeito por todo tipo de vida. Caso não mudarmos, poderá se realizar o que o Papa Francisco advertiu na encíclica Fratelli tutti:”estamos no mesmo barco:ou nos salvamos todos ou ninguém se salva (n.32).”Não somos chamados a ser os agentes de nossa própria destruição mas a ser a melhor floração do processo cosmogênico.

Leonardo Boff escreveu com o cosmólogo Mark Hathaway, O Tao da libertação:explorando a ecologia de transformação, Vozes 2010/ Orbis Books, N.York 2010 prefácio de F. Capra.

 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A DIFÍCIL ARTE DO ENCONTRO



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Após as eleições, paira no ar uma sensação de depressão pós-parto.  Tanto em vencedores como em vencidos. Os que tiveram seus candidatos eleitos esperam preocupados como se delineará a governabilidade.  Os primeiros gestos, decisões, semeiam mais insegurança que firmeza.  Desconcertam, angustiam. Parece que não se entende os rumos de um tempo diferente com outro estilo que começa.

Os que foram derrotados nas urnas se dividem.  Alguns optam pela oposição, resistência e combate cerrados.  Outros preferem esperar para verificar, pagar para ver ou até deixar que o adversário vencedor fracasse e mostre sua verdadeira cara.  Apostam que a governabilidade inexistirá e então a incompetência de uma vitória indevida mostrará sua verdadeira face de ilegitimidade e incapacidade de responder aos desafios e responsabilidades concedidos pelas urnas.

Em todo caso, o que temos é um país dividido, desencontrado.  Famílias se indispuseram ou até, em alguns casos, cortaram relações entre seus membros.  Amizades de anos foram interrompidas e palavras de acusação e raiva pronunciadas onde antes reinava harmonia e companheirismo. Relações foram perdidas e parece muito difícil refazê-las. Em suma, o panorama nacional mostra um tremendo desencontro.

Enquanto isso, o papa Francisco fala da importância de construir uma cultura do encontro. Não se trata certamente de um discurso piedoso e fácil adotado pelo pontífice para dizer a todos que se amem e respeitem sem nenhuma dificuldade ou obstáculo.  Longe disso.  Para o papa, a cultura do encontro é um estilo de vida e uma atitude, fruto de uma experiência e um itinerário pessoal, agora proposta à Igreja e à sociedade como um todo.

Diante da cultura do fragmento, da desintegração e da divisão é importante, afirma o pontífice, não favorecer os que pretendem capitalizar o ressentimento, o esquecimento das relações vividas e desfrutadas, ou os que se deleitam em debilitar vínculos e laços.  Esse seria, a seu ver, o caminho para superar os desencontros que sucedem na sociedade.

Tão importante é a construção da arte do encontro, que antes mesmo de Bergoglio o poetinha maior de nosso país, Vinicius de Moraes, disse: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”  Com sua imensa sensibilidade, queria o poeta ressaltar algo que é constitutivo e visceral no ser humano: sua vocação para a relação, para o afeto, o amor, aquilo que configura e realiza o que chamamos encontro.

Assim também parece entender o papa.  Quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, Argentina, várias vezes se empenhou em instar a seus compatriotas a superar os desencontros e refundar os vínculos sociais, políticos, na abertura e na esperança. Agora, desde o Vaticano, onde lidera a Igreja e fala também ao mundo, Francisco não se cansa de repetir esse convite, que consiste em abrir-se à alteridade do outro, aproximar-se, vincular-se, construindo com esperança uma nova mentalidade, um novo estilo de vida, uma nova cultura, onde seja possível o encontro, o diálogo e a comunhão.

Há que admitir que é muito difícil.  A tentação do desânimo diante desta proposta vem carregada da pesada tinta da impossibilidade.  Como dispor-se ao encontro e ao diálogo com quem parece querer conduzir o país na direção oposta daquela em que acreditamos? Como apostar em um possível consenso com pessoas e grupos que parecem falar outra língua, oposto idioma àquele em que acreditamos, que detém os códigos comunicacionais da justiça, do direito, da paz e da prosperidade?

Mais: como fazer esta busca de encontro, consenso e acordo se transformar em verdadeira cultura, que procura o que une em lugar do que divide, e não recua diante de nenhum gesto, atitude ou palavra que possa fazer acontecer  a solidariedade e a comunicação? É duro acreditar que isso poderá ocorrer, sobretudo quando escrevo este artigo no momento seguinte à decisão que liquida com a presença dos médicos cubanos no Brasil e não há como não se pensar que uma represália política deixará na orfandade sanitária milhões de pessoas nos lugares mais pobres e vulneráveis do país.

É duro, porém mais que nunca necessário.  O encontro pode acontecer, mesmo com dificuldade, quando há ao menos um objetivo comum. E este existe e está diante de nossos olhos.  Todos queremos o bem do país.  Todos queremos o povo brasileiro respirando com liberdade, esperança, vendo a perspectiva de um futuro melhor para seus filhos e netos. Enrijecer-se nas divisões certamente não ajudará o Brasil a conseguir esse objetivo.

O povo brasileiro, sempre inspirado na arte de sobreviver a toda impossibilidade, de esperar contra toda esperança e alegrar-se mesmo e sobretudo sem motivo algum, tem agora diante de si este desafio: tornar-se perito na arte do encontro. Aprofundar as divisões não nos levará longe.  É preciso, é urgente desarmar espíritos e buscar possíveis consensos. Sem eliminar o respeito às diferenças, a resistência ao que é nefasto, a denúncia do indefensável. A difícil arte do encontro deve fazer-se ainda que em meio a esse mar de desencontros em que vivemos agora. O Brasil merece e precisa.
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

  Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 11 de maio de 2018

ENCONTRO COM LULA PRISÃO: ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA


por Leonardo Boff

No dia 7 de maio cumpriam-se 30 dias de prisão do ex-presidente Lula. Foi-lhe concedida pela primeira vez receber a visita de amigos. Tive a honra de ser o primeiro a encontrá-lo pela amizade de mais de 30 anos e pela comunhão de causa: a libertação dos emprobrecidos e para reforçar a dimensão espiritual da vida. Cumpri o preceito evangélico:”estava preso e me visitaste”.

Encontrei-o como o conhecemos fora da prisão: rosto, cabelo e barba, apenas levemente mais magro. Os que queriam vê-lo acabrunhado e deprimido devem se decepcionar. Está cheio de ânimo e de esperança. A cela é um amplo quarto, muito limpo, com armários embutidos, banheiro e chuveiro numa área fechada. A impressão é boa embora viva numa solitária, pois, à exceção dos advogados e dos filhos, só pode falar com o guarda de origem ucraina, gentil e atento, que se tornou um admirador de Lula.Traz-lhe as marmitas, ora mais mais quentes ora mais frias e café, sempre que solicita. Lula não aceita nenhum alimento que os filhos lhe que trazem, porque quer se alimentar como os demais presos, sem nenhum privilégio. Tem seu tempo de tomar sol. Mas ultimamente, enquanto o faz, aparecem drones sobre o espaço. Por precaução Lula logo vai embora, pois não se sabe qual seja o propósito destes drones, fotografá-lo ou, quem sabe, algo mais sinistro.

O importante foi a conversação de natureza espiritual na qual se misturavam observações políticas.. Lula é um homem religioso, mas da religiosidade popular para a qual Deus é uma evidência existencial. Encontei-o lendo um livro meu, “O Senhor é meu pastor”,(da Vozes) um comentário do famoso salmo 23 o mais lido dos salmos e também por outras religiões. Sentia-se fortificado e confirmado, pois a Bíblia geralmente critica os pastoes políticos e exalta aqueles que cuidam dos pobres, dos órfãos e das viúvas. Lula se sente nesta linha, com suas política sociais que beneficaram a tantos milhões. Não aceita a crítica de populista, dizendo: eu sou povo e vim do povo e oriento o mais que posso a política para ele.

Na cabeceira da cama há um crucifixo. Aproveita o tempo de reclusão estrita para refletir, meditar, rever tantas coisas de sua vida e aprofundar as convicções fundamentais que dão sentido a sua ação política, aquilo que sua mãe Lindu (que a sente como um anjo protetor e inspirador) sempre lhe repetia: sempre ser honesto e lutar e mais uma vez lutar. Vê nisso o sentido de sua vida pessoal e política: lutar para que haja vida digna para todos e não só para alguns à custa dos outros. A grandeza de um político se mede pela grandeza de sua causa, disse enfaticamente. E a causa tem que ser produzir vida para todos a começar pelos que menos vida têm. Em função disso não aceita derrotas definitivas. Nem quer cair de pé. O que não quer é cair. Mas manter-se fiel a seu propósito de base e fazer da política o grande instrumento para ordenar a vida em justiça e paz para todos, particularmente aos que vivem no inferno da fome e da miséria.

Esse sonho possui grandeza ética e espiritual inegável. É à luz destas convicções que se mantém tranquilo, pois diz e repete: vive desta verdade interior que possui força própria e vai se revelar um dia. “Só quero”, comentava, “que seja depois de minha morte, mas ainda em meu tempo de vida”. Indigna-se profundamente por causa das mentiras que divulgam contra ele e sobre elas montaram o processo do triplex. Pergunta-se, como podem as pessoas mentirem conscientemente e poderem dormir em paz? Faz um desafio ao juiz Sérgio Moro: “apresente-me uma única prova sequer, de que sou dono do triplex de Guarujá. Se aprensentar renunciarei à candidatura à presidência”. Recomendou-me que passasse esse recado à imprensa e aos que estão no acampamento:“Sou candidatíssimo. Quero levar avante o resgate dos pobres e fazer das política sociais em prol deles, políticas de Estado e que os custos que são investimentos entrem no orçamento da União. Irei radicalizar estas políticas para os pobres, junto com os pobres e dignificar nosso país”.

A meditação o fez entender que esta prisão possui um significado que transcende a ele, a mim e às disputas políticas. Deve ser o mesmo preço que Gandhi e Mandela pagaram com prisões e perseguições para alcançarem o que alcançaram. “Assim creio e espero”, dizia, “que é o que estou passando agora”.

Eu que entrei para anima-lo, saí animado. Espero que outros também se animem e gritem o “Lula livre” contra uma Justiça que não se mostra justa.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu:Brasil:concluir a refundação ou prolongar a dependênciancia,Vozes 2018.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O ENCONTRO BEM-AVENTURADO DA PACHAMAMA COM GAIA

 por leonardo boff



          Quero apresentar as ideias, com as quais comungo, de um livro que sairá brevemente traduzido no Brasil: A Pachamama e o ser humano (Ediciones Colihue 2012) de Eugenio Raúl Zaffaroni bem conhecido no Brasil nos meios jurídicos. É um reconhecido magistrado argentino, ministro da Suprema Corte de 2003 a 2014 e professor emérito da Universidade de Buenos Aires.
O presente livro, a meu ver, se inscreve entre as melhores contribuições de ordem ecológica e filosófica  que se tem escrito ultimamente. Ele se situa na esteira da encíclica do Papa Francisco, também argentino, Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum (2015). Zaffaroni aborda a questão da ecologia, em especial da violência social e particularmente contra os animais com uma informação admirável de ordem científica e filosófica.
O mais importante do livro é a crítica ao paradigma dominante, surgido com os pais fundadores da modernidade do século XVI e XVII que ex abrupto introduziram uma profunda cissura entre o ser humano e a natureza. O contrato natural, presente nas culturas desde tempos imemoriais, do Ocidente e do Oriente, sofreu um corte fatal e letal.
A Terra deixou de ser a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos contemporâneos, portanto algo vivo e gerador de vida, para ser transformada numa coisa inerte (res extensa de Descartes), num balcão de recursos colocados à disposição da voracidade ilimitada dos seres humanos. Clássica é a formulação de René Descartes: o ser humano é o “maître et possesseur” da natureza, vale dizer, é o senhor e dono da natureza. Ele pode fazer dela o que que bem entender. E o fez.
A cultura moderna se construiu sobre a compreensão do ser humano como  dominus como senhor e dono de todas as coisas. Estas não possuem valor intrínseco, como vão afirmar mais tarde a Carta da Terra e com grande vigor a encíclica papal. Seu valor reside apenas em poder estar a serviço do  ser humano.
O projeto é o do poder entendido como capacidade de dominação sobre tudo e sobre todos, a partir de quem mais poder possui. No caso, os europeus que realizaram a  aventura do submetimento da natureza, da conquista do mundo, da colonização de inteiras nações, do genocídio, do ecocídio e da destruição de culturas ancestrais. E o fizeram usando a força brutal das armas, da espada e também da cruz. Hoje em dia com armas, capazes de extinguir a espécie humana.
Zaffaroni rastreia o surgimento deste projeto civilizatório e o faz com grande riqueza bibliográfica. Enfrenta com coragem e grande liberdade crítica os presumidos corifeus do pensamento moderno como Hegel, Spencer, Darwin e Heidegger. Restrinjo-me às críticas que faz ao Hegel do Weltgeist (espírito do mundo). Sua filosofia prestou-se a ser a ideologia justificadora do etnocentrismo ao exaltar a cultura européia e rebaixar todas as demais. Herbert Spencer com seu biologismo estabeleceu a raça branca como superior e todas as demais, tidas como inferiores, o que acabou por legitimar o colonialismo e todo tipo de preconceito.
Zaffaroni aborda a questão do animal visto como sujeito de direitos. Enfatiza ele: ”ao nosso juízo, o bem jurídico no delito de maus tratos a animais não é outro que o direito do próprio animal a não ser objeto de crueldade humana, para o qual é mister reconhecer-lhe o caráter de sujeito de direitos”. O autor é duro na constatação “de que nos convertemos nos campeões biológicos da destruição intra-espécie e nos depredadores máximos extra-espécie”. Sua proposta é clara: ”Somente substituindo o saber do dominus(senhor) pelo de frater (irmão) podemos recuperar a dignidade humana” e sentirmo-nos irmanados com os demais seres.
A América Latina foi a primeira a inaugurar um constitucionalismo ecológico, inserindo nas constituições do Equador e da Bolívia os direitos da natureza e da Mãe Terra. Anteriormente, e também por primeiro, foi o México. a introduzir em sua constituição em 1917 os direitos sociais. Zaffaroni faz a apologia das virtualidades criadoras de harmonia do ser humano com a natureza que a visão andina do “bem viver e conviver”(sumac kawsay) comporta; também de Gaia, a Terra como um super-organismo vivo que se autorregula para sempre produzir e reproduzir vida. A Pachamama  e Gaia  são dois caminhos que se encontram “numa feliz coincidênncia do centro e da periferia do poder planetário”. Ambos são portadores de esperança de uma Terra, Casa Comum, na qual todos os seres são incluídos. Eles nos libertarão das ameaças apocalípticas do fim de nossa civilização e da vida.
Zaffaroni nos traz uma brilhante e convincente perspectiva, crítica severa por um lado, mas cheia de esperança por outro. Vale lê-lo, estudá-lo e incorporar em nossa compreensão  sua visão de uma ecologia holística e profundamente integradora de todos os elementos da natureza e do universo.
Leonardo Boff, articulista do JB on line,filósofo, eco-teólogo e escritor


terça-feira, 30 de maio de 2017

A CULTURA DO ENCONTRO


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Uma das expressões mais presentes nos discursos e na prática do Papa Francisco é a "cultura de encontro". Ele a  tem repetido muitas vezes e em diversas ocasiões, e é uma prática importante de  seu pontificado por ser a mensagem que deseja transmitir a quem a ouve, em número cada vez maior, em todo o mundo, não só em Roma.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a proposta do Papa Francisco de transmitir o que é primordial em um encontro. Não só conhecer, mas procurar ouvir as pessoas, estar com elas, não apenas para lamentar, mas se deixar levar pela compaixão às que são mais vulneráveis. Dizer-lhes  “não chorem” e dar-lhes “pelo menos uma gota de vida".

A intenção do Papa é combater a indiferença que prevalece em todos nós, a superficialidade das relações, buscar um encontro verdadeiro e profundo com o outro. Mas para que isso ocorra, afirma o pontífice, precisamos ser pacientes se quisermos entender quem é diferente de nós. A pessoa não se expressa plenamente quando é simplesmente tolerada, e sim quando percebe que é verdadeiramente bem-vinda. É preciso termos um desejo genuíno de ouvir o outro,  aprender a ver o mundo com olhos diferentes e apreciar a experiência humana que se manifesta em diferentes culturas e tradições. Apreciar melhor os grandes valores inspirados do cristianismo, como a visão do homem como pessoa, o casamento e a família, a distinção entre as esferas religiosa e política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.

Devemos demonstrar ao outro nossa espiritualidade e o desejo de servir a Deus. Se o outro me deixa indiferente, trancado no meu próprio eu, o encontro não acontece, nem a transformação da vida. O próprio Papa Francisco nos diz: "Estamos acostumados a uma cultura de indiferença e temos de trabalhar e rezar pela graça de fazer uma cultura de encontro. Resgatar em cada pessoa a sua dignidade como filhos de Deus, a dignidade da vida. Estamos acostumados à ficarmos indiferentes quando vemos tanto as calamidades deste mundo como as pequenas coisas. Dizemos apenas ”quanta pobreza, quanto sofrimento”. Se não olharmos o suficiente para ver, não podemos ajudar a fazer uma cultura de encontro.”

O discernimento passa através da corporeidade que é a nossa condição de presença no mundo. Todos os sentidos têm que estar presentes quando se trata de realizar uma reunião com o outro. É preciso olhar, ouvir, tocar, ficar mais perto sempre, para não só dar, mas também e igualmente receber o que o outro tem para mim. “A cultura do encontro exige que estejamos dispostos não só para dar mas também para receber dos outros."

Segundo o Papa, para que isso ocorra é preciso acreditar no outro; acreditar que ele ou ela tem algo bom para mim, para me ajudar a crescer, para viver plenamente, para dar a minha medida como ser humano, como filho de Deus. É preciso estabelecer um diálogo com os homens e as mulheres  para entender suas expectativas, suas dúvidas, suas esperanças, e para oferecer o Evangelho que é Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado. Este desafio exige uma profunda atenção à vida, exige sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo bom para dizer, aceitar o seu ponto de vista, as suas propostas. O diálogo não significa desistir das ideias e tradições.

O Papa deixa claro que a experiência do encontro envolve diferenças e cresce com elas. No encontro com o outro que é diferente de nós podemos aprender muito e enriquecer toda a Igreja e a sociedade, a partir da experiência e a perspectiva do outro. Isso, porém, não significa perder a minha identidade. Até porque a minha identidade é parte do poliedro, é a minha contribuição, é o meu dom para os outros. Se não houver identidades claras, não há conflito, mas também não há vida, tudo é vazio.

A "unidade na diversidade" ou "diversidade reconciliada" é a proposta do Papa em relação a outras religiões e de outras igrejas. O outro, o diferente, tem o seu lugar.

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. É autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O ENCONTRO


Por Assuero Gomes


Durante alguns anos de sua vida o padre vivenciou uma vida de fé, servindo numa paróquia de periferia em um dos morros do Rio de Janeiro. Muito jovem, ligado aos ideais das lutas sociais e religião, teve uma bonita e profunda formação teológica cristã engajada. Oriundo de família pobre do interior de Minas, conseguiu a muito custo se ordenar. A designação para trabalhar na comunidade do Morro foi o coroamento do sonho que sempre idealizara, desde os primórdios da vocação. Servir ao pobre e libertá-lo.

Um difícil sonho de ser sonhado e que muitas vezes tornou-se como um pesadelo, pois a violência, como a besta do Apocalipse, tentava devorar a tudo e a todos.

Ameaçado constantemente por traficantes, pelo descaso dos programas do governo, por falta de incentivo da própria comunidade amedrontada, esse padre tinha um grande consolo. Ao final de cada tarde, antes de celebrar, ele se punha de joelhos em frente ao sacrário improvisado na capelinha, e sentia a presença do Ressuscitado, quase que falando fisicamente com ele.

Passando o tempo, o padre foi se revoltando com a falta de ‘sucesso’ de sua pastoral. Desanimado, foi se sentindo impotente, abandonado, diante de seu ‘fracasso’, pois os jovens na sua maioria se entregaram às drogas e à prostituição.

Teve seu barraco e a capelinha incendiada, denunciou à polícia, sem êxito, pois a própria corporação policial evitava o confronto direto naquela localidade. Desesperou-se. Procurou reunir o pessoal do Morro, procurou falar com alguns políticos, sem nenhum sucesso. Enfim, numa tarde, talvez uma das últimas, ele conversou com Ele: “estou cansado, muito cansado. Não vejo nem Tu ajudar-me. Vou embora. Cuida desse rebanho que é Teu”. Nesse dia não sentiu nenhuma resposta.

Mudou-se, entregou a capelania, com o tempo foi ser ativista político e ensinar numa escola pública, casou. Os anos se passaram. Perdeu a fé.

Um novo padre, recém-ordenado, retomou o trabalho pastoral naquele local. Aos poucos obteve algum sucesso, uma meia dúzia de jovens e algumas senhoras idosas, passaram a frequentar assiduamente a capela, que foi restaurada. Muito sacrifício e dedicação da mesma forma que seu antecessor, muita resistência também.

Ultimamente um homem, de certa idade, cansado e melancólico sobe ao morro quase três vezes por semana e vai ficar perto do sacrário da capelinha restaurada. Fica olhando e olhando, fitando o infinito, com olhos vazios. Senta-se em frente, num tamborete de lá mesmo, e assim permanece por mais de meia hora. 

O padre atual, que não lhe conhecia, achou curioso e estranho que um homem viesse sempre ali e ficasse parado e mudo, olhando fixamente para onde se guardam as hóstias consagradas. Um dia perguntou ao estranho: - por que?

Ele lhe contou sua história em poucas palavras e disse, para espanto do novo padre “venho aqui pela saudade do Encontro”.

Assuero Gomes
Cristão católico leigo da
Arquidiocese de Olinda e Recife


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ENCONTRO COM FIDEL



Por Frei Betto


      HAVANA. Há tempos Fidel não se manifestava. Como me disse em Havana um cubano, “é gritante o silêncio do Comandante”. Muitos supunham que ele se encontrava muito doente, talvez recolhido a um hospital, e com seu estado de saúde tratado como segredo de Estado.

      Pouco antes de eu viajar para Cuba, em meados de janeiro, correu a notícia de que Fidel havia morrido. Pela milésima vez... Jornalistas me ligaram interessados em saber se eu recebera confirmação de meus amigos de Cuba.
      Fui pesquisar. De fato, Fidel morreu dia 3 de janeiro de 2015, em Nairobi, no Quênia, e seu nome completo era Fidel Castro Odunga, filho de um queniano que, quando jovem, estudou em Cuba.

      Meus amigos, aqui em Havana, se perguntavam se Fidel havia ou não recebido os Cinco Heróis cubanos, recentemente libertados de longos anos de prisão nos EUA e transferidos para seu país de origem. E por que o Comandante não se manifestara, pelo menos com um artigo, quando Obama admitiu que o bloqueio “não funcionou” e aceitou entabular conversações com o governo cubano para reatar relações diplomáticas e comerciais.

      Pairava um mistério em torno do silêncio do líder da Revolução Cubana.
      Vim para participar do Congresso Mundial de Pedagogia. Proferi palestra na Universidade de Havana para pedagogos cubanos e dirigentes da FEU (Federação dos Estudantes Universitários), a UNE local.

      A convite do embaixador do Brasil, Cesário Melantonio Neto, na Casa das Américas fiz conferência sobre Paulo Freire e, no Instituto Superior de Artes, sobre Arte Contemporânea e Mercado.

      No Congresso de Pedagogia falei sobre Educação e Subjetividade e, no dia seguinte, sobre Educação, Consciência Crítica e Protagonismo Social.

      Na tarde de terça, 27 de janeiro, Fidel me convidou à sua casa. Em companhia de sua esposa Dália, conversamos durante uma hora e meia. Ele se mostrou interessado em meu encontro com o papa Francisco, em abril de 2014, em Roma, e demonstrou profunda admiração pelo chefe da Igreja Católica.

      Fidel me pediu detalhes sobre os conteúdos das palestras e discorreu sobre os temas de astrofísica e física quântica que levanto em meu livro “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), editado em Cuba.

      Aos 88 anos, o líder da Revolução Cubana, recolhido em casa, segue com atenção o noticiário mundial, sobretudo através da TV e da internet, e mantém o mesmo raciocínio ágil de quando o conheci, em 1980.

      Suas maiores preocupações, além do futuro de Cuba, são a paz mundial e a degradação ambiental. Ele teme que o espírito bélico das grandes potências e a ambição de lucro leve à destruição da humanidade muito antes do apocalipse.

      Apesar de tudo, mantém um jovial entusiasmo, de quem sabe que o melhor é guardar o pessimismo para dias melhores.

Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros.