O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador TANTO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TANTO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de maio de 2023

POR QUE O MST ASSUSTA TANTO?

 Frei Betto 


 

       O MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que vi nascer e ao qual permaneço vinculado, é o mais popular, combativo e democrático movimento popular do Brasil. Congrega, hoje, cerca de 500 mil famílias assentadas e 100 mil acampadas. Luta por um direito elementar, jamais efetivado no Brasil, um país de dimensões continentais e onde há muita gente sem terra e muita terra sem gente – a reforma agrária.

       É, no mínimo, uma vergonha constatar que no século XXI os únicos países que não fizeram reforma agrária na América Latina foram Brasil, Argentina e Uruguai. O modelo de propriedade da terra que ainda perdura em nosso país é o das capitanias hereditárias. E a relação de muitos proprietários de terras com seus empregados pouco difere dos tempos de escravidão.

       Nascido em 1984 e prestes a completar 40 anos em 2024, o MST sabe, desde seus primórdios, que governo é como feijão, só funciona na panela de pressão... Ainda que tenha contribuído decisivamente para eleger Lula presidente, o MST jamais se deixou cooptar pelo governo. Mantém a sua autonomia e sabe muito bem que a relação de governo com movimentos sociais não pode ser de “correia de transmissão” e, sim, de representação das bases sociais junto às instâncias governamentais. Muitos políticos enchem a boca com a palavra “democracia”, mas temem que passe de mera retórica para ser, de fato, um governo cujo principal protagonista é o povo organizado.

       O MST se destaca também pelo cuidado que dedica à formação política de seus militantes, o que muitos movimentos e partidos de esquerda negligenciam. Os sem-terra mantêm, inclusive, um espaço próprio para o trabalho pedagógico, a Escola Florestan Fernandes, em Guararema (SP). E em todos os eventos que promove, o movimento valoriza a “mística”, ou seja, atividades lúdicas (cantos, hinos, painéis etc.) e símbolos (fotos, artesanato etc.) de caráter emulador. 

 

       O MST segue rigorosamente os ditames da Constituição Cidadã de 1988. A Carta defende o uso social da terra, que deve respeitar o meio ambiente e ser produtiva. E exige algo ainda em compasso de espera e imprescindível se o Brasil quiser alcançar o desenvolvimento sustentável e abandonar sua submissão aos ditames das nações metropolitanas, que nos impõem a mera condição de exportadores de produtos primários, hoje elegantemente chamados de “commodities”...

       Ocupação não é invasão. Jamais o MST ocupa terras produtivas. Hoje, o movimento é o maior produtor de arroz orgânico na América Latina e defende a Reforma Agrária Agroecológica, capaz de facilitar o acesso à terra como direito humano; produzir alimento saudável e sustentável para toda a sociedade brasileira; oferecer ao mercado  alimentos salubres e livres de agrotóxicos; valorizar o papel da mulher trabalhadora do campo; expandir o número de cooperativas de agroecologia; e ampliar a soberania e a biodiversidade alimentares no combate à fome e à insegurança alimentar. 

       A campanha do “Abril Vermelho” não usa o adjetivo como evocação da cor preferida dos símbolos comunistas (e, também, das vestes solenes dos cardeais), como querem interpretar os detratores do MST. É, sim, a cor do sangue dos 19 sem-terra cruelmente assassinados pela Polícia Militar em Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, a 17 de abril de 1996. Sete vítimas foram mortas por foices e facões, e os demais por tiros à queima-roupa. 

       Cerca de 100 mil famílias aguardam assentamento no Brasil. E é no mínimo um desserviço o agronegócio promover o desmatamento de nossas florestas para expandir a fronteira agrícola, usufruir de isenção fiscal na exportação de seus produtos e concentrar sua produção em apenas cinco mercadorias: soja, milho, trigo, arroz e carne, controladas por grandes empresas transnacionais. 

       A fome cresce no mundo. Já são quase 1 bilhão de pessoas afetadas. E isso não resulta da falta de alimentos. O planeta produz o suficiente para alimentar 12 bilhões de bocas. Resulta da falta de justiça. No sistema capitalista, o faminto morre na calçada à porta do supermercado. Porque o alimento tem valor de troca e não de uso. Ora, enquanto a produção alimentar não seguir os padrões agroecológicos e a terra e a água, recursos naturais limitados, não forem considerados patrimônios da humanidade, a desigualdade tende a se agravar e, com ela, toda sorte de conflitos. Paz rima com pão.

       O MST assusta tanto porque luta para que o Brasil, uma das nações mais ricas do mundo, e que figura entre as cindo maiores produtoras de alimentos, deixe de ser um país periférico, colonizado, marcado por abissal desigualdade social. 

       Tomara que, um dia, nunca mais se torne realidade os versos cantados por João Cabral de Melo Neto em “Funeral de um lavrador”: “Não é cova grande / É cova medida / É a terra que querias / Ver dividida”. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia