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quinta-feira, 15 de junho de 2023

POR QUE REVOGAR O “NOVO” ENSINO MÉDIO

 

Frei Betto


 

        Os primeiros meses do governo Lula mostram como será difícil reconstruir o Brasil. A frente ampla em defesa da democracia para vencer a eleição expressa limites para o avanço em políticas que apontem para um futuro estruturalmente melhor para a população, em especial os mais pobres.

        Na educação, o exemplo é o Ensino Médio, cuja reformulação e implementação teve origem no governo Temer. O golpe parlamentar contra a presidenta Dilma legou ao país a profunda crise política em que ainda estamos enrascados e, no bojo, as heranças malditas do teto de gastos, da liberalização da terceirização, da precarização das relações de trabalho e do chamado “novo Ensino Médio”. O golpe visou fazer avançar estas contrarreformas de nítido sentido neoliberal e antipopular.

        Desinteresse em relação às disciplinas e currículos, elevada evasão de alunos, necessidade de conexão entre teoria e prática e com o mundo do trabalho. São fatores importantes que exigem constante avaliação e eventual reformulação do Ensino Médio. O governo Dilma já debatia alterações nesta etapa da educação, que representa os anos finais da escolarização da juventude. 

        O projeto de lei 6.840, de 2013, esboçava mudanças pretendidas pelo governo em relação ao Ensino Médio. Era avaliado criticamente por entidades de professores e estudantes, inclusive ao propor elementos de organização curricular que depois seriam retomados pelo “novo Ensino Médio”, como a redução das disciplinas comuns e a oferta de temas de livre escolha.

        O golpe de 2016, entretanto, interrompeu este processo de diálogo. Através da Medida Provisória 746/2016 e, posteriormente, da Lei 13.415/2017, o governo Temer impôs o “novo Ensino Médio”, que alterou a Base Nacional Comum Curricular e seu suporte pedagógico legal, depois aprovada no governo Bolsonaro. 

        Como se deu a aprovação? Alterou-se a composição do Conselho Nacional de Educação, com a nomeação de conselheiros ligados às fundações e institutos empresariais, defensores das orientações do Banco Mundial para a educação. 

        A Base Nacional Comum Curricular, portadora dos conceitos neoliberais de empreendedorismo e meritocracia, engessa o currículo escolar do Ensino Médio. Conteúdos de Matemática e Língua Portuguesa passam a ser oferecidos quase no limite de um ensino para domínio instrumental dessas disciplinas, essenciais para a formação plena do estudante.

        O que Temer e o Congresso Nacional impuseram significou a precarização do currículo escolar e comprometeu a formação dos estudantes, ao reduzir a carga horária da Formação Geral Básica (Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, Artes, Filosofia, Sociologia) no segundo e terceiro anos do Ensino Médio. E ampliou para 40% da carga horária, nesses anos, a parte diversificada do currículo, ao inserir os chamados “itinerários formativos”, em que supostamente os estudantes poderiam escolher o que estudar.

        Há uma contradição entre a propaganda de que os estudantes seriam protagonistas de sua carreira escolar e a realidade do “novo ensino médio”, que prescreve habilidades e competências sócio comportamentais necessárias à sobrevivência desses jovens no mundo do trabalho: capacidade de adaptação e resiliência em um cenário de competição e instabilidade. São “habilidades” para uma sociedade baseada na “viração”, na esperteza, o que os defensores da educação neoliberal chamam de “empreendedorismo”. Trata-se de educar para adequar-se ao mercado de trabalho precarizado e ao conformismo como ausência de alternativa.

        A implementação do “novo Ensino Médio” ao longo dos últimos dois anos e sob responsabilidade das secretarias estaduais de educação, evidenciou mais problemas, como a precariedade da infraestrutura das escolas públicas – em que estudam cerca de 88% dos quase 8 milhões de estudantes matriculados no Ensino Médio no Brasil –, e a falta de professores. Somam-se a este grave problema  maus contratos, muitas contratações  temporárias, além de ausência de formação adequada e pouco tempo para preparação de aulas. Todos esses fatos revelam a inadequação desta proposta para a realidade dos estudantes, que passaram a se mobilizar pela revogação.

        O “currículo em migalhas” não atende às necessidades e interesses dos alunos, notadamente dos filhos e filhas da classe trabalhadora que estão nas escolas públicas, e não os prepara para a continuidade dos estudos em nível superior ou escolas técnicas, se assim desejarem. Nem para que possam ingressar dignamente no mundo do trabalho, forçando-os à exclusão das esferas de decisão nas empresas, instituições e órgãos do poder público, e à permanência em funções subalternas e mal remuneradas.

        O ensino médio neoliberal ampliou o abismo que já existia entre as escolas públicas e as melhores escolas privadas, reforçando o fato de haver no Brasil uma escola “pobre” para os pobres, e escolas de qualidade para os ricos, o que aprofunda o apartheid social. 

        A bandeira do “Revoga já!” em relação à contrarreforma neoliberal do Ensino Médio tem potencial para expor a raiz do problema educacional no Brasil: a desigualdade nas condições de ensino-aprendizagem entre as escolas pública e privada. E mesmo entre escolas privadas de elite nos grandes centros urbanos e as localizadas no interior do Brasil e nos bairros de classe média nas grandes cidades. É a reprodução ampliada dessa desigualdade. 

        Ao mesmo tempo, condiciona o horizonte de possibilidades dos jovens (ricos e pobres) ao fatalismo do “fim da história”, ou seja, que o futuro do Brasil não comporta desenvolvimento social e econômico que nos faça superar a dependência e as heranças neocoloniais do subdesenvolvimento: pobreza estrutural, concentração da propriedade da terra (rural e urbana), elevada inserção informal, precária e sem proteção social no mercado de trabalho.

        Revogar o ensino médio neoliberal é imprescindível para reconstruir o Brasil. A educação básica e, em especial, a etapa final do seu percurso formativo, que é o Ensino Médio, precisa ser refundada a partir de amplo e democrático processo participativo que reúna estudantes secundaristas e suas organizações, professoras e professores e suas representações sindicais, e especialistas em educação comprometidos com um projeto popular para o país. 

        Se queremos uma educação que viabilize a democratização e a desmercantilização da vida, há que construir uma reforma educacional humanista e crítica inspirada na educação libertadora de Paulo Freire.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quarta-feira, 3 de maio de 2023

POR QUE O MST ASSUSTA TANTO?

 Frei Betto 


 

       O MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que vi nascer e ao qual permaneço vinculado, é o mais popular, combativo e democrático movimento popular do Brasil. Congrega, hoje, cerca de 500 mil famílias assentadas e 100 mil acampadas. Luta por um direito elementar, jamais efetivado no Brasil, um país de dimensões continentais e onde há muita gente sem terra e muita terra sem gente – a reforma agrária.

       É, no mínimo, uma vergonha constatar que no século XXI os únicos países que não fizeram reforma agrária na América Latina foram Brasil, Argentina e Uruguai. O modelo de propriedade da terra que ainda perdura em nosso país é o das capitanias hereditárias. E a relação de muitos proprietários de terras com seus empregados pouco difere dos tempos de escravidão.

       Nascido em 1984 e prestes a completar 40 anos em 2024, o MST sabe, desde seus primórdios, que governo é como feijão, só funciona na panela de pressão... Ainda que tenha contribuído decisivamente para eleger Lula presidente, o MST jamais se deixou cooptar pelo governo. Mantém a sua autonomia e sabe muito bem que a relação de governo com movimentos sociais não pode ser de “correia de transmissão” e, sim, de representação das bases sociais junto às instâncias governamentais. Muitos políticos enchem a boca com a palavra “democracia”, mas temem que passe de mera retórica para ser, de fato, um governo cujo principal protagonista é o povo organizado.

       O MST se destaca também pelo cuidado que dedica à formação política de seus militantes, o que muitos movimentos e partidos de esquerda negligenciam. Os sem-terra mantêm, inclusive, um espaço próprio para o trabalho pedagógico, a Escola Florestan Fernandes, em Guararema (SP). E em todos os eventos que promove, o movimento valoriza a “mística”, ou seja, atividades lúdicas (cantos, hinos, painéis etc.) e símbolos (fotos, artesanato etc.) de caráter emulador. 

 

       O MST segue rigorosamente os ditames da Constituição Cidadã de 1988. A Carta defende o uso social da terra, que deve respeitar o meio ambiente e ser produtiva. E exige algo ainda em compasso de espera e imprescindível se o Brasil quiser alcançar o desenvolvimento sustentável e abandonar sua submissão aos ditames das nações metropolitanas, que nos impõem a mera condição de exportadores de produtos primários, hoje elegantemente chamados de “commodities”...

       Ocupação não é invasão. Jamais o MST ocupa terras produtivas. Hoje, o movimento é o maior produtor de arroz orgânico na América Latina e defende a Reforma Agrária Agroecológica, capaz de facilitar o acesso à terra como direito humano; produzir alimento saudável e sustentável para toda a sociedade brasileira; oferecer ao mercado  alimentos salubres e livres de agrotóxicos; valorizar o papel da mulher trabalhadora do campo; expandir o número de cooperativas de agroecologia; e ampliar a soberania e a biodiversidade alimentares no combate à fome e à insegurança alimentar. 

       A campanha do “Abril Vermelho” não usa o adjetivo como evocação da cor preferida dos símbolos comunistas (e, também, das vestes solenes dos cardeais), como querem interpretar os detratores do MST. É, sim, a cor do sangue dos 19 sem-terra cruelmente assassinados pela Polícia Militar em Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, a 17 de abril de 1996. Sete vítimas foram mortas por foices e facões, e os demais por tiros à queima-roupa. 

       Cerca de 100 mil famílias aguardam assentamento no Brasil. E é no mínimo um desserviço o agronegócio promover o desmatamento de nossas florestas para expandir a fronteira agrícola, usufruir de isenção fiscal na exportação de seus produtos e concentrar sua produção em apenas cinco mercadorias: soja, milho, trigo, arroz e carne, controladas por grandes empresas transnacionais. 

       A fome cresce no mundo. Já são quase 1 bilhão de pessoas afetadas. E isso não resulta da falta de alimentos. O planeta produz o suficiente para alimentar 12 bilhões de bocas. Resulta da falta de justiça. No sistema capitalista, o faminto morre na calçada à porta do supermercado. Porque o alimento tem valor de troca e não de uso. Ora, enquanto a produção alimentar não seguir os padrões agroecológicos e a terra e a água, recursos naturais limitados, não forem considerados patrimônios da humanidade, a desigualdade tende a se agravar e, com ela, toda sorte de conflitos. Paz rima com pão.

       O MST assusta tanto porque luta para que o Brasil, uma das nações mais ricas do mundo, e que figura entre as cindo maiores produtoras de alimentos, deixe de ser um país periférico, colonizado, marcado por abissal desigualdade social. 

       Tomara que, um dia, nunca mais se torne realidade os versos cantados por João Cabral de Melo Neto em “Funeral de um lavrador”: “Não é cova grande / É cova medida / É a terra que querias / Ver dividida”. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

POR QUE ELEGER BOULOS E ERUNDINA

 

Frei Betto


 

       A cidade de São Paulo merece nova administração. Quem mora aqui como eu, há 44 anos, sabe como tem sido mal administrada desde 2017, quando passou a ser assumida pela dupla Doria-Covas. Tentou-se até mesmo cancelar as ciclovias e a exclusão de carros e ônibus na av. Paulista aos domingos, medidas adotadas pela administração Fernando Haddad. Felizmente a reação popular impediu.

       Não há rua ou avenida de São Paulo na qual se possa trafegar sem se deparar com inúmeras pessoas desamparadas, condenadas à mendicância, vítimas do desemprego e da falta de moradias. E há tantos buracos nas ruas que os taxistas costumam dizer que é para ninguém esquecer o nome do prefeito – covas. 

       A cidade é governada apenas para a parcela mais rica da população, que vive em bairros ajardinados e fortemente policiados. A periferia se encontra ao deus-dará, carente de saúde, educação, moradia decente e transporte público. São frequentes os incêndios em comunidades que moram embaixo de viadutos ou em terrenos cobiçados pela especulação imobiliária. 

       Boulos assumirá a prefeitura tendo como vice Luiza Erundina, que governou com êxito a cidade entre 1989-1992, e há 21 anos é deputada federal. Os dois se destacam pela integridade ética, capacidade administrativa e profunda sensibilidade social. Boulos abandonou o conforto da classe média (seus pais são médicos) para dedicar a vida aos sem-teto.

       Entre as medidas a serem tomadas por Boulos-Erundina, destacam-se o aumento do IPTU para mansões e da alíquota de ISS para bancos e instituições financeiras. Assim, a prefeitura terá mais recursos para aplicar em programas sociais voltados às famílias carentes e aos excluídos. 

       Serão mantidas linhas de ônibus 24h na periferia. Estudantes, desempregados, gestantes e mães com filhos até 2 anos terão direito a viajar sem pagar. Para combater a desigualdade social, será criada a Renda Solidária para garantir um valor de R$ 200 a R$ 400 a 3 milhões de pessoas que sobrevivem em extrema pobreza.

       Será revogada a reforma da Previdência municipal, aprovada em 2018, bem como restabelecida a paridade de remuneração entre ativos e aposentados. E haverá concurso público – e não apadrinhamento – para áreas da administração como saúde, educação, cultura e Guarda Civil Metropolitana. 

       O estádio do Pacaembu, em fase de privatização, será retomado pela prefeitura. 

       Esses são apenas alguns exemplos da boa administração que o município de São Paulo merece. 

       Dia 29 de novembro, domingo, vote 50 e eleja Guilherme Boulos e Luiza Erundina. 

       Vote com fé. Vote pelo povo paulistano! Vote 50!

 

 Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros.

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

POR QUE ME UFANO DO MEU PAÍS

 



         Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Era este o título de um livro de Afonso Celso, do ano de 1900.  Era um texto laudatório em relação ao Brasil, que cantava suas belezas, suas glórias e seu brilho. A obra marcou época em nossa terra.  Tornou-se leitura obrigatória nas escolas secundárias brasileiras, e teve várias edições e traduções.  Passou a ser uma verdadeira cartilha de nacionalidade, um distintivo que marcava a condição de brasileiro. 

            Mais tarde, o livro e seu autor já não foram tão apreciados, sendo mesmo ridicularizados. A visão acrítica e ingênua da positividade do país, sem perceber seus aspectos sombrios, instigou as mentalidades mais críticas.  Criou-se, a partir do título da obra, a palavra "ufanismo", com o sentido pejorativo que os dicionários Aurélio e Houaiss registram: vanglória desmedida, patriotismo excessivo.  

            Muitas décadas mais tarde, o humorista e artista Ary Toledo fez um show com o mesmo título: " Por que me ufano do meu país". Ali, entre canções e piadas de sua autoria, o artista lançava farpas contra o Brasil da ditadura militar, que cerceava a liberdade de pensar.  E criticava sobretudo a mania que o povo brasileiro tem de imitar os Estados Unidos, assassinando a própria cultura e assumindo na dança, na música, nos gostos, os hábitos norte-americanos.  

            Estamos em 2020, celebramos o 7 de setembro, festa nacional. Estamos na Semana da Pátria e estou em situação de imensa dificuldade para ufanar-me do meu país.  Mas como sou brasileira de coração e descendência; como só tenho um passaporte que me faz ficar horas em filas esperando agressivas e humilhantes inspeções nas fronteiras de vários países do mundo; como não consigo não vibrar quando ouço o hino nacional; quero e desejo encontrar razões para orgulhar-me da pátria em que nasci e onde até hoje vivo. E confesso que está difícil. 

O país passa por uma pandemia e conta mais de 120 mil mortos. Mergulhado em luto e tristeza, não consegue vislumbrar uma solução a curto ou médio prazo para a enorme catástrofe em que se encontra. Ao lado disso, a barca brasileira flutua à deriva, sem que se consiga avistar com alguma nitidez onde está, o que faz, ou mesmo quem é o timoneiro. 

A corrupção nossa de cada dia, apesar da pandemia e da situação de emergência, só faz crescer. A economia penaliza os pobres e faz projetos emergenciais que não atendem as emergências.  Essas, por sua vez, passaram a ser pão de cada dia dos cidadãos desse chão. O Ministério da Saúde encontra-se vacante há mais de 100 dias, enquanto a crise sanitária segue grave. Os vários ministros que passaram pela pasta foram exonerados ou se autoexoneraram, não suportando ser constante e implacavelmente desautorizados pelo Executivo. 

Até nossas riquezas e recursos naturais – abundantes e generosos – encontram-se ameaçados: desmatamentos, queimadas, agressões constantes ao meio ambiente, às reservas indígenas,  contaminação de rios, loteamento da Amazônia situada em boa parte no Brasil, embora seja composta por nove países e constitua um patrimônio da humanidade. 

Que razões tenho, então, para ufanar-me de meu país? Deverei sentar-me e chorar, lamentando a sorte desta terra onde nasci e que sempre amei? Não, se pensar nas centenas de voluntários que organizam e distribuem cestas básicas nas comunidades mais carentes, onde falta o alimento.  Não igualmente se fixar meu olhar nos médicos e profissionais da saúde que se arriscam a todo momento nos hospitais para salvar vidas ameaçadas pela pandemia de Covid-19. Menos ainda se reparar no esforço dos artistas que, impedidos pela crise sanitária de dar espetáculos em teatros ou palcos, fazem lives pela rede ou mesmo cantam nos balcões e varandas das cidades, aliviando a angústia de muitos. 

                O melhor de meu país é o povo que nele vive. Gente que foi feita para brilhar e não para morrer de fome, como diz Caetano Veloso. Gente que tem que lutar pela vida com uma das mãos e reparte o pouco que tem com a outra. Gente que se arrisca para que o outro tenha vida.  Gente que é capaz ainda de cantar e se alegrar mesmo em meio a tanta tristeza. 

            Essa gente, esse povo, é a única reserva de esperança que o Brasil tem.  É o único motivo para dele "ufanar-se". Essa gente que não deixam brilhar, mas apesar de tudo brilha em sua generosidade, solidariedade, alegria.  Por essa gente e com ela faz sentido celebrar a Pátria. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Mística e Testemunho em Koinonia" (Editora Paulus), entre outros livros

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

POR QUE HUMANOS ESCRAVIZAM OUTROS,HUMANOS ONTEM E HOJE?




Por leonardo boff

A existência e a persistência da escravidão ou de condições análogas à escravidão constitui um desafio humanístico, filosófico, ético e teológico até os dias de hoje. Por que humanos escravizam outros humanos, seus co-iguais?
A mais antiga codificação de leis, o Código de Hamurábi, escrito por volta de 1772 aC no Irã  já se efere à classe dos escravos. E assim ao longo de toda a história até os dias atuais. A Walk free Foundation que se ocupa com a escravidão, no nível mundial, calcula que haja hoje cerca de 40,3 milhões de pessoas em regime de escravidão por tráfico de pessoas, por dívida, por trabalhos ou casamentos forçados etc. A Índia lidera o ranking com 7,99 milhões de escravizados. Os dados do Brasil de 2018 apontavam 369 mil em condições análogas à escravidão ou escravizados.
As cabeças mais brilhantes do Ocidente viram-na como natural ou até possuíam escravos. Assim Aristóteles, David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Hegel. O próprio formulador da Declaração de Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson na qual se afirmava que todos os seres humanos nascem livres e com direitos iguais possuía escravos, bem como o nosso Tiradentes que possuía pelos menos 6 deles. O famoso Padre Antônio Vieira num engenho pregava aos escravos:”Sois imitadores do Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante ao que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”,chegando a chamá-los por isso de “bem-aventurados”. Uma piedosa e ao mesmo tempo cruel justificativa.
Resumindo: Afirma o grande especialista em escravidão o jamaicano Orlando Petterson, professor em Harvard:”A escravidão existiu desde o início da história da humanidade, até o século XX (XXI), nas sociedades mais primitivas e também nas mais avançadas”(cf.L.Gomes, Escravidão,p.65). Que razões que levaram à escravidão?
Nenhuma explicação até hoje se revelou convincente. Mas podemos tatear razões embora todas precárias.
primeira teria sido o patriarcado. O homem-macho, há 10-12 mil anos, se impôs a todos, à mulher, aos filhos, à natureza. Sobrepô-se ao outro, fazendo-o seu servo e escravo. A escravidão seria filha do patriarcado ainda vigente nos dias atuais.
segunda razão, de natureza filosófica, sustenta que o ser humano é um ser decadente. Não num sentido ético mas ontológico. Quer dizer, sua natureza é assim que nunca consegue ser o que deveria ou desejaria ser. Nele há uma amarra interna que lhe impede de dar o salto necessário: controlar e integrar seus impulsos que não são em si maus, mas naturais: a cólera, o uso da força, o poder como capacidade de dominação. Ele decai no sentido de dar vazão a estes impulsos e destarte tornar-se inumano. Donde lhe vem essa incapacidade? A contradição entre o desejo infinito e a realidade finita? Bem que poderia conviver jovialmente com o infinito, acolhendo seu ser finito. Mas não o fez e não o faz. A chaga continua a sangrar e a fazer sangrar.
Tenho para mim que a sabedoria judaico-cristã, de alta ancestralidade, traz alguma luz. Fala de pecado original. O termo não é bíblico, pois aí se usa “pecado do mundo” ou “o ser humano é inclinado ao mal desde a sua juventude”. Pecado original é um termo criado por Santo Agostinho (354-430) em sua intensa troca de cartas com São Jerônimo e em polêmica com o teólogo Pelágio.
Pecado original, segundo ele, não possui uma conotação temporal, “desde as origens”. Mas original concerne ao núcleo originário, primeiro e essencial do ser humano. No seu interior mais profundo vigora uma ruptura: com a natureza, não respeitando seus ritmos, com o outro, odiando-o e com o Definitivamente Importante. Ele se considera o mais o mais importante, pelo fato de ser dotado de razão. Por ela imagina que pode dar conta de si mesmo, como se ele mesmo se tivesse dado a existência e não Alguém que o fez vir este mundo. Pecado original é essa hybris e arrogância. Significa magnificar seu eu a ponto de excluir os outros e o Grande Outro que o criou.
A consequência primeira é a instauração da ditadura da razão. Ela pretende explicar tudo e por ela dominar tudo. Vão propósito. O ser humano não é só razão. É principalmente coração, sensibilidade e amor. Bem antes da razão, o logos, em termos da antropogênese, veio o sentimento, o pathos. Esta dimensão foi recalcada e até negada. Com isso deixou de sentir o outro, de colocar-se no lugar dele, alegrar-se e sofrer com ele. Objetivou-o, vale dizer, o fez um objeto de uso e abuso. Surgiu a dominação do outro. Começou a escravização de um humano sobre outro humano.
Não sentir os outros como nossos semelhantes e não ter empatia para com eles é o “nosso pecado original”, origem da escravidão de ontem e de hoje. Sem abraçar o outro como co-igual e não ouvir o grito da Terra, não haverá futuro para o nosso tipo de mundo e de civilização. Outro deverá vir com seres todos livres e humanos.
Leonardo Boff é filósofo e teólogo e escreveu Princípio de compaixão e cuidado, Vozes  2000


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

POR QUE FIZEMOS OPÇÃO PELOS POBRES (E ELES PELO NEOPENTECOSTALISMO)?



por Frei Betto*



           Há quem diga que a Igreja Católica optou pelos pobres e os pobres, pelas Igrejas evangélicas. Isso tem certa dose de verdade se considerarmos os índices que demonstram que, nos últimos anos, houve diminuição do número de católicos no Brasil e aumento de protestantes (adeptos das Igrejas históricas) e evangélicos (adeptos das Igrejas pentecostais e neopentecostais).
           No censo de 2000, 73,6% da população era formada por católicos, e apenas 15,4% de protestantes e evangélicos. No censo de 2010, os católicos representavam 64,6% e os protestantes e evangélicos, 22,2%. Em dez anos, o número de protestantes e evangélicos no país aumentou 61,45%. Hoje eles são 42,3 milhões. Em 1970, eram 4,8 milhões (5,2% da população). Estima-se que, a cada ano, são abertos, no Brasil, 14 mil novos templos evangélicos.
           Os evangélicos se dividem em Igrejas protestantes tradicionais ou históricas (luterana, presbiteriana, batista, anglicana, metodista etc.); pentecostais (Assembleia de Deus, Presbiteriana Renovada etc.); e neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça de Deus etc.). A maioria dos neopentecostais se encontra nas periferias das cidades, e 63,7% recebem por mês no máximo um salário mínimo. Daí o interesse pela Teologia da Prosperidade, que propõe uma ética que transforma em valor religioso a ascensão social dentro da mobilidade urbana.

Pedagogias apostólicas
          
           Enquanto a pregação católica centra-se no dogmatismo (no que se deve crer), a neopentecostal está focada no pragmatismo (o caráter utilitário da fé para se alcançar benefícios, desde emprego até a cura de doenças). Daí o lema adotado pela principal Igreja neopentecostal, a Universal do Reino de Deus – “Pare de sofrer”. É uma pregação muito colada na autoajuda.
           A que se deve tal fenômeno? Há várias hipóteses. Uma delas é explicada pela coincidência entre a urbanização brasileira, na virada dos séculos XIX para o XX, e a disseminação de Igrejas evangélicas. O êxodo rural, a urbanização desordenada, a quebra de vínculos familiares tradicionais, o inchamento das periferias e a massificação dos meios de comunicação, são fatores que estão na origem da explosão evangélica.
           Mais recentemente há que considerar os 34 anos de pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI, que inibiram, na esfera católica, a Igreja dos Pobres, às vezes duramente reprimida, bem como o seu fundamento teórico, a Teologia da Libertação. No entanto, jamais foram condenados.
           Católicos das periferias urbanas e rurais que não se sentiam mais acolhidos em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais populares trataram de migrar para os espaços evangélicos. E o fizeram por duas razões básicas: a ânsia de encontrar possíveis soluções para seus problemas crônicos (enfermidades, desemprego, carência de identidade nos grandes centros metropolitanos etc.), e o mal-estar quando chamados a frequentar os templos católicos, predominantemente ocupados pela classe média, e no qual reina o clericalismo.
           As Igrejas evangélicas adotam um modelo pastoral já qualificado de “canibal”. Instaladas em antigas salas de cinema ou garagens, elas abrem, diretamente nas calçadas, sua bocarra faminta de fiéis... Para tais Igrejas, o espaço físico religioso não exige necessariamente construção de templos. Qualquer sala ou galpão pode ser transformado em local de culto. E muitos templos mantêm as suas portas abertas 24 horas por dia, o que é impensável em se tratando de templos católicos. Ao se chegar em certos templos evangélicos em plena madrugada é possível ser recebido por um obreiro que dedica especial atenção ao fiel em potencial. Em uma paróquia católica não é fácil ser atendido por um sacerdote, ainda que no período vespertino.
           Nos cultos evangélicos há participação de fiéis. Adota-se uma espiritualidade “personalizada”, predestinadora, sem dimensão social. O que fascina é o Deus da misericórdia que cura, conforta, perdoa, ajuda a obter emprego, traz prosperidade e une a família. Deus que liberta o fiel dos vícios, do adultério, do pecado, enfim, das garras do diabo... Espiritualidade que penetra fundo no coração e no bolso do fiel... Nesse mundo de perdição, a Igreja desponta como uma ilha de salvação individual, na qual cada fiel se sente um eleito do Senhor. E se demonstra vocação para a música, seja o canto, seja o domínio de um instrumento musical, o fiel é valorizado pela comunidade religiosa.
           Já na Igreja Católica, muitos entraves dificultam a adesão dos mais pobres. Reina o clericalismo, quase tudo é centrado na figura patriarcal do sacerdote, e as mulheres participam como meras figurantes. Não há mulheres diáconas nem sacerdotes, quanto mais revestidas de caráter episcopal.
           As liturgias católicas são asfixiadas pelas rubricas canônicas que entravam a improvisação, a dança, a participação dos fiéis, os rituais de bênçãos e curas. Nossos fiéis não passam necessariamente por escolas bíblicas e nem têm o hábito de ler e meditar as sagradas escrituras. Quase toda a aproximação com a Bíblia se resume em leituras litúrgicas seguidas de sermões que raramente fazem exegese do texto e, quando o fazem, ela não está ao alcance do nível cultural dos fiéis.
           Os templos e capelas católicos não contam com obreiros ou agentes pastorais que, a qualquer hora do dia ou da noite, estão dispostos a atender quem os procura e preparados para acolher o bêbado, a mulher agredida pelo marido, o desempregado tomado pelo desespero, o endividado submerso na angústia, a moça aflita pela gravidez inesperada e indesejada...
           E por vezes utilizamos uma linguagem demasiadamente politizada ou meramente moralista, sem corresponder à fome de sacralidade do fiel, de mística, de sentir-se acolhido pela misericórdia de Deus e pela Igreja como família ou comunidade religiosa.

Conservadorismo

           Desde que os evangélicos despontaram no Brasil, em fins do século XIX, se caracterizaram por uma postura conservadora impulsionada pela leitura fundamentalista da Bíblia e pelo puritanismo. Basta conferir o alinhamento da maioria das Igrejas protestantes e evangélicas à ditadura militar (1964-1985), embora alguns de seus fiéis figurem como mártires e confessores da resistência democrática, como os irmãos Paulo e Jaime Wright, e os pastores Jether Ramalho e Anivaldo Padilha.
           Embora haja, hoje em dia, segmentos evangélicos abertos ao ecumenismo e, inclusive, à Teologia da Libertação, o que ainda predomina é o conservadorismo teológico e político. Nesse início de século XXI, o alvo do fundamentalismo evangélico são as políticas de direitos humanos e gênero.
           Há que destacar o avanço das Igrejas evangélicas no uso dos meios de comunicação, criando figuras midiáticas de forte apelo popular, como Silas Malafaia, R. R. Soares e Edir Macedo. A compra da Rede Record, TV aberta, em 1989, pela Igreja Universal, causa um forte impacto na formação da opinião pública nacional. E o mercado fonográfico “gospel” gera a maior arrecadação da indústria musical brasileira, em torno de R$ 500 milhões por ano. E o editorial, R$ 483 milhões por ano.
           Já a Igreja Católica lida com a mídia sem o devido profissionalismo, sobretudo na esfera imagética, como TV e internet. O máximo de audiência obtida pelos católicos se restringe ao sucesso dos padres cantores, como Marcelo Rossi, Fábio de Melo, Reginaldo Manzotti e outros.
           É preciso também destacar os segmentos evangélicos progressistas, como a Renas (Rede Evangélica Nacional de Ação Social), criada no Rio em 2006, e que congrega fiéis das Igrejas Batista, Assembleia de Deus, Anglicana e Luterana. Os membros da Renas são críticos ao discurso e à prática conservadores da bancada evangélica no Congresso, contrários à redução da maioridade penal e favoráveis ao diálogo com religiões de matriz africana, ao debate sobre a descriminalização do aborto e à união civil e religiosa de casais homossexuais. (Cf. O Globo, 19.09.2015, p. 26).
          
Rumo à direita

           Em outubro de 2013, pesquisa do DataFolha comprovou que a maioria dos brasileiros se identifica com valores de direita. Este retrato se revelou quando se indagou a respeito de questões como pena de morte e papel dos sindicatos. Dos entrevistados, 38% foram classificados como de centro-direita, 26% de centro-esquerda, 22% de centro, 11% de direita e 4% de esquerda.
           A tendência à direita é reforçada por muitas Igrejas evangélicas indiferentes à moral social e defensoras do livre mercado. Elas se posicionam contra o aborto e o controle da natalidade; são favoráveis ao tratamento psicológico de homossexuais, e consideram que a democracia é plenamente compatível com os parâmetros do capitalismo. Advogam o Estado mínimo e, em nome da “salvação da família”, a criminalização dos movimentos civis por direitos sociais.
           Conforme análise da teóloga protestante Magali do Nascimento Cunha, a bancada evangélica não cresceu tão significativamente, como se propagou, nas eleições de 2014. O discurso homofóbico em defesa da família e contra o comunismo não foi suficiente para atrair os votos que esperava.
           Segundo o DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), o número de parlamentares evangélicos na Câmara dos Deputados não sofreu alteração significativa nas eleições de 2014. Estimava-se que chegaria a uma bancada de 100 eleitos (crescimento de 30%), tendo em vista o aumento de 20% alcançado nos pleitos  anteriores. Foram eleitos 72 parlamentares. Em 2010, elegeram-se 66 para o Congresso Nacional, entre deputados federais e senadores.
           Estimava-se que nomes de projeção nacional, como o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), atualmente acusado de estupro, recebessem ao menos 1 milhão de votos. Um de seus mais fortes cabos eleitorais, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, chegou a declarar: “Se o Feliciano tiver menos de 400 mil votos na próxima eleição, eu estou mudando de nome.” E ironizou a reação dos movimentos sociais quando Feliciano ocupou a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara: “Quero agradecer ao movimento gay. Quanto mais tempo perderem com o Feliciano, maior será a bancada evangélica em 2014.” Malafaia deveria cumprir a promessa: Feliciano teve, na eleição de 2014, 398.087 votos.
           O PSC acreditou tanto no êxito eleitoral de seus candidatos que lançou o Pastor Everaldo  candidato a presidente da República.

Marina Silva e Pastor Everaldo

           Os evangélicos apresentaram, nas eleições de 2014, dois candidatos a presidente: Marina Silva e o Pastor Everaldo, ambos da Assembleia de Deus.
           Marina Silva se destacou a partir da morte inesperada de Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB, de quem era vice. Isso esvaziou a candidatura do Pastor Everaldo, pois os evangélicos, embora não sejam aliados de Marina Silva, somaram forças em torno dela movidos pelo antipetismo. Contudo, ela não alcançou o segundo turno, figurando em terceiro lugar entre os candidatos. Comparado à eleição de 2010, quando também concorreu ao mesmo cargo, houve aumento de 2% no número de votos que lhe foram dados: de 19% para 21%. Pressionada por lideranças evangélicas, Marina apresentou constantes mudanças de discurso, o que provocou a perda de confiança de muitos de seus eleitores.
           Já o Pastor Everaldo teve pouco mais de 780 mil votos, e ficou atrás da candidata de esquerda Luciana Genro (PSOL-RS), que obteve 1,6 milhão de votos.
           O que surpreendeu a muitos foi o apoio de Marina Silva, no segundo turno, à candidatura do oposicionista Aécio Neves (PSDB). O pragmatismo superou os princípios.

A servidão voluntária
          
           La Boétie publicou, em 1576, o Discurso da servidão voluntária, texto no qual analisa esse estranho fenômeno que faz certas pessoas abdicarem de sua autonomia para pensar pela cabeça alheia e agir segundo o seu mestre mandar.
           Ocorre em todos os âmbitos, desde a mulher que se deixa subjugar pelo marido ao funcionário que jamais questiona as ordens do chefe. Aliás, os criminosos nazistas e os torturadores brasileiros que chegaram às barras dos tribunais alegaram, em sua defesa, o cínico argumento: “Cumpríamos ordens”.
           Outro dia, perguntei a uma senhora a quem dará seu voto para prefeito. “Naquele que Deus mandar”, respondeu. Espantei-me e, confesso, com uma ponta de inveja. Sempre quis saber a vontade de Deus quanto aos meus passos na vida. Tenho uma fé entremeada de incertezas.
           Sei, porém, que Deus é Pai (e também Mãe, lembrou o papa João Paulo I), mas não é paternalista. Como reza Gilberto Gil, deu-me régua e compasso e, o caminho, eu mesmo traço. Isso se chama livre arbítrio.
           Aquela senhora, entretanto, dava mostras de ter merecido um canal direto com Deus. E mais: um Deus cabo eleitoral na acirrada disputa das eleições municipais.
           “Como a senhora saberá quem é o candidato preferido de Deus?”, indaguei. Ela retrucou candidamente: “O pastor dirá. Ele é a voz de Deus.”
           Meu Deus!, reagi intimamente. Confundir a função de padre, bispo ou papa, com a vontade de Deus, é uma das mais aberrantes artimanhas para favorecer o fundamentalismo e suscitar a servidão voluntária. Vide o que os terroristas islâmicos fazem em nome de Maomé! 
           O mais curioso é que nem ateus escaparam disso. Basta ler O homem que amava os cachorros (Boitempo), de Leonardo Padura. Em nome da Causa, encarnada na vontade inquestionável de Stálin, Ramón Mercader sacrificou a sua vida para assassinar Trotski.
           Aliás, quase todos os líderes, sejam eles políticos, religiosos ou empresariais, preferem que seus subordinados abdiquem da consciência crítica. E ainda que tenham opinião diferente, tratem de omiti-la. O peixe morre pela boca...
           Daí o fenômeno degradante da humilhação voluntária. Para não perder prestígio, manter a função ou se julgar bem vistos aos olhos do chefe, muitos abaixam a cabeça e exibem os fundilhos... E qualquer crítica é tida como desvio ideológico, heresia, conspiração ou traição.
           Volto à canção de Gil. Na esfera cristã, a régua é a Bíblia e, o compasso, a prática de Jesus. Ele atuou em defesa dos direitos dos pobres e excluídos. Denunciou os opressores e “despediu os ricos com as mãos vazias”. Realizou a partilha dos pães e dos peixes, e “saciou de bens os famintos”.
           Todos que se consideram seus discípulos, e acreditam que ele agia segundo a vontade de Deus, deveriam, portanto, agir como ele, inclusive ao votar. Os critérios evangélicos são óbvios para quem tem olhos para ver e orelhas para ouvir.
           O resto é demagogia e tentativa de perpetuar a servidão estrutural daqueles que, fora do mercado, não merecem dignidade nem salvação.

Papel da mídia     

           Todo este processo tem a cumplicidade da grande mídia, historicamente alinhada aos valores e políticas conservadoras. De certo modo, programas de rádio e TV monitorados por pastores evangélicos fortalecem a legitimação dostatus quo, razão pela qual são apoiados pelos donos do capital. A estes não interessa a agenda dos movimentos sociais nem a ampliação das conquistas em prol dos direitos humanos.
           Esta postagem de um pastor evangélico no Facebook reflete bem o espírito de cruzada de certas Igrejas: "Devemos nos unir cada vez mais, já somos milhões de evangélicos no Brasil, fora os simpatizantes. Temos força, é claro que nossa força vem de Deus. Precisamos nos mobilizar contra as forças das trevas, que querem desvirtuar os bons costumes e a moral e, principalmente que querem afetar a honra da família. Se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar e orar, não tem capeta que resista."

O ovo da serpente
          
           Em resumo: é preocupante a confessionalização da política. Na eleição de Dilma, o tema religião ganhou mais relevância que programas de governo. Na de prefeito à capital paulista, em 2012, pastores e bispos se conflitaram, e padre Marcelo Rossi virou ícone político. E, no Rio, o candidato Crivella teve o seu passado fundamentalista denunciado com base em seus próprios escritos, onde demoniza o catolicismo e as religiões de origem africana.
           A modernidade separou Estado e Igreja. Agora o estado é laico. Portanto, não pode ser pautado por uma determinada crença religiosa. Todas têm direito a difundir sua mensagem e promover manifestações públicas, desde que respeitados aqueles que não creem ou pensam de modo diferente.
           O Estado deve estar a serviço de todos os cidadãos, crente e não crentes, sem se deixar manipular por esta Igreja ou aquela denominação religiosa.
           O passado do Ocidente comprova que mesclar poder religioso e poder político é reforçar o fundamentalismo e, em suas águas turvas, o preconceito, a discriminação e, inclusive, a exclusão (Inquisição, “heresias” etc.). Ainda hoje, no Oriente Médio, a sobreposição de doutrina religiosa em certos países produz políticas obscurantistas.
           Temo que também no Brasil esteja sendo chocado o ovo da serpente. Denominações religiosas apontam seus pastores a cargos eletivos; bancadas religiosas se constituem em casas legislativas; fiéis são mobilizados segundo o diapasão da luta do bem contra o mal; Igrejas se identificam com partidos; amplos espaços da mídia são ocupados pelo proselitismo religioso.
           Algo de perigoso não estaria sendo gestado? Já não importa a luta de classes nem seus contornos ideológicos. Já não importa a fidelidade ao programa do partido. Importa a crença, a fidelidade a uma determinada doutrina ou líderes religiosos, a “servidão voluntária” à fé que mobiliza corações e mentes.
           O que seria de um Brasil cujo Congresso Nacional fosse dominado por legisladores que aprovariam leis, não em benefício do conjunto da população, e sim, para enquadrar todos sob a égide de uma doutrina confessional, tenham ou não fé nessa doutrina?
           Sabemos que nenhuma lei pode forçar um cidadão a abraçar tal princípio religioso. Mas a lei pode obrigá-lo a se submeter a um procedimento que contraria a razão e a ciência, e só faz sentido à luz de um princípio religioso, como proibir transfusão de sangue ou o uso de preservativo.
           Não nos iludamos: a história não segue em movimento linear. Por vezes, retrocede. E aquilo que foi ainda será se não lograrmos predominar a concepção de que o amor – que não conhece barreiras e “tudo tolera”, como diz o apóstolo Paulo – deve sempre prevalecer sobre a fé.
           Se nós, católicos, pretendemos atrair os pobres aos nossos templos e comunidades só nos resta um caminho: evitar qualquer combate às Igrejas evangélicas, como estigmatizá-las com a pecha de “seitas”; dialogar ecumenicamente com seus fiéis e pastores; recriar espaços pastorais nos quais os pobres se sintam em casa, como outrora nas CEBs e na Pastoral Operária; adaptar a liturgia católica aos paradigmas culturais populares; e, sobretudo, em nome da fé em Jesus nos colocarmos a serviço da erradicação da pobreza e de suas causas.

*Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.



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