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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

POR QUE HUMANOS ESCRAVIZAM OUTROS,HUMANOS ONTEM E HOJE?




Por leonardo boff

A existência e a persistência da escravidão ou de condições análogas à escravidão constitui um desafio humanístico, filosófico, ético e teológico até os dias de hoje. Por que humanos escravizam outros humanos, seus co-iguais?
A mais antiga codificação de leis, o Código de Hamurábi, escrito por volta de 1772 aC no Irã  já se efere à classe dos escravos. E assim ao longo de toda a história até os dias atuais. A Walk free Foundation que se ocupa com a escravidão, no nível mundial, calcula que haja hoje cerca de 40,3 milhões de pessoas em regime de escravidão por tráfico de pessoas, por dívida, por trabalhos ou casamentos forçados etc. A Índia lidera o ranking com 7,99 milhões de escravizados. Os dados do Brasil de 2018 apontavam 369 mil em condições análogas à escravidão ou escravizados.
As cabeças mais brilhantes do Ocidente viram-na como natural ou até possuíam escravos. Assim Aristóteles, David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Hegel. O próprio formulador da Declaração de Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson na qual se afirmava que todos os seres humanos nascem livres e com direitos iguais possuía escravos, bem como o nosso Tiradentes que possuía pelos menos 6 deles. O famoso Padre Antônio Vieira num engenho pregava aos escravos:”Sois imitadores do Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante ao que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”,chegando a chamá-los por isso de “bem-aventurados”. Uma piedosa e ao mesmo tempo cruel justificativa.
Resumindo: Afirma o grande especialista em escravidão o jamaicano Orlando Petterson, professor em Harvard:”A escravidão existiu desde o início da história da humanidade, até o século XX (XXI), nas sociedades mais primitivas e também nas mais avançadas”(cf.L.Gomes, Escravidão,p.65). Que razões que levaram à escravidão?
Nenhuma explicação até hoje se revelou convincente. Mas podemos tatear razões embora todas precárias.
primeira teria sido o patriarcado. O homem-macho, há 10-12 mil anos, se impôs a todos, à mulher, aos filhos, à natureza. Sobrepô-se ao outro, fazendo-o seu servo e escravo. A escravidão seria filha do patriarcado ainda vigente nos dias atuais.
segunda razão, de natureza filosófica, sustenta que o ser humano é um ser decadente. Não num sentido ético mas ontológico. Quer dizer, sua natureza é assim que nunca consegue ser o que deveria ou desejaria ser. Nele há uma amarra interna que lhe impede de dar o salto necessário: controlar e integrar seus impulsos que não são em si maus, mas naturais: a cólera, o uso da força, o poder como capacidade de dominação. Ele decai no sentido de dar vazão a estes impulsos e destarte tornar-se inumano. Donde lhe vem essa incapacidade? A contradição entre o desejo infinito e a realidade finita? Bem que poderia conviver jovialmente com o infinito, acolhendo seu ser finito. Mas não o fez e não o faz. A chaga continua a sangrar e a fazer sangrar.
Tenho para mim que a sabedoria judaico-cristã, de alta ancestralidade, traz alguma luz. Fala de pecado original. O termo não é bíblico, pois aí se usa “pecado do mundo” ou “o ser humano é inclinado ao mal desde a sua juventude”. Pecado original é um termo criado por Santo Agostinho (354-430) em sua intensa troca de cartas com São Jerônimo e em polêmica com o teólogo Pelágio.
Pecado original, segundo ele, não possui uma conotação temporal, “desde as origens”. Mas original concerne ao núcleo originário, primeiro e essencial do ser humano. No seu interior mais profundo vigora uma ruptura: com a natureza, não respeitando seus ritmos, com o outro, odiando-o e com o Definitivamente Importante. Ele se considera o mais o mais importante, pelo fato de ser dotado de razão. Por ela imagina que pode dar conta de si mesmo, como se ele mesmo se tivesse dado a existência e não Alguém que o fez vir este mundo. Pecado original é essa hybris e arrogância. Significa magnificar seu eu a ponto de excluir os outros e o Grande Outro que o criou.
A consequência primeira é a instauração da ditadura da razão. Ela pretende explicar tudo e por ela dominar tudo. Vão propósito. O ser humano não é só razão. É principalmente coração, sensibilidade e amor. Bem antes da razão, o logos, em termos da antropogênese, veio o sentimento, o pathos. Esta dimensão foi recalcada e até negada. Com isso deixou de sentir o outro, de colocar-se no lugar dele, alegrar-se e sofrer com ele. Objetivou-o, vale dizer, o fez um objeto de uso e abuso. Surgiu a dominação do outro. Começou a escravização de um humano sobre outro humano.
Não sentir os outros como nossos semelhantes e não ter empatia para com eles é o “nosso pecado original”, origem da escravidão de ontem e de hoje. Sem abraçar o outro como co-igual e não ouvir o grito da Terra, não haverá futuro para o nosso tipo de mundo e de civilização. Outro deverá vir com seres todos livres e humanos.
Leonardo Boff é filósofo e teólogo e escreveu Princípio de compaixão e cuidado, Vozes  2000


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ULTRACONSERVADORISMO DE ALGUNS PROTESTANTES DEVERIA RELER LUTERO, CALVINO E OUTROS REFORMADORES



Por Juracy Andrade



Muitas das posições dos protestantes tradicionais são libertárias, embora posteriormente alguns tenham recaído em práticas do Império Romano Papal que condenavam. O embate político entre líderes reformadores e católicos levou às chamadas guerras de religião que tanto ensanguentaram a Europa. Martinho Lutero lutou bravamente contra as pretensões da Cúria Romana de, com promessas simoníacas de salvação eterna, arrancar dinheiro dos alemães. Thomas Müntzer  foi um “teólogo da revolução”, segundo Ernst Bloch. Quem sabe, a Teologia da Libertação receba alguma inspiração dos reformadores, mais do que do marxismo como pretendiam papas como Wojtyla e Ratzinger. E Calvino pregava que os governantes de um povo livre devem envidar todo esforço a fim de que a liberdade do povo pelo qual são responsáveis não desvaneça de modo algum em suas mãos: “Mais do que isso, quando dela descuidarem ou a enfraquecerem, devem ser considerados traidores da pátria”. Lembremos que no governo holandês de Pernambuco (calvinista), a Inquisição portuguesa foi banida e conviveram em paz, infelizmente por pouco tempo, protestantes judeus e católicos. Considera-se que os huguenotes (nome dado aos protestantes franceses) também teriam influenciado a tradição revolucionária daquele país.

Escrevo sobre isso para mostrar como grande parte dos protestantes brasileiros engajados na política perderam essa perspectiva. Não querem mais ser conhecidos pela tradicional designação de protestantes (aqueles que protestaram contra abusos do papado e da Cúria Romana), mas como evangélicos. Um pretenso e enganoso monopólio da prática do Evangelho. Temos o caso exacerbado do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, comprovadamente acusado de vários crimes, mas que continua se proclamando evangélico, embora aja contra tudo o que Jesus Cristo pregou.

Essa politização desabrida da religião em um Estado nominalmente laico não faz sentido. Ou não faria em um país minimamente sério. 

O filósofo italiano Giorgio Agamben fala da dependência entre as estruturas institucionais dos Estados laicos e as construções teológicas. Ocorre que, a partir das primeiras décadas do século passado, denominações mais recentes do protestantismo do sul dos Estados Unidos decidiram que o nosso país não era cristão como eles gostariam e decidiram vir evangelizá-lo. No Deep South dos EUA está ancorado o Bible Belt (pretenso cinturão bíblico) que dá suporte religioso à ala mais reacionária do Partido Republicano, conhecida como Tea Party (alusão a episódio da história da independência estadunidense). A invasão bíblica dos chamados pentecostais ao Brasil foi aproveitada pelo Departamento de Estado para contrabalançar os avanços da Igreja Romana por aqui. Daí que, para Vladimiu Safatle, professor da USP, o nosso país está atualmente diante de uma recrudescência da força política das igrejas evangélicas, sobretudo as que se denominam neopentecostais, associadas a uma pauta conservadora radical em matéria de costumes e política.

Ao fazer estas observações, faço questão de frisar que me apresento como cristão. Sou de formação católica, mas acho que o nome “católico” está carregado de conotações negativas. E, como só existe um Jesus Cristo, todo autêntico cristão faz parte dessa imensa Ekklesía espalhada pelos apóstolos por todo o mundo. E finalizo recordando Martin Luther King Jr. Apesar de sulista, ele não lutou só contra a discriminação dos negros, mas também contra a desigualdade econômica em seu país e contra a escandalosa Guerra do Vietnã. Ele defendia a reforma agrária feita do Vietnã do Norte.

 “Deveria haver uma melhor distribuição de recursos e talvez a América devesse ir em direção ao socialismo democrático.” Convém ousar. Hoje os EUA têm um presidente negro e um candidato democrata que professa o socialismo. Está na hora de os nossos protestantes neopentecostais, tão empenhados em fazer da religião uma escora política e eleitoral, meditarem sobre essa outra tradição dos reformadores.

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Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia