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domingo, 11 de junho de 2023

O MEU PEDACINHO DE SERTÃO

 



O meu pedacinho de sertão é lá,

Lá onde o Pajeú corre, e as vezes, morre

Mas ressuscita na nova invernada…

Trago de lá, bem dentro de mim

O som da saudade de vozes que não ouvi…

Casa alpendrada, viveiro de passarinhos

Onde também dormiu um irmão meu…

Trago de lá, o som da saudade de risadas soltas descendo desembaladas as ladeiras do

lugar…

Trago o som da saudade das conversas preguiçosas nas calçadas em frente à lua cheia…

Trago tão forte de lá, o som da saudade desse silêncio intenso quebrado

Pelo pio da coruja,

Enquanto, ainda no útero, sentia a tristeza e medo de minha mãe…

De lá, Trago também o som da saudade da bodega da esquina onde versos e canções

saltavam de improviso

E o mais velho de meus irmãos, escondido de meus pais, tinha seu primeiro emprego,

despachando a cachaça no balcão…

Trago em mim, tão forte, tão intenso,

Essa terra, esse chão árido, esturricado pelo sol,

Mas que com um pouco de chuvisco explode em verde, flor e mel

Explode em Vida!

Trago sempre em mim a infinita gratidão

De ser filha dessa terra, de fala doce, cantada…

A mansidão na cadeia genética…

E Força de quem tem dentro de si

A certeza de ser também

Mais um

Sobrevivente!



São José do Egito-PE

Goretti Santos

06/06/2023

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

“Meu quintal em sua cesta”


Padre Francisco Aquino Júnior


 

Comunidade que Sustenta a Agricultura

 

O Estado brasileiro sempre esteve a serviço das elites. Para o povo, quando muito, sobra “bolsa” ou “auxílio”. E até isso incomoda nossa elite que sempre atribui as crises econômicas aos direitos trabalhistas e às políticas sociais: endivida o país, impede o crescimento… E sempre retorna com a mesma receita: acabar com os direitos trabalhistas, reformar a previdência, diminuir os gastos sociais… E as consequências são sempre as mesmas: precarização do trabalho, crescimento da pobreza e da miséria… Estamos vivendo mais um capítulo trágico dessa novela. Com o desmonte dos direitos trabalhistas e das minguadas políticas sociais, cresce assustadoramente os índices de pobreza e miséria no país. Dados oficiais do governo federal indicam que mais de 23% da população brasileira (cerca de 52 milhões de pessoas) vive em situação de pobreza ou de extrema pobreza. No Nordeste, mais de 40% da população vive nessa situação.

Mas é importante ver como o povo resiste criativamente, construindo alternativas de sobrevivência no campo e na cidade. Alternativas que, além de possibilitar seu sustento (“pão nosso de cada dia”), resgatam o verdadeiro sentido da economia (satisfação das necessidades materiais) e indicam caminhos de transformação da sociedade (economia a serviço da vida). São alternativas vividas de forma individual, familiar, comunitária, associativa. Elas existem em todos os cantos desse país. Basta pensar na agricultura familiar camponesa, no trabalho de catadores/as de material reciclável e nas mais diversas formas de produção, comércio e serviço nos centros urbanos.

Exemplo disso é o projeto “Meu quintal em sua cesta”, uma experiência de Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), desenvolvido por famílias camponesas da Chapada do Apodi, no município de Tabuleiro do Norte – CE (às quais se juntaram famílias de outros territórios). Trata-se de uma experiência de comercialização direta de produção agroecológica entre agricultores/as (produtores-abastecedores) e co- agricultores/as (consumidores-sustentadores).

Desde 2016, a Caritas Diocesana de Limoeiro do Norte vem atuando junto a famílias camponesas nessa região em torno da problemática terra-água-produção. Foram implantadas 35 unidades de Sistema Bioágua Familiar (tecnologia de reuso de água: trata as águas cinzas e potencializa a produção de alimentos) em quintais com cerca de 300 metros quadrados. As famílias começaram a organizar feiras agroecológicas no território e a monitorar a produção. Em 2020, elas produziram em torno de 6,5 mil kg de alimentos, quase 6 mil kg de forragem e quase 500 kg de húmus de minhoca.

Com o início da pandemia, impossibilitando a realização das feiras agroecológicas, mas animadas com os resultados da experiência, as famílias deram mais um passo na organização e começaram o Projeto “Meu quintal em sua cesta” – Comunidade que Sustenta a Agricultura. Elas reúnem a produção (cada uma leva o que tem para comercializar), organizam cestas e vendem coletivamente aos co-agricultores (que não apenas compram/consomem produtos agroecológicos, mas colaboram com a agricultura familiar camponesa). O projeto começou no dia 19 de março de 2021 – dia de São José. Envolve 13 famílias de agricultores/as e 30 co-agricultores/as. Entre março e dezembro de 2021, comercializou 76 produtos, que varia de hortaliças e legumes (2.317,80 kg), a frutas (2.063,25 kg), alimentos processados (2.040 unidades), carnes (1.085,52 kg) e adubos orgânicos (339 kg), gerando uma receita de mais de 33 mil reais.

As dificuldades vão do acesso à terra e à água (até para o consumo!), embora a Chapada tenha as melhores terras e esteja em cima dos Aquíferos Jandaíra e Açu, à ausência de políticas públicas de incentivo e desenvolvimento da agricultura familiar camponesa. E a chegada de uma grande empresa do agronegócio, viabilizada por um programa do governo do Estado do Ceará para retomada da cotonicultura (produção de algodão), ameaça seriamente o território. Ela já adquiriu mais de 24 mil hectares, têm perfurado poços, utilizado veneno e desmatado grandes áreas, até com o uso do correntão, prática ilegal conforme o Código Florestal.

Mas as famílias estão animadas. Além do impacto positivo na renda familiar, o projeto tem mobilizado as comunidades na luta por água e na defesa de seu território e tem desenvolvido, em pequena escala, um modelo de economia agroecológica que promove o sustento das famílias e o potencial econômico da região, fortalece os vínculos familiares e comunitários, produz alimentos saudáveis, respeita e conserva o meio ambiente. E isso num município em que 38% de sua população vive em situação de pobreza e/ou extrema pobreza.

Viva a agricultura familiar camponesa!

 

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).


sexta-feira, 5 de março de 2021

MEU LADO MULHER

 Frei Betto


 

       Meu lado mulher incomoda-se de receber homenagens em um único dia do ano - 8 de março -, enquanto meu lado homem se farta com 364 dias. Porque vive-se em uma sociedade machista: matrimônio -  o cuidado do lar; patrimônio - o domínio dos bens.

     À mulher, exige-se que seja polivalente, cabe o dever de cuidar da casa, dos filhos, das compras e do bom-humor do marido, que nem sempre se lembra de cuidar dela. E  trabalhar fora para ajudar no sustento da família.

       Meu lado mulher nunca viu o marido gritar com o carro, ameaçá-lo ou agredi-lo. Nem sempre, entretanto, ela é tratada com o mesmo respeito. Esquece que marido e mulher não são parentes, são amantes. Ou deveriam ser.

        Na Igreja Católica, os homens têm acesso aos sete sacramentos. As mulheres, consideradas pela teologia vaticana um ser naturalmente inferior, só têm acesso a seis sacramentos. Não podem receber a ordenação sacerdotal, embora tenham merecido de Jesus o útero que o gerou; o seguimento de Joana, de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu; a amizade de Madalena, primeira testemunha de sua ressurreição.

        Meu lado mulher tem pavor da violência doméstica; do imbecil que diz bobagens quando a garota passa; do pai que assedia a filha, jogando-a nas garras da prostituição; do patrão que exige préstimos sexuais da funcionária; do marido que ergue a mão para profanar o ser que deu à luz seus filhos.

        Diante da TV ou de uma banca de revistas, meu lado mulher estremece: ela é a burra, a idiota que rebola no fundo do palco, expõe-se na casa dos brothers, associa-se à publicidade de cervejas e carros, como um adereço a mais de consumo.

        Meu lado mulher tenta resistir ao implacável jogo da desconstrução do feminino: tortura do corpo em academias de ginástica; anorexia para manter-se esbelta; vergonha das gorduras, das rugas e da velhice; entrega ao bisturi que amolda a carne segundo o gosto da clientela do açougue virtual; o silicone a estufar protuberâncias. E manter a boca fechada, até que haja no mercado um chip transmissor automático de cultura e inteligência, a ser enxertado no cérebro. E engolir antidepressivos para tentar encobrir o buraco no espírito, vazio de sentido, ideais e utopia.

        Meu lado mulher esforça-se por livrar-se do modelo emancipatório que adota, como paradigma, meu lado homem. Serei ela se ousar não querer ser como ele. Sereia em mares nunca dantes navegados, rumo ao continente feminino, onde as relações de gênero serão de alteridade, porque o diferente não se fará divergente.

        Aquilo que é só alcançará plenitude em interação com o seu contrário. Como ocorre em todo verdadeiro amor.

 Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org 

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

POR QUE ME UFANO DO MEU PAÍS

 



         Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Era este o título de um livro de Afonso Celso, do ano de 1900.  Era um texto laudatório em relação ao Brasil, que cantava suas belezas, suas glórias e seu brilho. A obra marcou época em nossa terra.  Tornou-se leitura obrigatória nas escolas secundárias brasileiras, e teve várias edições e traduções.  Passou a ser uma verdadeira cartilha de nacionalidade, um distintivo que marcava a condição de brasileiro. 

            Mais tarde, o livro e seu autor já não foram tão apreciados, sendo mesmo ridicularizados. A visão acrítica e ingênua da positividade do país, sem perceber seus aspectos sombrios, instigou as mentalidades mais críticas.  Criou-se, a partir do título da obra, a palavra "ufanismo", com o sentido pejorativo que os dicionários Aurélio e Houaiss registram: vanglória desmedida, patriotismo excessivo.  

            Muitas décadas mais tarde, o humorista e artista Ary Toledo fez um show com o mesmo título: " Por que me ufano do meu país". Ali, entre canções e piadas de sua autoria, o artista lançava farpas contra o Brasil da ditadura militar, que cerceava a liberdade de pensar.  E criticava sobretudo a mania que o povo brasileiro tem de imitar os Estados Unidos, assassinando a própria cultura e assumindo na dança, na música, nos gostos, os hábitos norte-americanos.  

            Estamos em 2020, celebramos o 7 de setembro, festa nacional. Estamos na Semana da Pátria e estou em situação de imensa dificuldade para ufanar-me do meu país.  Mas como sou brasileira de coração e descendência; como só tenho um passaporte que me faz ficar horas em filas esperando agressivas e humilhantes inspeções nas fronteiras de vários países do mundo; como não consigo não vibrar quando ouço o hino nacional; quero e desejo encontrar razões para orgulhar-me da pátria em que nasci e onde até hoje vivo. E confesso que está difícil. 

O país passa por uma pandemia e conta mais de 120 mil mortos. Mergulhado em luto e tristeza, não consegue vislumbrar uma solução a curto ou médio prazo para a enorme catástrofe em que se encontra. Ao lado disso, a barca brasileira flutua à deriva, sem que se consiga avistar com alguma nitidez onde está, o que faz, ou mesmo quem é o timoneiro. 

A corrupção nossa de cada dia, apesar da pandemia e da situação de emergência, só faz crescer. A economia penaliza os pobres e faz projetos emergenciais que não atendem as emergências.  Essas, por sua vez, passaram a ser pão de cada dia dos cidadãos desse chão. O Ministério da Saúde encontra-se vacante há mais de 100 dias, enquanto a crise sanitária segue grave. Os vários ministros que passaram pela pasta foram exonerados ou se autoexoneraram, não suportando ser constante e implacavelmente desautorizados pelo Executivo. 

Até nossas riquezas e recursos naturais – abundantes e generosos – encontram-se ameaçados: desmatamentos, queimadas, agressões constantes ao meio ambiente, às reservas indígenas,  contaminação de rios, loteamento da Amazônia situada em boa parte no Brasil, embora seja composta por nove países e constitua um patrimônio da humanidade. 

Que razões tenho, então, para ufanar-me de meu país? Deverei sentar-me e chorar, lamentando a sorte desta terra onde nasci e que sempre amei? Não, se pensar nas centenas de voluntários que organizam e distribuem cestas básicas nas comunidades mais carentes, onde falta o alimento.  Não igualmente se fixar meu olhar nos médicos e profissionais da saúde que se arriscam a todo momento nos hospitais para salvar vidas ameaçadas pela pandemia de Covid-19. Menos ainda se reparar no esforço dos artistas que, impedidos pela crise sanitária de dar espetáculos em teatros ou palcos, fazem lives pela rede ou mesmo cantam nos balcões e varandas das cidades, aliviando a angústia de muitos. 

                O melhor de meu país é o povo que nele vive. Gente que foi feita para brilhar e não para morrer de fome, como diz Caetano Veloso. Gente que tem que lutar pela vida com uma das mãos e reparte o pouco que tem com a outra. Gente que se arrisca para que o outro tenha vida.  Gente que é capaz ainda de cantar e se alegrar mesmo em meio a tanta tristeza. 

            Essa gente, esse povo, é a única reserva de esperança que o Brasil tem.  É o único motivo para dele "ufanar-se". Essa gente que não deixam brilhar, mas apesar de tudo brilha em sua generosidade, solidariedade, alegria.  Por essa gente e com ela faz sentido celebrar a Pátria. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Mística e Testemunho em Koinonia" (Editora Paulus), entre outros livros

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sábado, 23 de maio de 2020

NO MEU DESERTO, UMA FLOR SE ABRIU


por Kinno Cerqueira

 

Tempos sombrios amantavam os olhos de quem se sentia atravessado por uma misteriosa fragrância de libertação. Falo de mim: jovem, seminarista, sonhador e desejoso de encontrar um caminho alternativo às lúgubres veredas do fundamentalismo eclesial e teológico.

A minha procura levou-me ao CEBI – Centro de Estudos Bíblicos –, cuja porta de entrada foi um curso de formação de assessores em leitura popular da Bíblia. Ali, encontrei-me com gente que, como eu, buscava a libertação, quiçá uma possibilidade de sobrevivência no “deserto eclesial”, presságio do golpe político de 2016 e da elevação do fascismo pelas urnas.

Minh’alma sedenta via-se à iminência de esfacelar-se ante tão longa e malograda procura por águas. Foi então que, naquele encontro promovido pelo CEBI, conheci Dom Sebastião Armando Gameleira Soares. Seus cabelos grisalhos, olhar profundo, porte esguio, voz mansa-firme e mãos borboleteantes formavam uma espécie de abóbada poética sob a qual a nudez espiritual, longe de ser um despudor, figurava como exigência fundamental do Evangelho.

Dom Sebastião refletia conosco sobre o livro do profeta Amós. A cada segundo, tornava-se mais claro para mim que as palavras daquele livro eram tão suas como de Amós, pois habitavam seu corpo, musicavam sua voz, conduziam o seu olhar, ritmavam seus passos, batiam no seu coração.

Ao fim daquele encontro, conversamos reservadamente. Contei-lhe de minhas buscas, de meus itinerários espirituais, da voz que me chamava desde dentro para ir além. De sua parte, ouvi poucas palavras, mas suficientemente fortes para levá-las comigo ad aeternum. Uma delas, intuição que me tem guiado desde então: “A Bíblia é uma escola de liberdade”. 

Desde então, aproximamo-nos cada vez mais. Hoje, alguns anos após nosso primeiro encontro, sinto-o como pai no sentido pleno da palavra. Minha liberdade carrega o sinal de sua mística, o calor de seu abraço, a profundidade de seu olhar, a ousadia de seu espírito.

Hoje, por ocasião de seu septuagésimo quinto aniversário, canto e danço de alegria pela vida de Dom Sebastião, Flor no meu deserto.    

 Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.


quinta-feira, 19 de março de 2020

MEU LADO MULHER





Frei Betto

         Meu lado mulher incomoda-se de receber homenagens em um único dia do ano - 8 de março -, enquanto meu lado homem se farta com 364 dias. Talvez se faça necessária esta efeméride, dor recente de cicatriz antiga. Porque vive-se em uma sociedade machista: matrimônio -  o cuidado do lar; patrimônio - o domínio dos bens.

         O marido possui casa, carro, mulher, que incorpora ao nome o da família dele. A casa, ele exige que se limpe todo dia. O carro, envia à oficina ao menor defeito. Mas à mulher, ser polivalente, cabe o dever de cuidar da casa, dos filhos, das compras e do bom-humor do marido, que nem sempre se lembra de cuidar dela.

         Meu lado mulher nunca viu o marido gritar com o carro, ameaçá-lo ou agredi-lo. Nem sempre, entretanto, ela é tratada com o mesmo respeito. Ele esquece que marido e mulher não são parentes, são amantes. Ou deveriam ser.

         Na Igreja Católica, os homens têm acesso aos sete sacramentos. Podem até ser ordenados padres e, mais tarde, obter dispensa do ministério e contrair matrimônio. Toda a hierarquia da mais antiga instituição do mundo é de homens. Mas o que seria dela e deles se não fossem as mulheres?

         As mulheres, consideradas pela teologia vaticana um ser naturalmente inferior, só têm acesso a seis sacramentos. Não podem receber a ordenação sacerdotal, embora tenham merecido de Jesus o útero que o gerou; o seguimento de Joana, de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu; a defesa da mulher adúltera; o perdão à samaritana; a amizade de Madalena, primeira testemunha de sua ressurreição.

         Meu lado mulher tem pavor da violência doméstica; do imbecil que diz bobagens quando a garota passa; do pai que assedia a filha, jogando-a nas garras da prostituição; do patrão que exige préstimos sexuais da funcionária; do marido que ergue a mão para profanar o ser que deu à luz seus filhos.

         Diante da TV, das imagens na internet ou de uma banca de revistas, meu lado mulher estremece: ela é a burra, a idiota que rebola no fundo do palco, mergulha na banheira exposta no palco, expõe-se na casa dos brothers, associa-se à publicidade de cervejas e carros, como um adereço a mais de consumo. Diante do poder despótico, meu lado mulher estremece: o presidente desbocado e debochado humilha, ofende, agride e pratica o estupro virtual.

         Meu lado mulher tenta resistir ao implacável jogo da desconstrução do feminino: tortura do corpo em academias de ginástica; anorexia para manter-se esbelta; vergonha das gorduras, das rugas e da velhice; entrega ao bisturi que amolda a carne segundo o gosto da clientela do açougue virtual; silicone e botox a estufar protuberâncias. E manter a boca fechada, até que haja no mercado um chip transmissor automático de cultura e inteligência, a ser enxertado no cérebro. E engolir antidepressivos para tentar encobrir o buraco no espírito, vazio de sentido, ideais e utopia.

         Meu lado mulher se esforça por livrar-se do modelo emancipatório que adota, como paradigma, meu lado homem. Serei ela se ousar não querer ser como ele. Sereia em mares nunca dantes navegados, rumo ao continente feminino, onde as relações de gênero serão de alteridade, porque o diferente não se fará divergente. Aquilo que é só alcançará plenitude em interação com o seu contrário. Como ocorre em todo verdadeiro amor.

Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MEU AMIGO FIDEL

por Frei Betto


 Perco um grande amigo. Nosso último encontro foi a 3 de agosto, quando completou 90 anos. Recebeu-me em sua casa, em Havana, e, à tarde, fomos ao Teatro Karl Marx, onde um espetáculo musical o homenageou. Embora tivesse o organismo debilitado, caminhou sem apoio da entrada do teatro à sua poltrona.

         Com Fidel, desaparece o último grande líder político do século XX,  o único que logrou sobreviver mais de 50 anos à própria obra: a Revolução Cubana. Graças a ela, a pequena ilha deixou de ser o prostíbulo do Caribe, explorado pela máfia, para se tornar uma nação respeitada, soberana e solidária, que mantém profissionais da saúde e da educação em mais de cem países, inclusive o Brasil.

         Conheci Fidel em 1980, em Manágua. O que primeiro chamava atenção era sua imponência. Parecia maior do que era, e a farda lhe revestia de um simbolismo que transmitia autoridade e decisão. A impressão era de que qualquer poltrona era demasiadamente estreita para o seu corpanzil. Quando ingressava num recinto era como se todo o espaço fosse ocupado por sua aura.  Todos ficavam esperando que ele tomasse a iniciativa, escolhesse o tema da conversa, fizesse uma proposta ou lançasse uma ideia, enquanto ele persistia na ilusão de que sua presença era uma a mais e que o tratariam sem cerimônias e reverências. Como na canção de Cole Porter, ele devia se perguntar se não seria mais feliz sendo um simples homem do campo, sem a fama que o revestia. Certa ocasião,  o escritor colombiano Gabriel García Márquez, de quem era grande amigo, perguntou se ele sentia falta de algo. Fidel respondeu: “De ficar parado, anônimo, numa esquina.”

Outro detalhe que surpreendia em Fidel era o seu timbre de voz. O tom em falsete contrastava com a corpulência. Às vezes soava tão baixo que seus interlocutores tinham de apurar os ouvidos. E quando falava, não gostava de ser interrompido. Porém,  não monopolizava a palavra. Jamais conheci alguém que gostasse tanto de conversar como ele. Desde que não fossem encontros protocolares, nos quais as mentiras diplomáticas ressoam como verdades definitivas, Fidel não sabia receber uma pessoa por dez ou vinte minutos.
A convite de Fidel e dos bispos de seu país, atuei no resgate da liberdade religiosa em Cuba, facilitado pela entrevista contida no livro Fidel e a religião (Fontanar), na qual o líder comunista aprecia positivamente o fenômeno religioso.

         Não saberia dizer quantas conversas privadas tive com Fidel.  Uma curiosidade é que este homem, capaz de entreter a multidão por três ou quatro horas, detestava, como eu, falar ao telefone. Nas poucas vezes que o vi ao aparelho sempre foi muito sucinto.

         Minhas frequentes viagens a Havana estreitaram nossos laços de amizade. No prefácio que generosamente escreveu para a minha biografia, lançada esta semana pela Civilização Brasileira, Fidel ressalta que defendo Cuba “sem deixar de sustentar pontos discrepantes ou diferentes dos nossos”. Na década de 1980, quando expressei críticas à Revolução, o Comandante frisou: “É seu direito. E mais: o seu dever”.
         Todas as vezes que eu o visitava em sua casa, depois que deixou o governo, levava-lhe chocolates amargos, seu preferido, castanhas e livros em espanhol sobre cosmologia e astrofísica. 

Conversávamos sobre a conjuntura política mundial, a sua admiração pelo papa Francisco e, em especial, sobre cosmologia. Contei-lhe que ao visitar Oscar Niemeyer, pouco antes da morte do arquiteto brasileiro, já centenário, este me disse, animado, que toda semana reunia em seu escritório um grupo de amigos para receber aulas de cosmologia. O fato de dois eminentes comunistas se interessarem tanto pelo tema, comentei com Fidel, me fez recordar uma cena do filme “A teoria de tudo”, no qual o protagonista do famoso físico inglês Stephen Hawking, ainda estudante em Cambridge, pergunta à jovem com quem iniciava o namoro: “O que você estuda? Historia, ela responde, e devolve a curiosidade. Ele informa: Estudo cosmologia. O que é isso?, indaga ela. E ele frisa: uma religião para ateus inteligentes.”

         Tenho para mim que Fidel, aluno interno de colégios religiosos ao longo de dez anos , abandonou a fé cristã ao abraçar o marxismo. De alguns anos para cá deixou-me a nítida impressão de que se tornara agnóstico. Várias vezes me pediu, ao nos despedirmos: “Ore por nós.” Tenho certeza de que  Fidel transvivenciou feliz com a sua coerência de vida.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

TEILHARD DE CHARDIN, MEU GURU

por Frei Betto


       No domingo de Páscoa, 10 de abril de 1955, há 60 anos, em Nova York, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, 73, levantou-se da cadeira para servir-se de chá. Não chegou à mesa. Um ataque cardíaco pôs fim à sua vida. No enterro não havia mais de três pessoas.

       Para muitos, sua morte representou um alívio. Cessara o movimento daquele cérebro poderoso. Como tantos que ousam pensar pela própria cabeça e se recusam a acreditar que a verdade é filha da autoridade, Teilhard teve um final solitário.

        Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram, das micropartículas subatômicas à atração de toda a matéria pelo Ponto Ômega, que coroaria o processo de evolução da natureza.

       Essa grandiosa síntese foi registrada em livros e artigos que, durante sua vida, seus superiores nunca permitiram que fossem publicados, com receio de um novo caso Galileu.

       Editada após a sua morte, a obra de Teilhard alcançou, na década de 1960, repercussão inesperada. Figurou meses nas listas de best sellers da Europa e dos EUA.

       Em 1962, introduzi Teilhard no Brasil, graças às traduções de Conrad Detrez. Os resumos em apostilas mimeografadas, vendidos à porta de faculdades do Rio, estão hoje no livro “Sinfonia universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes). Mais tarde, graças a Teilhard, aprofundei a relação entre espiritualidade e física quântica em “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio).

       Nascido na França, Teilhard era filho de uma neta de Voltaire, pensador que introduziu em seu país as teorias de Isaac Newton e combateu toda espécie de superstição e intolerância.

       Aos 11 anos, aluno de colégio jesuíta, Teilhard demonstrava interesse por matéria que não constava do currículo, a geologia. Teve a sorte de encontrar um mestre que o convenceu de que o melhor serviço a Deus pode ser o amor às pedras...

       Em 1913, aos 32 anos, descobriu o amor a uma mulher. “Estando desde a infância” – escreve ele em “O coração da matéria” – “à procura do coração da matéria, era inevitável que, um dia, eu me encontrasse face a face com o Feminino. [...] Parece-me indiscutível que ao homem – mesmo a serviço de uma causa ou de Deus – não é possível nenhum acesso à maturidade e à plenitude espirituais fora de qualquer influência sentimental que venha nele sensibilizar a inteligência e suscitar, pelo menos inicialmente, as potências de amar.”

       Doutorou-se em ciência em 1922, na Sorbonne e, em 1923, fez sua primeira viagem à China. Participou da descoberta da primeira prova da existência do homem pré-histórico. Escreveu, então, uma de suas mais belas obras, A missa sobre o mundo.

       De volta a Paris, em 1924, seus trabalhos científicos adquiriram fama, a ponto de lotar os auditórios em que proferia conferências.  Seus superiores, preocupados com suas ideias pouco ortodoxas, o forçaram a abandonar a cadeira do Instituto Católico de Paris e a retornar à China, numa espécie de exílio involuntário.

       Em Tien-Tsin, escreveu “O meio divino”. Em 1929, participou da descoberta de Sinantropo, e passou a se preocupar com a origem da espécie humana. Começou a redigir sua obra mais famosa, “O fenômeno humano”.

       Retornou a Paris em 1946. O Colégio da França lhe ofereceu uma cadeira. Ele pediu a Roma permissão de aceitá-la, bem como de publicar “O fenômeno humano”. Não conseguiu. No ano anterior havia escrito “O coração da matéria”, autobiografia intelectual e espiritual.

       Teilhard buscou a verdade nas pedras das montanhas e nos esqueletos dos ancestrais da espécie humana, confiante de que a evidência da verdade é filha do tempo. Censurado, calado, exilado, não abandonou suas pesquisas e escreveu convencido de que a posteridade lhe daria razão, tendo tido o cuidado de confiar os originais a parentes e amigos com liberdade de divulgar sua obra.
      
Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
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