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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE”

 


Leonardo Boff


Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos,  pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

taUm israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retrada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa  situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e  solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a  nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranqulas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega  supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horiconte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desparecendo por causa da  cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão  se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo.  É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação,  sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e  sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo viírus nem contaminar  os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é  também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.  

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecosistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com  relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas,  eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o  Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

PEDRO CASALDÁLIGA: DEUS PASSOU PELO BRASIL

                                               

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

Estive com Pedro Casaldáliga pessoalmente em duas ocasiões.  Na primeira, eu era estudante de graduação em teologia na PUC-Rio e um colega, estudante jesuíta, me disse:  Dom Pedro Casaldáliga está na PUC.  Corremos para vê-lo no auditório do RDC.  A impressão foi marca indelével que até hoje me acompanha.  A pequena estatura e o corpo magro ocupavam espaço estreito no grande auditório. Quando abriu a boca, aquele homem de compleição frágil agigantou-se e incendiou a sala inteira com sua voz de trovão e sua língua de profeta.  Saí ungida e comecei a buscar avidamente seus escritos e poesias para conhecê-lo melhor. 

Uma segunda vez encontrei-o em Itaici, em congresso de teologia promovido pelos Passionistas sobre a Cruz no mundo de hoje.  Pedro viera de ônibus, recusando a passagem de avião oferecida pelos organizadores. O moderador da mesa o apresentou relatando esse fato. Diante dos aplausos que se seguiram, o bispo fez um gesto para que aquilo cessasse. E disse: “Isso não tem nada de extraordinário. Deveria ser normal”.  Sua oratória de profeta calou fundo em um auditório sedento de verdade e de pathos teológico. 

Depois disso não mais o vi em pessoa, mas seguia-o sempre: quando foi a Roma para audiência com o então cardeal Ratzinger; quando a mídia filmava seus depoimentos, declarações e testemunhos; quando foi à Nicarágua acompanhar Miguel d´Escoto em sua greve de fome. Impressionava-me a radicalidade de sua vida impregnada de evangelho, seu amor profundo pelo Deus de Jesus, sua lucidez diante de uma realidade injusta e oprimida que ele tentava denunciar e transformar. 

Sua poesia sempre foi para mim profundamente inspiradora.  Em sua pessoa era visível  a síntese feliz e indissolúvel entre mística e política que sempre busquei em meu itinerário teológico e hoje ainda me alimenta em meu trabalho. Porém, um de seus poemas me acompanhou especialmente.  Trata-se de “Deus é Deus”, que uso frequentemente no início de cada curso sobre o Deus da Revelação que venho ensinando há quase quarenta anos. 

Ali o poeta e profeta busca dizer em versos quem é o  Deus que inspira e move sua vida.  E começa por seu próprio ofício de poeta: “Eu faço versos e creio em Deus; meus versos andam cheios de Deus como pulmões estão cheios de ar vivo”. Mas outros poetas, que Pedro humildemente reconhece fazerem versos melhores que os seus, como Drummond, não creem em Deus.  Deus não é somente a beleza.  Assim também o Che (Ernesto Che Guevara), figura muito admirada pelo bispo, deu a vida pelo povo, mas não via a Deus na montanha.  Deus não é apenas a Justiça. E Pedro afirma: “Não poderia conviver com os pobres se não topasse com Deus em seus farrapos, se não estivesse Deus como uma brasa queimando meu egoísmo lentamente”. 

O poeta se refere, em seguida, aos cantores que içam suas bandeiras e soltam a voz mas não referem seu canto a Deus. “Eu só sei cantar dando seu nome.  Deus não é somente a alegria”. Os sábios pesquisam e “caminham imperturbavelmente contra o rosto de Deus fazendo história, desvelando mistérios e perguntas”. Pedro reconhece humildemente: “Eu não seria capaz desses caminhos se não estivesse Deus como uma aurora rompendo minha  névoa e meu cansaço. Deus não é somente a verdade”.

Nesse poema, o bispo que durante sua vida teve um chapéu de vaqueiro como mitra, o anel de tucum e um calo nas mãos como anel episcopal e um bastão tosco como báculo, exprime quem não é seu Deus.  Não é nenhuma das mediações que lhe permitem experimentá-lo: a beleza, a justiça, a verdade, a alegria. O Deus que anima e move o bispo catalão, que dedicou boa parte de sua vida ao Brasil,  se revela como Mistério Santo que a tudo dá sentido. E Pedro termina o poema proclamando quem é seu Deus:  “Beleza sem ocaso, Verdade sem argumentos, Justiça sem retornos, Amor inesperado, Deus é Deus simplesmente!”

Neste momento, a Igreja do Brasil chora a partida de seu profeta e poeta, do pastor que confirmava esperanças e acendia vocações com o fogo de suas palavras e de sua vida. Enterrado ao lado dos pobres, em um obscuro cemitério da sua querida diocese São Félix do Araguaia, Pedro não será mais visto, ouvido, tocado por nós.  Mas suas palavras e sobretudo seu testemunho permanecem conosco para sempre. 

Em 1980, quando assassinaram Monsenhor Romero em El Salvador, Ignacio Ellacuria dele dizia: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.  Agora, nós, em lágrimas mas cheios de gratidão a Pedro e Àquele que o criou, o chamou e o enviou, dizemos: “Com Pedro Casaldáliga, Deus passou pelo Brasil”. Que essa certeza nos anime durante os tenebrosos momentos que o país vive agora.  Amém e obrigada por tudo Pedro. 

 --  Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

EM HOMENAGEM AOS INDÍGENAS MORTOS PELO COVID-19


Por Leonardo Boff


São muitos irmãos e irmãs nossos indígenas que estão morrendo por causa do Covid-19 e o descaso das políticas genocidas e etnocida do atual Governo.

Dedico-lhes este belo mito-estória dos povos amazônicos sobre o sentido da morte e da entrada na suprema Felicidade. Ela vale também para os familiares dos milhares de falecidos por causa do Coronavírus. Eles merecem a nossa solidariedade e também nossas palavras de consolo.

Sempre nos perguntamos: como as pessoas falecidas chegam ao céu? Há uma convicção entre os povos de que todos devem fazer uma viagem. Nessa viagem há provas a passar. Segundo este relato dos povos amazônicos, cada um deve se purificar, tornar-se leve para poder mergulhar para dentro daquele mundo de alegria e de festa onde estão tdos os antepassados e os parentes falecidos.

A nossa tristeza é que, por causa do descaso das atuais autoridades que desprezam e até odeiam os povos originários, muitos pajés estão morrendo, vítimas do Covid-19. Com eles desaparece uma inteira biblioteca de conhecimentos que eles herdaram, enriqueceram e sempre passam às novas gerações. Com sua morte há uma ruptura dolorosa dessa tradição. Eles e nós sofremos e ficamos mais pobres. A todos eles nossa profunda solidariedade e com-paixão, sofrendo também a dor que eles sofrem: LBoff

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Em muitas tribos da Amazônia acredita-se que os mortos se transformam em borboletas. Durante o tempo necessário para a purificação, cada qual ganha uma forma adequada. As que se purificam logo, são alvíssimas, com poucas horas de vida e com cores brancas. Penetram diretamente no mundo da felicidade.

As que precisam de mais tempo, são menores, leves e multicores. E as que precisam de muito tempo são maiores, pesadas e com cores escuras.

Todas elas voam de flor em flor, sugando nectar e fortalecendo-se para carregar o próprio peso ao se alçarem ao céu, onde viverão felizes com todos os antepassados e parentes que estão apenas no outro lado da vida. Conta-se naquela floresta a seguinte estória:

Coaciaba, era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi.

Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os colibris e outros insetos.

De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença, por velhice ou por causa de um vírus maligno da natureza. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la a passear. Mesmo pequena, só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia a ela e aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse a sua mãe.

De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia após dia até que também ela morreu. Os parentes ficaram muito penalizados, com tanta desgraça sobrevindo sobre a mesma família.

Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como a dos demais índios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

A mãe Coaciaba, cujo espírito fora, sim, transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás. Ao sugar o néctar, ouviu um chorinho triste e doce. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro dela   a vozinha da filha querida Guanambi. Como poderia estar aprisionada ai? Refez-se da emoção e disse:

-Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranquila que vou libertá-la para juntos voarmos para o céu.

Mas deu-se logo conta de que ela era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida. Recolheu-se, então, a um canto e, em lágrimas, suplicou ao Espírito criador e a todos os ancestrais da tribo:

-Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa de todos os parentes, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração da flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e a vós todos, anciãos de nossa tribo: transformem-me num passarinho veloz e ágil, dotado de um bico pontiagudo para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

Tanta foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criador e os anciãos da tribo atenderam, sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou com voz carregada de enternecimento:

-Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

Com o bico pontiagudo, foi tirando com cuidado pétala por pétala até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe.

Purificadas e abraçadas voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

Desde então se introduziu entre indígenas amazônicos, o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilás, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe, na forma de um beija-flor, venha buscá-la para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes com todos os antepassados e com todos os demais parentes.

Leonardo Boff reescreveu mitos-estórias de nossos povos indígenas: ”O casamento entre o céu e a Terra”, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

terça-feira, 18 de junho de 2019

GOVERNAR PELO MEDO


Frei Betto

       Esta é a hora dos avatares e arrivistas. Abaixo os políticos, e bem-vindos os que politicamente encarnam a antipolítica, como Bolsonaro no Brasil, Trump nos EUA, Macri na Argentina, Macron na França etc. Na Ucrânia, o comediante Volodymyr Zelenskiy, sem partido estruturado, se elegeu presidente com 73% dos votos.
       Uma poderosa máquina ideológica, favorável à privatização do Estado, induz o povo a não acreditar mais em políticos, partidos e no poder público. Agora, cada um por si e Deus por mim. Depois da satanização do socialismo, chegou a vez do repúdio à democracia liberal voltada à promoção da igualdade de direitos. Nem o pacto, que lançou as bases do Estado de bem-estar social, merece crédito.
       As desigualdades se aprofundam. E o sistema já não encara como problema, e sim como solução, os crescentes endividamento dos pobres e enriquecimento dos ricos.
       No filme “Batman – o cavaleiro das trevas”, o Coringa sugere: “Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente, e tudo se torna o caos. E sabe qual é a chave do caos? O medo!”
       O medo leva as pessoas a trocar a liberdade pela segurança. Os condomínios de ricos são verdadeiras penitenciárias de luxo. Os gastos com empresas de segurança, blindagem de veículos e equipamentos de controle são exorbitantes. E o governo se transforma em garoto-propaganda da indústria bélica.
       A paz, que todos almejamos, não virá como fruto da justiça, conforme propôs o profeta Isaías (32, 17), e sim do equilíbrio de forças. Comprem armas, inscrevam-se em academias de tiro, transformem suas casas em arsenal! Pátria armada, Brasil!
       Se o Estatuto do Desarmamento, como sinal amarelo para a posse e o porte de armas, não impede que bandidos possuam armas privativas das Forças Armadas, é fácil imaginar o que ocorrerá com o sinal verde. O Brasil, campeão mundial de homicídios, com mais de 60 mil assassinatos por ano, recebe agora incentivo estatal para o comércio de armas. E em nenhum momento o governo se pergunta pelas causas de tamanha violência. Combater seus efeitos equivale a tentar apagar incêndio com gasolina. Como dizia Darcy Ribeiro, quanto menos escolas, mais cadeias.
       Muitas são as propostas para cortar gastos do governo, coroadas pela “miraculosa” reforma da Previdência. E nada de medidas para arrecadar mais, como o imposto progressivo. Entre 2013 e 2016 a arrecadação caiu 13%.
       O governo nem cogita suprimir o pacote de bondades à turma do andar de cima – isenções, subsídios, créditos facilitados, anistias fiscais etc. Em 2003, as benesses do governo aos mais ricos equivaliam a 3% do PIB. Em 2017, 5,4%. As isenções tributárias equivaliam a 2% do PIB em 2003. Em 2017, 4,1%. Os subsídios financeiros e creditícios correspondiam a 1% do PIB em 2003. Em 2017, 1,3%. Se o Brasil retornasse aos índices de 2003 nos itens acima haveria uma economia de 2,4% do PIB ao ano. Ou 24% do PIB em 10 anos, ou seja, R$ 1,6 trilhão em 2018, valor 60% superior ao que o ministro Guedes ambiciona com a reforma da Previdência.
       Segundo Fagnani e Rossi (2018), gastos de 1% do PIB com educação e saúde gerariam, respectivamente, crescimento de 1,85% na educação e 1,7% na saúde. No Bolsa Família e na Previdência cada 1% do PIB de investimento a mais eleva a renda das famílias em 2,25% (Bolsa Família) e 2,11% (Previdência).
       Não é no grito que se governa uma nação e se promove o desenvolvimento. Isso exige algo que muitos eleitos não querem e não sabem fazer: política. A arte de buscar consenso e erradicar as causas dos mais graves problemas. Mas isso não é para amadores.

Frei Betto é escritor, autor de “Fé e afeto – espiritualidade em tempos de crise” (Vozes), entre outros livros.  
Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

A GRAÇA DA CASTIDADE E A IMPOSIÇÃO DO CELIBATO PELO DIREITO CANÔNICO

Por Juracy Andrade



Nos primeiros dez séculos da Igreja, os padres e bispos não eram obrigados a se abster do casamento. Lembro isso ao eclodir mais um escândalo de pedofilia, de que é acusado o cardeal australiano George Pell, atualmente tesoureiro do Vaticano. Ele nega veementemente a acusação e vai comparecer à polícia em sua terra. Disse que o papa Francisco lhe concedeu licença para defender-se. A obrigação jurídica do celibato sem a graça, o carisma, da castidade é uma aberração.

O horror ao sexo que tomou conta do cristianismo, fazendo com que Tomás de Aquino, mesmo antes de se tornar monge, pegasse um tição a saísse correndo atrás de uma mocinha que se ofereceu a ele, tomou desvios estranhos.

 Aparentemente, boa parte do clero diocesano e religiosos concluiu que o sexo só seria pecado entre homem e mulher, o que abre caminho a uma ampla prática da pedofilia. Tal prática acentuou-se aqui no nosso país desde que o Concílio de Trento (Contrarreforma) implantou-se por estas bandas. Antes, padres e frades eram verdadeiros patriarcas, com suas amásias que chamavam de comadres para evitar falatório. Com o tempo, liberaram geral e conventos foram se despovoando, o que levou a uma restauração sobretudo das ordens beneditina e franciscana, através de monges mais disciplinados importados da Alemanha. Essa história de São Tomás lembra O nome da rosa, de Umberto Eco, com aquela passagem da pobre camponesa em busca de comida e aproveitando para traçar um noviço (com os monges mais velhos a comilança era generalizada).

Ainda hoje, sabemos, o celibato não é exigido em muitas igrejas orientais. Em algumas, o padre tem de casar antes da ordenação e não pode chegar a bispo. 

Houve tentativas de exigir o celibato em concílios como os de Elvira e Niceia (século 4º). Mas a exigência só foi oficializada, pelo papa Gregório 7º, em 1073. Ele foi longe, considerando herético o matrimônio de sacerdotes porque isso os distrairia do serviço de Deus e contrariava o exemplo de Jesus Cristo. Mas há outra interpretação para essa proibição, segundo vários historiadores: era um meio de evitar que as heranças de sacerdotes e bispos fossem para as mãos de seus filhos e viúvas, em vez de ir para a posse da Igreja. Anos mais tarde, o 1º Concílio de Latrão decretou a invalidade do casamento de clérigos, que foi reforçada pelo 2º Concílio de Latrão.

Deseja uma grande quantidade de cristãos católicos que o papa Francisco, com sua nova visão dos problemas que afetam a Igreja, encaminhe providências para uma revisão, talvez lenta devido aos conservadores, da legislação canônica sobre o celibato clerical. As crianças abusadas sexualmente agradecem. E o carisma da castidade será preservado, sem direito canônico.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 3 de maio de 2017

NO BRASIL, MASSACRES DE LATIFUNDIÁRIOS CONTRA POSSEIROS. PELO MUNDO, VIOLÊNCIA EM NOME DE DEUS


 por Juracy Andrade



“Nenhum camponês sem terra, nenhuma família sem casa, nenhum trabalhador sem direitos” disse o papa Francisco em sua visita à Bolívia, terra de vários povos indígenas que somente agora estão sendo resgatados de plurissecular omissão e exploração dos que se consideram brancos e cristãos. Do lado de cá da fronteira, o governo golpista de Michel Miguel prepara o bote final nos povos indígenas, desmontando a Funai e seu privilégio constitucional de demarcar e homologar terras indígenas. E os grileiros avançam nas terras indígenas e assentamentos de homens do campo.

Recentemente, nove trabalhadores rurais foram mutilados e assassinados, a mando de fazendeiros, no norte do Mato Grosso. Já são cerca de 60 mil mortes violentas por ano. Um dos assassinados em Taquaruçu do Norte (MT) ainda estava com um machado cravado nas costas quando jornalistas conseguiram chegar à remota localidade. É uma luta longa e violenta que, sob o atual desgoverno, tende a se intensificar, sem nenhum respeito a direitos adquiridos, como no caso dos trabalhadores em geral, que estão perdendo até o direito à aposentadoria. Um escândalo que não repercute muito pelo mundo, pois o que os países ricos querem é um Brasil submisso, como nos tempos de Fernando 2º (FHC) e companhia. E não é que o sociólogo sem alunos saiu do armário golpista?

O tema praticamente desapareceu da imprensa. E o desgoverno pouco está ligando para os desmandos do agronegócio, que incluem roubo de terras, assassinatos, desmatamento ilegal, destruição ambiental. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, contabiliza os desmandos e atrocidades. Que prosseguirão inevitáveis. Em 2004, 185 famílias que cultivavam terras naquela área foram expulsas e a pressão continua sobre quem ficou, centenas de pessoas. A impunidade faz com que os latifundiários e grileiros continuem sem temor. A polícia não age.

Voltando a Francisco, um papa realmente cristão, mais uma vez condenou, em recente visita ao Egito, a violência cometida “em nome de Deus”. Referia-se a atentados contra a minoria cristã daquele país, que conviveu em paz com os muçulmanos por séculos. O ideal do papa e de muitos muçulmanos pacifistas é que as religiões convivam numa boa, sem atritos, ofensas e principalmente sem a violência que explode ultimamente no terrorismo. Terrorismo, aliás, que começou com os ataques dos Cruzados aos islamitas na Terra Santa, prosseguiu com a colonização e, hoje, com os interesses petrolíferos.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

POR QUE FIZEMOS OPÇÃO PELOS POBRES (E ELES PELO NEOPENTECOSTALISMO)?



por Frei Betto*



           Há quem diga que a Igreja Católica optou pelos pobres e os pobres, pelas Igrejas evangélicas. Isso tem certa dose de verdade se considerarmos os índices que demonstram que, nos últimos anos, houve diminuição do número de católicos no Brasil e aumento de protestantes (adeptos das Igrejas históricas) e evangélicos (adeptos das Igrejas pentecostais e neopentecostais).
           No censo de 2000, 73,6% da população era formada por católicos, e apenas 15,4% de protestantes e evangélicos. No censo de 2010, os católicos representavam 64,6% e os protestantes e evangélicos, 22,2%. Em dez anos, o número de protestantes e evangélicos no país aumentou 61,45%. Hoje eles são 42,3 milhões. Em 1970, eram 4,8 milhões (5,2% da população). Estima-se que, a cada ano, são abertos, no Brasil, 14 mil novos templos evangélicos.
           Os evangélicos se dividem em Igrejas protestantes tradicionais ou históricas (luterana, presbiteriana, batista, anglicana, metodista etc.); pentecostais (Assembleia de Deus, Presbiteriana Renovada etc.); e neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça de Deus etc.). A maioria dos neopentecostais se encontra nas periferias das cidades, e 63,7% recebem por mês no máximo um salário mínimo. Daí o interesse pela Teologia da Prosperidade, que propõe uma ética que transforma em valor religioso a ascensão social dentro da mobilidade urbana.

Pedagogias apostólicas
          
           Enquanto a pregação católica centra-se no dogmatismo (no que se deve crer), a neopentecostal está focada no pragmatismo (o caráter utilitário da fé para se alcançar benefícios, desde emprego até a cura de doenças). Daí o lema adotado pela principal Igreja neopentecostal, a Universal do Reino de Deus – “Pare de sofrer”. É uma pregação muito colada na autoajuda.
           A que se deve tal fenômeno? Há várias hipóteses. Uma delas é explicada pela coincidência entre a urbanização brasileira, na virada dos séculos XIX para o XX, e a disseminação de Igrejas evangélicas. O êxodo rural, a urbanização desordenada, a quebra de vínculos familiares tradicionais, o inchamento das periferias e a massificação dos meios de comunicação, são fatores que estão na origem da explosão evangélica.
           Mais recentemente há que considerar os 34 anos de pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI, que inibiram, na esfera católica, a Igreja dos Pobres, às vezes duramente reprimida, bem como o seu fundamento teórico, a Teologia da Libertação. No entanto, jamais foram condenados.
           Católicos das periferias urbanas e rurais que não se sentiam mais acolhidos em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais populares trataram de migrar para os espaços evangélicos. E o fizeram por duas razões básicas: a ânsia de encontrar possíveis soluções para seus problemas crônicos (enfermidades, desemprego, carência de identidade nos grandes centros metropolitanos etc.), e o mal-estar quando chamados a frequentar os templos católicos, predominantemente ocupados pela classe média, e no qual reina o clericalismo.
           As Igrejas evangélicas adotam um modelo pastoral já qualificado de “canibal”. Instaladas em antigas salas de cinema ou garagens, elas abrem, diretamente nas calçadas, sua bocarra faminta de fiéis... Para tais Igrejas, o espaço físico religioso não exige necessariamente construção de templos. Qualquer sala ou galpão pode ser transformado em local de culto. E muitos templos mantêm as suas portas abertas 24 horas por dia, o que é impensável em se tratando de templos católicos. Ao se chegar em certos templos evangélicos em plena madrugada é possível ser recebido por um obreiro que dedica especial atenção ao fiel em potencial. Em uma paróquia católica não é fácil ser atendido por um sacerdote, ainda que no período vespertino.
           Nos cultos evangélicos há participação de fiéis. Adota-se uma espiritualidade “personalizada”, predestinadora, sem dimensão social. O que fascina é o Deus da misericórdia que cura, conforta, perdoa, ajuda a obter emprego, traz prosperidade e une a família. Deus que liberta o fiel dos vícios, do adultério, do pecado, enfim, das garras do diabo... Espiritualidade que penetra fundo no coração e no bolso do fiel... Nesse mundo de perdição, a Igreja desponta como uma ilha de salvação individual, na qual cada fiel se sente um eleito do Senhor. E se demonstra vocação para a música, seja o canto, seja o domínio de um instrumento musical, o fiel é valorizado pela comunidade religiosa.
           Já na Igreja Católica, muitos entraves dificultam a adesão dos mais pobres. Reina o clericalismo, quase tudo é centrado na figura patriarcal do sacerdote, e as mulheres participam como meras figurantes. Não há mulheres diáconas nem sacerdotes, quanto mais revestidas de caráter episcopal.
           As liturgias católicas são asfixiadas pelas rubricas canônicas que entravam a improvisação, a dança, a participação dos fiéis, os rituais de bênçãos e curas. Nossos fiéis não passam necessariamente por escolas bíblicas e nem têm o hábito de ler e meditar as sagradas escrituras. Quase toda a aproximação com a Bíblia se resume em leituras litúrgicas seguidas de sermões que raramente fazem exegese do texto e, quando o fazem, ela não está ao alcance do nível cultural dos fiéis.
           Os templos e capelas católicos não contam com obreiros ou agentes pastorais que, a qualquer hora do dia ou da noite, estão dispostos a atender quem os procura e preparados para acolher o bêbado, a mulher agredida pelo marido, o desempregado tomado pelo desespero, o endividado submerso na angústia, a moça aflita pela gravidez inesperada e indesejada...
           E por vezes utilizamos uma linguagem demasiadamente politizada ou meramente moralista, sem corresponder à fome de sacralidade do fiel, de mística, de sentir-se acolhido pela misericórdia de Deus e pela Igreja como família ou comunidade religiosa.

Conservadorismo

           Desde que os evangélicos despontaram no Brasil, em fins do século XIX, se caracterizaram por uma postura conservadora impulsionada pela leitura fundamentalista da Bíblia e pelo puritanismo. Basta conferir o alinhamento da maioria das Igrejas protestantes e evangélicas à ditadura militar (1964-1985), embora alguns de seus fiéis figurem como mártires e confessores da resistência democrática, como os irmãos Paulo e Jaime Wright, e os pastores Jether Ramalho e Anivaldo Padilha.
           Embora haja, hoje em dia, segmentos evangélicos abertos ao ecumenismo e, inclusive, à Teologia da Libertação, o que ainda predomina é o conservadorismo teológico e político. Nesse início de século XXI, o alvo do fundamentalismo evangélico são as políticas de direitos humanos e gênero.
           Há que destacar o avanço das Igrejas evangélicas no uso dos meios de comunicação, criando figuras midiáticas de forte apelo popular, como Silas Malafaia, R. R. Soares e Edir Macedo. A compra da Rede Record, TV aberta, em 1989, pela Igreja Universal, causa um forte impacto na formação da opinião pública nacional. E o mercado fonográfico “gospel” gera a maior arrecadação da indústria musical brasileira, em torno de R$ 500 milhões por ano. E o editorial, R$ 483 milhões por ano.
           Já a Igreja Católica lida com a mídia sem o devido profissionalismo, sobretudo na esfera imagética, como TV e internet. O máximo de audiência obtida pelos católicos se restringe ao sucesso dos padres cantores, como Marcelo Rossi, Fábio de Melo, Reginaldo Manzotti e outros.
           É preciso também destacar os segmentos evangélicos progressistas, como a Renas (Rede Evangélica Nacional de Ação Social), criada no Rio em 2006, e que congrega fiéis das Igrejas Batista, Assembleia de Deus, Anglicana e Luterana. Os membros da Renas são críticos ao discurso e à prática conservadores da bancada evangélica no Congresso, contrários à redução da maioridade penal e favoráveis ao diálogo com religiões de matriz africana, ao debate sobre a descriminalização do aborto e à união civil e religiosa de casais homossexuais. (Cf. O Globo, 19.09.2015, p. 26).
          
Rumo à direita

           Em outubro de 2013, pesquisa do DataFolha comprovou que a maioria dos brasileiros se identifica com valores de direita. Este retrato se revelou quando se indagou a respeito de questões como pena de morte e papel dos sindicatos. Dos entrevistados, 38% foram classificados como de centro-direita, 26% de centro-esquerda, 22% de centro, 11% de direita e 4% de esquerda.
           A tendência à direita é reforçada por muitas Igrejas evangélicas indiferentes à moral social e defensoras do livre mercado. Elas se posicionam contra o aborto e o controle da natalidade; são favoráveis ao tratamento psicológico de homossexuais, e consideram que a democracia é plenamente compatível com os parâmetros do capitalismo. Advogam o Estado mínimo e, em nome da “salvação da família”, a criminalização dos movimentos civis por direitos sociais.
           Conforme análise da teóloga protestante Magali do Nascimento Cunha, a bancada evangélica não cresceu tão significativamente, como se propagou, nas eleições de 2014. O discurso homofóbico em defesa da família e contra o comunismo não foi suficiente para atrair os votos que esperava.
           Segundo o DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), o número de parlamentares evangélicos na Câmara dos Deputados não sofreu alteração significativa nas eleições de 2014. Estimava-se que chegaria a uma bancada de 100 eleitos (crescimento de 30%), tendo em vista o aumento de 20% alcançado nos pleitos  anteriores. Foram eleitos 72 parlamentares. Em 2010, elegeram-se 66 para o Congresso Nacional, entre deputados federais e senadores.
           Estimava-se que nomes de projeção nacional, como o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), atualmente acusado de estupro, recebessem ao menos 1 milhão de votos. Um de seus mais fortes cabos eleitorais, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, chegou a declarar: “Se o Feliciano tiver menos de 400 mil votos na próxima eleição, eu estou mudando de nome.” E ironizou a reação dos movimentos sociais quando Feliciano ocupou a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara: “Quero agradecer ao movimento gay. Quanto mais tempo perderem com o Feliciano, maior será a bancada evangélica em 2014.” Malafaia deveria cumprir a promessa: Feliciano teve, na eleição de 2014, 398.087 votos.
           O PSC acreditou tanto no êxito eleitoral de seus candidatos que lançou o Pastor Everaldo  candidato a presidente da República.

Marina Silva e Pastor Everaldo

           Os evangélicos apresentaram, nas eleições de 2014, dois candidatos a presidente: Marina Silva e o Pastor Everaldo, ambos da Assembleia de Deus.
           Marina Silva se destacou a partir da morte inesperada de Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB, de quem era vice. Isso esvaziou a candidatura do Pastor Everaldo, pois os evangélicos, embora não sejam aliados de Marina Silva, somaram forças em torno dela movidos pelo antipetismo. Contudo, ela não alcançou o segundo turno, figurando em terceiro lugar entre os candidatos. Comparado à eleição de 2010, quando também concorreu ao mesmo cargo, houve aumento de 2% no número de votos que lhe foram dados: de 19% para 21%. Pressionada por lideranças evangélicas, Marina apresentou constantes mudanças de discurso, o que provocou a perda de confiança de muitos de seus eleitores.
           Já o Pastor Everaldo teve pouco mais de 780 mil votos, e ficou atrás da candidata de esquerda Luciana Genro (PSOL-RS), que obteve 1,6 milhão de votos.
           O que surpreendeu a muitos foi o apoio de Marina Silva, no segundo turno, à candidatura do oposicionista Aécio Neves (PSDB). O pragmatismo superou os princípios.

A servidão voluntária
          
           La Boétie publicou, em 1576, o Discurso da servidão voluntária, texto no qual analisa esse estranho fenômeno que faz certas pessoas abdicarem de sua autonomia para pensar pela cabeça alheia e agir segundo o seu mestre mandar.
           Ocorre em todos os âmbitos, desde a mulher que se deixa subjugar pelo marido ao funcionário que jamais questiona as ordens do chefe. Aliás, os criminosos nazistas e os torturadores brasileiros que chegaram às barras dos tribunais alegaram, em sua defesa, o cínico argumento: “Cumpríamos ordens”.
           Outro dia, perguntei a uma senhora a quem dará seu voto para prefeito. “Naquele que Deus mandar”, respondeu. Espantei-me e, confesso, com uma ponta de inveja. Sempre quis saber a vontade de Deus quanto aos meus passos na vida. Tenho uma fé entremeada de incertezas.
           Sei, porém, que Deus é Pai (e também Mãe, lembrou o papa João Paulo I), mas não é paternalista. Como reza Gilberto Gil, deu-me régua e compasso e, o caminho, eu mesmo traço. Isso se chama livre arbítrio.
           Aquela senhora, entretanto, dava mostras de ter merecido um canal direto com Deus. E mais: um Deus cabo eleitoral na acirrada disputa das eleições municipais.
           “Como a senhora saberá quem é o candidato preferido de Deus?”, indaguei. Ela retrucou candidamente: “O pastor dirá. Ele é a voz de Deus.”
           Meu Deus!, reagi intimamente. Confundir a função de padre, bispo ou papa, com a vontade de Deus, é uma das mais aberrantes artimanhas para favorecer o fundamentalismo e suscitar a servidão voluntária. Vide o que os terroristas islâmicos fazem em nome de Maomé! 
           O mais curioso é que nem ateus escaparam disso. Basta ler O homem que amava os cachorros (Boitempo), de Leonardo Padura. Em nome da Causa, encarnada na vontade inquestionável de Stálin, Ramón Mercader sacrificou a sua vida para assassinar Trotski.
           Aliás, quase todos os líderes, sejam eles políticos, religiosos ou empresariais, preferem que seus subordinados abdiquem da consciência crítica. E ainda que tenham opinião diferente, tratem de omiti-la. O peixe morre pela boca...
           Daí o fenômeno degradante da humilhação voluntária. Para não perder prestígio, manter a função ou se julgar bem vistos aos olhos do chefe, muitos abaixam a cabeça e exibem os fundilhos... E qualquer crítica é tida como desvio ideológico, heresia, conspiração ou traição.
           Volto à canção de Gil. Na esfera cristã, a régua é a Bíblia e, o compasso, a prática de Jesus. Ele atuou em defesa dos direitos dos pobres e excluídos. Denunciou os opressores e “despediu os ricos com as mãos vazias”. Realizou a partilha dos pães e dos peixes, e “saciou de bens os famintos”.
           Todos que se consideram seus discípulos, e acreditam que ele agia segundo a vontade de Deus, deveriam, portanto, agir como ele, inclusive ao votar. Os critérios evangélicos são óbvios para quem tem olhos para ver e orelhas para ouvir.
           O resto é demagogia e tentativa de perpetuar a servidão estrutural daqueles que, fora do mercado, não merecem dignidade nem salvação.

Papel da mídia     

           Todo este processo tem a cumplicidade da grande mídia, historicamente alinhada aos valores e políticas conservadoras. De certo modo, programas de rádio e TV monitorados por pastores evangélicos fortalecem a legitimação dostatus quo, razão pela qual são apoiados pelos donos do capital. A estes não interessa a agenda dos movimentos sociais nem a ampliação das conquistas em prol dos direitos humanos.
           Esta postagem de um pastor evangélico no Facebook reflete bem o espírito de cruzada de certas Igrejas: "Devemos nos unir cada vez mais, já somos milhões de evangélicos no Brasil, fora os simpatizantes. Temos força, é claro que nossa força vem de Deus. Precisamos nos mobilizar contra as forças das trevas, que querem desvirtuar os bons costumes e a moral e, principalmente que querem afetar a honra da família. Se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar e orar, não tem capeta que resista."

O ovo da serpente
          
           Em resumo: é preocupante a confessionalização da política. Na eleição de Dilma, o tema religião ganhou mais relevância que programas de governo. Na de prefeito à capital paulista, em 2012, pastores e bispos se conflitaram, e padre Marcelo Rossi virou ícone político. E, no Rio, o candidato Crivella teve o seu passado fundamentalista denunciado com base em seus próprios escritos, onde demoniza o catolicismo e as religiões de origem africana.
           A modernidade separou Estado e Igreja. Agora o estado é laico. Portanto, não pode ser pautado por uma determinada crença religiosa. Todas têm direito a difundir sua mensagem e promover manifestações públicas, desde que respeitados aqueles que não creem ou pensam de modo diferente.
           O Estado deve estar a serviço de todos os cidadãos, crente e não crentes, sem se deixar manipular por esta Igreja ou aquela denominação religiosa.
           O passado do Ocidente comprova que mesclar poder religioso e poder político é reforçar o fundamentalismo e, em suas águas turvas, o preconceito, a discriminação e, inclusive, a exclusão (Inquisição, “heresias” etc.). Ainda hoje, no Oriente Médio, a sobreposição de doutrina religiosa em certos países produz políticas obscurantistas.
           Temo que também no Brasil esteja sendo chocado o ovo da serpente. Denominações religiosas apontam seus pastores a cargos eletivos; bancadas religiosas se constituem em casas legislativas; fiéis são mobilizados segundo o diapasão da luta do bem contra o mal; Igrejas se identificam com partidos; amplos espaços da mídia são ocupados pelo proselitismo religioso.
           Algo de perigoso não estaria sendo gestado? Já não importa a luta de classes nem seus contornos ideológicos. Já não importa a fidelidade ao programa do partido. Importa a crença, a fidelidade a uma determinada doutrina ou líderes religiosos, a “servidão voluntária” à fé que mobiliza corações e mentes.
           O que seria de um Brasil cujo Congresso Nacional fosse dominado por legisladores que aprovariam leis, não em benefício do conjunto da população, e sim, para enquadrar todos sob a égide de uma doutrina confessional, tenham ou não fé nessa doutrina?
           Sabemos que nenhuma lei pode forçar um cidadão a abraçar tal princípio religioso. Mas a lei pode obrigá-lo a se submeter a um procedimento que contraria a razão e a ciência, e só faz sentido à luz de um princípio religioso, como proibir transfusão de sangue ou o uso de preservativo.
           Não nos iludamos: a história não segue em movimento linear. Por vezes, retrocede. E aquilo que foi ainda será se não lograrmos predominar a concepção de que o amor – que não conhece barreiras e “tudo tolera”, como diz o apóstolo Paulo – deve sempre prevalecer sobre a fé.
           Se nós, católicos, pretendemos atrair os pobres aos nossos templos e comunidades só nos resta um caminho: evitar qualquer combate às Igrejas evangélicas, como estigmatizá-las com a pecha de “seitas”; dialogar ecumenicamente com seus fiéis e pastores; recriar espaços pastorais nos quais os pobres se sintam em casa, como outrora nas CEBs e na Pastoral Operária; adaptar a liturgia católica aos paradigmas culturais populares; e, sobretudo, em nome da fé em Jesus nos colocarmos a serviço da erradicação da pobreza e de suas causas.

*Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.



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